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SDH entrevista: Camila Pitanga, Cristina Pereira, Dira Paes, LetĂ­cia Sabatella e Priscila Camargo



21/10/2010

MHuD: uma história de luta coletiva

O Movimento Humanos Direitos (MHuD) é um grupo de sociedade civil que realiza projetos e programas de proteção e defesa dos Direitos Humanos. Parceiro da Revista Direitos Humanos desde a edição inaugural, o MHuD reúne militantes com trajetórias profissionais variadas – atores, produtores, fotógrafos, professores e outros – e tem como propósito fortalecer o espírito de cidadania na sociedade brasileira. O grupo age em cooperação com outras organizações, promove e incentiva o debate público e a reflexão sobre o tema dos direitos fundamentais. Suas ações concentram-se em quatro eixos prioritários: erradicação tanto do trabalho escravo quanto do trabalho infantil, demarcação das terras indígenas e dos territórios quilombolas e promoção do socioambientalismo no País.

Entrevista realizada pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República com atrizes integrantes do Movimento Humanos Direitos: Priscila Camargo, Letícia Sabatella, Camila Pitanga, Cristina Pereira e Dira Paes. Publicada originalmente na edição número 7 da Revista Direitos Humanos, de dezembro de 2010. Participaram como entrevistadores o ministro Paulo Vannuchi e os jornalistas Thais Herdy, Milena Rego e Marcelo Salles.


Vocês são artistas com histórias diferentes, mas tem uma coisa em comum que é o fato de que em algum momento da vida decidiram exercer um papel social, de militância. Essa não é uma postura cobrada em seu ambiente de trabalho e não há um movimento na sociedade que exija isso. Então, por que vocês decidiram agir dessa forma em suas vidas?

 

Priscila Camargo -Eu tenho 55 anos e quando eu tinha de 17 para 18, fazendo cursinho para medicina, eu comecei a descobrir que a gente estava vivendo uma ditadura. A partir daí, eu não queria mais nem aprender inglês. Mudei para o francês porque não queria nem aprender a língua desse país imperialista. Quando eu me dei conta da questão política, comecei a reagir e achar que o mundo se consertaria através da política. Aí comecei uma grande militância. Não fui médica, fui ser artista e descobri que era mesmo o meu caminho. Fui uma das fundadoras do PT aqui no Rio, depois fui do Partido Comunista, me casei com um exilado político. Até que chegou um dia em que sofri um grande acidente de carro, quase morri. Aí dei um tempo da política, porque comecei a achar que a gente tinha, na verdade, que se melhorar como pessoa, que se conhecer, que a gente não ia consertar o mundo só através da política. Hoje eu penso que são dois caminhos, um caminho da melhora do ser humano e o da política. Ou seja, você colocar a sua maneira de ser, o seu crescimento, aquilo que melhorou você como pessoa em todas as áreas da sua vida. É um grande esforço ser militante, porque você deixa de ter um tempo seu, de lazer, de estudo, para dedicar aos outros. A gente começa a achar que tem que fazer alguma coisa pelos outros, porque não dá para ser feliz sozinho. Eu moro em Santa Teresa e, do outro lado, fica o Morro dos Prazeres, onde morreram várias pessoas nos deslizamentos por causa das chuvas de abril no Rio. Minha secretária, que é uma pessoa que eu amo, perdeu uma cunhada, o irmão e mais dois filhos. Como é que você vai fazer de conta que não viu? Então eu trouxe essa situação para o MHuD e nós fomos lá, levamos flores, levamos doações, demos algumas possibilidades de trabalho, como carrinho de churrasco, de cachorro quente, para ajudar algumas pessoas a sair do sufoco. Ajudamos com terapia e fisioterapia. Penso que isso é uma função do artista, porque isso é uma função do ser humano. A gente tem obrigação de ajudar, de ser solidário. E como artista, ainda mais, porque a gente tem um “certo poder”. Eu entrei no MHuD por conta da questão indígena. Em 2006, fiz amizade com várias aldeias indígenas, por conta de um espetáculo que eu tenho sobre nossas origens. Eu fiz muita amizade com uma aldeia de Angra dos Reis, que depois veio para Camboinhas (Niterói). A aldeia começou a ser construída e em julho de 2008 colocaram fogo no local. A primeira pessoa que eles chamaram fui eu. Acionei a imprensa, fui para lá e chamei o MHuD. As pessoas foram para lá e o que a gente fez ali teve repercussão internacional. Eles estão lá até hoje e estão felizes. É claro que as condições são sempre precárias, a questão indígena é sempre muito mais complexa do que isso, mas a nossa ação deu resultado. A nossa ação no Morro dos Prazeres também. Isso é uma grande alegria, fazer um esforço pra ajudar naquilo em que a gente pode e ver algum resultado, ver que está conseguindo fazer uma diferença.

 

Camila Pitanga - Eu sou filha do Antônio Pitanga, que é ator, um grande cidadão, um homem que sempre ficou nessa corda bamba entre ter sua profissão, sua carreira e ao mesmo tempo exercer sua função social. Eu não sei se eu concordo plenamente com minha colega de que necessariamente o ator deva exercer a sua função social. Eu acho que é de escolha de cada um porque eu acho que o ator não tem uma função diferente do médico, do funcionário público. Acho que é da sensibilidade do ser humano se engajar ou não se engajar. Porque às vezes não é nem por uma questão de crença, às vezes a pessoa tem limite de tempo, de demanda familiar. Então eu não sei se é necessariamente uma função do ator, mas é uma escolha minha e eu acho que muito por conta da postura do meu pai, que se casou com a Benedita (da Silva), que também é uma referência muito forte na minha vida. Acho que tive bons encontros ao longo da minha vida, o padre Ricardo Rezende é um deles. Nesse sentido, para mim faz sentido unir as duas coisas. É sempre um esforço, mas faz sentido. Eu sempre tive próximo de mim pessoas como a Cristina Pereira, o Paulo Betti, a Lucélia Santos, que são referências. São atores que sempre se colocaram disponíveis para pensar no outro, para oferecer sua visibilidade, para se engajar politicamente, cada um a sua maneira. A Bete Mendes já foi política, meu pai já exerceu um mandato. Faz sentido pra mim dividir o meu tempo, às vezes mais, às vezes menos.

 

Por que faz sentido?

Camila Pitanga - Faz sentido porque me dói ver as desigualdades em nosso país. Porque me dói ter conquistado os meus bens, ser feliz, ter uma vida bacana, mas sentir que o outro não está feliz. É uma questão de compaixão, de querer que isso seja um movimento social, de todos terem acesso ao conhecimento, à possibilidade de ascensão social e de felicidade, porque eu quero que todo mundo coma, que todo mundo seja feliz. É como a Priscila colocou: é ruim ser feliz sozinho. É muito melhor ser feliz junto com as outras pessoas. Eu acredito na essência do povo brasileiro de ter solidariedade. Eu viajo pelo interior do Brasil e vejo que a gente tem um povo bom. Não acredito na máxima de que é um povo preguiçoso. Fui ao Pará recentemente e conheci comunidades ribeirinhas com tudo muito simples, mas muito organizado, muito digno, muito solidário, muito alegre, muito festivo. Então eu acho que a nossa alma brasileira é essa e eu me identifico com essa maioria. Por acreditar no bem comum que eu me esforço para me dedicar, seja através do MHuD, seja na minha rua. São as nossas ações do cotidiano, como é que a gente lida com o outro? Isso sempre foi natural para mim, se importar com o outro, não importa se é rico ou pobre, independente de diferença de credo, de raça. No mundo que a gente vive, tudo leva o ator a ser distanciado, a ter um pedestal. Quando a gente fica nesse pedestal, a gente perde essa oportunidade incrível de trocar, de conversar, de ver como é difícil viver, lutar pela vida. E difícil não só para o pobre, mas também para o rico. A gente tem que olhar o outro como ser humano, ser solidário com todos, foi assim que eu fui criada e é assim que está sendo feliz pra mim.

 

Cristina Pereira - Eu entrei no MHuD quando ele começou. Eu estava na primeira reunião no convento dos dominicanos e nessa época, 2003, eu já tinha uma aproximação muito grande com o padre Ricardo Rezende. Quem me trouxe para o MHuD foi ele. Eu já o conhecia e já tinha uma militância anterior no PT. Quem me levou para o PT foi o Paulo Betti, e quem me trouxe a consciência de algumas questões sociais profundas como o trabalho escravo foi o padre Ricardo. É sempre através de alguém que a gente chega aos lugares e essas pessoas foram muito importantes para mim. Eu também tenho um passado de estudante universitária da USP na época da repressão, colegas sendo presos, professores sendo torturados e mortos. Nós perdemos uma professora na Escola de Arte Dramática, que foi assassinada pela ditadura. Tudo isso movimentou muito a minha mente de jovem. Eu nunca fui exatamente uma militante, nessa época eu era café pequeno, entregava panfletos, levava comida para quem estava escondido, coisas pequenas. Mais tarde, quando eu viajei para a Europa por conta do teatro é que eu tive uma visão mais profunda e crítica do que estava acontecendo no Brasil, era ditadura barra pesada, governo Médici. Quando mais tarde eu descobri o PT, logo no início da sua fundação, eu comecei a participar das reuniões e das primeiras campanhas quando o partido ainda era bem pequenininho. Quando eu conheci o padre Ricardo, comecei a conhecer os problemas do norte do Brasil, os problemas ligados à terra e aos trabalhadores rurais. Então eu comecei a pensar em tudo isso, nós fomos ao cemitério onde estava enterrada a família Canuto1. Mais tarde, quando surge o MHuD, o Ricardo me chamou, eu participei da primeira reunião e daí para frente eu fiquei no MHuD. Mas a minha atividade na época era um trabalho que eu fazia na Gávea, onde moro. Eu fazia um trabalho com crianças, adolescentes e jovens de rua. Eu sempre fui muito ligada à população de rua, eu sempre senti muito que precisava fazer alguma coisa com eles. Quando foi fundado o MHuD, eu fazia paralelamente um projeto chamado “Olha pra mim”. Eu estava muito envolvida com esse trabalho, fazia algumas coisas no MHuD, mas muito da minha energia estava voltada para esse trabalho com a população de rua, que envolvia cidadania, arte, saúde. Eu sempre senti que precisava, que eu deveria fazer isso. E acho que nem todo artista tem essa vontade, é uma questão muito pessoal, muito interna de cada um, ligada a coisas muito sutis da gente. Eu sempre acho que a gente tem que pensar no outro e fazer alguma coisa pensando: para quê eu estou no mundo? Eu tenho um tempo de vida, então eu tenho que fazer alguma coisa. Eu sempre acho que por mais que a gente faça é sempre pouco, sempre acho que tem que ir além. Eu tive um diretor de teatro muito importante, que se chamava Ademar Guerra, que dizia que o horizonte estava muito além do que a gente enxergava. Eu sempre acho que a nossa ação social é uma ação que a gente faz para o outro, mas faz muito para a gente também, porque o bem que o outro faz pra gente também é enorme, às vezes é maior do que o bem que fazemos para eles.

 

Letícia Sabatella - Desde o princípio toda escolha do que eu ia fazer em minha vida já era uma escolha no sentido de “para que” eu escolhi, “por que” eu escolhi. Assim foi com a escolha da profissão, já é um caminho para alguma coisa, para alguma ação. Independente do que você for, da profissão que tenha, você é essencialmente um cidadão. Eu penso em um ideal de democracia onde você oferece um pouco do serviço para a sua construção, a construção da sua família, de algo que te dê uma sobrevivência digna e, ao mesmo tempo, um pouco do seu tempo para uma construção comum, pelo bem comum. Entendo qualquer pessoa, em algum momento, exercer a política. Não como sendo uma profissão política, mas como sendo parte da vida de um cidadão, com ideal democrático grego mesmo. A gente está construindo uma previdência para mim ou uma previdência que seja global, de melhores condições de vida para quem está em torno de mim? Tem que pensar como um todo.

 

Como vocês vêem o peso que a visibilidade que vocês adquirem pela profissão dá para as causas que vocês apóiam?

 

Camila Pitanga - A idéia do MHuD é direcionar a nossa visibilidade para o que nos importa. Ele nasce desse desejo de dar luz a causas, a questões, a pessoas que talvez não teriam este espaço se não tiver um artista ou alguma pessoa de visibilidade. Mas o MHuD tem também jornalistas, que podem não estar na linha de frente, mas é a pessoa que faz a costura, que consegue uma pauta, tem juizes que escrevem textos. Os artistas ficam mais visíveis, mas o movimento é bem maior que isso. O MHuD nasce da necessidade que sentimos de poder falar sobre temas que vão além de roupas e moda, que toda hora ficam nos perguntando. A gente quer falar da Maria Joel (sindicalista ameaçada de morte em Rondon do Pará), quer fazer um alerta, quer chamar atenção para uma comunidade que está precisando de ajuda, a gente quer mostrar nossa solidariedade para algum grupo, para alguma pessoa que está correndo perigo.

 

Letícia Sabatella - Acaba que quando você é uma pessoa de visibilidade, você é um catalisador, um canal de visibilidade para alguém que procura. Quando surgiu o MHuD, ele surgiu para agregar isso a causas dos direitos humanos. Pessoas estão procurando janelas para se expor porque é uma proteção. A visibilidade é uma proteção. Quando a pobreza e a miséria são invisíveis, a violência e a impunidade aparecem. O prêmio João Canuto de Direitos Humanos (concedido pelo MHuD), por exemplo, dá visibilidade para pessoas que tem ações heróicas e é uma forma de proteção porque dá a elas uma importância que agrega valor social, valor moral, agrega valor à sua luta contra a opressão. A maneira de você conseguir lutar é através dessa força moral e social.

 

Priscila Camargo – Essas pessoas que nós premiamos (no prêmio João Canuto) são muito mais heróicas que nós. Nós estamos apenas usando a nossa visibilidade para ajudar e dar luz a estas pessoas que lutam muito, completamente incógnitos, sofrendo, e estão lá. Muitos que vamos premiar agora já quase morreram, muitas vezes. Isso é muito importante. O que a gente faz é sempre pouco. Às vezes penso: estou cansada, exausta, já militei tanto hoje. Mas o que eu fiz não é nada. Então eu agradeço a Deus e penso que amanhã é outro dia. Volto para minha casa, que tem uma vista linda e onde está tudo maravilhoso. As pessoas têm muito mais problemas do que a gente. E é aquela história que já comentamos: eu não vou ser feliz sozinha. Então, eu vou fazer o que eu posso. É a história do passarinho e o fogo na floresta. Ele vai com o bico, pega água e joga. Quem passa pergunta: passarinho, você acha que vai apagar o fogo com este pouquinho de água? E ele responde: eu estou fazendo a minha parte.

 

Cristina Pereira – E a força do coletivo. A história do MHuD é o coletivo. Vai uma pessoa do MHuD, é bacana. Mas quando chega mais gente, ganha mais força, a gente vai agregando. Cada um tem um significado, traz uma coisa diferente. Nós somos muitos. O coletivo é muito impactante, muito forte. Nós somos um coletivo de artistas, jornalistas, professores, cineastas, religiosos, médicos, arquitetos. Essa ação coletiva é muito interessante, a gente não se vê tanto, mas dá tudo certo. Existe, na realidade, um objetivo comum.

 

Qual a opinião de vocês em relação a um tema que diz respeito diretamente à mulher, que é a questão do aborto, tão debatida em cenário nacional recentemente?

 

Cristina Pereira – Eu sou de uma geração que começou a atuar dentro de um movimento de libertação da mulher, que foi a década de 1960. O aborto para qualquer mulher, em qualquer época, é uma dor enorme. Nenhuma mulher faz aborto porque quer ou usa o aborto como método contraceptivo. O aborto não é um método anticoncepcional. Na minha geração, muitas mulheres fizeram aborto quando jovens e isso era uma espécie de conquista. Não no sentido de: “Ah! Que bom, podemos fazer aborto”, porque o aborto sempre foi uma tristeza, uma dor física e espiritual. Mais tarde, acho que nós adquirimos uma consciência, a partir de discussões sobre ecologia, sobre o mundo, a física quântica, que nos fez ter uma outra idéia moral, religiosa, pessoal ou espiritual sobre o aborto. Hoje eu não faria um aborto de jeito nenhum, mas eu fiz quando era jovem. Fiquei muito mal, mas fiz. Muitas amigas minhas e pessoas da minha família fizeram aborto nessa época. É uma coisa horrível. Hoje, com a consciência que eu tenho, jamais faria. Mas acontece que eu sou uma elite, uma atriz, que vive no Rio de Janeiro, que teve acesso a tudo, que pode até ter a oportunidade de passar por esta experiência traumática e hoje estar aqui falando sobre isso. Mas tem milhares de mulheres que são obrigadas a ter relações sexuais, que vivem em uma miséria moral, econômica, afetiva e, de repente, estão grávidas, ferradas. Mulheres que tem problemas de saúde, mulheres muito jovens, que vivem dramas que eu nunca na minha vida passei perto. Eu acho que estas mulheres têm direito a uma assistência e de não serem criminalizadas. Ninguém é a favor do aborto. Eu trabalhei com população em situação de rua, vi situações horríveis, mulheres doentes que não tinham condição de ter um filho, o bebe já nascia morto, mulheres que se ferraram por fazer aborto em situação precária, tinham infecção que depois nem dava para salvar. Eu sou a favor dessas mulheres terem uma assistência. Eu sou católica, freqüento o espiritismo, acredito em Deus, tenho Nossa Senhora na minha casa, não faria um aborto hoje, mas sou a favor da descriminalização. É um problema de saúde e é um problema do outro. A Igreja fala que não pode usar camisinha e se ficar grávida não pode fazer aborto? Eu não sou a favor da vida se eu não quero que a pessoa use o preservativo que vai preservá-la das doenças sexualmente transmissíveis e que vai preservá-la de uma possível gravidez indesejada ou que não é possível naquele momento. Esta é uma incoerência total. Humildemente, na minha posição de elite, eu sou a favor que se dê toda assistência, carinho, medicação, suporte para uma mulher que fez um aborto ou que precisa abortar por vários motivos. Eu não acredito que uma mulher use o aborto como método contraceptivo e ninguém na vida quer fazer um aborto porque é uma coisa horrível, de todos os pontos de vista.

 

Priscila Camargo – Apoio tudo que a Cristina falou e quero dar um depoimento pessoal. Se as mulheres que fizeram aborto têm que ser presas, eu também teria que ser presa. Eu conheço poucas mulheres que não fizeram aborto. Então, é uma hipocrisia, assim como a hipocrisia da Igreja em proibir o uso da camisinha. Me considero uma espiritualista, acredito em todas as religiões, acredito em Deus, tenho fé na vida, no mundo, nas plantas, nos homens, nos animais, acredito em tudo. E acho muito grave o que está acontecendo, como o uso desse tema na campanha eleitoral. Isso é uma decisão de foro intimo, de foro social, é uma grande discussão, que tem que ser nacional, mundial. Nenhuma mulher em sã consciência é a favor do aborto. A mulher tem o direito de não querer. Até hoje eu sofro por isso porque depois eu quis ter um filho e não tive. É duro, você vai passar o resto da vida com isso.

 

Camila Pitanga – Eu assino embaixo do que elas falaram. Eu acho que é uma questão de saúde publica. Eu, pessoa física, jamais faria. Mas como a Cristina colocou, uma coisa sou eu, na minha realidade, no meu conforto, dentro das minhas possibilidades de me cuidar, falar disso. Outra é dentro da realidade de uma pessoa que não tem condições de gerar uma criança, que não vai dar certo, que vai ser uma infelicidade. O melhor é apostar na educação, que os homens sejam educados para respeitar a mulher, a sociedade também a respeite mais, para que a gente nem chegue a este ponto, não seja uma estatística alarmante. Ninguém quer que o aborto seja feito de maneira generalizada. A gente vê por ai meninas adolescentes, sem amparo da família e do Estado, e que o seu bebê é uma boneca jogada no chão. O ideal é o antes, para que não seja necessário chegar ao aborto. Como a sociedade ainda precisa de anos para mudar esta realidade, temos que garantir isso.                                         

 

Letícia Sabatella – Essa é uma luta de consciência moral para todo mundo. É importante perguntar o que vem antes da decisão dessa mulher? Como é acolhida uma mulher grávida? Uma mãe solteira? Não dá para criminalizar. Falta educação sexual, planejamento familiar, o mundo pede que se pense nisso. 

 

Pegando gancho com a questão da família, planejar, ter filhos, outro tema polêmico que está sendo tratado durante a campanha eleitoral é a questão da união civil entre pessoas do mesmo sexo e a possibilidade dessas famílias adotarem crianças? O que vocês acham disso?

 

Camila Pitanga – No meu ponto de vista, isso traz uma confusão entre o papel da religião e o papel do Estado. O papel do Estado é regular, vivemos em sociedade e temos que ter regras de convivência em sociedade. A sociedade de hoje não é a de 30 anos atrás. Acho que evoluímos em alguns aspectos no sentido de que hoje é possível que se tenha regras para que estas pessoas vivam em sociedade com os mesmos direitos que qualquer cidadão comum, como deve ser. A sexualidade não determina nada. Entendo que para um religioso isso tenha suscetibilidades, regras, condutas que criem constrangimentos e tal. Uma coisa é o que a religião prega para a sua comunidade religiosa, outra é o que o Estado deve oferecer em termos de direitos para sociedade, que é plural. Tem religiosos, não religiosos e tem homossexuais. Eles são cidadãos tanto quanto os religiosos, então tem que ter seus direitos civis assegurados. Não dá para o Estado, o governo, representar a lei de uma religião. Não somos um Estado laico? Os diversos segmentos religiosos têm que respeitar os direitos civis de todos e não impor uma regra só porque senão vai ser a regra de quem? A sociedade tem que saber conduzir isso com delicadeza.

 

Letícia Sabatella – Falando de exemplos que já existem. Conheci uma menina negra, que nasceu muito doentinha e foi adotada por uma mãe que já tinha uma parceira. Ela adotou sozinha, e as duas mães criam. Ninguém queria adotá-la porque ela estava no CTI. Foi um exemplo de salvação pelo amor verdadeiro, onde ele se manifesta.

 

Cristina Pereira – Acho que essa discussão tão reiterativa da questão da união de homossexuais leva a gente a um retrocesso enorme. Tenho amigos que são homossexuais, que adotaram crianças, constituíram família maravilhosa, deram amor. Todas as religiões são baseadas no amor, na solidariedade, se tem amor um pelo outro, o resto cai tudo por terra.

 

Camila Pitanga – A impressão que eu tenho é que até então as coisas estavam andando num caminho muito legal. Não acho que seja mérito desse governo, mas da sociedade, ainda que com seus excessos. A impressão que me dá é que os homossexuais estão se organizando melhor, que há uma aceitação nas novelas, e a possibilidade de adotarem um filho. Acho que por conta da eleição, isso está sendo usado para polemizar, para desestabilizar. Só que é uma pena porque desestabiliza a nossa sociedade e não um quadro de eleição. O problema é que as conseqüências que isso pode gerar me levam a um pânico, um medo de como isso vai ficar. Porque estamos falando de aborto, dos direitos civis dos homossexuais. Onde isso vai parar se essa corrente andar? Que falta de liberdade a gente vai ter! Reiterando: eu respeito todas as religiões, eu só acho que cada coisa tem seu lugar.

 

Vocês, que têm visibilidade, como vêem a mídia tratando temas de direitos humanos? Falando aqui não só a mídia de informação, mas também de entretenimento. Como essa apropriação pode ajudar na evolução dos Direitos Humanos?

 

Camila – Acho que é paradoxal. A mídia pode servir de grande ferramenta de solidariedade, de conscientização, de disseminação de boas idéias, bons valores. Mas na mão de certos interesses, ela pode virar uma perversidade, pode desestabilizar até mesmo a sociedade. A gente vive um momento muito delicado nesse lugar da mídia. Não sou da mesma geração da Cristina, mas até por ser filha de quem sou, do meu pai, então eu lembro que tanto artistas como jornalistas tinham uma coisa de idealismo, uma coisa tipo “eu vou ser jornalista porque quero fazer, quero construir algo”. Era uma coisa até xiita. Mas com o tempo, acho que essa coisa tem caído por terra. E isso não é uma coisa só de jornalistas ou das pessoas que exercem uma função social na mídia. É a luta pela sobrevivência, é a competitividade, é querer se dar bem, acumular bens materiais, isso é uma coisa que não é do Brasil, é do mundo inteiro. Isso é uma crise da sociedade que se espelha na mídia. Não acho que a mídia é a vilã, ela é instrumento. Numa sociedade que se quer mais fraterna, isso pode ser ótimo, ela vai servir de instrumento para disseminar o que tem de melhor. Numa sociedade que vive o espontâneo, o efêmero, o descartável, o poder, isso vira na verdade uma faca no seu próprio peito, da própria sociedade. Como eu acredito no ser humano, eu acredito nas pessoas, acredito nos bons valores. Não me acho ingênua, mas sou otimista com o ser humano. Eu acho que a gente tem como virar esse jogo. Mas hoje em dia acho que a mídia está mais a serviço da conjuntura mais perversa do que eu gostaria.

 

Letícia Sabatella – Você vê assim quem está mais nas capas, quem está mais em evidência, quem é mais projetado pela mídia. Ana Beatriz Barbosa, a psiquiatra que me orientou na construção da minha personagem psicopata na novela Caminho das Índias, diz que 80% das capas de revistas de grande circulação nacional são de psicopatas. Quem está na capa da revista? Geralmente é uma coisa associada ao poder, ao dinheiro.

 

Camila Pitanga – Até mesmo a loucura. É a crise na relação, ou a pessoa que se separou, ou que está ótima ou que ganhou muito dinheiro. Não vou citar nomes porque acho que é besteira, é uma coisa de apontar o dedo na cara. Às vezes vem uma pauta pra mim, eu digo: poxa, eu gostaria de, em vez de falar só sobre minha história, até porque não tenho uma história de grandes mudanças, sou casada há 10 anos, meu corpo é mais ou menos o mesmo, então quando eu quero falar sobre um projeto social, quero ir lá na Cufa, na Cidade de Deus, onde eles estão fazendo um projeto super legal de distribuição de livros, eles respondem: “É muito legal isso que você esta querendo, Camila, mas é meio complicado, não é violento?”. É uma dificuldade. Acho que a Letícia (Sabatella) é um grande exemplo de como furar isso, em diversos veículos. Falar na Caros Amigos sobre esses valores não é difícil, porque é uma revista que se pauta por esses valores. Mas falar em veículos que não querem necessariamente falar nisso... E ela consegue. Acho que a Letícia, nesse sentido, é uma danada, sem perder sua delicadeza, sua imagem, sua verdade, seu jeito de ser, ela consegue. Mas para mim é muito difícil.

 

Letícia, queria te perguntar sobre o seu apoio aos veículos de comunicação de menor visibilidade, como o Brasil de Fato, que você compareceu ao ato de lançamento em 2003.

 

Letícia Sabatella - É isso, é uma força que se faz em cadeia. É importante apoiar outra informação, outra visão, outro ponto de vista. É importante que existam outras manifestações, que apresentem outros pontos de vista.

 

O último tema são as propriedades rurais. A terceira edição do Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH-3, foi acusada de facilitar invasões de terra e ameaçar o direito à propriedade ao propor mediação de conflito, que quer dizer o seguinte: quando você tem uma terra ocupada, a polícia não precisa chegar atirando.

 

Camila Pitanga – Eu entendo o proprietário de terra querer a sua terra, mas o fato é que não há uma Reforma Agrária. Enquanto a política não agir nesse ponto vai ficar essa confusão. A sociedade vai ficar criminalizando o MST, os movimentos sociais. O governo, seja qual for, tem que escolher um caminho e efetivar essa ideia. O problema é que o governo Lula, que deveria ter feito essa diferença, não fez. Então fica esse estado de não ação, tudo bem banho maria, mas que não está em banho maria porque tem um vulcão ali dentro, porque há pessoas com necessidades de terem uma terra, assim como a necessidade de quem tem terra de ter seus direitos assistidos. O governo tem que tomar uma atitude, fazer um plebiscito, dar um caminho pra fazer a Reforma Agrária. E não esperar o MST invadir. O MST só invade porque não apontaram para ele que terra eles terão. Se não houver distribuição efetiva de terra, vai ficar essa guerra dentro da sociedade porque ninguém organiza isso. Esse é meu ponto de vista.

 

Cristina Pereira – Concordo com o que a Camila fala, mas eu não tenho certeza das informações da Reforma Agrária nesse governo. Ao mesmo tempo eu acho que a mídia pegou o PNDH-3 pra Cristo. Eles querem acabar com tudo o que está escrito no PNDH-3. É claro que por trás dessa história de conflito existe uma questão político-partidária-eleitoral. É uma coisa forte completamente ligada à eleição de agora, é um negócio barra pesada e por isso pegaram o Programa Nacional, porque tem várias questões delicadas como essas que estamos falando aqui. Acho que a questão da terra é uma delas também, mas não sei como ela se configura. Para mim são mais claras as outras questões tratadas aqui, como religião, a união de homossexuais, a questão do aborto. A mídia só massacra o MST – a revista Veja, então, crucifica o MST há anos, é uma coisa louca, ligada à bancada ruralista, que é muito forte, e ligada também à mão de obra escrava.

 

Letícia Sabatella – Se for aplicar uma lei mesmo, tem muita terra pra fazer a Reforma Agrária. Se for aplicar uma lei de distribuição de renda, de bens, do direito à posse da terra – acho que nem deveria haver posse – mas se fosse aplicar mesmo uma lei, tem muita terra.

 

 

1 – A família Canuto é conhecida pela militância pela reforma agrária no município de Rio Maria, sudeste do Pará.

 

   

Box – entrevista com Dira Paes

 

Como surgiu o MHuD e qual a sua proposta?

 

O MHuD nasceu do encontro de vários artistas e intelectuais que já desenvolviam ações individuais no terceiro setor.

A ideia foi criar uma identidade para esse grupo, que tivesse uma representatividade única. A visibilidade que os artistas possuem ajuda a lançar luz sobre as causas de direitos humanos, promovendo debates, direcionando ações, esclarecendo dúvidas e, algumas vezes, acelerando o processo de solução dos problemas.

 

Como são escolhidas as causas apoiadas?

 

Desde a nossa primeira assembléia, nós definimos as vertentes de atuação do Movimento Humanos Direitos, que são:

- Combate ao trabalho escravo;

- Proteção à criança e ao adolescente;

- Defesa dos indígenas e dos quilombolas

- A questão do meio ambiente.

Mas o MuHD, ao longo desses anos, não se restringiu a esses quatro itens. Devido à grande quantidade de solicitações, ampliamos a nossa atuação de acordo com a necessidade de quem nos procura, e à nossa capacidade de atendê-los. Quando não conseguimos, procuramos direcioná-los a outras entidades mais capacitadas, de acordo com cada causa.

 

Como você vê o papel da sociedade civil organizada na promoção e defesa dos direitos humanos no Brasil?

 

A ampliação do terceiro setor vem da profunda necessidade do ser humano em fazer o bem. A organização da sociedade civil é indispensável e complementa lacunas administrativas que são inevitáveis. Seria impossível conviver em uma sociedade onde os direitos humanos não fossem garantidos por lei. Isso motiva o indivíduo a defender os seus direitos de maneira que, ao fazer pelo outro, está fazendo por si mesmo. É uma satisfação pessoal e intransferível.

 

Você pode dar exemplos de iniciativas do MHuD que foram bem sucedidas?

 

Durante nosso trabalho as ações foram diversas. Algumas conclusivas, outras em andamento e outras frustrantes. Nós nos revezamos nas campanhas e ações.

Quando eu não estou "in loco", estou presente na organização e assim seguimos trabalhando. Entre nossas últimas ações, entregamos o abaixo assinado pela aprovação da PEC 438 – de combate ao trabalho escravo – e gravamos a campanha pela erradicação do trabalho escravo para a TV Globo; apoiamos os desabrigados dos desmoronamentos de Santa Tereza e Morro dos Prazeres; gravamos a campanha do Ministério Público pela "Carne Legal"; participamos do julgamento do caso dos fogos de artifício de Santo Antonio de Jesus, na Bahia; realizamos a caminhada pela paz, na orla de Copacabana no Rio de Janeiro; gravamos a campanha pelo direito à alimentação e promovemos o encontro entre o Ministro Vannuchi e índios de Camboinhas.

Além disso, organizamos a entrega anual do Prêmio João Canuto, destinado a laurear as pessoas que se destacaram dentro da defesa dos direitos humanos no Brasil.



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