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Dira Paes: No sul do Par√°, n√£o se toma mais tacac√°. - O Dia



07/07/2011

Jornal O DIA

" No sul do Pará, não se toma mais tacacá."

Jornal O DIA, 07/07/2011

Imagine um Brasil descoberto há 500 anos. Pois esse Brasil existe e resiste, e fica logo ali em cima, na Amazônia. O Pará é um dos Estados que compõe a bacia amazônica, uma das maiores riquezas ambientais do planeta. Tem características únicas de suas tradições indígenas presentes no cotidiano do paraense, como tomar um tacacá depois da chuva. Em poucos anos vamos ter todos olhares do mundo voltados para o norte do Brasil, além do ecosistema amazônico, grande parte da água doce do planeta está lá. O Pará encontra-se estrategicamente colocado , na rota de crimes que nos remetem à época da chegada dos colonizadores. A ganância pela terra, a degradação do todo um ecosistema, o trabalho escravo, a pirataria, e pasmem o tráfico humano, estão dilacerando um Brasil dos mais remotos. Devido a sua localização geograficamente privilegiada, com sua imensa rede rodofluvial, os grandes portos paraenses conectam-se com o Atlântico, assim como a BR316, a transbrasiliana, por onde escoam crimes que afetam a todos nós , sem que sequer tenhamos notícias oficiais da dimensão desse conflitos. 

Esta semana foi entregue a Ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, uma lista da CPT( Comissão Pastoral Da Terra), que contém nomes de1885 ameaçados de morte em conflitos agrários no país. Também esta semana, foi entregue em mãos pelo MHUD( Movimento Humanos Direitos), ONG da qual faço parte,`a Ministra Maria do Rosário, um video com cerca de 30 depoimentos de artistas e civis, mobilizados em prol dos ameaçados de morte que lutam em favor dos direitos humanos, `a terra, ao meio ambiente e contra a pedofilia. Entre os presentes estavam: D. Maria Joel, líder sindical dos trabalhadores rurais de Rondon do Pará, ameaçada de morte, sendo o próximo nome de uma lista macabra que circula na região. Após o assassinato de Dezinho, em sua casa, diante dos seus olhos e de sua filha, assumiu bravamente o lugar do marido na luta pelos direitos dos trabalhadores do campo. Assim como Dom José Azcona, Bispo do Marajó, e a Irmã Marie Henriqueta, que são perseguidos e ameaçados, por denunciarem e combaterem casos comprovados de pedofilia e desaparecimento de jovens, como aconteceu na comunidade de Caruaru, a vinte horas de barco de Soure, no Marajó. Em sua maioria mulheres levadas para as Guianas, vendidas como escravas sexuais. Ao ser indagada se tinha medo de morrer, D. Maria Joel, respira fundo e diz: "...Tenho sim, eu tenho medo de morrer. Mas é justamente isso que mantém viva.".

Precisamos que o governo combata esses crimes. Que sejam não só denunciados, mas que sejam julgados e condenados. Estamos falando dos próximos  dessa famigerada lista, sem falar nos que já tiveram seus nomes riscados dela, ou seja, mortos. Na maioria dos casos, as vítimas sabem quem são os seus algozes. 

Esses heróis contemporâneos arriscam suas vidas pela comunidade, para garantir o mínimo de dignidade a uma população que  tem seus direitos  omitidos pelo poder público. A falta de cidadania impera. O Brasil se organiza e levanta uma fortuna para construir a 3a maior obra da engenharia civil no mundo, a hidroelétrica de Belo Monte em pleno rio Xingu, e não se garante a mínima de ter todas as crianças na escola, como lhes é de direito. Nos próximos anos, vamos abrigar uma Copa do Mundo e as Olimpíadas. A preparação para viabilizar a realização de ambas, levará anos e milhões de reais. Porque não agir agora, gastando anos e milhões de reais para  garantir uma nova geração, plena de cidadania.

Quando se degrada um comunidade, se descaracteriza a cultura de um povo como um todo. o Pará está sendo devorado pela ambição desmedida e pela impunidade. Que contrasenso, o estado que abriga as grandes empresas de minas e energia, que garantem uma grande fatia do PIB(produto interno bruto), é o estado que mais sofre com o saqueamento da sua biodiversidade e a degradação humana. No sul do Pará, não se toma mais tacacá, ninguém mais vê a chuva passar, ninguém mais toma banho de cheiro, para ir para o carimbó dançar.

Dira Paes
Atriz



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