Irmão de Caiado é autuado por Fiscalização do Trabalho
10 de fevereiro de 2010
MARCELO AULER - Agencia Estado
RIO DE JANEIRO - O Grupo Móvel de Fiscalização do Ministério do Trabalho, na companhia de uma procuradora do Trabalho, autuou a Fazenda Santa Mônica, no município de Natividade, ao sul do Estado de Tocantins, de propriedade de Emival Ramos Caiado, irmão do deputado federal e líder do DEM, Ronaldo Caiado. Na fazenda foram encontrados 26 trabalhadores, que, embora registrados, estavam submetidos ao chamado trabalho degradante: permaneciam no meio do mato consertando a cerca, sem disporem de água potável, sem equipamento de proteção individual e dormindo em um acampamento precário.
Por exigência dos auditores fiscais do trabalho, os contratos de todos os empregados foram rescindidos com o pagamento de indenização a cada empregado, calculada com base no tempo de serviço deles, que não superou os três meses. Foram pagos em torno de R$ 100 mil em dinheiro vivo. Coube a outro Caiado, o advogado Breno, irmão de Emival, levar o dinheiro ao hotel Serra Verde, no município de Campos Belos (GO), onde os fiscais do trabalho estavam sediados.
O Grupo Móvel fiscalizou outras seis fazendas na região descobrindo, na Fazenda Olho D''Água, em Montes Claros de Goiás, dois menores de idade trabalhando em carvoaria, conforme consta do registro feito pelos auditores fiscais cuja cópia foi entregue ao presidente do Conselho Tutelar da cidade, Gregório Batista dos Passos Neto.
Emival Caiado alega que "a legislação nacional não está de acordo com os costumes locais. Nas cidades grandes se tem um padrão de comportamento, uma relação em termos de acomodação que é diferenciada", diz. "No nosso caso encontraram todos os empregados registrados, mas tinham umas pessoas consertando uma cerca de arame muito longe da sede e estas pessoas, como é de hábito delas, estavam acampadas no mato. Eles falaram que aquilo não era uma acomodação condigna e decente. Era um acampamento, mas é o usual na região", argumentou.
Na crítica à fiscalização, Breno e Emival apegaram-se na história dos menores que os fiscais disseram estar trabalhando ilegalmente em carvoaria. Na explicação dos dois, os menores são filhos de um trabalhador que prepara o carvão e estariam "em férias na fazenda e tinham ido levar água para o pai" quando a fiscalização chegou. No relatório dos auditores consta que as crianças estavam há mais tempo na fazenda, apresentavam marcas de fuligem, ferimentos e queimaduras típicas do trabalho neste setor.
Brasil precisa combater mais o trabalho escravo
O Brasil é referência no combate ao trabalho escravo, mas precisa acelerar suas ações para erradicar o problema. A aprovação de uma emenda constitucional para garantir o confisco de propriedades que exploram mão de obra análoga à escravidão é uma das metas para 2010 das instituições envolvidas no tema.
A reportagem é de Daniel Cassol e publicada pelo Jornal do Comércio, 28-01-2010.
"Não há democracia com a permanência do trabalho escravo", defendeu ontem o ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos. Ele participou de um seminário sobre o tema no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre.
Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), existem no mundo cerca de 12 milhões de pessoas submetidas a trabalhos degradantes, sendo que 1,2 milhão na América Latina. Em 2009, o número de trabalhadores resgatados foi de 3.571 em todo Brasil. Apesar de estar mais associado ao meio rural, como lavouras de cana e carvoarias, o trabalho escravo está presente também nos centros urbanos. "O trabalho forçado é um fenômeno generalizado e que vem crescendo no mundo globalizado", diz a diretora da OIT no Brasil, Laís Abramo.
Para o juiz do trabalho Marcus Barberino, as ações da Justiça devem enfrentar também a prevenção e a conscientização de empresas e consumidores, evitando atacar o problema de forma pontual. "O trabalho escravo não é apenas algo ligado ao trabalho rudimentar nos rincões do País. É uma exploração sistemática que ocorre em toda a cadeia produtiva", avalia.
Atualmente, é considerado trabalho escravo aquele que envolve cerceamento da liberdade dos trabalhadores, condições degradantes, jornada exaustiva e ameaças de violência por parte dos contratantes. Segundo Vannuchi, nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso cerca de seis mil trabalhadores foram libertados, enquanto no período de Luiz Inácio Lula da Silva já foram 30 mil. "O que está aumentando é o enfrentamento ao problema", destaca.
Uma das metas de Vannuchi e das instituições que atuam no combate ao trabalho escravo é garantir a aprovação, ainda no primeiro semestre deste ano, da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 438, que determina a expropriação de propriedades rurais nas quais forem flagrados trabalhadores em condições degradantes. O projeto está parado na Câmara dos Deputados desde agosto de 2004, quando foi aprovado pelo Senado. De acordo com o senador José Nery (P-Sol-PA), além da PEC existem nove projetos que tratam de trabalho escravo tramitando no Senado e outros 12 na Câmara, todos parados. "É impressionante o grau de tolerância com que este crime é tratado", critica.
A data de hoje marca o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, em alusão ao episódio que ficou conhecido como chacina de Unaí, ocorrida em 2004, quando quatro funcionários do Ministério do Trabalho foram assassinados enquanto realizavam uma fiscalização na região de Unaí, em Minas Gerais. As investigações apontaram como mandantes os fazendeiros Norberto e Antério Mânica, mas até hoje ninguém foi condenado.
Trabalho escravo está presente em toda cadeia produtiva brasileira
Apesar de o Brasil ser considerado, no âmbito internacional, a vanguarda do combate ao trabalho escravo, a prática está inserida em toda a cadeia produtiva do país. Elemento inerente à reprodução do sistema capitalista, o trabalho escravo é uma das maiores violações de direitos humanos do mundo contemporâneo. Atividade no Fórum Social Mundial discutiu o que falta fazer para erradicar a prática em nosso território.
A reportagem é de Bia Barbosa e publicada por Carta Maior, 29-01-2010.
“Tudo começa com um moço chamado gato, que é um homem que vai a uma cidade com pessoas vulneráveis e chega lá com boas promessas. A pessoa se anima. Eles dizem que o patrão paga a passagem. Quando chega lá, a escravidão já começou. Quando começa o pagamento, vem o desconto da passagem, das ferramentas, do que você precisa comer. Já está tudo no caderno, anotado, e você tem que pagar. Os vigias passam armados na frente do da gente e deixam claro que o ambiente não é tranqüilo.”
O relato acima é de Francisco José dos Santos Oliveira, da Associação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Prevenção do Trabalho Escravo em Monsenhor Gil, no Piauí. Escravo liberto, Francisco hoje vive no assentamento Nova Conquista, junto com outras 40 famílias de agricultores. Teve sorte de sobreviver a uma das maiores violações de direitos humanos do mundo contemporâneo, e esteve nesta quarta-feira no Fórum Social Mundial para contar sua experiência, numa atividade que buscou fazer do balanço do caminho que o país ainda precisa percorrer para erradicar o trabalho escravo de sua cadeia produtiva.
Segundo levantamento da ONG Repórter Brasil, que integra a Comissão Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, a produção de gado bovino é a campeã em número de propriedades que utilizam mão de obra escrava no Brasil. Metade das fazendas onde a prática foi registrada por operações do Ministério do Trabalho e Emprego era de gado. Já em relação ao número de trabalhadores libertos nessas operações, a produção da cana ocupa o triste primeiro lugar. Muitas vezes, mais de mil trabalhadores são libertos de uma só vez nas ações dos grupos móveis de repressão.
Hoje, cada uma dessas hipóteses corresponde ao trabalho análogo ao escravo no Brasil: o trabalho forçado, onde a pessoa é obrigada a trabalhar pela força das armas; a servidão por dívida; a jornada exaustiva, quando de alguém, para além da jornada legal, é exigida uma produtividade que o corpo não agüenta; e o trabalho degradante, quando são suprimidas as condições básicas de saúde e segurança. Todas elas são encontradas nas cadeias produtivas brasileiras, e seus produtos chegam a toda a rede de varejo nacional.
“O trabalho escravo tem crescido no contexto da globalização. Hoje há mais de 12 milhões de pessoas em situação de trabalho forçado no mundo. Na América Latina, são 1,3 milhão. O lucro obtido por esta forma de trabalho ao ano passa de 30 bilhões de dólares, e o custo para os trabalhadores que estão submetidos a esta situação é de mais de 21 bilhões de dólares. Ou seja, apesar de muito poucos Estados nacionais reconhecerem oficialmente a existência do tema, este é um fenômeno mundial, presente na cadeia produtiva de grandes e modernas empresas multinacionais”, afirma Laís Abramo, diretora da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil.
“A sociedade brasileira está acordando para o fato de que o trabalho escravo contemporâneo não é restrito à atividade rudimentar nos rincões do país. Trata-se de uma atividade sistemática, que perpassa toda a cadeia produtiva e está na mesa de todos os brasileiros. É algo central da organização do próprio mercado de trabalho”, explica Marcus Barberino, juiz do trabalho da 15ª região e coordenador das oficinas jurídicas da Comissão Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. “Ao contrário do que pensam, o trabalho escravo não é exceção. É termômetro do mercado de trabalho brasileiro, que continua a explorar o trabalhador de uma forma bastante excessiva”, acrescenta.
Referência internacional
De acordo com a OIT, o Brasil é uma referência internacional positiva em relação à luta contra este crime, estando na ponta dos esforços mundiais de erradicação. Há 15 anos o Estado desenvolve políticas de combate à prática. De acordo com os números da Secretaria Especial de Direitos Humanos, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, foram seis mil trabalhadores resgatados. No governo Lula, foram 30 mil, como resultado do aumento do enfrentamento.
No entanto, muito ainda precisa ser feito para eliminar em definitivo tal violação de direitos. Um dos maiores desafios no campo legislativo é a aprovação da Emenda Constitucional 438/01, que prevê a expropriação de terras, sem direito a indenizações, onde for encontrada mão de obra escrava. Em 2001, a PEC foi aprovada em pelo Senado, mas até hoje espera a aprovação em segundo turno na Câmara dos Deputados, onde se encontram diversos parlamentares que já figuraram na chamada lista suja do trabalho escravo.
“Há anos lutamos pela aprovação prioritária da PEC. Mas apesar dos compromissos manifestados, não conseguimos avançar”, relata o senador José Nery, do PSOL/PA, presidente da subcomissão de combate ao trabalho escravo da Comissão de Direitos Humanos do Senado. “O trabalho escravo nada mais é do que um elemento inerente à reprodução do sistema capitalista vigente em nosso país e as forças degradantes de trabalho são algo que se reproduz historicamente desde a colonização. Aprovar a PEC e garantir o confisco de terras sem indenização aos escravagistas contemporâneos corresponde para nós a uma segunda lei áurea”, acredita.
No dia 13 de maio deste ano, um abaixo assinado que já conta com mais de 200 mil assinaturas será entregue ao presidente da Câmara dos Deputados reivindicando a votação da PEC em segundo turno na Casa. O objetivo é aprovar a emenda constitucional ainda no primeiro semestre de 2010. Em fevereiro, será lançada uma Frente Parlamentar de combate ao trabalho escravo no Congresso Nacional.
No campo jurídico, além de ações de formação e treinamento de juízes, o Ministério Público do Trabalho tem ampliado sua atuação no combate ao crime. Em vez de trabalhar a partir do recebimento de denúncias, como era feito anteriormente, os procuradores agora desenvolvem um trabalho menos reativo, de busca de dados e maior abrangência das ações movidas na Justiça.
“É preciso ir além de uma atuação pontual, em que algumas empresas são acionadas e outras não, já que a violação permeia todo um setor produtivo”, explica Sebastião Caixeta, procurador do trabalho à frente da Coordenação Nacional do Combate ao Trabalho Escravo do Ministério Público do Trabalho. “Também estamos movendo ações de dano moral coletivo, na construção de uma teoria que vem se firmando, com acolhimento da Justiça do Trabalho, que é a imposição de um pagamento pelo dano genérico já causado por essa violação, com os valores sendo revertidos para a classe trabalhadora. Hoje o trabalho escravo não ataca apenas a liberdade individual, mas também a dignidade da pessoa humana. Por isso, merece a repressão criminal, administrativa, trabalhista e civil do sistema de Justiça”, afirma.
Neste 28 de janeiro, Dia Nacional de combate ao trabalho escravo, a esperança dos ativistas e militantes que participam da décima edição do Fórum Social Mundial em Porto Alegre é acabar com a sensação de impunidade que ainda paira sobre aqueles que praticam o crime, e construir mecanismos que, de fato, erradiquem o trabalho escravo no país.
“E isso só vai acontecer quando o Brasil realizar a reforma agrária. É algo que passa por uma mudança no modelo de desenvolvimento no país, um modelo não exploratório, que não utilize pessoas como bucha de canhão para obter lucro”, concluiu Leonardo Sakamoto, coordenador da Repórter Brasil.
Campanha em Pernambuco arrecada 250 toneladas para HAITI
CREMEPE - 27 Dde Janeiro 2010
Comitê finaliza primeira etapa da Campanha
Em 14 dias da campanha Ajude o Haiti, os pernambucanos doaram 253 toneladas, das quais 113 foram de alimentos, 105 de água e 35 de roupas. Os números foram divulgados durante balanço da primeira fase da campanha realizado pelo Comitê de Solidariedade ao Haiti na manhã desta quinta-feira (28), na sede do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe).
A partir de sábado (30), um dia após o encerramento dessa primeira etapa, cinco pontos de coletas serão desativados (Praça Professor Fernando Figueira, Parque da Jaqueira, Segundo Jardim, além das sedes do Instituto de Assistência Social e Cidadania – Iasc e da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB).
Também concluem a participação na campanha as seguintes entidades: Cremepe, Sindicato dos Médicos, Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira - Imip, Unicred Recife, Unimed Recife, Coordenadoria de Defesa Civil do Recife – Codecir, Secretaria de Desenvolvimento Urbano do Recife, Federação Nacional dos Médicos e Iasc). Os supermercados estarão recebendo donativos até o domingo (31).
Darão prosseguimento à campanha, até o próximo dia 11 de fevereiro, a Polícia Militar, o Exército Brasileiro, a Associação das Igrejas Batistas de Olinda – Assibol, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, a Cúria Metropolitana, a Secretaria de Direitos Humanos de Olinda, o INSS, o Instituto Pró-cidadania, a Faculdade Maurício de Nassau, a Faculdade Joaquim Nabuco e o Conselho Regional de Enfermagem de Pernambuco (Coren-PE). Essa última assume a coordenação da campanha a partir desta sexta-feira (29).
A prioridade continuam sendo os alimentos de consumo imediato, como latas de sardinha, atum e carne, biscoitos, leite em caixa, barra de cereal, e água (garrafas de até 5 litros). A pedido do Governo do Haiti, a campanha não está mais arrecadando roupas devido à urgência por
alimentos e à dificuldade de envio.
Todos os dias, quatro caminhões do Exército Brasileiro e um da Polícia Militar coletam as doações arrecadadas nos vários pontos e os levam ao 7º depósito de armazenamento do Exército, onde todo o material está armazenado.
Comitê de Solidariedade ao Haiti - Foi criado no dia 14 de janeiro, durante encontro que reuniu diversas entidades de Pernambuco na sede do Cremepe. O objetivo é arrecadar alimentos não-perecíveis e água mineral para as vítimas do terremoto no Haiti.
Confira os pontos de coleta da segunda etapa:
Quartel do Derby – Das 8h às 18h
Igreja Matriz das paróquias – De acordo com o horário das Igrejas
Igrejas Batistas de Olinda – De acordo com o horário das Igrejas
Faculdade Joaquim Nabuco - Av. Senador Salgado Filho S/N; Av. Guararapes, 233 - Prazeres
Faculdade Joaquim Nabuco - Av. Senador Salgado Filho S/N – Boa Vista
Faculdade Maurício de Nassau - Rua Guilherme Pinto, 114 – Derby
Faculdade Maurício de Nassau - Rua Fernandes Vieira, 110 - Boa Vista
Faculdade Maurício de Nassau - Rua Fernando Lopes, 778 – Graças
Business School Mauricio de Nassau - Rua 13 de Maio, S/N - Santo Amaro
Conselho Regional de Enfermagem (Coren) - Rua Barão de São Borja, 243 - Boa Vista – Horário Comercial
Instituto Pró-Cidadania - Rua Castro Alves, 343 – Encruzilhada
Gerência Executiva do INSS – Av. Mário Melo, 343 – Santo Amaro
Até domingo (31):
Extra Madalena (Rua Benfica, 715) – 24h
Extra Boa Viagem (Av. Domingos Ferreira, 1818) – Das 7h às 24h
Pão de Açúcar Aflitos (Av. Rosa e Silva, 614) – Das 6h30 às 24h
Pão de Açúcar Parnamirim (Rua Desembargador Góes Cavalcanti, 261) – Das 6h30 às 24h
Arco-Íris Prazeres (Avenida General Barreto de Menezes, 497) – Das 7h às 20h
Hiper Bompreço Boa Viagem (Rua Padre Carapuceiro, 800) – Das 7h às 24h
Hiper Bompreço Casa Forte - Praça Francisco Pessoa de Queiroz, 23
Hiper Bompreço Avenida Recife - Av. Recife, 3777
Hiper Bompreço Olinda - Av. Gov. Carlos de Lima Cavalcanti, 1306
CONTATOS:
Agely Pereira (Coren) – 9946 1623
Lula Portela (Assessor de Imprensa do Coren) – 9976 6847
Mayra Rossiter
Da Assessoria de Comunicação do Cremepe
(081) 2123 5755
Como VEJA está depredando o jornalismo
NOTA DO MST-PA SOBRE REPORTAGEM DA REVISTA VEJA
DIREÇÃO ESTADUAL DO MST DO PARÁ
Marabá, 12 de janeiro de 2010
1-O MST do Pará esclarece que não tem nenhuma fazenda ocupada no município de Tailândia, como afirma a reportagem da Revista Veja “Predadores da floresta” nesta semana. Não temos nenhuma relação com as atividades nessa área. A Veja continua usando seus tradicionais métodos de mentir e repetir mentiras contra os movimentos sociais para desmoralizá-los, como lhes ensinou seu mestre Joseph Goebbels. A reportagem optou por atacar mais uma vez o MST e abriu mão de informar que o nosso movimento não tem base social nesse município, dando mais um exemplo de falta de respeito aos seus leitores.
2-A área mencionada pela reportagem está em uma das regiões onde mais se desmata no Pará, com um índice elevado de destruição de floresta por causa da expansão do latifúndio e de madeireiras. Em 2007, a região de Tailândia sofreu uma intervenção da Operação Arco de Fogo, da Polícia Federal, e latifundiários e donos de serrarias foram multados pelo desmatamento. Os madeireiros e as empresas guseiras estimulam o desmatamento para produzir o carvão vegetal para as siderúrgicas, que exportam a sua produção. Por que a Veja não denuncia essas empresas?
3-Na nossa proposta e prática de Reforma Agrária e de organização das famílias assentadas, defendemos a recuperação das áreas degradas e a suspensão dos projetos de colonização na Amazônia. Defendemos o “Desmatamento Zero” e a desapropriação de latifúndios desmatados para transformá-los em áreas de produção de alimentos para as populações das cidades próximas. Também defendemos a proibição da venda de áreas na Amazônia para bancos e empresas transnacionais, que ameaçam a floresta com a sua expansão predatória (como fazem o Banco Opportunity, a Cargill e a Alcoa, entre outras empresas).
4-A Veja tem a única missão de atacar sistematicamente o MST e a organização dos camponeses da Amazônia, para esconder e defender os privilégios dos verdadeiros saqueadores das riquezas naturais. Os que desmatam as florestas para o plantio de soja, eucalipto e para a pecuária extensiva no Pará não são os sem-terra. Esse tipo de exploração é uma necessidade do modelo econômico agroexportador implementado no Estado, a partir da espoliação e apropriação dos recursos naturais, baseado no latifúndio, nas madeireiras, no projeto de exportação mineral e no agronegócio.
5-Por último, gostaríamos de comunicar à sociedade brasileira que estamos construindo o primeiro assentamento Agroflorestal, com 120 famílias nos municípios de Pacajá, Breu Branco e Tucuruí, no sudeste do Estado, em uma área de 5200 hectares de floresta. Nessa área, extraímos de forma auto-sustentável e garantimos renda da floresta para os trabalhadores rurais, que estão organizados de maneira a conservar a floresta e o desenvolvimento do assentamento.
Igor Felippe Santos
Assessoria de Comunicação do MST
Secretaria Nacional - SP
Tel/fax: (11) 3361-3866
Correio - [email protected]
Página - www.mst.org.br
Estado brasileiro pouco avançou na reforma agrária, avalia MST
Robson Braga
Adital - BRASIL
Dezembro 2009
O Estado brasileiro pouco avançou nas políticas voltadas ao campo. Algumas medidas pontuais não foram suficientes para solucionar questões como a reforma agrária, que exige estratégias amplas para a desapropriação das terras improdutivas espalhadas pelo país. A avaliação foi feita, em entrevista à ADITAL, por Marina dos Santos, uma das coordenadoras nacionais do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Marina cita nomes de legisladores e magistrados do Brasil como responsáveis pela perseguição ao MST, que, em sua avaliação, acentua-se a cada ano. No último dia 9, o Congresso Nacional criou uma comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI) para investigar supostos repasses ilegais do governo federal para o movimento. A medida tenta "inviabilizar qualquer avanço da reforma agrária, destruir os movimentos sociais do campo e impedir a realização de lutas sociais pela classe trabalhadora", afirmou Marina.
Na avaliação da coordenadora do MST, a bancada ruralista do legislativo federal tenta impedir a atualização dos índices de produtividade das terras brasileiras, atrasados há 29 anos. Muitas fazendas que, à época, eram consideradas produtivas hoje podem estar sendo subutilizadas pela iniciativa privada, impossibilitando que a agricultura familiar supra as necessidades alimentares do país.
Adital - Em 2009, houve avanços com relação à reforma agrária no Brasil? Que pontos a senhora destacaria das políticas adotadas pelo governo federal nesse sentido?
Marina dos Santos - Não houve muitos avanços concretos. O ritmo da criação de assentamentos está quase parado e não foram implantadas novas políticas para industrialização dos alimentos e geração de renda nas áreas da Reforma Agrária. Depois do acampamento em Brasília que fizemos em agosto, o governo federal anunciou mais uma vez a atualização dos índices de produtividade, que servem de referência para a desapropriação de latifúndios, que ainda não foi efetivada. Prometeu também reverter o corte no orçamento da Reforma Agrária por conta da crise econômica, que aconteceu em parte.
De concreto, tivemos uma vitória com a desapropriação da fazenda Nova Alegria, onde aconteceu o Massacre de Felisburgo, em 2004, e o aumento do crédito para moradias em assentamentos. Infelizmente, os assentamentos do governo são criados para resolver conflitos isolados, em vez de constituir um programa amplo para acabar com o latifúndio e combater a concentração de terras.
Adital - Desde sua fundação, o MST é perseguido politicamente por latifundiários, agentes políticos ruralistas e setores da mídia. Em 2009, essa perseguição foi acentuada?
Marina dos Santos - O nosso movimento vem sofrendo uma ofensiva violenta dos setores mais conservadores no país, que estão articulados em frações do Poder Judiciário, do Ministério Público, do TCU [Tribunal de Contas da União], do Parlamento e da mídia burguesa. A repressão aos movimentos sociais do campo tem diversas formas: o pagamento de jagunços para atacar trabalhadores rurais (Daniel Dantas, no Pará), o uso da Polícia Militar em estados governados pelo PSDB (Yeda Crusius, José Serra e Aécio Neves), manifestações públicas de políticos reacionários (como o deputado Ronaldo Caiado e o presidente do STF Gilmar Mendes), perseguição aos programas de ministérios em assentamentos e a criação de falsos escândalos pela mídia burguesa. No final do ano, os "demos" [integrantes do DEM, Partido Democratas, antigo PFL] [Ronaldo] Caidado, Katia Abreu e Onyx Lorenzoni conseguiram criar uma CPMI contra a Reforma Agrária e o MST.
Adital - Na avaliação da senhora, qual a motivação do Congresso Nacional ao instalar a CPMI sobre o MST?
Marina dos Santos - Os três parlamentares do DEM do Arruda [José Roberto, governador do Distrito Federal, atualmente envolvido em caso de corrupção], com sustentação da bancada ruralista, criaram essa CPI para inviabilizar qualquer avanço da Reforma Agrária, destruir os movimentos sociais do campo e impedir a realização de lutas sociais pela classe trabalhadora. Já fomos investigados em duas CPIs nos últimos cinco anos, mesmo sem existir nenhum elemento novo.
Está em curso no Parlamento uma ofensiva do agronegócio contra a Reforma Agrária, com projetos para burocratizar a atualização dos índices de produtividade e a desapropriação de terras e a tentativa de destruir o Código Florestal para liberar a devastação ambiental. É uma ofensiva orquestrada para consolidar o modelo agrícola devastador e concentrador do latifúndio. Para isso, precisam desmoralizar e destruir o nosso movimento.
Adital - O que o Movimento pretende fazer com relação às investigações do legislativo, anunciadas para iniciar em 2010?
Marina dos Santos - Queremos aproveitar a criação dessa CPI, que coloca a Reforma Agrária no centro do debate político, para falar sobre os modelos que disputam a agricultura: o latifúndio do agronegócio e a agricultura familiar/Reforma Agrária. Os dados do censo agropecuário divulgados neste ano servem como ponto de partida. A agricultura familiar produz 70% dos alimentos e emprega 75% da mão-de-obra, em apenas 24% das áreas agricultáveis, onde gera 40% do valor bruto da produção.
Essa CPMI pode também investigar a grilagem de terras, a expansão de empresas estrangeiras na compra de terras no campo, a devastação ambiental pelo modelo do agronegócio, os repasses de dinheiro público para entidades do latifúndio (como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, Organização das Cooperativas Brasileiras e Sescop). Também vamos monitorar essa CPI para denunciar toda e qualquer tentativa de criminalização dos movimentos sociais e da Reforma Agrária.
Adital - Qual a avaliação da senhora sobre as estratégias que o MST tem utilizado para dar visibilidade à reivindicação pela reforma agrária? Em que medida essas estratégias são repensadas?
Marina dos Santos - As nossas ações são resultado do acúmulo histórico do movimento camponês e da classe trabalhadora, que fizemos nos 25 anos do nosso movimento e na luta permanente pela Reforma Agrária. As ocupações de terras são formas de luta que começaram com os indígenas expulsos das suas terras, dos escravos em seus quilombos e das famílias de trabalhadores rurais sem-terra. Esse instrumento voltou a ganhar força com o trabalho pastoral da Igreja, no final da década de 70, ainda em plena ditadura.
Cerca de 70% dos assentamentos foram criados depois da pressão de ocupações de terra. Isso demonstra que sem organização dos trabalhadores rurais e a ocupação de terras não há Reforma Agrária. Nos últimos anos, a agricultura passou por uma grande transformação, com a consolidação do agronegócio, que é o casamento dos latifundiários capitalistas com grandes conglomerados internacionais para a produção de commodities para exportação. Assim, o latifúndio foi colocado a serviço de empresas transnacionais e do capital financeiro, enquanto trabalhadores rurais são expulsos do campo. A expansão do agronegócio impôs a paralisação da reforma agrária e das políticas em benefício da pequena agricultura. Por isso, passamos a fazer protestos para denunciar os efeitos sociais e ambientais do agronegócio.
Adital - Como a população brasileira percebe o MST atualmente? Essa percepção tem sido alterada ao longo desses 25 anos de atuação do Movimento?
Marina dos Santos - Em primeiro lugar, é difícil definir sem homogeneizar os diversos setores da sociedade na percepção sobre a luta do nosso movimento. Claro que aqueles que conhecem o MST sob a ótica da televisão terão uma percepção distorcida. Infelizmente, a cobertura da mídia não dá elementos para que a opinião pública tenha um juízo de valor correspondente à realidade dos trabalhadores rurais. Por isso, não lemos ao pé da letra as pesquisas de opinião sobre o nosso movimento.
Avaliamos que a melhor forma de mensurar a percepção do nosso movimento é analisando o comportamento das comunidades onde estão nossos acampamentos e assentamentos. As forças organizadas e os cidadãos que conhecem a vida dos homens e mulheres que fazem a luta pela Reforma Agrária dão apoio político ao nosso movimento. Mais do que isso, ajudam os nossos acampamentos nos momentos de dificuldades, contribuem materialmente com nossas lutas, ocupações e marchas e compram os alimentos produzidos nos nossos assentamentos. Sem o apoio do povo brasileiro, o nosso movimento teria sido destruído.
Adital - A Jornada Nacional de Luta pela Reforma Agrária acontece todos os anos, mesmo com todo o investimento negativo de certas mídias. Que resultados estas atividades têm apresentado?
Marina dos Santos - Todas as conquistas que tivemos foram resultado das nossas jornadas de lutas. Não podemos ver os avanços da Reforma Agrária como atos isolados, mas são resultados da luta permanente entre as classes no campo. De um lado, estão os latifundiários associados às grandes empresas, que defendem o modelo do agronegócio. Do outro lado, está a pequena propriedade e trabalhadores rurais sem-terra, que lutam pelo fortalecimento da agricultura familiar e da Reforma Agrária. Atualmente, a correlação de forças está favorável para o agronegócio e só temos conquistas por meio das lutas.
Adital - Como coordenadora de um dos principais movimentos sociais da América Latina, que avaliação faz dos avanços dos governos progressistas que resultam em iniciativas como a Alba? No que isso pode trazer de positivo para os movimentos sociais?
Marina dos Santos - As experiências dos países que fazem parte da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba), especialmente a Venezuela, Bolívia e Equador, são bastante positivas, porque estão implementando medidas que resgatam a soberania nacional, ampliam a democracia e beneficiam setores populares.
Para isso, tiveram que enfrentar os fortes interesses do imperialismo dos Estados Unidos e as elites associadas nos seus países. Isso demonstra que é possível e necessário enfrentar os interesses da burguesia associada ao imperialismo para fazer as mudanças sociais. E sem movimentos sociais fortes e a organização popular não é possível fazer mudanças estruturais, aprofundar as transformações e evitar retrocessos para o povo.
Lula lança programa de Direitos Humanos que prevê casamento gay.
Autodeclaração de gays e lésbicas seria considerada no sistema público.
Texto prevê também ensino da diversidade religiosa na escola.
Eduardo Bresciani Do G1, em Brasília 21/12/09
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou nesta segunda-feira (21), no Palácio do Itamaraty, em Brasília, o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos. Um dos aspectos abordados pelo programa é a defesa do projeto de lei do casamento gay, que permite a união civil entre pessoas do mesmo sexo.
De acordo com o material divulgado à imprensa pela Secretaria de Direitos Humanos, que coordena o programa junto com outros 30 ministérios, além de apoiar o projeto sobre união civil, o programa prevê que os sistemas de informação pública passem a considerar como informações autodeclarações de gays, lésbicas, travestis e transsexuais. O projeto defende ainda que travestis e transsexuais possam escolher seus nomes em documentos sem necessidade de decisão judicial.
O presidente Lula destacou a realização no ano passado de uma Conferência do movimento LGBT e destacou que o evento foi uma aula contra o preconceito. “Lembro do famoso encontro com o LGBT. Lembro da preocupação que reinava no Palácio. Tinha sido um decreto presidencial convocando a conferência. Aí, o pessoal começou a dizer: e se tiver problema, se quiserem te beijar, tirar foto? Eu falei que se alguém quiser vai fazer porque nós vamos lá. Olha, foi a maior aula de cidadania contra o preconceito que eu participei”.
Símbolos religiosos
Outro tema polêmico do programa é a criação de mecanismos para impedir a ostentação de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos da União. O programa prevê também a inclusão no currículo escolar do ensino da diversidade religiosa com destaque para as religiões africanas.
O programa abrange ainda o chamado “direito à memória e à verdade”. É proposta a criação de um grupo de trabalho para elaborar um projeto de lei para instituir uma comissão nacional da verdade com o objetivo de investigar violações dos direitos humanos durante o regime militar.
O direito de pessoas com deficiência também está contemplado no programa. Coloca-se como prioridade a acessibilidade nas cidades que sediarão a Copa do Mundo de Futebol de 2014. Há a intenção também de colocar a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como disciplina facultativa nos currículos escolares.
MANIFESTO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS DE MARABÁ.
CPT 04 de Dezembro de 2009
No momento em que Marabá recebe a visita do presidente da mais alta corte de justiça desse país para lançar um ?mutirão agrário? que tem como objetivo cumprir liminares que beneficiam fazendeiros e grileiros de terras públicas na região, os movimentos sociais vêm a público dizer:
1 ? As causas das ocupações e dos conflitos. Nos três últimos anos ocorreram 67 ocupações na área rural da região, envolvendo 10.600 famílias e 22 ocupações urbanas, só em Marabá, envolvendo cerca de 18 mil famílias. O aumento das ocupações se deve à crescente migração de famílias pobres para a região devido a agressiva propaganda dos governos e das grandes empresas sobre a geração de milhares de empregos na implantação de grandes obras do PAC e de imensos projetos de mineração da VALE. Atraídas pela falsa propaganda do emprego que não está ao alcance dos mais pobres, milhares de famílias ao chegarem à região só tem dois destinos: as ocupações urbanas e os acampamentos rurais. A ausência de políticas publica de habitação e Reforma Agrária, empurra essas famílias para a pobreza, a miséria e a violência. Marabá é a 2ª cidade mais violenta do país. É a região com maior número de assassinatos no campo, registros de ameaça de morte e de vítimas de trabalho escravo. Ao invés de responder ao grave problema social com políticas públicas, o Estado e o Judiciário respondem de modo irresponsável com violência policial. São quase 10 mil famílias urbanas e rurais que poderão ser despejadas e que não terão para onde ir!
2 ? A justiça não pode proteger produto de crime. O Estado do Pará é também campeão dos crimes de grilagem e de apropriação ilegal de terras públicas. São mais de 6 mil títulos falsos registrados ilegalmente pelos cartórios, são milhões de hectares em poder dos criminosos. A Comissão Estadual de Combate à grilagem rastreou e comprovou essa situação no Estado e propôs que o Tribunal de Justiça do Pará (TJ) cancelasse, administrativamente, as matrículas objeto do crime. Para a surpresa e indignação de todos nós, o TJ Pará se negou a fazer isso. Só aceita o cancelamento judicial, o que jamais vai ocorrer devido à morosidade da justiça. A comissão recorreu ao Conselho Nacional de Justiça que precisa dar uma resposta urgente a esse crime. Arrecadando essas terras, milhares de famílias poderão ser assentadas, diminuindo assim os conflitos. Mesmo com a posição firme e corajosa da juíza da Vara Agrária de Marabá em ouvir o INCRA e o ITERPA antes de decidir os pedidos de liminares, o TJ Pará insiste em deferir liminares e exigir o despejo de famílias das fazendas do banqueiro Daniel Dantas. São terras já confiscadas pela Justiça Federal por terem sido compradas para lavar dinheiro sujo, são imóveis multados pelo IBAMA em centenas de milhões de reais por crimes ambientais, grande parte são compostas de terras públicas apropriadas ilegalmente ou griladas já comprovado pelo INCRA e ITERPA. Um verdadeiro flagrante de desrespeito aos requisitos da posse agrária e ao cumprimento da função social da propriedade previstos na Constituição Federal. A Justiça não pode rasgar a Constituição e as leis agrárias para proteger os crimes do latifúndio!
3 ? O judiciário não pode promover a impunidade. Apenas nas regiões sul e sudeste do Pará, nos últimos 30 anos, são mais de 600 assassinatos de trabalhadores rurais e suas lideranças. Mais de 70% desses crimes sequer tiveram investigação para apurar a responsabilidade das mortes. Os cerca de 30% que resultaram em um processo, marcham para a vala da impunidade. Não há um único mandante preso, cumprindo pena por ter mandado matar trabalhadores rurais na região. A impunidade é uma espécie de licença para matar.
4 - Frente a essa situação exigimos: a suspensão imediata das liminares de despejo nas áreas urbanas e rurais e o assentamento imediato das famílias acampadas; O cancelamento administrativo das matrículas de imóveis frutos de grilagem; Punição para todos os responsáveis por crimes contra os trabalhadores; O fim da criminalização dos Movimentos Sociais e de suas lideranças; Revogação dos mandados de prisão das lideranças do MST perseguidas pela bancada ruralista, pela imprensa e o governo!
Marabá, 04 de dezembro de 2009.
CPT, MST, MAB, CIMI, SDDH, PASTORAIS SOCIAIS DA DIOCESE DE MARABÁ,
CEPASP, FETAGRI REGIONAL, STR DE MARABÁ. Apoio: FÓRUM REGIONAL DE EDUCAÇÃO DO CAMPO e COORDENAÇÃO DO CAMPUS DA UFPA EM MARABÁ.
Testemunha ligada ao caso Dorothy Stang sofre atentado
Uma das principais testemunhas de acusação contra um dos investigados pelo assassinato da Irmã Dorothy Stang sofreu um atentado no último dia 26, no município de Anapu, no Pará. Roniery Bezerra Lopes levou diversos tiros e está internado em um hospital da região em estado grave
Agência Brasil
Link original: http://opovo. uol.com.br/ brasil/932799. html
28 Nov 2009
Uma das principais testemunhas de acusação contra um dos investigados pelo assassinato da Irmã Dorothy Stang sofreu um atentado no último dia 26, no município de Anapu, no Pará. Apesar de ter levado diversos tiros nas pernas, na cabeça e na boca Roniery Bezerra Lopes não morreu, e está em estado grave, internado em um hospital da região. A informação foi passada hoje (28) à Agência Brasil pela Irmã Jane Dwyer, da mesma congregação da Irmã Dorothy.
O atentado foi cometido menos de três horas após Roniery ter recebido intimação da Justiça para ser testemunha de acusação contra Regivaldo Pereira Galvão, no caso que investiga fraudes, uso de laranjas e falsificação de documentos para esconder a grilagem do Lote 55, local onde a Irmã Dorothy foi assassinada e centro dos conflitos agrários na região.
Durante o julgamento pela morte da Irmã Dorothy, Regivaldo havia alegado não ter nenhum tipo de vínculo com o Lote 55. No entanto, em 2008 ele passou a dizer ser o dono do lote, apresentando à Polícia Federal diferentes versões sobre como teria adquirido as terras.
Um inquérito foi aberto e a PF acabou comprovando a falsificação documental, o que levou à abertura de novo processo em fevereiro de 2009 contra Regivaldo, para quem Roniery trabalhava.
Apesar de ainda não ter sido notificado sobre atentado, a assessoria do Ministério Público Federal (MPF) no Pará informou que Roniery participava das negociações envolvendo a área.
Muitos detalhes sobre o atentado ainda precisam ser esclarecidos. Apenas a Irmã Jane se dispôs a dar detalhes, a partir de conversas que teve com outras pessoas.
"Ele [Roniery ] recebeu a intimação entre as 18 e 19 horas, e o atentado ocorreu por volta das 21 horas", explica a Irmã Jane. "A informação que tive foi de que foram muitos disparos afetando inclusive a espinha. Quanto ao tiro na boca, é uma prática comum daqui para passar uma mensagem clara a quem faz denúncias", acrescenta a religiosa que, assim como Dorothy, tem origem norte-americana.
Irmã Jane disse que, no momento do atentado, Roniery estava acompanhado de uma mulher uma criança. "Parece que era a esposa dele, que também levou um tiro mas, ao que fui informada, ela não corre risco de vida. A criança fugiu e se escondeu no matagal". A religiosa disse, ainda, ter sido polícia quem o levou ao hospital.
Para evitar novos atentados o nome do hospital não foi informado.
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No agronegócio não existe essa questão de produção ecologicamente correta', diz coordenador da CPT
O agronegócio visa somente o lucro e dificilmente irá ter uma real preocupação com as questões ambientais e relações de trabalho. A opinião é do Coordenador Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) Dirceu Fumagalli, que participou da divulgação dos dados preliminares do relatório de conflitos do campo. A região Norte foi a que apresentou os maiores índices de assassinatos e trabalho escravo do País.
Em entrevista ao site Amazonia.org.br, 30-11-2009, Fumagalli comenta a elaboração dos estudos de violência do campo e afirma que os dados podem ser ainda maiores. Segundo ele, a única solução para o enfrentamento do problema seria a reforma agrária, tendo em vista a necessidade de se reconhecer as terras tradicionalmente ocupadas e a desapropriação de latifúndios.
Eis a entrevista.
Como é realizado o levantamento de dados para a elaboração dos relatórios de violência no campo da CPT?
A CPT está organizada em todas as unidades federativas, com exceção do Distrito Federal, onde temos os nossos agentes. Às vezes temos várias equipes em um núcleo regional e são eles que são nossos "catalisadores" de informações, além de termos um grupo de documentarista em Goiânia que coordenada todo esse departamento de documentação. Elas fazem toda a triagem diária de pelo menos 200 jornais ou boletins que circulam no território nacional. É esse banco de dados que nós compilamos e sistematizamos anualmente, desde 1985. Temos esse banco de dados aqui em Goiânia na sede da CPT Nacional e todo final de ano publicamos um documento, que chamamos de Caderno de Conflitos do Brasil.
Existem muitos casos de violência contra os trabalhadores rurais que não são documentados pelos meios de comunicação. Você acredita que os números de violência podem ser maiores do que os que vocês apresentam?
Com certeza. Não temos presença em todas as questões do território nacional. Seguramente a violência e o conflito no campo são maiores do que aquilo que nós sistematizamos.
Além de divulgarem para organizações, impressa e movimentos sociais, vocês costumam usar os dados para estimular a proposição de políticas públicas ou enviam para algum órgão do governo?
O entendimento que nós temos é que quem tem que se apropriar dessa luta, dos mecanismos de organização, de pautar suas reivindicações são os próprios trabalhadores. Eles que têm que ser protagonistas das suas ações, diretamente ou por meio de suas organizações. A Comissão Pastoral da Terra não é uma organização representativa, é uma entidade de serviço. O entendimento que temos é que, ao atualizar o banco de dados, fazermos algumas interpretações e análises e devolvemos isso para os protagonistas da ação do campo. Eles se encontram dentro do conflito e consequentemente buscarão, através de seus pares, formulação de políticas públicas ou enfrentamento daqueles que de fato devem enfrentar como o próprio agronegócio, no caso, e as reivindicações para o governo ou a pressão em cima daqueles de fato têm provocando conflitos.
Os números de pessoas assassinadas por conflitos no campo costuma ser maior na região Norte. Eu gostaria de saber sua opinião em relação a esse dado. Por que nessa região?
Vários fatores. A CPT na verdade surgiu na região Norte, no Pará e depois se espalhou pelo território nacional rapidamente porque foi compreendido que o conflito do campo não é um "privilégio" da região. Infelizmente é uma realidade nacional. Agora o que nós temos observado é que a pressão do modelo do agronegócio no centro-sul do país, onde o agronegócio tem mais voracidade e se apropriou da terra, pressiona outras culturas para que migrem. Principalmente a questão da pecuária nas áreas de fronteiras. Por isso que alguns estados, em especial os que estão mais na fronteira com o centro-oeste e fazem essa transição centro-oeste-norte é que são mais pressionados. Então por isso que o Pará, Rondônia e Tocantins, por assim dizer, são os três estados que fazem essa "entrada na região" onde nós sempre vamos encontrar uma incidência de violência maior.
É a pressão do modelo que faz com que a própria pecuária se expanda para a região, e para que haja espaço para a pecuária e todos os madeireiros, as comunidades tradicionais são pressionadas. Em conseqüência disso há reação e resistência: esse conflito entre o interesse do capital e a luta pela vida dos trabalhadores e trabalhadoras.
Neste relatório é possível perceber também um aumento significativo de todos os dados de conflitos no campo na região Sudeste, regiões que são mais conhecidas por suas cidades...
E é estranho... quer dizer, deveria causar não só uma estranheza, mas uma indignação de nossa parte. O sudeste, tido como a região mais desenvolvida do país, é onde encontramos a maior concentração de conflitos e principalmente trabalho escravo. Não digo que isso é uma aberração, mas é no mínimo um alerta para a sociedade brasileira de que nós não podemos conviver pacificamente com essa situação, com a alta exploração e inclusive com a condição de trabalho escravo nos estados desenvolvidos como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Acha que isso é um indicador de que nossa produção não está caminhando para uma produção mais ecológica e socialmente justa?
No agronegócio não existe essa questão de uma produção ecologicamente correta e nem justa nas relações trabalho. Ele visa o lucro. Por isso que, nessas regiões onde o agronegócio se consolidou e teve respaldo, inclusive de políticas de governo, consequentemente vamos encontrar o capital mais livre e, por causa da impunidade, nós não encontramos fazendeiros presos porque escravizaram, mesmo isso sendo um crime. Muito menos que perdem seus bens ou que sejam castigos por alguma questão. Essa impunidade no campo é que um dos grandes fatores que continua fomentando e gerando crimes e permitindo a pressão da violência no campo.
Acredita que existe algum caminho para diminuir reverter esse quadro e diminuir os índices de violência no campo?
O caminho é a reforma agrária em primeiro lugar. Reforma agrária, no sentido da desapropriação dos latifúndios, reconhecimento dos territórios tradicionalmente apropriados pelas comunidades, tanto áreas indígenas, como os quilombolas, os territórios dos ribeirinhos. Temos que ter uma regularização fundiária e a desapropriação dos latifúndios. Se isso não ocorrer, os proprietários desse mecanismo vão continuar fazendo com que as terras cumpram um único objetivo: gerar lucro. E não gerar alimento ou um lugar para se viver, mas um lugar para se produzir, produzir lucro.
POLICIAIS OU JAGUNÇOS?
Xinguara-PA, 25 de novembro de 2009.
Frei Henri Burin des Roziers
COMISSÃO PASTORAL DA TERRA DO SUL E SUDESTE DO PARÁ.
Polícia do Pará pisa os direitos humanos.
Segundo os relatos de trabalhadores rurais cerca de 200 policiais civis e militares, vários deles embriagados, realizaram operações nessas ultimas semanas nos acampamentos da Fazenda Rio Vermelho, Castanhais e Espírito Santo, todas na região de Xinguara.
Espancaram, torturaram até mulher grávida, humilharam, ameaçaram de prisão e de morte, apontaram armas para os trabalhadores, apreenderam pertences das famílias e destruíram suas roças.
Apenas para os 2 primeiros acampamentos existia ordem judicial de busca e apreensão de armas e munições e ainda assim a policia agiu com violência e arbitrariedade, extrapolando totalmente os limites da legalidade e ferindo a dignidade e os direitos humanos dos trabalhadores e trabalhadoras acampadas.
No dia 12.11.09, no Acampamento Alto Bonito, na Fazenda Castanhais, chegaram cerca de 50 policiais, dentre os quais, membros da Delegacia de Conflitos Agrários (DECA), Policiais Militares e integrantes da Tropa de Choque. Os acampados relatam que homens e mulheres foram constantemente humilhados e até ameaçados de morte pela policia durante a operação. Sofreram muita violência psicológica, a fim de que identificassem pelo nome todos os lavradores, bem como os coordenadores.
Destaca-se em particular a arbitrariedade e violência da policia com relação à lavradora Neidiane Rodrigues Resplandes, que mesmo estando grávida de poucos meses, foi obrigada a caminhar cerca de meio quilômetro, debaixo de ofensas e xingamentos. Após uma sequencia de tortura psicológica para que dissesse os nomes dos coordenadores e onde estavam as armas, a mulher passou mal e teve sangramento ali mesmo na frente dos policiais, que ao perceberem o estado da lavradora, colocaram-na no carro e a deixaram no Acampamento.
Segundo os acampados, nenhuma arma de fogo foi apreendida, mas a policia levou muitas ferramentas de trabalho, tais como: facões, facas de cozinha, machados, bomba costal, uma antena de celular, alguns quilos de arroz, feijão, documentos pessoais, 06 motocicletas e até os galões de pegar água no córrego. Nenhuma família sabe para onde foram levados os seus pertences.
Dois dias depois, em 14.11.09, foi a vez do Acampamento João Canuto, na Fazenda Rio Vermelho, aonde chegaram cerca de 200 policiais, incluindo aproximadamente 15 militares da cavalaria. Esses cavaleiros adentraram as roças dos lavradores e destruíram parcialmente as plantações de milho, mandioca e feijão. Durante a revista, os policiais levaram também vários objetos pessoais das famílias, inclusive 02 bandeiras do MST e 04 facões.
Contudo a maior demonstração de vandalismo e brutalidade da policia ocorreu no Acampamento Vladimir Maiakovisk, na Fazenda Espírito Santo. Na noite de 22.11.09, por volta das 19:00, chegaram cerca de 30 policiais militares do GOE (Grupo de Operações Especiais) e passaram a agredir os acampados. Eles desceram do ônibus trajando shorts e camisas tipo regata, todos armados com pistolas, rifles e espingardas calibre 12, gritavam xingamentos e palavras de baixo calão.
Um dos policiais fez a lavradora Rita de Cássia deitar no chão e apontou uma espingarda calibre 12 para a sua cabeça. Outro militar ameaçou de morte o acampado Weston Gomes e lhe deu um soco, na altura da costela. Outro policial apontou a arma para a agricultora Elione, abriu e chutou a sua bolsa.
Conforme as declarações dos acampados, a maioria dos policiais demonstrava visíveis sinais de embriaguez alcoólica e em nenhum momento apresentaram qualquer ordem judicial para adentrar e revistar o acampamento.
Lembramos que no IV Seminário Nacional da Proteção de Defensores de Direitos Humanos, estava presente a Comissária da ONU para assuntos de Direitos Humanos, Navy Pillay, que advertiu sobre excessos cometidos por policiais: "Agentes policiais tem que saber que não podem abusar de seu exercício profissional".
Parece que essa advertência não significa nada para esses policiais e seus superiores, pois o que se observa é a repetição das praticas violentas e de banditismo que caracterizaram a "Operação Paz no Campo" ocorrida no Sul do Pará em novembro de 2007 e que ficou conhecida pelos movimentos sociais como o "Terror no Campo". Até quando isso vai continuar?
TRUCULÊNCIA E DESPREPARO DE CORONEL DA PM E DE DELEGADO GERAL DA POLICIA CIVIL DO PARÁ QUASE CAUSA NOVO MASSACRE EM ELDORADO DOS CARAJÁS
Marabá – PA, 09 de novembro de 2009. Comissão Pastoral da Terra - CPT do sul e sudeste do Pará
Por pouco não termina em tragédia uma ação das Polícias Militar e Civil do Estado do Pará, na curva do “S”, mesmo local onde ocorreu o massacre de Eldorado em 17 de abril de 1996. O fato lamentável ocorreu na tarde da última sexta-feira, no momento em que mais de mil trabalhadores ligados ao MST faziam uma manifestação pacífica no local.
No início da manhã os trabalhadores interditaram a Rodovia PA 150 como forma de pressão para exigir a abertura de negociação por parte do governo do Estado. Por volta das 11 horas da manhã, sem que a polícia estivesse no local, os trabalhadores decidiram por si mesmos desinterditar a estrada. A situação permaneceu totalmente tranqüila, com o tráfego de veículos restabelecido até por volta das 14 horas, quando chegaram ao local o Delegado Geral de Polícia Civil, Raimundo Benassuly, e o coronel Leitão da Polícia Militar acompanhados de aproximadamente 70 policiais do batalhão de choque.
Demonstrando total despreparo e usando de truculência desmedida, sem dar chance para qualquer tipo de diálogo, o coronel e o delegado partiram para cima dos trabalhadores que se aglomeraram nas imediações da pista, gritando de forma descontrolada que estavam ali para prender quem estivesse à frente. O Delegado Geral, Raimundo Benassuly, sacou uma pistola e ameaçou atirar nos trabalhadores que se aproximavam. Vendo a ação do delegado, outros policiais fizeram o mesmo, e, em seguida prenderam três trabalhadores sem qualquer motivo. O delegado Benassuly é o mesmo que no início do governo de Ana Júlia, quando uma adolescente foi colocada na cela com mais de 15 presos por mais de 20 dias, tentou justificar a ação criminosa afirmando que a adolescente deveria ter algum problema mental. Foi afastado em razão desta declaração, mas, foi reconduzido ao cargo por ordem da Governadora.
O advogado da CPT de Marabá, José Batista Gonçalves Afonso e os Defensores Públicos Rossivagner e Arclébio, que se encontravam no local desde o período da manhã, ainda tentaram acalmar a fúria do Delegado e do Coronel, no entanto, foram empurrados e ameaçados de prisão. As centenas de trabalhadores que, em sua maioria, portavam pedaços de paus e facões, só recuaram mediante aos insistentes pedidos do Advogado da CPT. Enquanto os trabalhadores eram acalmados pelo advogado da CPT e pelos Defensores Públicos, o Coronel e o Delegado continuavam provocando o conflito afirmando que não temiam o confronto e nem se importavam com o fato político que pudesse gerar ali. Que vieram para desobstruir a estrada de qualquer jeito, sendo que, a estrada já estava liberada muito antes de eles chegarem. Ameaçaram ainda quebrar as barracas armadas pelas famílias para se abrigarem do sol. Só não o fizeram porque os trabalhadores decidiram desmontá-los antes. Apavoradas, mulheres e crianças correram para dentro do mato, várias pessoas passaram mal, inclusive, algumas que foram feridas no massacre em 1996.
O advogado da CPT foi categórico em afirmar que, caso ele e os defensores públicos não estivessem no local, uma tragédia poderia ter acontecido, pois os dois policiais chegaram com intenção de provocar o confronto com os sem terra e estavam totalmente descontrolados, sem quaisquer condições de dialogar sequer com o advogado e os defensores. Todos os policiais do batalhão de choque estavam com as tarjas de identificações cobertas. A CPT vai acionar judicialmente o Delegado e o Coronel pelo crime de abuso de autoridade.
A ação desmedida do Coronel, do Delegado e também da Governadora contra o MST se deu devido à destruição, no meio da semana, de casas da fazenda Maria Bonita de propriedade do banqueiro Daniel Dantas. O governo do Estado e os fazendeiros acusam o MST por este fato e há, inclusive, um pedido de prisão preventiva contra Charles Trocate, líder do MST, que nem se encontrava no Estado do Pará quando o fato aconteceu.
O grupo de Dantas já comprou mais de 50 fazendas na região, a maioria das propriedades adquiridas na região de Marabá, incide sobre área dos castanhais, cuja legislação estadual (Lei nº 913/54; Decreto Lei nº 57/69; Decreto Lei nº 7.454/71) impõe aos detentores desses imóveis, dentre outras obrigações, a de manter preservadas as áreas de castanhais, priorizando seu extrativismo, bem como ter autorização do Estado para vender o imóvel a terceiros. O Estado do Pará não foi consultado sobre as vendas para o grupo de Daniel Dantas e, em todos os imóveis, os castanhais foram destruídos e substituídos por capim. Além dessas infrações, em quase todas as fazendas há incorporação ilegal de terra pública aos imóveis. Este fato já foi comprovado na Fazenda Cedro, localizada em Marabá.
A partir de denúncia feita pela CPT de Marabá à Ouvidoria Agrária Nacional, foi requerida uma fiscalização do IBAMA nos imóveis do grupo ocupados pelos trabalhadores sem terra. Em 15.04.09, na fazenda Espírito Santo, fiscais do órgão ambiental registraram que não há cobertura vegetal nos 10.599 hectares que compõe a fazenda. O grupo de Daniel Dantas foi multado em 50 milhões de reais e foi dado um prazo de 120 dias para a retirada do gado. Na Fazenda Maria Bonita, os fiscais identificaram que não existia Licença Ambiental Rural para exercer atividade de agropecuária. O grupo Dantas foi multado em 7 milhões de reais e embargada qualquer atividade na propriedade. Por ter sido detectado a ausência total de cobertura vegetal em 6.316 hectares, o grupo foi multado em R$ 31 milhões de reais. Foi dado também um prazo de 120 dias para a retirada do gado da propriedade. Mesmo com esse rol de crimes em suas propriedades, a governadora e o poder judiciário insistem em manter as terras nas mãos do banqueiro, preso pela Polícia Federal, por duas vezes, por desviar recursos públicos.
De janeiro a outubro do ano corrente, segurança e pistoleiros das fazendas do banqueiro já assassinaram um trabalhador sem terra e balearam gravemente outros 17 sem terra no interior das propriedades. Todos os crimes continuam impunes. Nos dois anos e 10 meses de governo de Ana Júlia, apenas no sul e sudeste do Estado, foram 66 fazendas ocupadas por 10.599 famílias; 101 trabalhadores e lideranças foram ameaçados de morte; 23 trabalhadores foram feridos a bala por pistoleiros e seguranças de fazendas; 17 trabalhadores foram assassinados na luta pela terra e 128 foram presos. Os conflitos agrários no Estado do Pará são problemas sociais da maior gravidade que a governadora, a exemplo de seus antecessores, insiste em resolver com casos de polícia. Enquanto isso, pistoleiros e mandantes dos crimes gozam de total impunidade.
Fórum Social Mundial fará balanço da última década
03/11/2009
O Fórum Grande Porto Alegre será o primeiro de vários eventos programados em diversos países ao longo de 2010, quando o FSM terá, mais uma vez um formato descentralizado. Entre as atividades já definidas para o encontro no Rio Grande do Sul, está o Seminário FSM 10 Anos, promovido pelo Grupo de Apoio ao Fórum Social Mundial. A idéia é debater não só a experiência passada do Fórum, mas principalmente seu futuro. Logo após o encontro de Porto Alegre, Salvador sediará o Fórum Social da Bahia, que reunirá representantes da América Latina e da África.
Redação - Carta Maior
A capital gaúcha e sete cidades da Região Metropolitana receberão, entre 25 e 29 de janeiro de 2010, o Fórum Social 10 Anos Grande Porto Alegre. Além de celebrar os 10 anos de atividades do FSM, o encontro fará um balanço deste período de lutas em defesa de um modelo de globalização alternativo ao construído nas últimas décadas.
O Fórum Grande Porto Alegre será o primeiro de vários eventos programados em diversos países ao longo de 2010, quando o FSM terá, mais uma vez um formato descentralizado. Entre as atividades já definidas para o encontro no Rio Grande do Sul, está o Seminário FSM 10 Anos, promovido pelo Grupo de Apoio ao Fórum Social Mundial. A idéia é debater não só a experiência passada do Fórum, mas principalmente seu futuro.
O evento está sendo organizado por entidades gaúchas com o apoio dos governos dos sete municípios onde ocorrerão as atividades (Porto Alegre, Canoas, Sapucaia do Sul, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Campo Bom e Sapiranga).
Além do seminário de avaliação do FSM, que ocorrerá em Porto Alegre, também estão confirmados o Acampamento Intercontinental da Juventude, entre 18 e 28 de janeiro, em Novo Hamburgo, o I Fórum Mundial de Economia Solidária e a I Feira Mundial de Economia Solidária, de 22 a 24 de janeiro, em Santa Maria. Ainda em Porto Alegre, de 25 a 29 de janeiro de 2010, será realizada uma grande oficina sobre o mundo do trabalho. Esse encontro debaterá o impacto da crise econômica internacional sobre o trabalho e a qualidade dos empregos e dos ambientes de trabalho hoje em dia.
Da Bahia a Dakar
Logo após o encontro no RS, ocorrerá em Salvador, entre 29 e 31 de janeiro, o Fórum Social da Bahia. O tema central do evento, construído em conjunto com o FSM 10 Anos, será “Da Bahia a Dakar: enfrentar a crise com integração, desenvolvimento e soberania”. “Esta passagem do FSM por Salvador será uma contribuição muito preciosa para o Fórum de Dakar, no Senegal, em 2011, pois esta foi a principal porta de entrada de africanos, vítimas da escravidão. A idéia é estabelecer um diálogo entre cidades com culturas semelhantes”, explica José Luiz Del Roio, representante do Fórum Mundial de Alternativas à Crise.
Representantes de governos e movimentos sociais da América Latina e da África participarão, em Salvador, do Fórum de Diálogos e Controvérsias, que discutirá novas políticas econômicas, sociais e ambientais.
Agrotóxicos no seu estômago
Na safra passada, as empresas transnacionais (Basf, Bayer, Monsanto, Du Pont, Sygenta, Bungue, Shell...), comemoraram que o Brasil se transformou no maior consumidor mundial de venenos agrícolas. Foram despejados 713 milhões de toneladas! Média de 3.700 quilos por pessoa.
João Pedro Stédile
01/11/2009
(*) Artigo publicado originalmente no jornal O Globo
Os porta-vozes da grande propriedade e das empresas transnacionais são muito bem pagos para todos os dias defender, falar e escrever de que no Brasil não há mais problema agrário. Afinal, a grande propriedade está produzindo muito mais e tendo muito lucro. Portanto, o latifúndio não é mais problema para a sociedade brasileira. Será? Nem vou abordar a injustiça social da concentração da propriedade da terra, que faz com que apenas 2%, ou seja, 50 mil fazendeiros, sejam donos de metade de toda nossa natureza, enquanto temos 4 milhões de famílias sem direito a ela.
Vou falar das consequências para você que mora na cidade, da adoção do
modelo agrícola do agronegócio. O agronegócio é a produção de larga escala, em monocultivo, empregando muito agrotóxicos e máquinas. Usam venenos para eliminar as outras plantas e não contratar mão de obra. Com isso, destroem a biodiversidade, alteram o clima e expulsam cada vez mais famílias de trabalhadores do interior.
Na safra passada, as empresas transnacionais, e são poucas (Basf, Bayer,
Monsanto, Du Pont, Sygenta, Bungue, Shell química...), comemoraram que o
Brasil se transformou no maior consumidor mundial de venenos agrícolas.
Foram despejados 713 milhões de toneladas! Média de 3.700 quilos por pessoa. Esses venenos são de origem química e permanecem na zatureza. Degradam o solo. Contaminam a água. E, sobretudo, se acumulam nos alimentos.
As lavouras que mais usam venenos são: cana, soja, arroz, milho, fumo,
tomate, batata, uva, moranguinho e hortaliças. Tudo isso deixará resíduos
para seu estômago. E no seu organismo afetam as células e algum dia podem se transformar em câncer.
Perguntem aos cientistas aí do Instituto Nacional do Câncer, referência de
pesquisa nacional, qual é a principal origem do câncer, depois do tabaco? A
Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) denunciou que existem no
mercado mais de vinte produtos agrícolas não recomendáveis para a saúde
humana. Mas ninguém avisa no rótulo, nem retira da prateleira.
Antigamente, era permitido ter na soja e no óleo de soja apenas 0,2 mg/kg de resíduo do veneno glifosato, para não afetar a saúde. De repente, a Anvisa autorizou os produtos derivados de soja terem até 10,0 mg/kg de glifosato, 50 vezes mais. Isso aconteceu certamente por pressão da Monsanto, pois o resíduo de glifosato aumentou com a soja transgênica, de sua propriedade.
Esse mesmo movimento estão fazendo agora com os derivados do milho.
Depois que foi aprovado o milho transgênico, que aumenta o uso de veneno, querem aumentar a possibilidade de resíduos de 0,1 mg/kg permitido para 1,0 mg/kg.
Há muitos outros exemplos de suas consequências. O doutor Vanderley Pignati, pesquisador da UFMT, revelou em suas pesquisas que nos municípios que têm grande produção de soja e uso intensivo de venenos os índices de abortos e má formação de fetos são quatro vezes maiores do que a média do estado.
Nós temos defendido que é preciso valorizar a agricultura familiar,
camponesa, que é a única que pode produzir sem venenos e de maneira
diversificada. O agronegócio, para ter escala e grandes lucros, só consegue
produzir com venenos e expulsando os trabalhadores para a cidade.
E você paga a conta, com o aumento do êxodo rural, das favelas e com o
aumento da incidência de venenos em seu alimento.
Por isso, defender a agricultura familiar e a reforma agrária, que é uma
forma de produzir alimentos sadios, é uma questão nacional, de toda
sociedade.
Não é mais um problema apenas dos sem-terra. E é por isso que cada vez que o MST e a Via Campesina se mobilizam contra o agronegócio, as empresas transnacionais, seus veículos de comunicação e seus parlamentares, nos atacam tanto.
Porque estão em disputa dois modelos de produção. Está em disputa a que
interesses deve atender a produção agrícola: apenas o lucro ou a saúde e o bem-estar da população? Os ricos sabem disso e tratam de consumir apenas produtos orgânicos.
E você precisa se decidir. De que lado você está?
João Pedro Stédile é economista e integrante da coordenação nacional do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
MST - Nota de esclarecimento sobre os recentes acontecimentos
14/10/2009
Diante dos últimos episódios que envolvem o MST e vêm repercutindo na mídia, a direção nacional do MST vem a público se pronunciar.
1. A nossa luta é pela democratização da propriedade da terra, cada vez mais concentrada em nosso país. O resultado do Censo de 2006, divulgado na semana passada, revelou que o Brasil é o país com a maior concentração da propriedade da terra do mundo. Menos de 15 mil latifundiários detêm fazendas acima de 2,5 mil hectares e possuem 98 milhões de hectares. Cerca de 1% de todos os proprietários controla 46% das terras.
2. Há uma lei de Reforma Agrária para corrigir essa distorção histórica. No entanto, as leis a favor do povo somente funcionam com pressão popular. Fazemos pressão por meio da ocupação de latifúndios improdutivos e grandes propriedades, que não cumprem a função social, como determina a Constituição de 1988.
A Constituição Federal estabelece que devem ser desapropriadas propriedades que estão abaixo da produtividade, não respeitam o ambiente, não respeitam os direitos trabalhistas e são usadas para contrabando ou cultivo de drogas.
3. Também ocupamos as fazendas que têm origem na grilagem de terras públicas, como acontece, por exemplo, no Pontal do Paranapanema e em Iaras (empresa Cutrale), no Pará (Banco Opportunity) e no sul da Bahia (Veracel/Stora Enso). São áreas que pertencem à União e estão indevidamente apropriadas por grandes empresas, enquanto se alega que há falta de terras para assentar trabalhadores rurais sem terras.
4. Os inimigos da Reforma Agrária querem transformar os episódios que aconteceram na fazenda grilada pela Cutrale para criminalizar o MST, os movimentos sociais, impedir a Reforma Agrária e proteger os interesses do agronegócio e dos que controlam a terra.
5. Somos contra a violência. Sabemos que a violência é a arma utilizada sempre pelos opressores para manter seus privilégios. E, principalmente, temos o maior respeito às famílias dos trabalhadores das grandes fazendas quando fazemos as ocupações. Os trabalhadores rurais são vítimas da violência. Nos últimos anos, já foram assassinados mais de 1,6 mil companheiros e companheiras, e apenas 80 assassinos e mandantes chegaram aos tribunais. São raros aqueles que tiveram alguma punição, reinando a impunidade, como no caso do Massacre de Eldorado de Carajás.
6. As famílias acampadas recorreram à ação na Cutrale como última alternativa para chamar a atenção da sociedade para o absurdo fato de que umas das maiores empresas da agricultura - que controla 30% de todo suco de laranja no mundo - se dedique a grilar terras. Já havíamos ocupado a área diversas vezes nos últimos 10 anos, e a população não tinha conhecimento desse crime cometido pela Cutrale.
7. Nós lamentamos muito quando acontecem desvios de conduta em ocupações, que não representam a linha do movimento. Em geral, eles têm acontecido por causa da infiltração dos inimigos da Reforma Agrária, seja dos latifundiários ou da policia.
8. Os companheiros e companheiras do MST de São Paulo reafirmam que não houve depredação nem furto por parte das famílias que ocuparam a fazenda da Cutrale. Quando as famílias saíram da fazenda, não havia ambiente de depredações, como foi apresentado na mídia. Representantes das famílias que fizeram a ocupação foram impedidos de acompanhar a entrada dos funcionários da fazenda e da PM, após a saída da área. O que aconteceu desde a saída das famílias e a entrada da imprensa na fazenda deve ser investigado.
9. Há uma clara articulação entre os latifundiários, setores conservadores do Poder Judiciário, serviços de inteligência, parlamentares ruralistas e setores reacionários da imprensa brasileira para atacar o MST e a Reforma Agrária. Não admitem o direito dos pobres se organizarem e lutarem.
Em períodos eleitorais, essas articulações ganham mais força política, como parte das táticas da direita para impedir as ações do governo a favor da Reforma Agrária e "enquadrar" as candidaturas dentro dos seus interesses de classe.
10. O MST luta há mais de 25 anos pela implantação de uma Reforma Agrária popular e verdadeira. Obtivemos muitas vitórias: mais de 500 mil famílias de trabalhadores pobres do campo foram assentados. Estamos acostumados a enfrentar as manipulações dos latifundiários e de seus representantes na imprensa.
À sociedade, pedimos que não nos julgue pela versão apresentada pela mídia. No Brasil, há um histórico de ruptura com a verdade e com a ética pela grande mídia, para manipular os fatos, prejudicar os trabalhadores e suas lutas e defender os interesses dos poderosos.
Apesar de todas as dificuldades, de nossos erros e acertos e, principalmente, das artimanhas da burguesia, a sociedade brasileira sabe que sem a Reforma Agrária será impossível corrigir as injustiças sociais e as desigualdades no campo. De nossa parte, temos o compromisso de seguir organizando os pobres do campo e fazendo mobilizações e lutas pela realização dos direitos do povo à terra, educação e dignidade.
São Paulo, 9 de outubro de 2009 DIREÇÃO NACIONAL DO MST
Secretaria Geral Escritório Nacional do MST/RJ Rua Pedro I, Sl 803, Centro, Rio de Janeiro/RJ Fone: (21) 2240.8496
Fiscalização apreende 1 milhão de litros de agrotóxicos na Syngenta
Brasília, 5 de outubro de 2009 - 9h50
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) interditou cerca de 1 milhão de litros de agrotóxicos com irregularidades e adulterações, na fábrica da empresa Syngenta, de origem suíça, em Paulínia (SP). Os problemas foram encontrados após fiscalização da Agência, realizada na última semana.
Após três dias nas instalações da maior empresa em vendas de agrotóxicos no Brasil e no mundo no ano de 2008, a equipe da Anvisa encontrou várias irregularidades na importação, produção e comércio de produtos agrotóxicos. A ação contou com apoio da Polícia Federal.
Do total de produtos interditados, 600 mil kg correspondiam a agrotóxicos e componentes com datas de fabricação e de validade adulteradas. Esses produtos não poderão ser utilizados ou comercializados até que se restituam as datas verdadeiras de produção e de validade.
A empresa também foi autuada por destruição total das etiquetas de identificação de lote, data de fabricação e de validade do agrotóxico Flumetralin Técnico Syngenta, igualmente interditado. Vários lotes do mesmo produto também foram interditados por apresentarem certificado de controle de impurezas sem assinatura, data da sua realização ou com data de realização anterior à produção do lote analisado.
O controle de impurezas toxicologicamente relevante no Flumetralin Técnico é obrigatório uma vez que tais impurezas são reconhecidamente carcinogênicas e capazes de provocar desregulação hormonal. Também foram interditados todos os lotes do produto PrimePlus, formulados com os lotes interditados do Flumetralin Técnico.
Outro produto técnico interditado com o certificado de análise insatisfatório (sem assinatura e sem a quantidade real de ingrediente ativo) foi o Score Técnico. Já o agrotóxico Verdadeiro 600 teve as embalagens interditadas por confundir o agricultor quanto ao perigo do produto. Apesar de ser da classe toxicológica mais restritiva, as cores dos rótulos do referido agrotóxico induziam o agricultor a concluir que o produto poderia ser pouco tóxico.
A Syngenta também foi autuada por venda irregular do agrotóxico Acarmate (Cihexatina). A fiscalização da Anvisa identificou que o produto, com venda restrita ao estado de São Paulo, era comercializado para outros estados.
A empresa foi notificada, ainda, a efetuar alterações no sistema informatizado que possui de modo que seja possível controlar efetivamente, lote a lote, a quantidade dos componentes utilizados nos Produtos Formulados. Dentro de 30 dias, a empresa está sujeita a nova fiscalização para verificação do cumprimento das condições estabelecidas na notificação.
As infrações encontradas podem ser penalizadas com a aplicação de multas de até R$1,5 milhão e com o cancelamento dos informes de avaliação toxicológica dos agrotóxicos em que foram identificadas tais irregularidades. Em caso de possibilidade de outras infrações além das administrativas, a Anvisa encaminha representação à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal para possível investigação criminal.
Adulteração
Agrotóxicos são produtos com alto risco para saúde e meio ambiente e, por isso, sofrem restrito controle de três órgãos de governo: Anvisa, IBAMA e Ministério da Agricultura. Alterações na fórmula desses produtos aumentam significativamente as chances do desenvolvimento de diversos agravos à saúde como câncer, toxicidade reprodutiva e desregulação endócrina em trabalhadores rurais e consumidores de produtos contaminados.
Só este ano, a Anvisa já apreendeu, 5,5 milhões de litros de agrotóxicos adulterados. As fiscalizações ocorrem, principalmente, quando são identificados indícios de irregularidades nos produtos acabados.
Leia mais: Fiscalização apreende agrotóxicos adulterados na Bayer Informações: Ascom/Assessoria de Imprensa da Anvisa
O JULGAMENTO DE CESARE BATTISTI
CARTA AOS BRASILEIROS
03/09/2009
Nesta 4ª feira, em plena Semana da Pátria, o Supremo Tribunal Federal apreciará a decisão do governo brasileiro que concedeu refúgio humanitário ao escritor e perseguido político italiano Cesare Battisti.
A coincidência talvez não seja fortuita. Homens de fé podem ver nela a expressão de um desígnio superior a nos apontar o caminho, quando o que está em jogo não é apenas o destino de um homem, mas sim a imagem que temos de nós mesmos como povo e como nação.
Construímos uma identidade nacional ao libertarmo-nos do jugo colonial e também ao optarmos por receber com braços abertos os imigrantes que buscassem abrigo entre nós, para contribuir na construção de um país livre, soberano e justo.
Foi assim que nos vimos e foi assim que nos apresentamos às demais nações:
* como um povo cordial e solidário, que a todos oferece uma oportunidade para aqui trabalharem, prosperarem e serem felizes; e
* como um país generoso e acolhedor, que se recusou a reproduzir a intolerância, o fanatismo e a mesquinhez do Velho Mundo, tanto quanto recusou os laços de subjugação política.
Esta nobre tradição tem expressão fiel em nossa Lei do Refúgio, de 1997, que orgulhosamente afirma: seus preceitos devem ser interpretados "em harmonia com a Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948, com a Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951, com o Protocolo sobre o Estatuto dos Refugiados de 1967 e com todo dispositivo pertinente de instrumento internacional de proteção de direitos humanos com o qual o Governo brasileiro estiver comprometido".
Foi obedecendo à letra e ao espírito da Lei do Refúgio que o ministro da Justiça Tarso Genro, como última instância, outorgou a Cesare Battisti o direito de viver em liberdade e dar sequência à sua carreira literária no Brasil.
É o que explica, de forma cristalina, o maior de nossos juristas, Dalmo de Abreu Dallari:
"De acordo com essa lei, cabe ao ministro da Justiça a decisão final sobre a concessão do refúgio, estando expresso no artigo 33 que 'o reconhecimento da condição de refugiado obstará o seguimento de qualquer pedido de extradição baseado nos fatos que fundamentaram a concessão do refúgio', decisão da qual, segundo a lei, não cabe recurso.
"Assim, pois, no desempenho de suas atribuições legais o ministro da Justiça proferiu uma decisão, criando uma situação jurídica nova, o que não ocorreria com um simples parecer. Lamentavelmente, a imprensa fez confusão e tratou a decisão definitiva do caso como se fosse apenas um parecer do ministro, contribuindo para criar a ilusão de que o caso ainda não foi decidido e que o Supremo Tribunal Federal poderá julgá-lo concedendo a extradição".
Ou seja, há uma lei e ela foi obedecida; há uma jurisprudência firmada em episódios anteriores, quando o STF arquivou os pedidos de extradição a partir da decisão do ministro da Justiça; e o Supremo chegou até mesmo a discutir em 2007 se era ou não constitucional o citado artigo 33 da Lei do Refúgio, concluindo pela afirmativa.
No entanto, inconformada com a decisão legítima e soberana do governo brasileiro, a Itália de Berlusconi move céus e terras para impingir sua pretensão.
Além das inaceitáveis manifestações de achincalhamento das autoridades, instituições e até das mulheres brasileiras, de que tomamos conhecimento pela imprensa, governantes italianos chegaram ao cúmulo de exortar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a rever a decisão do seu ministro da Justiça, desprestigiando-o de uma forma só concebível em repúblicas das bananas.
Dignamente rechaçados, passaram a apostar todas as suas fichas no STF, tentando tangê-lo a anular uma Lei, desconsiderar a jurisprudência, criar um conflito de Poderes e sepultar as tradições humanitárias do povo e da Nação brasileira.
Este é o fulcro da questão: honraremos o sacrifício de Tiradentes, o sofrimento de todos que lutaram pela liberdade e o grito altaneiro de D. Pedro ou vamos deixar que o Velho Mundo novamente nos subjugue às suas imposições e aos seus rancores?
Pois o Brasil não sentencia ninguém à prisão perpétua, muito menos com a inacreditável privação da luz solar, uma recaída nas práticas mais desumanas do passado europeu, como as da Santa Inquisição.
Pois o Brasil anistiou seus perseguidos políticos em 1946 e 1979, no máximo década e meia depois dos episódios que deram pretexto às condenações, enquanto a Itália insiste em manter vivas as feridas dos anos de chumbo e quer jogar um homem inofensivo numa masmorra pelo resto da vida em razão de episódios ocorridos há mais de 30 anos.
Pois o Brasil admitiu sua responsabilidade pelos excessos cometidos por governos autoritários contra seus cidadãos e civilizadamente lhes pediu desculpas e ofereceu reparações, enquanto a Itália continua negando até hoje as torturas praticadas contra prisioneiros da ultra-esquerda durante os anos de chumbo e defendendo os absurdos jurídicos nos quais incidiu, como a aceitação incondicional dos testemunhos de delatores premiados, a retroatividade da Lei e até a possibilidade de manter acusados em prisão preventiva por mais de 10 anos.
E é simplesmente ultrajante que a Itália nos considere tão ingênuos a ponto de acreditarmos que movimentos de contestação envolvendo cerca de diferentes 400 grupos de ultra-esquerda, ao longo da década de 1970, tenha se constituído em atividade criminal e não fenômeno político!
Pois é isto que a Itália passou a afirmar quando percebeu que, pela Lei do Refúgio, Battisti jamais poderá ser extraditado em razão de crimes porventura cometidos no curso de sua militância política (na verdade, falsas acusações contra as quais não pode exercer seu direito de defesa).
Então, depois de emitir contra ele sentenças especificando claramente que se tratava de crimes políticos, capitulados em lei introduzida para o combate à subversão contra o Estado, recorre agora a tergiversações e malabarismos para tentar convencer-nos de que não foi bem assim, muito pelo contrário...
Por tudo isso, nós, brasileiros, esperamos que os ministros do STF sejam coerentes com a Lei, com a jurisprudência, com nossas tradições humanitárias e com nossa dignidade de nação soberana, reconhecendo o refúgio concedido a Cesare Battisti e determinando sua imediata libertação.
CELSO LUNGARETTI
Jornalista, escritor e ex-preso político
Nunca houve tantos escravos como na atualidade, diz pesquisador: Haiti tem
cerca de 300 mil crianças escravizadas
Autor: Pablo Kummetz
Revisão: Roselaine Wandscheer
FONTE:
Deutsche Welle
Agosto 2009
Créditos: DWEstimativas apontam que haja entre 12 milhões e 27 milhões de
escravos, conta o jornalista Benjamin Skinner. Brasil, um dos últimos países
a abolir formalmente a escravidão, é um dos mais proativos no combate ao
tráfico.
Na noite de 22 para 23 de agosto de 1791, a ilha de Santo Domingo (hoje
Haiti e República Dominicana) assistiu ao começo de uma insurreição que
teria um papel decisivo na abolição do tráfico transatlântico de escravos.
Hoje, o 23 de agosto é comemorado pela Unesco como o Dia Internacional deLembrança do Tráfico de Escravos e sua Abolição.
Nunca houve tantos escravos como na atualidade, diz pesquisador: Capa do
livro do jornalista norte-americano Benjamin Skinner
Créditos: AmazonSobre este assunto, a Deutsche Welle entrevistou o
jornalista norte-americano Benjamin Skinner, autor do livro A Crime So
Monstrous: Face-To-Face with Modern-Day Slavery (Um crime tão monstruoso:
face a face com a escravidão hoje). O professor do Carr Center for Human
Rights Policy da Harvard Kennedy School adverte que escravos hoje são muito
mais baratos do que em qualquer outro momento da história da humanidade.
Deutsche Welle: A escravidão é um fato do passado?
Benjamin Skinner: Com certeza, não. Embora existam mais de 300 tratados
internacionais e mais de uma dúzia de convenções universais exigindo o fim
da escravidão e do comércio de escravos, este ainda é um problema que
desafia o mundo moderno. Pessoas e nações presumem que a lei seja suficiente
para erradicar o comércio, mas não é. A abolição legal é um primeiro passo
necessário, mas a abolição real requer a aplicação rigorosa dessa lei para
perseguir os traficantes e proteger e reabilitar as vítimas.
Quantos escravos existem hoje no mundo?
Como a escravidão é ilegal em qualquer parte do mundo, os traficantes
escondem suas vítimas, temendo as autoridades. Em qualquer país, escravos
são uma população oculta. Mas as estimativas mais amplamente aceitas apontam
que haja entre 12,3 milhões e 27 milhões de escravos.
E em números relativos, em comparação com o passado?
Há mais escravos hoje do que em qualquer outro momento da história da
humanidade. Mas, por mais deprimentes que sejam os números absolutos,
podemos encontrar certo consolo no fato de a porcentagem de escravos na
população mundial ser hoje menor. Os três grandes movimentos abolicionistas
do passado de fato trouxeram progressos. Mas ainda há muito a ser feito
neste quarto e último.
O que caracteriza a condição de escravo?
Escravos são pessoas forçadas a prestar um serviço, mantidas ilegalmente e
ameaçadas com violência, sem pagamento e em esquema de subsistência. São
pessoas que não podem fugir de seu trabalho.
Que tipo de trabalho eles fazem hoje em dia?
São usados em todos os ramos da indústria, da agricultura e do setor de
serviços. A maioria é forçada a trabalhar para quitar uma dívida, em muitos
casos herdada de um ancestral. Todo ano, centenas de milhares são forçados a
cruzar fronteiras internacionais para executar trabalhos domésticos ou
manuais, também como pedintes, ou se tornam vítimas de prostituição forçada.
Crianças são obrigadas a lutar em guerras civis brutais; homens e mulheres,
espoliados e obrigados a produzir componentes de produtos de consumo que
você talvez tenha em casa. A escravidão está em todo e em nenhum lugar.
Que motivos levam hoje à escravidão?
As circunstâncias de cada escravo são diferentes, claro, mas há temas
recorrentes. Em primeiro lugar, escravos tendem a vir de comunidades
profundamente empobrecidas e socialmente isoladas. Tendem a ser jovens, do
sexo feminino, com acesso restrito a educação e saúde, e sem qualquer acesso
ao crédito formal. Também costumam viver em áreas onde o domínio da lei é
fraco e criminosos podem tirar vantagem de sua vulnerabilidade e isolamento
para lucrar.
Que países e regiões possuem o maior número de escravos?
O sul da Ásia em geral - e a Índia, em particular - possui mais escravos do
que todo o resto do mundo junto. A abolição do trabalho escravo na Índia,
assim como a do sistema de castas, continua sendo uma promessa não cumprida.
Nos níveis estaduais e distritais, bem como nos *panchayats* [sistema
político indiano que agrupa quatro vilas em volta de uma vila central], a
boa intenção das leis nada significa para os milhões de pessoas forçadas a
trabalhar para pagar uma dívida que, em muitos casos, foi feita gerações
antes.
E na América Latina?
Há centenas de milhares, talvez milhões de escravos na América Latina. O
Haiti tem umas 300 mil crianças escravas. Ofereceram-me uma por 50 dólares
numa rua de Porto Príncipe, a cinco horas de distância da minha casa em Nova
York. Dezenas de milhares são traficadas da América Central e do México para
localidades mais ao norte. Nos Estados Unidos, a maior parte dos escravos é
mexicana ou foi traficada através do México.
Nunca houve tantos escravos como na atualidade, diz pesquisador: Benjamin
Skinner
Créditos: DWIronicamente, o Brasil, um dos últimos países a abolir
formalmente a escravidão, é hoje um dos mais proativos no combate ao
tráfico.
Equipes móveis de inspeção do Ministério brasileiro do Trabalho
resgatam cerca de 5 mil escravos por ano. *Mas infelizmente eles não recebem
aconselhamento ou proteção adequados, e dá para contar nos dedos de uma mão
quantos criminosos foram condenados. Ou seja, quase a metade dos escravos
resgatados volta ao regime escravo. Ainda há muito a ser feito na região.
Qual o papel do Estado em países onde existe escravidão?
A escravidão existe onde os Estados são fracos ou corruptos, mas ela também
pode ser usada por regimes autoritários como forma de controlar a população.
Por exemplo, no Sudão, onde o governo do norte armou e encorajou as milícias
a escravizar durante uma guerra civil de 22 anos. Ou em Mianmar, onde o
governo impõe o regime de corvéia à população rural.
É sabido que, em certos países, é possível libertar um escravo pagando por
ele. Algumas organizações fazem isso. Você considera este um caminho válido?
Certamente não. Por mais que comprar a liberdade de um escravo faça o
comprador se sentir bem, essa prática, na melhor das hipóteses, dá margem à
corrupção. Na pior delas, incentiva o comércio com a miséria humana.
Quanto custa um escravo hoje?
Escravos hoje são mais baratos do que nunca. Presenciei negociações de venda
em quatro continentes e recebi ofertas de 45 dólares na África do Sul até
cerca de 2 mil dólares (na verdade, tratava-se da troca por um carro usado)
na Romênia. Com mais de 1,1 bilhão de pessoas subsistindo com menos de um
dólar por dia, a oferta de potenciais escravos é praticamente ilimitada.
Quais são as consequências tardias da escravidão nas sociedades em que ela
existiu, como nos EUA e na América Latina?
Países que falham em lembrar que a escravidão é um compromisso vivo estão
condenados a viver em insegurança e desigualdade, e em meio a atividades
criminosas. Mas aqueles que se encarregarem da difícil tarefa de eliminar a
escravidão serão recompensados com sociedades mais prósperas e pacíficas. O
que me lembra as palavras de Maya Angelou: "A história, por mais dolorosa
não pode ser 'desvivida'. Mas, se enfrentada com coragem, não precisa ser
revivida".
CONDENAÇÃO DO ELDORADO DOS CARAJAS
DECISÃO Eldorado dos Carajás: STJ mantém condenação de coronel e major
26/08/2009
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou recursos dos policiais militares condenados pela morte de 19 trabalhadores sem-terra em 1996, ocorridas em Eldorado dos Carajás (PA). A defesa pedia a anulação do julgamento, ocorrido em 2002, mas os ministros da Quinta Turma, por unanimidade, consideraram regular a formulação dos quesitos (perguntas sobre o crime) apresentados ao Júri. Com isso, fica mantida a condenação imposta ao coronel Mário Colares Pantoja, 228 anos, e ao major José Maria Pereira de Oliveira, 158 anos e quatro meses.
O juiz que presidiu o Tribunal do Júri formulou os quesitos a serem submetidos aos jurados em uma única série. A defesa queria o reconhecimento da necessidade de formulação de uma série de quesitos para cada uma das 19 vítimas. Para isso, invocou o artigo do Código de Processo Penal segundo o qual, havendo diversos pontos de acusação, serão formuladas séries distintas de quesitos.
A relatora do recurso, ministra Laurita Vaz, não detectou nulidades nos quesitos formulados pelo juiz. Antes de apresentá-los aos jurados, o juiz o faz para a defesa e para a acusação. No caso, a ministra destacou que não houve, por parte da defesa, impugnação dos quesitos naquele momento de apresentação pelo juiz. A defesa também não fez constar na ata do julgamento a arguição de nulidade.
Além disso, a ministra Laurita Vaz ressaltou que a tese da acusação é única, homogênea, já que a conduta imposta aos comandantes foi única (perder o comando da tropa e, com isso, concorrer para os crimes). A relatora destacou que a tese da defesa, assim, também foi única, sendo que a quesitação única não representou prejuízo à sua atuação.
Os trabalhadores sem-terra acabaram mortos durante uma operação de desocupação da rodovia PA-150, acesso à cidade de Marabá (PA), bloqueada pelos manifestantes durante três dias. Eles protestavam contra a demora na desapropriação de terras para reforma agrária. O coronel Pantoja era o comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar de Marabá; o major Oliveira era o comandante da Companhia de Policiamento Militar de Parauapebas (PA).
Os condenados estão respondendo ao processo em liberdade por força de um habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Da decisão do STJ, ainda cabe recurso ao próprio STJ e ao STF.
Uma Silva sucessora de um Silva?
Leonardo Boff -
Teólogo Agosto 2009
Não estou ligado a nenhum partido, pois para mim partido é parte. Eu como intelectual me interesso pelo todo embora, concretamente, saiba que o todo passa pela parte. Tal posição me confere a iberdade de emitir opiniões pessoais e descompromissadas com os partidos.
De forma antecipada se lançou a disputa: Quem será o sucessor do carismático presidente Luiz Inácio Lula da Silva?
De antemão afirmo que a eleição de Lula é uma conquista do povo brasileiro, principalmente daqueles que foram sempre colocados à margem do poder. Ele introduziu uma ruptura histórica como novo sujeito político e isso parece ser sem retorno. Não conseguiu escapar da lógica macro-econômica que privilegia o capital e mantém as bases que permitem a acumulação das classes opulentas. Mas introduziu uma transição de um estado privatista e neoliberal para um governo republicano e social que confere centralidade à coisa pública (res publica), o que tem beneficiado vários milhões de pessoas. Tarefa primeira de um governante é cuidar da vida de seu povo e isso Lula o fez sem nunca trair suas origens de sobrevivente da grande tribulação brasileira.
Depois de oito anos de governo se lança a questão que seguramente interessa à cidadania e não só ao PT: quem será seu sucessor? Para responder a esta questão precisamos ganhar altura e dar-nos conta das mudanças ocorridas no Brasil e no mundo. Em oito anos muita coisa mudou. O PT foi submetido a duras provas e importa reconhecer que nem sempre esteve à altura do momento e às bases que o sustentam. Estamos ainda esperando uma vigorosa autocrítica interna a propósito de presumido “mensalação”. Nós cidadãos não perdoamos esta falta de transparência e de coragem cívica e ética.
Em grande parte, o PT virou um partido eleitoreiro, interessado em ganhar eleições em todos os níveis. Para isso se obrigou a fazer coligações muito questionáveis, em alguns casos, com a parte mais podre dos partidos, em nome da governabilidade que, não raro, se colocou acima da ética e dos propósitos fundadores do PT.
Há uma ilusão que o PT deve romper: imaginar-se a realização do sonho e da utopia do povo brasileiro. Seria rebaixar o povo, pois este não se contenta com pequenos sonhos e utopias de horizonte tacanho. Eu que circulo, em função de meu trabalho, pelas bases da sociedade vejo que se esvaziou a discussão sobre “que Brasil queremos”, discussão que animou por decênios o imaginário popular. Houve uma inegável despolitização em razão de o PT ter ocupado o poder. Fez o que pôde quando podia ter feito mais, especialmente com referência à reforma agrária e à inclusão estratégica (e não meramente pontual) da ecologia.
Quer dizer, o sucessor não pode se contentar de fazer mais do mesmo. Importa introduzir mudanças. E a grande mudança na realidade e na consciência da humanidade é o fato de que a Terra já mudou. A roda do aquecimento global não pode mais ser parada, apenas retardada em sua velocidade. A partir de 23 de setembro de 2008 sabemos que a Terra como conjunto de ecosissitemas com seus recursos e serviços já se tornou insustentável porque o consumo humano, especialmente dos ricos que esbanjam, já psssou em 40% de sua capacidade de reposição.
Esta conjuntura que, se não for tomada a sério, pode levar nos próximos decênios a uma tragédia ecológicohumanitária de proporções inimagináveis e, até pelo final do século, ao desaparecimento da espécie humana. Cabe reconhecer que o PT não incorporou a dimensão ecológica no cerne de seu projeto político. E o Brasil será decisivo para o equilíbrio do planeta e para o futuro da vida.
Qual é a pessoa com carisma, com base popular, ligada aos fundamentos do PT e que se fez ícone da causa ecológica? É uma mulher, seringueira, da Igreja da libertação e amazônica. Ela também é uma Silva, como Lula. Seu nome é Marina Osmarina Silva.
Leonardo Boff é autor do livro Que Brasil queremos? Vozes 2000.
Petropolis, 15 de agosto de 2009.
Acordo costurado pelo Planalto abriga usinas da "lista suja"
Flagradas na exploração de mão-de-obra escrava, as usinas Agrisul, Dcoil e Itarumã se juntaram à lista de 323 empresas que prometem seguir "boas práticas" no campo. CPT e pesquisadora criticam Compromisso Nacional
Por Maurício Hashizume
13/08/2009
Apresentado dentro e fora do país pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como "novo paradigma" no sentido de melhorias para os cortadores em atividade no país, o Compromisso Nacional para Aperfeiçoar as Condições de Trabalho na Cana-de-Açúcar abriga três usinas da "lista suja" do trabalho escravo.
Flagradas na exploração de mão-de-obra escrava, as usinas Agrisul Agrícola Ltda. (conhecida como Debrasa, uma das unidades do reincidente Grupo José Pessoa), em Brasilândia (MS), a Destilaria Centro Oeste Iguatemi Ltda. (Dcoil), pertencente ao médico do trabalho Nelson Donadel, em Iguatemi (MS), e a Energética do Cerrado Açúcar e Álcool Ltda. (constituída para viabilizar a Usina Itarumã), em Itarumã (GO), se juntaram à lista. Ao todo, 323 indústrias processadoras prometeram aplicar itens de "boas práticas" empresariais, como a contratação direta de trabalhadores rurais para plantio e corte da cana-de-açúcar, com o intuito de eliminar a intermediação dos "gatos" (aliciadores).
Fiscalização na Agrisul, em Brasilândia (MS), se deparou com 1011 trabalhadores (a maioria absoluta de indígenas) submetidos a condições análogas à escravidão, em novembro de 2007. Em junho de 2008, 55 cortadores de cana de outra usina do mesmo grupo, em Icém (SP), próximo à divisa com Minas Gerais, estavam sendo vítimas de servidão por dívida. Autorizada pela Justiça, diligência fiscal composta por representantes do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), do Ministério Público do Trabalho (MPT) e Polícia Federal (PF) encontrou documentos pessoais (RG, CPF, Título de Eleitor etc.) de empregados da Agrisul retidos numa mercearia da região. No início de junho, 280 pessoas - entre elas quatro adolescentes (três com 16 anos e um com apenas 13) e 22 mulheres - foram libertadas de área que produzia para a Usina Santa Cruz, em Campos dos Goytacazes (RJ), que também faz parte do Grupo José Pessoa.
A Dcoil também é reincidente no crime de escravidão. Da primeira vez (em 2007), fiscais autuaram a usina, que mantinha 409 escravos (sendo 150 indígenas). Em agosto de 2008, foi flagrada explorando 126 cortadores de cana. A maior parte deles era de migrantes nordestinos. Reinserida na "lista suja" na atualização semestral do último 21 de julho, a Energética do Cerrado, por sua vez, foi pega com 77 vítimas de escravidão vindas do Maranhão.
Cortadores da Usina Santa Cruz não tinham carteira assinada nem equipamentos (Foto: PRT-1)
Para a Secretaria-Geral da Presidência da República, principal articuladora da negociação tripartite (governo, usineiros e trabalhadores) que resultou no Compromisso Nacional, não há contradição. "São ações complementares. O Ministério do Trabalho e Emprego é o órgão do Poder Executivo Federal encarregado de fiscalizar o cumprimento da legislação trabalhista vigente, em todos os setores produtivos, urbanos e rurais, e de punir os infratores. Continuará a fazê-lo com o mesmo rigor, inclusive publicando a chamada ´lista suja´. Já o Compromisso Nacional prevê a adoção de medidas não exigidas pela legislação atual, que extrapolam as obrigações legais".
Na prática, contudo, o acordo instaura um sistema de premiação pública de usinas, com o aval do Palácio do Planalto, completamente alheio ao passivo de irregularidades já cometidas recentemente pelas mesmas empresas. De 2003 até maio de 2009, fiscais do MTE encontraram quadros de escravidão em pelo menos outras 16 usinas que assinaram o Compromisso Nacional. Os empreendimentos flagrados estão espalhados por nove Estados distintos da Federação (Alagoas, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo).
Muitas das usinas fiscalizadas nos últimos anos podem ser incluídas nas próximas atualizações da "lista suja", após a conclusão dos devidos processos administrativos no âmbito do MTE. As três usinas que já estão no cadastro, por exemplo, só poderão deixar oficialmente a lista em julho de 2010 (Dcoil) ou em dezembro de 2010 (Itarumã e Energética do Cerrado). Quem entra só é excluído após dois anos, sem que haja reincidência e após o pagamento de todos os débitos relativos às autuações. Como a validade do Compromisso Nacional também é de dois anos, essas três usinas signatárias passarão, caso não sejam beneficiados por liminares da Justiça, a maior parte do tempo de duração do Compromisso Nacional, que pode ser renovado, na "lista suja".
As perguntas enviadas pela reportagem sobre a possibilidade de exigência de critérios mínimos ou de medidas emergenciais de minimização de passivos trabalhistas básicos (leia abaixo a parte sobre Realidade) para autorizar adesões ao Compromisso Nacional não foram respondidas pela assessoria de imprensa da Secretaria-Geral. O órgão apenas se limitou a alegar que "um compromisso dessa natureza só poderia ser de adesão voluntária".
Também não foi explicada a opção pelo engajamento numa nova iniciativa - que exigirá auditoria, monitoramento e gestão custosos e à parte - em vez de intensificar a fiscalização pelo cumprimento da legislação em vigor, mais especificamente da Norma Regulamentadora (NR) 31, que trata do trabalho rural. No ano passado, o MTE encaminhou notificação em que adverte as usinas sobre as condições de trabalho exigidas por lei. Uma nova notificação reiterando as regras legais foi reenviada este ano às empresas sucroalcooleiras.
Sem respostas
Para além dos casos de descumprimento direto da legislação trabalhista, várias usinas flagradas com escravidão mantêm dívidas milionárias do Fundo de Garantia de Tempo de Serviço (FGTS) e figuram no grupo de empresas em que acidentes de trabalho causaram até três ou mais óbitos.
A "acumulação" de irregularidades também não mereceu atenção da Secretaria-Geral, que evitou se manifestar inclusive sobre o conteúdo do Compromisso Nacional. A Repórter Brasil não obteve a posição do governo a respeito da ausência do fornecimento de comida aos cortadores no acordo - sob alegação dos usineiros de que "o sistema de alimentação é caro e a logística, complicadíssima", alegação essa não confirmada em dados concretos.
Apenas o fornecimento do recipiente térmico, a marmita, acabou como um dos itens obrigatórios do acordo. Não houve ainda posicionamento oficial a propósito do descaso com relação à proposta de mudança do regime de remuneração dos cortadores (definição de piso salarial e fim do pagamento por produção).
A Secretaria-Geral tampouco esclareceu como se dará a "auditoria independente para exercício das atividades de monitoramento do cumprimento das práticas empresariais" prevista no acordo tripartite. Apenas se limitou a declarar que "o cumprimento será fiscalizado por uma comissão tripartite, e as empresas que eventualmente descumprirem as medidas nele previstas serão excluídas".
No caderno editado pela Secretaria-Geral (em três idiomas: Português, Inglês e Espanhol), o ministro Luiz Dulci prevê que o compromisso "vai possibilitar vigoroso salto de qualidade nas condições e relações de trabalho do setor sucroalcooleiro". "O Compromisso Nacional nos dá a certeza de que as melhores práticas trabalhistas já existentes serão de fato universalizadas e novos direitos serão criados, modernizando em definitivo o setor e humanizando plenamente o trabalho canavieiro", acrescenta o ministro, que ocupa o cargo desde 2003.
No lançamento do Compromisso Nacional para Aperfeiçoar as Condições de Trabalho na Cana-de-Açúcar em junho, o presidente Lula definiu o acordo como "um novo paradigma". Em comentário posterior feito no final de julho durante o lançamento do Plano Safra da Agricultura Familiar, o mandatário reforçou a relevância do "acordo histórico", forjado numa série de encontros convocados pela Secretaria-Geral entre julho de 2008 a junho de 2009.
Para Lula, acordo é um "novo paradigma"; CPT e pesquisadora discordam (Foto: Wilson Dias/ABr)
"É um tratado de adesão em que nós começamos com mais de 300 empresários aderindo à humanização do trabalho no corte de cana, que é ônibus de qualidade, que é água de qualidade (...), que é condições sanitárias para um cidadão ir a um banheiro, que é comida quente, que é administrar e fiscalizar (...) a quantidade de cana que o companheiro corta todo dia e que, muitas vezes, ele não vê nem a pesagem", definiu Lula no ato de oficialização das medidas governamentais de fomento a pequenos produtores.
Representantes dos usineiros - União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) e Fórum Nacional Sucroenergético - e dos trabalhadores - Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo (Feraesp) e Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), com suporte da Central Única dos Trabalhadores (CUT) - que participam do diálogo puxado pelo ministro Luiz Dulci continuam repetindo o discurso que lustra o acordo como um "passo inédito e consistente" para a melhoria do cotidiano dos cortadores em atividade no país. De acordo com dados da Unica, quase 850 mil trabalhadores rurais atuam no setor, em 20 diferentes Estados. Pelo menos 323 usinas (das 413 existentes no Brasil) já aderiram ao compromisso.
Combustível limpo?
No mesmo dia do lançamento do Compromisso Nacional, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) divulgou nota pública com críticas ao acordo de "melhores práticas", que prevê a contratação direta (fim da terceirização), o acesso do diretor sindical aos locais do trabalho, o transporte seguro e gratuito, a adoção de mecanismo de aferição de produção previamente acertada com o trabalhador, além do fornecimento de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Para a CPT, "o acordo não acrescenta nada às conquistas já existentes na legislação trabalhista e nos dissídios coletivos, os quais são descumpridos, de forma crônica e contínua, pelas empresas que empregam os canavieiros brasileiros".
A nota da CPT coloca que os beneficiados do acordo mais uma vez serão "os usineiros, os mais recentes ´heróis nacionais´". "De fato, o que se percebe com muita clareza é que o principal objetivo deste acordo precário é preparar o terreno para a certificação social da atividade canavieira pelas empresas, sem mudar suas práticas, mas atestando a ´qualidade´ das condições de trabalho no setor sucroalcooleiro no país, o que não existe", ataca a entidade com atuação na área rural. O Compromisso Nacional, completa a CPT, "visa unicamente sanar a rejeição internacional ao etanol brasileiro, provocada pelas centenas de denúncias que comprovam a relação intrínseca entre a produção de agrocombustível com o trabalho escravo e a devastação do meio ambiente".
O etanol somente é um combustível "limpo", na visão da CPT, "do cano de escape do carro para fora, pois, até chegar lá, o chamado ´biocombustível´ incorpora um altíssimo custo social e ambiental". Portanto, completa a organização religiosa, "não tem como ter certificação social se é inerente ao modelo de produção do etanol a superexploração do trabalho, a degradação ambiental, além da concentração da terra e da renda".
"É hora de recolocar em pauta a aprovação do Projeto de Emenda Constitucional PEC 438/2001, sempre protelada pela bancada ruralista do Congresso Nacional, que prevê a expropriação, para fins de Reforma Agrária, das terras em que forem encontrados trabalhadores em situação análoga à de escravos. É hora de acabar de vez com essa vergonha em nosso país ao invés de tentar ´maquiar´ a realidade de centenas de trabalhadores e trabalhadoras rurais nos mais distantes rincões do campo brasileiro, esquecidos por um governo que os encobre com falsos selos politicamente corretos na busca desenfreada por uma imagem socialmente limpa no mercado agroexportador", conclui a CPT.
Realidade
Enquanto governo, usineiros e representações sindicais apresentavam o "acordo inédito" à sociedade, os trabalhadores da Destilaria Araguaia (antiga Destilaria Gameleira), uma das signatárias do Compromisso Nacional, esperavam o pagamento de salários atrasados. A Araguaia, do Grupo EQM (Eduardo Queiroz Monteiro) foi flagrada duas vezes com trabalho escravo, em 2003 e 2005, com 272 e 1003 libertações, respectivamente. Desde fevereiro deste ano, os salários da usina de cana-de-açúcar de Confresa (MT) estavam sendo parcelados.
Enquanto o presidente Lula recitava loas ao acordo inédito, cortadores ainda não tinham recebido os vencimentos de maio e junho. Mais de 200 pessoas da indústria e do campo - entre eles migrantes do Maranhão, Pernambuco e Alagoas - sofriam com a situação. Muitos já tinham deixado o local em busca de outras fontes de renda. Nessa hora, sempre aparecem atravessadores que "compram as dívidas" que os trabalhadores têm a receber.
Segundo Aparecida Barbosa da Silva, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Confresa (MT), a pressão das representações do Ministério Público do Trabalho (MPT) não bastava para que os pagamentos fossem feitos. Há dois anos, o próprio MPT assinara um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) prevendo condições adequadas de trabalho e remuneração. "Já fizemos greve e algumas das conquistas são frutos da mobilização dos trabalhadores, como é o caso do acordo coletivo", emenda a sindicalista.
"De três em três meses, a água é analisada. Na última análise, a água não estava potável. Falta um poço artesiano", testemunha Aparecida. Os patrões pagam 25% do valor da alimentação, que é fornecida no local. Não há, segundo ela, casos de servidão por dívida. "Eles [empregadores] têm gado na parte pecuária, emendada com a área da usina. Eles põem no nome de terceiros. O gado que tem ali já daria para quitar a dívida", denuncia. Ela lembra que a última fiscalização do grupo móvel na propriedade se deu em 2005. "Este ano eles estão relaxando de novo. Nos últimos meses, muitas usinas da região fecharam. Eles [proprietários] não fecharam, mas também não pagaram".
Estudiosa das condições de trabalho nos canaviais, Maria Aparecida de Moraes Silva, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), salienta que os dois pontos centrais que determinam a superexploração (baixos salários e pagamento por produção continuam intactos. Em média, os cortadores recebem R$ 3 por tonelada de cana e derrubam de 10 a 12 toneladas por dia. "Não vejo nenhuma razão para que haja melhoria real com esse Compromisso Nacional assinado em Brasília".
Chancela
Até a contratação direta, apontada como grande conquista do acordo intersetorial, é vista com ressalvas pela pesquisadora. Ela relata que algumas usinas do Centro-Sul levam médicos - para fazer exames admissionais e selecionar os mais aptos para fazer esforço físico - e contratam cortadores de cana diretamente nos seus locais de origem, principalmente na Região Nordeste. Eles são registrados, transportados e alojados pelas próprias empresas.
A seleção, pondera Maria Aparecida, privilegia trabalhadores que possam viajar sozinhos para o "Sul Maravilha". Ela diz ter encontrado trabalhadores nos municípios de Mendonça (SP) e Novo Horizonte (SP) que vieram ano passado com esposas e filhos e que não voltaram ao Nordeste. Esses cortadores, que optaram pelo convívio em família e não têm como voltar com todos, não foram contratados este ano. "As usinas preferem trabalhadores que migram sozinhos. Essa foi a forma que encontraram para inibir a vinda das famílias", discorre. Como o período nos canaviais chega até a 10 ou 11 meses no ano, essa separação familiar provoca, de acordo com ela, vários efeitos negativos.
A professora da Unesp frisa que, por conta da imensidão dos canaviais, fica muito complicado fiscalizar as condições de trabalho. Por maior que seja o esforço, ela não vê como inibir os incontáveis casos de desrespeito às normas trabalhistas no setor. "É a primeira vez na vida que eu vejo alguém propor o fornecimento de marmita vazia. Isso só faz sentido se tiver a comida. Todo cortador já tem sua marmita. É um item básico", acrescenta. O soro para reposição de potássio, fornecido por algumas usinas, pode ser entendida, na opinião de Maria Aparecida, como uma "grande hipocrisia". "Se os trabalhadores precisam dessa reposição é porque se desgastam além dos limites. Quem trabalha o tempo todo assim, com suplementos alimentares? A cãibra deles é vista como normal e foi inclusive naturalizada".
O avanço da mecanização não resulta apenas no corte de vagas, mas na intensificação do desgaste físico por parte dos cortadores. A cana crua (não queimada) e deitada acaba "sobrando" para os trabalhadores manuais. Antes de fazer o corte, é preciso levantar primeiro os pés do chão, o que demanda um esforço adicional considerável. Muitos trabalhadores trabalham domingos e feriados (não têm descanso semanal remunerado) e, no sistema de trabalho em vigor, a usina impõe o ritmo, completa a pesquisadora.
Procurada, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), que atuou como representante dos cortadores em termos de país na negociação com os usineiros e com o governo, não atendeu aos pedidos de entrevista da Repórter Brasil. A professora Maria Aparecida lamenta a "chancela das representações sindicais" ao Compromisso Nacional. "Infelizmente, eles assinaram embaixo e até levaram trabalhadores para tirar foto ao lado do presidente e dos usineiros. Naquela mesma época do lançamento da iniciativa, dois cortadores foram mortos queimados em canaviais de São Paulo e houve ainda acidentes de ônibus que transportavam trabalhadores rurais".
*Colaborou Maurício Reimberg
Verena Glass
Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis
Reporter Brasil
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Brasil é condenado na OEA por grampos ilegais contra o MST
A Corte Interamericana de Direitos Humanos considerou o país culpado por interceptações telefônicas ilegais feitas no Paraná, em um caso que teve motivação política, participação ativa de agentes públicos e que evidencia a parcialidade da Justiça brasileira e a criminalização dos movimentos sociais.
Da Justiça Global 06/08/2009
Nesta quinta-feira, dia 06 de agosto de 2009, a Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA divulgou a sentença do caso “Escher e outros Vs Brasil”, na qual condena o Brasil pelo uso de interceptações telefônicas ilegais em 1999 contra associações de trabalhadores rurais ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Paraná. O Estado brasileiro foi considerado culpado pela instalação dos grampos, pela divulgação ilegal das gravações e pela impunidade dos responsáveis.
Menos de um ano depois das denúncias de grampo ilegal nas investigações da Polícia Federal ao banqueiro Daniel Dantas, e em meio à polêmica divulgação das gravações sigilosas do filho de José Sarney, o caso evidencia o fato de que, no Brasil, setores da Justiça e da classe política se comportam de maneira distinta em função dos atores envolvidos.
A denúncia à OEA foi feita em dezembro de 2000 pelo MST, pela Justiça Global, pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), pela Terra de Direitos e pela Rede Nacional de Advogados Populares (RENAP). Amanhã, os peticionários irão solicitar uma reunião com o Conselho Nacional de Justiça, Ministério da Justiça e das Relações Exteriores, Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, Câmara dos Deputados, Governo do Paraná, Tribunal de Justiça do Paraná para discutir a implementação da sentença.
(veja a petição enviada à Corte AQUI)
DESCRIÇÃO DO CASO
Em maio de 1999, o então major Waldir Copetti Neves, oficial da Polícia Militar do Paraná, solicitou à juíza Elisabeth Khater, da comarca de Loanda, no noroeste do estado, autorização para grampear linhas telefônicas de cooperativas de trabalhadores ligadas ao MST. A juíza autorizou a escuta imediatamente, sem qualquer fundamentação, sem notificar o Ministério Público e ignorando o fato de não competir à PM investigação criminal. Durante 49 dias os telefonemas foram gravados. A falta de embasamento legal para determinar a escuta demonstra clara intenção de criminalizar os trabalhadores rurais grampeados.
A Secretaria de Segurança Pública do Paraná convocou uma coletiva de imprensa e distribuiu trechos das gravações editados de maneira tendenciosa. O conteúdo insinuava que integrantes do MST planejavam um atentado à juíza Elisabeth Khater e ao fórum de Loanda. O material foi veiculado em diversos meios de imprensa, o que contribuiu para o processo de criminalização que o MST já vinha sofrendo.
O CONTEXTO
O caso aconteceu durante o governo de Jaime Lerner no Paraná, em meio a um processo violento de perseguição aos trabalhadores rurais e aos movimentos sociais paranaenses. Autoridades e ruralistas se uniram em uma campanha que resultou em um aumento dos índices de violência no campo no estado e que, através do uso da máquina do Estado, possibilitou atos de espionagem e criminalização contra trabalhadores organizados. Durante a “Era Lerner”, foram assassinados 16 trabalhadores rurais.
O caso das interceptações telefônicas no Paraná é exemplo emblemático de um processo de criminalização dos movimentos sociais que vem se intensificando a cada dia no Brasil. É notável a articulação feita entre setores conservadores da sociedade civil e do poder público para, através do uso do aparelho do Estado, neutralizar as estratégias de reivindicação e resistência das organizações de trabalhadores. Em setembro de 2000, o Ministério Público do Paraná, através da promotora, Nayani Kelly Garcia, da comarca de Loanda, emitiu parecer que afirma categoricamente que as ilegalidades no processo do caso das interceptações telefônicas “evidenciam que a diligência não possuía o objetivo de investigar e elucidar a prática de crimes, mas sim monitorar os atos do MST, ou seja, possuía cunho estritamente político, em total desrespeito ao direito constitucional a intimidade, a vida privada e a livre associação”.
A SENTENÇA
O Brasil foi condenado a realizar uma investigação completa e imparcial e a reparar integralmente as vítimas pelos danos morais e materiais sofridos em decorrência da divulgação na imprensa das conversas gravadas sem autorização.
A Corte Interamericana da OEA considerou que:
1) O Estado violou o direito à vida privada e o direito à honra e à reputação reconhecidos no artigo 11 da Convenção Americana de Direitos Humanos, em prejuízo das vítimas dos grampos;
2) O Estado violou o direito à liberdade de associação reconhecido no artigo 16 da Convenção Americana, em prejuízo das vítimas, integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra;
3) O Estado violou os direitos às garantias judiciais e à proteção judicial reconhecidos nos artigos 8.1 e 25 da Convenção Americana em prejuízo das vítimas a respeito da ação penal seguida contra o ex-secretário de segurança do Paraná, da falta de investigação dos responsáveis pela primeira divulgação das conversas telefônicas e da falta de motivação da decisão em sede administrativa relativa à conduta funcional da juíza que autorizou a interceptação telefônica.
Na sentença, a Corte Interamericana determina que o Estado deve:
1) indenizar as vítimas dentro do prazo de um ano;
2) como medida de reparação realizar um ato público de reconhecimento de responsabilidade internacional com o objetivo de reparar violações aos direitos à vida, à integridade e à liberdade pessoais;
3) investigar os fatos que geraram as violações;
4) publicar a sentença no Diário Oficial, em outro jornal de ampla circulação nacional e em outro jornal de ampla cirulação no Estado do Paraná, além de em um sítio web da União Federal e do Estado do Paraná. Determinou um prazo de seis meses para os jornais e dois meses para a internet;
5) O Estado deve restituir as custas dos processos;
6) O Estado deverá apresentar um relatório do cumprimento da sentença no prazo de um ano. A Corte supervisará o cumprimento íntegro da sentença e só dará por concluído o caso quando o Estado cumprir integralmente a sentença.
VEJA OS ANEXOS:
- As Ilegalidades do Caso
- A Cronologia do Caso
A crise da mídia e a democracia
Agência Carta Maior
Postado por Emir Sader
02/08/2009
A inquestionável crise da mídia brasileira se choca com um processo de maior democratização da sociedade brasileira o que, por si só, deveria levar a pensar o caráter tanto da imprensa no Brasil, quanto da própria democracia entre nós.
O que está em crise é a forma de produzir notícias, a forma de construção da opinião pública. Seria grave se a dimensão da crise que afeta a mídia refletisse, nas mesmas dimensões, a democracia no Brasil. Ao ler alguns órgãos da imprensa, pode-se ter a impressão que a democracia retrocede e não avança entre nós, que estamos à beira de uma ditadura, ao invés de um processo – lento, mas claro – de democratização da sociedade brasileira.
Cada classe social toma sua decadência como a decadência de toda a sociedade, quando não de toda a humanidade. Neste caso, é uma casta que controlou a formação da opinião pública, de forma monopólica e que, com isso, se considerou depositária dos interesses do país. Derrubou a Getúlio, contribuiu decisivamente para o golpe militar de 1964 e para o apoio a este, uma parte dela tentou desconhecer a campanha pelas eleições diretas, tentou impedir a vitória de Brizola nas primeiras eleições diretas para governador do Rio de Janeiro, apoiou a Collor, esteve a favor de FHC, a ponto de desconhecer a evidente corrupção presente nos escândalos processos de privatização, na compra de votos para a reeleição, entre tantos outros casos. Agora, se coloca, em bloco, contra o governo Lula, o de maior popularidade na história do Brasil, chocando-se assim flagrantemente com a opinião do povo brasileiro.
A mídia tradicional está em crise, a democracia brasileira, não. Porque se amplia significativamente o circulo de produção de opinião, de difusão de noticias, se democratiza a informação e os que são afetados pelo enfraquecimento do seu monopólio oligárquico – em que umas poucas famílias controlavam a mídia – esbravejam. Tentam impedir a realização da Conferência Nacional de Comunicação, convocada para novembro, porque detestam que se debata o tema da democracia e a mídia.
A crise do poder legislativo é parte do velho poder oligárquico, que sobreviveu na passagem da ditadura à democracia, que se vale do fisiologismo para vender seu apoio aos governos de turno. Não por acaso os mesmos personagens envolvidos nas acusações atuais no Congresso apoiariam ao governo FHC e, com o beneplácito da mídia, foram poupados das acusações agora dirigidas contra eles, na tentativa de enfraquecer a base de apoio parlamentar do governo. Enquanto o Brasil se torna mais democrático, com a promoção social de dezenas de milhões de famílias, a estrutura parlamentar reflete o velho mundo oligárquico, similar ao da propriedade da mídia privada.
No momento em que o Brasil precisa de uma nova mídia, uma nova forma de difundir notícias, de promover o debate econômico, político, cultural, a velha mídia resiste em morrer, em dar lugar à democratização que o Brasil precisa. Sabem que a continuidade do governo atual e o aprofundamento dos processos de saída do modelo herdado do governo FHC sepultarão toda uma geração de políticos opositores – derrotados pelas urnas e/ou pela senilidade. Daí seu desespero na luta contra o governo – que conta com 6% de rejeição a Lula, contra 80% de apoio.
A crise da mídia é outro reflexo do velho mundo que desmorona, para dar lugar à construção de um Brasil para todos e não para as elites minoritárias que historicamente o dirigiram.
População mantém poder de compra com reajuste do Bolsa Família
Editado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República
Nº 858 - Brasília, 31 de Julho de 2009
O poder de compra da população atendida pelo Bolsa Família será mantido pelo reajuste de 9,67% no benefício – que incorpora a inflação (INPC) do período entre julho de 2008 e junho de 2009, mais 4% de ganho real. Com a correção, a ser paga a partir de setembro, o valor médio passa de R$ 86 para R$ 95. “O reajuste aquece o mercado interno, o que ajuda diretamente as pequenas economias, barrando o ciclo da crise”, diz o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias.
Além do reajuste, o decreto presidencial 6.917 (publicado no Diário Oficial de sexta-feira 31/07) arredonda o limite para o ingresso no programa. A renda per capita que caracteriza família em situação de pobreza passará de R$ 137 para R$ 140 e em extrema pobreza de R$ 69 para R$ 70. Esses valores foram atualizados em abril de 2009, mas sua aplicação trouxe dificuldades operacionais e de comunicação com as famílias.
Benefícios – As famílias com renda de até R$ 70 por pessoa terão, a partir de setembro, o direito ao benefício básico, de R$ 68, mais o benefício variável de R$ 22 (de acordo com o número de crianças de até 15 anos) no limite de três benefícios, além do benefício de R$ 33 para adolescentes de 16 e 17 anos ( no limite de dois benefícios). Com isso, essas famílias passam a receber valores entre R$ 68 e R$ 200.
No caso das famílias com renda por pessoa de R$ 70 a R$ 140, são pagos apenas os benefícios variáveis: R$ 22,00 (de acordo com o número de crianças de até 15 anos) no limite de três benefícios, além do benefício de R$ 33,00 para adolescentes de 16 e 17 anos (no limite de dois benefícios). Com isso, essas famílias passam a receber de R$ 22 a R$ 132.
Mudanças anteriores – A correção terá um impacto de R$ 406 milhões no orçamento do programa de 2009, que passará de R$ 11,4 bilhões para R$ 11,961 bilhões. Esta é a terceira recomposição dos valores e dos critérios de atendimento em quase seis anos de execução do programa, que serão completados em 20 de outubro. A primeira recomposição nos valores do Bolsa Família de 18,25 % ocorreu em agosto de 2007. Em julho do ano passado, o reajuste foi de 8%. E neste ano chegou a 10%. O critério de renda para ingresso no programa passou de R$ 100 para R$ 120, em 2006. Em abril de 2009, houve outra revisão de R$ 120 para R$ 137. Outra mudança, em março de 2008, foi a inclusão do benefício vinculado ao adolescente de 16 e 17 anos, para que os jovens continuem na escola. Com isso, são atendidos quase dois milhões de adolescentes nessa faixa etária.
TRABALHO ESCRAVO : NOVA LISTA SUJA INCLUI GRANDES PRODUTORES DE FRONTEIRA AGRÍCOLA
REPÓRTER BRASIL
22/07/2009
Criadores de gado bovino e fazendeiros de soja e algodão que atuam em áreas de expansão (como o Oeste da Bahia) foram incluídos no cadastro. Conhecida desmatadora e grandes usinas de álcool também entraram
Por Maurício Hashizume*
Grandes produtores de áreas de expansão da fronteira agrícola foram incluídos, na manhã desta terça-feira (21), na "lista suja" do trabalho escravo - cadastro mantido pelo governo federal que aponta empregadores flagrados na exploração de pessoas em condições análogas à escravidão.
Promovida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a atualização semestral do cadastro confirmou 17 inclusões e 35 exclusões de pessoas físicas e jurídicas responsabilizadas em operações de fiscalização de trabalho escravo. Os nomes são incluídos na "lista suja" após conclusão de processo administrativo gerado a partir da situação encontrada pelos auditores fiscais do trabalho.
Rosana Sorge Xavier, da família que controla o Frigorífico Quatro Marcos, agora faz parte da "lista suja". Entre os 100 maiores desmatadores do país de acordo com ranking do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) do final de 2008, Rosana aparece como segundo maior agente privado devastador do país, com mais de 12,6 mil hectares de floresta - o que lhe rendeu uma multa em torno de R$ 48 milhões. O primeiro lugar absoluto pertence a Léo Andrade Gomes, com 15,2 mil hectares desmatados e mais de R$ 32 mi em multa.
Entre os incluídos, há mais grandes fazendeiros de gado bovino. E assim como Rosana Sorge Xavier, pelo menos dois deles mantém criações de porte nas franjas da Amazônia: Olavo Demari Webber, do Norte do Mato Grosso; e Aurélio Anastácio de Oliveira, escravagista reincidente e dono da Fazenda Iraque, em Eldorado dos Carajás (PA). Regis Francisco Ceolin, pecuarista do Condomínio Agropecuário Ceolin, atua no Oeste baiano.
Além do Condomínio Agropecuário Ceolin, dois outros produtores que entraram para o cadastro de infratores são do Oeste da Bahia, uma das áreas de maior expansão do agronegócio no país. Os dois outros flagrantes que geraram as inclusões se deram, curiosamente, na área da chamada Fazenda Estrondo, em Formosa do Rio Preto (BA).
Na área da Companhia Melhoramentos do Oeste da Bahia (CMOB), que atua tradicionalmente com mineração na região, foram libertados 39 trabalhadores que catavam raízes para viabilizar a produção de soja, em outubro de 2005. Na mesma área da Fazenda Estrondo, mas em outra parte conhecida como Fazenda Indiana (sob a responsabilidade de Paulo Kenji Shimohira), houve 52 libertações de pessoas que faziam a capina de algodão.
Há mais fazendeiros que também entraram para a "lista suja" em decorrência de flagrantes na fronteira agropecuária: Lírio Antônio Parisotto, produtor de soja em Uruçui (PI); Adailto Dantas Cerqueira e Salomão Pires Carvalho, donos de áreas no Maranhão; Elizabete Guimarães de Araújo e Ivan Domingos Paghi, que tiveram suas propriedades no Tocantins flagradas pelo MTE. Adailto, Elizabete e Ivan, na realidade, foram reincluídos na relação por causa da perda do efeito de liminar que excluía os nomes temporariamente.
Usinas e outros casos
Grandes usinas de cana-de-açúcar que também já constaram da "lista suja" também foram reinseridas no cadastro. A Agrisul Agrícola Ltda - conhecida como Usina Debrasa, da Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool (CBAA), que faz parte do Grupo José Pessoa -, de Brasilândia (MS), e a Agropecuária e Industrial Serra Grande (Agroserra), de São Raimundo das Mangabeiras (MA), voltaram a aparecer na "lista suja", divulgada desde o final de 2003.
Uma empresa e um fazendeiro do Ceará, juntamente com o dono de um ferro-velho em Várzea Grande (MT), completam o rol dos infratores incluídos. A Mundial Construções e Limpeza Ltda. foi pega quando explorava trabalhadores no serviço de limpeza diária e roça de linha de transmissão de energia elétrica da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) em Sobral (CE).
O fazendeiro José Nilo, por sua vez, entrou na "lista suja" em função de fiscalização ocorrida nas Fazendas Pirangi e Três Marias, em Beberibe (CE). Já José Nilson dos Santos explorava duas pessoas com deficiência mental no Auto Guincho Jussara, na cidade que fica ao lado da capital Cuiabá (MT).
Com a atualização da "lista suja", 35 nomes (veja lista abaixo) também foram retirados. Apenas Gilson Muller Berneck foi excluído por motivo de liminar da Justiça. Todos os outros saíram após o cumprimento de dois anos no cadastro, combinado com o pagamento de todas as pendências relativas às autuações e a não reincidência na exploração do trabalho escravo contemporâneo.
Inclusões e Exclusões da "Lista Suja" do Trabalho Escravo
Entraram em 21/07/2009
Adailto Dantas de Cerqueira - CPF - 091.906.195-87
Agrisul Agrícola Ltda (Usina Debrasa/CBAA) - CNPJ - 04.773.159/0002-80
Agropec. Ind. Serra Grande Ltda (Agroserra) - CNPJ - 11.035.672/0001-59
Aurélio Anastácio de Oliveira - CPF - 047.691.122-20
Cia Melhoramentos do Oeste da Bahia (CMOB) - CNPJ - 97.435.234/0001-01
Elizabete Guimarães de Araújo - CPF - 576.510.431-20
Ivan Domingos Paghi - CPF - 016.837.008-56
José Nilo Dourado - CNPJ - 02.930.365/0001-40
José Nilson dos Santos - CPF - 111.645.301-00
Lírio Antônio Parisotto - CPF - 213.676.129-34
Mundial Construção e Limpeza - CNPJ - 04.740.962/0001-38
Olavo Demari Webber - CPF - 213.734.340-15
Paulo Kenji Shimohira - CPF - 507.292.766-00
Regis Francisco Ceolin - CPF - 438.282.480-04
Salomão Pires de Carvalho - CPF - 024.354.897-49
Selson Alves Neto - CPF - 159.949.706-97
Rosana Sorge Xavier - CPF - 993.277.088-49
Saíram em 21/07/2009
Alonso Claristino Resende
Altamir Soares da Costa
Antônio Paulo de Andrade
Benedito Gonçalves de Miranda
Célio José de Resende
E.C.I. Empresa de Invest. Partic. e Empreendimentos Ltda
Eduardo Ferreira
Fernandes Lavagnoli
Flávio Teixeira Martins
Francisco de Almeida Leal
Fued Tuma
Gilson Mueller Berneck
Haroldo Luiz de Barros
Indústria Agroflorestal Heyse
Itapicuru Agroindustrial S/A
Espólio de João Neto Moura Macedo
Joaquim Carlos Sabino dos Santos
José Carlos da Silva Porfírio
José Irineu de Souza
Juliano Heringer Branco
Leoni Lavagnoli
Luis Carlos Berti
Luis Otato Neto
Marco Antônio Mattana Sebben
Marco Aurélio Andrade Barbosa
Marco Túlio Andrade Barbosa
Marta Alves Resende
Osvaldo Borges
Paulo Roberto Cunha (Ideal Severino da Cruz)
Raimundo Everardo Mendes Vasconcelos
Rosenval Alves dos Santos
Sérgio Noel de Mello Martins
Vitalmiro Bastos de Moura
Wagner Furiati Nabarrete
Odilon Ferreira Garcia
Projeto de Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil
Trabalho Escravo
Vamos abolir de vez essa vergonha.
NOTA DE PROTESTO: Assentados protestam contra o fim do curso de Direito
Escritório Nacional do MST/RJ
20/07/2009
É com profundo sentimento de indignação e revolta, que vimos nos pronunciar. Por motivo da preconceituosa e frustrante decisão da Justiça Federal de Goiás, proferida no dia 15 de junho deste ano, que por meio de ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal de Goiás, movida em face do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA e da Universidade Federal de Goiás - UFG, determinou a extinção da Turma de Direito para Assentados da Reforma Agrária e Agricultores Familiares Tradicionais.
Sob a alegação de desvio de finalidade no emprego dos recursos do PRONERA, e afirmando que tal fato lesa o patrimônio social, e ainda que, não existe previsão legal de tratamento diferenciado aos beneficiários da Reforma Agrária, a aludida decisão pondera de forma extremamente agressiva que, a existência de nossa turma desrespeita os princípios constitucionais da igualdade, isonomia e razoabilidade.
A parceria entre UFG e INCRA, firmada oficialmente no ano de 2007, a qual deu origem a nossa turma, surgiu a partir da luta dos movimentos sociais e diversos parceiros que buscam, historicamente, a efetivação dos direitos fundamentais da classe trabalhadora - do campo e da cidade - em todo o Brasil. Baseados na necessidade, mais que urgente, de se levar educação superior em diversas áreas do conhecimento, aos trabalhadores rurais, por meio de políticas públicas que visam a superação das, históricas e tão presentes, desigualdades sociais de nosso país.
No dia 17 de agosto de 2007, o Exmo. Ministro do STF, Dr. Eros Roberto Grau, proferiu a aula inaugural do nosso curso, composto por 60 alunos advindos do meio rural e, originários de 19 estados da federação brasileira. Ocorrendo nesta solenidade de abertura, em meio a Cidade de Goiás-GO, o estabelecimento de um marco na história do ensino jurídico no Brasil.
Desde o momento em que iniciamos o curso, somos alvo de ataques promovidos por sujeitos contrários à presença de trabalhadores e trabalhadoras rurais na universidade pública. Fazendo tudo isso de forma não menos violenta do que a utilizada para defender a grilagem e a concentração da terra. Tais sujeitos externam sua reação agressiva sempre fazendo uso da grande mídia e de agentes de instituições estatais, como o Ministério Público Federal e o próprio Judiciário.
Atualmente, apesar da sentença extintiva, encerramos o 4º semestre letivo do curso de direito na compreensão de que nada do que está sendo feito contra nossa turma terá sustentação duradoura, vez que, fere ao mesmo tempo, a razão de Estado Democrático Social de Direito.
Mesmo na situação de política pública de educação, o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária - PRONERA, apesar de tantos resultados importantes desde sua criação, vem sofrendo desde 1998, absurdas reduções orçamentárias. Passando a representar um grave retrocesso, naquilo que deveria ser um meio de potencializar tanto o acesso, quanto a qualidade de ensino ao público da Reforma Agrária.
O sucateamento do PRONERA, assim como a supressão da nossa turma, representa sério prejuízo a tudo o que a sociedade, sobretudo a classe trabalhadora do campo, conquistou até hoje. Devendo ser urgentemente observado com mais responsabilidade pelo poder público.
O acesso de trabalhadoras e trabalhadores assentados à educação formal em cursos superiores de graduação em direito coaduna claramente com os objetivos gerais e específicos do PRONERA, visto que, este se propõe a garantir aos assentados (as) escolaridade/formação profissional, técnico profissional de nível médio e curso superior em diversas áreas do conhecimento.
Na presente perspectiva torna-se mais relevante, do que discutir se o ofício de um bacharel em direito é ou não desenvolvido no campo, observar com mais sensibilidade o quanto todo seguimento segregado pela estrutura social vigente, respectivamente, o trabalhador e a trabalhadora rural, necessita de forma concreta do profissional da área jurídica. Seja na demanda fundiária, previdenciária, administrativa, cooperativista ou outras. Pois o assentado e a assentada não se fixam na terra por mera distribuição desta, mas no intuito de que seus direitos e interesses fundamentais sejam alcançados da mesma forma que qualquer outro cidadão objetiva. Nesse contexto a existência da turma não se desvincula da finalidade do PRONERA, menos ainda, da Reforma Agrária que busca alcançar, dentre inúmeras metas, o pleno desenvolvimento do homem do campo, atendendo diretamente ao que sugere o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana.
Ademais, nossa turma de direito se resume em muito mais que uma política de Ação Afirmativa de simples reserva de vagas na universidade. Seguramente representa um simbólico impulso rumo à universalização do acesso ao ensino público superior.
A igualdade, no que diz respeito, ao acesso e permanência na escola (art. 206, I, CF e art. 3º, I da lei n.º 9.394/96), significa uma igualdade moral, de sorte que, partindo da idéia de que a educação é direito de todos e dever do Estado, constitui incumbência moral do Estado reconhecer que as classes marginalizadas social e economicamente, são, de forma jurídica, portadoras dos mesmos direitos que provêem do Poder Público e que definem sua dignidade como pessoa humana. Não devendo, nesse caso, em hipótese alguma, haver razão para confundir a iniciativa da turma de direito como um privilégio ou meio de exclusão, mas basicamente o contrário.
Prova disso, o fato de ter configurado-se há muito mais tempo do que se imagina, a carência de maior atenção do Estado para com os trabalhadores e trabalhadoras rurais. Sendo mais verdadeira ainda tal afirmação, quando verificamos todos os anos, os índices gerais e regionais de escolaridade do povo brasileiro, já que se constata através daí, que sem as políticas públicas de criação de oportunidades de acesso a educação em todos os níveis e áreas do conhecimento, houve
nada mais que um agravamento expressivo da situação. E que por isso, também, devemos tratar como medida de imposição e violência institucionalizada todos os atos que, dessa maneira, como está sendo a sentença em debate, visam extinguir as poucas medidas existentes com o papel de realizar a inclusão e a abrangência cada vez maior de outros excluídos que se encontram em situação idêntica ou inferior.
A igualdade de todos perante a lei, reconhece, dentre outras coisas, que as desigualdades existem. Pressupondo claramente, que deverão ser tratados de forma desigual aqueles que encontram-se em situação de desigualdade, como meio de superação dos desníveis sociais. Simplesmente por tudo que revela esse último ponto, já mostra-se absurdamente insustentável, tanto moral quanto juridicamente, toda e qualquer atitude de reação que venha contra o direito de estudar direito dos trabalhadores e trabalhadoras rurais.
Convém citar o interessante questionamento do presidente do INCRA Rolf Hackbart:
"A quem interessa inviabilizar o acesso à educação? A quem interessa fechar salas de aula? Por que em vez de decidir pela extinção desses cursos não se sugere resolver eventuais problemas legais que existam? Há um preconceito raivoso contra movimentos sociais e contra setores da sociedade. As oligarquias do País se perpetuam e uma das formas é não permitir o acesso à educação".
Diante disso, nós como membros da turma em questão, e principais afetados por esse meio de violência - tal qual foi a decisão - nos sentimos com o total dever de repudiar não somente o ato jurisdicional, como também o sucateamento do PRONERA e da própria universidade pública.
-- Secretaria Geral Escritório Nacional do MST/RJ Rua Pedro I, Sl 803, Centro, Rio de Janeiro/RJ Fone: (21) 2240.8496
Fiscalização do Ministério do Trabalho continua, desta vez em Travessão
FOLHA DA MANHÃ ON-LINE Campos dos Goytacazes, 17 de julho de 2009.
A Operação realizada pela força-tarefa do Ministério do Trabalho para verificar se existem irregularidades nos canaviais da região, que na quinta-feira notificou a Usina Sapucaia por manter trabalhadores sem as mínimas condições de exercer suas funções, como falta de água e contrato empregatício, nesta sexta-feira tem continuidade, só que desta vez a fiscalização está acontecendo em Travessão e sem o apoio da equipe de Brasília, apenas com o contingente local.
Na ação de ontem, foi constatado trabalho escravo em uma fazenda chamada Itaquaraçu, na localidade de Outeiro, que está arrendada à Usina Sapucaia. A força-tarefa contou com apoio de viaturas da Polícia Federal. A empresa responsável foi notificada para prestar esclarecimentos ao MP.
Fiscalização do Ministério do Trabalho encontra trabalho escravo em canavial
Campos dos Goytacazes, 16 de julho de 2009.
Foi constatado trabalho escravo em uma fazenda chamada Itaquaraçu, na localidade de Outeiro, que está arrendada à Usina Sapucaia. Foi possível a autuação através de fiscalização nos canaviais de vários pontos do município, que está sendo feita neste momento, por homens do Ministério Público do Trabalho vindos de Brasília. A ação conta com apoio de viaturas da Polícia Federal. A empresa responsável foi notificada para prestar esclarecimentos ao MP.
Os trabalhadores estariam sem contrato ou carteira de trabalho, equipamentos de segurança. Cerca de 500 pessoas estariam com a situação trabalhista inadequada, mas no local 250 foram identificadas. Alguns menores conseguiram fugir da 'blitz'.
Segundo um procurador do Ministério Público do Trabalho, Jocineai Nascimento, as condições nas quais os trabalhadores foram encontrados “são as piores em todo o país”.
Alcoa investe US$ 1,5 bilhão no meio da selva
Uma das maiores minas de bauxita do mundo, com porto e ferrovia, será inaugurada em setembro, na Amazônia
Estado de sao paulo
12 de julho 2009
Renée Pereira
Até meados de 2005, a pequena Juruti, no oeste do Pará, era apenas mais uma pacata cidade encravada na Floresta Amazônica, com as carências típicas da região e uma economia de subsistência baseada na pesca, cultivo da mandioca e extração de castanha. De lá pra cá, muita coisa mudou. O município deixou o anonimato de lado e ficou conhecido internacionalmente como a cidade que vai abrigar uma das maiores minas de bauxita do mundo, da multinacional americana Alcoa.
Em três anos e meio, Juruti - cujo PIB per capita anual é de R$ 2331 - viveu o ritmo frenético de uma obra de US$ 1,5 bilhão (ou R$ 3 bilhões), que agora entra na reta final. Se tudo der certo, em setembro, a cidade receberá o presidente Lula para a inauguração oficial do megaempreendimento. Trata-se de um complexo que inclui, além da mina, uma ferrovia e um porto - todos desenvolvidos com alta tecnologia.
Os pesados investimentos no local estão fundamentados no potencial de 700 milhões de toneladas de bauxita em solo jurutiense. Desse total, 180 milhões já foram confirmados pela Alcoa, o que representa 70 anos de exploração na mina. O produto vai abastecer a refinaria Alumar, em São Luís (MA), onde será transformado em alumina (usada na fabricação de vários produtos, inclusive de pasta de dente) ou alumínio.
Os primeiros estudos em Juruti foram feitos na década de 70 pela americana Reynolds Metals. Com a aquisição da companhia pela Alcoa, em 2000, a prospecção dos minerais na região foi retomada. A primeira equipe da mineradora chegou à cidade em 2005 para os estudos de impacto ambiental. Com as licenças em mãos, a empresa iniciou as atividades de construção em junho de 2006.
Desde o início, o projeto se revelou um grande desafio, seja do ponto de vista ambiental, social ou de engenharia, avaliou o presidente da Alcoa na América Latina e Caribe, Franklin Feder, um americano que vive no Brasil desde os quatro anos. "Abrir uma mina é uma tarefa difícil em qualquer lugar, mas na Amazônia a missão é ainda maior e requer mais cuidado."
Além das questões ambientais, já que se trata de uma mina no meio da Floresta Amazônica, a localização exigiu pesado esquema logístico para montar o empreendimento. Afinal, chegar a Juruti não é das tarefas mais fáceis. De Santarém (PA) até a cidade, a opção é pegar um barco que pode demorar até 12 horas no percurso.
Para evitar esse desgaste, a Alcoa contratou uma empresa de aviação para fazer a rota Santarém-Juruti. Duas vezes ao dia, o aviãozinho pousa numa pista improvisada de chão batido trazendo funcionários e visitantes da mina. A viagem dura apenas meia hora. Todo o transporte de equipamentos, máquinas e materiais de construção, porém, só pode ser feito por meio de balsas. "Num certo momento durante as obras, houve até congestionamento no porto da cidade", lembra Tiniti Matsumoto Jr., responsável pelo desenvolvimento da mina.
Na avaliação dele, outro obstáculo foi a distância entre a mina, as instalações de beneficiamento da bauxita e o porto. Da extração até o embarque, são 55 quilômetros de distância. Por isso, tudo é automatizado. A bauxita extraída é levada até a planta de beneficiamento por meio de caminhões.
Depois de triturado, o minério é transportado em esteiras até grandes reservatórios onde passa por um processo de lavagem para a retirada do excesso de terra. Em seguida, segue de trem até o porto. Lá, uma série de esteiras conduzirá a bauxita até o navio, que seguirá cerca de 1,6 mil km até a Alumar.
Para construir a infraestrutura do complexo, a Alcoa teve de desmatar uma área de 800 hectares. Além disso, usou 7 milhões de toneladas de trilhos, 110 mil dormentes, 28 milhões de m³ de terra e 400 mil m³ de brita. No auge da construção, em setembro, o canteiro de obras abrigou 9,5 mil pessoas contratadas por 60 empreiteiras. Hoje o número já caiu para 4,4 mil pessoas e vai diminuir ainda mais. A operação do complexo vai exigir 1,3 mil trabalhadores. Desses, 350 serão funcionários contratados pela Alcoa e o restante, terceirizado.
Depois de três anos e meio no meio da floresta, os funcionários começam a retornar para suas cidades. Tiniti foi um dos primeiros a chegar a Juruti e deverá ser o último a sair. Nas últimas semanas, um de seus compromissos tem sido ir até o "aeroporto" improvisado da cidade para se despedir dos companheiros. O ritual é tirar uma foto de todos para guardar em seu "álbum de expedição". "A única dúvida é saber quem vai tirar a minha foto."
Luta em defesa do São Francisco
CPT Bahia
10 de julho de 2009
A entrega do Prêmio de Cidadão do Mundo, concedido pela Fundação Kant ao bispo da diocese da Barra (BA), D. Luiz Cappio, no mês de maio, na cidade alemã de Freiburg, marcou a retomada das discussões sobre a transposição na Europa e principiou a divulgação da Campanha Opará - Povos Indígenas em defesa do Rio São Francisco. Protagonizada pelos indígenas que vivem na bacia do rio, a mobilização tem a participação de várias organizações, como as da Articulação Popular pela Revitalização do São Francisco da CPT, apoiada pelo Projeto São Francisco da CPT, em parceria com o CPP (Conselho Pastoral dos Pescadores). ?Fico muito feliz que vários grupos se unam para lutar contra um projeto que não faz sentido. Isso é fundamental para dar visibilidade a nossa luta?, comemora D. Luiz.
A campanha, através de petições populares, relatório-denú ncia e manifestações públicas, quer pressionar o Supremo Tribunal Federal a julgar ações pendentes contra o projeto de transposição, em especial as que tratam das terras indígenas afetadas. Exige-se também a realização de Audiências Públicas democráticas, inclusive no STF, para que as questões obscuras e ilegalidades do projeto sejam abertamente debatidas.
Uma das pendências a serem julgadas é a Ação Direta de Inconstitucionalida de 4113, que aponta desrespeito ao artigo 49 da Constituição Brasileira, que obriga a consulta ao Congresso Nacional em caso de empreendimento que envolve terras indígenas. Na bacia do São Francisco vivem 33 tribos e diretamente afetados pela transposição estão quatro povos - Truká, Tumbalalá, Pipipã, Kambiwá, cujos territórios ainda não foram completamente definidos. O Congresso jamais foi ouvido.
?A campanha traz a afirmação da relação espiritual e cultural que os povos indígenas têm com o rio?, explica o coordenador geral da APOINME (Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo) e cacique dos Tuxás, Manoel Uilton Tuxá. Ele ainda afirma que a campanha é mais ampla: ?Os povos indígenas são contra todos esses grandes empreendimentos empresariais que estão sendo construídos ao longo da bacia e que há anos têm nos prejudicado?.
A reivindicação de Uilton é reiterada pelo Relatório-Denú ncia ?Povos Indígenas do Nordeste Impactados com a Transposição do Rio São Francisco?. O documento elaborado pela APOINME, em conjunto com outras organizações, com base em ?cartografias sociais? feitas pelas próprias comunidades, aponta várias agressões sofridas por estes povos ao longo dos últimos 50 anos, como as barragens. As obras do Eixo Norte começaram em terra comprovadamente Truká, ainda em processo de reconhecimento oficial. No Ceará, 90 famílias do Povo Anacé já foram expulsas de sua terra tradicional e alojadas em assentamentos para a construção do Centro Industrial Porto de Pecém, um dos empreendimentos a ser beneficiado pela transposição.
As violações têm chamado a atenção de organismos internacionais. Em fevereiro, a Comissão de Especialistas na Aplicação de Convênios e Recomendações da Organização Internacional do Trabalho (OIT) publicou relatório sobre a aplicação no Brasil da Convenção 169 da OIT, que trata dos direitos dos povos, etnias e comunidades tradicionais. A Comissão solicitou ao governo brasileiro esclarecimentos sobre a ausência de consulta aos povos indígenas e quilombolas em relação às leis e obras que os impactam, entre elas a da transposição. O Governo não deu resposta.
Por isso, sensibilizar a opinião pública internacional tem sido uma das estratégias. A viagem de D. Cappio, após a premiação, foi um primeiro passo. Estão sendo planejadas outras ações que culminarão em setembro, quando uma delegação com vários representantes denunciarão as violações e divulgarão o relatório-denú ncia na Europa. No Brasil, mobilizações e eventos estão sendo programados. O documento será lançado no seminário da APOINME, em Salvador, de 27 a 31 de julho e que reunirá 350 lideranças de 70 nações indígenas do Nordeste, de Minas Gerais e do Espírito Santo.
Campanha tem apoio na Europa
As ações iniciais já começam a dar resultado. O respaldo que D. Luiz adquiriu na Alemanha e na Áustria facilitou. Ele se reuniu com parlamentares alemães, como a presidente da bancada do Partido Verde no parlamento alemão e Ex-Ministra de Agricultura, Renate Künast. Esteve em debate com o Ministro de Estado, chefe da Casa Civil, Thomas de Maizière e se encontrou com o relator especial das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Richard Falk.
D. Luiz divulgou a campanha e questionou os exageros da sociedade de consumo, por exemplo, o gasto excessivo de energia da sociedade alemã. ?A sociedade da abundância facilmente vira do desperdício?, dizia ele. Na ocasião também foi criticada a intenção do governo alemão de aumentar a porcentagem de etanol nos combustíveis para cumprir a meta estabelecida pela União Européia de diminuir em 10% o consumo de combustíveis fósseis. ?Falamos dos problemas sociais e ambientais que a expansão dos agrocombustíveis tem causado no Brasil e enfatizamos que o enfrentamento das mudanças climáticas tem que ser global, que eles também têm que rever o modelo e os padrões de consumo de energia?, explica o agente da CPT Bahia e coordenador do Projeto São Francisco, Ruben Siqueira, que acompanhou D. Luiz, ao lado da cooperante alemã da agência austríaca Horizont 3000, assessora do mesmo projeto, Andrea Zellhuber.
A campanha foi divulgada na TV e em jornais locais. Cerca de 100 grupos, entidades, agências e ONGs alemãs e austríacas estão apoiando. Mais de 10.000 pessoas nesses países já se manifestaram enviando cartas para o Supremo Tribunal Federal e para o Governo Federal. ?Os grupos solidários conhecem bem a realidade brasileira e apoiaram de pronto a campanha?, comemora D. Luiz.
BNDES é sócio de usina acusada de usar trabalho "escravo"
Jun 30 2009
Folha de S.Paulo
Eduardo Scolese da sucursal de Brasília
Participação do banco estatal chega a 20% da Brenco; instituição injetou R$ 1 bilhão na empresa
O governo federal recorreu à Justiça para incluir na "lista suja" do trabalho escravo a Brenco, empresa com 20% de seu capital nas mãos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Entre o fim de 2008 e o início deste ano, o banco injetou R$ 1 bilhão na empresa para a implantação de unidades de processamento de cana e plantação de lavoura em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Com isso, ganhou um assento no conselho de administração.
O aporte financeiro ocorreu meses após fiscais terem encontrado trabalhadores em situação degradante em Goiás e Mato Grosso. Nessa ação, no início de 2008 e direcionada à Brenco, foram registrados 107 autos de infração por violações à legislação, segundo o governo, como alojamento precário, falta de equipamentos de proteção e transporte irregular.
Comandada pelo ex-presidente da Petrobras Henri Philippe Reichstul, a Brenco é uma empresa brasileira, com investidores norte-americanos. A empresa diz que, até 2015, investirá R$ 5,5 bilhões na implantação de dez unidades, o que lhe permitirá uma capacidade de moagem de 44 milhões de toneladas por safra.
A empresa, que nega as acusações (leia texto ao lado), entrou na Justiça e conseguiu, no mês passado, uma liminar da 12ª Vara do Trabalho de Brasília que impede o ministério de incluí-la no cadastro.
Recurso
Por meio da AGU (Advocacia Geral da União), o governo recorreu. Neste mês, entrou com um recurso ordinário contra a sentença, que agora será analisada pela segunda instância da Justiça trabalhista. Criada em 2004 pelo Ministério do Trabalho, a "lista suja" dá publicidade a empresas e pessoas flagradas com trabalhadores em situação análoga à escravidão. O cadastro é renovado a cada seis meses, e o ministério quer incluir a Brenco na atualização do mês que vem.
Entre 1995 e junho deste ano, o grupo móvel de fiscalização, que reúne auditores do trabalho, procuradores e policiais federais, resgatou 33.903 trabalhadores em situação análoga à de escravo, num total de 829 operações e 2.307 fazendas. O Ministério Público do Trabalho e a empresa ainda negociam a assinatura de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta). Uma reunião está prevista para meados de julho.
O BNDES, órgão do governo federal que faz propaganda de sua cláusula social, diz que, antes de fechar qualquer contrato, checa a lista do ministério. Caso a inclusão no cadastro ocorra em meio à vigência do financiamento, o banco afirma que pode suspender o desembolso. Sobre a Brenco, diz que não havia nenhuma sentença definitiva contra a empresa no momento da assinatura do contrato, em agosto do ano passado, quando aprovou o financiamento de R$ 1,2 bilhão.
Nos últimos dias, o BNDES passou pelo constrangimento de ter seu nome incluído em denúncias de desmatamento na Amazônia.
Outro lado: Para empresa, inclusão em lista "suja" é indevida da sucursal de Brasília
A Brenco nega a prática de trabalho escravo e diz que, por avaliar indevida a acusação do Ministério do Trabalho, foi à Justiça para impedir a inclusão de seu nome na "lista suja".
"A sentença confirmou a liminar, determinando que essa inclusão somente ocorra se, esgotadas todas as possibilidades de discussão dos autos de infração aplicados, inclusive na esfera judicial, estes sejam julgados subsistentes", afirma a assessoria de comunicação da empresa.
Ao negar práticas ilegais, a empresa diz que "se pauta pelas mais rigorosas práticas de governança corporativa e pela valorização das pessoas e sempre ofereceu excelentes condições de trabalho."
O BNDES, também por meio de sua assessoria, afirma que, para obterem financiamento do banco, todas as empresas têm de "observar a legislação relativa à utilização de recursos públicos, sobretudo no que diz respeito às questões trabalhistas, ambientais e fiscais".
O banco do governo federal diz ainda que, em agosto do ano passado, quando foi assinado o contrato de financiamento com a empresa, e, no início deste ano, quando foi liberada a maior parte dos recursos, "a legislação foi observada pela beneficiária".
De acordo com o BNDES, o contrato pode ser rescindido caso ocorra uma condenação definitiva na Justiça.
HOJE TERMINA O PRAZO PARA O VETO DE LULA - CONTRA A MP458
26/06/2009
O Presidente Lula tem só até esta quinta-feira para vetar partes da MP que irá privatizar a Amazônia. A pressão popular é fundamental nestes momentos decisivos até a MP ser assinada. Clique abaixo para enviar uma mensagem para o Lula, vamos mostrar pra ele que os brasileiros se importam com a Amazônia!
Mande uma mensagem pro Lula agora! <http://www.avaaz.org/po/lula_prazo_final/?cl=259940437&v=3533>
Nós só temos dois dias para salvar milhões de hectares da Amazônia do desmatamento e destruição: está quinta-feira é o prazo final para o Presidente Lula decidir se vai vetar alguns pontos da Medida Provisória que irá privatizar partes da Amazônia pertencentes à União.
Duas semanas atrás a Avaaz enviou um alerta sobre a Medida Provisória (MP) 458 e mais de 14.000 pessoas congestionaram as linhas telefônicas do Gabinete Presidencial pedindo o veto das partes mais perigosas da MP. Dentro de 48 horas o Presidente declarou publicamente que iria vetar os pontos criticados pela campanha. Porém, desde então o Presidente tem sofrido uma forte pressão da bancada ruralista do governo, fazendo declarações preocupantes sobre o desenvolvimento da região Amazônica.
Nós temos menos de dois dias para persuadir o Presidente a manter a sua palavra. Neste momento crítico em que o Lula está decidindo o que vetar, a pressão popular poderá ter um papel decisivo para a proteção da Amazônia. Clique abaixo para enviar uma mensagem para o Lula AGORA, leva só dois minutos para registrar a sua participação:
http://www.avaaz.org/po/lula_prazo_final <http://www.avaaz.org/po/lula_prazo_final/?cl=259940437&v=3533>
A Medida Provisória 458 não é toda ruim, ela foi concebida para proteger pequenos agricultores que precisam do título legal das terras que ocupam. Porém, a MP foi manipulada pelos interesses do agronegócio, muitos dos quais são responsáveis pela ocupação violenta e ilegal de terras amazônicas. Se a MP for assinada na sua forma atual, os que mais tem serão os maiores beneficiários do programa do governo.
Nossas apelo para o Lula é:
1. Vetar a ocupação e exploração ?indireta?, para que apenas as pessoas que moram nas terras tenham suas propriedades regulamentadas
2. Vetar regularização para empresas privadas, somente pessoas físicas devem ter direito à regularização
3. Proibir a comercialização das terras regularizadas por 10 anos, ao invés dos propostos 3 anos, evitando assim a especulação comercial das terras
Se milhares de pessoas enviarem uma mensagem, poderemos garantir a preservação de uma vasta área da floresta. Clique aqui para enviar uma mensagem para o Presidente Lula, usando a ferramenta do nosso site:
O destino da Amazônia será definido dramaticamente até o final desta semana. Certamente está não será a nossa batalha final para defender a Amazônia, mas é uma batalha importante. Vamos manter a pressão e mostrar para o Lula que os brasileiros se importam com a Amazônia!
Com esperança e convicção,
Alice, Graziela, Ben, Ricken, Luis, Paula, Pascal, Iain, Paul, Brett, Ben, Raj e toda a equipe Avaaz
Leia mais sobre o assunto:
Lula ainda não decidiu sobre veto à MP da Amazônia:
http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/06/18/lula-ainda-nao-decidiu-sobre-veto-mp-da-amazonia-756409274.asp
Lula adia prazo de decisão sobre polêmica lei de terras:
http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1199964-5602,00-LULA+ADIA+PRAZO+DE+DECISAO+SOBRE+POLEMICA+LEI+DE+TERRAS.html
A MP 458 e o futuro da Amazônia:
http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2009/06/10/a-mp-458-o-futuro-da-amazonia-194228.asp
Lula lança em MT programa para regularizar terras na Amazônia:
http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,lula-lanca-em-mt-programa-para-regularizar-terras-na-amazonia,389988,0.htm
Lula defende medida que regulariza terras:
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2552106.xml&template=3898.dwt&edition=12561§ion=1007
MAIS UM LÍDER CAMPONÊS É ASSASSINADO
Na manhã do ultimo dia 15.06.09, foi encontrado o corpo do líder camponês Luiz Lopes de Barros, nas proximidades da área Jatobá, região da Batente, Município de Conceição do Araguaia. Havia marcas visíveis de 01 tiro na cabeça e outro no corpo. Tudo indica tratar-se de crime executado por encomenda, pois nenhum objeto foi subtraído, tendo sido deixada a moto e seus documentos pessoais, ao lado do corpo.
Luiz Lopes era membro da Liga dos Camponeses Pobres (LCP), organização de trabalhadores rurais presente no Sul do Pará e em algumas outras regiões do País. Nesta região, a LCP estava à frente de algumas ocupações, dentre as quais, a Fazenda Batente, Forkilha e Jacutinga, dentre outras.
Luiz Lopes era um dos lideres do Acampamento União Batente, Município de Conceição do Araguaia, organizado desde maio de 2005 por aproximadamente 100 famílias, na Fazenda Batente, onde morava como posseiro. O INCRA já desapropriou a área e o Projeto de Assentamento está em fase de criação.
No entanto, durante o processo de luta pela conquista desta terra ocorreram muitos conflitos violentos, inclusive com tiroteios, ameaças de morte e até o assassinato do lavrador Marcos José Pereira, havendo fortes indícios de que foi conseqüência desse clima conflituoso.
Outro episodio violento ocorreu em novembro de 2007 na Fazenda Forkilha, Município de Santa Maria das Barreiras, então ocupada pela LCP, onde ocorreu a “Operação Paz no Campo”, executada pelas Policias Civil e Militar, tendo havido a desocupação forçada, prisão, detenções arbitrárias e tortura de muitos trabalhadores.
A LCP tem divulgado a ocorrência de mais de 10 assassinatos de trabalhadores envolvidos nessa ocupação da Fazenda Forkilha.
A CPT registrou 15 assassinatos de trabalhadores rurais, ligados à luta pela terra, no Sul do Pará, nos últimos 4 anos. Em quase todos os casos foram instaurados inquéritos policiais, mas até agora ninguém foi penalmente responsabilizado, prevalecendo a impunidade, que tem marcado os assassinatos de trabalhadores rurais na região.
Na sua atuação na luta pela terra no Sul do Pará, Luiz Lopes também já havia sofrido ameaças de morte. Por isso, a hipótese bastante provável é de que o crime tenha sido motivado pela questão agrária.
Diante desse crime violento exigimos apuração rigorosa para que sejam identificados, processados e responsabilizados os seus executores diretos e indiretos, pois a continuidade da violência está diretamente relacionada à impunidade e ao não avanço da reforma agrária no País.
Xinguara-PA, 19 de junho de 2009
Comissão Pastoral da Terra do Sul e Sudeste do Pará.
"Aí chamei o Jaime do Pacu": leia íntegra de Lula sobre Amazônia
Em longo discurso no Paraná, o presidente Lula expôs ontem sua visão a respeito da Amazônia e de temas relacionados com desenvolvimento e meio ambiente. Entre outras observações, o presidente contou os bastidores da maneira em que se envolveu pessoalmente no licenciamento das usinas do rio Madeira, revelando ter chamado um amigo dele, criador de pacu em Campo Grande, para ajudar a superar os problemas ambientais. O site Amazonia.org.br julga oportuno publicar o pronunciamento na íntegra, abaixo, sem edição.
"Na última sexta-feira, eu fui ao Mato Grosso e foi lá que eu disse a frase “que não era possível chamar de bandido aqueles que na década de 70 desmataram, porque a ordem e a palavra de ordem e o financiamento era para desmatar”. Quem não lembra, quando o Geisel levou milhares de gaúchos, não sei se paranaenses, para a Amazônia, para desmatar. Agora, preste atenção, nós também temos que olhar em função da realidade de cada região deste país. Você não pode pegar um estado que tem a agricultura pronta, que desmatou na década de 30, na década de 40, 50, 60, e dizer: Agora vamos botar tudo, acaba com tudo, vamos replantar tudo o que tinha antes para a gente começar de novo. Assim não vale.
O que nós temos que fazer? Primeiro, eu tenho discutido com o ministro Reinhold Stephanes e nós precisamos ter políticas de florestamento neste país. Nós temos milhões de hectares de terras degradadas, que nós precisamos ter uma política. Da mesma forma, sabe, que nós queremos preservar, nós temos que pagar para preservar, nós temos que pagar para a pessoa preservar a sua terra. E nós temos que pagar para as pessoas plantarem. Se um (incompreensível) a gente pagou... Eu estava vendo porque em Nova Iorque... é engraçado, quando as coisas acontecem no exterior é tudo bonito. Esses dias, eu estava vendo o Globo Rural e estava passando a água de Nova Iorque. E a Prefeitura de Nova Iorque, ela paga para que o produtor não tenha uma pocilga no riacho. Ela paga para ele fazer um tanque bem distante, ela paga para que a vaca não atravesse no riachinho para a água chegar limpa, lá em Nova Iorque. A Prefeitura paga.
Nós, aqui no Brasil, apenas proibimos. E vocês já viram aquelas plaquinhas nas gramas: é proibido pisar? É uma provocação para a gente pisar. É uma provocação. Então eu penso que ao invés de a gente ficar apenas tentando proibir, é preciso que a gente tenha imaginação fértil, coloque a nossa criatividade para funcionar para a gente saber o seguinte: é inexorável, este país finalmente vai ser o celeiro do mundo, é inexorável. Porque tem mais chinês comendo, tem mais africano comendo, mais brasileiro comendo, mais indiano comendo, o mundo está comendo mais. E quando você olha o mapa do mundo, você percebe que não tem um país que tem a quantidade de terra pronta para agricultura como tem o Brasil, que tem sol o ano inteiro, que tem chuva, que tem uma série de coisas, tecnologia de ponta.
Lógico que nós não estamos sozinhos. Nós temos inimigos, nós temos adversários, nós temos gente que vai lá fora dizer que a nossa carne não presta. Nós temos gente que vai dizer que a nossa soja é isso, que nosso milho é aquilo, que nosso etanol é o responsável pelo encarecimento do alimento. Não pense que isso é de graça. Esse é um discurso ideológico dos nossos adversários. Por que a Shell tem interesse em que a gente produza mais álcool? Por que a Esso tem interesse em que a gente produza biodiesel?
A Dilma sabe, nem a Petrobras gostava da ideia. Para a gente colocar o programa do biodiesel foi quase uma imposição do governo, já que somos nós que indicamos os companheiros da Petrobras para a diretoria. Ora, imaginem uma coisa: vocês todos aqui sabem porque o Brasil criou o Pró-Álcool, todo mundo sabe. Não foi nenhum ato de genialidade. Sobretudo o Reinhold Stephanes sabe perfeitamente bem. Nós tínhamos o açúcar com o preço extraordinário no mercado internacional, na década de 70. Todo mundo “danou” a plantar cana neste país, e sobretudo no estado de São Paulo, aí o preço do açúcar despenca. O que vai fazer com o álcool ou com a cana-de-açúcar? Graças a Deus se pensou em fazer o Pró-Álcool. Até 1990, a gente teve quase toda a frota de carro brasileiro a álcool e as pessoas não gostavam. Aqui em Londrina deveria ser assim, porque dizem que quando estava muito frio o “desgramado” demorava para pegar, então as pessoas não gostavam. Mas nós tivemos quase 90% da frota a álcool. De 90 a 2000 desmontou tudo.
Outro dia falaram que eu estava elogiando usineiros, porque eu disse que eles estão sendo tratados com cidadania hoje, porque até outro dia eram tratados como os bandidos da indústria brasileira. Falar de usineiro, ninguém queria saber, porque era aquele negócio de só tomar dinheiro emprestado do governo, não pagar, não prestar conta, era uma loucura aquilo. O que está acontecendo hoje neste país? Depois que o álcool deixou de ser combustível para carro e a indústria automobilística não produzia mais nenhum carro, nós fizemos um pacto. E o que resultou deste pacto? Noventa e oito por cento dos carros vendidos no mercado interno hoje são carros flex fuel. Eles utilizam álcool, ou gasolina, ou meio a meio, a gente faz a mistura que a gente quiser. E temos que produzir mais, porque nós precisamos disputar o etanol é no mercado externo, porque eles assinam o Protocolo de Quioto, porque eles assinam “mais não sei o que lá”. Protocolo, agora, vai ter um outro de Copenhague. E querem que a gente preserve as nossas florestas. Nós vamos preservar. Agora, não metam o dedo sujo de combustível fóssil no nosso combustível limpo, não metam. Deixem que a gente vai saber cuidar disso com muito carinho. E, para isso, nós estamos fazendo o zoneamento agroecológico.
Obviamente, eu tenho dito também que hoje a gente preservar, manter o nosso ecossistema e manter a biodiversidade é uma vantagem comparativa para nós na disputa no mercado internacional. Quem viaja o mundo para comercializar sabe que preservar hoje é uma vantagem comparativa para nós. É mais qualidade, é mais respeito. Porque não pensem que nós estamos sozinhos. A campanha no mundo é uma campanha muito dura. Eu, inocente, eu fui a Genebra da outra vez, o ano passado, quando eu cheguei lá me chamaram para um debate, a primeira coisa que eu ouço é que o etanol brasileiro era o responsável pelo preço da soja em maio e em junho do ano passado, quando subiu de forma excepcional; pelo preço do feijão, que não é nem exportado.
Aí, nós temos que pegar o mapa do Brasil, mostrar que apenas 1% do território brasileiro é utilizado cana-de-açúcar, que nós temos 360 mil de terras na Amazônia que estão preservadas, que nós temos 60 milhões de hectares para recuperar. E é preciso contar toda uma história. Porque quando vem uma Primeira-Ministra alemã no Brasil, conversar comigo, a primeira coisa que ela quer saber é: “como é que anda a Amazônia? A soja está tomando conta da Amazônia? O gado está tomando conta da Amazônia? O milho está tomando conta da Amazônia? A cana...” Ou seja... E eu, educadamente, não pergunto para ela: se você está tão preocupada em preservar, por que “depelou” o seu país? Por que não manteve as florestas em pé lá?
Agora, tem uma coisa que é importante para nós. Hoje, nós temos que aproveitar que nós temos essa extraordinária floresta tropical em pé para fazer dela uma forma de ganhar dinheiro. Eu, inclusive, Requião, estou criando, acho que você... não sei se a Copel já criou, estou criando uma Secretaria Especial de Crédito de Carbono, porque cada projeto de uma usina que a gente fizer, cada projeto de uma empresa de biodiesel que a gente fizer, cada hidrelétrica que a gente fizer, a gente pode entrar com um pedido para que eles paguem o sequestro de carbono que nós vamos fazer e a diminuição da emissão de gás de efeito estufa. O que nós precisamos é nos preparar para esse enfrentamento. Porque, daqui a pouco, vai ter neguinho dizendo: “A Amazônia é internacional”. A Amazônia é de brasileiros e brasileiras, de negros e brancos.
Então, eu acho que nós precisamos ficar atentos. Nós precisamos ficar atentos nesse debate, que ele é muito delicado. Ele é muito delicado. Inclusive para empréstimo de dinheiro a empresas brasileiras, temos (incompreensível) de financiamentos multilaterais. Eles vão criando o gado e nós temos que fazer as coisas certas para que a gente tenha vantagem.
Obviamente, veja, eu acho um absurdo as pessoas derrubarem a mata ciliar. Eu acho um absurdo, porque qualquer criança de escola, no ensino fundamental, já tem consciência que se a gente “depelar” até a beira do rio vai ter erosão, consequentemente aquele rio, logo, logo, vai deixar de ser perene, com prejuízo para todo mundo. E nós não temos o direito...
Eu, agora, fui jogar peixe na represa Billings e, depois de um teste feito pelo Ministério da Pesca, eu não posso criar peixe lá, sabe por quê? É o único lugar que eu tenho para pescar quando eu não for mais Presidente, é a Represa Billings, lá em São Bernardo do Campo. Ela tem 123 quilômetros quadrados. Agora, só uma pergunta: qual foi o engraçadinho que achou que era dono do País, pegou chumbo – uma empresa de mercúrio, melhor – e poluiu a empresa [represa] toda de mercúrio. A gente não pode comer um peixe melhor, porque o peixe come mercúrio que está no fundo da lama. Olha, com que direito o cidadão, por ser empresário, tem o direito de poluir um bem coletivo de toda uma cidade ou de toda uma região? Não é possível nós aceitarmos isso como se fosse desenvolvimento. Isso é um retrocesso.
Então eu penso que hoje nós não precisamos mais ideologizar esses temas e sentar em torno de uma mesa e discutir como é que a gente faz e melhor. Eu estou vendo aqui os nossos premiados. E eu lembro como se fosse hoje, a Dilma participou quando nós fomos aprovar o projeto da hidrelétrica do Rio Madeira, Santo Antônio e Juruá... Jirau. A briga, vocês não queiram imaginar, não queiram imaginar o que nós perdemos de meses discutindo os grãos de areia que estavam no fundo do rio. Não queiram imaginar. Precisamos contratar o melhor professor do mundo nessa matéria, que era um indiano que veio dos Estados Unidos, me entregou um pote de areia de fundo do mar para mostrar como é que a areia corria, que não ia fazer isso, que não ia fazer aquilo.
Quando nós resolvemos o problema da areia, me chega outro e diz dos peixes, que tinha muito bagre e que os bagrinhos não iam conseguir nadar, para represar lá nos Andes, aquele negócio todo. Eu me comprometi, quando deixar a Presidência, comprar uma canoa, pegar os bagrinhos, colocar na canoa, levar do outro lado e trazê-los de volta. Não, não.
Quando a pessoa, Requião, estava falando que a gente não podia fazer hidrelétrica por causa dos bagres, eu perguntei: que bagres? Talvez ela não tivesse lembrado, mas ela não conhecia um nome de um bagre. E eu falei: é o mandi-chorão que você está falando? É o bagre africano? É o pintado? É a pirarara? É o cachara? Ou seja, porque, na verdade, era uma coisa muito teórica. E eu peguei um companheiro nosso, Requião, lá de Campo Grande, o Jaime, do projeto Pacu, que é o maior criador de peixe hoje, em cativeiro, no Brasil, e ele cria todos esses bagres lá no rio Madeira, onde a gente está fazendo a hidrelétrica, em cativeiro. E eu tenho lá no lago do Alvorada, não no lago grande, o lago pequeno lá dentro, eu tenho peixe de 20 quilos.
Então, conseguimos. Conseguimos finalmente. Quando estava tudo pronto apareceu alguém para dizer o seguinte: olha, mas não pode porque tem uma poça d’água lá que tem mercúrio e não pode fazer hidrelétrica. Tivemos que pegar o Ministério da Saúde e colocar uma equipe para ir lá. Ficava mais barato assentar as famílias em um prédio de cobertura em Copacabana do que não fazer hidrelétrica. Tivemos que mostrar que não tinha. Finalmente nós começamos as duas hidrelétricas.
Eu estou dizendo isso para vocês porque quando a gente reforça a carga ideológica no debate... hoje a gente não deve ficar debatendo se é preciso desmatar ou não desmatar. É correto que a gente desmate o que for necessário, e que a gente cumpra determinadas regras. Porque também, vamos ser francos, a gente aqui não sente muito, mas às vezes um cidadão do Sul do País ir lá para o Acre, comprar uma quantidade de terras que ele não conhece, chega lá, contrata 50 jagunços, manda tocar fogo, toca fogo em tudo, pensando que vai dar capim, e nem capim vai dar.
É preciso que tenha o estudo do solo correto, é preciso saber se aquilo vai produzir alguma coisa. Porque nós somos um país civilizado, e hoje o Brasil não é um país marginal. Hoje ninguém fala mais que o Brasil é um país pobre, é um país de terceiro mundo. Hoje, este país é convidado para participar do G-8, do G-20, do G-14, do G-13, do G-5, ou seja, este país tem importância política. E isso aumenta a nossa responsabilidade. Aumenta a responsabilidade de um trabalhador humilde, de um trabalhador sem-terra e do maior fazendeiro deste país. Aumenta. Todos nós vamos ter que ter mais responsabilidade, para que a gente utilize a tecnologia para ela substituir a quantidade de terra que nós precisamos para fazer as coisas.
Hoje, a gente deve se lembrar sempre, de vez em quando alguém fala: “O preço da carne está barato”. Mas é importante lembrar que teve um tempo que a gente demorava 48 meses para abater um boi. Hoje, com 18 meses a gente está abatendo, se for criado corretamente. Antigamente a gente colhia uma quantidade de produto por hectare que hoje a gente está colhendo dez vezes mais. Tudo isso é lucro, tudo isso é vantagem do Brasil na competitividade.
Vocês sabem que outro dia eu perguntei para o Furlan quanto tempo demorava um frango. Pouco tempo atrás era 90 dias para matar um frango, hoje já está com menos de 40 dias, daqui a pouco ele nem nasce, a gente já pega ele do ovo e já come, tal é a rapidez do avanço tecnológico.
Então, companheiros, nós precisamos, neste momento, é mais sabedoria do governo. Eu estava cansado. Eu estava cansado de ver a briga, porque governo é que nem mãe. Vocês já viram uma mãe, quando tem dois filhos que querem a mesma coisa, ou seja, que querem coisas diferentes? Um fala: “Eu quero ir para Nova Iorque”. O outro fala: “Eu quero ir para Londrina”. A mãe está em São Paulo, ou está em Pernambuco, ou seja, quem que a mãe atende? Ela não vai poder privilegiar um, ela vai ter que convencer e tentar mediar, para que a gente... pode não ir a Londrina, ou a Nova Iorque, mas a gente vai em algum lugar."
22 de junho de 2009
Comissão Especial da PEC 047/2003 é composta
na Câmara dos Deputados
A Comissão Especial que vai apreciar a Proposta de Emenda à Constituição nº
047, de 2003, do Senado Federal, está formada na Câmara dos Deputados, todos
os partidos indicaram seus representantes.
A PEC "altera o art. 6º da Constituição Federal, para introduzir a
alimentação como direito social". A Comissão ainda precisa ser instalada
pelo Presidente da Câmara, Michel Temer.
Conheça os deputados da Comissão Especial
COMANDANTE DE MASSACRE SERÁ JULGADO PELO STJ, NO DIA 23
Justiça Global
22/06/2009
No próximo dia 23 de junho, depois de mais de três anos de espera, será
julgado pela Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça, o recurso
apresentado pelo Coronel Mario Colares Pantoja, um dos comandantes do
Massacre de Eldorado de Carajás, que tem por objetivo a anulação do
julgamento no qual ele foi condenado 228 anos de prisão.
O único e absurdo argumento por ele apresentado é o de que teria havido
nulidade do julgamento por deficiência na formulação dos quesitos
apresentados ao corpo de jurados, o que não passa de uma ficção jurídica,
criada para tornar a impunidade definitiva.
No dia 17 de abril de 1996, no estado brasileiro do Pará, nas proximidades
do município de Eldorado do Carajás, num trecho da rodovia PA 150, no local
denominado de curva do "S", 155 policiais militares, dividos em duas tropas,
cercaram e atacaram com armas de fogo uma manifestação de trabalhadores
rurais sem terra que bloqueavam a estrada para reivindicar a realização da
reforma agrária.
Estes fatos ficaram gravados na memória do povo brasileiro e de todo o mundo
como o massacre de Eldorado do Carajás.
Seis trabalhadores rurais foram assassinados com disparos de armas de fogo
durante a operação militar de desobstrução da pista da rodovia. Após a
desobstrução e encerrada a missão dos policiais, foram executados
sumariamente ainda outros treze trabalhadores, que estavam feridos e
inconscientes na pista e outros que, conscientes, não tinham mais condições
de locomoverem-se, em função de ferimentos de bala nos pés e pernas.
Restaram 19 trabalhadores rurais mortos, 69 feridos e, dentre estes, três
faleceram alguns meses depois em razão das seqüelas produzidas pela brutal
violência.
Passados treze anos de uma das mais veementes exemplos da impunidade que
cerca os crimes cometidos no país contra os trabalhadores rurais, nenhum dos
responsáveis pelo massacre foi efetivamente punido.
Tudo foi feito para que os responsáveis restassem impunes.
No dia do massacre, os corpos foram retirados do local antes da chegada da
perícia. Não foram realizados exames de resíduos de pólvora nas mãos dos
policiais militares para verificar quem havia efetuado os tiros. Tampouco
foram recolhidas as armas dos políciais para averiguação de qual arma, sob o
poder de qual policial foi responsável pela morte de cada um dos 19
trabalhadores vitimados. Antes de tudo, como tudo já havia sido planejado,
os Policiais Militares sairam de seus batalhões sem as indentificações que
deveriam ostentar em suas fardas.
Em sede judicial, evidenciou-se também de maneira farta o conluio para a
impunidade.
O juiz Ronaldo Valle, presidente dos primeiros julgamentos realizados pelo
Tribunal do Júri de Belém/Pará, em agosto de 1999, deixou que ocorressem
inúmeras violações ao procedimento legal, tendo como mais grave a permissão
para que um dos jurados manifestasse em público, durante a sessão, sua
opinião sobre a ausência de culpa dos polícias pelo massacre.
Ao final da primeira sessão que levou a julgamento os comandantes do
massacre, com evidente interesse em prejudicar a compreensão dos jurados, o
juiz formulou de forma confusa as perguntas a eles dirigidas, culminando na
absolvição do coronel Mário Colares Pantoja, do major Maria José Oliveira e
do capitão Raimundo Almandra Lameira.
No ano 2000, em razão dessas nulidades, o Tribunal de Justiça do Pará anulou
o julgamento, o juiz Ronaldo Valle pediu afastamento do caso e dentre os 18
juízes da Comarca de Belém, 17 declararam-se impedidos de presidir o
julgamento, alegando serem favoráveis aos Políciais e contrários ao MST.
Porém, aceitando presidir o julgamento sob a alegação pública de não ter
medo do MST, a juíza Eva do Amaral Coelho marcou nova sessão de julgamento
dos comandantes para o mês de julho de 2001, determinando que fosse retirada
do processo a principal prova da acusação, um laudo do perito Ricardo
Molina, da Universidade de Campinas, demonstrando que os primeiros disparos
foram feitos pela PM, e não pelos sem-terra.
O Ministério Público e os assistentes da acusação se insurgiram contra essa
determinação, o júri foi adiado para o mês de maio de 2002 e houve
determinação do afastamento da Juíza.
Indicado o juiz, Roberto Moura para presidir o caso, este decidiu por
julgar, em apenas cinco sessões, 144 policiais militares, e houve inúmeras
denúncias de testemunhas que sofreram ameaças.
Ao final dos julgamentos, apenas o Coronel Pantoja e o major Oliveira foram
condenados. Receberam a pena de 228 anos de prisão, mas obtiveram o
benefício de recorrer em liberdade. Ambos apresentaram recurso de apelação
ao Tribunal de Justiça do Pará, que lhes negou os pedidos. Ambos também
recorreram ao Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal Federal e
aguardam em liberdade o julgamento desses recursos.
Por todas essas razões, conclamamos a todos/as que se manifestem, enviando
ao Ministros integrantes da Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça e à
Ministra Relatora, pedido para que seja mantida a condenação do Coronel
Mario Pantoja, com o que se dará mais um passo rumo à realização da justiça.
MPF indicia fazendas de Dantas por desmatamento ilegal
02/06/2009
Nesta segunda-feira (1/6), o Ministério Público Federal indiciou 21 fazendas localizadas no Pará, por prática de desmatamento ilegal. A maioria das fazendas não possui licenciamento ambiental e são destinadas à criação de gado. Uma das propriedades ocupa terras indígenas.
Dez das fazendas indiciadas pertencem à Agropecuária Santa Bárbara, empresa do grupo Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas. Dentre elas está a fazenda Espírito Santo, onde no mês de abril deste ano seguranças contratados pela agropecuária atiraram contra um grupo de Sem Terra, ferindo gravemente um trabalhador.
Outra fazenda pertencente ao grupo do banqueiro e indiciada é a Rio Tigre, conhecida por também figurar na lista suja do trabalho escravo. Em meados de julho de 2004, a propriedade, localizada em Santana do Araguaia (PA), recebeu a visita do grupo móvel de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que libertou 78 trabalhadores.
Ainda fazem parte da lista dos desmatadores fazendas da família paulista Quagliato e do grupo agropecuário Bertin. Confira a relação de indiciados:
-- Secretaria Geral Escritório Nacional do MST/RJ Rua Pedro I, Sl 803, Centro, Rio de Janeiro/RJ Fone: (21) 2240.8496
BRENCO RECORREU A "GATO" NA ÉPOCA DE PLANTIO DE CANA PARA ETANOL
Repórter Brasil
Por Maurício Hashizume 25\05\2009
Cópia de contrato revela acordo formal entre companhia sucroalcooleira
e "João Paracatu", conhecido aliciador de mão-de-obra em Goiás.
Pagamento de "gato" consistia em 10% do valor total de produtividade dos
"recrutados"
À frente de investimentos nacionais e internacionais bilionários para a
produção de etanol e de agroenergia no Brasil, a empresa Brenco -
Companhia Brasileira de Energia Renovável contratou o "gato" João
Pereira da Silva, vulgo "João Paracatu", em janeiro do ano passado, com
a finalidade de "assessoria no recrutamento de 240 trabalhadores rurais"
e de "assessoria na contratação e transporte dos empregados da Brenco"
até fazendas na região de Mineiros (GO) para o plantio de cana-de-açúcar
no início de 2008.
Em fevereiro de 2008, 17 dos trabalhadores "recrutados" por "João
Paracatu" para a Brenco, presidida por Henri Philippe Reichstul
(ex-Petrobras), foram encontrados em condições análogas à escravidão em
Campo Alegre de Goiás
(GO ( http://www.reporterbrasil.org.br/exibe.php?id=1303 ), conforme o
Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Cópia obtida pela Repórter Brasil do "Contrato de prestação de serviços
de recrutamento de mão-de-obra" revela a recompensa do "gato": 10% do
valor total de produtividade dos trabalhadores por "aliciados" a cada
mês, acrescido do descanso semanal remunerado (DSR). O documento
estampa a validade prevista do acordo: cinco meses - de janeiro até o
final de maio de 2008.
Assinado entre as partes, avalizada pelo "Jurídico" da Brenco com
carimbos e vistos em todas as dez páginas e autenticado junto ao 2º
Tabelionato de Notas e Anexos de Mineiros (GO) em 10 de janeiro de 2008,
o contrato serve como prova da ligação entre a poderosa e capitalizada
empresa do agronegócio - que captara US$ 200 milhões junto a fundos e
investidores em 2007, foi contemplada com financiamento de R$ 1,2 bilhão
do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em
agosto de 2008 e que pretende construir um alcooduto de 1,1 mil km até o
Porto de Santos (SP) - e o conhecido "gato" com intensa atuação em
Goiás, envolvido em casos pregressos de trabalho escravo ocorridos na
mesma e em outras regiões do estado.
Objeto do contrato aparece já na primeira folha: recrutamento de 240
pessoas para plantio de cana
"Esse contrato é aberrante: trata o trabalhador como uma mercadoria",
classifica Antonio Carlos Cavalcante Rodrigues, do Ministério Público do
Trabalho (MPT) de Goiás, que fez parte da equipe comandada pela auditora
Jacqueline Carrijo que resgatou os 17 trabalhadores "recrutados" por "João Paracatu" para a Brenco.
Na avaliação do procurador, os termos do contrato violam artigos da
Constituição Federal (inclusive o art. 1º, que trata da dignidade da
pessoa humana;), da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) (como o
art. 9º, que versa sobre atos praticados com o objetivo de desvirtuar,
impedir ou fraudar a aplicação dos preceitos contidos na CLT) e incorrem
em crimes previstos no Código Penal (art. 203, frustração de direito
assegurado por lei trabalhista, e art. 207, aliciamento de trabalhadores
de um local para outro do território nacional), sem contar o
descumprimento de convenções internacionais assinadas pelo Brasil.
Em resposta à Repórter Brasil, a Brenco se limita a alegar que
contratou "João Paracatu", notório "gato" da região, "para que este
auxiliasse na divulgação das oportunidade de emprego disponíveis". A
empresa foi advertida pela reportagem de que a afirmação de que o
contratado seria apenas um "divulgador de vagas" contrariava os próprios
termos do contrato, mas preferiu não dar explicações adicionais.
Confirmou ainda que "não tinha qualquer conhecimento dos atos do Sr.
João Pereira da Silva ["João Paracatu"] , nem tampouco poderia saber
da existência de inquéritos policiais e civis contra o mesm
o".
A segunda página traz o serviço complementar previsto no acordo entre
Breno "João Paracatu"
Em agosto de 2004, outra equipe do grupo móvel do MTE libertou 84 de
propriedade da Agromen Sementes, também em Campo Alegre de Goiás (GO). O
gato envolvido no caso era "João Paracatu", que aliciara dezenas de
trabalhadores para um condomínio informal de patrões. Outros problemas
de exploração criminosa de trabalhadores envolvendo o mesmo "gato" foram
registrados em municípios como Catalão (GO) e Luziânia (GO).
"João Paracatu" é tão atuante em Goiás que o procurador Antonio Carlos
protocolou a Ação Civil Pública 346/2009 que pede a Justiça do Trabalhoara
o procurador, "não há que se olvidar acerca da responsabilização do ´gato´ João Paracatu, o qual, contrariando garantias mínimas de
higiene, conforto, alimentação e respeito à pessoa do trabalhador,
maneja, inescrupulosamente, mão-de-obra por todo o Estado do Goiás com o
fito único de garantir-lhe lucro ao final de cada suposta empreitada".
A despeito do histórico do contratado e das evidências em contrário, a
Brenco insiste em sustentar que "não contratou e nem contrata ´gatos´".
"O termo ´gato´ é utilizado para definir a pessoa que seduz
trabalhadores com falsas promessas a fim de levá-los a trabalhar em
outra localidade. Além de falsas promessas, em alguns casos, há a
cobrança de valores", observa a empresa sucroalcooleira. A empresa
não vê a caracterização das "falsas promessas" e argumenta que "contratou os trabalhadores ainda nos seus locais de origem,
registrando-os conforme determina a legislação e pagando-lhes salário
antes mesmo de ter início as atividades laborais".
"À época, por ser empresa desconhecida pelos trabalhadores rurais, a
Brenco necessitou de auxílio na divulgação das oportunidades de emprego
que seriam abertas para suas frentes de plantio no estado de Goiás, Mato
Grosso e Mato Grosso do Sul. Cabe ressaltar que a Brenco só contrata
trabalhadores diretamente, sem a utilização de intermediários para
executar tal função, em locais previamente estabelecidos e comunicados à
população com antecedência", adiciona a companhia sucroalcooleira.
"Recompensa" do "gato" pelos serviços prestados cresce de acordo com
produção dos recrutados
Além do próprio contrato, os relatos das 17 pessoas encontradas pela
fiscalização não confirmam tal ausência de intermediários. Migrantes do
Maranhão, os trabalhadores rurais foram abordados ainda em 2007 por "João Paracatu" em Resfriado (GO), próximo à Cristalina (GO). Ele
teria prometido salário de até R$ 900, além de plano de saúde,
alojamentos adequados, roupas de trabalho e despesas de alimentação
pagas pela empresa contratante, logo após a assinatura de contrato de
trabalho.
Atraídos pelas promessas do "gato", eles chegaram a Campo Alegre de
Goiás (GO) em 6 de janeiro de 2008. No dia seguinte, foram submetidos
a exame médico para admissão e tiveram as carteiras de trabalho
assinadas pela Brenco. Crentes no compromisso de representantes da
empresa de que seriam levados para alojamentos na região de Mineiros
(GO), permaneceram alojados pelo próprio "João Paracatu" em instalações
precárias e improvisadas, sem acesso sequer à água potável para beber.
Quase dois meses se passaram entre o anúncio dos funcionários da Brenco
(7 de janeiro) e 27 de fevereiro de 2008, data em que os fiscais
encontraram o grupo.
De acordo com o MTE, o alojamento tinha apenas um banheiro, sem nenhum
tipo de higiene, que exalava odor extremamente fétido. Fiscais
encontraram lixo espalhado dentro e fora dos quartos. Os alojados
declararam que era comum a presença de ratos e insetos. Disseram ainda
que o local já estava sujo quando chegaram e que nunca receberam
produtos para fazer a limpeza. Não havia colchonetes p
ara todos e nenhum
armário: objetos de uso pessoal, víveres e restos de comida ficavam no
chão. As refeições eram preparadas com um fogareiro a álcool, também no
chão. A água para aplacar a sede vinha das torneiras dos tanques onde a
roupa era lavada. Nos depoimentos, eles declararam ter passado frio,
fome e sede.
Pelo menos três dos resgatados confirmaram que um ajudante de "João
Paracatu", conhecido como "Buiú", recolhera cartões bancários, extratos
e senhas dos alojados, sob ameaça de não recebimento de salários. Temido
por sua "fama" de "bravo", "João Paracatu" também teria dito que ninguém
poderia fazer "bicos" por causa do risco de acidentes, que prejudicariam
a empresa contratante (Brenco). Nos depoimentos à equipe fiscal, os "recrutados" foram assertivos em declarar que não foram embora de Campo
Alegre de Goiás (GO) porque não tinham dinheiro para comprar as
passagens.
A Brenco salienta que "não pode ser considerado trabalho escravo a
existência de empregados que estavam em suas próprias casas, recebendo
salário, ainda sem trabalhar, e aguardando o início das atividades de
plantio". Indagada sobre o valor e a data exata dos pagamentos
realizados aos 17 trabalhadores, a empresa responde apenas que os
valores dos salários são "confidenciais". Um dos autos de infração
aplicados pela fiscalização do Trabalho - Deixar de efetuar, até o 5º
dia útil do mês subseqüente ao vencido, o pagamento integral do salário
mensal devido ao empregado - entra em choque com a versão da empresa. O
procurador Antonio Carlos recorda ainda que, no momento da fiscalização,
não foram apresentados recibos dos salários.
Na visão da empresa, não há como caracterizar o caso como de trabalho
escravo pelos seguintes motivos: houve o pagamento de salários;
inexistiu regime de servidão por dívidas; não há qualquer registro de
existência de segurança armada que impedisse ou restringisse o direito
de ir e vir dos trabalhadores e/ou notícias de violências por parte da
empresa ou seus prepostos; não se constatou a hipótese de isolamento de
propriedade rural em relação a vilas; e não há notícia de
inacessibilidade aos pontos de acesso a transporte público, tanto que há
relatos de alguns trabalhadores no sentido de que tiveram livre acesso a
diversos pontos da cidade.
A ocorrência de exploração de trabalho degradante - uma das formas que
caracterizam o trabalho escravo segundo o art. 149 do Código Penal - no
caso Brenco é "cristalina" para o procurador Antonio Carlos. "As pessoas
estavam num alojamento sem qualquer habitabilidade. E além da situação
degradante, também houve aliciamento, comumente associado ao crime".
"João Paracatu" já havia sido flagrado em ação por outras fiscalizações
do grupo móvel (Foto: MTE)
A companhia sucroalcooleira preferiu não se pronunciar especificamente
sobre os sinais de participação ativa e de intimidação do "gato" mesmo
depois da contratação dos trabalhadores. Evitou também comentar as
graves denúncias de retenção de documentos bancários pelo preposto de "João Paracatu". Tampouco respondeu às perguntas sobre quantas pessoas
foram contratadas por intermédio de "João Paracatu", quanto foi pago ao "gato" como porcentagem de produtividade do contingente por ele
contratado e quantos outros intermediários como "João Paracatu" foram
contratados para suprir a demanda de 3 mil trabalhadores rurais que
participaram na época do plantio da cana para a Brenco.
Além da situação dos 17 em Campo Alegre de Goiás (GO), a fiscalização
lavrou outros autos na mesma operação apontando problemas nos
alojamentos Netinho 1 e Netinho 2, em Alto Taquari (MT), e nas pensões
despreparadas e frentes de trabalho de plantação de cana-de-açúcar, em
Mineiros (GO) ( http://www.reporterbrasil.org.br/exibe.php?id=1310 ). Na
sequência, novos problemas foram detectados na acomodação dos pedreiros
contratados por empresas terceirizadas que construíam os alojamentos da
Brenco ( http://www.reporterbrasil.org.br/exibe.php?id=1312 ).
Na Justiça
No último dia 11 de maio, a Brenco foi beneficiada por mandado de
segurança preventivo proferido pela 12ª Vara do Trabalho de Brasília
(DF). Na sentença, a juíza substituta Flávia Fragale Martins Pepino
determina que a Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) do MTE "se
abstenha de incluir o nome da empresa (...) no ´Cadastro de Empregadores
que tenham mantido trabalhadores em condições análogas à de escravo´ até
que se tenham esgotadas todas as possibilidades de discussão dos autos
de infração, inclusive na esfera judicial".
Com isso, mesmo antes de concluído o processo administrativo sobre os
17 trabalhadores de Campo Alegre de Goiás (GO), a Brenco obteve a
prerrogativa de ficar fora da "lista suja". A Advocacia-Geral da União
(AGU) já está entrando com recurso contra a decisão da juíza
substituta.
Portaria do Ministério da Integração Nacional (MIN) de novembro de 2003
impede que agentes econômicos incluídos na "lista suja" do trabalho
escravo recebam financiamento ou incentivo fiscal em estabelecimentos
públicos federais de crédito e fomento ( http://www.reporterbrasil.org.br/exibe.php?id=201 ). Além disso, as
pessoas físicas e jurídicas que fazem parte do cadastro estão sujeitas a
restrições econômicas por parte de mais de 180 companhias privadas e
associações setoriais que aderiram ao Pacto Nacional pela Erradicação do
Trabalho Escravo(http://www.pactonacional.com.br/ ).
A Brenco apresentou paralelamente na Justiça pelo menos outras 39
ações, em diversas Varas de Trabalho de Goiânia, que pedem a
anulação dos autos de infração da referida operação . Vale
ressaltar que, além da situação dos 17, um conjunto de irregularidades
trabalhistas foi verificado nas frentes de trabalho do empreendimento de
cana-de-açúcar propriamente dito.
Posicionamento da empresa busca esclarecer que as ações anulatórias
dizem respeito aos autos de infração lavrados "sobre situações ocorridas
em suas instalações, as quais, de forma alguma relatam fatos que atentam à dignidade dos trabalhadores, mas sim, situações pontuais, que foram
imediatamente sanadas, em linha com as orientações do próprio Ministério
do Trabalho, antes mesmo de finda a fiscalização".
No entanto, a companhia promove uma intensa ofensiva na Justiça para
anular especialmente os autos do flagrante específico dos 17
trabalhadores, que são as peças-chave para punições administrativas e
judiciais relacionadas à exploração de trabalho escravo. Para tanto, a
Brenco se ancora no direito à "dupla visita", previsto para novos
empreendimentos pela legislação trabalhista. Segundo a empresa, a
fiscalização do trabalho, por conta desse dispositivo, deveria atuar de
forma a orientar a empresa que está iniciando suas atividades na "primeira visita" e não agir de forma punitiva.
Em decorrência da intervenção da Advocacia-Geral da União (AGU), esses
processos movidos pela Brenco estão sendo concentrados na Vara de
Trabalho de Mineiros (GO). Mas em pelo menos dois casos, magistrados da
capital goiana deram sentenças quase concomitantes negando o pedido da
empresa de anulação dos autos de infração.
Comida era feita em fogareiro a álcool que ficava no chão do alojamento
precário (Foto: MTE)
Em sentença datada de 10 de abril de 2009, o juiz Eduardo Tadeu Thon,
da 10a Vara do Trabalho de Goiânia, conclui que a petição inicial da
empresa não traz alegações nem contém prova "capaz de elidir os fatos
registrados nas autuações, os quais se tem por verdadeiros em razão da
presunção de legitimidade juris tantum dos autos de infração".
O juiz, portanto, não acolheu a justificativa da "dupla visita".
Eduardo sublinhou que a norma citada se refere a "estabelecimentos ou
locais de trabalho recentemente inaugurados ou empreendidos" e que, em
fevereiro de 2008 (quando a Brenco foi autuada), a empresa "tinha pelo
menos cinco filiais instaladas e em funcionamento".
A finalidade da "dupla visita", completa o magistrado do Trabalho, é
permitir que empresas nascentes tenham tempo para se estruturar, "a fim
de que possam criar procedimentos administrativos aptos ao cumprimento
da legislação trabalhista, assim como levantar os recursos necessários à
sua efetivação". "No caso, a requerente [Brenco] tinha vasta estrutura e
experiência administrativa decorrente da operação das diversas filiais.
Tinha também recursos suficientes para estruturar tempestivamente as
condições de trabalho", acrescenta. "As grandes empresas têm que primar
pelo planejamento e pela organização, pois dispõem de recursos humanos e
materiais para tanto. A requerente tinha amplos recursos e pessoal capaz
de organizar alojamentos adequados. Dessa forma, a autora, ao contratar
empregados sem se assegurar de que teriam condições adequadas, incorreu
em culpa, pois agiu de forma negligente".
A "dupla visita" também não foi aceita pela juíza substituta Valéria
Cristina de Sousa Silva, da 12a Vara do Trabalho de Goiânia. Na decisão
de 14 de abril, ela destaca que o critério "não se aplica, mesmo em se
tratando de estabelecimento ou local de trabalho recentemente
inaugurado, quando constatadas situações de grave e iminente risco à
saúde ou à integridade física do trabalhador (...), como as que foram
demonstradas no caso em apreço".
Para Valéria, "a motivação consignada nos autos de infração se baseou
em fatos materialmente existentes e juridicamente adequadas ao resultado
obtido pelo agente administrativo". Ela argumenta que "todas as
infrações à legislação trabalhistas constantes dos autos de
infração" no caso estão "suficientemente demonstradas" e que foi
possibilitada à empresa "o exercício do direito de ampla defesa e
contraditório perante o órgão administrativo, não havendo nos autos
elemento hábil para invalidar o procedimento fiscalizatório impugnado".
Projeto de Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil
Trabalho Escravo
Vamos abolir de vez essa vergonha.
*Árabes querem terras no Brasil*
A notícia é do jornal *O Estado de S. Paulo*
22-05-2009.
As fortunas árabes obtidas com o petróleo serão usadas na comprar terras no
Brasil para garantir o abastecimento de alimentos nesses países, informou o
presidente da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, *Salim Schahin*. Na
próxima semana, a cúpula da Autoridade Geral de Investimentos da Arábia
Saudita vem ao Brasil para avaliar áreas para compra.
A Líbia já destinou parte de suas reservas para a compra de terras e está em
negociações também no Brasil. "Estamos ainda em uma fase de exploração",
disse *Schahin*. Nesta semana, o presidente *Luiz Inácio Lula da Silva* fez
a primeira viagem de um chefe de Estado brasileiro à Arábia Saudita.
A busca por terras é um dos principais objetivos dos árabes, que, nosúltimos anos, acumularam reservas bilionárias, mas continuam com problemas
de abastecimento de alimentos. Os sauditas, no início do ano, decidiram
criar um fundo especial apenas para essas operações de compras de terras.
Os sauditas ainda avaliam a possibilidade de comprar terras no *Sudão*, *
Ucrânia*, *Paquistão* e *Tailândia*. Até o *Grupo Bin Laden*, com sede na
Arábia Saudita, também lidera operações de busca de terras aráveis. Um dos
projetos em discussão é a aquisição de 500 mil hectares de arrozais na
Indonésia. No *Paquistão*, os sauditas podem levar 1 milhão de hectares.
Na *Etiópia*, onde a fome atinge mais de 5 milhões de pessoas, os sauditas
investiram mais de US$ 100 milhões na rodução de trigo e arroz. O valor é o
mesmo que as Nações Unidas gastam todo ano para alimentar a população do
país considerado berço da raça humana.
Os líbios insistem que o Brasil é parte da estratégia da busca por terras.
Trípoli tem US$ 500 milhões para investir na América Latina. Mas as
autoridades deixaram claro aos empresários brasileiros que grande parte
desse dinheiro será usado no setor agropecuário.
Estudo do *Instituto Internacional de Pesquisas de Políticas de Alimentação*(
*Ifpri*, em inglês), apresentado há uma semana em Genebra, aponta que os
acordos de venda de terras por governos a estrangeiros pode somar US$ 30
bilhões, envolvendo a aquisição de 20 milhões de hectares, a grande maioria
em países pobres.
AUMENTA A EXPLORAÇÃO DO AGRONEGOCIO COM TRABALHO PRECÁRIO E TERCEIRIZAÇÃO NO CAMPO.
Ministério Público vê ampliação do trabalho precário
Responsável pelo ajuizamento de praticamente todas as ações civis públicas que questionam a terceirização nas concessionárias de serviços públicos, o Ministério Público do Trabalho (MPT) combate com veemência esse tipo de contratação. O órgão defende que a terceirização só poderia ocorrer nas chamadas atividades-meio - por exemplo, a manutenção da rede de computadores, a vigilância, a limpeza, o departamento de marketing. No julgamento a ser realizado quinta-feira (14) pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST), o MPT tem como principal argumento a precarização das relações do trabalho em decorrência da terceirização.
A reportagem é de Luiza de Carvalho e Daniel Rittner e publicada pelo jornal Valor, 12-05-2009.
A definição da palavra "inerente" é, na opinião do procurador do Trabalho da 1ª Região, Rodrigo Carelli, um grande foco de discussão com as empresas. Isso porque as leis que regulamentam os setores de energia e de telecomunicações - a Lei das Concessões e a Lei Geral das Telecomunicações - permitem a terceirização em atividades acessórias, complementares ou inerentes à atividade. "Ao interpretar o que seria inerente, as empresas entendem que podem terceirizar tudo, inclusive a própria atividade concedida pelo governo", afirma o procurador.
Segundo ele, as empresas que terceirizam em massa são as que mais sofrem ações na Justiça do Trabalho e responsáveis pelo maior número de acidentes de trabalho. Não há estatísticas que comprovem a acusação do MPT, mas a percepção dos sindicatos é a mesma. "Em todos os Estados, sem exceção, temos feito essas denúncias", diz João de Moura Neto, presidente da Federação Interestadual dos Trabalhadores em Telecomunicações (Fittel).
O sindicalista aponta a jornada de trabalho excessiva e a falta de pagamento de horas extras como os problemas mais comuns entre os terceirizados. Ele reclama que a maioria dos funcionários recebe salário mínimo e tem seus rendimentos adicionais atrelados ao volume de atendimentos, como número de instalações telefônicas ou de reparos. "A quantidade de mão de obra nas empresas terceirizadas é totalmente subdimensionada."
O MPT argumenta que a demora no trâmite das ações trabalhistas contra as empresas terceirizadas tem prejudicado os trabalhadores, que esperam cerca de 12 anos para receber seus direitos. Isso ocorre porque é corriqueiro que as empresas terceirizadas não tenham como arcar com o passivo ou simplesmente desapareçam no curso do processo. Apesar de a Justiça considerar as tomadoras de serviço como corresponsáveis - a chamada responsabilidade subsidiária - nas demandas trabalhistas, é preciso esgotar todas as fontes de busca às empresas terceirizadas.
De acordo com o procurador, há ainda o problema da "quarteirização", que seria a terceirização feita pelas empresas que já são terceirizadas. "É uma diluição dos direitos trabalhistas", diz.
Outro problema levantado pelo MPT é o enfraquecimento dos sindicatos. Um exemplo são os trabalhadores da construção civil contratados para os serviços gerais de uma empresa telefônica, aos quais não é permitida a migração à categoria da telefonia. "Os sindicatos de telefonia estão cada vez mais fracos", diz Carelli.
Em pleno Dia do Trabalho, oito são libertados de trabalho escravo
“A gente não recebia nada e trabalhava de domingo a domingo, sem descanso. Eu trabalhei doente, com febre e dor de cabeça. Mas não tinha jeito”, conta um dos libertados pelo grupo móvel de fiscalização em área de Parauapebas (PA)
Enquanto multidões comemoravam o 1º de maio nos grandes centros urbanos, mais um grupo de oito trabalhadores era libertado de trabalho escravo no Sudeste de Pará. Desde fevereiro, eles foram encontrados nas Fazendas Santa Andréia e Serra Grande, a cerca de 5 km do centro de Paraupebas (PA). A propriedade pertence ao empresário Gabriel Augusto Camargos, dono de outros empreendimentos comerciais na região.
A reportagem é de Bianca Pyl e publicada pela Agência de Notícias Repórter Brasil.
“A gente não recebia nada e trabalhava de domingo a domingo, sem descanso. Eu mesmo trabalhei doente, com febre e dor de cabeça. Mas não tinha jeito”, lamenta Gedéias do Livramento, 23 anos, um dos libertados pelo grupo móvel de fiscalização e combate ao trabalho escravo do governo federal. Em função das intensas chuvas na região, os fiscais tiveram que percorrer um percurso de 320 km para chegar até o local, normalmente acessível por um trecho de 160 km. Os veículos do grupo móvel atolaram quatro vezes.
Segundo os testemunhos dos trabalhadores, havia cerceamento da liberdade. “A gente era ameaçado o tempo todo. O capanga andava com a arma na cintura. Uma vez, um companheiro nosso foi pedir dinheiro para comprar remédio porque tinha levado uma picada de cobra e foi ameaçado de morte”, conta Gedéias. Quando ele próprio ficou doente, recorreu ao irmão Joel, que também trabalhava no mesmo local, para comprar remédios.
O “gato” (responsável pela contratação da mão-de-obra), que tinha a Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS)
assinada por Gabriel como “vigia”, chegou inclusive a ser preso pela Polícia Federal (PF) por parte ilegal de arma no momento da fiscalização. Após pagamento de fiança, ele acabou sendo liberado. De acordo com o delegado responsável, será aberto um inquérito contra o “gato” pelo crime de aliciamento e também por porte ilegal de arma.
Ao chegar no local, os fiscais flagraram ainda um vaqueiro dando ordens para que os empregados deixassem o local, na tentativa de dificultar a ação dos fiscais. Os barracos que serviam de alojamentos chegaram a ser parcialmente danificados pelo fogo ateado de propósito. “Nós desconfiamos que havia mais empregados trabalhando, principalmente por causa do tamanho da fazenda”, declara Guilherme Moreira, auditor fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) que coordenou a ação. De acordo com um dos vaqueiros, as duas fazendas abrigam cerca de 3 mil cabeças de gado.
Uma das vítimas de trabalho escravo não foi encontrada pelo grupo móvel. “Ouvimos relatos que este empregado mora próximo ao local e não procurou a fiscalização por medo de se prejudicar futuramente na hora de buscar emprego”, explica o auditor fiscal Guilherme Moreira.
Os alojamentos eram barracos de lona. A água consumida vinha de um igarapé. No local não havia instalações sanitárias. Os empregados também não tinham Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). “Nosso barraco não tinha nada. A comida era só caldo de feijão com arroz ou farinha. A gente bebia a água do igarapé, mas ela deixava a gente muito doente”, lembra Gedéias.
Além dos libertados, a fazenda tinha 26 trabalhadores com registro na Carteira de Trabalho e da Previdência Social (CTPS). Contudo, dois fatos chamaram a atenção da equipe de fiscais: apenas quatro estavam no local na hora da fiscalização e os registros eram com funções que não condiziam com o trabalho exercido pelos empregados. Um deles, por exemplo, estava registrado como zelador de prédio. Além disso, vaqueiros registrados apenas com o salário mínimo admitiram ter recebido pagamentos ilegais “por fora”.
Nos dias seguintes, os agentes públicos continuaram a fiscalizar o local e encontraram agrotóxicos armazenados de forma incorreta. O produto estava vazando e havia risco de contaminação. O galpão ficava ao lado de duas casas onde viviam uma família e outros dois empregados.
Aliciamento e pagamentos
Os trabalhadores maranhenses foram aliciados no final de fevereiro nos municípios de Santa Inês (MA) e Santa Luzia (MA). “O gato disse que a gente ia receber direitinho, que o trabalho não era muito pesado. Nós fomos, né? Todo mundo estava desempregado”, conta o libertado Gedéias.
Ele relata que tinha esperança de receber algum dinheiro no final da empreitada. Contudo, não havia uma data certa para o trabalho acabar. “Não tinha saída: era esperar para receber. O capanga dizia que quem saísse antes não ia receber nem um tostão”, discorre. Gedéias e o irmão Joel voltaram para Santa Luzia e estão na casa do irmão Lorival, o mais velho dos três.
“Eu ajudei minha mãe a criá-los. Quando soube pelo que eles passaram, fiquei muito triste”, relata Lorival. Gedéias explica que ele e Joel não telefonavam para a família no Maranhão porque o empregador não permitia.
Segundo o grupo móvel de fiscalização, Gabriel Augusto Camargos possui mais uma fazenda, em São Félix do Xingu (PA), além de um hipermercado, dois postos de gasolina e uma firma de terraplanagem. O empresário também disputa área em Parauapebas (PA), conforme a Sociedade Paraense de Defesa de Direitos Humanos (SDDH), com militantes sem-teto.
O empregador assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) em que se compromete a não manter mais trabalhadores de condições análogas à escravidão. “Não foi preciso mover uma ação civil pública porque o fazendeiro aceitou o acordo. Agora, se ele descumprir o TAC, pagará multa de R$ 10 mil por obrigação descumprida, além de R$ 10 mil por cada trabalhador que estiver em situação irregular”, explica Florença Dumont Oliveira, procuradora do Ministério Público do Trabalho (MPT) que acompanhou a operação, que permaneceu no local até a última quinta-feira (7).
Os trabalhadores receberam as verbas referente a rescisão do contrato de trabalho (R$ 28 mil). O MPT determinou também o pagamento de R$ 8 mil por dano moral individual e R$ 80 mil por dano moral coletivo. Ao todo, foram lavrados 53 autos de infração.
A Repórter Brasil entrou em contato com o advogado representante do proprietário no caso, que ficou de enviar a posição de seu cliente por e-mail. Mas nada foi enviado até o fechamento desta matéria.
Por Luciano Martins Costa, do Observatório da Imprensa
Os três jornais brasileiros considerados de maior influência abordam nesta quarta-feira o tema da preservação ambiental, mas nenhum deles trata a questão entre as prioridades.
O grande destaque ainda é para os abusos de deputados e senadores no uso de suas verbas para gastos pessoais, e especialmente na generosidade com que distribuem passagens aéreas entre parentes e amigos.
Por trás da agenda assumida pela imprensa, estende-se a disputa partidária, que tem como objeto final a eleição presidencial de 2010.
Por esse motivo, é importante registrar a informação publicada hoje no alto da coluna Panorama Político, do Globo, sob o título “Terra arrasada”.
Ali está registrado o que os outros jornais tentam dissimular: os inimigos da preservação ambiental estão espalhados por todos os partidos, mas um deles, o Democratas, parece ter assumido como objetivo a destruição da legislação ambiental criada no Brasil nos últimos anos e que, com todos os defeitos, ainda é considerada um avanço.
O Globo observa que, enquanto o site do partido apregoa que tem como bandeira o meio ambiente, a senadora Kátia Abreu, do Democratas do Tocantins e presidente da Confederação Nacional da Agricultura, tenta derrubar a legislação de proteção ao patrimônio natural.
Segundo o jornal, "os adversários da legislação ambiental encontraram uma forma para torná-la letra morta". A Confederação Nacional da Agricultura, defendendo a tese de que tanto a União como os Estados podem legislar sobre o assunto, está usando seu poder para incentivar governos estaduais e assembléias legislativas a produzir regras menos rigorosas de controle do desmatamento e uso das margens dos rios.
O modelo da CNA, encampado pelo Partido Democratas, é a legislação de Santa Catarina, Estado campeão de destruição da Mata Atlântica, onde um novo código florestal, conflitante com as normas federais, está sendo contestado pelo Ministério Público.
Os outros jornais também noticiam a controvérsia, mas apenas o Globo esclarece que por trás da tentativa de anular as regras para preservação ambiental está a presidente da Confederação Nacional da Agricultura e, por trás dela, o Partido Democratas.
A agremiação deveria mudar de nome e manter a mesma sigla: Partido do Desmatamento.
COMISSÃO PASTORAL DA TERRA - CPT24/04/2009
Rua Pau Brasil, 40 Caixa Postal 57 CEP 68 555-340 - Xinguara–PA
FAZENDA SANTA BARBARA USA DE MÁ FÉ PARA CONSEGUIR LIMINAR NO TRIBUNAL.
A Agropecuária Santa Bárbara Xinguara S/A enganou o Tribunal de Justiça do Estado do Pará para conseguir uma liminar de reintegração de posse da Fazenda Espírito Santo, localizada nos Municípios de Xinguara e Sapucaia.
A empresa agiu de má-fé ao ingressar com a Ação Judicial na Vara Agrária de Marabá, sendo que o imóvel localiza-se na área de jurisdição da Vara Agrária de Redenção, onde já tramitam duas ações judiciais referentes à Fazenda Espírito Santo: um interdito proibitório, com audiência marcada para o dia 22.06.09 e uma Ação Civil Pública proposta pelo ITERPA, na qual o juiz ordenou o bloqueio das matriculas do imóvel, por suspeita de grilagem.
A manobra da Agropecuária Santa Bárbara é ainda mais gritante se considerarmos que a Ação foi proposta durante a ausência da Juíza titular da Vara Agrária de Marabá, tendo sido imediatamente concedida a liminar pela Magistrada de plantão. Na segunda feira subseqüente, na volta da Juíza Titular, a mesma revogou a liminar e marcou audiência para ouvir a parte autora. A Empresa recorreu para Belém e maliciosamente induziu o Tribunal a erro, declarando que o imóvel dista apenas 105 KM de Marabá, quando na verdade fica a mais de 170 KM. Assim, o Tribunal de justiça concedeu a liminar, acreditando localizar-se o imóvel no Município de Marabá.
Certamente a Agropecuária Santa Bárbara não impetrou a Ação na Vara Agrária de Redenção como prevê a lei, temendo uma decisão negativa, considerando que o Juiz daquela Vara já havia determinado o bloqueio da matrícula da Fazenda Espírito Santo por entender que se trata de terra pública, patrimônio do Estado do Pará.
Não é a primeira vez que fazendeiros da região usam desse estratagema criminoso para obter proveito da justiça. O grupo Quagliato, proprietário da Fazenda Rio Vermelho, próxima à Fazenda Espírito Santo, também usou desse artifício em 2006, ao requerer na Vara Agrária a concessão de liminar alegando que o imóvel encontrava-se ocupada pela MST. A liminar foi deferida e as famílias foram despejadas de outra área, distante mais de 20KM da Fazenda Rio Vermelho. Mais tarde os advogados dos trabalhadores conseguiram provar que o local do acampamento era terra pública, ilegalmente apropriada pelo grupo Quagliato. A liminar foi suspensa e os agricultores voltaram e continuam acampados no local aguardando serem assentados pelo INCRA.
No caso da Fazenda Espírito Santo, os advogados dos trabalhadores vão ingressar com as medidas legais na Vara Agrária e no Tribunal de Justiça contra a Agropecuária Santa Bárbara. É importante deixar claro que NÃO EXISTE LIMINAR A SER CUMPRIDA NA FAZENDA ESPÍRITO SANTO, e as famílias de lá não vão sair sem ordem judicial. O que existe é uma liminar, conseguida de forma fraudulenta, para ser cumprida em uma fazenda localizada a 105 km de Marabá, sob jurisdição da Vara Agrária de Marabá, que não se trata da Fazenda Espírito Santo que é situada no Município de Xinguara, sob jurisdição da Vara Agrária de Redenção.
Xinguara-PA, 24 de abril de 2009.
Comissão Pastoral da Terra do Sul e Sudeste do Pará
Tel: 94 3321 2229 (CPT Marabá) e 94 3426 1790 (CPT Xinguara)
INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES À NOTA DE ESCLARECIMENTO DO MST.
22/04/2009
A Fazenda que foi palco da tragédia no ultimo dia 18.04.09, é a Fazenda Espírito Santo, Municipio de Xiinguara, que pertence ao Grupo Santa Bárbara do banqueiro Daniel Dantas.
Esta Fazenda teve determinado o bloqueio das matriculas de seus títulos, na data de 30.01.09, pelo Juiz da Vara Agrária de Redenção, nos Autos da Ação Civil Pública n. 2008.1.002166-4, na qual o Estado do Pará reivindica para si a legitima propriedade da área.
Até a presente data não existe nenhuma liminar de reintegração de posse da Fazenda Espírito Santo.Segue a nota do MST.
Comissão Pastoral da Terra de Xinguara
Segue a nota do MST.
Esclarecimentos sobre acontecimentos no Pará .
Em relação ao episódio na região de Xinguara e Eldorado de Carajás, no sul do Pará, o MST esclarece que os trabalhadores rurais acampados foram vítimas da violência da segurança da Agropecuária Santa Bárbara. Os sem-terra não pretendiam fazer a ocupação da sede da fazenda nem fizeram reféns. Nenhum jornalista nem a advogada do grupo foram feitos reféns pelos acampados, que apenas fecharam a PA-150 em protestos pela liberação de três trabalhadores rurais detidos pelos seguranças. Os jornalistas permaneceram dentro da sede fazenda por vontade própria, como sustenta a Polícia Militar. Esclarecemos também que:
1- No sábado pela manhã, 20 trabalhadores sem-terra entraram na mata para pegar lenha e palha para reforçar os barracos do acampamento em parte da Fazenda Espírito Santo, que estão danificados por conta das chuvas que assolam a região. A fazenda, que pertence à Agropecuária Santa Bárbara, do Banco Opportunity, está ocupada desde fevereiro, em protesto que denuncia que a área é devoluta. Depois de recolherem os materiais, passou um funcionário da fazenda com um caminhão. Os sem-terra o pararam na entrada da fazenda e falaram que precisavam buscar as palhas. O motorista disse que poderia dar uma carona e mandou a turma subir, se disponibilizando a levar a palha e a lenha até o acampamento.
2- O motorista avisou os seguranças da fazenda, que chegaram quando os trabalhadores rurais estavam carregando o caminhão. Os seguranças chegaram armados e passaram a ameaçar os sem-terra. O trabalhador rural Djalme Ferreira Silva foi obrigado a deitar no chão, enquanto os outros conseguiram fugir. O sem-terra foi preso, humilhado e espancado pelos seguranças da fazenda de Daniel Dantas.
3- Os trabalhadores sem-terra que conseguiram fugir voltaram para o acampamento, que tem 120 famílias, sem o companheiro Djalme. Avisaram os companheiros do acampamento, que resolveram ir até o local da guarita dos seguranças para resgatar o trabalhador rural detido. Logo depois, receberam a informação de que o companheiro tinha sido liberado. No período em que ficou detido, os seguranças mostraram uma lista de militantes do MST e mandaram-no indicar onde estavam. Depois, os seguranças mandaram uma ameaça por Djalme: vão matar todas as lideranças do acampamento.
4- Sem a palha e a lenha, os trabalhadores sem-terra precisavam voltar à outra parte da fazenda para pegar os materiais que já estavam separados. Por isso, organizaram uma marcha e voltaram para retirar a palha e lenha, para demonstrar que não iam aceitar as ameaças. Os jornalistas, que estavam na sede da Agropecuária Santa Bárbara, acompanharam o final da caminhada dos marchantes, que pediram para eles ficarem à frente para não atrapalhar a marcha. Não havia a intenção de fazer os jornalistas de “escudo humano”, até porque os trabalhadores não sabiam como seriam recebidos pelos seguranças. Aliás, os jornalistas que estavam no local foram levados de avião pela Agropecuária Santa Bárbara, o que demonstra que tinham tramado uma emboscada.
5- Os trabalhadores do MST não estavam armados e levavam apenas instrumentos de trabalho e bandeiras do movimento. Apenas um posseiro, que vive em outro acampamento na região, estava com uma espingarda. Quando a marcha chegou à guarita dos seguranças, os trabalhadores sem-terra foram recebidos a bala e saíram correndo – como mostram as imagens veiculadas pela TV Globo. Não houve um tiroteio, mas uma tentativa de massacre dos sem-terra pelos seguranças da Agropecuária Santa Bárbara.
6- Nove trabalhadores rurais ficaram feridos pelos seguranças da Agropecuária Santa Bárbara. O sem-terra Valdecir Nunes Castro, conhecido como Índio, está em estado grave. Ele levou quatro tiros, no estômago, pulmão, intestino e tem uma bala alojada no coração. Depois de atirar contra os sem-terra, os seguranças fizeram três reféns. Foram presos José Leal da Luz, Jerônimo Ribeiro e Índio.
7- Sem ter informações dos três companheiros que estavam sob o poder dos seguranças, os trabalhadores acampados informaram a Polícia Militar. Em torno das 19h30, os acampados fecharam a rodovia PA 150, na frente do acampamento, em protesto pela liberação dos três companheiros que foram feitos reféns. Repetimos: nenhum jornalista nem a advogada do grupo foram feitos reféns pelos acampados, mas permaneceram dentro da sede fazenda por vontade própria. Os sem-terra apenas fecharam a rodovia em protesto pela liberação dos três trabalhadores rurais feridos, como sustenta a Polícia Militar.
MOVIMENTOS DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA - PARÁ
OCUPAR TERRA DE DANTAS É "DEVER DO POVO BRASILEIRO", AFIRMA PROTÓGENES EM ATO.
LAURA CAPRIGLIONE
da Folha de São Paulo
16/03/2009
O delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz defendeu ontem em São Paulo que "ocupar fazenda de banqueiro bandido é dever do povo brasileiro". Manifestou assim seu apoio à invasão da fazenda Espírito Santo, de propriedade do banqueiro Daniel Dantas, por 280 militantes do Movimento dos Sem-Terra (MST), no último dia 28.
Protógenes foi o coordenador da Operação Satiagraha, que apurou possíveis ilegalidades cometidas por Daniel Dantas à frente do Grupo Opportunity. No dia 1º de abril, o delegado deve comparecer à CPI dos Grampos da Câmara para explicar supostos abusos que teriam ocorrido durante as investigações. Protógenes foi afastado do caso.
Segundo o delegado, que ontem discursou diante de 70 militantes do Movimento Terra, Trabalho e Liberdade, ligado ao PSOL, "no dia 1º, o povo brasileiro vai ver em que condições essas terras [as da fazenda Espírito Santo] foram adquiridas", além de saber "quais os interesses escusos por trás disso aí".
O encontro contou com a participação da presidente nacional do PSOL e hoje vereadora de Maceió, Heloísa Helena, que tratou o delegado todo o tempo por "herói". Alguns ativistas vestiam camiseta amarela com inscrição em verde "Protógenes contra a corrupção".
Foi nesse cenário que o delegado convocou os presentes a organizarem caravanas para, no dia 1º, em Brasília, "exigir a punição daqueles que saquearam os cofres do nosso país. E para impedir a punição daquele servidor público federal que cumpriu o seu dever." Falava de si mesmo.
Interrompido por aplausos, prometeu explicar como se deu a participação no que chamou de "quadrilha" de cada personagem "que tem relação espúria, corrupta, criminosa com o banqueiro bandido Daniel Dantas".
Em pelo menos sete vezes, o delegado referiu-se a Daniel Dantas como o "banqueiro bandido". E disse que, no Brasil, "falta punição". Mencionou Bernard Madoff, preso na semana passada depois de se declarar culpado em um dos maiores escândalos financeiros dos EUA.
"E o nosso banqueiro aqui? É homenageado e cortejado", disse Protógenes.
A defesa de Daniel Dantas alega que houve irregularidades e atos persecutórios na investigação conduzida pelo delegado da PF. Fazendas do banqueiro no Pará são o alvo declarado do MST na região.
NOVA OFENSIVA CONTRA O MST
Folha de S.Paulo
Plínio Arruda Sampaio
16/03/2009
Neste momento, o MST se debate contra um tipo de ataque intermitente: uma ofensiva patrocinada por inimigos visíveis e invisíveis
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) é sujeito a dois tipos de ataque: os permanentes e os intermitentes.
O primeiro tipo é desferido cotidianamente pela UDR (União Democrática Ruralista) e pela "bancada ruralista". Já a segunda forma de ataque acontece de vez em quando. Neste momento, o movimento se debate contra esse segundo tipo: uma grande ofensiva patrocinada por inimigos visíveis e invisíveis. Um dos inimigos visíveis é o atual presidente do Supremo Tribunal Federal. Extrapolando claramente suas funções, esse magistrado está exigindo providências judiciais para averiguar supostas irregularidades no repasse de verbas federais a entidades ligadas ao MST. No afã de agredir os sem- terra, sobrou para o Ministério Público, acusado de tolerância com o crime -o que provocou irada reação do procurador-geral, o honrado dr. Antonio Fernando de Souza.
Toda ofensiva -como explicam os tratados militares- deve ter um objetivo central bem claro. A ofensiva atualmente em curso contra o MST visa "limpar" a área fundiária de uma organização autêntica, que pode ser o sério obstáculo à implantação do novo modelo agrícola adotado pelo governo -o modelo do grande agronegócio. A ordem, portanto, é enterrar de uma vez a reforma agrária.
As desapropriações de imóveis estão paralisadas e os assentamentos não recebem o apoio necessário para que possam sair adiante. Explico: diante da resistência dos proprietários rurais, do poderio da bancada ruralista e da esperada demanda externa por produtos agrícolas, o governo resolveu desistir da reforma agrária e abraçar a fantasia mirabolante de montar, na Amazônia, uma enorme agricultura de exportação de carne, soja e álcool de cana-de-açúcar. A crise mundial demonstrará a inconsequência dessa política.
O MST é um estorvo para o projeto de transformar a Amazônia em polo exportador de grandes dimensões, pois a instalação de imensas fazendas nas terras públicas da região depende de investidores que não costumam colocar seus milhões em terras litigiosas. Exigem, primeiro, que sejam legalizadas. Aí então eles as compram dos grileiros. Trata-se de um processo semelhante ao da lavagem de dinheiro. No caso, trocam-se títulos contestáveis por títulos garantidos pelo governo. Pois, apesar da norma constitucional que determina a destinação de terras públicas à reforma agrária ou a projetos de colonização, o governo está decidido a entregar essas terras a grandes produtores.
Se o MST desaparecer ou ficar desmoralizado, sua influência sobre a opinião pública se reduzirá substancialmente e a pressão pela reforma agrária cairá a zero, deixando o governo com as mãos livres para regalar 67 milhões de hectares de terras públicas a grileiros que as venderão ao "honrado" agronegócio. Para ter uma ideia do tamanho desse "Panamá", basta lembrar que essa superfície é maior do que toda a terra arável da Alemanha somada à da Itália.
Não por acaso, além de investir contra as ocupações, a atual ofensiva lança suspeitas sobre a legalidade dos repasses de dinheiro a entidades que prestam serviços aos assentados.
Acusações de corrupção constituem, como se sabe, elementos devastadores da reputação de pessoas e de entidades. No entanto, o que corre solto, em Brasília, são os mais venenosos boatos a respeito das maracutaias que estão por trás não do repasse de verbas ao MST, mas da regularização do grilo amazônico.
Não é para menos: ao arrepio da Constituição, as medidas provisórias permitirão aos grileiros regularizar posses ilegais de até 1.500 hectares e ter preferência para adquirir outros 1.500 hectares que serão licitados.
O açodamento do governo para aprovar essas normas por meio de medidas provisórias, sem um debate maior com a sociedade, e a disputa entre o Ministério do Planejamento Estratégico, o do Meio Ambiente e o do Desenvolvimento Agrário não ajudam a desfazer a situação nem a deixar de ver, na mudança do modelo agrícola, a causa real da nova tentativa de arrebentar o movimento dos sem-terra.
A cidadania precisa repudiar esse ataque, pois uma coisa é certa: a esperança que o MST sustenta entre a população rural é a única coisa que está impedindo a reprodução no Brasil da tragédia que ensanguenta a Colômbia há mais de 50 anos.
PLÍNIO ARRUDA SAMPAIO, 78, advogado, é presidente da Abra (Associação Brasileira de Reforma Agrária) e diretor do "Correio da Cidadania". Foi deputado federal pelo PT-SP (1985-1991) e consultor da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação).
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. [email protected]
FORÇA-TAREFA DE COMBATE AO TRABALHO ESCRAVO FAZ INSPEÇÃO EM 15 USINAS E CONSTATA IRREGULARIDADES EM PERNAMNBUCO
fonte jconline.com.br blog do jamildo 9.3.09
Trabalhadores ouvidos pelas autoridades
Andréa Pessoa/MPT/Blog Imagem
Sem alarde, em absoluto sigilo, uma força-tarefa de combate ao trabalho escravo, formada por Ministério Público do Trabalho e Polícia Federal, realizou semana passada (de 2 a 5/03) inspeções em dez usinas em Pernambuco e cinco no Rio Grande do Norte. Essas foram as primeiras investigações do Plano Nacional de Combate às Irregularidades Trabalhistas do Setor Sucroalcooleiro nestes estados.
Para o procurador do Trabalho e coordenador nacional do plano, Alessandro Santos de Miranda, o objetivo é regularizar o setor.
“O Brasil está produzindo biocombustível e exportando, mas isso não pode acontecer sob condições desumanas para o trabalhador da cana de açúcar”, explicou acrescentando que o trabalho tem caráter pedagógico, preventivo e punitivo.
”Os empreendedores serão obrigados a corrigir os erros com assinaturas de termos de ajustamento de conduta (Tac) ou entraremos com ações civis públicas, com pedido de dano moral coletivo para cada usina infratora”.
Ele disse também que o programa não tem como objetivo o resgate de trabalhadores em situação análoga à de escravo.
“Nossa proposta é desenvolver ações voltadas para regularização das questões trabalhistas encontradas”.
O balanço da operação foi considerado por ele muito positivo.
”Estamos beneficiando 15 mil trabalhadores em Pernambuco e 3 mil no Rio Grande do Norte”.
A operação nos dois estados envolveu cerca de 50 pessoas, entre procuradores, policiais federais,técnicos, peritos e médicos do trabalho. Também foram realizadas inúmeras audiências com as usinas.
Veja abaixo os principais problemas constatados pelo Ministério Público do Trabalho em PE e RN :
Desobediência à Legislação - Não cumprimento da legislação trabalhista, desde o registro do contrato na carteira de trabalho, passando pela falta de cumprimento das normas de proteção à saúde e segurança dos trabalhadores, até a ausência de pagamento da remuneração a eles devida.
Água e alimentos - Submissão de trabalhadores à condições precárias de trabalho, pela falta ou inadequado fornecimento de alimentação sadia e farta e de água potável;
Alojamentos - Fornecimento aos trabalhadores de alojamentos sem condição de habitabilidade e sem instalações sanitárias adequadas;
Equipamentos - Falta de fornecimento gratuito aos trabalhadores de instrumentos para prestação de serviços, de equipamentos de proteção individual (EPI) e de materiais de primeiros socorros;
Transporte - Não utilização de transporte seguro e adequado aos trabalhadores;
Saúde e segurança - Não emissão da Comunicação de Acidentes do Trabalho (CAT) e
não elaboração d o Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) e não realização de avaliações dos riscos para a segurança e saúde dos trabalhadores.
Abrigos - Não disponibilização, nas frentes de trabalho, de abrigos, fixos ou móveis, que protejam os trabalhadores contra as intempéries, durante as refeições, com mesas e assentos em número suficiente para atender a todos os trabalhadores.
Refeições - Não disponibiliza local ou recipiente para a guarda e conservação de refeições ( marmitas térmicas ), em condições higiênicas, independentemente do número de trabalhadores.
Exames - Não realizam exames médicos admissionais em todos os seus empregados;
Comissão Pastoral da Terra – Secretaria Nacional Assessoria de Comunicação 09/03/2009
NOTA PÚBLICA
“Ai dos que coam mosquitos e engolem camelos” (MT 23,24)
Nota Pública sobre as declarações do presidente do STF, Gilmar Mendes
A Coordenação Nacional da CPT diante das manifestações do presidente do STF, Gilmar Mendes, vem a público se manifestar.
No dia 25 de fevereiro, à raiz da morte de quatro seguranças armados de fazendas no Pernambuco e de ocupações de terras no Pontal do Paranapanema, o ministro acusou os movimentos de praticarem ações ilegais e criticou o poder executivo de cometer ato ilícito por repassar recursos públicos para quem, segundo ele, pratica ações ilegais. Cobrou do Ministério Público investigação sobre tais repasses. No dia 4 de março, voltou à carga discordando do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, para quem o repasse de dinheiro público a entidades que “invadem” propriedades públicas ou privadas, como o MST, não deve ser classificado automaticamente como crime.O ministro, então, anunciou a decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), do qual ele mesmo é presidente, de recomendar aos tribunais de todo o país que seja dada prioridade a ações sobre conflitos fundiários.
Esta medida de dar prioridade aos conflitos agrários era mais do que necessária. Quem sabe com ela aconteça o julgamento das apelações dos responsáveis pelo massacre de Eldorado de Carajás, (PA), sucedido em 1996; tenha um desfecho o processo do massacre de Corumbiara, (RO), (1995); seja por fim julgada a chacina dos fiscais do Ministério do Trabalho, em Unaí, MG (2004); seja também julgado o massacre de sem terras, em Felisburgo (MG) 2004; o mesmo acontecendo com o arrastado julgamento do assassinato de Irmã Dorothy Stang, em Anapu (PA) no ano de2005, e cuja federalização foi negada pelo STJ, em 2005.
Quem sabe com esta medida possam ser analisados os mais de mil e quinhentos casos de assassinato de trabalhadores do campo. A CPT, com efeito, registrou de 1985 a 2007, 1.117 ocorrências de conflitos com a morte de 1.493 trabalhadores. (Em 2008, ainda dados parciais, são 23 os assassinatos). Destas 1.117 ocorrências, só 85 foram julgadas até hoje, tendo sido condenados 71 executores dos crimes e absolvidos 49 e condenados somente 19 mandantes, dos quais nenhum se encontra preso. Ou aguardam julgamento das apelações em liberdade, ou fugiram da prisão, muitas vezes pela porta da frente, ou morreram.
Causa estranheza, porém, o fato desta medida estar sendo tomada neste momento. A prioridade pedida pelo CNJ será para o conjunto dos conflitos fundiários ou para levantar as ações dos sem terra a fim de incriminá-los? Pelo que se pode deduzir da fala do presidente do STF, “faltam só dois anos para o fim do governo Lula”... e não se pode esperar, “pois estamos falando de mortes” nos parece ser a segunda alternativa, pois conflitos fundiários, seguidos de mortes, são constantes. Alguém já viu, por acaso, este presidente do Supremo se levantar contra a violência que se abate sobre os trabalhadores do campo, ou denunciar a grilagem de terras públicas, ou cobrar medidas contra os fazendeiros que exploram mão-de-obra escrava?
Ao contrário, o ministro vem se mostrando insistentemente zeloso em cobrar do governo as migalhas repassadas aos movimentos que hoje abastecem dezenas de cidades brasileiras com os produtos dos seus assentamentos, que conseguiram, com sua produção, elevar a renda de diversos municípios, além de suprirem o poder público em ações de educação, de assistência técnica, e em ações comunitárias. O ministro não faz a mesma cobrança em relação ao repasse de vultosos recursos ao agronegócio e às suas entidades de classe.
Pelas intervenções do ministro se deduz que ele vê na organização dos trabalhadores sem terra, sobretudo no MST, uma ameaça constante aos direitos constitucionais.
O ministro Gilmar Mendes não esconde sua parcialidade e de que lado está. Como grande proprietário de terra no Mato Grosso ele é um representante das elites brasileiras, ciosas dos seus privilégios. Para ele e para elas os que valem, são os que impulsionam o “progresso”, embora ao preço do desvio de recursos, da grilagem de terras, da destruição do meio-ambiente, e da exploração da mão de obra em condições análogas às de trabalho escravo. Gilmar Mendes escancara aos olhos da Nação a realidade do poder judiciário que, com raras exceções, vem colocando o direito à propriedade da terra como um direito absoluto e relativiza a sua função social. O poder judiciário, na maioria das vezes leniente com a classe dominante é agílimo para atender suas demandas contra os pequenos e extremamente lento ou omisso em face das justas reivindicações destes. Exemplo disso foi a veloz libertação do banqueiro Daniel Dantas, também grande latifundiário no Pará, mesmo pesando sobre ele acusações muito sérias, inclusive de tentativa de corrupção.
O Evangelho é incisivo ao denunciar a hipocrisia reinante nas altas esferas do poder: “Ai de vocês, guias cegos, vocês coam um mosquito, mas engolem um camelo” (MT 23,23-24).
Que o Deus de Justiça ilumine nosso País e o livre de juízes como Gilmar Mendes!
Goiânia, 6 de março de 2009
Dom Xavier Gilles de Maupeou d’Ableiges
Presidente da Comissão Pastoral da Terra
Maiores informações:
Assessoria de Comunicação - Secretaria Nacional da CPT
Fone: 62 4008-6406/ 6412 / 6400 www.cptnacional.org.br
Nota de esclarecimento sobre os acontecimentos em PE
Escritório Nacional do MST/Rio de Janeiro
27/02/2009
1– Nesses 25 anos de luta pela Reforma Agrária, o MST repudia a violência como solução para os conflitos no campo. Nós, como muitos outros movimentos sociais do país, fomos historicamente vítimas da violência da reação do latifúndio e do agronegócio. Segundo dados da CPT (Comissão Pastoral da Terra), de 1985 a 2007, foram cerca de 1500 assassinatos de trabalhadores rurais, muitos deles mortos enquanto defendiam seu direito à terra.
2 – O caso recente de Pernambuco é um exemplo de ação em legítima defesa, a que os trabalhadores tiveram de recorrer para evitar mais um massacre. Pistoleiros e milícias armadas rondavam dois acampamentos – nas fazendas Jabuticaba e Consulta - desde sábado (21/02), conforme comprovam fotos e denúncias feitas à Polícia Militar. Os pistoleiros entraram armados no acampamento Consulta, depois de reocupado pelas famílias, e passaram a agredir um trabalhador, até levá-lo ao chão. Um dos pistoleiros chegou a sacar uma arma para atirar, e foi nesse momento que os acampados reagiram, em legítima defesa. No desfecho da situação, quatro pistoleiros morreram e um trabalhador foi baleado. A Polícia Militar foi chamada para registrar a tentativa de massacre, e prendeu dois Sem Terra sem averiguar a denúncia feita pelas famílias. Hoje, esses trabalhadores e trabalhadoras estão sendo permanentemente ameaçados por parte das milícias armadas da região.
3 – Solicitamos a defesa da vida das famílias acampadas e a desapropriação imediata das duas fazendas, que, conforme já comprovou o Incra, são improdutivas e não cumprem sua função social.
4 – O MST reafirma seu compromisso de luta por uma Reforma Agrária ampla e massiva, que possa de fato resolver os conflitos no campo, através da desconcentração da propriedade da terra, garantindo a milhares de famílias Sem Terra seu sustento e a produção de alimentos para a sociedade brasileira.
Mais um acampamento é ameaçado por pistoleiros em PE
27/02/2009
Cerca de 20 pistoleiros contratados por Clodoaldo Bezerra Jonas,"proprietário" da Fazenda Nova, no município de Águas Belas, ameaçam as 100 famílias que estão acampadas em frente à área, aguardando sua desapropriação. Clodoaldo, conhecido como "Codinho", é ex-prefeito de Águas Belas e contratou os pistoleiros para executarem uma expulsão extra-judicial das famílias Sem Terra.
O MST vem denunciando a violência e pistolagem na área desde 2006, quando Codinho, juntamente com capangas armados, ameaçou e espancou trabalhadores rurais que estavam acampados na fazenda. Na ocasião a polícia foi acionada e chegou a dar flagrante das agressões e ameaças, inclusive apreendendo armamento pesado em posse dos capangas. Mas as armas foram devolvidas ao proprietário logo após a apreensão. O MST denunciou o caso no Ministério Público Estadual.
Em outra fazenda de Codinho, a Fazenda Mata Escura, vários Sem Terra foram agredidos e uma criança de 9 anos teve que ser hospitalizada com ferimentos na cabeça, resultantes da ação violenta da polícia em ação de despejo das famílias, em 2007. Todos os barracos foram queimados,
juntamente com os pertences das famílias, e as lavouras foram destruídas por tratores. À época o MST já havia denunciado a agressão policial ao Ministério Público Estadual, à Ouvidoria Agrária e à
Corregedoria da Policia Militar.
Na Mata Norte famílias acampadas há 13 anos são ameaçadas de despejo por inoperância do estado
Em outra região do Estado, na Zona da Mata Norte, cerca de 100 familias que vivem na área do Engenho Bonito, em Condado, correm o risco de perderem toda a vida que construíram durante os últimos 13 anos, desde que acamparam na área em 1996.
A área, supostamente pertencente ao Grupo João Santos, foi vistoriada e dada como improdutiva pelo Incra, desde setembro de 1996, mas a empresa entrou com ação no Tribunal Regional Federal (TRF) alegando que lá havia um projeto de reflorestamento com bambu. Em 2004, foi feita uma nova vistoria, dessa vez por um perito da Justiça, que comprovou o laudo de improdutividade do Incra. Mas, na sentença, o laudo do perito não foi levado em conta e o processo continua em
andamento – sem definição até hoje.
Em abril de 2006, em reunião com dirigentes do MST e agricultores acampados, o presidente do Incra, Rolf Hackbart, se comprometeu a garantir a vinda do procurador geral do Instituto para fazer o acompanhamento político do caso no Tribunal Regional Federal, pressionando para a resolução da disputa judicial. Quase 3 anos depois da promessa, as famílias continuam aguardando.
Após audiência publica sobre o caso, realizada em novembro do ano passado, o Juiz da Comarca de Condado deu um prazo até o dia 17 de fevereiro para que o Governo do Estado de Pernambuco encontrasse uma saída de negociação com o Grupo João Santo. O prazo terminou sem nenhuma posição dos órgãos responsáveis e a ameaça de despejo continua pairando sobre as vidas das famílias.
Nota de esclarecimento sobre as ocupações em São Paulo
Diante da repercussão das ocupações de terras ocorridas em São Paulo nos últimos dias, a Direção Estadual do MST esclarece:
1 - As ocupações são importantes ferramentas na luta pela terra, por isso, o MST, durante os seus 25 anos de história, sempre utilizou dessa ferramenta para lutar pela Reforma Agrária. Desse modo, o MST continuará realizando ocupações de terra independentemente de calendários. Na madrugada de sábado (21/2) realizamos três ocupações na região do Pontal do Paranapanema: Fazenda Dumontina, em Mirante do Paranapanema, com 50 famílias; Fazenda São Luiz, em Presidente Bernardes, com 80 famílias e Fazenda Santo André, em Martinópolis, com 70 famílias.
2 - Como já é de conhecimento público, José Rainha Júnior não compõe nenhuma instância organizativa do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e, portanto, não está autorizado a falar e agir em nome dessa Organização.
3 - A reunião com o secretário de Justiça de São Paulo divulgada pela imprensa, não era com a direção estadual do MST, portanto, não temos nada a declarar sobre esse assunto.
Escritório Nacional do MST/Rio de Janeiro Fone: (21) 2240.8496 www.mst.org.br email: [email protected]
REPÓRTER BRASIL LANÇA ESTUDO DOS IMPÁCTOS DA CANA EM 2008
Relatório produzido pelo CMA-Repórter Brasil registra os impactos
sociais, ambientais e econômicos da expansão do setor, que, em 2008,
liderou o ranking do trabalho escravo em número de agricultores
libertados
Por Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis da Repórter Brasil 21 de Janeiro de
2009
Pesquisadores percorreram oito Estados brasileiros para registrar os
impactos do monocultivo canavieiro. Relatório "O Brasil dos
Agrocombustíveis - Cana 2008" denuncia conflitos trabalhistas,
ambientais, sociais e fundiários.
Na safra em que o otimismo generalizado no setor sucroalcooleiro foi
substituído pelo receio quanto ao futuro, quem "pagou o pato" foram os
empregados rurais, cujas condições de trabalho e de remuneração, já
distantes do ideal, precarizaram-se ainda mais. Essa é uma das
avaliações apresentadas pelo relatório "O Brasil dos
Agrocombustíveis - Cana 2008 - Impactos das lavouras sobre a terra, o
meio e a sociedade", do Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis
(CMA) da ONG Repórter Brasil.
Para fazer o estudo, pesquisadores do CMA percorreram oito Estados:
Acre, Alagoas, Pernambuco, Bahia, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Mato
Grosso e São Paulo. Em todas as regiões, identificaram in loco os
impactos causados pela expansão canavieira, além de entrevistar
trabalhadores, empresários, administradores públicos, pesquisadores e
moradores. A área de cana no país aumentou 14,2% em 2008, para 7,01
milhões de hectares.
Do ponto de vista do trabalho, os empregados em atividades canavieiras,
em especial os cortadores, viveram um ano difícil. Ao passo que a cesta
básica no Estado de São Paulo subiu 16,1% em 2008, usinas reajustaram
salários em torno de 7%, de acordo com a Federação dos Empregados Rurais
Assalariados do Estado de São Paulo (Feraesp). A perda do poder de
compra levou muitos trabalhadores a promoverem greves, que se
generalizaram na porta das usinas da região de Ribeirão Preto (SP), um
dos maiores pólos canavieiros do país, ao longo do segundo semestre de
2008.
A piora das condições de renda agravou ainda mais o quadro de
superexploração do trabalho existente no setor sucroalcooleiro, cuja
face mais visível é o aumento de produtividade registrada pelo
trabalhador do corte da cana. Desde 2000, a produtividade do cortador
cresceu 11,9% no Estado de São Paulo, enquanto o preço da tonelada paga
a ele aumentou menos, 9,8%, no mesmo período.
Em 2008, o setor sucroalcooleiro também continuou liderando o ranking
do número de libertados do trabalho escravo no Brasil: foram 2.553 (49%)
libertados entre o total de 5.244 trabalhadores, ante 1.026 (20%)
libertados na pecuária e 720 (14%) em outras lavouras, conforme dados da
Comissão Pastoral da Terra (CPT). A última atualização da "lista suja"
de empregadores flagrados com trabalho escravo, divulgada em dezembro
pelo Ministério do Trabalho e Emprego, traz o nome de pelo menos sete
fazendas de cana ou companhias sucroalcooleiras, localizadas nos Estados
de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Ceará.
Do ponto de vista ambiental, o relatório aponta impactos diretos e
indiretos causados pela expansão canavieira. Entre 2007 e 2008, a área
de cana destinada ao setor sucroalcooleiro avançou, trazendo ameaças
para áreas de Cerrado, de Mata Atlântica, da Amazônia e até da Caatinga.
Estudos do Ministério do Meio Ambiente e de diversos centros de pesquisa
denunciam os riscos trazidos pela cana à biodiversidade, aos recursos
hídricos e à qualidade do ar em diversos Estados brasileiros, o que
minimiza as vantagens trazidas pela queima do etanol em relação à
gasolina em veículos automotores.
Em 2008, o setor sucroalcooleiro foi o campeão de multas mais elevadas
- acima de R$ 15 mil - em São Paulo, motivadas por emissão de poluentes
em desacordo com a legislação. No Mato Grosso do Sul, o Pantanal se vê
ameaçado nos últimos anos pela expansão dos canaviais, que também afeta
diretamente os povos indígenas encurralados da região.
A pesquisa também registra casos de exploração de trabalhadores no
Nordeste. Em Alagoas, uma força-tarefa do Ministério Público do Trabalho
(MPT) esteve em 15 grandes usinas do Estado e constatou irregularidades
que atingiram mais de 20 mil trabalhadores em 14 delas. Local de
históricos conflitos entre usineiros e movimentos sociais, Pernambuco
também foi cenário de crimes ambientais cometidos por usinas de açúcar eálcool.
Em grande parte responsável pela dizimação da Mata Atlântica
nordestina, a cana ganhou fôlego com incentivos estaduais e novos
empreendimentos. As usinas, porém, raramente cumprem a legislação
ambiental de áreas de proteção permanente e reservas legais. Ao longo do
ano, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais
Renováveis (Ibama) multou todas as 24 usinas em Pernambuco com base
nesses crimes.
Áreas da Amazônia também foram visitadas para a confecção do relatório.
O zoneamento ecológico e econômico da cana, prometido pelo governo
federal como forma de evitar o avanço da monocultura em substituição às
florestas, não foi concluído em 2008. A despeito de ainda não
representar uma cultura muito difundida na região, o caso da Fazenda e
Usina Pagrisa deixou um legado simbólico. Em junho de 2007, mais de mil
pessoas foram encontradas em condições análogas à escravidão na
propriedade em Ulianópolis (PA), na maior libertação de trabalhadores já
realizada pelo grupo móvel de fiscalização do Ministério do Trabalho e
Emprego (MTE).
O relatório do CMA sobre os impactos da cana-de-açúcar no Brasil é mais
um da série "O Brasil dos Agrocombustíveis", que já possui análises
sobre soja, mamona, dendê, algodão, milho e pinhão-manso. Ao longo de
2009, novos relatórios de impacto serão produzidos sobre essas culturas,
com o objetivo de avaliar a evolução das práticas trabalhistas e
ambientais nas lavouras de culturas utilizadas para a produção de
agrocombustíveis no Brasil.
O BRASIL PULOU DO 113º PARA O 107º LUGAR NO RANKING DE MORTALIDADE INFANTIL (até cinco anos de idade),
segundo o relatório anual do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Situação Mundial da Infância 2009, lançado nesta quarta-feira em Johanesburgo, na África do Sul.
BBC Brasil
15 de Janeiro de 2009
Os primeiros lugares do ranking de 194 países são ocupados pelas nações com mortalidade mais elevada, como Serra Leoa (1º lugar) e Afeganistão (2º).
Seis países registraram as taxas mais baixas e ocupam a última posição no ranking: Suécia, Islândia, Cingapura, Luxemburgo, Andorra e Liechtenstein.
O relatório atribui a piora na posição do Brasil ao fato de o país ter registrado um índice de mortalidade de 20 por cada mil nascidos vivos em 2006. Em 2007, a taxa foi de 22 por cada mil nascidos vivos.
Mesmo com esse leve aumento, o Brasil ainda registra uma das mais altas reduções no índice de mortalidade infantil desde 1990. Com uma queda de 62% no período, o país teve a 18ª maior diminuição no índice entre os 194 países da lista - de 58 para 22 entre cada mil nascidos vivos.
Complicações
O relatório do Unicef afirma que mulheres nos países menos desenvolvidos do mundo ainda têm 300 vezes mais chances de morrer durante o parto ou por complicações na gravidez do que mulheres em países desenvolvidos.
O órgão da ONU diz ainda que uma criança nascida em um país em desenvolvimento tem quase 14 vezes mais chances de morrer durante o primeiro mês de vida do que uma criança nascida em um país desenvolvido.
"A cada ano, mais de meio milhão de mulheres morrem devido a complicações no parto, incluindo cerca de 70 mil meninas e mulheres jovens, entre 15 e 19 anos", afirmou Ann Veneman, diretora-executiva do Unicef.
"Desde 1990, as complicações relacionadas à gravidez e ao parto já mataram cerca de 10 milhões de mulheres", acrescentou.
Melhoras
O Unicef afirma que muitos países em desenvolvimento progrediram muito para melhorar as taxas de sobrevivência de suas crianças nos últimos anos.
O relatório aponta Níger e Malauí como exemplos por terem cortado quase pela metade as taxas de mortalidade entre crianças com menos de cinco anos entre 1990 e 2007, em 42% e 47% respectivamente.
Mas o mesmo progresso não foi observado na prevenção de risco para a saúde das mães e, embora as taxas de sobrevivência de crianças com menos de cinco anos esteja melhorando no mundo todo, os riscos para crianças nos primeiros 28 dias de vida ainda são altos em muitos países.
O Unicef afirma ainda que aproximadamente 99% das mortes do mundo causadas por complicações na gravidez ocorrem nos países em desenvolvimento, nos quais ter um filho ainda é um dos mais graves riscos à saúde para mulheres.
A grande maioria ocorre na África e na Ásia, onde as altas taxas de natalidade, falta de funcionários treinados e sistema de saúde deficiente colocam em risco a saúde das mães.
Os dez países com o maior risco de morte maternal durante a vida toda são Níger, Afeganistão, Serra Leoa, Chade, Angola, Libéria, Somália, República Democrática do Congo, Guiné-Bissau e Mali.
"Para salvar as vidas de mulheres e de seus recém-nascidos, é necessário mais do que apenas intervenção médica", afirmou Ann Veneman. "Educar as meninas é muito importante para melhorar a saúde de mães e recém-nascidos e também trará benefícios para as famílias e a sociedade."
Leia mais sobre Unicef
Trabalho escravo resiste e Brasil liberta 4.418 pessoas em um ano
Estado de São Paulo
22/12/2008
Cinco anos após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançar o primeiro Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo - em que previa acabar com o problema até 2006 -, a exploração da mão-de-obra escrava no campo ainda é uma realidade. Em 2008, foram libertadas no Brasil 4.418 pessoas que eram mantidas em condições de trabalho análogas à escravidão, segundo números fechados na última semana pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
A reportagem é de Ricardo Brandt e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 22-12-2008.
Passados 120 anos da abolição da escravatura, os fazendeiros modernos não usam mais correntes, mas continuam escravagistas por cassarem a liberdade dos trabalhadores. O artigo 149 do Código Penal é claro ao definir como condições de trabalho análogas à escravidão aquelas em que a vítima for submetida a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, seja sujeitando-a a condições degradantes de trabalho, seja restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador.
Os números do MTE mostram libertações de pessoas escravizadas em 18 Estados. A maior concentração ocorreu onde houve forte expansão da cultura da cana, como em Goiás e Alagoas, e no Pará, historicamente o maior foco do problema. Em números absolutos, Goiás liderou a lista: foram 867 encontrados, em 7 fazendas. Alagoas, que até então não figurava na relação, ficou em terceiro, com 656 libertados. Nesses Estados, a cultura de cana teve forte expansão, movida pela política de incentivo ao etanol do governo Lula. No Pará, onde a maioria dos casos está relacionada à pecuária e à expansão da fronteira agrícola, foram 703 casos, em 73 propriedades.
Um quadro comparativo produzido pela Divisão de Fiscalização e Erradicação do Trabalho Escravo evidencia como cresceu o percentual de casos nos canaviais, em relação a outras culturas. Em 2003, de 5.223 pessoas resgatadas no País, 11,4% estavam em plantações de cana. Em 2005, a participação foi a 32,7%, mas voltou a cair em 2006, para 8,4%. Em 2007 e 2008, quando ficaram visíveis os primeiros resultados da política de incentivo ao etanol, os casos ultrapassaram 50%, em relação ao quadro geral. Os números são de libertações, desconsiderando a proporção em relação ao total de trabalhadores em cada setor.
A secretária nacional de Inspeção do Trabalho, do MTE, Ruth Villela, responsável pelos Grupos Móveis de Fiscalização, admite que há relação com o avanço da cana. “Como o setor está em fase de expansão, precisamos ver se o Estado não está financiando indiretamente esse tipo de trabalho análogo à escravidão.” Ela, porém, diz que o principal motivo do aumento é outro. Houve “intensificação”, segundo ela, de blitz em canaviais e usinas.
O procurador do Trabalho Jonas Ratier Moreno, coordenador das ações de combate ao trabalho escravo, lembra que o “comportamento ético nas relações de trabalho é uma exigência internacional” e acaba sendo usado em discursos que visam bloquear a entrada de produtos brasileiros no exterior. Em julho, a União Européia tentou condicionar a abertura do mercado ao etanol brasileiro ao compromisso de que a produção é ambientalmente sustentável e não usa trabalho escravo.
COMPARATIVO
Desde 1995, quando foi criado o Grupo Móvel de Fiscalização, 32.185 trabalhadores em condições de escravidão foram resgatados. Em 22.710 autuações, num total de 2.121 fazendas visitadas, foi obtido o pagamento de R$ 46,4 milhões em indenizações. Os grupos móveis são compostos por auditores fiscais do MTE, procuradores, além de agentes e delegados da Polícia Federal. Existem, hoje, nove grupos.
Em 2008, apesar de o número de operações ter aumento (foram 125), o total de pessoas flagradas em condições de escravidão caiu em relação a 2007, quando a marca atingiu o recorde histórico: 5.999. A retração não significa queda dos casos. Nem o aumento das libertações, notado mais claramente a partir de 2003, indica maior incidência de casos. “Não podemos usar o número de libertações como parâmetro. Eles estão relacionados ao número de operações e descobertas de casos”, diz Ruth Villela.
“Eu, particularmente, ainda acredito que seja possível acabar definitivamente com o trabalho escravo no Brasil”, diz a secretária. Tanto ela, como especialistas e procuradores ressaltam, porém, que sem punições mais severas e investimentos em educação e combate à miséria, o problema não vai acabar. “Daqui a 15 anos ainda teremos esses números, se não atacarmos a origem do problema”, diz Moreno.
Sem punição a infratores, situação não irá melhorar, apontam especialistas
Especialistas e autoridades que atuam no combate ao trabalho escravo apontam que, sem punição aos exploradores desse tipo de mão-de-obra, não haverá redução dos casos. Atualmente, as penas aplicadas aos infratores são baseadas no artigo 149 do Código Penal, que prevê de um a três anos de prisão, e na “lista suja”, do Ministério do Trabalho e Emprego, que pune exploradores reincidentes com restrições de crédito.
A reportagem é de Ricardo Brandt e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 22-12-2008.
A peça fundamental para punir os exploradores está prevista Proposta de Emenda Constitucional 438/2001, conhecida como PEC do Trabalho Escravo, que está parada desde 2004 na Câmara. Apresentada em 1999 pelo então senador Ademir Andrade (PSB-PA), ela altera o artigo 243 da Constituição, prevendo o confisco de propriedades, sem direito à indenização, em casos de exploração de mão-de-obra escrava.
A proposta, que gerou a criação de uma Subcomissão de Combate ao Trabalho Escravo, no Congresso, prevê que as propriedades confiscadas serão destinadas à reforma agrária. Em agosto de 2004, 326 deputados aprovaram a PEC em primeiro turno. A aprovação aconteceu em meio a cobranças pelo assassinato de três auditores fiscais e um motorista do Ministério do Trabalho, em Unaí (MG), em janeiro daquele ano.
“A intenção da PEC é atacar esse pilar do sistema capitalista, que é o direito à propriedade. Você pode ser o dono da terra, mas tem que ser responsável pelo que acontece nela”, disse a secretária nacional de Inspeção do Trabalho, Ruth Villela. Mas boa parte dos deputados que votaram a favor da PEC e que integram a “bancada ruralista” tem trabalhado para que a medida não vá novamente a plenário.
O presidente da Subcomissão de Combate ao Trabalho Escravo, senador José Nery (PSOL-PA), disse estar ciente das dificuldades. O episódio ocorrido em 2007 na cidade de Ulianópolis (PA) é um exemplo. O Grupo Móvel de Fiscalização do Ministério do Trabalho libertou 1.064 pessoas submetidas a condições análogas a escravidão em uma fazenda. A operação provocou críticas de senadores que formaram uma comissão para investigar abusos na fiscalização. Em protesto, o grupo suspendeu então suas operações.
Abaixo-assinado pede aprovação da PEC do Trabalho Escravo
Adital
08.12.08
Até o dia 1° de dezembro deste ano, mais de 140 mil assinaturas já tinham sido coletadas no abaixo-assinado que pede a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional do Trabalho Escravo, a PEC 438. O documento, sob responsabilidade da Frente Nacional contra o Trabalho Escravo e pela Aprovação da PEC 438, é uma forma de pressionar a aprovação das novas medidas pelo Congresso Nacional.
Apresentada em 1999 pelo ex-senador Ademir Andrade (PSB-PA), a PEC propõe nova redação ao Art. 243 da Constituição Federal, que trata do confisco de propriedades em que forem encontradas lavouras de plantas psicotrópicas ilegais. Com a PEC, a expropriação sem indenização atingiria também as propriedades que explorem mão-de-obra análoga à escravidão. Após o confisco, as terras seriam destinadas a assentamentos de famílias como porte do programa de reforma agrária.
Em 2003, a proposta foi aprovada em dois turnos pelo Senado e, em 2004, pela Câmara dos Deputados em primeiro turno. Sua votação em segundo turno está parada desde agosto de 2004. Os dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) mostram que há urgência na solução do problema. Nos últimos 12 anos, 27.645 pessoas foram libertadas, em 1.184 fiscalizações realizadas em 621 operações.
Em 2007, 5.877 trabalhadores libertados de situação análoga à escravidão pelo grupo móvel de fiscalização do governo federal. Foi o maior número desde o ano de 1995, quando as operações foram iniciadas. Os pagamentos de direitos devidos aos trabalhadores (R$ 9,8 milhões) e o total de autos de infração lavrados (3.075) em 2007 também superaram as marcas dos anos anteriores.
Movimentos e organizações sociais realizaram, em março deste ano, em Brasília, uma grande manifestação em favor da aprovação da PEC. Estiveram presentes caravanas de diversos estados do Brasil. Os movimentos pediram mais empenho do governo federal na aprovação da proposta.
Em junho deste ano, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgou dados em que estimava um número entre 25 mil e 40 mil pessoas vivendo sob trabalho forçado, análogo à escravidão, no Brasil. Segundo a OIT, em relação ao número de trabalhadores escravos, só perde para o continente asiático, que possui quase 10 milhões de trabalhadores nessa situação. A estimativa é que a região latino-americana tenha 1,3 milhão de pessoas submetidas a esse tipo de regime.
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Ministro cobra de Lula abertura de arquivos da ditadura militar
02/12/2008
O ato público pelo Direito à Memória e à Verdade, realizado ontem na Assembléia Legislativa paulista, teve um tom de cobrança ao governo federal pela abertura dos arquivos da ditadura. O ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, defendeu que o assunto seja resolvido pelo presidente Luiz Inácio da Silva até o fim da gestão.
A reportagem é de Moacir Assunção e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 02-12-2008.
“Tenho falado ao presidente que ele não pode terminar seus oito anos de governo deixando esse assunto sem uma definição”, afirmou o ministro.
O evento foi promovido pelos deputados federal Paulo Teixeira (PT-SP) e estadual Simão Pedro (PT) e contou com a presença do presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, Paulo Abrão, de outros parlamentares petistas, como José Eduardo Cardoso, Adriano Diogo e Rui Falcão, além de representantes das principais ONGs ligadas à defesa dos direitos dos presos e perseguidos políticos.
Embora reconhecessem a importância da Lei de Acesso à Informação, a ser enviada ao Congresso pelo governo, os parlamentares e militantes criticaram as poucas mudanças em relação à lei enviada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
Abrão, única autoridade federal a permanecer no ato, já que o ministro saiu logo após a abertura, preferiu destacar a importância da participação de São Paulo em uma manifestação pública com esse objetivo. “Vários Estados já fizeram esse ato e faltava São Paulo. Tivemos neste ano uma série de avanços, como as caravanas da anistia, que percorreram o País anistiando ex-presos políticos, e a anistia de personagens como João Goulart, Elza Monnerat, Carlos Marighella Filho, Leonel Brizola e Clara Charf.”
Questionado sobre qual deverá ser a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre se a tortura é ou não passível de anistia, Abrão afirmou que qualquer que seja a decisão ela representará um marco.
Hoje um grupo de nove deputados terá uma reunião com o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, para pedir que o Ministério Público Federal entre com uma ação contra um suposto torturador, Marcelo Paixão de Oliveira, que confessou, em entrevista à revista Veja, ter torturado presos políticos durante a ditadura militar.
Procuradoria do Trabalho flagra trabalhadores em regime de escravidão em construção no Recreio
O Globo
26/11/2008
RIO - Cerca de 70 pessoas foram encontradas em situação análoga à de escravo na Fazenda Parque Recreio na terça-feira, no Recreio dos Bandeirantes, durante inspeção realizada por representantes do Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro, Superintendência Regional do Trabalho e Polícia Federal. Diversas irregularidades trabalhistas foram encontradas no local, entre elas servidão por dívida, salários não pagos, alojamentos impróprios e carteiras de trabalho retidas.
A propriedade pertence ao empresário Pasquale Mauro, dono do Hospital Rio Mar. A fazenda tem sido preparada para se tornar uma área rural urbana temática e turística. Os trabalhadores encontrados foram arregimentados para exercerem funções de serventes, pedreiros e serviços gerais a fim de construir os locais que serão destinados ao público visitante.
Oriundos da Paraíba e de Pernambuco, os trabalhadores receberam proposta para trabalharem no Rio de Janeiro por um salário médio de R$ 800. O intermediário ou "gato" da suposta contratação é chamado por eles de "Nego de Totô".
Dados colhidos revelam que a maioria dos trabalhadores é analfabeta e deixou a família com a falsa promessa de ganhar dinheiro para a construção de um prédio no Rio de Janeiro. Este não é o primeiro grupo a vir de regiões do Nordeste. Alguns já foram demitidos e retornaram para suas respectivas cidades, mas a maioria está instalada na cidade ou nos próprios alojamentos concedidos pelo empregador.
Segundo a procuradoria do Trabalho, o proprietário deverá assegurar a alimentação dos trabalhadores e a integridade física até a data da rescisão contratual, além de garantir o retorno às cidades de origem.
PISTOLEIROS CUMPREM AMEAÇAS E MATAM SEM TERRA, NO MUNICIPIO DE REDENÇÃO, SUL DO PARÁ.
Xinguara-PA, 14 de novembro de 2008.
Na noite de 12.11.08, cerca de 8 pistoleiros atacaram com muitos tiros, mais uma vez, o Acampamento Sardinha onde se encontravam 30 famílias e mataram o trabalhador rural José Ribamar Rodrigues dos Santos, na presença de sua esposa e de seus 03 filhos: uma menina de 03 anos e dois meninos 7 e 5 anos de idade.
As famílias estavam acampadas na margem da BR 158, próximo à Fazenda Vaca Branca (também conhecida por Fazenda Santa Maria), Município de Redenção, Sul do Pará, de propriedade de Maria de Fátima Gomes Ferreira Marques. Por volta das 21:30 chegaram os pistoleiros fortemente armados, encapuzados, vestidos com roupas camufladas, alguns usavam coletes e diziam serem policiais.
Os pistoleiros fugiram quando as famílias correram para pedir socorro a 2 caminhões que passavam na pista. Porém o lavrador José Ribamar Rodrigues dos Santos tinha sido gravemente ferido. Foi socorrido no Hospital de Redenção, mas não resistiu aos ferimentos e logo faleceu.
Lembramos que esses trabalhadores já vinham sofrendo ameaças desde o inicio de setembro de 2008, que comunicaram à Delegacia Especial de Conflitos Agrários (DECA), mas nada foi feito.
Destaca-se que no dia 16.10.08, este acampamento foi atacado por 8 homens armados, que naquela ocasião, também dispararam vários tiros, incendiaram os barracos e destruíram todos os pertences das famílias e ameaçaram de morte os trabalhadores. Naquele dia, mataram o cachorro de José Ribamar e o obrigaram a deitar-se no chão, na presença de sua família, dizendo: “deita pra tu morrer ao lado do teu cachorro”. Mas não mataram o lavrador por causa da presença de outros acampados que gritavam para não matá-lo.
Este ataque também foi comunicado à DECA, que não tomou nenhuma providencia para identificar os responsáveis, os quais voltaram agora ao local do crime e cumpriram as ameaças de morte e mataram Ribamar, na absoluta certeza da impunidade.
Denunciamos a conivência da DECA de Redenção com as milícias de fazendeiros. Até quando pistoleiros, policiais criminosos e mandantes vão continuar agindo na total impunidade na região Sul do Pará, especialmente em Redenção?
José Gonçalves de Moura Neto FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTIURA - FETAGRI
Frei Henri Burin des Roziers COMISSÃO PASTORAL DA TERRA - CPT
CRIMES DA DITADURA
Seminário debaterá reparação às vítimas da ditadura
As vítimas da ditadura têm direito à reparação? Aqueles que cometeram crime de tortura devem ser punidos? Os documentos do período devem ser tornados públicos? Essas e outras questões serão debatidas no Rio de Janeiro em um seminário organizado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, o Clacso e a Uerj.
Boletim Carta Maior
Maurício Thuswohl
11/11/2008
RIO DE JANEIRO – A discussão sobre o direito à reparação financeira para as vítimas da ditadura militar e a pertinência da punição para seus torturadores ganha corpo em todo o Brasil. Reflexo desse momento, será realizado entre os dias 17 e 19 de novembro o Seminário Latino-Americano de Justiça de Transição, que reunirá no Rio de Janeiro diversos especialistas e militantes em direitos humanos, além de representantes do poder público e de organizações não-governamentais.
O seminário acontecerá na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e na sede do Arquivo Nacional, e está sendo organizado em parceria pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, pelo Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e pelo Laboratório de Políticas Públicas (LPP) da Uerj. O objetivo do evento, segundo os organizadores, é “potencializar o diálogo com organizações e militantes de direitos humanos, anistiados e anistiandos políticos, acadêmicos e pesquisadores de diversas áreas do conhecimento e demais interessados, favorecendo a construção de estratégias comuns de respeito e garantia dos direitos humanos e da democracia”.
Presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão Pires Júnior saúda a realização do seminário: “Ele terá a importância de elevar qualitativamente o debate sobre a nossa transição democrática. Nós tivemos no Brasil uma política de transição, mas não uma justiça de transição. Justiça de transição, enquanto uma diretiva do Conselho de Segurança da ONU, pressupõe a observância da promoção de quatro elementos pós-redemocratização: da verdade, da memória, da justiça e da reparação”, afirma.
Esse processo, segundo Paulo Abrão, está inconcluso no país: “O Brasil somente tem levado adiante a reparação às vítimas. Não possui política pública de memória social, não abriu os arquivos para trazer à tona a história, não responsabilizou judicialmente os algozes da democracia e dos direitos humanos. Por isso, tivemos em nosso país apenas uma política de transição e não uma justiça de transição. E, assim mesmo, uma política de transição capenga, pois, lembremos, o Congresso não aprovou a anistia ampla, geral e irrestrita proposta pela sociedade civil e o MDB no dia 29 de agosto de 1979, e sim uma anistia restrita”.
Paulo Abrão afirma que “o conceito de justiça de transição é pouco disseminado nas práticas jurídicas e acadêmicas brasileiras, mas está assentado em outros países”. Esse deve ser o foco do seminário que, além das conferências, mesas de debate e vídeos, promoverá em seu último dia a inédita reunião de todas as comissões de verdade e reparação da América Latina: “Dali poderão ser verificados pontos históricos convergentes nas formas de repressão e de resistência nestes países, além da maneira como cada país lidou com a transição. É importante saber também se as informações que estão disponíveis em cada país podem ser complementares na elucidação de fatos”, diz o presidente da Comissão de Anistia.
Para Emir Sader, secretário-executivo do Conselho Latinoamericano de Ciências Sociais (Clacso), os regimes de terror que se impuseram no nosso sub-continente foram a cara mais abertamente repressiva da nossa história. "Sua memória deixa suas marcas nas democracias que as substituiram. Sem a verdade, nunca poderemos virar a página desse momento terrivel da nossa história. Este seminario pretende contribuir para que o conhecimento nos possa fazer um pouco menos prisioneiros de um passado que teima em não passar".
Eixos temáticos
O Seminário Latino-Americano de Justiça de Transição terá seis eixos temáticos: 1) Iniciativas Latino-Americanas para o “Nunca Mais”; 2) Gestão Administrativa, Política e Histórica dos Arquivos da Ditadura Militar; 3) Estado Democrático de Direito, Organizações Internacionais e Sistemas de Reparação; 4) Silêncio, Tempo e Memória – experiências de participação política e resistência na América Latina; 5) Identidade, Alteridade e Reconhecimento – o processo de legitimação jurídico-social da anistia política na América Latina; 6) Poder Judiciário e Sistemas de Reparação na América Latina.
Participarão do seminário os ministros da Justiça, Tarso Genro, e da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, além do ex-ministro Nilmário Miranda, que antecedeu Vannuchi. Também estarão no evento, que terá seis mesas de debate, o representante do Tribunal Penal Internacional de Haia, Xavier Aguirre, o presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos do Brasil, Marco Antonio Rodrigues Barbosa, e o ex-presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos, Hélio Bicudo, entre outros.
Os primeiros dois dias do seminário acontecerão no Teatro Noel Rosa (Uerj) e o último, quando se realizarão as reuniões das comissões de verdade e reparação dos países da América Latina, acontecerá na sede do Arquivo Nacional. O evento será aberto ao público, mediante inscrição gratuita que pode ser feita através do site www.lpp-uerj.net/anistia na internet.
Para Paulo Abrão Pires Júnior, “o debate sobre o alcance da lei de anistia hoje no Brasil é uma questão de princípio”. O presidente da Comissão de Anistia justifica a pertinência do seminário com uma série de indagações: “A tortura pode ser considerada crime político? Podemos anistiar crimes de tortura? Que conseqüências isso traz para nossa democracia? Como ficam os tratados e convenções internacionais na área de direitos humanos aos quais o país é signatário? Como fica o Brasil diante da jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos, a qual estamos vinculados e que declara que tortura é crime contra a humanidade, imprescritível e não passível de anistia?”.
Recomendo que a secretaria nacional da CPT mande para esse ilustre viajante a tabela com casos de trabalho escravo no Brasil, e se ele nao acreditar, mandem o endereço da Policia Federal, que tem se esforçado para prender os fazendeiros..
Para embaixador, apontar trabalho escravo na plantação de cana-de-açúcar é distorcer a realidade
O subsecretário-geral de Energia e Alta Tecnologia do Itamaraty, André Amado, em entrevista sobre a Confêrencia Internacional sobre Biocombustíveis
Matéria de Ana Luiza Zenker, da Agência Brasil
05/11/2008
Não se pode dizer que há trabalho escravo na plantação de cana-de-açúcar somente por ser possível encontrar na atividade situações de trabalho em condição degradante. Foi o que afirmou ontem (3) o subsecretário-geral de Energia e Alta Tecnologia do Itamaraty, embaixador André Amado. Para ele, isso seria uma distorção da realidade.
“Eu acho que é uma distorção da parte de pessoas que querem [simplesmente] distorcer [a realidade], não é uma alegação que se baseie em fatos”, disse Amado durante entrevista coletiva sobre a Conferência Internacional sobre Biocombustíveis.
Questionado sobre o que o governo brasileiro diria frente a críticas de que o setor de produção de açúcar e álcool emprega pessoas em condições análogas à escravidão o embaixador afirmou que existe uma confusão sobre o que seria trabalho escravo e o que é, na definição da Organização Internacional do Trabalho (OIT), trabalho em condição degradante.
“O que nos deixa um pouco indignados é essa preocupação de qualificar o trabalhador rural, porque faz um trabalho muito difícil, à luz do sol, horas a fio, como um escravo. Por quê? Ele tem condições muito difíceis de vida, mas são condições muito difíceis de vários trabalhadores rurais e urbanos brasileiros e nem por isso eles podem ser considerados como escravos. Isso faz parte de uma campanha de denegrimento da atividade de produção de biocombustíveis no Brasil”, argumentou.
De acordo com o embaixador, mesmo os movimentos sociais concordam que, pelo menos em São Paulo, estado responsável por cerca de 60% da produção de cana-de-açúcar do Brasil, os casos encontrados seriam de trabalho em condições degradantes e não trabalho escravo.
Sobre o emprego de crianças na lavoura de cana, Amado concordou que sua existência é provável, mas argumentou que não há como dizer a um produtor no Nordeste, por exemplo, que não empregue o seu filho. “O governo está dizendo isso há muito tempo, o Ministério do Trabalho está dizendo isso há muito tempo, o Ministério Público está fiscalizando isso, mas um que outro caso continua acontecendo e isso é suficiente pra botar o rótulo em toda a atividade como empregadora de crianças?”, questionou.
Ainda de acordo com Amado, os ganhos sociais da produção de etanol no Brasil são muito grandes. Segundo ele, a atividade emprega cerca de 1 milhão de trabalhadores e o setor é o que mais tem carteiras assinadas. “É impressionante o que esse setor incorporou de mão-de-obra talvez flutuante ou desempregada nas áreas de plantação de cana-de-açúcar”, destacou.
A Conferência Internacional sobre Biocombustíveis será realizada em São Paulo, de 17 a 21 de novembro. Ela foi anunciada pelo presidente Lula na Assembléia Geral das Nações Unidas do ano passado e deve contar com a presença de representantes de vários países, incluindo técnicos e ministros.
Ministro diz que sai do governo se União mantiver defesa a Ustra
O ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, ameaçou ontem se demitir caso a AGU (Advocacia Geral da União) mantenha a defesa do coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, em processo no qual é acusado de ter sido torturador durante o período da ditadura militar (1964-1985).
Folha de S. Paulo 28-10-2008.
Vannuchi discursou ontem, na cerimônia de entrega do prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, em São Paulo.
O ministro disse que foi chamado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em dezembro de 2005 e aceitou o cargo, apesar de problemas pessoais, para avançar a defesa dos direitos humanos.
O ministro afirmou que vai pedir ao presidente Lula, caso a AGU não recue, para deixar o ministério. De acordo com Vannuchi, a peça de defesa de Ustra produzida pela União será utilizada por muitos torturadores em suas defesas.
A Justiça de São Paulo, em primeira instância, reconheceu a condição de Ustra como torturador, depois que uma ação civil pública fez o pedido. Ustra comandou o DOI-Codi, em São Paulo, na década de 1970.
Série do Congresso em Foco ganha Prêmio Herzog
Reportagens sobre o drama de trabalhadores escravos esquecidos pela
Justiça recebem menção honrosa no principal prêmio de direitos humanos
Edson Sardinha 16/10/2008
A série de reportagens sobre o drama de 79 trabalhadores rurais do
Piauí, submetidos a condições análogas de escravo e vítimas de um
grave acidente rodoviário no interior da Bahia, do repórter Lúcio
Lambranho, ganhou menção honrosa no mais importante prêmio da área de
direitos humanos do jornalismo brasileiro.
Publicada em julho pelo Congresso em Foco, a série foi considerada uma
das três melhores do país, na categoria internet, pelo júri da 30ª
edição do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.
Durante quase uma semana, em junho, o repórter visitou familiares dos
trabalhadores levados dos municípios de Corrente e Avelino Lopes,
localizados no sul do Piauí, em 1995, para uma fazenda em Bom Jesus da
Lapa, no oeste baiano, para trabalhar na colheita de feijão. Lá, de
acordo com denúncia do Ministério Público do Trabalho, foram submetidos
a condições degradantes.
Quando voltavam para casa, 40 dias depois, foram vítimas de um grave
acidente que matou 14 pessoas. Outras 15 ficaram com lesões graves,
grande parte delas não consegue mais trabalhar ou não dispõe das mesmas
condições de trabalho de antes. Dos 79 trabalhadores, 23 tinham menos de
18 anos na época.
Sobrecarregado, o caminhão tombou após apresentar problemas mecânicos.
Na carroceria, transportava trabalhadores misturados a centenas de sacas
de feijão.
O caso se arrasta na Justiça há 13 anos. As empresas responsáveis pela
fazenda entraram com recurso no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 5ª
Região contestando as indenizações trabalhistas reivindicadas pelas
famílias. A denúncia pela responsabilidade criminal, porém, sequer
foi aceita pela Justiça da Bahia.
Com textos e fotos de Lúcio Lambranho, a reportagem mostra como a
tragédia, reforçada pela impunidade, roubou a esperança dos
trabalhadores e dos familiares dos catadores de feijão do Sul do Piauí.
MUNDO TERÁ 1,4 BILHÃO EM FAVELAS ATÉ 2020, DIZ ONU
No Dia Mundial da Habitação, Raquel Rolnik afirma que não pode haver cidades harmônicas sem políticas sociais eficientes de moradia.
Mônica Villela Grayley
07/10/2008
Fonte: Rádio ONU
A relatora especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU para Moradia Adequada, Raquel Rolnik, afirmou que o mundo precisa de políticas mais inclusivas para melhorar as condições habitacionais da população.
Numa mensagem para marcar o Dia Mundial da Habitação, neste seis de outubro, a relatora da ONU afirmou que um em cada três moradores de cidades, vive em favelas.
Políticas Corretas
Segundo ela, se nada for feito, o mundo terá 1,4 bilhão de pessoas morando nestas condições até 2020. Ao contrário de 998 milhões, atualmente.
Nesta entrevista à Rádio ONU, Raquel Rolnik afirmou que em muitos casos, por questão de segurança, é preciso remover os moradores de suas comunidades. Mas para ela, isso pode ser evitado com políticas de urbanização corretas.
"Existe sim, como eu insisto, muitas vezes a necessidade de remoção. Mas o que dizemos é que independentemente se a solução melhor ou desejo é sair ou ficar, o direito de ter reconhecida sua posse neste local, este direito é inequívoco do ponto de vista de uma política urbano-habitacional includente", afirmou.
Brechas
Segundo o especialista Carlos Alberto Paranhos, do UN-Habitat no Brasil, o abismo social ainda é um problema para a maioria dos centros urbanos na América Latina. De acordo com Paranhos, os níveis de desigualdade social estão entre os maiores do mundo.
"Apesar de haver muita pobreza, o que mais chama a atenção não é tanto a pobreza, mas a desigualdade. A tremenda brecha que existe entre as famílias de pessoas mais ricas e as mais pobres. Entre as famílias que têm todo os direitos à cidade, à habitação, a emprego e a serviços e as famílias que mal conseguem sobreviver de um dia ao outro", afirmou.
Neste ano, a capital de Angola, Luanda, está liderando as comemorações do Dia Mundial da Habitação sob o tema "Cidades Harmoniosas".
O objetivo da data, marcada na primeira segunda-feira de outubro, é refletir sobre as condições de moradias em bairros e cidades e o direito fundamental de todos os seres humanos ao abrigo.
MST responsabiliza política do governo por presença de supostos
assentamentos em lista sobre desmate
Folha Online
30/09/2008 - 16h37
Em nota divulgada nesta terça-feira, o MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) responsabiliza a política do governo
federal pela presença de supostos assentamentos na lista dos maiores
devastadores da Amazônia.
"Nenhum dos oito assentamentos da lista dos maiores devastadores da
Amazônia, divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente, localizados no
Mato Grosso, é coordenado pelo MST. A presença de supostos
assentamentos na lista dos maiores devastadores da Amazônia é
conseqüência da política do governo federal, tanto na gestão do
presidente Fernando Henrique Cardoso quanto do presidente Lula, de
regularizar a posse de áreas sem critérios adequados para inflar os
números da reforma agrária", diz a nota.
O Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) lidera
os seis primeiros lugares dos 100 maiores desmatadores da floresta
amazônica. Além do instituto, há várias empresas de agropecuária,
cooperativas e pessoas físicas entre os principais destruidores do
ambiente na Amazônia Legal.
A lista com os 100 maiores desmatadores, elaborada pelo Ministério do
Meio Ambiente, foi divulgada ontem, no mesmo dia em que o Inpe
(Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) informou sobre o aumento
de 134% da região desmatada em agosto em comparação a julho deste ano.
Leia a íntegra da nota do MST:
"1- Nenhum dos oito assentamentos da lista dos maiores devastadores da
Amazônia, divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente, localizados no
Mato Grosso, é coordenado pelo MST. A presença de supostos
assentamentos na lista dos maiores devastadores da Amazônia é
conseqüência da política do governo federal, tanto na gestão do
presidente Fernando Henrique Cardoso quanto do presidente Lula, de
regularizar a posse de áreas sem critérios adequados para inflar os
números da reforma agrária.
2- A pilhagem de madeira foi travestida de assentamento, como
denunciamos ao lado do Greenpeace, em 2007. Foram criados
assentamentos ilegais em benefício de madeireiras na Amazônia Legal.
Investigações do MPF (Ministério Público Federal) e do Greenpeace
identificaram a falta de laudos e licenciamento ambiental, além de
cadastros adulterados, para criação formal dos chamados 'assentamentos
fantasmas', destinados ao desmatamento de áreas florestais para
extração de madeira.
3- A reforma agrária está parada em todo o país. Os assentamentos
realizados não atacaram o latifúndio e a concentração de terras
aumentou no país durante os últimos governos. Cerca de 70% dos
assentamentos dos governos FHC e Lula foram criados em terras
públicas, por meio da regularização fundiária na região da Amazônia
Legal.
4- Participamos da campanha 'Desmatamento Zero', em defesa da
Amazônia, ao lado de diversas entidades da sociedade civil. Exigimos a
rejeição do Projeto de Lei 6.424/05, do senador Flexa Ribeiro (PSDB),
que diminui a área de reserva legal florestal da Amazônia, e a medida
provisória 422/08, conhecida 'PAG (Plano de Aceleração da Grilagem)',
que possibilita a legalização da grilagem na Amazônia.
5- O Ministério do Meio Ambiente deve rejeitar esses projetos
devastadores e tomar medidas rígidas para impedir a expansão do
agronegócio na Amazônia, que é o principal responsável pelo processo
de devastação. Nos últimos cinco meses de 2007, a pilhagem da madeira,
a expansão da pecuária e da soja para exportação causaram a devastação
de até 7.000 km2, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente."
Maggessi critica ação de José Rainha na Rocinha; MST chama deputada de irresponsável
ANDRÉ ZAHAR colaboração para a Folha Online, no Rio
23/09/2008
-
13h26
A deputada federal Marina Maggessi (PPS-RJ) disse hoje estar preocupada com uma suposta tentativa do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) de politizar os traficantes da Rocinha. A declaração foi feita durante depoimento dela à CPI das Milícias da Alerj (Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro).
Marina se referia a ida do líder sem terra José Rainha Júnior à favela e ter declarado apoio ao candidato Claudinho da Academia (PSDC), suspeito de ter respaldo do crime organizado. Segundo Marina, há outros 20 membros do MST atuando na Rocinha.
"Me preocupa a presença do MST na Rocinha. A Rocinha tem mais de 2.000 fuzis. O MST armado de foice e martelo já faz bastante estrago. Imagina com fuzil", disse.
Procurado pela reportagem, o MST informou que considera as declarações de Maggessi levianas e irresponsáveis. Informou ainda que ela é mal informada, pois Rainha não faz mais parte dos quadros do MST.
Em julho, durante uma operação na Rocinha, a polícia encontrou a ata de uma suposta reunião na casa do traficante Nem que tratou das eleições e teve a participação de Rainha.
"O que me preocupa é o convencimento dos membros do MST de que os traficantes podem virar salvadores da pátria. Já tivemos esse tipo de discurso, com Marcinho VP, André Fernandes, William Professor... Os traficantes não têm condição de escrever a ata que foi apreendida na operação das delegacias", disse.
Marina é aliada politicamente da vereadora André Gouvêa Vieira (PSDB) que disputa votos na Rocinha com Claudinho da Academia. No depoimento, a ex-delegada da DRE (Delegacia de Repressão aos Entorpecentes) fez uma espécie de "mea culpa" por ter considerado a milícia um mal menor do que o tráfico de drogas.
Ela disse, porém, que não tinha atribuição de combater os grupos paramilitares. "A delegacia que cuidou desse tipo de organização sempre foi a Draco (Delegacia de Repressão ao Crime Organizado). Minha área de atuação sempre foi o combate a entorpecentes", alegou.
Marina foi convidada pela CPI depois que o vereador carioca Josinaldo Francisco da Cruz (DEM), o Nadinho de Rio das Pedras, disse à comissão que ela fez campanha na comunidade de Rio das Pedras, dominada por milícia, em 2006.
A deputada disse hoje que foi à favela apenas ao aniversário do inspetor Félix Tostes, assassinado posteriormente. Nadinho é acusado pela morte do inspetor, que teria planos de se lançar candidato a vereador.
Segundo Marina, ligação com o inspetor Félix era "profissional" e outros políticos estiveram na mesma festa. mas ela evitou citar nomes. "Eu não vou arrastar pessoas que estão acima de qualquer suspeita para a vala comum das milícias", disse.
Seminário discute injustiças contra trabalhadores do campo e da cidade
Agencia Brasil de fato
15 de agosto de 2008 Marcelo Salles, do Rio de Janeiro
A Justiça brasileira é lenta, seu acesso é desigual e suas decisões favorecem, via de regra, quem tem mais poder. Eis a conclusão do seminário “A Justiça que nós queremos”, organizado pela Associação Juízes para a Democracia, na sexta-feira 15 de agosto, na Escola de Magistratura do Rio de Janeiro.
Em depoimento emocionado sobre o assassinato de seu filho, Márcia Jacintho criticou o novo adiamento do julgamento dos policiais acusados. “Meu filho foi morto por aqueles que deveriam preservar sua vida. O julgamento dos PMs [marcado para 12 de agosto] foi adiado por uma manobra dos advogados”. Os assassinos de Henry estão impunes há seis anos.
O delegado de Polícia Orlando Zaccone, titular da 52a. DP, reconheceu a responsabilidade da polícia, que muitas vezes mascara as mortes com os chamados autos de resistência (morte em confronto). Mas lembrou que existe todo um sistema que garante o funcionamento dessa política de extermínio: “A polícia mata, mas quem enterra é o Judiciário”, disse, numa referência ao papel do juiz, único com poder para encerrar um inquérito (e os autos de resistência são inquéritos).
Zaccone lembrou ainda que os meios de comunicação participam ativamente desse processo. “Como assinala o jurista argentino Raúl Zaffaroni, a mídia é uma das agências executivas do sistema penal”, disse durante sua intervenção. Em entrevista ao Brasil de Fato, exemplificou: “Quando você pega uma matéria que diz assim: ‘polícia sobe o morro e mata não sei quantos bandidos’. Como sabe que é bandido? A mídia começa todo um trabalho pra que aquela letalidade seja legitimada”.
Em sua intervenção, João Pedro Stédile radicalizou a crítica aos meios de comunicação: “A imprensa no Brasil é mera zeladora dos interesses do capital . A Globo só faz defender os interesses do capital. Não é democrática. Não é imparcial. ”, disse. O integrante da direção nacional do MST afirmou que, além da imprensa, o latifúndio e o capital internacional através de suas empresas trasnancionais, são os responsáveis pelo atraso secular da Reforma Agrária no Brasil. E nesse quadro, a Justiça tem favorecido os grandes proprietários de terras e prejudicado os trabalhadores rurais.
“Por que está emperrada a Reforma Agrária no Brasil se temos necessidade, temos terra, temos lei, temos programa?”, perguntou Stédile, para em seguida dar uma pista: “O presidente do Incra disse que a ordem da Casa Civil é só desapropriar terra se o fazendeiro quiser”. Como o que eles querem é ampliar suas propriedades e seu poder, além de não ceder as terras, os fazendeiros fizeram uma aliança com as empresas transnacionais. Isso é o agronegocio.
É a “aliança do capital financeiro internacional com os grandes proprietários de terras. Não mais que 40 empresas multinacionais passaram a controlar toda produçao de grãos, o comércio agrícola e a as agroindustrias no Brasil. Apenas tres multinacionais, por exemplo, controlam todas as fábricas de fertilizantes quimicos agrícolas”, denunciou João Pedro Stédile, que também criticou o enquadramento de oito companheiros na Lei de Segurança Nacional por um juíz federal no Rio Grande do Sul.
O coordenador do MST concluiu sua palestra com duras críticas ao banqueiro Daniel Dantas, recentemente preso pela Polícia Federal. E afirmou que os sem-terra não se calarão diante das injustiças no campo: “Dantas é o maior testa de ferro do capital internacional. O Banco Opportunity comprou 600 mil hectares no estado do Pará. Por isso nós ocupamos. Não importa que seja legal, o que importa é que é injusto!”.
"PRODUTOR DO ASFALTO" USA SOJA COMO MOEDA DE TROCA
Caiado ganha dinheiro arrendando 3 mil hectares de terra (que herdou da familia)
Jornal Estado de Sao Paulo
10 de agosto de 2008
A cotação recorde da soja, alcançada nos últimos meses, garantiu bons negócios para o empresário Eduardo Caiado, de 25 anos. “Sou produtor do asfalto”, diz o dono de seis fazendas produtoras de soja espalhadas pelos Estados de São Paulo, Goiás e Mato Grosso. “Não tenho nenhum trator”, conta. Ele ganha dinheiro com o arrendamento de 3 mil hectares de terras em troca de soja.
Foi assim que fez um negócio de ocasião em fevereiro. Fechou a compra de mil hectares de terras, cotados em 100 sacas por hectare, com pagamento parcelado em três anos. Ao todo vai pagar o equivalente 100 mil sacas de soja. A primeira parcela, de 33 mil sacas, foi quitada quando o produto estava cotado em R$ 45. As demais serão pagas entre fevereiro de 2009 e fevereiro de 2010.
Agora, a cotação da soja já caiu para R$ 39 a saca. “Fiz um bom negócio”, comemora. A torcida do empresário é para que o preços estejam em baixa nas datas em que terá de quitar as demais parcelas.
Além de comprar uma fazenda vinculada à soja, Caiado adquiriu um automóvel BMW 325 quando a commodity estava no pico de preço. Pagou o equivalente a 4,4 mil sacas de soja, cerca de R$ 200 mil. Atualmente, com a soja nos R$ 39 por saca, ele teria de desembolsar mais de 5 mil sacas. “Comprei o carro quando a soja está no valor mais alto”, gaba-se o empresário.
Em Ribeirão Preto (SP), onde Caiado mora, boa parte dos clientes compram veículos de luxo tendo como unidade monetária produtos agropecuários, conta José Carlos Chagas, supervisor da revenda de carros de luxo da Eurobike.
RESERVA
Caiado conta que recebe os aluguéis das terras e deixa a soja depositada nas cooperativa, aguardando o momento mais oportuno para vender o grão. Na prática, a soja funciona como uma reserva de valor para o empresário. Quanto ao atual ciclo de baixa das commodities, ele acredita que será passageiro. “A cotação da saca de soja deve voltar a R$ 45”, palpita.
Nota:
Assim como o fazendeiro paulista, sr. Caiado, existem no Brasil, segundo dados do cadastro do Incra e o censo do IBGE ao redor de 35 mil fazendeiros proprietarios de mais de 2 mil hectares.de terra. cerca de 90% deles não moram na fazenda mas nas capitais. A grande maioria mora em São paulo, Campo grande e Goiania. São donos de 46% de todas as terras do Brasil, ou seja mais de 140 milhões de ha.
Ninguem deles acumulou terras trabalhando..
Frei Cappio recebe prêmio por luta em defesa do Velho Chico
Brasil de Fato
por jpereira
08/08/2008
Bispo brasileiro é reconhecido por sua luta em defesa do rio São Francisco, e comunidades que dependem dele, através do Prêmio pela Paz da Pax Christi Internacional 2008
da redação
Frei Luiz Flavio Cappio, bispo da diocese de Barra (BA), receberá o Prêmio pela Paz da Pax Christi Internacional 2008 (2008 Pax Christi International Peace Award). O bispo brasileiro foi escolhido para receber o prêmio por suas ações a favor do rio São Francisco, bem como das pessoas que dependem dele para viver.
A Pax Christi é um movimento católico internacional para a Paz, fundado na França em 1945, com mais de 100 organizações-membro ativas em todo o mundo. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) integra a organização e será responsável pela entrega do prêmio ao frei Luiz Cappio. A cerimônia ainda não tem data marcada, mas poderá ser feita aqui no Brasil, como forma de aproximação às ações de Dom Cappio.
O bispo ficou conhecido mundialmente após realizar um jejum de 24 dias em protesto contra a transposição do rio São Francisco. Sua manifestação chamou a atenção de movimentos sociais, personalidades públicas e do governo brasileiro aos prejuízos que o projeto trará às comunidades riberinhas e à biodiversidade da região cortada pelo rio.
ARTISTAS ENTRAM NA LUTA PELA DEMARCAÇÃO DE ALDEIA EM NITERÓI.
Por Fátima Lacerda, da Agência Petroleira de Notícias (www.apn.org.br)
01/08/2008
Sete dias depois de viverem a desolação de encontrar sua aldeia queimada, os índios guaranis de Camboinhas, em Niterói, viveram momentos de muita emoção, durante a visita de artistas que decidiram abraçar a causa da demarcação das suas terras. Osmar Prado, Antonio Pitanga, Licurgo Spínola, Priscila Camargo prometeram não descansar até que a aldeia seja reconstruída e suas terras demarcadas.
O incêndio, provavelmente criminoso – a Polícia Federal investiga o caso – aconteceu no dia 18 de julho. Os principais alvos foram a escola, livros e objetos sagrados. O local onde os guaranis estão instalados, desde abril, é uma região de sambaquis (cemitério indígena), que está sendo alvo da especulação imobiliária, embora o terreno esteja em área do Parque Estadual da Serra da Tiririca.
Pesquisadora de histórias, lendas e contos tradicionais, a atriz Priscila Camargo já tem um vínculo com a aldeia e liderou a caravana dos artistas a Camboinhas. Tão cedo ela não conseguirá apagar da memória a imagem do dia do incêndio, quando esteve na aldeia, a convite do cacique Darci de Oliveira:
"Quando cheguei, eram 16 horas. Ainda havia fogo. Chorei muito. Foi uma dizimação, como nos filmes americanos. Nunca pensei que fosse presenciar uma coisa dessas. Como cidadã, senti que precisava fazer alguma coisa. É uma honra termos os índios guaranis tão perto, pra gente aprender com eles. Eles formam uma sociedade onde existe respeito e liberdade. Deixar os índios nesta terra é uma garantia de que elas serão preservadas. Estão querendo acabar com os índios. É como se estivessem querendo acabar comigo também, botando fogo na minha própria casa. Não vamos permitir que isso continue. Demarcação já!" – clamou Priscila.
Osmar Prado estava tomado da mesma emoção. Ele é um dos muitos artistas que integram o Movimento Humanos Direitos (MHuD), voltado para a erradicação do trabalho escravo, da exploração sexual infantil, da demarcação das terras indígenas e quilombolas. A causa dos guaranis de Camboinhas agora está entre as suas prioridades:
"Onde houver esse tipo de violência e me pedirem para que compareça, lá estarei. Corre no meu sangue o sangue negro, índio e europeu. Estou defendendo os meus irmãos. Imaginem se fosse o contrário, se invadissem e queimassem as casas onde moramos, as nossa igrejas, os nossos cemitérios? Por que com os índios é diferente? Falta iniciativa dos órgãos encarregados de defender a comunidade indígena. Por isso estamos aqui. Concentrar-se no outro, preocupar-se com o outro, sofrer pelo outro e com o outro, essa é a lição básica da existência, o resto não vale nada" – declarou, visivelmente comovido.
O ator Antonio Pitanga acha que os inimigos dos índios "deram um tiro no pé, ao incendiar a aldeia". Ele está certo que essa violência vai acender a indignação e o espírito guerreiro daqueles que reconhecem a dívida histórica da nossa sociedade com negros e índios.
Durante a visita, Darci de Oliveira homenageou a comitiva – além dos artistas havia jornalistas, políticos, representantes de sindicatos e de movimentos sociais - com belas canções indígenas, que provocaram lágrimas. Homens, mulheres e crianças indígenas formaram uma roda, executaram instrumentos musicais típicos e cantaram em guarani. A platéia escutava em silêncio, tomada de uma sensação de paz e reverência. Depois, o cacique fez um apelo para que a Funai acelere o processo de demarcação das terras. O jurista João Luiz Pinaud disse que escreveu uma carta ao ministro Tarso Genro, em favor da demarcação, encaminhando, também, dados arqueológicos que atestam a presença de sambaquis na região.
Saiba mais em ACONTECEU/JULHO 2008, neste site.
PROJETO DA REPÓRTER BRASIL CONCORRE A PREMIAÇÃO INTERNACIONAL
Com um voto simples pela internet, qualquer um pode escolher os três projetos que receberão prêmio de US$ 5 mil, que será concedido a cada uma das iniciativas selecionadas. Repórter Brasil concorre com outros 14 projetos
Por Repórter Brasil
31/07/2008
O projeto da Repórter Brasil que visa tornar o trabalho escravo um mau negócio é finalista do Desafio Changemakers de combate à escravidão contemporânea, iniciativa da Ashoka, em parceria com a Humans United.
Nesta fase final, a proposta da Repórter Brasil - com base na pesquisa das cadeias produtivas ligadas à mão-de-obra escrava e se desdobra na articulação do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, que reúne empresas comprometidas em cerccear relações comerciais com escravagistas - concorre diretamente com outros 14 projetos de todo mundo, escolhidos por um grupo de especialistas. Foram inscritas 237 propostas de 48 países.
Com um voto simples pela internet no site da Ashoka, qualquer pessoa pode ajudar a escolher os três projetos que receberão prêmio de US$ 5 mil, que será distribuído a cada uma das iniciativas selecionadas. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social são parceiros da Repórter Brasil nessas iniciativas.
Para contribuir com o trabalho desenvolvido pela Repórter Brasil, basta preencher um formulário simples e, na seqüência, escolher a opção "Making slave labor a bad business option/REPORTER BRASIL" - como um dos três projetos indicados. A votação se encerrará no próximo dia 6 de agosto.
Outro projeto do Brasil também concorre à premiação. A organização Resposta pretende convocar o setor privado a adotar boas práticas para a proteção de crianças e adolescentes contra a exploração e tráfico para fins sexuais. A iniciativa busca envolver companhias que atuam no mercado de postos de combustíveis na malha rodoviária brasileira.
Mais sobre o projeto
Em 2003, a Repórter Brasil começou a realizar uma extensa pesquisa para mostrar como mercadorias produzidas com trabalho escravo estavam inseridas na economia brasileira e global. Foram identificados problemas nas cadeias produtivas da pecuária bovina, do carvão vegetal, da soja, do algodão, da madeira, do milho, do feijão, da cana-de-açúcar, entre outras.
Apuradas as informações, empresas brasileiras e multinacionais que apareceram nesse rastreamento foram convidadas a criar mecanismos para evitar fornecedores que utilizaram mão-de-obra escrava. As articulações em torno do tema deram origem ao Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, que reúne hoje mais de 180 empresas e associações setoriais e consiste no único do gênero em todo o mundo.
Os estudos de cadeia produtiva e o Pacto Nacional tornaram possível o combate à escravidão por meio do seu viés comercial. Com eles, a sociedade como um todo pode atacar quem lucra restringindo a liberdade de outros.
TRABALHO ESCRAVO:PRIMEIRA BAIXA NO PACTO NACIONAL
Redação CartaCapital
21/07/2008
O barato está saindo caro para o Grupo José Pessoa, um dos maiores do setor de açúcar e álcool no País. Na sexta-feira 11, o conglomerado liderado pela Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool (CBAA) protagonizou a primeira exclusão de um signatário do Pacto Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo no Brasil, após duas reincidências verificadas por auditores federais em sete meses.
O que estava ruim ficou pior quando, na terça-feira 15, uma das empresas do grupo, a Agrisul Agrícola Ltda., entrou na lista de empregadores que utilizam trabalho escravo, atualizada semestralmente pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Quem aparece na lista passa a ter restrições de incentivo fiscal e de operações de crédito em instituições públicas federais, além de sofrer sanções dos signatários do Pacto. De defensor da dignidade a vilão dos direitos humanos em cinco dias.
O Brasil é o melancólico pioneiro no reconhecimento e no monitoramento do trabalho escravo no mundo. A exclusão de um signatário, inédita, não é vista como uma derrota que recai sobre o Pacto. A coordenadora do programa na Organização Internacional do Trabalho (OIT), Andréa Bolzon, diz que foi uma surpresa a primeira infração * na ocasião, uma auditoria encontrou 1.011 trabalhadores, a maior parte indígenas, em situação degradante numa empresa da CBAA em Brasilândia (MS). "Passado o susto, a segunda infração foi inconcebível, injustificável", diz, referindo-se aos 55 trabalhadores encontrados em regime de servidão por dívida, após serem transportados irregularmente do Vale do Jequitinhonha (MG) para Icem (SP) e terem documentos apreendidos.
Além da OIT, o Instituto Ethos e a ONG Repórter Brasil compõem o comitê gerenciador do Pacto. O presidente do Ethos, Ricardo Young, diz que, além da exclusão, o Grupo José Pessoa terá de enfrentar uma avaliação de imagem pelo mercado. "Eles tiveram todos os elementos para não reincidir, e mostraram que não aprenderam. Esse é um risco que todo o setor do açúcar e do álcool corre por não estar dando a devida atenção à questão do trabalhador", acredita Young, para quem uma crise de reputação como esta não tem volta. "As parcas economias feitas são nada diante do prejuízo não apenas da imagem, mas dos negócios." Procurado por CartaCapital, o empresário José Pessoa de Queiroz Bisneto disse que atenderá ao pedido de entrevista na semana que vem.
244 CORTADORES DE CANA SÃO RESGATADOS DE TRABALHO DEGRADANTE EM GOIÁS
Condições precárias:
Usina Fortaleza Açúcar e Álcool, situada no município de Porteirão (GO), mantinha 244 homens na lavoura de cana em situação de trabalho degradante. Descaso com saúde e segurança foram os principais motivos do resgate
REPÓRTER BRASIL - 15/07/2008
Projeto de Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil
Por Christiane Peres
Uma operação da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Goiás (SRTE-GO) encontrou 244 trabalhadores em condições degradantes na Usina Fortaleza Açúcar e Álcool Ltda, em Porteirão (GO), no sul do estado. Além dos alojamentos precários, a fiscalização flagrou cortadores de cana-de-açúcar trabalhando sem condições de segurança e com alimentação de péssima qualidade, gerenciada por terceiros. Um dos principais problemas encontrados pelos fiscais foi a inadequação dos equipamentos de proteção individuais (EPIs) utilizados pelos trabalhadores na lavoura.
Além das rescisões, que somaram mais R$ 350 mil, a usina poderá ser obrigada a desembolsar mais de R$ 2 milhões em uma ação que será ajuizada por danos morais coletivos e outros R$ 3 ou 5 milhões pelos 102 autos de infração lavrados pela fiscalização. "Será uma medida exemplar", destaca o procurador do Trabalho Januário Justino Ferreira. Por conta da situação encontrada, ele nem propôs a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), partindo logo para uma ação civil pública contra a usina.
O procurador garantiu que também vai entrar com uma representação-crime contra os "gatos" - contratadores de mão-de-obra - e contra a diretoria da empresa. Segundo Januário, apesar de gerir cerca de 900 empregados, a Usina Fortaleza deixava na mão dos intermediários a administração dos trabalhadores que foram resgatados. A empresa assinava a carteira de trabalho, mas quem "cuidava" de fato da admissão, hospedagem, alimentação, transporte e até demissão dos cortadores de cana eram os "gatos", também responsáveis pelo aliciamento das pessoas na Região Nordeste. A maioria dos 244 resgatados na usina viera do Maranhão.
"Essa empresa desrespeitou todos os direitos desses trabalhadores. Fazia vista grossa e permitia que gatos gerenciassem com mão de ferro os trabalhadores. A falta de segurança e o pouco caso com a saúde foram os problemas mais graves. Havia muitos acidentes de trabalho e esses homens estavam completamente desassistidos. Vou investigar até os médicos da região, pois acredito que agiam junto com as empresas, que se omitiam. Muitas vezes o trabalhador da usina chegava no médico com um corte profundo no braço, na mão, na perna e ele dava um atestado de cinco dias e não registrava a CAT [Comunicação de Acidente de Trabalho]", conta o procurador.
Só no último mês, dois jovens de 22 anos morreram na usina. Um deles teve a vida subtraída ainda durante a fiscalização do grupo móvel. O acidente aconteceu numa madrugada com uma colheitadeira. Uma das roldanas enroscou na camisa do trabalhor e o atirou para dentro da máquina. O jovem, que não teve o nome divulgado, não resistiu e morreu no hospital da cidade. O outro acidente aconteceu durante a manutenção de uma caldeira. Sem EPIs, o funcionário caiu de uma altura de oito metros e também não resistiu. Segundo o auditor fiscal do Trabalho que coordenou a ação da SRTE-GO, Welton Oliveira, a empresa será responsabilizada pelas mortes.
Regras impostas pela Previdência Social são comumente burladas por empresas para "desviar" a atenção dos fiscais sobre suas atividades. Muitas vezes, as Comunicações de Acidente de Trabalho (CATs), que são obrigatórias em todo e qualquer caso de acidente ou doença de trabalho, não são emitidas. Esse registro é essencial para que o trabalhador possa receber os benefícios a que tem direito. Outra garantia que está vinculada à CAT é a estabilidade do funcionário por um ano após o retorno ao trabalho, norma que geralmente não interessa ao empregador.
"Eles não pensam na saúde do trabalhador. Tudo é válido para enganar e retardar a fiscalização. Além disso, uma empresa com esse tanto de funcionários deveria ter no mínimo um médico do trabalho, uma enfermeira, um engenheiro do trabalho, dois técnicos agrícolas e um auxiliar de enfermagem. Seis profissionais para cuidar minimamente da saúde de seus trabalhadores. Ela substituiu por um. A empresa tinha um técnico agrícola para fazer o trabalho todo. Isso caracteriza um extremo descaso com a segurança e saúde", critica o auditor fiscal Welton Oliveira.
Na tentativa de impedir a continuidade de violações, o procurador Januário enumerou algumas obrigações que devem constar da ação civil pública: o uso de aliciadores na contratação de mão-de-obra e a administração dos funcionários por terceiros serão vetados; e empresa será obrigada a assumir a hospedagem, a alimentação e o transporte. A usina terá ainda que se adequar às normas de segurança e medicina do trabalho e passar a expedir as CATs, além de prestar toda assistência necessária aos trabalhadores em momentos de acidentes e fornecer EPIs adequados.
Para o gerente administrativo da Fortaleza Açúcar e Álcool, Luiz Antônio Vanim, a ação terminou "de forma satisfatória para todos", mesmo com tantas exigências. O gerente discorda, porém, quanto ao resgate por trabalho degradante. Para ele, os alojamentos em situações precárias, a falta de EPIs e os acidentes de trabalho não passam de uma questão de ponto de vista. "Essa parte está superada, a ação terminou de forma conciliatória para ambos os lados. Já não temos mais aqui esses trabalhadores que eles [a fiscalização] consideravam estar em condições degradantes. Resolvemos atender as exigências e tudo acabou bem. Mas o ato de cortar cana é igual em todo lugar. No entendimento dos fiscais não era adequado, mas para mim é tudo uma questão de visualização. Numa situação dessas, o que os resta fazer é atender as determinações, certo?", pondera o representante da empresa.
Luiz Antônio também nega que os trabalhadores ocupassem os alojamentos inadequados por imposição da empresa ou do "gato". Segundo ele, "era conveniente" para os cortadores de cana, "pois muitos queriam ficar perto da cidade". "A gente não podia obrigá-los a ficar em nossos alojamentos. Mas agora não vamos contratar mais ninguém que não queira morar nos alojamentos da empresa. Não podemos arcar mais com isso", responde o gerente da usina, numa tentativa de se eximir da responsabilidade.
De acordo com o auditor fiscal Welton, essa não é a primeira fiscalização da empresa. No ano passado a usina recebeu uma visita do grupo móvel, mas não foram encontrados trabalhadores na ocasião. Os fiscais deixaram apenas páginas e páginas de recomendações que precisavam ser seguidas. "Eles não cumpriram nenhuma. Acho que 90% do que foi recomendado foi autuado esse ano", afirma Welton, que lavrou os 102 autos de infração.
A operação começou no dia 13 de junho e só acabou no dia 10 de julho - quase um mês depois. Apesar de a empresa ter acatado todas as exigências, a demora no pagamento das rescisões aconteceu porque a empresa - que possui escritório central em Campinas (SP) - não possuía a relação dos trabalhadores que haviam sido contratados, em sua maioria, em janeiro deste ano. Na última quarta-feira (9), o grupo derradeiro de 21 trabalhadores recebeu verba indenizatória e foi encaminhado de volta às cidades de origem.
REDE DE SOLIDARIEDADE
Xinguara - PA
08 de julho de 2008
Conforme é do conhecimento de vocês, a Mineração Onça Puma, empresa do Grupo Vale, está implantando um projeto de exploração de níquel no Município de Ourilândia do Norte, Sul do Pará, o que tem trazido inúmeras conseqüências gravíssimas para a população dos Projetos de Assentamento atingidos, da zona urbana de Ourilândia e Tucumã, bem como para o meio ambiente.
A CPT já denunciou publicamente este caso, ingressando com uma Representação no Ministério Público Federal em 16.04.08 e divulgando pela imprensa.
O próprio INCRA também impetrou uma Ação Civil Pública na Justiça Federal de Marabá, em 18.06.08, requerendo essencialmente a paralisação das obras. Em função disso, divulgamos nova nota à imprensa para dar apoio à Ação do INCRA.
Porém, pensamos numa campanha mais ampliada.
Para tanto, sugerimos que sua entidade envie Carta ao Juiz Federal, manifestando apoio ao pedido do INCRA e solicitando decisão favorável.
Outrossim, é importante também enviar carta ao Presidente do INCRA, pois ele está com a responsabilidade de decidir sobre o pedido da Vale de desafetar a área.
Assim, enviamos em anexo os dois modelos de cartas que vocês podem alterar, se julgarem necessário, bem como a nova nota, para conhecimento.
Atenciosamente,
Frei Henri des Roziers
JUSTIÇA FEDERAL DE MARABÁ
Praça do Mogno, 6665, bairro Amapá, CEP 68502-610, Marabá-PA;
Tel: 94 3324-2899/2497/2486; fax 94 3324-2496
e-mail: [email protected]
INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA - INCRA
ROLF HACKBART - PRESIDENTE
Setor Bancário Norte
Palácio do Desenvolvimento – 18º Andar
Brasília – DF – CEP: 70057-900
Fax da Presidência: 3411-7609
E-mail: [email protected]
UNIÃO ACUSA VALE DE INVADIR ASSENTAMENTOS
Segundo relatório do Incra, mineradora negociou diretamente com 53 assentados no Pará terras de reforma agrária
Órgão diz que área na qual empresa já iniciou obras de projeto bilionário de produção de níquel foi adquirida ilegalmente
EDUARDO SCOLESE DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
JOÃO CARLOS MAGALHÃES DA AGÊNCIA FOLHA, EM OURILÂNDIA DO NORTE (PA)
Por meio de um relatório carimbado pela presidência do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), o governo federal acusa a Vale, segunda maior mineradora do mundo, de ter invadido uma área de assentamentos da União no sudeste do Pará para desenvolver um projeto bilionário de produção de níquel.
Segundo o documento, ao qual a Folha teve acesso, a mineradora Onça Puma, da Vale, indenizou diretamente, entre 2003 e 2007, 53 assentados para que saíssem de seus lotes.
Apesar de possuir o chamado "direito de lavra" da área do DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral), a mineradora só poderia trabalhar na área com autorização da chefia do Incra.
Na área de interesse da mineradora, há 7.400 hectares localizados dentro dos dois assentamentos -o equivalente a quatro vezes a área do arquipélago de Fernando de Noronha.
Sem a mediação constante do órgão federal, a mineradora coagiu os lavradores a aceitarem as indenizações, segundo alguns deles afirmaram à Folha. A empresa nega a pressão.
De acordo com o relatório, as "compras" dos lotes ocorreram por cinco anos. Nesse meio tempo, no final de 2005, a Vale comprou a canadense Canico, cujo principal ativo no país era o projeto da Onça Puma, inflado pela mineradora brasileira.
"Quem desencadeou essa situação foi a mineradora, que, mesmo ciente da ilegalidade da situação e sem haver recebido a autorização formal desta autarquia, fez as negociações com os assentados, com proposta altamente sedutora", aponta trecho do relatório do Incra.
"Estamos aguardando somente a passagem disso [pedido de autorização] pelo conselho [diretor do Incra]", afirma o diretor da Vale para o projeto Onça Puma, João Coral.
A capacidade do projeto é de 58 mil toneladas/ano de níquel, o que representaria uma renda bruta anual de US$ 2 bilhões. A Vale estima gastar US$ 2,2 bilhões no projeto, sendo que só no ano passado já foram aplicados US$ 537 milhões.
O resultado do investimento pode ser visto em Ourilândia do Norte (PA), próximo à área onde estão as reservas de níquel. Um esqueleto da enorme planta de beneficiamento do minério já está de pé na cidade.
Em alguns dos lotes ocupados pela empresa, ainda intactos, se vê placas com o seguinte aviso: "Proibida a entrada. Propriedade do projeto de mineração Onça Puma".
Indefinição
O documento do Incra seria apresentado à Vale na semana passada, mas a reunião com o comando da empresa foi adiada para final de julho, a pedido do Incra. No órgão, não há consenso sobre que rumo seguir após a constatação da invasão de parte dos projetos de assentamento Tucumã e Campos Altos.
Uma ala quer o confronto jurídico com a Vale, ou seja, que se coloque a procuradoria do órgão e a AGU (Advocacia Geral da União) para suspender o projeto. Outra ala, mais realista, aceita a negociação com a mineradora, pois sabe que, diante dessa polêmica, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) e o presidente Lula tendem a ficar do lado da mineradora.
Segundo normas do Incra, o assentado não é considerado dono da terra, e sim uma espécie de usuário. Ele não pode negociar o lote ou as benfeitorias construídas com dinheiro público. Se quiser abandoná-lo, ele comunica o órgão, que coloca outro sem-terra no local.
No caso da Onça Puma, o trâmite normal seria uma negociação direta entre a mineradora e o órgão, e não diretamente com os assentados. Procurado pela Folha, o presidente do Incra, Rolf Hackbart, não quis falar sobre o caso.
Ciente do relatório do Incra, a Abra (Associação Brasileira de Reforma Agrária), entidade de intelectuais e líderes de movimentos sociais, enviou ao BNDES uma representação na qual pede ao banco que "adote as medidas cabíveis para suspender os financiamentos" à mineradora. O BNDES, que aprovou R$ 8 bilhões de investimentos para a Vale, está analisando o documento da Abra. Assentados afirmam terem sido enganados
DA AGÊNCIA FOLHA, EM OURILÂNDIA DO NORTE
Assentados em lotes de interesse da Onça Puma (empresa da Vale) em Ourilândia do Norte (PA) afirmaram à Folha que foram coagidos, enganados e desrespeitados durante negociações para que deixassem as terras do Incra.
A reportagem esteve na cidade na última semana e ouviu ao menos 15 colonos. Todos afirmaram estar insatisfeitos com a maneira como a Vale vem lidando com a situação.
Os assentados se dizem enganados e arrependidos por terem saído das terras.
O principal alvo das reclamações são mentiras e informações incompletas que teriam sido veiculadas pela mineradora no início das pesquisas sobre a reserva de níquel.
"Eles chegavam e diziam que éramos obrigados a sair, que eram donos do subsolo, que tinham até negociado com o Incra", disse Clemair Baratti, que hoje vive na zona urbana de Ourilândia. "Entravam aqui e faziam um monte de buracos sem pedir para entrar. Quando via, estavam lá cavando."
A versão de Baratti é repetida por quase todos os colonos ouvidos pela reportagem: funcionários da Onça Puma pesquisavam terras sem consultar os assentados e diziam que a única opção era aceitar o dinheiro e sair. Uma vez convencidos, os assentados, em sua maioria plantadores de cacau ou pequenos criadores de gado, não eram informados da dimensão do projeto. Com isso, acabavam vendendo as benfeitorias.
Apesar de boa parte dos assentados ter recebido R$ 9.500 por alqueire, o triplo do valor de mercado à época, outros, desconhecendo o interesse real pelas terras, aceitaram até mesmo R$ 4.500. A maioria dos lotes tem cerca de dez alqueires.
A única voz dissonante ouvida pela reportagem foi a de Raimundo Caçula. "Não houve pressão. Discutiram com o todos os trabalhadores. Eles [mineradora] são fantásticos", afirmou.
Caçula liderava uma associação de moradores do Projeto de Assentamento Campos Altos à época. Segundo assentados, recebeu compensação da empresa para esvaziar um plano de negociação coletiva dos agricultores. Ele nega ter traído o grupo.
"Incra participou do processo", afirma Vale
Segundo diretor do projeto, mesmo com eventuais contestações jurídicas do órgão, o Onça Puma não será interrompido
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
DA AGÊNCIA FOLHA, EM OURILÂNDIA DO NORTE
O diretor da Vale para o projeto Onça Puma, João Coral, afirmou à Folha que a mineradora iniciou o processo de indenização dos assentados sem ter em mãos uma autorização definitiva do comando do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).
"Não tínhamos o parecer [definitivo] . Não tínhamos ainda a [autorização para a] desafetação [mudança da destinação] da área. Mas o Incra estava acompanhando todo o processo, inclusive participou de todas as negociações das indenizações das benfeitorias realizadas pelos assentados e os beneficiários das áreas."
Questionado se a mineradora se precipitou ao fazer as indenizações antes da decisão final do Incra, ele disse: "Fizemos todo esse processo e toda essa negociação com a anuência dos envolvidos, num processo, vamos chamá-lo assim, público, envolvendo todas as pessoas ali evidentes".
O diretor da Vale diz que tinha em mãos um parecer favorável de um superintendente do órgão e que até hoje aguarda a decisão final da cúpula da autarquia. Indagado se essa autorização está documentada, ele afirmou: "Era uma coisa de acompanhamento, tem relatórios do Incra, tem um parecer favorável desses servidores para que seja feita a desafetação. Estamos aguardando somente a passagem disso [pedido de autorização] pelo conselho [diretor do Incra]."
Segundo o Incra, as investidas da mineradora nos assentamentos ocorreram entre 2003 e 2007. No final de 2005, a Vale assumiu o projeto da Onça Puma, ao comprar a mineradora canadense Canico.
"Esse é um processo muito desconfortável para nós, uma vez que consideramos estar em total legalidade, em todo o processo", afirmou o diretor, que completou: "Fico muito chateado vendo que essas pessoas [os assentados] se colocam em uma posição da famosa Lei de Gérson. Querem tirar vantagem a qualquer preço, de tudo, quando vêem uma empresa como a Vale, que preza [por eles], tem ética".
De acordo com Coral, mesmo com eventuais contestações jurídicas do Incra, o projeto não será interrompido.
"Não temos nenhum desconforto legal e nenhum desconforto jurídico em relação a essa questão. Eu estou muito tranqüilo.
Essa é uma questão de denúncias infundadas e injustas", afirmou.
Para Fernando Thompson, porta-voz da Vale, não existe hipótese de a mineradora atuar de forma ilegal. "Não existe a hipótese de uma empresa como a Companhia Vale do Rio Doce agir à margem da lei. Essa hipótese não existe. No nosso entendimento, nós fizemos a coisa correta com base nos processos e dentro da lei", diz.
"Se o Incra e os órgãos chegarem para nós e disserem "acreditamos que é isso que deve ser feito", nós vamos sentar e conversar. Não é por uma questão de arrogância ou de prepotência que a Vale não vai sentar e conversar com a comunidade. Essa hipótese está absolutamente afastada", completou o porta-voz da empresa.
Sobre a versão dos assentados, Thompson afirma: "O simples fato de existirem algumas pessoas contestando a indenização em si não significa que exista alguma ilegalidade" .
O porta-voz completa: "Em momento algum da história da companhia esse tipo de acusação foi feito. A Vale jamais faz assédio moral ou fez assédio moral. Isso não faz parte da nosso conduta de ética
MONOCULTIVO DA CANA DEVASTA CERRADO NO ALTO SÃO FRANCISCO.
Brasil de Fato
02 de julho de 2008
Maria Luisa Mendonça
O cerrado é conhecido como "pai das águas", pois abastece as principais bacias hidrográficas do País. Aqui estão as nascentes do rio São Francisco e seus afluentes, como o Samburá, o Santo Antônio e o rio do Peixe, além do Rio Grande, que deságua no rio Paraná. A fauna e a flora são riquíssimas e guardam muitas espécies ameaçadas de extinção. Na Serra da Canastra foram identificadas mais de 300 espécies de aves e 7.000 espécies de plantas.
No município de Lagoa da Prata já existia uma usina de açúcar desde a década de 70, de propriedade de Antonio Luciano, "coronel" e latifundiário, conhecido como um dos maiores grileiros de Minas Gerais. Mais recentemente, a empresa francesa Louis Dreyfus adquiriu esta usina e expandiu o monocultivo de cana para a produção de etanol. Nos últimos dois anos, outras empresas participam do processo de expansão da monocultura da cana na região.
Os efeitos são devastadores. Na fazenda de Antonio Luciano chegaram até a desviar o curso do rio São Francisco para facilitar o escoamento da produção, sem licença ambiental ou estudos técnicos. Tanto no período inicial de implantação da cana, como nesta fase recente, a monocultura substitui áreas de lavouras e criação de gado, além de destruir as reservas florestais e a mata ciliar. Na implantação dos plantios, as empresas fazem queimadas clandestinas das matas nativas à noite, derrubam e enterram as árvores, para fugir da fiscalização.
“Hoje é comum encontrarmos animais mortos nas estradas, fugindo da devastação das matas. Já encontramos lobos, raposas, tamanduá-bandeira, tamanduá-mirim, lontra, quati, tatu, serpentes, garças, corujas, lagartos, além de peixes mortos no rio, como surubins, que chegam a pesar 40 quilos. Plantam cana até na beira dos rios e das lagoas”, afirma Francisco Colares, professor de zoologia na Universidade de Iguatama.
Segundo Colares, a usina de Lagoa da Prata utiliza a água do São Francisco em todo o processo de produção—para irrigação durante o cultivo, para lavar a cana depois da colheita e para resfriar as caldeiras no processamento. Em um dos pontos de captação, o bombeamento é de 500 litros por segundo—quantidade de água suficiente para abastecer todo o município.
O processo de expansão é intenso. A Empresa Total está construindo uma usina em Bambuí e está prevista a implantação de mais três usinas na região—duas em Arcos e uma em Iguatama, além da expansão da produção em Lagoa da Prata. O cultivo de cana chega até a Zona de Amortecimento do Parque Nacional da Serra da Canastra, considerada pelo Atlas da Biodiversidade em Minas gerais como sendo de importância biológica extrema.
O parque fica entre as nascentes do rio São Francisco e a bacia do Rio Grande. A preservação da Zona de Amortecimento, ou área circundante ao parque, é essencial para garantir sua conservação. A produção de cana no local causa grande impacto, por seu potencial invasor, pelo intenso uso de agrotóxicos, entre outros. A Usina Itaiquara se instalou no município de Delfinópolis e plantou cana em áreas de preservação permanente, próximas ao grande reservatório de águas de Furnas.
“A cana chega até a margem do reservatório; plantam cana praticamente dentro d’água. Desmataram a área e praticaram queimadas, o que representa um grande risco para toda a região. O Ministério Público moveu uma ação contra a empresa e esperamos que a área seja recuperada em breve e que os responsáveis sejam punidos pelo dano ambiental. È necessário que os órgãos competentes fiscalizem essa atividade, pois a monocultura traz sérios problemas ambientais. O Brasil deveria priorizar uma agricultura diversificada”, afirma Joaquim Maia Neto, Chefe da unidade do IBAMA responsável pelo Parque Nacional da Serra da Canastra.
O Secretário de Agricultura e Meio Ambiente do município de Luz, Dario Paulineli, descreve outros impactos na região. “A cana se expandiu rapidamente nos últimos anos. A empresa Louis Dreyfus fez muitos contratos de arrendamento com agricultores locais e o impacto ambiental foi enorme. A usina aplica o veneno de avião e atinge os agricultores vizinhos e a população das cidades. Desmatam madeira de lei, árvores protegidas por lei como o pequizeiro e a gameleira, plantam cana perto das nascentes dos rios, não respeitam os estudos de impacto ambiental. Muitos animais estão morrendo com a devastação das matas”.
Para o agricultor Gaudino Correia, não vale a pena arrendar a terra. “Os contratos são de 12 anos e depois disso a cana já acabou com tudo. A usina usa máquinas pesadas para preparar a terra e causa erosão do solo. Depois queimam a cana e a cinza se espalha por toda a região. Eu não quis arrendar minha terra e estou cercado de cana. Aqui não tem mais terra para lavoura e por isso subiu tanto o preço dos alimentos. Meus vizinhos deixaram de produzir milho, feijão, café, leite e arrendaram a terra para a empresa Total. Eu ainda planto milho, feijão, e produzo leite, mas para o produtor o preço não aumentou, só para o atravessador e para a população. Ainda consigo produzir leite porque faço a ração. Se fosse comprar, não sobrava nenhuma renda. O preço da ração aumentou 50% e fica difícil criar animais”.
O agricultor Sebastião Ribeiro tem a mesma posição. “A usina insistiu, mas eu não quis arrendar minha terra. Meus vizinhos arrendaram e depois ficaram com depressão, porque é o mesmo que perder a terra. O que vai acontecer se os agricultores deixarem de plantar alimentos?” Ribeiro explica também que a usina faz irrigação da cana com pivô central, usando água do São Francisco.
Especialistas alertam que não há fiscalização eficiente sobre os impactos sociais e ambientais. “O Estado deveria priorizar a preservação das nascentes dos rios. É como desgastar as veias que levam o sangue para o coração. Essa expansão tem sido muito rápida e a idéia é dobrar a produção de cana na região. A agricultura familiar vai sumir e podem faltar alimentos”, afirma Lessandro da Costa, diretor da Associação Ambientalista do Alto São Francisco.
Apesar da propaganda das empresas, que dizem gerar emprego e desenvolvimento, organizações locais denunciam que as usinas não respeitam leis ambientais e trabalhistas. “Usam venenos violentos que afetam a saúde dos trabalhadores e da população. Onde antes se produzia milho, feijão, café, leite e outros alimentos, agora é só cana. Não há crédito para os pequenos produtores, mas o Banco do Brasil tem dinheiro de sobra para incentivar as grandes usinas, que destroem o cerrado e a Amazônia. Essa política vai deixar uma herança de destruição”, afirma Carlos Santana, assessor do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bambuí.
Ele explica que “Aqui tem serviço, mas só braçal. Os trabalhadores chegam de todas as partes do país para cortar cana e o aluguel na região aumentou muito. Outra conseqüência foi o congestionamento do sistema de saúde pública. Os cortadores de cana recebem por produção e isso causa a exploração. Muitos ficam doentes e não conseguem mais trabalhar”.
O Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lagoa da Prata, Nelson Rufino, denuncia que, “A usina Louis Dreyfus causa grande destruição do meio-ambiente. O trator da empresa arranca as árvores e depois enterra para esconder o crime ambiental. Somente metade dos canais onde depositam o vinhoto é feita de cimento. Nos outros canais o vinhoto vai direto para o subsolo e para os rios. Nós chamamos o vinhoto de “água que fede”.
Rufino descreve ainda os impactos sociais nos municípios da região. “As cidades estão totalmente cercadas porque a cana chega até as áreas urbanas. A empresa joga veneno de avião e o índice de câncer na população é enorme. Só na minha família temos cinco casos de câncer e isso é comum na cidade. Há mais de 140 trabalhadores afastados por problemas de saúde como tendinite, problemas de coluna, asma e outras doenças pulmonares. Temos registros de cinco casos de mortes por acidentes de trabalho. Dois trabalhadores caíram nas caldeiras, um morreu durante a queima da cana e outros dois morreram em acidentes com o trator”.
Grande parte dos cortadores de cana é migrante e está vulnerável à exploração e ao preconceito. O local onde vivem em Lagoa da Prata é chamado de “Carandirú”. Rufino afirma que “Para os trabalhadores a situação piorou porque perdemos renda. Ano passado fizemos uma greve de 45 dias e conseguimos um aumento de $2,50 para $2,80 por tonelada de cana cortada. Mas a empresa quer buscar uma forma de nos incriminar e está processando o sindicato”.
Outra forma de manipular os trabalhadores é estimulando a competição. Para isso, a empresa os divide em grupos, de acordo com a quantidade de cana cortada. Quem não cumprir a meta não será contratado na próxima safra. Aqueles que atingem a maior meta vão para a turma dos “touros”, que cortam de 17 a 25 toneladas de cana por dia. Muitos trabalhadores desse grupo foram afastados por problemas de saúde e agora são chamados de “bezerros doentes”.
Mesmo em áreas onde já havia atividade agrícola, o monocultivo da cana gera um grau muito maior de devastação porque substitui agricultura diversificada por cultivos homogêneos e contínuos, o que leva à destruição total das reservas florestais. A demanda das empresas por grande quantidade de terras de boa qualidade, com acesso à água e à infra-estrutura, gera devastação dos recursos naturais e da agricultura local. Portanto, não é verdade que a indústria da cana se expande para áreas degradadas e terras marginais, como afirma o governo.
Moacir Gomes, ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bambuí, conclui que, “O presidente Lula não conhece a realidade. Como pode dizer que a cana não substituiu áreas de produção de alimentos? As usinas estão trazendo miséria e vai faltar comida na mesa da população”.
- Maria Luisa Mendonça é jornalista e coordenadora da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.
PT desmobilizou a CUT e desencorajou a mobilização do MST, constata cientista político
Jornal valor economico
27 junho 2008
Entrevista a Leo panitch
Todos os partidos de esquerda que chegaram ao poder, por meio de eleições ou não, caíram na "armadilha" do Estado e ficaram impedidos de fazer as mudanças que haviam planejado. Inclusive o PT. "As reformas são feitas no âmbito de uma rede legal que reproduz a estrutura das relações sociais e da economia capitalista", explica o cientista político canadense Leo Panitch, renomado teórico marxista, chefe do departamento de pesquisa em economia política comparada na Universidade de York. A história colocou abaixo o argumento anarquista e marxista de poder, de que seria possível promover o "achatamento" ou o "esvaziamento" do Estado. O sonho acabou e Panitch, aos 61 anos, não vê com clareza o que possa ser um caminho para o socialismo. A reportagem e a entrevista são de Claudia Izique e publicada pelo jornal Valor, 27-06-2008.
É com esse mesmo ceticismo que ele observa o governo do PT, que assumiu o Estado com a promessa de continuar sendo um partido "organizador dos desorganizados", mas acabou por se aliar à "burguesia nacional" e adotou um "projeto reformista" de integração do país ao mercado globalizado. Desmobilizou a CUT e desencorajou a mobilização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), quando se deu conta de que, se atendesse às exigências dos movimentos sociais, perderia a liberdade de governar.
A desmobilização dos movimentos sociais não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. "Estamos numa conjuntura muito mais orientada para os movimentos políticos", analisa Panitch, citando o exemplo do bolivarianismo de Hugo Chávez e dos novos partidos de esquerda que se organizam na Europa, tirando votos à social-democracia. "Acredito que um dia o MST se tornará um partido de esquerda alternativo ao PT", vaticina.
Panitch esteve no Brasil na semana passada para participar de um seminário, na escola nacional do MST, que teve como tema o futuro da luta de classes na América Latina. Ele defende a tese de que o mundo vive um novo imperialismo, capitaneado pelos Estados Unidos e marcado pelo que chama de "dominação política estendida": os Estados nacionais cumprem o papel de proteger a propriedade privada, de assegurar o cumprimento dos contratos e de educar os jovens para a reprodução do capitalismo. "A maior dúvida do século XXI, para a qual não temos resposta, é se os movimentos sociais que se propõem criar um Estado socialista descobrirão como fazê-lo".
Eis a entrevista.
O senhor tem afirmado que é preciso mudar as estruturas de classe e do Estado, algo que hoje a esquerda não tem capacidade de fazer, nem os movimentos sociais. Como é possível mudar o Estado?
A mudança de um Estado capitalista para um socialista é uma questão muito difícil. Os anarquistas e os marxistas acreditavam na possibilidade de "achatamento" ou de "esvaziamento do Estado" como propôs Marx. Os partidos reformadores, os partidos social-democratas - como o que se tornou o PT - têm operado dentro da estrutura estatal e as reformas realizadas foram feitas dentro da rede legal e administrativa de um Estado que não permite alterações que interfiram na reprodução da economia capitalista. A maior parte dos partidos de esquerda que chegou ao controle estatal, pela tomada de poder ou através de eleições, ficou presa na estrutura do Estado, como em uma armadilha, e viram-se impedidos de fazer as mudanças nas relações sociais e na democratização da economia que haviam planejado. O PT, por exemplo, assumiu o governo com a promessa de continuar sendo um organizador dos desorganizados. O perigo desse incentivo é que, sendo ajudados na organização, os desorganizados se tornam mais poderosos e passam a fazer maiores exigências ao Estado, impedindo que o governo atue com liberdade. O partido não soube ou teve medo de lidar com o risco da limitação de sua independência dentro do governo, já que também sofria pressão dos latifundiários, dos empresários etc. A maior dúvida do século XXI, para a qual não temos resposta, é se os movimentos sociais que se propõem criar um Estado socialista descobrirão como fazê-lo.
Qual poderia ser, então, a saída para o socialismo?
Atualmente, todos discutem políticas públicas, mas não se fala em mudar o Estado. Falamos de um Estado mais eficiente, mas não de ele precisar ser mais barato. Não há critério para definir eficiência, que traduzimos como corte de gastos. Enquanto isso, o setor privado sabe que algumas vezes deve investir para obter um maior retorno. Temos que mudar a estratégia e organizar as pessoas para que elas pressionem por mudanças na organização do Estado, de forma que ele se torne democrático. É preciso definir como investir, o que produzir, onde comercializar os produtos, quanto se deve investir em meios de comunicação, entre outros temas. É um absurdo imaginar uma economia complexa como a atual nos moldes das existentes há mais de um século.
Como o senhor vê as relações entre os movimentos sociais e o governo do PT?
Quando o PT governou o Rio Grande do Sul, desempenhou um papel positivo no relacionamento com os movimentos sociais internacionais, o que está em contradição com sua posição atual: o PT desmobilizou a CUT e não chegou a desmobilizar o MST, mas desencorajou sua mobilização. Entretanto, no governo gaúcho, patrocinou os Fóruns Sociais Mundiais no exato momento em que os movimentos sociais antiglobalização estavam aparecendo. Visto de fora, parecia um governo dos movimentos sociais. Os convidados estrangeiros diziam: "Que maravilha!" De volta a seus países, afirmavam que havia socialismo no Brasil. Era um pensamento inocente. Acredito que o Lula tem um projeto reformista de maior integração no mercado livre globalizado, com relações comerciais mais justas e sem os subsídios americanos ou da União Européia. Essa, no entanto, é uma perspectiva liberal que vai diretamente de encontro à proposta do MST. Não creio que a monocultura e a exportação sejam pré-condição para que o Brasil tenha uma economia democrática. Reconheço, no entanto, que houve uma desmobilização dos movimentos sociais em todo o mundo. Os movimentos que existiram no início do século XX fazem parte do passado. Entramos em uma conjuntura muito mais orientada para os movimentos políticos, liderada pela América Latina. Hugo Chávez, obviamente, é um de seus representantes. Essa tendência também existe nos países do Hemisfério Norte, com a formação, por exemplo, do novo partido de esquerda na Alemanha, que tem 15% dos votos nas pesquisas de opinião, para o qual os social-democratas perdem membros diariamente. Essa é uma questão a ser enfrentada pelo MST, que tem feito o que é necessário, especialmente no que diz respeito à organização dos trabalhadores rurais em uma classe. Acredito que vai chegar um dia em que o MST se tornará um partido de esquerda alternativo ao PT.
Como o senhor avalia a estratégia do MST de impedir o funcionamento de ferrovias e ocupar áreas agrícolas produtivas?
O MST está abandonado pelo Estado, já que o PT adotou como estratégia a aliança com uma suposta burguesia nacional. Isso foi um erro, pois não há mais burguesias nacionais. As burguesias agora acumulam riqueza em escala internacional. O PT tem uma concepção antiquada da classe trabalhadora. A concepção marxista de classe social estava errada e os partidos, os sindicatos, os movimentos sociais criados com base nessa concepção nunca foram revolucionários. Ao contrário, a estratégia sempre foi a de fazer aliança com a burguesia industrial, para que pudessem ter mais recursos. No Brasil, a produção agrícola está voltada para o cultivo de soja para exportação, enquanto a população passa fome. Essa política pode fazer sentido para a Monsanto, mas não condiz com uma perspectiva social. É mais do que natural que o único movimento que não foi desmobilizado, o MST, embora enfraquecido, seja a única força social brasileira capaz de mostrar essa irracionalidade por meio de discursos e de textos sem grande divulgação. É preciso chamar a atenção de alguma forma, por meio do conflito, da ocupação de territórios, como faz o MST.
Como se desenvolveram suas relações com o MST?
Esta é a sexta vez que venho ao Brasil. A primeira foi em 1982. Voltei para os dois Fóruns Sociais em Porto Alegre e para outros encontros. Numa dessas viagens conheci João Pedro Stédile e unimos nossas idéias sobre a inexistência das burguesias nacionais. Ele me convidou para visitar a escola nacional do MST e, desta vez, para um debate sobre o futuro da luta de classes na América Latina. Sempre que há um problema com o capitalismo, as pessoas dizem que surgiu uma crise, que o império americano chegou ao fim. São afirmações estúpidas. As pessoas não entendem que a volatilidade financeira é enorme neste sistema financeiro global e os Estados são muito ativos na contenção das crises.
O senhor defende a tese do novo imperialismo. Que papel o Brasil pode desempenhar nesse novo cenário mundial?
O novo imperialismo existe desde 1945. Desde então, as relações de produção e troca ocorrem entre os Estados capitalistas e não mais entre metrópoles e colônias. Muitos desses Estados estão sob o guarda-chuva do império americano. Tendemos a pensar o imperialismo como uma relação de dependência, em que os países ricos extraem riquezas dos países que dominam. Mas não é assim. Os impérios geralmente fazem mais investimentos do que subtraem bens dos países que dominam. Sempre foi assim. Essa noção de que se está "roubando o ouro" da América Latina não é verdadeira. Há um enorme investimento no Brasil que inclui o país no sistema capitalista internacional. No novo imperialismo, o império americano está engajado no que chamo de "dominação política estendida", isto é, na tarefa de cooptar os Estados para que cumpram o papel de proteger a propriedade privada, de assegurar que os contratos sejam cumpridos, de criar um sistema jurídico no qual processos possam tramitar dentro da lei, e que também articulem um sistema educacional que permita a reprodução do capitalismo. Os Estados Unidos governam através de outros Estados e, com o apoio do Banco Mundial e do FMI, buscam construir um Estado que integre todo o capitalismo mundial.
SENADOR ASSINA ACORDO APÓS DENÚNCIA DE TRABALHO DEGRADANTE
Grupo declara ter trabalhado em condição degradante na Fazenda Santa Amália, do senador Jayme Campos (DEM-MT). Como não houve flagrante, foi firmado acordo inibitório. Parlamentar refuta acusação e diz que é perseguido
REPÓRTER BRASIL
Por Maurício Hashizume
17/06/2008
Uma denúncia de cerca de 15 trabalhadores que alegam ter sido submetidos a trabalho degradante na Fazenda Santa Amália, em Alta Floresta (MT), pertencente ao senador Jayme Campos (DEM-MT), resultou na assinatura de um acordo entre o parlamentar e o Ministério Público do Trabalho (MPT).
O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado na última terça-feira (11) exige que o senador cumpra uma lista de 30 exigências. Fazem parte delas o registro de empregados rurais na Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) em 48 horas - sem se valer da dispensa para trabalhos temporários de até dois meses, prevista na Medida Provisória (MP) 410/2007 - e de não alojar trabalhadores em barracos de lona, de fornecer gratuito de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e transporte adequado.
Integrante da bancada ruralista, o senador Jayme Campos, por meio de seu advogado, também se comprometeu a conceder o repouso semanal remunerado, de garantir o fornecimento de água potável e de efetuar o pagamento integral do salário até o quinto dia útil do mês subseqüente. O TAC, que tem vigência por tempo indeterminado e vale para outras propriedades pertencentes ao congressista, estabelece uma multa de R$ 20 mil, por mês, para cada item descumprido.
"Não se trata de uma situação típica porque não houve fiscalização na fazenda do senador. Os relatos das pessoas desse grupo que fez a denúncia eram parecidos: disseram que trabalhavam em situação degradante e foram mandados embora", relata o procurador Rafael Araújo Gomes. "Se não houvesse acordo, sustentaria ação civil pública, com base apenas nos testemunhos dos trabalhadores".
De acordo com Rafael, há uma hipótese de que os trabalhadores tenham sido dispensados depois da fiscalização na Fazenda Lago Azul, muito próxima à propriedade do senador Jayme Campos, em que comitiva do MPT, do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Polícia Militar flagrou oito trabalhadores em condições degradantes e o uso de agrotóxicos proibidos no Brasil, no inicio do mês passado.
"Por ora, cabe apenas a fiscalização do cumprimento do TAC", declara Rafael. O procurador lembra que já houve celebrações de acordos "inibitórios" desse mesmo tipo, como no caso da Fazenda Shalom, também de Alta Floresta, pertecente a Luis Olavo dos Santos. "Constatou-se depois que o TAC estava sendo descumprido. Foram instauradas ações e houve execuções".
Decisão do Tribunal Regional do Trabalho do Mato Grosso (TRT-MT) publicada na ultima terça-feira (10) condenou o dono da Fazenda Shalom a pagar R$ 100 mil de indenização por dano moral coletivo por manter trabalhadores em situação degradante. Ao julgar o recurso que o proprietário apresentara para tentar uma outra decisão em primeira instância que estabelecia o pagamento de R$ 50 mil, o juiz Paulo Brescovici decidiu dobrar o valor da indenização.
"Diaristas"
Em conversa por telefone com a Repórter Brasil, o senador Jayme Campos negou que tenha mantido trabalhadores em tais condições precárias na Fazenda Santa Amália. Ele especula que a denúncia tenha sido orquestrada por três pessoas que foram contratadas como "diaristas" por um período que não chegou a 30 dias de trabalho. Depois de encerrada a empreitada, sustenta o senador, o trio teria pedido uma "gratificação" ao gerente da fazenda. Ainda segundo Jayme Campos, eles teriam ameaçado denunciar a propriedade como forma de chantagem para tentar receber a verba extra, que foi negada.
Ele conta que as condições de trabalho em suas quatro fazendas espalhadas pelo estado são plenamente regulares e submetidas a auditorias. Ele conta que os trabalhadores regulares têm carteira assinada e vivem em casas de alvenaria. "Só não tem ar condicionado", ironiza. "Paga todo segundo dia útil do mês. Eu seria tolo se não fizesse tudo certinho. Não registrar hoje pode sair bem mais caro do que registrar".
O senador atribui a denuncia a perseguição política pelo fato de ser um senador da oposição e ressalta que nenhum processo chegou a ser instaurado. "Assinei o TAC porque não tenho nada a temer e porque prefiro dar transparência", declara. Com o acordo, o fazendeiro não poderá mais passar mais de 20 dias, como admite ter feito com os três "diaristas" que labutaram na Fazenda Santa Amália, sem assinar carteira.
Sobre a multa do Ibama de R$ 6 milhões por desmatamento de áreas de proteção permanente (APPs) e não apresentação de licenciamento ambiental na mesma Fazenda Santa Amália, o senador afirma que já apresentou a sua defesa no âmbito do processo administrativo e que quer que a questão seja julgada logo. "Não há nenhum problema nas minhas propriedades. A última vez que cortei árvores foi há muito tempo".
Jayme Campos preside uma comissão externa do Senado que pretende analisar o "risco ambiental" nos 36 municípios - 19 deles do Mato Grosso - que foram escolhidos pelo governo federal como prioritários para o combate do desmatamento da Amazônia. Na audiência da comissão realizada em Alta Floresta em maio, o senador defendeu o fim da Operação Arco de Fogo, que reprimiu o comércio de madeira ilegal, e acusou o governo federal de utilizar dados falsos para alardear a aceleração do desflorestamento.
De acordo com ele, o episodio da assinatura do TAC não terá reflexos na intensificação dos trabalhos da comissão."Não confundo questão pessoal com questão política. Vou continuar defendendo as suas causas. Política para a Amazônia não pode ser apenas de repressão, de polícia. Precisamos resolver primeiro, por exemplo, o passivo da regularização fundiária".
EUA ACUSAM BRASIL DE EXPLORAR TRABALHO ESCRAVO.
Relatório do Departamento de Estado diz que o País fez 'modestos esforços' para enquadrar crimes de tráfico humano e exploração sexual
Gabriel Manzano Filho e Odail Figueiredo
Projeto de Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil 06/06/2008
O Brasil foi ontem definido, em um relatório oficial do governo norte-americano, como "uma fonte de tráfico de mulheres e crianças, dentro do país e internacionalmente, com propósitos de exploração sexual, e também fonte de tráfico de homens para o trabalho forçado". A análise dos abusos praticados contra trabalhadores no País espalha-se por três páginas do "Trafficking in Persons Report" (Relatório sobre Tráfico de Pessoas), divulgado pelo Departamento de Estado, em Washington.
Ao anunciar o documento - que tem 84 páginas e analisa a exploração de trabalhadores em 170 países - a secretária de Estado, Condoleezza Rice, advertiu que "embora mais países estejam combatendo a exploração do trabalho sexual, os ousados tiranos que exploram suas vítimas raramente recebem punição séria". E acrescentou: "Vemos isso como uma grave deficiência." Em uma de suas conclusões, o relatório afirma que o rápido crescimento de países como Brasil, Índia e China vem sendo conseguido à custa da exploração desses trabalhadores - que, no caso brasileiro, seriam utilizados em usinas de produção do etanol.
O estudo americano põe no banco dos réus, em termos mais rigorosos,, países como Tailândia, Bangladesh, Índia, China e Malásia. No conjunto, o Brasil ficou em um grau intermediário entre os casos mais leves e os mais graves.
O governo brasileiro "não preenche os padrões mínimos para a eliminação do tráfico", diz o capítulo do relatório relativo ao País. "No entanto, tem feito esforços nessa direção." Eles partem de 931 centros de assistência, que cobrem 1.107 cidades. A investigação de abuso sexual contra crianças "localizou e atendeu a 23.368 casos em 2007". Mas o governo admite que há cerca de 250 mil crianças exploradas na prostituição.
Eu um dos trechos mais contundentes, o estudo revela: "Aproximadamente metade das vítimas libertadas em 2007 foram localizadas em canaviais que contribuem para o explosivo crescimento de produção e exportação de etanol, um biocombustível, marcando um crescente fenômeno de tráfico". E arremata informando que "em uma única operação, no Pará, fiscais encontraram 1.108 trabalhadores escravos em uma dessas fazendas de cana". O estudo cobra o governo brasileiro por não informar, oficialmente, nenhum caso de investigação e prisão de responsáveis por tais tipos de crimes, embora estejam em andamento 751 processos e 890 outros estejam aguardando julgamento.
A assessoria de imprensa do Itamaraty informou que o governo brasileiro tem apurado todas as denúncias sobre trabalho escravo e violação de direitos humanos que chegam a seu conhecimento. Os dados do Ministério do Trabalho, diz a assessoria, mostram que aumentou significativamente o número de trabalhadores resgatados de situações de trabalho análogas à escravidão.
CRIANÇAS SÃO ENCONTRADAS LIMPANDO FEZES EM MATADOURO.
Leonardo Sakamoto
04/06/2008
Uma fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego encontrou mais de 25 crianças e adolescentes em situação extremamente degradante trabalhando em matadouros públicos nos municípios de Nova Cruz, João Câmara e São Paulo do Potengi, no Rio Grande do Norte. As operações foram motivadas por denúncias e ocorreram entre os meses de março e maio. A última dela acabou sábado, 31 de maio de 2008.
Frente pela "PEC do Trabalho Escravo" realiza atos no Congresso nos dias 03 e 04 de junho
30/05/2008
Com a entrada da Proposta de Emenda Constitucional 438, a chamada "PEC do Trabalho Escravo", na pauta de votação da Câmara dos Deputados, as dezenas entidades da sociedade civil, sindicatos e parlamentares que defendem a medida intensificaram o movimento para garantir sua aprovação.
A PEC, que poderá ser votada a qualquer momento, prevê o confisco de terras onde sejam encontrados trabalhadores em situação análoga à de escravo e está sendo chamada de "a Segunda Abolição". Se aprovada, vai aumentar os riscos para aqueles que insistem em manter trabalhadores nesta situação e será um importante instrumento para inibir a prática que, 120 anos após a Lei Áurea, ainda persiste no Brasil.
Quase 30 entidades, incluindo sete centrais sindicais, vão realizar no mês de junho uma série de atividades para sensibilizar os deputados federais indecisos sobre a importância de aprovação da PEC.
No dia 4 de junho, acontecerá na Câmara dos Deputados um ato de criação da Frente Nacional Contra o Trabalho Escravo e pela Aprovação da PEC 438. Além de todas as entidades que já faziam parte do movimento de apoio à Proposta, a Frente será formada pelas centrais sindicais que se juntaram à causa, além de deputados federais e senadores.
Já a partir da terça-feira (3), cerca de 150 representantes das entidades que compõem a Frente vão iniciar o corpo-a-corpo com os parlamentares. O objetivo é mostrar como a medida trará benefícios tanto para os trabalhadores quanto para os produtores rurais que cumprem as leis e enfrentam a concorrência desleal dos escravagistas contemporâneos. A PEC 438 já foi aprovada em dois turnos no Senado e em primeiro turno na Câmara, onde está parada desde 2004 por pressão da bancada ruralista, o principal foco de resistência à medida.
Embora manter trabalhadores em situação análoga à de escravo seja crime previsto no Código Penal, há poucos empregadores que foram condenados e presos por isso. O balanço do Grupo Móvel de Fiscalização do governo federal mostra que o número de casos tem sido cada vez maior. Desde a criação do Grupo Móvel em 1995, já foram libertados mais de 30 mil trabalhadores.
As entidades que fazem parte da Frente Nacional e o seu abaixo-assinado podem ser acessados em www.reporterbrasil.org.br/pec
Mais informações com:
Informações para a imprensa com Severino Goes (61-2106-4634), Leonardo Sakamoto (11-9713-9700), Rita Soares (61-8409-2055). Marcela Gomes (61) 99613360 , Viviane Dias (61) 33220266
SAIBA MAIS SOBRE A "PEC DO TRABALHO ESCRAVO"
O que é
A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) número 438 foi apresentada em 1999 pelo ex-senador Ademir Andrade (PSB-PA), sob o número 57/1999. Ela propõe nova redação ao Art. 243 da Constituição Federal, que trata do confisco de propriedades em que forem encontradas lavouras de plantas psicotrópicas ilegais, como a maconha. A nova proposta estende a expropriação - sem direito à indenização - também para casos de exploração de mão-de-obra análoga à escravidão. A PEC 438/2001 define ainda que as propriedades confiscadas serão destinadas ao assentamento de famílias como parte do programa de reforma agrária.
A "PEC do Trabalho Escravo" é considerada pelos órgãos governamentais e entidades da sociedade civil que atuam nas áreas trabalhista e de direitos humanos como um dos projetos mais importantes de combate à escravidão, não apenas pelo forte instrumento de repressão que pode criar, mas também pelo seu simbolismo, pois revigora a importância da função social da terra, já prevista na Constituição.
Trâmite
No Senado Federal, a PEC tramitou durante dois anos e foi aprovada em 2001. Na Câmara, permanece parada desde 2004. No mês de agosto daquele ano, a matéria foi aprovada em primeiro turno no Plenário da Casa - com 326 votos favoráveis (18 a mais que o necessário: emendas constitucionais exigem a anuência de 3/5 do total de 513 deputados federais), dez contrários e oito abstenções. Desde então, permanece à espera da votação em segundo turno.
O avanço da proposta em 2004 foi impulsionado pelas pressões geradas após o assassinato de três auditores fiscais e um motorista do Ministério do Trabalho e Emprego, em Unaí (MG), durante uma emboscada em janeiro do mesmo ano.
Devido a mudanças propostas por membros da bancada ruralista (para inserir os imóveis urbanos na expropriação), a PEC 438/2001 terá que retornar ao Senado depois de aprovada na Câmara.
Caso Pagrisa
No final de julho de 2007, o grupo móvel de fiscalização flagrou 1.064 pessoas submetidas à escravidão na fazenda e usina de cana-de-açúcar Pagrisa, localizada em Ulianópolis (PA). A operação mobilizou alguns integrantes do Senado, que passaram a atacar a equipe do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e formaram uma comissão externa para averiguar o caso, sob a justificativa de que os fiscais cometeram abusos. A refrega ganhou maiores dimensões quando o MTE decidiu suspender as ações de fiscalização por falta de segurança institucional.
Com a divulgação pública do relatório da Pagrisa pelo ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, as imagens e relatos da operação foram reproduzidos pela mídia. Organizações da sociedade civil, juristas e parlamentares saíram em defesa da fiscalização e repudiarem o posicionamento do grupo de senadores, que chegaram a ouvir alguns dos envolvidos no caso, mas não deram prosseguimento à tentativa de deslegitimar os fiscais do governo federal. O episódio acabou fortalecendo o trabalho do grupo móvel e reavivou a necessidade de aprovação de leis mais duras contra quem pratica esse tipo de crime.
Em setembro de 2007, parlamentares, representantes de instituições engajadas no combate ao trabalho escravo e o ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi discutiram a retomada da mobilização pela aprovação da PEC 438/2001. Em janeiro deste ano, entidades da sociedade civil e parlamentares criaram o Movimento Nacional pela Aprovação da PEC do Trabalho Escravo.
Linha do tempo da PEC do Trabalho Escravo
11/10/1995
Apresentação da PEC 232/1995 na Câmara dos Deputados pelo deputado Paulo Rocha (PT-PA), com o mesmo conteúdo da futura PEC 438/2001.
11/03/1999
Apresentação da PEC 57/1999 pelo senador Ademir Andrade (PSB-PA) no Senado Federal.
31/10/2001
Aprovação em segundo turno pelo Senado da PEC 57/1999: 55 votos a favor e nenhum contra. Proposta remetida à Câmara dos Deputados sob o número PEC 438/2001.
06/11/2001
Como as propostas de Ademir Andrade e Paulo Rocha se equivalem e a PEC 57/1999 já havia sido aprovada no Senado, a proposta de Paulo Rocha (PEC-232/1995) é apensada à PEC 438/2001.
21/11/2003
Parecer favorável do deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
28/01/2004
Crime de Unaí, em que três auditores fiscais e um motorista do Ministério do Trabalho e Emprego foram assassinados durante uma emboscada de fazendeiros locais, faz reascender o esforço para a aprovação da PEC do Trabalho Escravo.
03/03/2004
Câmara dos Deputados instala Comissão Especial para Trabalho Escravo, que vai analisar a PEC 438/01. A ação surgiu de um Ato da Presidência da Casa, de março do mesmo ano, que solicitou que fosse emitido um parecer sobre a PEC em até 40 sessões.
27/04/2004
O relator designado pela Comissão Especial para Trabalho Escravo, deputado Tarcísio Zimmermann (PT-RS), entrega o parecer pela aprovação da PEC 438.
12/05/2004
Comissão Especial aprova por unanimidade PEC 438.
26/05/2004
No Plenário da Câmara, se inicia a discussão para a votação em primeiro turno.
11/08/2004
Aprovação em primeiro turno no Plenário da Câmara: Sim: 326; Não: 10; Abstenções: 8; Total: 345.
01/03/2007
A Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado cria a Subcomissão Temporária do Trabalho Escravo.
30/06/2007
Libertação de 1.064 pessoas da fazenda e usina Pagrisa, localizada em Ulianópolis (PA), provocou um movimento de senadores que atacou a fiscalização e defendeu a empresa. No entanto, o caso acabou por fortalecer o grupo móvel de fiscalização, responsável por apurar denúncias de trabalho escravo. Como uma das repercussões do caso Pagrisa, governo, parlamentares e entidades sociais intensificaram os esforços para aprovar a PEC 438/01.
22/01/2008
Criação do Movimento Nacional pela Aprovação da PEC do Trabalho Escravo, reunindo entidades da sociedade civil e parlamentares.
Projeto de Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil
JUIZ ANUNCIA "PACOTE" DE DECISÕES SOBRE CASOS DE ESCRAVIDÃO
Depois de anos parados, dezenas de processos de crime de trabalho escravo devem ser julgados nos próximos meses. Juiz federal de Marabá (PA) destaca trabalho do grupo móvel e decisão do STF sobre competência de tribunais
REPÓRTER BRASIL
Por Maurício Hashizume
20/05/2008
A condenação do fazendeiro Gilberto Andrade, dono de três propriedades onde houve flagrante de trabalho escravo e também acusado de ter torturado um trabalhador com ferro quente em fevereiro deste ano, a 14 anos de prisão pela Justiça Federal no Maranhão não foi um ato isolado do Judiciário. Enquanto recorria em liberdade, Gilberto Andrade foi preso no início deste mês e encaminhado à Penitenciária de Pedrinhas em cumprimento aos três pedidos acolhidos de prisão preventiva de autoria do Ministério Público Federal (MPF) com base na alegação de que se trata de um reincidente no crime.
Em sentença publicada no Diário Oficial do Estado do Pará no dia 28 de abril, o juiz Carlos Henrique Borlido Haddad, da Vara Federal de Marabá, condenou outro fazendeiro, Francisco Alves do Nascimento, pelo Art. 149 do Código Penal - ou seja, redução à condição análoga à de escravo. O magistrado fixou a pena de Francisco em cinco anos de reclusão no regime semi-aberto. Ele foi flagrado explorando o suor de sete trabalhadores na Fazenda Cajueiro, no município de Itupiranga (PA), e se recusou a pagar os direitos trabalhistas e as verbas rescisórias mesmo depois de ter sido autuado pelo grupo móvel de fiscalização, em novembro do ano passado.
Uma semana depois da fiscalização, Jonas Gomes do Nascimento e Josiel Gomes do Nascimento, filhos de Francisco Alves, ameaçaram, portando arma de fogo, um dos trabalhadores que testemunhou contra o dono da propriedade no inquérito policial de exploração de mão-de-obra escrava. "Jonas Gomes do Nascimento e Josiel Gomes do Nascimento demonstraram culpabilidade acentuada, uma vez que o crime foi praticado para tentar inibir a apuração de outro delito, de gravidade considerável. Os réus são primários, mas há registros de antecedentes desabonadores, pois ambos respondem por duas tentativas de homicídio. Além disso, o acusado Jonas figura como réu em dois outros processos (...)", coloca o juiz Carlos Henrique, que decretou a reclusão (em regime fechado) por três anos dos dois filhos de Francisco.
O magistrado ainda completa: "Há informação depreciativa sobre a conduta social deles [Jonas e Josiel], porquanto se envolvem em brigas e têm fama de violentos. Nenhum dos dois exerce atividade remunerada e dependem economicamente do genitor. Os motivos do delito baseiam-se, em última instância, na tentativa de manter a renda familiar ao menor custo e para isentar o genitor de responsabilidade criminal". A dupla permanece presa.
Em entrevista à Repórter Brasil, o juiz da Vara Federal de Marabá relata que o caso de Francisco, Jonas e Josiel foi julgado com rapidez porque dois dos réus no processo estavam detidos. Ele conta ainda que outras dezenas de processos acerca de crimes de trabalho escravo estão sob sua alçada. Atualmente, o magistrado ouve testemunhas, recolhe provas e confere dados para a produção de derradeiros relatórios. Nos próximos meses, conta Carlos Henrique, dezenas de decisões referentes a esses casos devem ser concluídas. "Muitos processos estão chegando à sua fase final", adianta.
De acordo com a assessoria de imprensa do Ministério Público Federal do Pará, 31 pessoas foram denunciadas em 18 processos criminais pelo crime de trabalho escravo no estado. Em 2007, 103 indivíduos foram denunciados pelo mesmo crime. Pelo menos 34 desses processos tramitam na Vara Federal de Marabá, onde trabalha Carlos Henrique, que concentra os casos ocorridos em 36 municípios do Sul e Sudeste do Pará.
O juiz não titubeia em apontar os dois fatores determinantes para a aceleração dos processos sobre exploração de mão-de-obra escrava. "Tudo decorre da ênfase dada às fiscalizações pelo Ministério do Trabalho e Emprego nos últimos anos. O trabalho do grupo móvel, traduzido nas ações dos procuradores do Ministério Público do Trabalho [que também participam das operações], gerou mais processos na Justiça", coloca o magistrado da Justiça Federal em Marabá. "A fiscalização mais intensa possibilita que haja mais decisões e punições em casos de trabalho escravo".
Outro fator fundamental para destravar os processos, segundo o magistrado, foi a definição de um imbróglio jurídico. "Como o STF [Supremo Tribunal Federal] definiu a competência da Justiça Federal para julgar casos de trabalho escravo, não há mais impedimentos e muitas decisões devem ser tomadas nos próximos meses. Antes disso, os processos estavam paralisados".
O próprio Carlos Henrique havia condenado outro fazendeiro por crime de trabalho escravo em outubro de 2006. Trata-se de Aldimir Lima Nunes, mais conhecido como "Branquinho", acusado de manter seis pessoas em condições análogas à escravidão em 2003, na Fazenda Lagoa das Vacas, situada no município de Altamira (PA). Em 16 de outubro de 2006, foi publicada a sentença que estabelece uma pena de nove anos (5 anos de reclusão, 4 anos de detenção) em regime semi-aberto "Os motivos dos crimes baseiam-se na tentativa de auferir renda ao menor custo", sacramenta o juiz na decisão.
Acusado de diversos crimes - além de trabalho escravo, grilagem de terra, descumprimento da legislação ambiental, ameaças a agentes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Ananás, porte ilegal de arma e até acusação de homicídio (este último corre na Justiça do Tocantins) -, Branquinho chegou a ficar encarcerado por dois períodos. Da primeira vez em que foi preso (em setembro de 2003), fugiu dois meses depois pela porta da frente do Centro de Recuperação Metropolitano da Superintendência do Sistema Penal do Estado do Pará. Permaneceu na condição de foragido até janeiro de 2004, quando foi recapturado no Ceará. Logo em seguida, porém, a prisão preventiva de Branquinho foi revogada pelo juiz federal substituto de Marabá (PA), Francisco de Assis Garces Castro Júnior, autor de outros despachos pró-fazendeiros.
O Ministério Público conseguiu que novos pedidos de prisão preventiva fossem concedidos - que estavam valendo quando houve o julgamento em outubro de 2006 -, mas um habeas corpus concedido pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) vem garantindo até hoje a liberdade de Branquinho.
No julgamento realizado em junho de 2007, o relator do pedido, ministro Félix Fischer, ressaltou que a sentença condenatória [do juiz Carlos Henrique] determinou o "regime semi-aberto como o inicial de cumprimento da pena" e que, portanto, o réu deverá "aguardar o julgamento do recurso de apelação em liberdade, se por outro motivo não estiver preso". Desde então, não há registro de novos pedidos de prisão preventiva por parte do Ministério Público, conforme consulta feita pela Repórter Brasil junto à assessoria da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) do MPF.
O processo no qual Branquinho já foi condenado em primeira instância por trabalho escravo está desde maio de 2007 sob responsabilidade do desembargador Hilton Queiroz, no Tribunal Federal Regional (TRF) da 1ª Região. Segundo a assessoria do Tribunal, o processo permanece normalmente à espera de uma decisão, em meio aos outras demandas.
FAZENDEIRO CONDENADO A 14 ANOS DE PRISÃO POR TRABALHO ESCRAVO
Fazendeiro que marcou trabalhador a ferro é condenado por escravidão.
Gilberto Andrade, proprietário de terras entre no Pará e Maranhão, foi condenado a 14 anos de prisão. Apesar do recurso contra a sentença, ele está na cadeia por causa de três pedidos de prisão preventiva contra ele, por outros casos de trabalho escravo
Por Repórter Brasil* 19/05/2008
O fazendeiro Gilberto Andrade foi condenado pela Justiça Federal no Maranhão a 14 anos de prisão pelos crimes de trabalho escravo, ocultação de cadáver e aliciamento de trabalhadores. De acordo com o Ministério Público Federal, responsável pela ação, a condenação se deve a uma libertação de 19 escravos ocorrida numa de suas propriedades. A decisão saiu no final de abril.
Enquanto recorria da sentença em liberdade, ele foi preso no início de maio e encaminhado à Penitenciária de Pedrinhas por causa de três pedidos de prisão preventiva solicitados pelo MPF. O que motivou os pedidos foram as reincidências no crime. Ou seja, há mais processos tramitando que podem levar a novas condenações. Não foi o primeiro pedido de prisão preventiva contra Gilberto Andrade, mas nenhuma delas veio depois de uma condenação.
A condenação de Gilberto Andrade pela Justiça Federal é resultado da definição da competência federal para julgamento dos crimes de trabalho escravo. Um recurso extraordinário votado em novembro de 2006 pelo Supremo Tribunal Federal - sobre denúncia envolvendo um fazendeiro paraense - abriu importante precedente em uma antiga pendência sobre qual seria a instância competente em relação ao tema: o judiciário Federal ou Estadual. Desde então, os juízes federais têm se sentido mais seguros para julgar esses casos, sem receio de que os processos serão encaminhados à esfera estadual a pedido de advogados interessados em arrastar o caso de seus clientes até a prescrição.
A libertação que originou a condenação de Gilberto Andrade é apenas uma das muitas operações já realizadas pelo grupo móvel de fiscalização, formado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Ministério Público do Trabalho (MPT) e Polícia Federal (PF), em suas fazendas Boa Fé Caru, Bonsucesso e Baixa Verde.
De acordo com levantamento da Repórter Brasil, Gilberto Andrade já foi visitado pelo grupo móvel por denúncias de trabalho escravo em maio de 1998, setembro de 1999, novembro de 2004, maio de 2005 e fevereiro de 2008.
Nessa última vez, o caso envolvendo o fazendeiro ganhou projeção internacional pelo fato de ele ter sido acusado de torturar um trabalhador com ferro quente de marcar gado a fim de puni-lo por reclamações relacionadas à qualidade da comida e à falta de salários. Ainda nessa ação que libertou 23 pessoas, ele tentou driblar a fiscalização induzindo os trabalhadores a assinar contratos fraudulentos, aproveitando os dispositivo da já aprovada MP 410/2007 que permite a contratação de trabalhos rurais de até dois meses de duração sem necessidade de carteira assinada.
Ainda segundo denúncia do Ministério Público Federal do Maranhão, foram localizados cadáveres enterrados nas fazendas do réu, que teria conhecimento do fato. Devido à dificuldade de identificação das ossadas, os crimes ainda estão sendo investigados.
Gilberto Andrade foi condenado a 11 anos de reclusão, sendo oito anos pelo crime de redução à condição análoga à de escravo (artigo 149), e três anos pelo crime de ocultação de cadáver (artigo 211), mais três anos de detenção por aliciamento de trabalhadores (artigo 207). Além da multa de 7,2 mil salários-mínimos, no valor vigente à época dos crimes. De acordo com a sentença, não será possível a suspensão da execução das penas, bem como a substituição das penas privativas de liberdade por outras como doação de cestas básicas e serviços à comunidade.
Isso ocorreu, por exemplo, com o primeiro condenado por trabalho escravo no Brasil, Antônio Barbosa de Melo, proprietário das fazendas Araguari e Alvorada, em Água Azul do Norte, Sul do Pará. Sua condenação, em 1999, foi revertida em doação de cestas básicas. Vale salientar que este fazendeiro, já falecido, também foi reincidente no crime de trabalho escravo.
Lista suja
Gilberto Andrade está na "lista suja", cadastro do governo federal que relaciona os empregadores que comprovadamente utilizaram trabalho escravo. Com isso, ele perde acesso a créditos de instituições públicas e de alguns bancos privados e clientes ligados ao Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. Entre os frigoríficos que já compraram sua produção em anos passados está o Mãe do Rio, hoje nas mãos do Margen. Este grupo tornou-se signatário do Pacto Nacional este ano, comprometendo-se a adotar uma política de restrição comercial a quem se utiliza desse tipo de exploração.
*Com informações do Ministério Público Federal do Maranhão.
FAZENDEIROS NO PARANÁ TENTAM INTIMIDAR BISPO POR APOIO A TRABALHADORES SEM TERRA.
Comissão Pastoral da Terra – Nota Pública
16/05/2008
A Coordenação Nacional da Comissão Pastoral da Terra preocupada com o clima de tensão social que se registra, sobretudo, na região de Cascavel, no Paraná, vem manifestar sua apreensão diante da violência que ocorre na região e seu apoio e solidariedade a Dom Mauro Aparecido dos Santos, arcebispo metropolitano de Cascavel, que tem se manifestado em apoio às organizações do sem terra na região.
Hoje à tarde, 16 de maio, os ruralistas programaram uma carreata que, segundo informações recebidas, vai se encerrar diante da Catedral metropolitana, numa clara expressão de pressão contra o arcebispo. Este ato é uma culminância de uma série de ações violentas que se registraram nos últimos dias contra os sem terra e os que os apóiam. A região de Cascavel já é conhecida pela violência contra camponeses praticada por milícias privadas. Certas da impunidade, as ações têm se tornado mais ousadas e planejadas, inclusive com o uso de instrumentos mais sofisticados.
No dia 14 de março, o Reverendo Luiz Carlos Gabas, da Igreja Anglicana, pároco da Paróquia da Ascensão, Jardim Alvorada, em Cascavel, por ter manifestado seu apoio à luta dos sem terra, teve seu carro abordado por dois carros, numa demonstração de intimidação. O reverendo também tem recebido telefonemas estranhos em que a pessoa que chama permanece muda do outro lado da linha.
Na madrugada de 8 de maio, o acampamento Primeiros Passos, do Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST), com mais de 150 famílias, localizado na BR 369, entre os municípios de Cascavel e Corbélia, foi atacado por uma milícia privada. Homens fortemente armados invadiram o acampamento com tratores, retro-escavadeiras e um caminhão com uma grade de ferro, conhecida como quebra-mato, e com a carroceria blindada de onde os pistoleiros efetuavam os disparos, uma espécie de “caveirão” - o caveirão do agronegócio. Toda a plantação e as estruturas do acampamento, inclusive uma escola e uma igreja, que o reverendo Luiz Carlos construíra, foram destruídas. Dez pistoleiros foram presos em flagrante. Entre os presos estava Luciano Gomes Resende, um dos seguranças da empresa NF, presente na Estação Experimental da Syngenta, em outubro de 2007, quando foi assassinado Valmir Mota de Oliveira, o Keno. Num ato que soa como afronta, mais de 20 fazendeiros foram à Delegacia pressionar a polícia contra a prisão dos pistoleiros.
Ontem, uma semana depois, os pistoleiros já foram libertados. Lideranças do acampamento receberam informações, de fontes seguras, de que haveria pessoas infiltradas no acampamento com a missão de matar Joaquim Ribeiro da Silva, do MLST e Celso, do MST. Ontem mesmo, ao final da tarde, uma moto parou em frente à casa de Joaquim que estava fechada e o motoqueiro perguntou aos vizinhos sobre ele e seus hábitos, a que horas chegava, quando saia, etc. Hoje pela manhã, um carro suspeito também passou lentamente na frente da casa de Joaquim observando o movimento do acampamento. Segundo alguns acampados, o carro seria o mesmo utilizado para intimidar o reverendo anglicano.
A carreata de hoje tem o objetivo de mostrar a força dos ruralistas.
A Coordenação Nacional faz suas as palavras de Dom Mauro, ao se confrontar com a violência e a destruição que as milícias provocaram: “Não podemos deixar que esse fato de desrespeito à pessoa humana e às leis seja esquecido. Não podemos permitir que o Paraná se torne uma terra onde o que vale é a lei da bala e funcionários de empresa de segurança escondem a cara dos verdadeiros mandantes”.
A Coordenação Nacional da CPT
Maiores informações:
Dirceu Fumagalli – coordenação nacional da CPT – (62) 9977-7279
Ismael Costa – da coordenação nacional do MLST – (34) 9935-0209
Assessoria de Comunicação
Comissão Pastoral da Terra
Secretaria Nacional - Goiânia, Goiás.
Fone: 62 4008-6406/6412/6400 www.cptnacional.org.br
CASO DOROTHY STANG: A CONSTRUÇÃO DA IMPUNIDADE
08/05/2008
Justiça Global
Terra de Direitos
Centro Luiz Freire
Campanha Reaja
Associação de Familiares e Amigos de Presos e Presas da Bahia
Coletivo de Entidades Negras (CEN)
A decisão do Júri Popular, realizado em Belém do Pará nos últimos dias 5
e 6 de maio, que absolveu Vitalmiro Bastos de Moura (Bida) - um dos
acusados do assassinato da Irmã Dorothy Stang em 12 de fevereiro de 2005
- evidencia mais uma vez a impunidade garantida aos mandantes de crimes
contra trabalhadores rurais e defensores de direitos humanos no Pará.
Segundo a Comissão Pastoral da Terra, nos últimos 36 anos 800
trabalhadores rurais foram assassinados no Pará e Bida era, até ontem, oúnico mandante preso.
A demora em processar os responsáveis pelo assassinato de Dorothy foi
decisiva no processo de construção da impunidade, abrindo a
possibilidade dos mandantes cooptarem os pistoleiros e o intermediário
do crime. Essa estratégia dos mandantes fica evidente na constante
mudança de depoimentos dos réus. Rayfran das Neves, réu confesso, mudou
seu depoimento 14 vezes. Amair Feijóli da Cunha (Tato), condenado como
intermediário do crime, também mudou seu depoimento em relação ao
primeiro júri, alegando a própria inocência e a de Bida. No entanto,
Vitalmiro Bastos de Moura responde ainda à Justiça Federal por crimes
ambientais e por manutenção de trabalhadores rurais em condições
análogas às de escravos.
O resultado do Tribunal do Júri demonstra também a importância de que
casos emblemáticos de violações de direitos humanos sejam federalizados,
isto é, que tanto a a apuração como o processamento do caso sejam
realizados pela Polícia Federal e Justiça Federal, respectivamente, de
modo a impedir que autoridades judiciárias e juri fiquem suscetíveis às
pressões dos grupos poderosos locais. Vale lembrar que o pedido de
federalização do caso Dorothy Stang foi negado pelo Superior Tribunal
de Justiça (STJ).
As constantes mudanças de depoimentos e a forma como a defesa dos
acusados foi estruturada, reforçam a urgência em se realizar uma
investigação rigorosa sobre a existência de consórcio entre fazendeiros,em uma estratégia que vem garantindo ao longo de décadas vantagens
financeiras para intermediários, pistoleiros, facilitação de fugas e a
absolvição de andantes. Exemplo emblemático dessa situação é o caso do
assassinato do Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de
Rondon do Pará, José Dutra da Costa (Dezinho) em 2000. Até o momento,
apesar de muitas evidencias, dois acusados de serem os mandantes foram
impronunciados pelo crime e o pistoleiro está foragido depois de ter
fugido do presídio no início desse ano.
A Justiça Global, Terra de Direitos, Centro Luiz Freire, Campanha Reaja,
a Associação de Familiares de Presos e Presas da Bahia e o Coletivo de
Entidades Negras (CEN), organizações que integram o Comitê Brasileiro
de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos, rechaçam veementemente
os ataques feitos pela defesa dos réus à imagem da irmã Dorothy Stang de
forma a desqualificá-la, e aos trabalhadores rurais, associando-os a
bando em uma evididente tentativa de criminalização.
A impunidade garantida ao fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura gera
ainda um clima de insegurança para os defensores de direitos humanos que
se encontram ameaçados de morte no Pará, a exemplo de D. Erwin Krautler,
Frei Henri des Rozieres, Maria Joel Dias da Costa, José Soares de Brito,
Ivete Bastos, entre tantos outros. Também é urgente que se investiguem
as ameaças anônimas recebidas, via telefone, pelo Promotor Público,
Edson Souza, responsável pela acusação dos réus.
O Ministério Público, dentro de suas atribuições legais, deve recorrer
imediatamente da decisão de absolvição de Bida e o Tribunal de Justiça
do Pará, julgar com a maior brevidade possível esse recurso, para que um
novo júri possa ser realizado, garantindo inclusive lisura no julgamento
de Regivaldo Galvão (Taradão), outro acusado de ser mandante do
assassinato de Dorothy Stang.
Vale ressaltar que a problemática que envolve os conflitos e a violência
no estado do Pará está fortemente associada à concentração da
propriedade da terra, inclusive feita através da apropriação ilegal de
terras públicas (grilagem). Essas violações vão desde a negação de um
meio ambiente ecologicamente equilibrado, com a destruição dos recursos
naturais, até a expulsão violenta e prisões de trabalhadores rurais,
ribeirinhos, extrativistas, indígenas, populações tradicionais que
ocupam a terra há muitas décadas. As violações agravam-se com as
práticas de trabalho escravo e culminam na sistemática de assassinatos
de trabalhadores rurais e lideranças, como aconteceu com Doroty Stang.
Nesse sentido, defendemos que o combate à grilagem de terras deve ser
uma medida permanente, com a retomada das terras públicas do estado e do
governo federal, de forma que possa garantir um processo de reforma
agrária que atenda os interesses dos trabalhadores rurais, tornando-os
menos vulneráveis às violações de direitos humanos. Defende também que
sejam protegidos os defensores de diretos humanos ameaçados, com a
ampliação e o fortalecimento do Programa de Proteção aos defensores de
direitos humanos.
FERNANDO LUGO, UMA VITORIA DO POVO PARAGUAIO.
Joao pedro stedile, membro da coord. nacional do MST e da via campesina Brasil. 24/04/2008
Entre 1750-56 houve a guerra guaranítica no sul do Brasil. Exércitos de Portugal e Espanha, abençoados pelo Vaticano, trocaram Montevideo pelo atual território do Rio grande do sul que era habitado por 600 mil guaranis e Charruas. Os gaúchos verdadeiros que há milênios habitavam aquele território..
Da guerra, sobraram apenas 30 mil. Um parte foi morta e a outra, fugindo da barbárie européia, cruzou o rio Uruguai e foi somar-se a outros parentes guaranis, no territorio do Paraguai.
Em 1808-12 implantou-se a Republica no Paraguai e um jovem estadista, Dr França fez reforma agrária, e implementou a primeiras regras republicanas do continente. Foi derrubado pela oligarquia. Entre 1865-70 outro jovem republicano Solano Lopez, implantou a primeira siderúrgica da América do sul, e sonhava com um modelo de industrialização do país. Provocou o império inglês. Que contratou os exércitos argentinos, uruguaios e brasileiros, e fizeram a guerra do Paraguai, tão bem descrita e recuperada pelo nosso historiador Chiavenato. Mataram 90% de todos os homens adultos. Um massacre, para preservar os interesses da indústria inglesa. Como aliás fariam mais tarde também aqui no Brasil com o assassinato de
Delmiro Gouveia. O primeiro industrial nacionalista brasileiro.
Veio o século XX, e o país foi governado sempre por ditadores. Strossner, de origem alemã e afiliação nazista, governou por 40 anos. E seu partido, o Colorado, governou desde a segunda guerra 1945, até hoje.
Dia 20 de abril, houve eleição no Paraguai. Ganhou um bispo da teologia da libertação, líder dos pobres, que fala fluentemente guarani: Fernando Lugo. Nem partido tem. Mas tem o povo e suas forças, que derrotaram os colorados e outro filhote da ditadura militar o general Oviedo. Finalmente, o povo paraguaio retoma as rédeas de seu destino. E nós os brasileiros, estamos histórica, étnica e economicamente vinculados a eles. Cabe a nós, contribuir de todos os modos possíveis, para que o povo paraguaio recupere a dignidade, a justiça, a soberania e melhore suas condições de vida.
Os ventos da América latina estão começando soprar a favor dos povos.
Quem é Fernando Lugo?. Um perfil do novo presidente paraguaio
O perfil do novo presidente do Paraguai, Fernando Lugo, é descrito pelo blog SopaBrasiguaia.com, 21-04-2005, especializado no acompanhamento da conjuntura do Paraguai.
Eis o perfil.
Nascido em 30 de maio de 1951, no município de San Pedro del Paraná, departamento (estado) de Itapúa, Fernando Armindo Lugo Méndez é filho de Guillermo Lugo e Maximina Mendez Fleitas, colorados perseguidos pelo aparato repressor montado pelo ditador Alfredo Stroessner (1954-89).
Aos 19 anos de idade, o hoje presidente do Paraguai ingressou na corporação dos Missionários do Verbo Divino, abraçando a carreira clerical em 1975. Neste intervalo, formou-se em Teologia pela Universidad Católica Nuestra Señora de la Asunción.
Sua ordenação como sacerdote veio em 1977, sendo enviado ao Equador e tomando contato com a Teologia da Libertação pregada pelo monsenhor Leonidas Proaño e pelo brasileiro Leonardo Boff. Na década de 1980, voltou ao Paraguai e, posteriormente, seguiu para o Vaticano para aprimorar seus estudos.
Ordenado bispo em 1994, Lugo foi membro da Comissão Doutrinal da Conferência Episcopal Paraguaia e da equipe de Reflexão Teológica do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), desenvolvendo trabalhos voltados às camadas marginalizadas da população e reprimidas pelo Estado paraguaio.
Bispo emérito de San Pedro, um dos departamentos (estados) mais pobres do Paraguai, Lugo emergiu na política durante o governo de Nicanor Duarte Frutos (2003/08), à frente do movimento Resistência Cidadã, cujos protestos multitudinários projetaram sua figura a nível nacional.
Em dezembro de 2006, atendendo à pressão popular e dizendo-se desencantado com a política social da Igreja, Lugo renunciou ao status de bispo e lançou-se à arena política, encabeçando um projeto de aliança que englobava, à época, todos os partidos de oposição.
Eleito presidente do Paraguai em 20 de abril de 2008, à frente da Aliança Patriótica para a Mudança, o ex-bispo católico assumirá o mandato, cuja duração é de cinco anos, no dia 15 de agosto. Seu vice-presidente é o ex-governador do departamento (estado) Central, Federico Franco.
Leia mais.
“O Paraguai subsidia as indústrias de São Paulo”. Entrevista especial com Fernando Lugo
‘Eu não sou de esquerda, nem de direita. Estou no centro’, afirma Fernando Lugo, candidato à presidência do Paraguai
'Os pequenos também podem vencer'. Crônica de uma queda anunciada
O jornalista Pedro Carrano enviado especial do Brasil de Fato para acompanhar as eleições no Paraguai relata o clima das eleições e a alegria popular com a vitória de Fernando Lugo. Segundo o jornalista, Miguel Angel Lopez Perito, o coordenador-chefe da campanha do ex-bispo, destacou que a vitória de Lugo significa que apenas agora o país vivia “a queda da ditadura de Stroessner”. A reportagem, 21-04-2008, revela que a última aparição pública de Lugo às vésperas das eleições, no sábado, foi a participação em uma missa. Após a vitória, o novo presidente eleito convocou a classe política paraguaia à reconciliação para construir um “país grande”.
Eis a reportagem.
Os incidentes e denúncias sobre as práticas de compra de votos do Partido Colorado, em povoados, bairros e distritos do Paraguai, não foram suficientes para alterar o resultado qualitativo das eleições de 2008: a participação popular fez a diferença e escolheu Fernando Lugo, com 40,82% dos votos, pela Alianza Patriotica para el Cambio (APC), contra 30,72% da candidata colorada Blanca Ovelar. O ex-general Lino Oviedo, da União Nacional de Cidadãos Éticos (Unace), chegou ao final do pleito sem entregar o voto útil a Ovelar. Oviedo atingiu 21,98% da votação. Este resultado foi anunciado pela justiça eleitoral paraguaia, às 21:45h, quando 92% das urnas foram apuradas.
Antes, às seis horas da tarde de domingo, quando os primeiros resultados de boca de urna indicavam a vitória de Lugo, na sede da APC, onde a bandeira paraguaia e o nome do ex-bispo eram ovacionados, o coordenador-chefe da campanha, Miguel Angel Lopez Perito, anunciava que o país vivia “a queda da ditadura de Stroessner” (1954-1988, reeleito oito vezes), e finalmente se iniciava a verdadeira transição. Na sua fala, Lugo afirmou “que os pequenos também podem vencer”. Naquele momento, já não havia chance de uma temida fraude e a vitória estava assegurada.
Os rumores que davam conta de intimidação, compra de votos e de membros das mesas de votação não foram suficientes para conter a participação massiva. O povo paraguaio acudiu em massa às urnas, que este ano contaram com 60% de participação. Para comemorar a vitória, o Panteón de los Héroes, em Asunción, abrigava milhares de pessoas. A maioria eram jovens, cuja última grande movimentação aconteceu durante o “marzo paraguayo”, em 1999, com a morte de sete manifestantes e a queda do então presidente Raúl Cubas Grau. Ainda assim, eles nunca haviam visto outro grupo no governo do país. Carros tomaram conta de uma cidade que até a noite de sábado estava em silêncio. Um silêncio que várias pessoas chamavam de “a calmaria antes da tempestade”.
Até bem pouco o clima era incerto. Na noite de sábado (19), em uma das últimas aparições antes da votação, Lugo compareceu à missa no município de Lambare, conurbano de Assunción. Estava acompanhado de seu vice, Frederico Franco, do partido liberal. Com o foco de poucos meios de comunicação, Lugo confirmou aquilo que um segurança da campanha havia dito em conversa com o Brasil de Fato. Lugo é um homem simples, austero. Na saída da missa, um grupo tentou provocar Lugo, arrumando confusão com outros fiéis da igreja.
Ação política decisiva
O descontentamento popular foi o primeiro fator para a eleição da APC. O outro papel decisivo coube, como Lugo ressaltou em seus agradecimentos, aos comissários que fiscalizaram as eleições em cada distrito, pela Aliança Patriótica para el Cambio (APC) e pelos movimentos populares. Inferiores em número, jogando o jogo desigual das eleições, cumpriram um grande trabalho militante.
A presença de observadores internacionais também foi reconhecida como decisiva. Estiveram seguindo as eleições desde a oficialista Organização dos Estados Americanos (OEA), passando pelo Fundação Internacional para Sistemas Eleitorais (IFES), presidido pelo ex-presidente colombiano Andrés Pastrana. A presença de observadores dos movimentos sociais de vários países também foi uma prioridade dentro dos preparativos da APC para as eleições.
Para os militantes do Tekojoja, importante base de Lugo, o dia 20 de abril começou por volta das 4h da madrugada, com a divisão de carros entre os comissários dos diversos distritos de Asunción, que deveriam dar conta das inúmeras denúncias. A apreensão, naquele momento, era visível. Kátia militante do movimento, comentava a dificuldade no processo de consciência atual, sentida ao longo da campanha. “Quando fomos fazer trabalho de base, as pessoas não queriam conversa, antes perguntavam quanto iam ganhar com aquilo”, comenta.
Sabe-se que a democracia representativa é um jogo desigual em qualquer parte do globo, que responde ao marco burguês. Uma fratura que no Paraguai está ainda mais exposta. O número de votantes por mesa, em 2008, foi alterado de 300 para 200, aumentando assim o número de mesas de votação. Aumentando conseqüentemente a dificuldade de vistoria e a influência colorada.
Membro da Comissão de advogados do Tekojoja, Ramón Sosa, alertava que o Partido Colorado, nas internas que haviam garantido a vitória da atual candidata, Blanca Ovelar, obteve uma diferença de apenas 25 mil votos, deixando suspeitas. “Existe um assistencialismo massivo, que precisa ser superado. Se três votos são eliminados de cada mesa, por exemplo, em 15 mil mesas isto significaria 45 mil votos”, compara.
A reportagem do Brasil de Fato pôde comprovar a inserção dos colorados nos bairros. Praticamente encerradas as votações, houve a denúncia no bairro de Lambaré de venda de cédulas eleitorais e pessoas ameaçadas, em uma sede do Partido Colorado. No caminho até o local, a reportagem deparou com militantes do partido, em um posto de comando, portando armas em plena rua. Na sede do partido, a prática de venda foi negada. Denúncias como esta se repetiram na voz de outros observadores internacionais.
Hoje, dia 21 de abril, vários matizes políticos deram o primeiro passo juntos, dentro da APC. Um tema bastante levantado é o futuro das forças que formam a aliança. Na primeira entrevista coletiva após o resultado das eleições, Lugo acenou para a conciliação entre a classe política paraguaia, em nome de um projeto de país deixado de lado até então. “Faço um convite muito especial, a toda a classe política paraguaia, a todos sem exceção: inclusive, com aqueles que não compartem estes ideais, a apostar que o Paraguai já foi grande e juntos cremos que voltará a ser grande”, expressou.
A orientação, neste momento, é sentar para o diálogo. “Temos que seguir sendo aliança, dialogando com todos os partidos”, afirma um militante do P-MAS. Para Guillermina Kanomikoff, secretária do Tekojoja, foi importante superar o antigo processo onde “votavam os mortos”. Agora é preciso indicar à população o seu protagonismo no governo Lugo, afirma Guillermina. “Não se trata de construir por votos, mas por consensos”, comenta.
Paraguai: O fim de um ciclo. Artigo de Atilio Boron
A vitória de Lugo é a derrocada de um dos últimos bastiões da América Latina que ainda sobrevivia à sombra de um regime arquitetado por uma longa ditadura militar. Agora, Lugo enfrentará fortes resistências da máquina clientelística e corrupta montada pelos militares que se transformou no Partido Colorado que por seis décadas hegemonizou o poder no país. A análise é do sociólogo Atilio Boron em artigo no jornal Página/12, 21-04-2008. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
O triunfo do ex-bispo Fernando Lugo nas eleições desse domingo põe fim a quase 61 anos de predomínio do Partido Colorado. A maior parte desse período transcorreu sob o signo de uma das mais ferozes e reacionárias ditaduras da América Latina presidida por Alfredo Stroessner que tomou o poder mediante um golpe de Estado em 1954 e permaneceu nele até 1989. Desde então, até o domingo de 20 de abril, o Partido Colorado manteve o poder político no país.
Ao longo desses anos, o Paraguai, um país que, como a Bolívia, possui grandes recursos naturais e uma população relativamente pequena (não chega a sete milhões de habitantes) aprofundou o seu atraso econômico, político e cultural, condenando à pobreza a grande maioria dos seus filhos e ‘prendendo’ aqueles que não emigraram sob um sistema corrupto até a medula, no qual os mais altos funcionários do Estado eram, com poucas exceções, os organizadores do saque praticado contra a nação guarani.
Com o triunfo de Lugo caiu o último bastião do despotismo que assolou a região durante a segunda metade do século passado. O do Paraguai foi mais longe; mudou de pele como uma serpente e engendrou, para perpetuar a ditadura, a continuidade do mesmo bloco dominante sob uma roupagem que apenas formalmente parecia democrático. O transformismo de que falava Gramsci foi uma verdadeira escola entre a classe política paraguaia e as mudanças que aconteceram logo após a saída de Stroessner serviram, com dizia Gatopardo, para que tudo continuasse igual.
Com Lugo como presidente, toda a estrutura da sociedade paraguaia enfrentará fortes abalos. Para começar, o aparato clientelístico montado faz seis décadas e alimentado permanentemente por uma corrupção imperante. A oposição que encontrará o ex-bispo será inclemente e intratável: donos absolutos de vidas e administradores que estão durante décadas no poder, oportunistas e hipócritas aderentes à norma do jogo democrático não deixaram de empregar qualquer recurso para desestabilizar o processo e provocar uma situação similar a que encontra na Bolívia Evo Morales.
De outro lado, como se a oposição interna não fosse pouca coisa, os olhos do império se concentrarão a partir de hoje na mais irmã república paraguaia que passará a engrossar a lista de governos com “débeis credenciais democráticas”. A imperdoável miopia dos governos do Brasil e da Argentina, a mesma que está empunhando cada vez com mais força o Uruguai até os braços dos Estados Unidos, fez com que Assunção terminasse por conceder, para uso das forças estadunidenses, a base área de Mariscal Estigarribia. Situada em um região praticamente despovoada, a uns 200 Km da fronteira da Argentina e uns 300 do Brasil, tem pista área mais extensa do Paraguai, superior a do aeroporto internacional de Assunção e capacidade para abrigar tropas de até 20 mil soldados.
Tropas que gozam de imunidade sob um suposto “Acordo Militar de Treinamento” assinado entre brindes à meia-noite em 2005, enquanto o Itamaraty e a Chancelaria argentina estavam distraídas com questões menos relevantes.
Agora se verá se a Argentina e o Brasil passarão da retórica a solidariedade efetiva com o governo de Lugo. Um governo que precisará de muita ajuda para poder sobreviver aos embates já antevistos que apostam em seu fracasso para que o Paraguai volte a ser o que sempre foi.
REFORMA AGRÁRIA SEGUE RITMO LENTO NO PARÁ
Governos não conseguem resolver conflitos em área que concentra maiores jazidas de ferro, cobre e níquel do país
Ronaldo Brasiliense O Globo
20/04/08
PARAUAPEBAS (PA). O rico sudeste paraense - que detém em seu subsolo as maiores jazidas de ferro, cobre e níquel do país, na maior província mineral do Planeta, a de Carajás - há décadas é o palco dos maiores conflitos agrários por uma razão simples: entra governo, sai governo, e não se faz reforma agrária na região
- Em 2007 o governo Lula não fez uma única desapropriação de terra aqui na região - afirma frei Henry dês Roziers, 78 anos, advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Xinguara, há mais de uma década na lista dos ameaçados de morte na Amazônia.
Frei Henry, que anda sob proteção de dois policiais militares desde o assassinato da missionária Dorothy Stang, em Anapu, em fevereiro de 2005, acompanhou passo a passo as ações do MST no 17 de abril, no 12º ano do massacre de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás. Ele prevê o recrudescimento da luta pela reforma agrária nas regiões sul e sudeste do Pará, onde tem aumentado os acampamentos de trabalhadores sem um lote de terra para trabalhar.
A ausência da reforma agrária acirra os ânimos entre as partes em conflito: o MST incentiva a invasão de propriedades produtivas, os fazendeiros recorrem à Justiça e, na maioria das vezes, conseguem mandados de reintegração de posse, que quase nunca são cumpridos porque, no caso do Pará, a governadora Ana Júlia Carepa (PT), tem se recusado a pôr a Polícia Militar do estado para dar proteção aos oficiais de justiça nas ações de despejo.
Famílias vivem na penúria em assentamentos
Em Parauapebas, já há ameaças de novo bloqueio à ferrovia
PARAUAPEBAS (PA). Não é preciso ir muito além da sede do município de Parauapebas para se encontrar situações de extrema penúria entre os sem-terra. No assentamento Dina Teixeira, a 12 quilômetros do centro da cidade, mais de mil famílias esperam há mais de ano a regularização das terras que ocuparam da fazenda São Marcos, titulada e produtiva, vivendo em barracos de taipa, cobertos de palha.
- Estamos cansados de esperar que o governo faça alguma coisa por nós - diz Raimundo Nonato Souza, maranhense, há mais de um ano no acampamento Dina Teixeira à espera da reforma agrária do governo Lula.
Em Parauapebas, os dias seguintes à paralisação da ferrovia de Carajás, da mineradora Vale, foram de alívio. Centenas de policiais civis e militares enviados de Belém retornaram à capital e no acampamento Palmares II, a 100 metros do local onde a ferrovia foi bloqueada, alguns líderes do Movimento dos Trabalhadores e Garimpeiros da Mineração (MTM), como Antonio Clemente, de 67 anos, ameaçavam com novas paralisações, no futuro.
- A gente nasce para morrer. Se o governo não atender nossas reivindicações, voltar a bloquear a ferrovia da Vale é um instrumento de nossa luta - afirma Clemente.
Presos pela Polícia Federal por desacato à decisão da Justiça do Rio de Janeiro proibindo atos de vandalismo contra a Vale, o garimpeiro Newton Paulino, líder do MTM, e Altamiro Borba Soares, assessor do prefeito de Parauapebas, Darci Lermen (PT), aliado do MST na região, foram libertados após prestarem depoimento e serem autuados por desobediência ao interdito proibitório imposto pela Justiça.
Histórico de conflitos
O assassinato de 19 sem-terra, durante operação da Polícia Militar, em Eldorado dos Carajás, que completou 12 anos quinta-feira passada, é um dos momentos mais traumáticos da história dos conflitos agrários no Pará. Mas está longe de ser um fato isolado.
O Sul é a região mais tensa do estado. Entre 1985 e 1998, por exemplo, o Pará respondeu por 23% (235 casos) dos 1.013 assassinatos ocorridos no campo no Brasil.
Em dezembro de 2007, o IBGE divulgou estatística mostrando que dos dez estados com maior percentual de mortes violentas, seis pertencem à região amazônica, onde há conflitos agrários, incluindo o Pará, com 19,2% das mortes de homens por causas violentas.
CPT DIZ QUE PLANTIO DE CANA É RESPONSÁVEL PELO AUMENTO DO TRABALHO ESCRAVO
15/04/2008
Ivan Richard
Repórter da Agência Brasil
Brasília - A expansão das plantações de cana-de-açúcar foi apontada como principal responsável pelo crescimento do trabalho escravo no país em 2007.
Segundo dados do caderno Conflitos no Campo 2007, divulgado hoje (15) pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), o número de trabalhadores explorados subiu de 6.930, em 2006, para 8.635, no ano passado.
O crescimento mais significativo foi registrado na Região Sudeste, onde o número passou de 279 para 705. A região concentra as maiores lavouras de cana no país.
No Centro-Oeste, o número de trabalhadores explorados chegou a 2.653 no ano passado, quase o dobro do registrado em 2006. No Sul, o número mais que duplicou (108 para 229).
Dos 5.974 trabalhadores libertados em 2007, 52% saíram das usinas do setor sucroalcooleiro. Dos casos de desrespeito à legislação trabalhista registrados pela CPT, o setor ocupa a primeira colocação.
"Isso tem a ver claramente com o aumento das exportações de etanol e cana-de-açúcar", avaliou o geólogo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e analista da CPT, Carlos Walter Gonçalves. "A violência do poder privado, das empresas, está crescendo com o aumento da exportação de commodities [bens primários com cotação internacional]", completou.
Ainda de acordo com a publicação Conflitos no Campo, em 2007 foram registradas 265 ocorrências de trabalho escravo, três a mais do que no ano anterior. O número de trabalhadores libertados passou de 3.633 para 5.974.
O conselheiro da CPT e ex-presidente da comissão, dom Tomás Balduíno, criticou as três esferas do Poder Público pelo crescimento do trabalho escravo. "O Executivo solta verbas para essas empresas. Onde está a PEC [projeto de emenda à Constituição] que confisca terras de quem utiliza mão-de-obra escrava? O Judiciário é campeão em indústria de liminares a favor do grande e contra o pequeno", afirmou.
O documento foi apresentado no acampamento de trabalhadores rurais montado para o lançamento da Campanha pelo Limite da Propriedade da Terra, no estádio Mané Garrincha.
MST faz protestos em cinco estados por Reforma Agrária
12/04/2008
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Os trabalhadores rurais do MST fizeram protestos e ocupações de terras em cinco estados para denunciar a ineficiência do programa de Reforma Agrária e cobrar investimentos públicos em assentamentos do governo federal, desde o começo do mês.
O MST exige o assentamento das 150 mil famílias acampadas, a criação de uma linha de crédito efetiva para produção de assentados e o atendimento da demanda de construção de mais de 100 mil unidades de habitações rurais. Os protestos são realizados em memória do Massacre de Eldorado de Carajás em 1996.
"A Reforma Agrária está emperrada no país por causa da política econômica, que beneficia as empresas do agronegócio, concentra terras e verbas públicas para a produção de monocultura para exportação. O governo precisa apoiar a pequena e média produção agrícola para fortalecer o mercado interno, garantir a produção de alimentos para a população e a preservação do meio ambiente", afirma José Batista de Oliveira, da coordenação nacional do MST.
Os Sem Terra de Pernambuco ocuparam três áreas na manhã deste sábado (12/4). Há mais de 13 mil famílias acampadas no estado, vivendo debaixo de lona preta em 132 acampamentos.
No Agreste Meridional, cerca de 100 famílias ocuparam a Fazenda Ipanema, no município de Pesqueira. A área de 1.200 hectares está abandonada e improdutiva. O MST exige que a fazenda seja vistoriada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma (Incra) para que seja desapropriada para fins de Reforma Agrária, conforme determina a lei.
No município de Moreno, região metropolitana do Recife, 60 famílias ocuparam pela terceira vez o Engenho Xixaim. O Engenho é uma área de conflito e, em abril do ano passado, foi ocupado por 100 famílias que denunciavam o descumprimento de determinação ambiental que prevê uma distância mínima entre a margem do rio Duas Unas e as plantações de cana-de-açúcar, por causa das queimadas. Em 2005, o engenho foi autuado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) pelas irregularidades
Cerca de 800 famílias Sem Terra ocuparam a Fazenda Baixa Grande, no município de São José do Belmonte, Sertão do Estado. A área tem 9.000 hectares, está improdutiva e abandonada há mais de cinco anos. O latifundiário Romero Aires Montenegro recebeu financiamento do antigo Finor (Fundo de Investimento para o Nordeste) para projeto de produção de caju e depois faliu. O MST exige que a fazenda seja vistoriada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma (Incra).
No interior de São Paulo, na região de Bauru (a 325 quilômetros da capital), 600 famílias ocupam o latifúndio Águas do Pilintra, no município de Agudos, de 5,4 mil hectares, desde sábado. A área utilizada pela Ambev (Companhia de Bebidas das Américas) para o plantio de eucalipto e cana-de-açúcar está no centro de uma região com 10 mil hectares de terras reconhecidas oficialmente como devolutas. Além disso, 15 mil hectares de terras são improdutivos no município. As famílias reivindicam que as áreas se transformem em assentamentos. Atualmente, 1600 famílias estão acampadas no estado.
Em Roraima, 500 trabalhadores rurais do MST ocuparam na manhã de sexta-feira um fazenda do governo federal de 4.000 mil hectares na região do Bom Entento, localizada a 28 quilômetros de Boa Vista. Os trabalhadores já montaram barracas e pretendem ficar até que as reivindicações sejam atendidas pelos governos.
A escolha do local foi motivada pela proximidade com a capital e pelas condições de beneficiamento da área. “Já estamos fazendo um estudo de viabilidade de produção e na próxima semana vamos começar a plantação de macaxeira, tomate, entre outras sementes”, afirmou o integrante da coordenação do MST, Ezequias David.
Na Bahia, cerca de 550 famílias do MST ocupam a Fazenda Bela Manhã, do grupo Aracruz Celulose, em Teixeira de Freitas, desde 5 de abril. A famílias, que estavam acampadas em terreno da Ceplac, estão na luta pela terra desde o mês de abril do ano passado, quando ocuparam uma área ligada à Suzano Papel e Celulose.
Depois da ocupação da Suzano, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e o Governo do Estado se comprometeram com a aquisição de terras para o assentamento de 1.000 famílias. "O governo está sendo extremamente vagaroso, sem tomar iniciativas para agilizar a desapropriação de terras e insistindo em tratar a reforma agrária como caso de polícia" denuncia Evanildo Costa, da coordenação estadual do MST.
A área reivindicada de 2,4 mil hectares de terra é grilada e improdutiva. Do total, apenas 200 hectares são de propriedade legal da Aracruz, sendo a maior parte terras devolutas do Governo do Estado. "A terra deve ser desapropriada pra assentar famílias da região, que vêm sendo sistematicamente excluídas pelo modelo de monocultura pra exportação implementado pelo agronegócio", afirma Evanildo.
No Pará, trabalhadores mutilados e as viúvas dos agricultores assassinados no massacre de Eldorado dos Carajás acampa em frente ao Palácio dos Despachos no Pará, sede do governo do estado, desde segunda-feira. Os manifestantes cobram da governadora Ana Júlia Carepa (PT) o cumprimento de suas promessas de 2007.
Os protestos são realizados em memória dos 19 companheiros assassinados no Massacre de Eldorado de Carajás, em operação da Polícia Militar, no município de Eldorado dos Carajás, no Pará, em 1996, no dia 17 de Abril. Depois de 12 anos de um massacre de repercussão internacional, o país ainda não resolveu os problemas dos pobres do campo, que continuam sendo alvo da violência dos fazendeiros e da impunidade da justiça.
Em homenagem aos mártires de Carajás, a Via Campesina Internacional decretou em todo o mundo o 17 de abril como Dia Internacional de Luta Camponesa. No Brasil, por iniciativa da então senadora Marina Silva (PT), o Congresso Nacional aprovou e o presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou um decreto que determina que a data seja o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária.
Informações à Imprensa
Cássia Bechara - MST-PE - (81) 96474331 / 8795 4986 / 3722 Camila Bonassa - MST-SP - (11) 8276-6393
Paulo A. Magalhães - MST-BA - (71) 8741-1251
Grupo de 19 frigoríficos adere;
Quase todas as empresas filiadas ao Sindicato das Indústrias Frigoríficas do Mato Grosso (Sindifrigo) aderiram ao Pacto Nacional contra a escravidão.
Por Maurício Hashizume
Site da Repórter Brasil
03/04/08
Por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) formulado com critérios inéditos firmado junto ao Ministério Público do Trabalho (MPT) e ao Ministério Público do Estado do Mato Grosso, 19 frigoríficos filiados ao Sindicato das Indústrias Frigoríficas do Mato Grosso (Sindifrigo) aderiram ao Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo.
As empresas que fazem parte dessa iniciativa se comprometem a restringir vínculos comerciais com pessoas jurídicas e físicas de suas respectivas cadeias produtivas que possam estar envolvidas na exploração de trabalho degradante ou mão-de-obra escrava.
De uma só vez, Atantes, Marfrig, Margen, Mataboi, Perdigão, Vale do Guaporé, Quatro Marcos, Juína, Boi Branco, Rodopa, Pantanal, Vale Grande, Nova Carne, Frimat, Mercosul e Frical aceitaram assinar o Pacto. Na mesma leva, Bertin, JBS Friboi e Sadia, que já eram signatárias, renovaram o mesmo compromisso (confira a lista completa de companhias e associações que já assinaram). Caso descumpram o TAC firmado na última sexta-feira (28), as empresas terão de pagar multa diária e responderão judicialmente na Justiça do Trabalho.
De todas as associadas da Sindifrigo, apenas a Agra Agroindustrial e Alimentos optou por não firmar o Pacto Nacional. Por conta disso, o MPT anunciou que ensejará a abertura de um procedimento investigatório do frigorífico.
De acordo com uma fonte da Agra, a empresa optou por não aderir imediatamente ao Pacto Nacional porque não teve tempo hábil para que os acionistas pudessem tomar uma decisão mais definitiva sobre o assunto.
Essa mesma fonte garantiu, no entanto, que a companhia reconhece a importância do tema e que a questão está sendo avaliada pela direção. Especializada no abate de suínos, a Agra tem sede em Rondonópolis (MT), a 220 km da capital Cuiabá.
Segundo levantamento da Repórter Brasil do início de 2007, 62% dos casos de trabalho escravo até então haviam sido flagrados na atividade pecuária. O estado do Mato Grosso tem o segundo maior rebanho de carne bovina do país.
SEM TERRA É ASSASSINADO DENTRO DE CASA, EM ORTIGUEIRA.
MST - 01/04/2008
Trabalhador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Eli
Dallemole, 42 anos, é assassinado dentro da sua casa, no assentamento
Libertação Camponesa, em Ortigueira (região Norte-Sul), onde morava com
a mulher e três filhos.
Por volta das 19h30 deste domingo (30/03), dois homens encapuzados
invadiram a casa de Eli e executaram o trabalhador, na frente da família.
O trabalhador vinha sendo ameaçado de morte há mais de dois anos, mas as
ameaças aumentaram após o ataque de um grupo de milícias armadas ao
acampamento Terra Livre, na fazenda Copramil, em Ortigueira (proximo ao
pedágio da BR 376), no último dia 08 de março.
As famílias Sem Terra já vinham denunciando a atuação dessa milícia
armada na região há algum tempo. Segundo, os trabalhadores esse grupo de
pistoleiros é comandado por um homem conhecido como "Zézinho",
financiado por fazendeiros da região. Suspeita-se que o assassinato
tenha sido praticado ou mesmo comandado por este "Zézinho". Segundo o
Centro de Operações Policiais Especiais (Cope), o pistoleiro está com
prisão preventiva decretada.
Essas denúncias também haviam sido encaminhadas para a Secretaria
Especial de Direitos Humanos do Governo Federal e para Polícia.
O MST cobra da justiça a punição dos responsáveis por mais um
assassinato de trabalhador Sem Terra, no Estado e a extinção imediata
dessas milícias armadas, que já estão se tornando corriqueiras no Paraná.
Contexto
No ataque dessa mesma milícia ao acampamento Terra Livre,
aproximadamente 15 pistoleros aterrorrizaram as 35 famílias do MST
acampadas na área e queimaram todos os pertences dos trabalhadores.
Crianças foram ameaçadas e arrastadas e mulheres e homens espancados,
ficando apenas com a roupa do corpo. Muitos não conseguiram salvar nem
seus próprios documentos.
Após o ataque sete pistoleiros foram presos em flagrante pela polícia e
levados á delegacia de Ortigueira. Foi instaurado um inquérito polícial
para investigação de formação de milícia armada pelo Cope, em Curitiba.
Mas, haviam denúncias de que 10 pistoleiros continuavam na área.
A área é de origem duvidosa, tendo a posse questionada por dois
proprietários. As famílias estavam acampadas no local, desde de 2003.
UMA ROTINA DE VIOLAÇÕES
O Globo, 24.03.2008
MARIA LUISA MENDONÇA e MARLUCE MELO
A safra brasileira da cana em 2005 foi de 386 milhões de toneladas. Desde então, com o aumento dos incentivos do governo para a produção de etanol, este número teve um aumento impressionante. Previsões do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) indicam que em 2008 o Brasil deve produzir cerca de 561 milhões de toneladas de cana. Em 2008, estima-se que a safra terá um aumento de 9,3% em relação a 2007.
Ao mesmo tempo, multiplicam-se as denúncias de violações de leis trabalhistas e ambientais no setor sucroalcooleiro. Este tema será discutido durante a 30aConferência Regional da FAO (Food and Agriculture Organization) para América Latina e Caribe, que acontecerá em Brasília de 14 a 18 de abril. Organizações sociais de diversos países preparam documentos citando os principais problemas do setor, como trabalho escravo, morte de trabalhadores, destruição ambiental e danos à saúde pública.
No Brasil, na medida em que verificamos a expansão da indústria da cana, aumentam seus impactos negativos. Em relação aos danos ambientais, diversos fatos demonstram que os monocultivos de cana expandem-se para áreas de preservação como a Amazônia e o cerrado. “O crescimento das fazendas coloca em risco regiões ecológicas inteiras, como o cerrado”, afirma um relatório do Programa de Meio Ambiente da ONU (Organização das Nações Unidas). Outro estudo elaborado pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) indica que, a cada ano, são destruídos mais de 20 mil quilômetros quadrados de vegetação no cerrado. Esta destruição pode comprometer a maior parte dos rios brasileiros, que têm suas nascentes na região.
A monocultura da cana cresce também na Amazônia legal, nos estados de Tocantins, Amazonas, Pará, Maranhão, Roraima e Rondônia. Segundo dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), entre 2004 e 2007, a Região Norte registrou o maior índice de crescimento da produção de cana do país. No Acre, o Ministério Público chegou a suspender a licença ambiental da Usina Álcool Verde por destruir sítios arqueológicos contendo geoglifos, que são enormes estruturas geométricas construídas na Antiguidade. Há também projetos de usinas no Amazonas, em regiões de floresta nativa às margens da BR-174.
O próprio Grupo Móvel de Combate ao Trabalho Escravo, do Ministério do Trabalho, tem constatado irregularidades em usinas de etanol na Amazônia e no cerrado. Em março de 2007, o Grupo de Fiscalização em Mato Grosso do Sul resgatou 409 trabalhadores no canavial da usina de álcool Centro Oeste Iguatemi. Entre eles, havia um grupo de 150 índios. Em julho de 2007, ficais do Ministério do Trabalho libertaram 1.108 trabalhadores que faziam a colheita da cana na fazenda Pagrisa, em Ulianópolis (Pará). Outro caso ocorreu na Usina Debrasa, quando cerca de 800 indígenas foram encontrados em condições degradantes. No dia 13 de novembro de 2007, o Grupo Móvel interditou esta usina, que pertence à Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool/Agrisul, em Brasilândia, em Mato Grosso do Sul.
A violação de direitos trabalhistas é comum no setor e ocorre em todas as regiões do país. Em São Paulo, a Procuradoria Regional do Trabalho ajuizou mais de 40 ações civis públicas contra usinas, somente em 2007. Em 2006, a Procuradoria do Ministério Público fiscalizou 74 usinas no estado e todas foram autuadas.
Em vez de tentar esconder ou minimizar estes fatos, o governo brasileiro deveria implementar políticas agrárias compatíveis com uma nação que respeita suas leis trabalhistas e preserva o meio ambiente. Somente dessa forma será possível conter os riscos do aquecimento global.
ONU VÊ RISCO DE CONFLITO EM 46 PAÍSES POR CAUSA DA ÁGUA.
Para Organização das Nações Unidas, recurso será causa número 1 de guerras na África até 2030
Estadão, 20.03.2008 Jamil Chade, GENEBRA
Água. Esse será um dos principais motivos que levarão países e grupos armados a entrarem em conflito nos próximos 25 anos. O alerta é da Organização das Nações Unidas, que, num estudo preparado para o Dia Mundial da Água, aponta que o acesso à água será a causa número 1 das guerras na África até 2030, principalmente em regiões pobres que compartilham rios e bacias. “Identificamos 46 países, onde vivem 2,7 bilhões de pessoas, nos quais há alto risco de crises relacionadas à água provocarem conflitos violentos”, diz o secretário-geral da ONU, Ban-Ki-Moon, num artigo publicado no sábado.
Na União Européia, os chefes de Estado foram surpreendidos na semana passada por um relatório do comissário de Relações Exteriores, Javier Solana, que alertou que a falta de água nos países vizinhos ao bloco vai acirrar a corrida de imigrantes ilegais para a Europa até 2050. Solana, ex-secretário-geral da Otan (aliança militar que reúne Europa e América do Norte), afirmou que as mudanças climáticas poderão reduzir a disponibilidade de água em até 30% em algumas regiões. E defendeu a tese de que o acesso a recursos naturais seja considerado questão de segurança estratégica.
Num calhamaço de mais de 500 páginas sobre mudanças climáticas, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estimou que 3,9 bilhões de pessoas no mundo podem sofrer com a falta de água até 2030, 1,7 bilhão a mais do que hoje. Isso representa 47% da população mundial estimada para 2030. E, embora as projeções sejam mais dramáticas para nações pobres, 2,2 bilhões dessas pessoas estarão distribuídas pelos emergentes do Bric (grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia e China).
Seja qual for a origem do estudo, todos indicam a mesma coisa: a principal disputa no planeta nos próximos 50 anos não será por petróleo, ouro, carvão ou minérios, mas por água - situação capaz de criar um exército de “refugiados ambientais”. Segundo entidades como o Global Policy Forum, os governos precisam estabelecer regras de como usar de maneira coordenada reservas compartilhadas.
A Índia é vista como um desses casos delicados. A disputa pelas águas com o Paquistão tem sido um dos motivos para o prolongamento da guerra na Cachemira. Já na fronteira com Bangladesh, os indianos ergueram uma barreira para evitar um maior fluxo de migrantes em busca de maior acesso a alimentos e água.
Na Ásia Central, a tensão também é crescente. O Tajiquistão e o Quirguistão controlam 90% das reservas da região. Mas o Usbequistão é o maior usuário e pede acesso facilitado. “Os glaciais no Tajiquistão perderam um terço de sua área apenas em 50 anos, enquanto o Quirguistão perdeu mais de mil glaciais nos últimos 40 anos”, diz Solana no relatório. “Há, portanto, um potencial considerável para um conflito em uma região cujo desenvolvimento político, econômico e estratégico tem impacto direto em interesses europeus.”
A água também é apontada como um dos principais motivos para o conflito em Darfur, na África. A guerrilha é acusada de envenenar reservatórios para forçar a população muçulmana a abandonar a região. Segundo levantamento feito pela ONU em junho, o conflito, que já deixou 200 mil mortos desde 2003, pode ser explicado pela tensão criada entre grupos étnicos no Sudão depois que o acesso a recursos naturais, entre eles a água, foi dificultado pelas condições climáticas. No norte de Darfur, o volume de chuvas caiu 30% nos últimos 80 anos. O deserto avançou em quase 200 quilômetros desde 1930.
Outro problema é a disparidade no uso da água. Na avaliação da ONU, uma pessoa precisa de no mínimo 50 litros de água por dia para atender suas necessidades. Mas, nos Estados Unidos, o consumo per capita é 45 vezes maior.
Alguns países ricos já aumentaram o preço da água. Na Dinamarca, a alta foi de 54% em dez anos. O resultado foi uma queda no consumo médio de 155 litros por pessoa por dia para 125 litros, ainda bem acima do padrão da ONU. A equação nos países pobres é diferente. Hoje, uma em cada cinco pessoas no mundo não tem acesso a água potável ou saneamento.
Os problemas relativos à água não são apenas de consumo. Solana alerta que o derretimento de parte da calota de gelo do Ártico, possível efeito da mudança climática, abrirá novas passagens para navios e oportunidades de exploração de petróleo. Isso recolocaria em debate as diferenças entre países pelo controle do Ártico, até agora literalmente congeladas. Segundo a UE, tais mudanças nas rotas teriam “conseqüências para a estabilidade internacional e para os interesses de segurança” do bloco europeu.
A possível tensão entre americanos, russos, canadenses e europeus no Ártico também será tema da agenda da Otan em sua reunião anual, no mês que vem, em Bucareste. Pela primeira vez, a aliança tratará das ameaças relacionadas à disputa pelos recursos naturais. Mais uma demonstração de que generais e estrategistas estão preocupados com riscos de conflitos envolvendo o abastecimento do planeta.
ÁGUA VIRTUAL DAS COMMODITIES, O TRUNFO ESTRATÉGICO BRASILEIRO
País precisa cobrar pelo que exporta, dizem experts
Giovana Girardi
Em um cenário de guerras e disputas por recursos hídricos, o Brasil, que detém 12% da água potável do mundo, pode assumir um papel estratégico, segundo especialistas ouvidos pelo Estado. Isso deve ocorrer basicamente pela relação entre água e agricultura.
Num futuro de escassez de água e de alimentos, como o previsto pelos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) no ano passado, aproveitar essa vantagem comparativa passa pela capacidade de o País manter e ampliar a produção e exportação de alimentos. “E de cobrar pela água virtual contida nesses produtos”, diz o economista Gilberto Dupas, presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais.
Os números publicados no alto das páginas deste caderno ilustram essa questão. Para produzir 1 quilo de soja são necessários cerca de 1.500 litros de água, 1 kg de cana para a produção de etanol consome 600 l.
“Hoje as commodities são as maiores sugadoras de água doce do mundo”, afirma Dupas. “Elas arrancam a água dos países pobres e levam para os ricos sem que isso seja contado no preço. O Brasil precisa se articular com outros países produtores para decidir como vai cobrar por isso. É de se esperar que no futuro o processo seja semelhante ao que ocorre com as reservas de petróleo e seja incluído nas commodities o preço da escassez futura de água.”
Mas, antes disso, diz Dupas, o País precisa zelar pela conservação dessa água. Contaminação dos mananciais, desperdício (hoje ocorre em média perda de 45% na distribuição de água nas capitais brasileiras) e consumo excessivo são algumas ameaças. Isso sem contar o desmatamento da Amazônia, que pode afetar as chuvas no Sudeste.
“O Brasil, excetuando partes do Nordeste, é abundante em todo o ciclo da água: na atmosfera, nas águas superficiais e nas subterrâneas. Mas precisa saber aproveitar essas vantagens como recurso estratégico”, concorda o hidrólogo José Galizia Tundisi, do Instituto Internacional de Ecologia. “Para assegurar a produção agrícola, e evidentemente o abastecimento público, é preciso manter água de boa qualidade. E aí caímos na falta de tratamento de esgoto. Isso deteriora a qualidade da água, diminui a reserva e aumenta os custos de tratamento.”
“Para se manter em vantagem, o Brasil tem de cuidar do desperdício, aproveitar a água das chuvas e remanejar a agricultura para locais com dotação hídrica, em uma espécie de política de zoneamento ecológico”, diz Ignacy Sachs, economista polonês (ou “ecossocioeconomista”, como ele é chamado) radicado na França. Ele propõe uma “revolução azul”, com incentivo à aqüicultura. “Em relação aos recursos da água, ainda vivemos como caçadores-coletores, sem muita estratégia e de forma insustentável. Fizemos no passado um salto fundamental com a agricultura, mas engatinhamos na criação dos recursos aquáticos. Áreas como a Amazônia têm vocação para a aqüicultura, e os peixes podem com o tempo substituir a carne, já que a pecuária extensiva tende a causar cada vez mais problemas.”
PISTOLEIRO CONDENADO A 29 ANOS DE PRISÃO PELO ASSASSINATO DO SINDICALISTA DEZINHO EM RONDON DO PARA, TEM FUGA FACILITADA PELA JUSTIÇA PARAENSE.
CPT - Marabá
17/03/2008
O pistoleiro Wellington de Jesus Silva, condenado a 29 (vinte e nove) anos de prisão por ter assassinado o sindicalista José Dutra da Costa, o Dezinho, está foragido. O crime ocorreu em 21.11.2000, no município de Rondon do Pará. Mesmo atingido mortalmente pelos disparos, Dezinho ainda conseguiu dominar o pistoleiro até que os visinhos o prendessem. Wellington permaneceu preso aguardando o julgamento que só veio a acorrer em Belém, em 13.11.2006 (1° júri) e em 12.04.2007 (2° júri), onde foi condenado a 29 (vinte e nove) anos de reclusão em regime fechado.
Em julho de 2007, o advogado de Wellington, Raimundo Cavalcante, ingressou com o pedido de progressão de regime perante a Vara de Execuções Penais de Belém. A Lei de Execução Penal em vigor à época do crime, estabelece que o condenado ao cumprir 1/6 (um sexto)da pena tem direto de progredir de regime, passando do regime fechado para o regime semi-aberto. Como Wellington se encontrava preso há mais de seis anos teve seu pedido deferido pela Juíza Tânia Batistello, titular da referida Vara de Execução Penal. Imediatamente depois de ser concedido o benefício da progressão de regime ao pistoleiro, o mesmo advogado ingressou com novo pedido requerendo desta vez que a juíza autorizasse o condenado a passar os feriados do natal e ano novo com sua família. Novamente a juíza deferiu o pedido e Wellinton foi autorizado a deixar a penitenciária no dia 24 de dezembro de 2007, passar 09 (nove) dias em companhia de seus familiares, devendo retornar à prisão no dia 02 de janeiro de 2008. Acontece que o pistoleiro Wellinton não mais retornou à Colônia Agrícola de Heleno Fragoso.
Foragido desde 02.01.08 .Teve mandado de recaptura expedido no dia 11.01.08, no entanto, no processo não há qualquer informação de que a polícia tem feito algo para recapturá-lo. A saída temporária é um dos direitos dos presos que cumprem pena em regime semi-aberto, mas, para a concessão desse benefício o juiz precisa observar, com bastante cautela, se o condenado cumpre com os requisitos exigidos pela lei. Para isso, a direção da casa penal precisa emitir uma certidão onde contenha a avaliação do setor social, psicológico, produção e segurança sobre a conduta do apenado para que o juiz tenha todas as informações antes de tomar a decisão. O estranho no caso Wellington é que a Certidão Carcerária, emitida pela direção da Colônia Agrícola Heleno Fragoso, avaliou apenas os 15 (quinze) dias que ele passou na Colônia.
Como é possível todos esses setores avaliarem um preso que passou apenas 15 (quinze) dias no estabelecimento? Além disso, no Atestado de Conduta Carcerária emitido pelo Centro de Recuperação do Coqueiro, onde Wellington cumpria pena antes de ser beneficiado pelo regime semi-aberto, consta que: No que se refere ao setor de produção, Wellington não exercia função laborativa e que não constava nenhuma remição em seu favor. Isto significa que durante o período em que esteve preso em regime fechado, o condenado jamais se interessou pelo trabalho e, portanto, não teve reduzida sua pena em função de desenvolver qualquer atividade laborativa; O setor psicológico avaliou em relação ao apenado, que "percebe-se acomodado, pois não faz planos futuros. Não possui uma estrutura profissional". No que se refere à personalidade do condenado, foi evidenciada "baixa auto-estima, insegurança, falta de objetivo e interesses" e "relativo equilíbrio emocional". A avaliação psicológica conclui que deveria haver uma continuidade do acompanhamento psicossocial do condenado caso fosse concedida a progressão de regime; Como se observa, vários pontos constantes do referido atestado conduzem exatamente no sentido do indeferimento da autorização para a saída temporária e deveriam ter sido observados pela juíza quando da análise do pedido, o que não aconteceu, já que não fez qualquer menção a este em sua decisão. Além do mais ainda permitiu que o condenado passasse 09 (nove) dias ausente sendo que a Lei permite apenas 07 (sete) dias, no máximo.
A magistrada autorizou a saída de Wellington com base fundamentalmente no bom comportamento do preso, atestado por uma certidão que analisa 15(quinze) dias de comportamento prisional de um condenado que já tinha mais de seis anos recluso. Ocorre que muitos juristas afirmam que o bom comportamento deve ser acompanhado de demonstração pelo condenado de senso de responsabilidade e disciplina e que não vai se utilizar do beneficio para freqüentar ambientes nocivos, encontrando-se com antigos companheiros de crime.
Embora constitua um direito, a saída temporária depende da análise criteriosa do magistrado, não devendo ser concedida indiscriminadamente, já que representa uma oportunidade ímpar para o condenado por crime grave e com pena longa a cumprir, como é o caso de Wellington, venha a aproveitar-se para fugir como de fato ocorreu. O processo que apura o assassinato do Sindicalista Dezinho é um exemplo claro da inoperância da segurança pública, do Ministério Público e do Poder Judiciário (reservadas as exceções), quando se trata de punir os responsáveis pelos assassinatos no campo, principalmente se os acusados são fazendeiros e detêm alto poder econômico. Basta ver a trajetória do processo: O pistoleiro só foi preso porque a própria vítima o segurou no momento do crime; a investigação da polícia civil na fase do inquérito ficou pela metade; a polícia civil do Estado nunca moveu uma palha para prender dois intermediários do crime que estão há 07 (sete) anos com prisão preventiva decretada; Otávio Marcelino Maciel, desembargador do Tribunal de Justiça do Pará à época do crime, pôs o fazendeiro Delsão em liberdade sem sequer solicitar informações para a Juíza da Comarca de Rondon que tinha decretado sua prisão, destacando-se que ele recebeu o pedido dia 13.12.2000, e concedeu a liminar no dia seguinte; a promotora Lucinery Helena requereu a absolvição de Delsão ignorando todas as provas existentes no processo contra ele e, estranhamente, saiu da comarca logo após; o Juiz da Comarca de Rondon, Haroldo Fonseca, praticamente, "rasgou o processo" ao impronunciar os dois fazendeiros acusados de serem mandantes do crime e um intermediário (contra essas decisões há recursos no Tribunal aguardando julgamento); o pistoleiro Wellington, que não tinha onde cair morto foi defendido no tribunal do júri pelo escritório do advogado Américo Leal, um dos mais caros do Estado, e nada se apurou sobre quem pagou essa conta; o pistoleiro condenado a 29 (vinte e nove) anos de reclusão, foge da penitenciária.Será que alguma autoridade vai fazer
alguma coisa?
Esse triste retrospécto, que não é um caso isolado, mas uma prática recorrente no Estado do Pará em relação aos crimes no campo, deixa claro a conivência de muitas autoridades responsáveis pela segurança pública e pela administração da justiça, com o crime organizado no campo.
Marabá-PA, 17 de março de 2008.
Federação dos Trabalhadores na Agricultura - FETAGRI regional Sudeste
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rondon.
Comissão Pastoral da Terra - CPT diocese de Marabá
Projetos sobre trabalho escravo empacam há anos no Congresso
Pelo menos 16 projetos de lei relacionados ao tema tramitam no Senado e na Câmara. A maioria está estacionada há mais de dois anos. Levantamento mostra falta de empenho tanto dos membros do Legislativo como do Executivo
Por Beatriz Camargo e Iberê Thenório
Projeto de Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil
06/03/2008
As fiscalizações do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) bateram recorde em número de pessoas libertadas da escravidão em 2007, com 5.877 trabalhadores em 197 fazendas. Trabalho escravo e degradante estão cada vez mais em destaque no noticiário nacional, principalmente pelos recentes flagrantes em fazendas do setor canavieiro - vedete em tempos de coroação dos biocombustíveis. Exemplos disso foram as ações em propriedades do Grupo Carlos Lyra, em fevereirro último no estado de Alagoas; na Usina Debrasa, da poderosa Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool (CBAA), em novembro de 2007, no Mato Grosso do Sul; além do flagrante na fazenda e usina Pagrisa, no Pará, em junho do mesmo ano, que libertou 1.064 trabalhadores.
Enquanto isso, no Congresso Nacional, a maioria das 16 principais matérias ligadas ao combate à escravidão está há mais de dois anos sem dar um passo na tramitação, fora das pautas de plenários e comissões ou aguardando designação de relatores. Nove projetos estão na Câmara e sete no Senado. Apenas cinco deles já passaram da primeira "etapa" e mudaram de uma Casa à outra, dentro do Parlamento que reúne representantes de todo o país.
A PEC 438/2001, conhecida como "PEC do trabalho escravo" é um exemplo do que acontece com projetos de lei (PLs) nas instâncias parlamentares. Aprovada em primeiro turno na Câmara dos Deputados em agosto de 2004, ela aguarda desde atenção a votação em segundo turno no Plenário. Entre todos os projetos sobre o tema que aguardam o crivo de senadores e deputados, é o que tem o andamento mais avançado.
Órgãos governamentais e entidades da sociedade civil de combate à escravidão consideram a PEC 438 um dos projetos mais importantes no enfrentamento a esse crime. Ela propõe mudança na lei que determina a expropriação de terras onde houver cultivo de plantas psicotrópicas ilegais, como a maconha. O trabalho escravo passaria a ser mais um motivo para o confisco, sem indenização.
Além dessa solução, outras propostas parlamentares sugerem aumento das multas e penas mais severas para o crime em questão, além de restrição a créditos financeiros e a contratos com estatais ou empresas mistas.
Projetos estacionados
Em levantamento anterior feito pela Repórter Brasil em junho de 2006, foram identificados 12 Projetos de Lei no Legislativo. De lá para cá, dois PLs foram arquivados, há projetos novos e, dos que já estavam listados, poucos avançaram.
A PEC 438/2001 está na lista de prioridades para este ano encaminhada pelo presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), aos líderes dos partidos. "A aprovação da PEC 438 é uma prioridade dele [Chinaglia]. Mas a matéria é difícil levando-se em conta a mobilização de bancadas contra a PEC. A intenção é chegar a um acordo", informa a assessoria do presidente. Outro obstáculo citado pela assessoria é o excesso de Medidas Provisórias (MPs), que impedem o andamento das pautas da Casa. Segundo o gabinete do presidente da Câmara, são 19 MPs para serem votadas até abril.
A Repórter Brasil entrou em contato com o líder do governo na Câmara Federal, deputado Henrique Fontana (PT-RS), para obter uma avaliação dos planos governistas com relação à PEC 438/2001 e a outras matérias referentes ao tema, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.
A mais antiga das propostas em tramitação é de 1997, de autoria de Paulo Rocha (PT-PA). O PL inclui na definição de trabalho escravo - descrito no Art. 149 do Código Penal - a exploração de mão-de-obra infantil. Está parado desde 2003 na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Outros três PLs que tratam do assunto também estão na mesma CCJ.
Segundo o gabinete do senador Marco Maciel (DEM-PE), presidente da CCJ do Senado, não há perspectivas de avanço dos quatro projetos que estão na comissão: dois aguardando designação de relator e dois esperando para entrar na pauta de votação. "Não existe pressão para que nenhuma matéria sobre esse assunto entre em votação e a Comissão está com um acúmulo de outros projetos para serem tratados", informa a chefia de gabinete.
Na Câmara, há cinco projetos atualmente na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC). Três deles estão empacados desde 2004. O presidente da comissão em 2007 foi o deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ), sócio da empresa Agrovás, que já esteve na "lista suja" do trabalho escravo. Na semana passada, a CCJC escolheu um novo presidente: Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
Na opinião do presidente da subcomissão do Trabalho Escravo do Senado e autor de um dos projetos que tramitam sobre o tema, José Nery (PSol-PA), as matérias têm tramitação lenta porque em alguma medida contrariam o interesse dos parlamentares. "É verdade que tem uma parcela [do Congresso] comprometida com a mudança da legislação para beneficiar os trabalhadores. Mas também é verdade que a maioria está muito distante dessa luta para instituir instrumentos legais para a erradicação do trabalho escravo. Essa postura revela os interesses de classe, do latifúndio", critica.
Para o deputado Eduardo Valverde (PT-RO), que também tem um projeto sobre trabalho escravo, esse assunto é um tabu na Câmara, já que a bancada ruralista, que costuma fazer oposição a essas proposições, é muito bem articulada. Poucos são os que têm coragem de se colocar publicamente contra propostas que combatem o crime, avalia o parlamentar. "Há matérias que são polêmicas, que dão desgastes políticos. Muitos fazem corpo mole, que também é uma forma de negação".
Dando exemplo
Enquanto o Congresso Nacional demora para aprovar propostas que contribuem para o combate ao trabalho escravo, alguns estados saíram na frente. Rio de Janeiro, Piauí, Maranhão e Mato Grosso já sancionaram uma lei estadual que proíbe que órgãos públicos façam contratos diretos ou indiretos com empresas ou pessoas que utilizaram trabalho escravo. Na Câmara, o Projeto de Lei que trata do assunto, de 1996, tramita apensado, com outros 101 projetos, a um projeto de lei que modifica as regras para contratações da administração pública. Não há previsões de andamento dessa proposta.
Veja, no quadro abaixo, quais são os 16 projetos de lei relacionados ao trabalho escravo que tramitam no Parlamento:
PL-2636/2007
Deputado Eduardo Valverde (PT-RO)
Permite que a Justiça do Trabalho tenha competência nos casos de crimes relacionados ao trabalho, como o trabalho escravo e o aliciamento de trabalhadores. Tramita apensado a esse projeto a proposição 2684/2007, do deputado Valtenir Pereira (PSB-MT), que permite ao Ministério Público Federal levar o processo para a Justiça Federal quando houver grave violação aos direitos humanos
A questão é polêmica mesmo dentro da Justiça do Trabalho. Muitos juízes e procuradores avaliam que a possibilidade de julgar crimes traria mais rapidez para condenar casos de trabalho escravo ou aliciamento. Outra parcela considera, porém, que a questão deve continuar nos Foros comum e Federal, pois esse não seria o foco da Justiça trabalhista. O projeto está na Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público (CTASP) da Câmara
PLS 571/2007
Senador José Nery (PSOL-PA)
Propõe a criação de um dia e uma semana nacionais de combate ao trabalho escravo
Em novembro de 2007, teve parecer favorável do senado Paulo Paim (PT-RS) e está pronto para entrar em pauta da Comissao de Educação, Cultura e Esporte da Casa. Ele tem caráter terminativo, ou seja, se aprovado na Comissão vai diretamente para a Câmara. Nery vai conversar com Cristóvam para que o PL seja votado nas próximas semanas
PLS 283/2006
Senadora Serys Slhessarenko (PT-MT)
Muda o Art. 149 do Código Penal, aumentando a pena para quem comete o crime de trabalho escravo, de um mínimo de dois e um máximo de oito anos de prisão para quatro a dez anos, além de multa
Está nas mãos do senador Valter Pereira (PMDB-MS), que é relator da proposta na CCJ do Senado, desde outubro de 2007. O senador ainda não examinou o resumo do projeto para determinar o sentido do parecer, mas já adiantou que tende a ser favorável à matéria
PLS 25/2005
Senador Pedro Simon (PMDB-RS)
Prevê a criação de uma lei para a já existente "lista suja" do trabalho escravo, sem modificar seu funcionamento
A relatoria está sob responsabilidade com o senador Delcídio Amaral (PT-MS) desde 04/10/2007, pela Comissão de Agricultura e Reforma Agrária. Depois dessa comissão, o PL será enviado ao Plenário. Segundo o gabinete de Delcídio, em cerca de uma semana este parecer estará pronto. O senador Pedro Simon tem a expectativa de que, já na próxima semana, o projeto possa ser colocado em pauta na Comissão. Segundo seu gabinete, ele espera que o parecer do senador Delcídio seja favorável
PEC 52 / 2005
Senador Cristóvam Buarque (PDT-DF)
Assim como a PEC 438, pede nova redação para a lei que expropria imóveis onde for encontrado plantações psicotrópicas, incluindo a expropriação também no caso de trabalho escravo ou infantil.
A matéria está pronta para a pauta na CCJ desde novembro de 2007, quando o relator da matéria, Arthur Virgílio (PSDB-AM), aprovou a proposta com a adição de uma emenda. Para assessores do senador, a PEC tem muita chance de entrar logo na pauta em função da importância do assunto. Eles apostam, ainda, que ela será aprovada sem problemas na Comissão, pois a discussão maior será no Plenário da Casa
PLS 9/2004
Senador Marcelo Crivella (PRB-RJ)
Acrescenta na Lei de Crimes Hediondos (nº 8072/1940) o crime de trabalho escravo
Está parado desde maio de 2005 na CCJ do Senado Federal e aguarda a designação de um relator
PEC 265/2004
Deputado Anselmo (PT-RO)
Assim como a PEC 438/2001, prevê expropriação de terras onde houver trabalho escravo. Além disso, a emenda muda o termo "gleba", utilizado hoje nas leis de terra, para "imóvel rural". Gleba é um terreno para cultura, enquanto imóvel rural compreende barracões, e outras instalações da fazenda. Assim, a desapropriação não fica restrita apenas ao trecho em que foram encontradas as irregularidades, mas a toda propriedade
De acordo com a assessoria do deputado Anselmo, o projeto teve dificuldades para tramitar na Câmara, inclusive por causa do desinteresse do presidente da CCJC durante 2007, Leonardo Picciani (PMDB-RJ), sócio da empresa Agrovás, que já esteve na lista suja do trabalho escravo
PLP-203/2004
Deputado Chico Alencar (PT-RJ)
Coloca entre os motivos de inelegibilidade para qualquer cargo político a condenação, em primeira instância, pelo crime de trabalho escravo, entre outros delitos
O projeto está na CCJC da Câmara e aguarda relator. O último andamento foi em março de 2005, quando a relatoria foi designada ao deputado Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA), que não apresentou parecer. Como a matéria foi arquivada em janeiro de 2007 e desarquivada em fevereiro do mesmo ano, é necessária a nomeação de um novo relator
PL-2108/2003
Deputado Walter Pinheiro (PT-BA)
Proíbe que entidades ou empresas brasileiras ou sediadas no Brasil tenham contrato com empresas que exploram formas degradantes de trabalho, como o trabalho escravo ou infantil, em outros países. Em caso de descumprimento, a entidade ou empresa é impedida de firmar contratos com qualquer órgão público, participar de licitações ou se beneficiar de recursos públicos, por um período de cinco anos
Em novembro de 2006, teve parecer favorável do deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP). Desde então, aguarda para entrar na pauta da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara
PL-1985/2003
Deputado Eduardo Valverde (PT-RO)
Altera a lei do trabalho rural (5889/1976), estabelecendo uma multa de R$ 2.500,00 para o empregador que utilizar trabalho escravo. Em caso de reincidência, embaraço ou resistência à fiscalização, emprego de artifício ou simulação com o objetivo de fraudar a lei, a multa será aplicada em dobro. A quantia pode cair pela metade caso o empregador providencie, em no máximo cinco dias, o pagamento dos valores devidos aos empregados, conforme apurar a fiscalização
Está na CCJC da Câmara desde 2004. De acordo com Eduardo Valverde (PT-RO), a proposta tem dificuldades de caminhar porque não há interesse dos deputados, que fazem corpo mole para proposições contra o trabalho escravo
PLS 487/2003
Senador Paulo Paim (PT-RS)
O projeto proíbe órgãos públicos de contratar, conceder incentivos fiscais ou permitir a participação em licitações de empresas que, direta ou indiretamente, utilizem trabalho escravo na produção de bens e serviços
Desde março de 2007, está pronto para entrar na pauta da CCJ do Senado. José Maranhão (PMDB-PB), o relator na comissão, já apresentou relatório com voto favorável à aprovação da matéria
PLS 208/2003 (Senado) ou PL-5016/2005 (Câmara)
Senador Tasso Jereissati (PSDB-CE)
Aumenta as penas para trabalho escravo e aliciamento. No trabalho escravo, a pena passa de um mínimo de dois e um máximo de oito anos para um mínimo de cinco e um máximo de dez anos de prisão. Para o aliciamento, a pena mínima passa de um até quatro anos e a pena máxima chega a oito anos de detenção. Além disso, o escravizador perde o direito a benefícios e créditos governamentais. E também não pode participar de licitações. Equipamentos da propriedade, bem como os bens produzidos com mão-de-obra escrava serão levados à leilão e o recurso gerado será utilizado preferencialmente para fiscalização. Prevê também uma multa de dez salários mínimos por trabalhador flagrado. Em uma das emendas, foi apensado ao projeto uma proposta que transforma o crime do trabalho escravo e aliciamento em crimes hediondos (Apensos: PL 2667/2003 que, por sua vez, tem o apenso PL 3283/2004. Ambos colocam trabalho escravo na lista de crimes hediondos; PL 3500/2004, que proíbe que órgãos públicos e de economia mista destinem recursos a empresas ou pessoas condenadas por trabalho escravo)
Já passou pelo Senado, mas na Câmara está parada na Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público (CTASP). O último andamento foi um parecer favorável de Vicentinho (PT-SP), em outubro de 2005
PL-5487/2001
Senador Ademir Andrade (PSB-PA)
Assim como a PEC 438, propõe o confisco de terra onde for constatado trabalho escravo. A diferença é que ela modifica a lei que regulamenta a Constituição. Está apensado a esse projeto o PL-828/2007, do deputado Marcelo Serafim (PSB-AM), que trata do mesmo tema
O projeto está desde maio de 2004 na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural (CAPADR) da Câmara, pronto para entrar na pauta, depois de parecer pela rejeição assinado pelo deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS) * membro da bancada ruralista e abertamente contra a aprovação da PEC 438
PEC 438/2001
Senador Ademir Andrade (PSB-PA)
Prevê o confisco de terras, sem direito à indenização, em fazendas que se comprove o uso de mão-de-obra análoga à escravidão. As propriedades serão destinadas ao assentamento de famílias para a reforma agrária. Imóveis urbanos em que se flagrem essas atividades também serão desapropriados
Já foi aprovada no Senado e em primeiro turno na Câmara, em agosto de 2004. Precisa ser colocada em pauta para a votação em segundo turno. Requer três quintos ou mais dos votos dos 513 deputados para ser aprovada
PL-3757/1997 (Câmara) ou PLC 97/2003 (Senado)
Paulo Rocha (PT-PA)
Altera a tipificação do crime do trabalho escravo (Art. 149 do Código Penal), incluindo nela o uso de mão-de-obra de menores de 14 anos para fins econômicos, salvo o auxílio em âmbito familiar, fora do horário escolar e que não prejudique a formação educacional
O Projeto não tem andamento nenhum desde dezembro de 2003. Atualmente, espera designação do relator na CCJ do senado.
PL-1292/1995
Senador Lauro Campos (PT-DF)
Altera a lei 8.666/93, que trata de contratos feitos pela administração pública. Está apensado a esse projeto o PL-2022/1996, que proíbe a administração pública de sela contrato com quem, direta ou indiretamente, utilizar mão-de-obra escrava
O andamento do projeto é lento porque há 102 propostas apensadas a ele, que tramitam em conjunto. Desde novembro de 2004, está estacionada na CCJC da Câmara
Carta de Sobradinho: Povos do São Francisco e do Semi-árido se unem pela Vida
Nós, os 93 movimentos populares e organizações sociais e 213 pessoas participantes da Conferência dos Povos do São Francisco e do Semi-árido, realizada em Sobradinho (BA), entre 25 e 27 de fevereiro de 2008, tornamos públicas as discussões e as decisões de continuidade de nossas lutas pela vida do Rio São Francisco e do Semi-árido brasileiro, contra o Projeto de Transposição, ao mesmo tempo em que conclamamos a adesão e a solidariedade de todos e todas.
Escolhemos Sobradinho, como sede da Conferência, pelo seu valor simbólico de resistência, nestes 30 anos da barragem, revivido nos 24 dias de jejum de Dom Luiz Cappio ao final de 2007. A experiência vivida por nós, próximos ou distantes, em torno dele naquela ocasião, sintetizou mística e política, solidariedade e fé, economia e ecologia, reinventou nossas formas de ação e nos colocou em mais alto patamar de luta pela Vida.
Na capela do jejum fizemos a abertura, ao redor de potes e plantas do Semi-árido, juntando terras e águas trazidas pelas delegações, entre as quais água turva do Rio Tietê e terra do Cemitério de Perus, onde eram enterrados ativistas “desaparecidos” durante a ditadura militar e “indigentes” do Povo de Rua de São Paulo.
A Conferência foi organizada e realizada pelos movimentos e organizações sociais, representando os mais diversos segmentos das regiões implicadas e de outras do País e do Exterior, com os objetivos de fazer um balanço destas lutas e suas implicações, consolidar a unidade entre entidades e pessoas nelas envolvidas e definir próximos passos.
Ao analisar a situação atual, mais uma vez rejeitamos este modelo de desenvolvimento predatório e excludente que cada vez mais ameaça o Planeta. No Brasil, é parte essencial das políticas do governo federal que mantém o País na condição de exportador de produtos primários como minérios e produtos agropecuários, entre os quais os agrocombustíveis – uma grande “fazendona” mundial, tal com ocorre desde o período colonial.
Este modelo combina subserviência aos grandes interesses econômicos internacionais com ausência de reais políticas públicas para o Nordeste, em especial o Semi-árido, impondo-lhe mega-obras equivocadas e desnecessárias, tal como a transposição do Rio São Francisco. O “sócio-desenvolvimentismo” do governo Lula não disfarça seu caráter retrógrado, evidente nas obras do PAC – Plano de Aceleração do Crescimento, flexibilização de restrições ao capital, assistencialismo social e cooptação de organizações e movimentos sociais.
Diante deste quadro, definimos os seguintes princípios gerais e as ações que faremos:
1. Acesso a água
Os movimentos sociais e populares do São Francisco e do Semi-árido reafirmam que a água é, em si mesma, um bem e um valor universais e que o acesso a água é direito humano fundamental secularmente negado à população pobre do Semi-árido, a do São Francisco inclusive. O modelo concentrador de água fez construírem muitos e suficientes reservatórios e poucas adutoras e ainda mantém quase metade da população do Semi-árido sem acesso a água.
A democratização do acesso a água deve ser uma política pública prioritária, em todo o Semi-árido, baseada no princípio de que o respeito aos direitos humanos deve ser central em qualquer sociedade e rigorosamente respeitado por qualquer governo. Com ela deve ser fomentada uma nova cultura de água, que evite o desperdício, garanta a reprodução de todas as formas de vida e promova a atitude hidro-ecológica.
2. Revitalização do rio São Francisco
Os povos do São Francisco e do Semi-árido reafirmam a posição de que a revitalização verdadeira do São Francisco é urgente e prioritária, visando recuperar as condições hidro e sócio-ambientais do rio e a sobrevivência de milhões de pessoas e demais espécies que habitam a sua bacia. Para isso é condição essencial cessar o avanço e o descontrole da exploração dos Cerrados e Caatingas.
Reafirmamos que a revitalização não pode ser tratada como um mero projeto fragmentado e paliativo, muito menos propagandístico, mas como um amplo e coordenado programa exaustivamente discutido com a sociedade e a ciência e submetido a rigoroso controle social. É disso que o São Francisco precisa, não de mais um uso abusivo.
3. Transposição do rio São Francisco
Os povos do São Francisco e do Semi-árido rejeitam incondicionalmente a transposição de águas do rio. Esta obra apenas reproduz o modelo centenário de concentração de água, que manterá milhões de pessoas excluídas do acesso democrático a água e a um padrão de vida minimamente digno.
Ao levar mais água para onde já existe é uma obra inútil; ao excluir milhões de pessoas é mais uma obra hídrica injusta desde a sua concepção; e ao destinar as suas águas para fins essencialmente econômicos é uma obra desumana que viola o princípio de que a água é um direito humano fundamental. Esta é a mesma razão pela qual rejeitamos os grandes projetos de irrigação, que apenas favorecem o agronegócio exportador.
4. Convivência Sustentável com o Semi-árido
Os povos do São Francisco e do Semi-árido reafirmam que compreendem a Convivência com o Semi-árido como fundamento de desenvolvimento nos termos contemporâneos mais avançados – um novo paradigma civilizatório. Como tal é dos mais relevantes grandes temas nacionais da atualidade, que interessa e deve ser compreendido por toda a sociedade brasileira.
Rejeitamos o atual modelo de desenvolvimento que há séculos perpetua a concentração de terra, água e renda, excluindo quase metade da população da região. Propomos um modelo de desenvolvimento que seja essencialmente justo, garantindo acesso a terra e a água, baseado na lógica da Convivência com no Semi-árido, com inúmeros programas já testados e comprovadamente eficazes.
NOSSAS AÇÕES
a) Trabalho de base: intensificar em todas as regiões, em especial no Semi-árido Setentrional, mas também em todo o país, em mutirões que congreguem militantes dos vários movimentos e organizações, utilizem novos subsídios acessíveis ao povo, esclareçam a verdade sobre a transposição e as questões mais amplas da água, do hidro-negócio, da revitalização do São Francisco e da questão energética, divulguem as alternativas e fortaleçam a consciência militante e a organização popular.
b)Organização e articulação: realizar Conferências Regionais / Estaduais; criar novos Comitês contra a transposição; ampliar as articulações regionais e da bacia; manter a articulação e a luta conjunta entre o São Francisco e o Semi-árido, tendo como instrumento a Coordenação desta Conferência; trabalhar a partir das demandas e alternativas (Atlas Nordeste da ANA – Agência Nacional de Águas e iniciativas da ASA – Articulação do Semi-Árido), também no São Francisco (programa de revitalização).
c) Comunicação: massificar a discussão sobre os temas São Francisco, Semi-árido e transposição, considerando os três públicos diferentes (urbano, rural e base dos movimentos); empreender uma contra-ofensiva à nova campanha de propaganda do governo federal; envolver as assessorias de comunicação das diversas entidades envolvidas (comissão e rede de assessoria de imprensa e de comunicadores populares); trabalhar mais as rádios e a internet, monitorando e divulgado o que sai na mídia.
d) Enfrentamento: realizar marchas e outros atos criativos, em Brasília e outros locais, aproveitando as datas do Calendário Nacional de Lutas, nas quais inserir os temas São Francisco, Semi-árido e transposição: 8 de março – Dia da Mulher, Abril Vermelho / 17 de abril – Dia Internacional da Luta Camponesa, 1º de maio – Dia do Trabalhador, 10-13 de junho – Jornada das Organizações do Campo e da Cidade; 4 de outubro – Dia do Rio São Francisco.
e) Igrejas: introduzir os temas nas preocupações e atividades pastorais das Igrejas, em especial na Assembléia da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (2-11 de abril), divulgando os subsídíos.
O próximo 1º de Abril nós o transformamos em “Dia da mentira do governo e da verdade do povo”, marco central em nossa agenda de lutas, com atividades de protesto e de proposição em todos os cantos do País.
Na beira do São Francisco, contemplando suas belezas e mazelas, ao fundo a barragem de Sobradinho, demos um “gole d’água” ao rio e nos despedimos selando o compromisso de defender a Vida. Mística, Estudo e Ação, propostos por Dom Luiz Cappio, foram as expressões práticas deste compromisso. Cabaças enfeitadas de fitas coloridas, prenhes de sementes, eram os símbolos que cada delegação levou...
Sobradinho 27 de fevereiro de 2008.
Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA); Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB); Movimento das Mulheres Camponesas (MMC); Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); Movimento Saúde Pirituba – SP (Perupi); Marcha Mundial das Mulheres; Apoinme; Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP); Comissão Pastoral da Terra (CPT); Caritas; Conselho Indigenista Missionário (CIMI); Pastoral da Juventude do Meio Popular(PJMP); PJR; Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB); CEBs; Sefras – Serviço Franciscano de Solidariedade; Serviço Justiça, Paz e Ecologia da Província Franciscana de SP; Serviço Justiça, Paz e Ecologia da Província Franciscana de Imaculada Conceição; Igreja do Carmo (MG); Congregação Filhas de Jesus (Sobradinho/BA); 1ª Igreja Batista (Santa Maria da Vitória/BA); Romaria do Grito dos Excluídos; Misereor; Instituto Regional da Pequena Agricultura Apropriada (IRPAA); Centro Nordestino de Medicina Popular; Consea – PE; Diaconia; PACS; Articulação do Semi-Árido (ASA); ASPTA; CAIS – Centro de Assessoria e Apoio a Iniciativa Social; Rede Ambiental do Piauí; ABAI – Serviço Paz e Justiça; Instituo Palmas; Museu Ambiental Casa do Velho Chico; Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Aracaju; Associação Pequenos Agricultores Cidadania (APAC); AAPMS; CAA – Centro de Assessoria do Assuruá; SASOP; Associação dos Advogados dos Trabalhadores Rurais; EFAs; Centro Terra Mar; Comitê da Bacia do rio Salitre; Ecodebate; Sindicatos de Trabalhadores Rurais; Sindicato dos Trabalhadores em Água e Esgoto no Estado da Bahia (SINDAE); Pólo Sindical Submédio São Francisco; SINTECT-PE (Sindicato dos Trabalhadores da Empresa de Correios e Telégrafos); Sintagro/BA; Sindprev/RJ; APLB – Sindicato de Santa Maria da Vitória; Fórum Permanente da Bahia em Defesa do São Francisco; Frente Cearense por uma Nova Cultura de Água Contra a Transposição; Frente Paraibana em Defesa da Terra, das Águas e dos Povos do Nordeste; Comitê Paulistano Contra a Transposição; CESE; KOINONIA; ABCMAC – P1+2;ACIDES; AMIDES; Água Viva; Paróquias: Campo Alegre de Lurdes/BA, Sobradinho/BA, São Francisco de Assis/BA, Paulo Afonso/BA, Nossa Senhora das Dores; SECON; Rede Social; Jornal: Brasil de Fato; Conlutas; Diretório Central dos Estudantes de Minas Gerais; Consulta Popular; PSOL; PSTU; PUC Minas; DCE UFMG; Universidade de Innsbruck – Instituto de Geografia; UNB; Federação Argentina de Estudantes de Agronomia; Executiva Nacional dos Estudantes de Veterinária; Grupo Nascer (UFMG); Lições da Terra (PUC Minas); FEAB; Geografar – UFBA; UFS – Campus Itabaiana (SE); UNEB; Povos indígenas – Pipipã, Truká e Tupã; Comunidades: Quilombolas, Vazanteiros, Geraiseiras, Catingueiras e pescadores; Colônia de Pescadores: Z-20 (Ibiaí/MG); Juazeiro, Z-07 (Neópolis/SE); Federação dos pescadores de Alagoas; Reserva Extrativista São Francisco – Serra do Ramalho.
SAIBA MAIS SOBRE A TRANSPOSIÇÃO, NESTE SITE: em ACONTECEU e NA MÍDIA .
Mais de 450 pessoas são resgatadas de fazendas em Alagoas
Na Usina Laginha, 53 pessoas trabalhavam em em situação degradante; empresa pertence ao tradicional Grupo João Lyra, de Alagoas. Na mesma operação, fiscais libertaram mais de 400 trabalhadores em outra fazenda
Repórter Brasil
Por Iberê Thenório
27/02/2008
Aos pés da Serra da Barriga, em Alagoas, nas cercanias do local que abrigou o Quilombo de Palmares, fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) libertaram, na última sexta-feira (22), 53 pessoas que trabalhavam em condições degradantes. Elas eram empregadas da usina de cana Laginha, que fica em União dos Palmares (AL) e faz parte do Grupo João Lyra, tradicional conglomerado de empresas da região.
"O alojamento é de alvenaria, mas é muito sujo, fedido. Os trabalhadores não recebem colchões, mas espumas velhas, rasgadas, que quando se aperta com a mão, dá pra encostar um dedo no outro.", relata o auditor fiscal do trabalho Dercides Pires da Silva, que chefiou a operação na fazenda que fica no município a cerca de 85 km da capital Maceió.
De acordo com o auditor, outro problema grave encontrado foi a condição dos equipamentos de proteção individual (EPIs). "Eles estavam muito danificados. Eram botas furadas, luvas, toucas e mangotes rasgados. Encontramos trabalhadores que não tinham um equipamento sequer", conta.
Na mesma operação, os fiscais também encontraram condições de trabalho degradantes na Usina Santa Clotilde, localizada no município de Rio Largo (AL), onde foram resgatadas mais de 400 pessoas. Como a fiscalização ainda está em curso, os auditores do MTE ainda não calcularam o número exato de trabalhadores libertados na usina.
Em ambas as empresas, havia centenas de empregados que moravam na região, e a condição deles não foi considerada degradante porque não utilizavam os alojamentos. Para os trabalhadores resgatados, os auditores propuseram uma rescisão indireta do contrato de trabalho, o que obriga a empresa a demitir os funcionários em condição degradante e a pagar os direitos trabalhistas no ato do desligamento. Também é garantido aos libertados o recebimento de cinco parcelas do seguro-desemprego. As empresas, contudo, não concordaram com essa decisão, e vão recorrer à Justiça.
Liminares
A primeira providência do grupo móvel em ambas as usinas foi a interdição do corte da cana até que as irregularidades trabalhistas fossem resolvidas. Porém, as duas empresas conseguiram liminares para autorizar a continuidade dos trabalhos. A liberação na Santa Clotilde foi obtida junto à Justiça do Trabalho; e a da Laginha, na Justiça Federal.
Para o procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho (MPT) em Alagoas, Rodrigo Alencar, a liminar concedida pela Justiça Federal é irregular. "A Constituição é claríssima nesse ponto: compete à Justiça do Trabalho julgar as penalidades impostas pelo MTE", argumenta. O procurador também informa que o MPT ajuizará uma ação contra as usinas pedindo indenização por danos morais coletivos. Rodrigo e mais sete procuradores do MPT estiveram presentes na fiscalização. Eles integram uma força-tarefa que a instituição criou para apurar irregularidades no setor sucroalcooleiro no Brasil.
Em novembro de 2007, o MPT já havia firmado um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com a usina Laginha, depois que trabalhadores fizeram um protesto bloqueando a rodovia BR-104 por mais de 10 horas. Entre os 20 itens de compromisso assumidos pela empresa estava o fornecimento de equipamentos de proteção novos assim que os velhos se desgastassem. O documento ainda previa multa de R$ 10 mil por cada item descumprido.
Poder econômico
O ex-deputado João Lyra é o dono do grupo que leva seu nome. O conglomerado reúne dez empresas e, além da cana, também atua nos setores automobilístico, de transportes aéreos e hospitalar. Em 2006, quando concorreu ao governo de Alagoas pelo PTB, Lyra era o segundo candidato mais rico do país, com bens declarados no valor de R$ 236 milhões. Ele ficou em segundo lugar nas eleições, com 30,5% dos votos, perdendo no 1o turno para o atual governador, Teotonio Vilela, do PSDB, que obteve 55,8%.
A família Lyra é centenária e uma das mais ricas de Alagoas. O irmão do empresário, Carlos Lyra, é dono de outro grupo empresarial, que se declara o segundo maior produtor de açúcar do país. João Lyra também é pai de Thereza Collor, viúva de Pedro Collor, irmão do ex-presidente da República Fernando Collor de Mello, e pai de Lurdinha Lyra, vice-prefeita de Maceió.
Em seu site oficial, o Grupo João Lyra declara que, na usina Laginha, "o processo produtivo segue rigoroso controle agrícola e industrial com base na política de produção do Grupo, que tem entre seus valores quesitos como qualidade, produtividade, respeito ao meio ambiente e retorno social."
A Repórter Brasil procurou os representantes das duas usinas fiscalizadas, mas foi informada que os responsáveis já não se encontravam mais na empresa no horário da ligação.
BNDES reforça compromisso de não financiar empresas da "Lista Suja"
Banco inclui cláusula social em seus contratos e exige como condição prévia a inexistência do nome da empresa na "Lista Suja"; mudança é resposta a reivindicações da sociedade civil.
Repórter Brasil
Por Iberê Thenório
20/02/2008
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou que irá reforçar os mecanismos de combate à discriminação de raça ou de gênero, ao trabalho infantil e ao trabalho escravo. Em cerimônia realizada na última sexta-feira (14), o presidente da instituição, Luciano Coutinho, declarou que o banco passará a impor cláusulas sociais nos contratos firmados com empresas.
Apesar de não ser signatário do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo - documento em que instituições se comprometem a manter o trabalho escravo longe dos seus negócios -, o BNDES já consultava a "Lista Suja" do trabalho escravo antes de aprovar financiamentos. Essa lista reúne empregadores que cometeram esse crime, e é divulgada desde 2003 pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
A partir de agora, a consulta ao cadastro passa a figurar entre as cláusulas do contrato de financiamento. Caso o nome do empregador conste na lista, o financiamento é negado. O contrato também pode ser cancelado após a assinatura se o empregador for condenado pela utilização de trabalho escravo, e o processo tenha transitado em julgado. Nesse caso, é cancelado o repasse de recursos do BNDES e a empresa é obrigada a pagar no ato o saldo devedor. De acordo com nota publicada pela instituição, essas cláusulas sociais podem dar mais agilidade ao banco no momento de suspender contratos.
Em 2007, o BNDES liberou 5 bilhões de reais para empreendimentos agropecuários, R$ 4,3 bilhões para a indústria alimentícia e R$ 3,2 bilhões para o setor metalúrgico. Classificam-se dentro dessas atividades econômicas a maior parte das empresas que hoje figuram na "Lista Suja" do trabalho escravo, e os financiamentos correspondem a 19,5% do valor total desembolsado pelo banco no ano passado.
Transparência
Além da mudança nos contratos, o BNDES anunciou também a criação do projeto Janela da Transparência, que disponibiliza na Internet informações sobre as 50 maiores operações de financiamento a empresas.
Tanto as cláusulas sociais como a publicação dos dados na Internet respondem a reivindicações de organizações da sociedade civil. Por meio de um conjunto de propostas chamado de "Plataforma BNDES", lançada em julho de 2007, 27 instituições questionam a política de financiamento do banco, e propõem mudanças para que o BNDES se torne mais transparente e voltado ao desenvolvimento social.
"Preconizamos que o Banco não apenas deve, mas precisa abrir suas portas ao diálogo com a sociedade, sob pena de, caso rume em sentido contrário, ser totalmente capturado pela lógica de mercado, o que esvaziaria o caráter público indispensável ao financiamento de um tipo de desenvolvimento, como já dissemos, democrático e justo com a maioria da população brasileira", diz um trecho do documento.
Amparo ao trabalhador
A inclusão de cláusulas contra o trabalho escravo nos contratos do BNDES demonstra coerência com a origem dos recursos do banco. Atualmente, cerca de 40% do dinheiro gerido pela instituição vêm do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Em 31 de dezembro de 2007, o saldo de recursos do FAT no Sistema BNDES era de R$ 105,66 bilhões.
É para esse fundo que é destinada grande parte das indenizações obtidas em acordos e ações civis públicas movidas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) em casos de trabalho escravo e degradante.
O descontentamento com a política de financiamento do BNDES fez com que muitos procuradores do MPT começassem a dirigir as verbas de indenizações a projetos locais, que beneficiassem diretamente as comunidades dos trabalhadores encontradas em situação análoga à escravidão.
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SITE REPÓRTER BRASIL
Por Lúcio Lambranho, do Congresso em Foco
13/02/2008
Servidão por dívidas e restrição à liberdade dos trabalhadores. Aliciamento irregular para trabalho temporário. Alojamentos e refeitórios sem as mínimas condições de higiene. Ausência de equipamentos de proteção individual e pulverização aérea de agrotóxico sobre os trabalhadores.
Essas irregularidades foram encontradas nas 621 ações de combate ao trabalho escravo do governo federal que libertaram mais 27 mil trabalhadores em todo o país desde 2005. Mas um desses casos, desconhecido até então, desperta a atenção por envolver uma família que tem o seu nome associado exatamente à responsabilidade social.
Trata-se da fazenda Campo Aberto, que pertence ao empresário Milton da Silva, pai do tricampeão de Fórmula 1 Ayrton Senna, e a outros dois sócios de um mega-empreendimento rural de mais de 6 mil hectares localizado em Barreiras, no oeste baiano.
"Nós, que defendemos práticas socialmente eficazes na Fundação Ayrton Senna, não podemos deixar de dar o exemplo em nossas empresas", disse Leonardo Senna, irmão de Viviane Senna, presidente da ONG criada em 1994, em entrevista à revista Dinheiro Rural em janeiro de 2006.
A reportagem sobre a fazenda é usada na ação civil pública do Ministério Público do Trabalho (MPT), que acusa o pai de um dos maiores ídolos do esporte nacional de manter 82 trabalhadores em condição análoga à de escravo (saiba mais sobre as irregularidades apontadas).
"Essa visão do melhor dos mundos, que alia tecnologia, produtividade e responsabilidade social, tão bem retratada pela mídia especializada, não é bem aquela encontrada pelo grupo especial de fiscalização móvel para erradicação do trabalho escravo, do Ministério do Trabalho e Emprego", escreve o procurador Paulo Germano Costa, na denúncia, de 18 de junho de 2007.
Em seu site, o Instituto Ayrton Senna afirma ter beneficiado mais de 1,3 milhão de crianças e adolescentes em projeto sociais em 2007. A assessoria de imprensa da ONG disse ao site que Viviane Senna estava de férias no exterior e que não iria se pronunciar sobre o caso. Segundo a assessoria, Viviane é porta-voz do Instituto, e não da família.
Infrações
Considerada a "jóia" dos negócios rurais da família Senna, a propriedade recebeu, durante dez dias de inspeção, em março de 2007, 29 autos de infração do grupo móvel especial de combate ao trabalho escravo do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Duas ações (leia a íntegra de uma delas) na Justiça do Trabalho de Barreiras, em fase final de julgamento, cobram dos donos do empreendimento rural R$ 600 mil por dano moral coletivo e mais R$ 110 mil em indenizações trabalhistas por cada um dos trabalhadores libertados durante a fiscalização do MTE.
O dinheiro referente aos salários e às verbas rescisórias dos 82 empregados libertados ainda não foi pago, pois os sócios se recusaram, durante a inspeção, a reconhecer a acusação de trabalho escravo.
"Talvez seja pela questão da 'lista negra, mas o responsável pela empresa se retirou da negociação no ato do resgate dos trabalhadores", explica o procurador do Trabalho em Barreiras, Luciano Leivas, que acompanha o processo.
"Conversa fiada"
A "lista negra" à qual o procurador se refere é mais conhecida como a "lista suja" do Ministério do Trabalho, divulgada a cada seis meses. O nome do infrator só entra no cadastro após a conclusão do processo administrativo gerado pela fiscalização que libertou os trabalhadores.
As sanções podem atingir o bolso dos empregadores. Mais de 100 empresas e associações que assinaram o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo se negam a comprar, direta ou indiretamente, mercadorias produzidas por fazendas incluídas na "lista suja". Entre elas, estão gigantes dos setores varejista e atacadista do país.
Conforme mostrou o Congresso em Foco em outubro do ano passado, empresas autuadas por manter trabalhadores em condições análogas à de escravo doaram R$ 897 mil para a campanha eleitoral de 25 candidatos em 2006 (leia mais).
Doação para deputado
Um dos sócios do pai de Ayrton Senna na fazenda Campo Aberto, Ricardo Ferrigno Teixeira, que administra o empreendimento rural, doou R$ 20 mil para campanhas políticas em 2006.
Uma dessas doações, no valor de R$ 10 mil, foi para a reeleição do deputado João Leão (PP-BA), vice-líder do governo no Congresso. Segundo Leão, essa contribuição foi apenas parte de um total de R$ 200 mil que ele recebeu da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) durante sua campanha.
"Ainda não tive o prazer de conhecer o senhor Ricardo e sua fazenda", disse o deputado. "Eu não acredito nessa história de trabalho escravo no oeste da Bahia. É conversa fiada. Isso é folclore", afirmou Leão ao site.
A outra doação, também de R$ 10 mil, foi para Eduardo Seixas de Salles (PP), candidato a deputado estadual que não se elegeu. Ele figura como suplente na Assembléia Legislativa da Bahia.
Em entrevista ao Congresso em Foco, Ricardo Ferrigno preferiu não dar detalhes sobre a defesa protocolada por seus advogados no processo. Mas informou que "o quadro pintado pelos fiscais" não é verdadeiro. "Anexamos documentos que provam pagamento de salários e rescisões de funcionários. Como podemos ser acusados de fazer servidão por dívidas?", contesta o administrador da fazenda.
Para comprovar a servidão por dívidas, os fiscais do MTE citam o depoimento de Elessandio Santos de Souza, um dos trabalhadores libertados na fiscalização. "Que queria sair da Fazenda Campo Aberto porque o valor da empreita estava muito barato; que em 2004 comprava mercadorias na cantina da Fazenda; que o valor das mercadorias era diretamente descontado do salário do depoente".
Negociação
Em outubro de 2007, o Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região (TRT-5) acolheu as alegações dos procuradores do MTE e determinou que os proprietários da fazenda cumprissem uma série de obrigações legais enquanto as ações indenizatórias não são julgadas.
Entre as medidas que os donos da Campo Aberto, consórcio rural que exporta soja e milho para a Itália e a Alemanha, tiveram que cumprir está a construção de alojamentos e locais de refeições em condições adequadas de conservação e higiene.
Temendo a repercussão negativa do caso, os sócios iniciaram uma negociação para a venda da fazenda para o grupo paulista Cosan, considerado o maior exportador de açúcar e de álcool do mundo. A informação foi confirmada ao site por um dos advogados da Campo Aberto, Vagner de Oliveira.
"Sei que teve essa negociação, mas não sei se avançou", disse o advogado. A reportagem tentou, desde o dia 29 de janeiro, contato com o outro advogado da família Senna que também atua na ação, Márcio Rogério de Oliveira. Mas ele não retornou os pedidos de entrevista.
Um dos sócios da família Senna no condomínio rural, Ubirajara Guimarães, conhecido como Bira, disse ao Congresso em Foco que não há nenhuma negociação para a venda da fazenda. "Não tem nada a ver. É uma fazenda muito produtiva, uma fazenda-modelo."
Bira disse que o negócio está dividido em 50% para o pai do ex-piloto de Fórmula 1 e 25% para ele os outros 25% para Ricardo Ferrigno Teixeira, filho de Armando Teixeira Botelho, ex-empresário de Ayrton no automobilismo. "Lugar 100% você nunca vai encontrar", disse o empresário.
O grupo Cosan, por meio de sua assessoria de imprensa, informou que não poderia dar informações sobre transações desse tipo por ter ações no mercado financeiro, o que impede a divulgação de negócios ainda não concretizados.
Caso Pagrisa
No ano passado, o Congresso se envolveu em uma grande polêmica por causa do trabalho escravo. Uma comissão externa foi criada no Senado para apurar supostos abusos cometidos pelo grupo móvel do MTE na libertação de 1.064 trabalhadores mantidos em condições análogas à de escravo na fazenda da Pagrisa (Pará Pastorial e Agrícola S/A).
Convidados pelos donos do empreendimento, os integrantes da comissão visitaram a fazenda e retornaram a Brasília alegando que as condições oferecidas aos trabalhadores eram as melhores possíveis. Em protesto, o grupo móvel suspendeu suas ações por 20 dias, entre setembro e outubro.
Desde outubro, os trabalhos do colegiado não avançaram. O presidente da comissão, Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), renunciou ao cargo em novembro. Depois disso, segundo apurou o site, um grupo de senadores pediu ao ministro do Trabalho, Carlos Lupi, uma nova fiscalização na Pagrisa. O pedido, no entanto, não foi aceito pelo ministro, que ressaltou que o grupo móvel, ao contrário dos parlamentares, não faz visitas programadas aos locais passíveis de autuação.
Assim como na Pagrisa, principal produtora de álcool e açúcar do Pará, mais da metade dos lavradores resgatados no ano passado em todo o país trabalhava no cultivo da cana-de-açúcar. Segundo o MTE, dos 5.877 trabalhadores libertados em 197 fazendas brasileiras em 2007, 2.947 estavam distribuídos em quatro usinas de sucroalcooleiro.
PROGRAMA DE REINSERÇÃO EMPREGA 104 LIBERTADOS DA ESCRAVIDÃO
Mais de cem pessoas resgatadas de fazendas no Maranhão e no Pará foram contratadas por siderúrgicas do Pólo Carajás em programa de reintegração de força de trabalho promovido pelo Instituto Carvão Cidadão
REPÓRTER BRASIL
12/02/2008
Por Iberê Thenório
Com carteira assinada e direitos trabalhistas garantidos, 104 trabalhadores libertados da escravidão ganharam novos empregos em 2007. Eles foram admitidos em siderúrgicas do Pólo Carajás, no Pará e no Maranhão. A reinserção faz parte de um programa de reintegração social promovido pelo Instituto Carvão Cidadão (ICC), criado e mantido por 14 produtoras de ferro gusa do Carajás.
Os novos empregados foram selecionados a partir de uma relação fornecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) com pessoas resgatados de diferentes atividades rurais e moradores do Pará e Maranhão. Depois que os libertados voltaram para casa, o ICC realizou entrevistas e direcionou os trabalhadores para vagas de trabalho nas siderúrgicas da região.
A empresa que mais empregou trabalhadores egressos da escravidão foi a Siderúrgica Norte Brasil - Sinobras, localizada em Marabá (PA), que admitiu 22 pessoas em 2007.
Com salários iniciais entre R$ 389,90 e R$ 700,00, os cargos oferecidos requerem baixa qualificação. Das 104 vagas criadas, 78 são para ajudantes gerais. "A maioria [das pessoas contratadas] é analfabeta, muitas vezes não sabe nem assinar o nome, e não tem carteira de identidade, CPF.", relata Ornedson Carneiro, diretor do ICC.
Essa é a segunda leva de libertados da escravidão que foi contratada por meio da reinserção de trabalhadores realizada pelo Instituto. Em 2006, 46 pessoas foram empregadas por meio do programa.
Carvoarias
Até o final de 2007, os produtores de carvão representavam 12% dos empregadores incluídos na "lista suja" do trabalho escravo. Nesse cadastro, divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), figuram pessoas e empresas que foram flagradas utilizando esse tipo de mão-de-obra.
As libertações em carvoarias estão concentradas em regiões próximas a siderúrgicas, principalmente no Pólo Carajás, onde há alto consumo de carvão vegetal para a produção de ferro gusa. Hoje, há quatro siderúrgicas incluídas na "lista suja": Cofergusa (Indústria e Comércio de Ferro Gusa União), Simara (Siderúrgica Marabá S.A.), Simasa (Siderúrgica do Maranhão S.A) e Itasider Usina Siderúrgica Itaminas SA. Todas elas entraram nesse cadastro por comprar carvão de empresas que empregavam trabalho escravo. Com exceção da última, todas fazem parte do Pólo Carajás.
No entendimento do MTE, do Ministério Público do Trabalho (MPT) e de acordo com decisão recente da Justiça do Pará, as produtoras de ferro gusa também são responsáveis pelas condições dos trabalhadores no carvão, pois a produção da matéria-prima faria parte da atividade-fim das siderúrgicas. Depois de muita negociação, o governo do Pará publicou instrução em que exige comprovação prévia de carvão para autorizar a produção de gusa.
Lista própria
Para evitar problemas como esse, o próprio ICC fiscaliza fornecedores de carvão e divulga uma lista de locais nos quais foram constatadas irregularidades trabalhistas graves. Atualmente, esse relatório que contém 275 carvoarias é enviado para as siderúrgicas, que assumem a responsabilidade de eliminar ou não o fornecedor de sua cadeia produtiva.
De acordo com o diretor do ICC, as siderúrgicas têm restringido o número de empresas das quais compram carvão: "Quando começamos o nosso trabalho [em 2004], as 14 siderúrgicas tinham cerca de 1,6 mil fornecedores. Hoje elas têm pouco mais de 500. A maioria das siderúrgicas também começou a plantar eucalipto e produzir o próprio carvão", relata.
Estados problemáticos
Segundo estatísticas da Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Pará é hoje o estado recordista em libertações de trabalhadores escravos. Desde 1995, quando o grupo móvel começou suas atividades, já foram resgatadas 10.242 pessoas no estado, isto é, 35,9% de todos os trabalhadores libertados no país.
O Maranhão, por sua vez, é a principal origem das pessoas encontradas em situação análoga à escravidão. Números do MTE mostram que, de 2003 até abril de 2007, 34,29% dos libertados pelo grupo móvel eram do Maranhão.
Sociedade Civil exige imediata indenização de familiares de vítimas da explosão de fábrica de fogos na Bahia
Boletim Eletrônico da Justiça Global 31 de janeiro de 2008 - nº 02 www.global.org.br
O Estado brasileiro não apresentou o cronograma de cumprimento da reparação às famílias de vítimas da explosão da fábrica de fogos em Santo Antônio de Jesus (BA) acordada em Washington, D. C., em 26 de outubro de 2006.
Até agora não houve nenhum acordo sobre o pagamento da indenização dos familiares das vítimas da explosão da fábrica de fogos, incluindo a ação judicial contra a União em trâmite na Justiça Federal. As organizações peticionárias – Movimento 11 de Dezembro, Fórum de Direitos Humanos de Santo Antônio de Jesus e a Justiça Global – encaminharam ofício à Secretaria Especial de Direitos Humanos – que aceitou intermediar o encontro – solicitando a reunião de emergência com a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, para exigir a imediata liberação de verba destinada à indenização das famílias.
O Estado brasileiro deve apresentar com urgência prazos e metas para os seguintes itens de reparação: 1) tratamento médico e psicológico aos sobreviventes e familiares das vítimas, incluindo cirurgias plásticas aos sobreviventes; 2) ato público de reconhecimento do Estado brasileiro acerca de sua responsabilidade na tragédia e mortes, com pedido de desculpas aos sobreviventes e familiares de vítimas; 3) indenização pecuniária aos sobreviventes e familiares de vítimas, inclusive a ação judicial contra a União em trâmite na Justiça Federal, seção judiciária do estado da Bahia.
Entenda o caso
No dia 11 de dezembro de 1998, a explosão de uma fábrica de fogos clandestina chocou a cidade de Santo Antônio de Jesus, na Bahia, matando 64 pessoas – a maioria mulheres e crianças. Passados quase dez anos, os acusados pela explosão da fábrica de fogos ainda não foram levados a julgamento.
A fábrica de fogos pertencia ao empresário Osvaldo Prazeres Bastos, conhecido como “Vardo dos Fogos”, e indiciado pelo Ministério Público como o principal acusado pela explosão. O empresário armazenava material explosivo ilegalmente e produzia fogos de artifício sem quaisquer condições de segurança.
Sobre o julgamento de Osvaldo Prazeres Bastos, o Tribunal de Justiça julgou favorável o pedido de transferência do júri de Santo Antônio de Jesus para Salvador feito pelo Ministério Público da Bahia. O julgamento em Salvador, no entanto, continua sem previsão.
Desde 2001 tramita na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA uma denúncia contra o Brasil em razão da ausência de fiscalização e da permanência da impunidade no caso. Em 2006, em audiência realizada em Washington, o Estado Brasileiro assumiu a sua responsabilidade na explosão da fábrica e iniciou o processo de solução amistosa.
O Brasil vem realizando reuniões do Grupo de Trabalho responsável pela implementação da solução amistosa, mas pouco se avançou. Cerca de 10 mil pessoas continuam arriscando suas vidas na produção de fogos seja no quintal de suas casas ou em fábricas clandestinas.
Declarações homofóbicas de deputado contra relator especial são denunciadas à ONU
A Justiça Global e o mandato do deputado estadual Marcelo Freixo denunciaram à Hina Jilani, representante especial do secretário-geral da ONU para Defensores de Direitos Humanos, as declarações ofensivas e homofóbicas do deputado estadual Marcos Abraão (PSL/RJ) a respeito do relator das Nações Unidas sobre execuções sumárias, arbitrárias e extrajudiciais, Philip Alston, durante sua visita ao Brasil.
Em 21 de novembro de 2007, o deputado Marcos Abraão durante discurso na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, em que tentou desqualificar o relator da ONU Philip Alston, revelou sua postura homofóbica, preconceituosa e discriminatória: “esses idiotas da ONU, esses antropólogos e ‘veadinhos’ estão sempre falando nos jornais; alguns jornalistas idiotas, imbecis falam de Segurança Pública, mas são todos uns asnos. Nenhum deles entende qualquer coisa de Segurança Pública, muito menos esse “veadinho” da ONU – ele tem que ser tratado assim, por ter falado o que falou. Chamo de “veadinho” porque deve ser uma bela “bicha”, daquelas bem arrependidas! Não dá para entender por que esse tipo de pessoa quer atrapalhar um processo que caminha bem”. Logo após a declaração, o parlamentar disse que não estava atacando os homossexuais, pois tem amigos gays que “são muito mais homens” que os tais “veadinhos” a que se referia.
Philip Alston esteve em visita ao Brasil no período de 4 a 14 de novembro de 2007. O relator veio ao país em missão oficial para investigar casos de execução sumária relatadas nos últimos anos por diversas organizações não governamentais, entre elas a Justiça Global. A visita incluiu os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e o Distrito Federal.
Alston ouviu denúncias de moradores de comunidades em situação de conflito, familiares de vítimas urbanas e rurais e representantes da sociedade civil. O relator encontrou-se ainda com autoridades na área de segurança pública, mas não foi recebido pelo governador do estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Em São Paulo, Philip Alston esteve com um representante da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) que denunciou crimes homofóbicos ocorridos no Brasil.
Em comunicado à imprensa, em 14 de novembro, o relator das Nações Unidas condenou os crimes que envolvem agentes do estado. Em especial, o relator expressou a preocupação com a política de segurança pública posta em prática pelo governo Sérgio Cabral que tem resultado em muitos casos de execuções sumárias.
O deputado Marcos Abraão foi acusado de ser mandante do assassinato do colega Valdeci Paiva de Jesus, pastor da Igreja Universal. O parlamentar Valdeci Paiva de Jesus foi morto em 24 de janeiro de 2003 com 19 tiros, perto da sede do PSL na zona norte do Rio de Janeiro. Abraão era suplente do deputado assassinado e, por isso, assumiu a vaga na Assembléia Legislativa do Rio.
Execução de mais um jovem negro no Rio é comunicada às Nações Unidas
Era uma noite do dia 30 de novembro de 2007. Após um dia de trabalho numa lanchonete, Leonardo Souza Santos, negro, 17 anos, saiu de casa no Morro Azul, no bairro do Flamengo (RJ), para comprar sanduíches. Foi executado com oito tiros por agentes do Serviço Reservado da Polícia Militar, a P2.
A mãe do jovem, Doralice Maria de Souza, viu quando os policiais arrastaram o corpo do filho até outro ponto da favela, onde plantaram uma pistola 9 mm na mão da vítima e dispararam, simulando um tiroteio. A execução foi denunciada pela Justiça Global ao relator da ONU sobre execuções sumárias, arbitrárias ou extrajudiciais, Philip Alston.
Depois de simularem o tiroteio, os policiais colocaram o corpo de Leonardo dentro do porta-malas e o levaram para o hospital. A morte de Leonardo foi registrada no Boletim de Ocorrência na 9ª Delegacia de Polícia (9ª DP) como mais um caso de auto de resistência.
A versão da polícia publicada na imprensa é contraditória. No dia 1º de dezembro, afirmaram que agentes realizaram uma operação no local para atender uma denúncia sobre suposta invasão de traficantes de outras favelas. Os agentes policiais teriam enfrentado resistência de homens armados de fuzil, pistola e metralhadoras na entrada do Morro Azul e, por isso, revidaram aos ataques gerando a troca de tiros.
No dia seguinte, a própria Policia Militar negou que tivesse havido alguma operação na comunidade e informaram que os agentes faziam o policiamento de rotina.
A Justiça Global manifesta profunda preocupação com a política de segurança pública posta em prática no Rio de Janeiro.Em 2007 foram registrados oficialmente 1260 autos de resistência, apresentando uma elevação em relação a 2006, quando 1063 pessoas foram mortas durante ações da polícia. Grande parte dos chamados autos de resistência se traduz em execuções por parte da polícia, como aconteceu na chacina do Complexo do Alemão, quando 19 pessoas foram mortas durante uma mega operação da polícia em junho de 2007.
ONU recebe denúncia sobre uso de bastão de tortura com a inscrição “Direitos Humanos”
A Justiça Global encaminhou à Relatoria de Tortura e Outros Tratamentos Cruéis, Desumanos e Degradantes da ONU informações sobre a apreensão de aparelhos de tortura com a inscrição “direitos humanos” durante operação policial no Rio de Janeiro.
Durante operação policial realizada no dia 07 de janeiro de 2008, nos bairros de Campo Grande, Inhoaíba e Cosmos, zona oeste do Rio de Janeiro, foram encontrados diversos instrumentos de tortura em veículo utilizado por integrantes da milícia local . Um dos objetos de tortura era um bastão de beisebol com a inscrição “direitos humanos” em tinta preta.
As milícias são grupos armados que promovem o controle de diversas comunidades do Rio de Janeiro através da coação armada da população. Esses grupos são formados, em sua maioria, por policiais militares e civis da ativa e aposentados, bombeiros, seguranças e guardas municipais. Tais grupos ampliaram sua ação no estado com a conivência do poder público que justifica a atuação ilegal das milícias como forma de combater o tráfico de drogas. E utilizam muitas vezes o equipamento de segurança do estado, como armas e carros, para dominar comunidades do Rio de Janeiro.
As milícias coagem os moradores a pagar taxas em troca de proteção, assim como de outros serviços como televisão paga, transporte, gás e jogos eletrônicos (caça níqueis). As lideranças locais e moradores que se opõe à atuação da milícia muitas vezes são torturados, expulsos das comunidades ou mortos.
No documento encaminhado à ONU, a Justiça Global informa que a tortura é uma prática comum realizada por milicianos contra pessoas que se opõem de alguma forma ao domínio armado que esses grupos estabelecem em comunidades do Rio de Janeiro.
Após 13 anos, assassino de irmãos Canuto é preso no Maranhão
O pistoleiro José Ubiratan Matos Ubirajara, ex-Policial Militar, condenado pelo Tribunal do Júri de Belém, em 1994, a 50 anos de reclusão pelo duplo assassinato dos irmãos sindicalistas de Rio Maria (Pará), José e Paulo Canuto, e pela tentativa de homicídio contra Orlando Canuto, foi preso em dezembro de 2007, na cidade de São Luís, no Maranhão.
Ubiratanfazia parte do grupo de pistoleiros que em abril de 1990 seqüestrou os irmãos Canuto e executou os dois primeiros e feriu gravemente Orlando, que conseguiu fugir e sobreviveu. Quatro anos após o crime, Ubiratan foi julgado e condenado a 50 anos de prisão, mas estava foragido. A prisão foi realizada após simulação do caso no Programa Linha Direta, exibido pela TV Globo.
José, Paulo e Orlando eram filhos de João Canuto, ex- presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria, assassinado a mando de fazendeiros em 18 de dezembro de 1985.
ACONTECE
O Fundo Brasil de Direitos Humanos (FBDH), organização que apóia iniciativas, movimentos e pequenas organizações de direitos humanos, lançou o edital de financiamento para novos projetos em 2008.
O FBDH foi criado em dezembro de 2005 a partir da iniciativa de quatro defensores dos direitos humanos no Brasil – o ex-bispo de São Félix, Dom Pedro Casaldaliga, o artista, escritor, poeta e militante do movimento negro, Abdias Nascimento, a feminista Rose Marie Muraro e a ex-dirigente da Comissão de Justiça e Paz da Diocese de São Paulo, Margarida Genevois. O orçamento anual é de R$ 500 mil. Ano passado, apoiou projetos ligados a temas como infância e adolescência, raça, gênero, direito indígena, entre outros.
O Fundo prioriza projetos institucionais, mas este ano poderá oferecer até cinco bolsas individuais. Os interessados devem preencher o formulário até o dia 21 de março. Informações pelo tel. (11) 3256-7852 ou através do email informaçõ[email protected]
Campeões de desmatamento exploraram trabalho escravo
Nos últimos cinco anos, houve registros de casos de trabalho escravo em 26 dos 36 municípios que fazem parte da lista prioritária de combate ao desmatamento da floresta amazônica definida pelo governo federal
Repórter Brasil
Por Maurício Hashizume
31/01/2008
Entre os 36 municípios da Amazônia escolhidos pelo governo federal como prioritários para ações de prevenção e controle do desmatamento, 26 estão presentes na ingrata lista que reúne localidades onde já foi constatada a exploração de trabalho escravo (confira mapa abaixo). Levantamento realizado pela Repórter Brasil com base nas fiscalizações dos últimos cinco anos revelou que o avanço da derrubada das matas coincidiu com a prática da escravidão contemporânea em 72% dos municípios.
Elaborado pela Repórter Brasil a partir de mapa divulgado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA)
Não houve registro de trabalho escravo apenas em Aripuanã (MT), Colniza (MT), Cotriguaçu (MT), Gaúcha do Norte (MT), Juína (MT), Machadinho D´Oeste (RO), Nova Mamoré (RO), Nova Maringá (MT), Novo Progresso (PA) e na capital Porto Velho (RO) nos últimos anos. Em todos os outros municípios, auditores fiscais flagraram ao menos uma ocorrência de escravidão entre 2002 e 2007.
Em São Félix do Xingu (PA), Dom Eliseu (PA), Novo Repartimento (PA), Paragominas (PA) e Santana do Araguaia (PA) o poder público encontrou trabalhadores em situação análoga à de escravidão com grande freqüência: nove ou mais vezes durante o período pesquisado. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), a lista dos 36 municípios prioritários para o combate ao desmatamento foi definida a partir de três critérios: o total desmatado desde o início do monitoramento, em 1988; o total desmatado nos últimos três anos; e o aumento de taxa de desmatamento em pelo menos três vezes nos últimos cinco anos, de forma consecutiva ou não.
A emissão de licenças para desmatamento nesses 36 municípios foi suspensa. O descumprimento do embargo obrigatório, que será monitorado por satélite e por fiscalização de campo, acarretará ao infrator, conforme determina decreto presidencial de dezembro de 2007, a vedação de comercialização do produto da área embargada, a proibição de obtenção de crédito agropecuário em instituição oficial, o cancelamento de seus registros em órgãos ambiental, fiscais (Receita Federal) e sanitários, e multa cujo valor será o dobro à aplicada para o desmatamento ilegal e publicação dos dados do imóvel em lista de infratores florestais. Com isso, o governo pretende elaborar uma espécie de "lista suja" do desmatamento, nos moldes da "lista suja" do trabalho escravo mantida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
As sanções administrativas serão estendidas a quem adquirir, intermediar, transportar ou comercializar produto ou subproduto de origem animal ou vegetal produzido sobre área objeto do embargo lavrado.
Será exigida dos donos de terras nessas localidades selecionadas, de acordo com decreto presidencial publicado em dezembro de 2007, a "certificação do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em relação ao georreferenciamento de precisão do seu perímetro com comprovação inequívoca da titularidade" de cada propriedade.
O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) também elaborará uma lista positiva de imóveis com desmatamento monitorado e sob controle. Funcionará como um selo oficial para que o mercado possa selecionar produtos oriundos de imóveis rurais cujos produtores rurais aderiram a medidas de controle dos desmatamentos.
A lista de 36 municípios foi apresentada por conta da reunião extraordinária convocada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em conseqüência da divulgação da derrubada de 3.235 quilômetros quadrados de floresta na Amazônia, de agosto a dezembro de 2007, registrado pelo sistema Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Quando da divulgação, chegou-se a estimar que, tomando como referência dados históricos, a área desflorestada possa chegar a 7 mil km2 entre agosto e dezembro de 2007.
Os dados colocaram em rota de colisão o Ministério do Meio Ambiente (MMA), de Marina Silva, que identifica o aquecimento da atividade primário-exportadora como propulsora do desmate, e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), de Reinhold Stephanes, que busca desvincular os fatos.
Depois de convocar reuniões extraordinárias e exigir providências aos ministros, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentou amenizar a situação. Em São Paulo, Lula saiu em defesa dos produtores agropecuários da região (incluindo o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi), atacou entidades ambientalistas e chegou a comparar os dados a uma coceira. "É como se você tivesse uma coceira e achasse que é uma doença mais grave", disse. O cruzamento de dados da devastação com a incidência do trabalho escravo mostra que não faltam sintomas de que a enfermidade, além de grave, pode ser fatal.
Confira a lista de municípios prioritários com casos de trabalho escravo de 2002 a 2007: Alta Floresta (MT), Altamira (PA), Brasil Novo (PA), Brasnorte (MT), Confresa (MT), Cumaru do Norte (PA), Dom Eliseu (PA), Juara (MT), Lábrea (AM), Marcelândia (MT), Nova Bandeirantes (MT), Nova Ubiratã (MT), Novo Repartimento (PA), Paragominas (PA), Paranaíta (MT), Peixoto de Azevedo (MT), Pimenta Bueno (RO), Porto dos Gaúchos (MT), Querência (MT), Rondon do Pará (PA), Santa Maria das Barreiras (PA), Santana do Araguaia (PA), São Félix do Araguaia (MT), São Félix do Xingu (PA), Ulianópolis (PA) e Vila Rica (MT).
TRABALHO DEGRADANTE EM MEGAFAZENDA NO MATO GROSSO
Ação resgatou 41 trabalhadores na Vale do Rio Verde, arrendada pelo Grupo Bom Futuro - um dos maiores produtores de grãos e algodão do país; mesma equipe libertou outras 20 pessoas em fazenda de ex-prefeito de Vera (MT)
REPÓRTER BRASIL
Por Beatriz Camargo
24/01/2008
Agrotóxico era lançado de avião sob trabalhadores (Foto: Grupo móvel)
Em ação que teve início sexta-feira (18), o grupo móvel de fiscalização do governo federal resgatou 41 pessoas de trabalho degradante na Fazenda Vale do Rio Verde, em Tapurah (MT), região norte do estado. Desde 2006, a propriedade está arrendada para o Grupo Bom Futuro, que tem como diretor-presidente Eraí Maggi (primo do governador do Mato Grosso, Blairo Maggi), um dos maiores produtores de soja, algodão e milho do país.
Apenas na fazenda fiscalizada há cerca de nove mil hectares de soja e algodão plantados. Segundo o próprio grupo, a Vale do Rio Verde representa cerca de 5% do total da produção de algodão no estado.
Os 41 resgatados faziam a retirada do mato dos plantios de algodão e, sem nenhum Equipamento de Proteção Individual (EPI), recebiam "chuvas" de agrotóxicos que eram jogadas de avião. Enquanto os fiscais estavam na propriedade, uma pessoa que havia entrado em contato com agrotóxico passou mal e foi levada para o hospital. "A aplicação indiscriminada de agrotóxico foi a infração mais grave que encontramos", expõe o auditor fiscal Luiz Carlos Cruz, que coordenou a ação. As condições de trabalho no campo e de alojamento, adiciona o fiscal, também não seguiam as normas legais.
Pelo excesso de infrações, as atividades na fazenda foram interditadas, mas voltaram ao normal nesta terça-feira (22), depois que o Grupo Bom Futuro desativou os alojamentos e instalou banheiros na frente de trabalho. Além disso, a empresa se comprometeu a controlar a aplicação de agrotóxicos e a levar os trabalhadores diariamente do campo até o refeitório da fazenda. Há outros 70 empregados na Vale do Rio Verde, distribuídos em outras funções e que, segundo Luiz Carlos, estavam em alojamentos mais adequados.
Selo em xeque
O Grupo Bom Futuro faz parte do Instituto Algodão Social (IAS), extensão da Associação Mato-Grossense de Produtores de Algodão (Ampa) que reúne grandes fazendeiros da região e distribui um Selo de Conformidade Social para produção de fazendas do estado. Representante do Bom Futuro nas negociações do caso na Fazenda Vale do Rio Verde, José Maria Bortoli é fundador do IAS e fez parte da primeira diretoria executiva do Instituto, de 2005 a 2007.
Cinco ou seis centrais de produção e cerca de 20 propriedades no estado fazem parte do conglomerado de Eraí Maggi. Todas as seis fazendas de algodão do grupo estavam certificadas pelo Selo de Conformidade Social do IAS para a safra 2006/2007. Para a nova safra de 2007/2008, dez propriedades do grupo estão se candidatas à obtenção do selo.
De acordo com o diretor administrativo do grupo, Donato Cechinel, é "quase certo" que toda a produção será certificada nesta safra. Os auditores do IAS ainda não passaram este ano pela Vale do Rio Verde, mas o diretor promete sanar as irregularidades a tempo da verificação.
Félix Balaniuc, diretor executivo do Instituto Algodão Social, prevê, no entanto, que a Vale do Rio Verde não deve obter o selo nesta safra, em que se inicia a parceira com a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). "Já estamos no novo padrão. Esse trabalho está diferente, mais aperfeiçoado. Acompanhados pela ABNT, acredito que este ano as normas serão rigorosas."
O episódio não levará à cassação do certificado já concedido à Vale do Rio Verde, adianta Félix. "Não é possível cancelar o selo porque este produto com selo já foi exportado", explica. "Vamos investigar o caso com mais profundidade. Os auditores estiveram na fazenda e relataram que não havia trabalhadores nessa condição, e que o alojamento era razoável. Espero que não tenha sido um erro da nossa equipe."
O caso, frisa o diretor executivo do IAS, será discutido na reunião do conselho do IAS, que deve acontecer dentro de dez dias. Depois disso, o fato será encaminhado ao conselho de ética da Ampa.
Ele lamenta o flagrante ocorrido, mas considera que o quadro geral das condições oferecidas no setor está melhorando. "Em 2007, de 395 fazendas associadas à Ampa, só 223 conseguiram o selo", defende. "Entre as culturas do Mato Grosso, o algodão é o que está mais na frente. Estamos fazendo o máximo, mas não é fácil, porque exige investimento. Os produtores gastaram mais de R$ 15 milhões para colocar tudo em ordem."
Lista suja
A Fazenda Vale do Rio Verde é reincidente no Artigo 149 da Constituição, que versa sobre trabalho escravo e degradante. Foi flagrada cometendo este crime em 2001 e esteve na "lista suja" de julho de 2005 a julho de 2007. O Grupo Bom Futuro disse não conhecer os dois Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) firmados anteriormente pelos donos da terra, Caetano e Orlando Polato. "O que eles nos passaram nós corrigimos. O refeitório, por exemplo, nós refizemos. Está lá bonitinho", justifica o diretor-executivo Donato Cechinel. "Nós não sabíamos que a fazenda estava na lista suja", completa.
No entanto, o procurador do Ministério Público do Trabalho (MPT) que participou da ação, José Pedro dos Reis, esclarece que o grupo terá de arcar com as multas de descumprimento dos acordos anteriores. "Um novo TAC será firmado ainda esta semana. Estamos esperando os autos de infração para saber o que foi descumprido e calcular o valor."
O Bom Futuro se comprometeu a reparar todas as irregularidades trabalhistas e pagar as rescisões de contrato dos resgatados, que estão estimadas em R$ 80 mil. Também serão pagos outros R$ 30 mil em danos morais coletivos. Se houver interesse da empresa e dos trabalhadores, estes poderão ser recontratados. Todos os resgatados são oriundos do Estado do Maranhão.
Ex-prefeito
A mesma equipe fiscalizou, no domingo (20), a Gleba Rio Ferro, em Feliz Natal (MT), onde foram encontradas 20 pessoas em regime de trabalho escravo. Algumas famílias de trabalhadores moravam no local: quatro crianças e quatro mulheres, que cozinhavam para o grupo. O dono da terra, Dorley Rodrigues Freire, é ex-prefeito do município vizinho de Vera (MT).
A propriedade ficava isolada e não havia transporte regular. Esse quadro caracteriza, para o grupo móvel, restrição de liberdade. Todos dormiam em barracos de lona, sem nenhuma condição de higiene. O banheiro era o rio. Além disso, os salários estavam atrasados em cerca de três meses e não havia registro dos trabalhadores. Algumas pessoas preparavam o pasto para receber o gado e outras construíam casas de madeira para o fazendeiro.
Na Rio Ferro também havia aplicação de agrotóxico, mas diretamente no chão. O produto utilizado era o Tordon - conhecido como "agente laranja", usado pelos EUA na Guerra do Vietnã, nos anos 70. Ele era aplicado pelos trabalhadores com artigos inadequados e sem EPI.
Desmatamento
Do carro, o desmatamento causado na propriedade Rio Ferro. O dono da terra, ex-prefeito de Vera (MT), Dorley Freire, já havia sido multado pela devastação de 3 mil hectares (Foto: Grupo móvel)
A mesma propriedade já tinha recebido uma multa do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), pelo desmatamento ilegal de três mil hectares de floresta. "Ele [Dorley Freire] continuou desmatando. Constatamos a perda de floresta na beira da nascente, que é Área de Proteção Permanente (APP)", descreve o auditor Luiz Carlos.
Desde terça-feira (22), o valor da rescisão contratual dos libertados está sendo calculado. A soma do pagamento deve ficar em torno de R$ 60 mil. Todos os trabalhadores são da própria região, e devem voltar às suas respectivas casas depois de receber as dívidas trabalhistas. De acordo com o procurador José Paulo, o MPT está em negociação com Dorley Feire para firmar um TAC.
Tanto os libertados darrio Ferro quanto os resgatados da Vale do Rio Verde foram levados para a sede do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), em Sinop (MT), onde aguardam a conclusão das negociações.
CRIME DE UNAÍ COMPLETA QUATRO ANOS SEM JULGAMENTO DE ACUSADOS
Dos nove acusados pela execução de três fiscais e um motorista do Ministério do Trabalho em 2004, quatro aguardam, em liberdade, ida ao Tribunal do Júri. Colegas dos mortos exigem agilidade da Justiça
CORREIO BRAZILIENSE
Renata Mariz
27/01/2008
Exatos quatro anos após a morte de três auditores fiscais e de um motorista do Ministério do Trabalho, numa estrada de terra em Unaí, onde o grupo inspecionava fazendas da região para evitar exploração de trabalhadores, os nove acusados de participação no crime ainda não foram julgados. O processo que apura as responsabilidades pelos assassinatos está parado no Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região, em Brasília, aguardando decisão sobre recursos apresentados pelos réus. As famílias dos auditores Eratóstenes de Almeida Gonsalves, João Batista Soares Lage e Nelson José da Silva, e do motorista Ailton Pereira de Oliveira, ainda aguardam justiça. Um manifesto será realizado hoje em Brasília para pedir agilidade.
Há pelos menos seis recursos na gaveta do TRF emperrando o desenrolar do caso. A atribuição do tribunal será avaliar se os pedidos apresentados pelos advogados de defesa dos réus têm coerência. Admitidos, os recursos são encaminhados às cortes superiores * Supremo Tribunal Federal ou Superior Tribunal de Justiça *, que terão a incumbência de julgar o mérito da questão. Para o procurador regional da República que acompanha o caso, Carlos Vilhena, a demora do TRF é "injustificada". "Veja que se trata de verificar a admissibilidade dos recursos. E essa função é específica da vice-presidência do tribunal, algo em que o órgão é especializado ", critica Vilhena. A assessoria de imprensa do TRF foi procurada pela reportagem, mas não respondeu aos questionamentos.
Foro privilegiado
Dos nove acusados pelo crime, cinco aguardam julgamento presos. Hugo Pimenta, apontado como um dos mandantes, ganhou a liberdade para aguardar o julgamento no ano passado e se converteu à religião evangélica em Unaí. Todos os indiciados irão ao Tribunal do Júri, na 9ª Vara Federal de Belo Horizonte. A exceção é Antério Mânica, que por ser prefeito de Unaí (MG) tem foro privilegiado. Ele será julgado por uma turma composta de dez desembargadores do TRF da 1ª Região, em Brasília. "É da vontade do meu cliente que o julgamento ocorra logo. Já pedimos isso formalmente, mas há uma ação por parte do Ministério Público em protelar", afirma o advogado Marcelo Leonardo. O procurador Vilhena rebate a crítica. "Todas as vezes que o MP fez um pedido, foi para pedir agilidade", afirma.
Vilhena afirma, no entanto, que há uma explicação lógica, dentro do direito, para que os mandantes de um crime enfrentem os tribunais no final. "Como vou convencer o juiz de que uma pessoa encomendou um assassinato, se aquele que apertou o gatilho ainda nem foi julgado?", questiona. A despeito disso, Vilhena afirma que já pediu o desmembramento do processo para que um dos nove acusados fosse logo julgado, mas a solicitação não foi ainda avaliada. "É muito difícil que consigamos julgar de forma isolada aqueles que não apresentaram recursos. De qualquer forma, o tribunal terá de dividir a audiência em dias, ao longo de uma semana, quem sabe, porque são oito acusados. Não dá para manter isolado um júri, que é formado por pessoas comuns, durante tanto tempo."
Uma grande manifestação em frente ao TRF está marcada para amanhã às 14h. Trabalhadores do Ministério do Trabalho vão vestir preto e erguer faixas de protesto. Tanta demora da Justiça revolta Helba Soares, viúva do auditor Nelson José da Silva. "Sabemos que o processo judicial tem seus prazos, mas desse jeito já é demais, sinto uma sensação de impunidade", desabafa. Rosa Maria Campos Jorge, presidente do Sindicato dos Auditores Fiscais do Trabalho, lamenta que mesmo com a mobilização da entidade, que procura entrar em contato com os desembargadores para pedir agilidade, nenhum avanço ocorreu em 2007.
Quem é quem:
Antério Mânica
Um dos maiores produtores de feijão do país, com propriedades rurais no Paraná e em Minas Gerais, era alvo freqüente de fiscalizações. Ameaçou, de acordo com as investigações, o auditor fiscal do trabalho Nelson José da Silva em novembro de 2003. Acusado de ser mandante do crime, responde ao processo em liberdade. É o único com foro privilegiado, por ser prefeito de Unaí.
Norberto Mânica
Fazendeiro, irmão de Antério Mânica, também sofria fiscalizações freqüentes em suas fazendas. É considerado mandante, junto com o irmão. Chegou a ser preso, mas ganhou a liberdade em novembro de 2006, por força de habeas corpus concedido pelo STJ.
Hugo Alves Pimenta Empresário cerealista, é acusado de também ser mandante das execuções. As quatro mortes teriam diminuído em R$ 45 mil uma dívida de R$ 2 milhões que ele contraíra com os fazendeiros e irmãos Celso e Norberto Mânica. Está solto desde o ano passado aguardando julgamento.
José Alberto Costa
Conhecido como Zezinho, também empresário, é acusado de ter intermediado a contratação dos pistoleiros, a pedido do amigo Hugo Pimenta. Está em liberdade desde dezembro 2004, beneficiado por um
habeas corpus.
Francisco Elder Pinheiro Mais conhecido como Chico Pinheiro, é apontado como o homem que se encarregou de montar toda a estrutura para a chacina e também acompanhou a execução do plano pessoalmente. Confessa que contratou os três homens para executar os auditores, encarregando-se também de receber o dinheiro das mãos de Zezinho e fazer a divisão. Está preso.
Erinaldo de Vasconcelos Silva É suspeito de ter executado três das quatro vítimas. Integrante de uma quadrilha de roubo de cargas e de veículos que atua na região de Goiás e Minas, agia ao lado de Rogério Alan Rocha Rios, chamado por ele para matar os auditores. Recebeu R$ 22 mil pelos assassinatos. Permanece preso.
Rogério Alan Rocha Rios É suspeito de ter dado vários tiros no auditor fiscal Nelson José da Silva, o verdadeiro alvo dos mandantes do crime. Encarregou-se ainda de roubar os celulares das vítimas, que depois foram atirados em um riacho.
Diz ter recebido R$ 6 mil pela participação.
Aguarda julgamento preso.
William Gomes de Miranda Foi contratado para atuar como motorista dos pistoleiros durante a chacina. Sua função era fazer o levantamento dos passos dos fiscais depois que eles deixassem o hotel em que se hospedavam. Confessa ter recebido R$ 11 mil. Está preso.
Humberto Ribeiro dos Santos Conhecido como Beto, ele teria se encarregado de apagar uma das provas do crime. Depois das mortes, foi contratado por Erinaldo para arrancar a folha do livro de registros do Hotel Athos, em Unaí, onde os pistoleiros ficaram hospedados. Permanece preso.
FAZENDA DE PRIMO DE GOVERNADOR DO MT TEM TRABALHO DEGRADANTE -FOLHA DE S.PAULO
Primo de Maggi utiliza trabalho degradante
Ministério liberta 41 pessoas no MT, e fazenda pode ser incluída em lista de locais em que há trabalho análogo à escravidão
Grupo Bom Futuro tem como dono Eraí Maggi, primo de Blairo, que não soube dizer se sua empresa negocia com a do parente
JOÃO CARLOS MAGALHÃES
DA AGÊNCIA FOLHA
RODRIGO VARGAS
DA AGÊNCIA FOLHA, EM CAMPO GRANDE
O grupo móvel do Ministério do Trabalho libertou 41 trabalhadores rurais submetidos a condições degradantes em uma fazenda de Tapurah (477 km de Cuiabá) arrendada pelo grupo Bom Futuro para o plantio de soja e algodão, que tem como um de seus donos Eraí Maggi, primo do governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PR).
O grupo encontrou trabalhadores em alojamentos precários, usando banheiros em péssimas condições higiênicas e manipulando produtos químicos sem proteção. Quando o agrotóxico era jogado por aviões sobre as plantações, os funcionários eram atingidos.
O Bom Futuro deve ser autuado pelas irregularidades, o que gerará multa e um processo administrativo, no qual a empresa pode se defender. Se for considerada culpada, ela é incluída na chamada "lista suja", índice que concentra as propriedades onde foi encontrado trabalho análogo à escravidão.
José Pedro dos Reis, procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso, participou da ação em Tapurah no último dia 18 e afirmou que, apesar de a empresa "ser bem estruturada", havia uma "discriminação" entre os funcionários. Os que ficavam na fazenda tinham boas condições para trabalhar, diferentemente dos que iam para o campo -como os libertados.
"Eles dormiam numa construção de madeira, uns dez homens enfiados num cubículo, deitados em colchões velhos e podres, uma salinha muito abafada e com um cheiro muito ruim", afirmou. "Até os representantes da empresa ficaram abismados com o que viram, mal conseguiram entrar no alojamento devido ao fedor."
Quando estavam na frente de trabalho, para cumprir jornadas de até 12 horas diárias, arrancando raízes ou descarregando cargas, esses funcionários eram obrigados a usar a mata como banheiro e se limpavam com o que havia à mão.
Na hora de comer, afirmou Reis, muitas vezes abriam suas marmitas com as mãos ainda sujas de agrotóxicos. Eles não usavam luvas ou botas ao manipular o produto. Uma vez terminada a jornada, tomavam banho em locais imundos, tomados por lodo e dejetos. "Eles reclamaram muito também da falta de proteção e de lugar para comer", disse Pedro dos Reis. Alguns libertados ficaram na região. Outros voltaram a seus Estados (Maranhão e Piauí).
O procurador afirmou que a empresa está com "boa vontade" e considerou a situação uma "negligência dos administradores". "Já vimos lugar muito pior." O procurador disse que foram pagos R$ 110 mil aos libertados, pelos direitos trabalhistas e por danos morais.
O Bom Futuro é um dos maiores produtores de soja e algodão do Estado. Eraí Maggi disse que o grupo já fez diversas melhorias no local. A Amaggi, uma das maiores beneficiadoras de grãos do mundo e da família do governador, disse não poder esclarecer a relação entre as duas empresas. Blairo não soube dizer se sua empresa faz negócios com o primo.
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Fazenda já tinha "problemas", diz empresário
DA AGÊNCIA FOLHA
DA AGÊNCIA FOLHA, EM CAMPO GRANDE
Eraí Maggi, um dos donos do grupo Bom Futuro, afirmou à Folha que a fazenda já tinha "problemas trabalhistas" quando foi arrendada, há pouco mais de um ano, e que vem fazendo melhorias.
Ainda assim, ele assume que algumas irregularidades persistem na propriedade, que figurou na "lista suja" de fazendas com trabalho análogo à escravidão entre 2005 e 2007. Pela lei, o arrendatário é responsável pela situação dos trabalhadores. "Desde que assumimos, estamos melhorando as condições de trabalho, na medida do possível. Já temos cantina e refeitório de primeira. Agora, é preciso lembrar que faz pouco tempo e que nem tudo pôde ser colocado no padrão."
A qualidade da comida servida no local foi confirmada pelo procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso, José Pedro dos Reis.
Sobre possíveis negócios com a Amaggi, de seu primo e governador Blairo Maggi, Eraí disse que "negocia com quase todo mundo" no Estado, mas não com a empresa da qual Blairo é acionista. "Ele tem o grupo dele, e eu, o meu. Não há relação de compra e venda", disse.
Blairo afirmou não saber dizer se as duas empresas têm negócios, até porque, segundo ele, desde 2002, quando se elegeu governador, se afastou de Rondonópolis (MT), sede da Amaggi.
Sobre Eraí, disse que ligou para o primo, com quem tem "boas relações", e que ouviu a mesma versão dada à Folha sobre as irregularidades encontradas pelo grupo móvel do Ministério do Trabalho. "Nós tivemos até um problema político no passado [em 2002], mas hoje está tudo bem", afirmou.
Eraí disse considerar "louvável" a ação do grupo móvel e que pretende seguir todas as recomendações para se ajustar. "Realmente, precisamos fazer algumas melhorias no alojamento", afirmou. (JCM e RV)
GRAÇAS AO “LINHA DIRETA”, ASSASSINO DOS IRMÃOS “CANUTO” É PRESO, 13 ANOS APÓS O JULGAMENTO
Foi preso em dezembro de 2007, na cidade de São Luís, Estado do Maranhão, José Ubiratan Matos Ubirajara, ex-Policial Militar condenado pelo Tribunal do Júri de Belém, em 1994, a 50 anos de reclusão pelo duplo assassinato dos irmãos sindicalistas de Rio Maria José e Paulo Canuto e pela tentativa de homicídio contra Orlando Canuto.
José Ubiratan Matos Ubirajara, fazia parte do grupo de pistoleiros que em abril de 1990 seqüestrou os 03 irmãos e os levou algemados pela PA 150 momento em que executaram os dois primeiros e feriram gravemente Orlando que conseguiu escapar .
Quatro anos após o crime, Ubiratan foi julgado e condenado, a 50 anos de prisão e logo empreendeu fuga. Em abril 1997, Ubiratan foi localizado e preso no Estado do Piauí. O Comitê Rio Maria e a CPT pressionaram os órgãos de Segurança Publica do Pará para que o mesmo fosse recambiado para o Estado, mas nada foi feito.
Somente agora, o assassino foi preso pela Policia de São Luiz com falsos documentos e identificado graças a ajuda dos repórteres da Linha Direta.
Deve-se também ao mesmo Programa televisivo, a captura de José Serafim Sales, o “Barreirito”, condenado a 25 anos de prisão pelo assassinato do sindicalista de Rio Maria, Expedito Ribeiro de Souza, o qual foi identificado e preso em Boston, nos Estados Unidos em abril de 2006 e desde março de 2007 encontra-se preso no Pará.
José, Paulo e Orlando Canuto eram filhos de João Canuto, ex- presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria, assassinado em 18.12.85. Infelizmente, apesar da exibição no “Linha Direta”, nada foi feito para capturar Vantuir Gonçalves de Paula, mandante do assassinato de João Canuto e Edson Matos dos Santos, outro executor dos Irmãos Canuto, apesar de ter sido identificado em Gurupi-TO.
Parabenizamos a Policia do Maranhão e os repórteres do Programa Linha Direta que prestam um importantíssimo serviço social ao colaborar com a localização dos foragidos da Justiça.
Rio Maria, 23 de janeiro de 2008
Luzia Canuto de Oliveira Frei Henri B. des Roziers
Comitê Rio Maria Comissão Pastoral da Terra
Revisão de plano contra trabalho escravo reforça expectativas
Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae) definirá novas metas para o Plano Nacional sobre o tema no início de 2008. Avaliação de entidades é de que o combate ao trabalho escravo saiu fortalecido de 2007
Por Beatriz Camargo e Vanusia Gonçalves 21/01/2008
O ano de 2007 definitivamente não foi fácil para as entidades governamenatais e não-governamentais envolvidas no combate ao trabalho escravo. Mas as disputas, as pressões e os debates relacionados ao tema que movimentaram o conturbado período fizeram de 2007 um ano de avanços. Contribuíram também para gerar mais expectativas com relação aos desafios para 2008.
O Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo, principal eixo de ações contra a prática desse crime no país, está sendo revisto e pode ser aprovado pela Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae), ligada à Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), ainda em fevereiro. "Vamos atualizar as metas, até mesmo por causa de uma perspectiva histórica. Isso traz novo fôlego para as entidades", comenta José Guerra, assessor da SEDH.
O esforço para a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 438/2001, que prevê o confisco de terras onde houver flagrante de trabalho escravo, permanece como uma das prioridades para 2008 na opinião de Xavier Plassat, coordenador da campanha nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) contra o trabalho escravo. Para ele, outro objetivo para este ano diz respeito ao empenho para que haja um aumento de ações da Justiça Federal contra a escravidão contemporânea. Há um ano, a competência para julgar esse crime foi definida pelo Superior Tribunal Federal (STF).
Frei Xavier também frisa que é preciso uma "implementação efetiva, com mobilização social, das políticas estaduais de combate ao trabalho escravo, fazendo uma cobrança acirrada do pacto interestadual contra esse crime", que materializa uma articulação inédita de seis estados - Pará, Tocantins, Maranhão, Mato Grosso, Piauí e Bahia. Ele destaca também a necessidade de fortalecimento dos instrumentos de pressão econômica sobre a cadeia produtiva dos produtos vindos da escravidão.
O governo deveria apoiar as iniciativas de geração de emprego e renda voltadas à integração social dos trabalhadores resgatados e sua famílias, recomenda Carmen Bascarán, coordenadora do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia (CDVDH), localizado na região de Carajás, onde há grande incidência de casos de trabalho escravo e de aliciamento de mão-de-obra. "Pela miséria na qual subsistem, essas pessoas são chamados a engrossar as filas dos escravos do século XXI."
Carmen corrobora a posição de Xavier Plassat e cobra uma política agrária mais consistente de incentivo à produção de pequenas e médias propriedades rurais. "A agricultura extensiva, o agronegócio e o latifúndio são fonte, causa e conseqüência da permanência do trabalho escravo, da superexploração e das mortes por excesso de trabalho."
A injeção de ânimo na Conatrae que pode ser impulsionada pelo engajamento de novos integrantes anima Andrea Bolzon, coordenadora do projeto de combate ao trabalho escravo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) Brasil. "Várias instituições que fazem parte da Conatrae trocaram seus representantes na instância. Vemos isso com interesse. Provavelmente, teremos que reconstruir alguns vínculos, mas isso é positivo", analisa
Metas do governo
Neste ano, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) conta com um orçamento reforçado para o combate ao trabalho escravo e quer instituir medidas mais preventivas. Ruth Vilela, chefe da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) do MTE, declarou à Repórter Brasil que pretende destacar pelo menos uma equipe do grupo móvel para ficar permanentemente no monitoramento de fazendas da "lista suja", que relaciona empregadores flagrados pela utilização criminosa de mão-de-obra escrava.
Preocupado com os problemas trabalhistas na cana-de-açúcar (setor que concentrou fiscalizações de empreendimentos de grande porte em 2007 - veja retrospectiva abaixo), o MTE encaminhou uma notificação preventiva às usinas contendo especificações sobre condições de trabalho - como alojamento, alimentação e água potável - e atenção especial à remuneração por produção. "Nossa preocupação prioritária é com o corte manual da cana", reforça Ruth.
Além disso, o Ministério tem um projeto piloto, que será anunciado em breve, para acompanhar a migração de trabalhadores para fora dos estados de origem. A idéia é que a contratação de trabalhadores rurais seja feita por meio de instituições oficiais, em agências de emprego rurais mantidas pelo governo, e não mais por "gatos" (intermediário de empreitadas a serviço do fazendeiro). Segundo Ruth Vilela, o projeto inclui os estados Bahia, Maranhão e Piauí e, se for bem-sucedido, poderá ser expandido a outros estados.
Retrospectiva 2007
O número de trabalhadores libertados pelo grupo móvel atingiu a marca recorde de 5.877 pessoas em 2007, de acordo com dados divulgados pelo MTE nesta quarta-feira (17). Levantamentos prévios paralelos feitos pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) dão conta da libertação de 5.467 trabalhadores da escravidão em 2007, contra 3.666 resgatados em 2006.
Em 2007, o grupo móvel enfrentou uma prova de fogo em conseqüência das repercussões do caso da fazenda e usina Pagrisa, palco da operação que constatou 1064 escravizados no empreendimento em Ulianópolis (PA). Foi a maior libertação realizada pelo governo desde 1995, quando o grupo móvel foi criado. A autuação da Pagrisa por trabalho escravo implicou na mobilização de lideranças empresariais e políticos que saíram em defesa da empresa e tentaram desqualificar o trabalho de fiscalização do governo. Foi instalada inclusive uma Comissão Externa no Senado com a finalidade específica de apurar possíveis abusos da equipe que atuou no caso.
Diante da pressão, as ações do grupo móvel foram suspensas por mais de 20 dias, entre setembro e outubro, sob a alegação de que seeria preciso garantir a segurança dos auditores fiscais. O impasse gerou manifestações de diversas entidades ligadas ao combate à escravidão, que criticaram a intervenção do Senado e pediram a volta das atividades do grupo móvel. "Nós tivemos uma fase de aparente fragilidade, mas conseguimos reverter o quadro com ajuda dos parceiros e logo pudemos retomar o trabalho", comenta Ruth Vilela.
Além do caso Pagrisa, outro caso que ganhou repercussão foi o dos mais de 800 indígenas resgatados de trabalho degradante da fazenda e usina Debrasa, em Brasilândia (MS), pertencente à Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool (CBAA), que faz parte do poderoso grupo José Pessoa. A fiscalização encontrou condições bastante precárias de transporte e alojamento. Por causa da operação, as empresas do grupo foram suspensas do Pacto Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, e o presidente José Pessoa Queiroz Bisneto foi afastado do Conselho Consultivo do Instituto Ethos.
Projeto de Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil
Trabalho Escravo
Vamos abolir de vez essa vergonha.
RECORDE DE LIBERTAÇÕES EM 2007
Grupo de fiscalização do Ministério do Trabalho aumentou em 72% o número de pessoas resgatadas de fazendas onde eram mantidas em condições análogas à escravidão. Pará foi o estado com mais ocorrências
Ullisses Campbell
Da equipe do Correio
17/01/2008
Apesar de ter paralisado as atividades por 22 dias, o grupo de fiscalização móvel do Ministério do Trabalho e Emprego conseguiu aumentar em 72% o número de trabalhadores libertados da condição de escravidão em fazendas do país em 2007. Segundo balanço divulgado ontem, 5.877 pessoas foram encontradas em condições degradantes nas 110 operações realizadas pelos fiscais com ajuda da Polícia Federal. Foi o maior número de trabalhadores resgatados desde a criação do grupo, há 12 anos. Em 2006, foram 3.414 pessoas libertadas. "Tivemos um ano conturbado, mas conseguimos o mínimo de eficiência", ressaltou a secretária nacional de Inspeção do Trabalho, Ruth Vilela.
A conturbação a que Vilela se referiu foi uma guerra travada com um grupo de seis senadores por conta de uma fiscalização na Fazenda Pagrisa, no Pará. Na operação, ocorrida em maio, foram libertados 1.064 trabalhadores submetidos a um regime análogo à escravidão. Os donos da empresa e o grupo de senadores disseram que, na ação, os fiscais teriam cometido abusos. O impasse ainda está na Justiça. "Os trabalhos só seguiram adiante porque tivemos apoio do órgão central (Ministério do Trabalho)", diz Ruth Vilela, que ameaçou pedir demissão do cargo três vezes por conta do lobby dos empresários da Pagrisa no ministério e no Senado.
No balanço anual do Grupo Móvel, foram contabilizadas as libertações feitas na Pagrisa, o que elevou o Pará ao posto mais alto no ranking nacional dos estados com maior número de trabalhadores escravizados. Só nas fazendas paraenses foram libertadas 1.947 pessoas. O segundo estado onde mais houve libertações foi o Mato Grosso do Sul, com 1.634. Das 27 unidades da federação , não houve libertações em 11, incluindo o Distrito Federal.
Desde 1995, os fiscais do Grupo Móvel percorreram 1.874 fazendas, libertando 27.645 trabalhadores e regularizando a carteira de outros 27.101. Em 12 anos, o grupo aplicou 18.116 autos de infração, gerando pagamento de R$ 38,4 milhões em indenizações, sendo R$ 9,8 milhões apenas em 2007. Atualmente, oito equipes compõem o grupo, formado por auditores fiscais, procuradores, delegados e agentes da Polícia Federal.
Mais fiscalização
Para 2008, Ruth Vilela avisa que o Grupo Móvel vai intensificar as fiscalizações, principalmente nos estados que concentram o maior número de denúncias * Pará, Mato Grosso do Sul e Goiás. Ela conta ainda que os fiscais vão atuar também na prevenção. "Nós vamos voltar in loco às fazendas onde houve flagrantes para verificar se há reincidências", diz Vilela. As ações de prevenções serão redobradas nos períodos de colheita, quando há um boom de recrutamento de trabalhadores.
Segundo estimativa da Organização Mundial do Trabalho (OIT), só no Pará ainda há pelo menos 25 mil pessoas submetidas ao trabalho escravo em fazendas. No ano passado, o Grupo Móvel não pôde contar com apoio da Delegacia Regional do Trabalho (DRT-PA) local porque os fiscais do núcleo regional, empresários e prefeitos de diversos municípios paraenses relutam em aceitar o rótulo de "trabalho escravo" na Amazônia. "Nossas ações independem do apoio da DRT do Pará", ressalta Vilela. Ela informa que as ações do Grupo Móvel são superiores às locais. No ano passado, a DRT-PA não libertou nenhum trabalhador de fazendas do Pará.
A "lista suja" do Ministério do Trabalho, que revela as empresas flagradas com trabalhadores em regime de escravidão, fechou o ano com 189 nomes. A maioria é do ramo agropecuário e de agricultura. As fazendas que figuram no rol são impedidas de conseguir financiamento em bancos, obter incentivos fiscais e comercializar produtos com os governos federal e estadual. Em 2007, seis empresários entraram na Justiça pedindo para ter o nome fora da lista e conseguiram o benefício.
SÃO FRANCISCO -
Grupo acompanhará a revitalização do rio
Jornal do Commercio
16/01/2008
O Ministério da Integração Nacional instala hoje o grupo de trabalho que ficará responsável por coordenar as ações do plano de desenvolvimento nas áreas dos projetos de integração e revitalização do Rio São Francisco. João Mendes, secretário-executivo do grupo de trabalho, explica que a intenção é articular e potencializar as ações que estão sendo desenvolvidas nessas áreas, evitando desperdícios e agilizando o andamento delas.
O grupo montará um plano de ação que congregará as intervenções dos diversos ministérios nas regiões influenciadas pela integração e revitalização do São Francisco, com prazo para ficar pronto no final do primeiro semestre deste ano. Seriam definidas as intervenções emergenciais, de médio e longo prazos.
As ações envolvidas são de cunho social, econômico e ambiental, seguindo recomendações dos órgãos licenciadores, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Agência Nacional de Águas (ANA). Na área do projeto de integração, vivem 12 milhões de pessoas e na região atendida pelo projeto de revitalização existem mais de 18 milhões.
Entre as atividades que passarão a ser acompanhadas pelo grupo de trabalho, Mendes cita as ações de recuperação das matas ciliares e de saneamento, que devem ocorrer nas áreas próximas ao rio. Outro exemplo é a recuperação do rio para atividades de piscicultura.
O grupo de trabalho será formado por representantes das secretarias executivas de Desenvolvimento de Políticas Regionais (SDR), de Programas Regionais (SPR), de Infra-Estrutura Hídrica (SIH), bem como membros do Programa da Revitalização das Bacias, da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf) e do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs).
OBRAS
A pendência judicial envolvendo a licitação para as obras do lote 9 da transposição do Rio São Francisco, que diz respeito à parte do Eixo Leste, impede o andamento das licitações dos nove lotes. O lote 9 foi o segundo a ser licitado, atrás do lote 1 – referente ao Eixo Norte. São 14 lotes de obras.
Mas a execução dos serviços para as áreas já contratadas pode ser realizada. A assessoria de imprensa do Ministério da Integração Nacional informa, porém, que ainda não há data fechada para o início dos serviços do lote 1, mas eles podem começar a qualquer momento.
Prêmio da OIT para pesquisas sobre trabalho decente 2008
Inscrições serão aceitas até 15 de janeiro; entrega será na Conferência Internacional do Trabalho
Site da OIT
08/01/2008
GENEBRA (Notícias da OIT) – A Organização Internacional do Trabalho divulgou um comunicado abrindo as inscrições para o “Prêmio da OIT sobre Trabalho Decente 2008” que é atribuído a contribuições destacadas ao progresso do conhecimento relacionado com o objetivo central da OIT de trabalho decente para todos *.
O prêmio, criado pelo Instituto Internacional de Estudos do Trabalho da OIT e entregue pela primeira vez em 2007, será entregue em junho de 2008 durante a próxima Conferência Internacional do Trabalho em Genebra. O prazo para recebimento das inscrições vencerá no dia 15 de janeiro de 2008.
O primeiro prêmio a pesquisas sobre trabalho decente foi entregue durante a sessão plenária da Conferência Internacional do Trabalho do dia 15 de junho de 2007 ao ex-presidente sul-africano e Prêmio Nobel da Paz Nelson Mandela e ao professor Carmelo Mesa-Lago, eminente acadêmico e especialista em seguridade social.
Nelson Mandela recebeu um prêmio especial por sua excepcional contribuição ao longo de sua vida ao conhecimento, compreensão e promoção dos temas abordados pela OIT. Carmelo Mesa-Lago recebeu o prêmio como reconhecimento a suas importantes contribuições acadêmicas para a análise das relações sócio-econômicas e dos instrumentos políticos para o avanço do trabalho decente, especialmente no que se refere à reforma da seguridade social e das aposentadorias.
O prêmio pode ser conferido a publicações específicas de relevância ou a uma trajetória relacionada com contribuições ao conhecimento das preocupações centrais da OIT como geração de emprego, direitos no trabalho, proteção social e diálogo social. O prêmio será decidido por um júri de cinco eminentes especialistas internacionais em assuntos relacionados com políticas trabalhistas e sociais.
As candidaturas ao prêmio podem ser apresentadas individualmente ou por instituições, incluindo governos e organizações de empregadores e trabalhadores. Somente são qualificados como candidatos os indivíduos e não as instituições. Os candidatos devem contar com o apoio de pelo menos um representante dos mandantes tripartites da OIT e de um acadêmico destacado na área de política social e trabalhista e devem ser de diferentes regiões do mundo.
O ganhador do prêmio será convidado a proferir uma conferência diante de representantes de governos, empregadores e trabalhadores de diversas partes do mundo e será designado membro honorário do Instituto Internacional de Estudos do Trabalho para o período 2008-2009. Receberá, além disso, um prêmio de 10.000 dólares.
O Instituto Internacional de Estudos do Trabalho foi criado pela OIT em 1960 como um centro de estudos avançados no campo do trabalho e social com o objetivo de aprofundar o conhecimento de assuntos relacionados com o mundo do trabalho através de atividades de educação e pesquisa.
(*) Para maiores informações por favor consulte este documento: http://www.ilo.org/public/spanish/bureau/inst/papers/confrnce/research/call08s.pdf
Nota dos Movimentos Sociais sobre a continuidade da luta
A luta dos povos da Bacia do Rio São Francisco e do Semi-Árido Brasileiro não é de hoje. Vem de longe na história, desde a resistência dos povos indígenas e quilombolas ao jejum de Dom Luiz Cappio por 24 dias encerrado ontem em Sobradinho. Tem imperado sempre a imposição, pela força ou pela cooptação, de um modelo de sociedade e de desenvolvimento que nada mais é que acumulação ilimitada de capital, à custa da apropriação privada e exaustão dos bens naturais, opressão e empobrecimento do povo. O Estado tem sido capturado pelas elites e posto a serviço de seus interesses, a democracia reduzida a um jogo de aparências e formalidades.
A experiência destes dias de luta ao lado de Dom Luiz Cappio revelou sobejamente que a pior tradição brasileira da privatização da coisa pública está longe de cessar. O Governo Lula, do qual todos esperávamos outra prática, fez do velho e falacioso projeto da Transposição do São Francisco o eixo de sua continuidade no poder. A falácia está em ser um projeto de finalidade econômica sob a fachada de benefício social, modernizando a “indústria da seca” ao privatizar e encarecer o bem público essencial que é a água. E vai na contra-corrente do que exige o momento histórico das mudanças climáticas decorrentes justamente desse modelo de desenvolvimento que abusa dos bens naturais e degrada a vida das pessoas. A população nordestina, mais uma vez assim exposta às mazelas do sistema, sem políticas públicas efetivas, torna-se refém das políticas compensatórias dos governos, a perpetuar o mito do “pai dos pobres” (e “mãe dos ricos”).
O aparato do Exército Brasileiro na região das obras militarizou a transposição, com tanques de guerra e treinamentos anti-mobilização popular, trazendo de volta o assustador fantasma do militarismo. Mas coaduna com a truculência com que o projeto tem sido imposto e desmascara a verdadeira índole desse Governo que, há muito tempo atrás, se sonhou popular. Já havíamos experimentado sua mão pesada em Brasília, no acampamento de março deste ano, quando não nos recebeu; em Cabrobó, na ocupação de junho/julho, quando nos despejou com um forte aparato repressivo. Já no encerramento do primeiro jejum de Dom Luiz em 2005, o que prevaleceu foram o ardil e a dissimulação. Descobrimos onde está “o inimigo número 1 da democracia”.
No rastro da indignação diante do comportamento anti-democrático das autoridades, do Palácio do Planalto ao da Justiça, no episódio da greve de fome de Dom Luiz Cappio, as organizações sociais e movimentos populares sentem que essa luta, dele e nossa, que foi das mais intensas em 2007, eleva-se agora a um patamar mais alto e tende a se ampliar e massificar. O tema está na agenda do País, ganhou a interesse internacional e não vai mais retroceder, mesmo com as férias, festas e carnaval. Novos atores e novas ações engrossarão a luta, em todos os níveis.
Ao tema do São Francisco e do Semi-árido virão se somar os outros grandes temas atuais do País, dos transgênicos às hidrelétricas do Rio Madeira, da internacionalização da nossa agricultura às transposições do Rio Tocantins, da entrega de nossas águas e florestas aos agrocombustíveis... E a luz lançada sobre esta conjuntura nacional mais cedo ou mais tarde fará despertar as organizações e movimentos sociais acomodados ou atrelados, para um novo ascenso das forças populares, na direção da soberania nacional e do ecossocialismo.
Anunciamos a Conferência dos Povos do São Francisco e do Semi-Árido para os dias de 25 a 28 de fevereiro de 2008, em Sobradinho, marco de retomada dessa luta.
Os Governos passam, esse também passará e será esquecido. O povo, suas referências de lugares e pessoas, suas lutas e conquistas ficarão, para sempre serem lembrados. O jejum de Dom Luiz terminou, mas a luta dele e nossa continua, mais forte ainda. “Se calarem a voz dos profetas, mil pedras clamarão.”
Assinam este documento: MPA, MST, MAB, APOINME, SINTAGRO, SINDAE, PJMP, CPT, CIMI, CPP, MCP, FEAB, IRPAA, e Paróquia de Sobradinho.
Casa Civil é notificada sobre importação de milho transgênico
POR UM BRASIL LIVRE DE TRANSGÊNICOS
Número 373 - 21 de dezembro de 2007
Organizações advertem ministros sobre a impossibilidade de o Conselho Nacional de Biossegurança deliberar sobre pedido feito pela CTNBio
Em sua última reunião de 2007, a CTNBio retirou de pauta um pedido de última hora feito por empresas do setor de rações e criação de frangos e suínos para a importação de 2 milhões de toneladas de milho transgênico. O presidente da Comissão, Walter Colli, decidiu pela votação do pedido em regime de urgência, mas foi aconselhado pela consultoria jurídica do Ministério da Ciência e Tecnologia a retirá-lo de pauta.
O Ministério Público Federal também recomendou à CTNBio que retirasse de pauta o pedido, uma vez que não compete à Comissão aprovar importações de transgênicos para fins comerciais e que, neste caso, estaria sendo desrespeitada a liminar que suspendeu as liberações de milho transgênico até que a CTNBio estipule regras de biossegurança para o plantio das variedades modificadas. O MPF ainda advertiu Walter Colli de que ele estaria incorrendo em improbidade administrativa caso levasse adiante a votação.
No plenário da Comissão, mesmo com o pedido fora de pauta, os conselheiros discutiram longamente sobre a natureza do pedido e se caberia ou não àquela Comissão deliberar sobre solicitação cujo fundamento é econômico. As requerentes alegam desabastecimento interno e risco econômico para suas atividades. A Companhia Nacional de Abastecimento - Conab/Ministério da Agricultura, por outro lado, afirmou que não falta milho no País e que a medida visa derrubar preços. Finalmente, o plenário da CTNBio decidiu encaminhar o pedido ao Conselho Nacional de Biossegurança - CNBS.
Para ANPA, AS-PTA, IDEC e Terra de Direitos, a decisão da CTNBio foi equivocada e o Conselho de Ministros, presidido pela Casa Civil, também encontra-se impedido de julgar a importação.
De acordo com a Lei de Biossegurança, a competência para decidir sobre importações é dos órgãos de registro e fiscalização, como Ibama, Anvisa e Ministério da Agricultura. Estes, por sua vez, não decidem sobre a biossegurança dos produtos a serem importados, já que esta seria a função da CTNBio. O pedido de importação protocolado na CTNBio equivale então a um pedido de liberação comercial.
Sendo assim, não cabe ao CNBS analisar a conveniência e/ou oportunidade do pedido de importação, uma vez que questões prioritárias de biossegurança, como a elaboração de normas de coexistência e de monitoramento de OGM, ainda não foram resolvidas.
Ademais, o CNBS ainda está impossibilitado de analisar o pedido em virtude da decisão judicial vigente, por conta das diversas irregularidades constantes do pedido que impedem a análise de seu mérito e pela ausência de autorização válida de liberação comercial de milho transgênico no Brasil.
As requerentes não especificaram de qual país se pretende importar o milho nem mesmo quais variedades modificadas de milho entrariam no País. Sem essas informações básicas torna-se impossível qualquer avaliação de biossegurança. Mesmo assim, o presidente da Comissão queria votar o processo em regime de urgência.
Outra grave irregularidade diz respeito ao fato de as solicitantes não possuírem Certificado de Qualidade de Biossegurança - CQB, documento indispensável para “o desenvolvimento de atividades com OGM e seus derivados em laboratório, instituição ou empresa”, como diz a Lei de Biossegurança.
Diante disso, fica a pergunta: qual o rigor dos procedimentos adotados pela secretaria da CTNBio uma vez que foi tão longe um processo cujas empresas requerentes não estão habilitadas a executar o pedido? A secretaria-executiva da Comissão publicou Extrato Prévio no Diário Oficial da União e seu presidente decidiu pela tramitação em regime de urgência.
Diante desses motivos, as organizações reforçam que não cabe ao CNBS decidir acerca da conveniência e oportunidade do pedido ao menos que todas estas irregularidades sejam sanadas.
Para as organizações que encaminharam a notificação, este pedido de importação de milho transgênico e a tentativa de sua aprovação em regime de urgência representaram tentativa de passar se por cima da liminar que suspendeu a liberação do milho GM e promover a contaminação massiva do milho brasileiro.
1. Soja convencional rende mais do que a transgênica
2. OAB-CE representa MPF para que seja cumprida legislação de rotulagem
3. Arroz contaminado nas prateleiras canadenses
4. Milho GM é encontrado em área abandonada na Tailândia
Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a agricultura A experiência de Marlene, agricultora familiar de Lagoa Seca - PB
Dica de fonte de informação
Artigo “A morte das espécies”, de Marcelo Leite, colunista de ciência da Folha de S. Paulo.
“A coluna de hoje começou a nascer com uma indicação do biólogo João Francisco Botelho (autor de uma instigante dissertação de mestrado à qual ainda voltarei). Era um editorial de Adam Wilkins no periódico "BioEssays" deste mês, sob o título "Cai a ficha (finalmente) para a indústria da biotecnologia: genes não são agentes autônomos, mas funcionam dentro de redes!".”
Leia o artigo publicado na Folha de S. Paulo em 16/12/2007 no endereço: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=53147
***************************************************************** 1. Soja convencional rende mais do que a transgênica Pela primeira vez, a CNA (Confederação Nacional da Agricultura) admitiu que a soja convencional teve mais rentabilidade do que a transgênica no Brasil. A justificativa, conforme publicado no Jornal do Brasil em 19/12, é a alta no preço do herbicida glifosato em conseqüência do antidumping que o governo decidiu aplicar sobre as importações de glifosato da China.
A soja transgênica foi desenvolvida pela multinacional Monsanto para resistir à aplicação do glifosato, cujo nome comercial é Roundup (daí o nome Roundup Ready, ou RR). Em lavouras de soja RR, o herbicida é pulverizado diretamente sobre a plantação, eliminando as ervas daninhas mas deixando intactas as plantas transgênicas. A tendência natural é que, a cada ano, maiores quantidades de glifosato sejam necessárias para o controle do mato, que gradativamente vai adquirindo resistência ao produto.
A alta no preço do glifosato veio simplesmente antecipar o aumento dos custos das lavouras transgênicas, que inexoravelmente chegaria.
Curioso é ver o presidente da CNA, Fábio de Salles Meireles, declarar: “apesar do aumento do custo, vamos insistir na produção do transgênico. Não podemos perder este mercado, porque há oportunidades para os dois produtos” (JB, 19/12).
Na maior parte dos casos a defesa econômica dos transgênicos é feita apresentando-se falsas vantagens para o agricultor. Vemos que quando os números são evidentes demais, parte-se para a defesa pura e simples, do tipo, “vamos insistir nos transgênicos porque sim”.
2. OAB-CE representa MPF para que seja cumprida legislação de rotulagem A OAB-CE, por meio de sua Comissão de Defesa do Consumidor, ingressou com representação junto ao Ministério Público Federal para que seja cumprida a lei de rotulagem de produtos que contenham transgênicos.
Desde 2003 um decreto presidencial (4.680/03) determina a rotulagem dos alimentos que tenham a partir de 1% de ingredientes transgênicos em sua composição, mas até hoje as indústrias alimentícias não cumprem a obrigação de rotular seus produtos e contam com a “vista grossa” do governo, que faz sua parte não cumprindo com sua obrigação de fiscalizar.
A atitude da OAB-CE é louvável. Espera-se que tenha bom resultado e sirva de exemplo para outros estados.
3. Arroz contaminado nas prateleiras canadenses Através de análises independentes, o Greenpeace descobriu que o arroz vendido nos supermercados canadenses está contaminado por uma variedade transgênica experimental não aprovada para o consumo.
O arroz transgênico contaminou a cadeia alimentar nos Estados Unidos a partir de campos experimentais conduzidos pela multinacional alemã Bayer. Os testes de campo começaram em 2001, mas a Bayer só divulgou a contaminação no ano passado.
Até o momento, o arroz americano contaminado já foi detectado em 30 países, o que custou aos agricultores, governos e indústria do arroz um prejuízo estimado em um bilhão de dólares. A Europa suspendeu as importações de arroz dos EUA, enquanto o Japão passou a testar todos os carregamentos de arroz americano.
Após detectar a contaminação, o Greenpeace está solicitando que todo o arroz do tipo “grão longo” dos EUA seja removido das prateleiras das lojas no Canadá.
4. Milho GM é encontrado em área abandonada na Tailândia Plantas de milho transgênico foram encontradas crescendo em uma área abandonada próxima a uma fazenda experimental da Monsanto, em Phitsanulok. A contaminação do milho foi denunciada pela ONG Biothai, que trabalha com a promoção da agroecologia no país.
O grupo coletou 19 amostras de milho, soja e algodão de propriedades e casas agropecuárias locais e as enviou para análise nos laboratórios da Universidade Chulalongkorn.
Os resultados das duas primeiras amostras, coletadas em uma fazenda abandonada em um distrito Phitsanulok foram positivos para o milho transgênico. Logo serão divulgados os resultados dos outros testes.
O plantio comercial de transgênicos é proibido na Tailândia, sendo permitido apenas experimentos em laboratório e em casas de vegetação.
Witoon Lianchamroon, diretor da Biothai, disse que o milho contaminado crescia em uma área situada a algumas centenas de metros dos experimentos da Monsanto, mas que ainda não se pode afirmar com certeza que essa tenha sido a origem da contaminação.
Em 1999 a multinacional obteve licença para importação de 5 kg de sementes para fins experimentais.
Witoon lembrou casos anteriores de descontrole dos transgênicos no país, como com o algodão na província de Loei, em 1999, e o mamão da estação experimental do Departamento de Agricultura, em Khon Kaen, em 2004.
O Biothai cobrou do primeiro ministro tailandês providências do Departamento de Agricultura para investigar a origem do escape e adotar medidas imediatas de contenção da contaminação. O órgão se comprometeu a enviar técnicos ao local para coletar amostras das plantas.
O diretor da Monsanto para a região divulgou nota afirmando que cooperará com as autoridades locais para esclarecer os fatos.
Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a agricultura
A experiência de Marlene, agricultora familiar de Lagoa Seca - PB
Marlene é agricultora e reside no sítio Floriano, em Lagoa Seca, na Paraíba. Ela mora com o marido, o filho, a mãe, dois irmãos e dois sobrinhos. A família trabalha em um pequeno terreiro de meio hectare onde faz agricultura para o próprio sustento.
Antes, Marlene criava as galinhas e os porcos amarrados em pés de árvores. Se alguém ficasse doente em casa, comprava remédios na farmácia. Os legumes e verduras que plantava sem venenos (agrotóxicos) eram vendidos a atravessadores e o dinheiro era usado para comprar alimentos produzidos com agrotóxicos.
A partir de 1998 a família começou a buscar alternativas. Plantou uma horta medicinal no terreno, além de verduras, legumes, acerola e limão. Cercou o espaço com telas de arame e plantou uma cerca viva de jasmim, laranja, gliricídia, moringa e amora para, no futuro, quando a tela acabar, manter o espaço cercado e preservado.
Através de intercâmbios de experiências como os realizados no Centro Nordestino de Plantas Medicinais (Olinda), na Catequese Familiar em Solânea (na Paraíba) e em Brejo da Madre de Deus (em Pernambuco), Marlene passou a conhecer e cultivar mais plantas medicinais. Ela também aprendeu a reutilizar a água do enxágüe de roupas e da lavagem de pratos para molhar suas plantas, tomando o cuidado de não molhar com essa água as plantas que são utilizadas na medicina caseira.
A construção da cisterna foi muito importante para a família, porque aumentou a qualidade da água de beber e ajudou a cuidar melhor da água das plantas e animais.
Marlene tem hoje um cercado de telas onde cria galinhas, ovelhas, gansos, cabras e até um boi. Aprendeu a plantar outras culturas para alimentar os animais, como feijão guandu, sorgo e gliricídia. Aprendeu ainda a fazer o sal mineral, que é um alimento anti-verme que previne doenças nos animais.
Os produtos diversificados que a família cultiva no terreno agora são vendidos em feiras agroecológicas e dão lucro. Hoje Marlene enfatiza a importância de se repassar as experiências a outros agricultores que, para alcançarem melhores resultados, devem se organizar e ter um Sindicato participativo.
Fonte: Agroecologia em Rede http://www.agroecologiaemrede.org.br/experiencias.php?experiencia=337
********************************************************** Campanha Por um Brasil Livre de Transgênicos
Este Boletim é produzido pela AS-PTA Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa e é de livre reprodução e circulação, desde que citada a AS-PTA como fonte.
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CNBB pede a Lula mais discussão sobre a transposição do rio São Francisco
CNBB - 12/12/2007
Dom Geraldo fez questão de ressaltar que o jejum e as orações de Dom Cappio não podem ser comparados a um suicídio
O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Geraldo Lyrio Rocha e o Secretário Geral da entidade, Dom Dimas Barbosa, pediram ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva mais discussão sobre o projeto da transposição das águas do rio São Francisco.
Na manhã de hoje (12/12), os bispos tiveram um reunião com o presidente, onde discutiram as polêmicas em torno das obras da transposição e o jejum do Bispo de Barra (na Bahia), Dom Luiz Cappio, que está há 16 dias sem se alimentar, em protesto contra o projeto.
“Até mesmo pessoas que vivem nas regiões afetadas não têm informações claras sobre o projeto”, disse Dom Dimas, em entrevista coletiva após a reunião. Em documento entregue ao presidente (em anexo), a CNBB se dispôs a intermediar o diálogo com Dom Cappio para tentar resolver a questão. “Dom Cappio sempre contou com o apoio da CNBB, por que o queremos vivo”, reforçou Dom Geraldo.
A CNBB sugeriu a Lula a criação de uma “comissão para estudar melhor o atual projeto e analisar também as propostas que têm sido elaboradas por entidades governamentais, especialistas e movimentos sociais que consideram, também, a revitalização e a despoluição do rio São Francisco”. Eles lembraram que a Agência Nacional de Águas (ANA) e as entidades que compõem a Articulação do Semi-Árido (ASA) têm propostas alternativas para a região.
Na reunião, Dom Geraldo fez questão de ressaltar que o jejum e as orações de Dom Cappio não podem ser comparados a um suicídio, pois ele não está fazendo este ato com intenção de morrer.
audiência foi o início de um diálogo, na avaliação dos bispos. O Governo não descartou a possibilidade de enviar alguém para dialogar com Dom Cappio, mas não agendou nenhuma ação.
Câmara dos Deputados envia posicionamento sobre relatório Recife - PE
27/11/2007
Ministério da Educação será acionado para averiguar irregularidades na educação de Pernambuco
A Comissão de Educação e Cultura (CEC) da Câmara dos Deputados enviou essa semana ao Cremepe o ofício nº 604/07-CEC, se posicionando em relação ao relatório elaborado pela equipe da Caravana do Cremepe. O documento diz, entre outros pontos, que a Caravana encontrou graves violações aos direitos humanos e garantias constitucionais.
A CEC analisou os relatórios e informou que vai encaminhar ao Ministério da Educação um pedido de averiguação, no estado de Pernambuco e em seus municípios, sobre a ocorrência de irregularidades no transporte escolar, merenda sem qualidade nutricional, má remuneração e qualificação dos professores, falta de bibliotecas nas escolas, altas taxas de analfabetismo e modelo pedagógico inadequado, pedindo a adoção das medidas cabíveis.
A Caravana do Cremepe já visitou 147 municípios pernambucanos entre os anos de 2005 e 2007. Nas cidades por onde a Caravana passa são realizadas entrevistas com a população abordando diversos aspectos locais. Também são ouvidos prefeitos, secretários de saúde, conselheiros tutelares, promotores e juízes. No final de cada etapa é elaborado um relatório - com todos os dados levantados – que é encaminhado ao Governo do Estado, Ministério Público Estadual, Ministério da Saúde, Congresso Nacional, Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Presidência da República, entre outros poderes.
Leia mais sobre a Caravana do Cremepe e conheça o trabalho no link:
http://portal.cremepe.org.br/publicacoes_noticias_ler.php?cd_noticia=1188
BANCADA RURALISTA BARRA COMBATE À ESCRAVIDÃO
Bancada ruralista cresce 58% e barra combate à escravidão
Grupo impediu que emenda que expropriava fazendas fosse votada em 2º turno
O ex-secretário de Direitos Humanos Nilmário diz que setores do governo, como o Ministério da Agricultura, não ajudaram na aprovação
FOLHA DE S. PAULO 21/10/2007
RUBENS VALENTE
DA REPORTAGEM LOCAL
A bancada ruralista cresceu 58% na atual legislatura da Câmara dos Deputados, e 59% de seus integrantes estão nos partidos da base aliada ao governo Lula, segundo levantamento feito neste mês pela ONG Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos). São 116 deputados (22,6% do total) contra 73 na legislatura 2003-2007. Os 68 ruralistas que apóiam Lula somam 18% da base governista.
Entidades não-governamentais, setores do governo e parlamentares da situação atribuem à bancada ruralista parte da responsabilidade pelo andamento arrastado de 11 projetos que têm algum tipo de punição a fazendeiros acusados de fomentar o trabalho escravo.
O principal deles é a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 438/2001, que prevê a expropriação de propriedades rurais com incidência de trabalho escravo. Ela chegou a ser aprovada no Senado, em dois turnos, e foi votada em primeiro turno na Câmara, em 2004, mas não entrou mais na pauta para a segunda votação. Uma das líderes da bancada no Congresso, a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), disse que o grupo decidiu não votar a emenda enquanto não seja redefinido o conceito de trabalho escravo.
O presidente da Câmara na época da primeira votação, Aldo Rebelo (PC do B-SP), 51, descreveu o papel dos ruralistas na discussão: "A bancada ruralista atuava sempre pelos líderes partidários, apresentava os pontos de vista e participava dos debates no plenário".
Indagado se a bancada pediu que a PEC não fosse votada, Aldo disse: "Não era diretamente para que não fosse a segundo turno, mas um esforço grande para que ela não fosse aprovada. E daí outro esforço para que houvesse uma redação que permitisse a votação e, portanto, a aprovação". Aldo disse que o governo "se empenhou na aprovação da PEC", mas "não transformou isso numa guerra, porque o governo trabalha em várias frentes, em atividades para as quais [escolhe] distribuir esforço e energia".
O ex-secretário dos Direitos Humanos do governo Lula (2003-2005), Nilmário Miranda (PT-MG), 60, disse que os ruralistas articularam um movimento contrário à PEC por meio dos líderes partidários: "A senadora Kátia Abreu era deputada na época, ela foi uma das próceres para impedir aquilo de qualquer maneira". Segundo ele, "há uma grande mobilização dentro da Câmara para impedir qualquer chance de aprovação da PEC".
O ex-secretário alegou que o governo "não abandonou a idéia" de aprovar a PEC, mas reconheceu que "sempre houve dificuldades, dentro da própria base do governo há contradições". Além disso, "não é segredo que há áreas do governo que não concordam [com a PEC]. O próprio Ministério da Agricultura na época não tinha nenhum entusiasmo por isso. Não trabalhava contra, mas não ajudava. Acho que ele não fez exatamente porque uma reação expressiva de um setor".
Resistência
Segundo Nilmário Miranda, o ex-ministro Roberto Rodrigues "não usou todo o potencial" para ajudar na aprovação da matéria. "Acho que ele não fez exatamente porque houve uma reação expressiva de um setor que votava com o governo na maioria dos casos", afirmou.
Segundo Nilmário, Aldo Rebelo "tinha um compromisso" de colocar a matéria para votar, mas isso ocorreu apenas em primeiro turno. "Entre o primeiro e o segundo turnos, aconteceu alguma coisa, eu não sei o que foi". Indagado, Aldo afirmou: "Havia receio de não obter os votos para aprovação e a matéria ir para arquivo, e os líderes tentaram encontrar uma redação que permitisse uma apreciação da matéria. E isso não foi alcançado".
Um deputado ruralista assim definiu a bancada, sob condição de não ter seu nome divulgado: "Eles estão presentes em quase todas as bancadas. Tinham uma referência importante no Ministério da Agricultura [ex-ministro Roberto Rodrigues], não tinham uma relação boa com o governo, [tinham] uma desconfiança grande do Lula. Eles têm uma pauta de reivindicação muito ampla, que vai da questão dos juros e do crédito dos recursos para safra, passa pelo preço dos insumos (...) e vai até as questões mais sensíveis e polêmicas, como reforma agrária e trabalho escravo".
Uma tese de doutorado defendida na USP (Universidade de São Paulo) neste mês pelo cientista político Leonardo Sakamoto vê uma relação entre a morosidade na apreciação dos projetos anti-escravagistas e as doações de campanha eleitoral.
Segundo ele, empresas agropecuárias acusadas de trabalho escravo, seus donos e parentes fizeram doações nas eleições de 2002 e 2004 que ajudaram a eleger dois governadores, cinco deputados federais, três deputados estaduais, três prefeitos e um vereador. Ele apontou ainda três deputados federais, um estadual e três prefeitos entre proprietários ou parentes de donos de fazendas autuadas por suposto trabalho escravo.
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Votação esbarra em conceito de trabalho escravo, diz senadora
Kátia Abreu, uma das líderes da bancada ruralista, diz que vota emenda que prevê confisco de terras se houver "definição clara'
Ronaldo Caiado (DEM-GO), nega que haja interferência em votação sobre o tema; para ele, poder da bancada é apenas o de se "mobilizar"
DA REPORTAGEM LOCAL
A senadora Kátia Abreu (DEM-TO), 47, uma das líderes da bancada ruralista no Congresso, afirmou que "um problema de conceituação" levou a bancada a decidir não votar a emenda constitucional que prevê o confisco de terras onde ocorra trabalho escravo.
"Ainda nesta semana o [José] Nery me procurou, o senador do PSOL, me disse: "Senadora, vamos votar a PEC do trabalho escravo?" Aí eu disse: "Se lá for escrito a mesma definição da OIT [Organização Internacional do Trabalho], convenção 29, voto na hora". Agora, com esse leque desse tamanho, sem definição clara e objetiva, eu não voto, sou sincera em dizer", afirmou Kátia, que é proprietária de terras no Tocantins. Indagada se é também essa a posição da bancada, afirmou: "Claro que é, geral da bancada".
A convenção citada pela senadora define a expressão "trabalho forçado ou obrigatório" como sendo "todo trabalho ou serviço exigido de uma pessoa sob a ameaça de sanção e para o qual não se tenha oferecido espontaneamente".
Um dos líderes da bancada ruralista e um dos fundadores da UDR (União Democrática Ruralista), o deputado federal Ronaldo Caiado (DEM-GO), 58, negou que a bancada ruralista esteja impedindo votações sobre o tema do trabalho escravo, como a votação em segundo turno da emenda que prevê o confisco de terras com trabalho escravo. Segundo ele, o poder que a bancada tem é de "[se] mobilizar na votação".
O deputado também alegou que a bancada "não é contrária à PEC [438], depende do texto". Caiado disse que "não tem dificuldade alguma para que a emenda vá à votação". "No momento em que a matéria é pautada, a frente parlamentar se reúne e diz de que maneira nós vamos atuar. Ninguém interfere se ela vai ou não ser pautada. A bancada não tem esse poder."
Caiado atribuiu o aumento da bancada a uma "resposta dada no voto" por eleitores a supostos problemas enfrentados pelo setor no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006).
"Foi o setor mais massacrado pelo governo Lula. Essa resposta que é dada no voto é uma reação da classe. Hoje você tem cartel de frigorífico, cartel de laticínio, de máquina, de banqueiro. Você tem um governo que é preconceituoso com o setor rural. E você tem um setor que é totalmente desprotegido, não tem seguro, não tem preço mínimo, todos os males ambientais ou sociais, a responsabilidade é do produtor rural."
O deputado disse que o número da bancada é "em torno de 120, 130 parlamentares" e que houve um "crescimento pouco significativo" na atual legislatura. "A bancada sempre oscilou entre 100 e 110."
O ex-ministro da Agricultura (2003-2006) Roberto Rodrigues, que hoje trabalha na FGV (Fundação Getulio Vargas) de São Paulo, disse em entrevista por telefone -ele estava em viagem a trabalho nos EUA- que na época da discussão da emenda 438 não tratou do assunto com a bancada ruralista.
Segundo o ex-ministro, a emenda "não era um tema ligado ao Ministério da Agricultura, era ligado à Secretaria de Direitos Humanos". (RV)
TST CONDENA FAMÍLIA MÂNICA POR TRABALHO DEGRADANTE
SITE REPÓRTER BRASIL
Por Iberê Thenório
15/10/2007
Família de Unaí é condenada a pagar R$ 300 mil por danos morais coletivos; sucessivos flagrantes de desrespeito aos direitos trabalhistas levaram Ministério Público do Trabalho a mover ação contra os Mânica
O Tribunal Superior do Trabalho (TST) manteve, no último dia 3, a condenação da família Mânica por danos morais coletivos, no valor de R$ 300 mil reais. Os irmãos Norberto, Luiz Antônio e Celso Mânica e o "gato" José Iomar Pereira dos Santos foram acionados pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) por manter trabalhadores em condições degradantes em suas fazendas em Unaí (MG).
Norberto ganhou fama internacional após investigações da Polícia Federal o apontarem como um dos mandantes do assassinato de quatro funcionários do Ministério do Trabalho e Emprego, emboscados na região de Unaí (MG) no dia 28 de janeiro de 2004.
O processo trabalhista foi iniciado em 2004, com um pedido de indenização no valor de R$ 3 milhões. O pedido foi parcialmente negado e, em segunda instância, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de Minas Gerais diminuiu a pena para R$ 300 mil, mas os empregadores recorreram. Com a decisão do TST confirmando a condenação, não cabe mais recurso.
A ação não é baseada em uma única fiscalização, mas em sucessivos flagrantes de desrespeito aos direitos trabalhistas que aconteceram entre 1999 e 2004 nas terras dos Mânica. Além disso, o MPT incluiu posteriormente no processo o acidente de trabalho ocorrido em janeiro de 2006 que causou a morte do adolescente Vinícius Francisco Pereira dos Santos, de 17 anos. Ele morreu asfixiado em um silo condenado em uma das fazendas da família Mânica.
Uma inspeção da Delegacia Regional do Trabalho de Minas Gerais constatou que, no caso do acidente, faltavam equipamentos de proteção individual e treinamento para os funcionários. Além disso, pela legislação trabalhista, Vinícius não poderia realizar tarefas de risco, pois ainda não tinha 18 anos.
Na decisão dos juízes do TRT, ratificada pelo tribunal superior, os juízes afirmam que os empregadores feriram a dignidade dos peões: "Deixar de oferecer as condições materiais mínimas para assegurar a saúde e higiene, tais como alimentação suficiente e de acordo com os costumes rurais, bem como os períodos de descanso para alimentação, resulta em aviltar, humilhar e rebaixar a situação do operário a mero fator de produção, sem respeito aos valores humanos e à dignidade desses obreiros, cujo respeito a legislação impõe."
Além do pagamento de indenização no valor de R$ 300 mil ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) pelo dano moral coletivo, a decisão do TST confirmou a condenação à obrigação de não manter trabalhadores menores de 18 anos em atividades insalubres, perigosas e penosas, sob pena de multa diária de R$ 1 mil.
O Escritório da OIT no Brasil divulgou a seguinte nota a respeito da suspensão das atividades do Grupo Móvel de fiscalizaçã do trabalho escravo.
NOTA À IMPRENSA
27/09/2007
A propósito da suspensão das atividades do Grupo Móvel de Fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego, encarregado das ações contra a ocorrência de casos de trabalho escravo, o Escritório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil emitiu a seguinte nota:
"A OIT lamenta a interrupção dos trabalhos do Grupo Móvel de Fiscalização, importante instrumento na luta contra esta prática, que ainda persiste no Brasil. No Relatório Global 'Uma Aliança Global contra o Trabalho Forçado', divulgado pelo seu Diretor Geral em 2005, a OIT reconhece na ação do Grupo Móvel um dos principais avanços do Governo brasileiro no combate a este crime.
Essa e outras medidas adotadas pelo Brasil nos últimos anos fizeram com que o país fosse apontado, no referido Relatório, como uma referência mundial no combate a essa grave violação aos direitos humanos e aos direitos fundamentais no trabalho.
A OIT espera que, em breve, os obstáculos que têm impedido a ação normal do Grupo Móvel sejam removidos para que a fiscalização das ocorrências de trabalho escravo seja retomada".
MINISTÉRIO SUSPENDE FISCALIZAÇÃO DE TRABALHO ESCRAVO
Senadores desqualificaram ação do governo federal que libertou mais de mil pessoas, em visita à fazenda de cana autuada por escravidão. Em resposta, ministério decide suspender atividades e alerta para falta de segurança aos auditores. Ministério Público Federal ajuiza ação penal contra os proprietários da fazenda
SITE REPÓRTER BRASIL
Por Leonardo Sakamoto
24/09/2007
A Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) informou, nesta sexta-feira (21), que suspendeu todas as novas operações que fiscalizariam denúncias de trabalho escravo no país por tempo indeterminado.
De acordo com memorando de Ruth Vilela, chefe da secretaria, direcionado ao ministro do Trabalho Carlos Lupi, o motivo foi a desqualificação de uma operação de libertação de escravos por uma Comissão Temporária Externa do Senado Federal e ameaças feitas por esta comissão contra os fiscais do trabalho. Nesta quinta-feira (20), cinco senadores visitaram a fazenda Pagrisa, localizada em Ulianópolis (PA), que no dia 30 de junho foi palco da maior libertação de trabalhadores da história do país. O todo, 1.064 trabalhadores que atuavam na lavoura de cana-de-açúcar foram resgatados pelo grupo móvel de fiscalização - formado por auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), procuradores do Ministério Público do Trabalho e delegados e agentes da Polícia Federal.
A visita parlamentar contou com a presença dos senadores Romeu Tuma (DEM-SP), Flexa Ribeiro (PSDB-PA), Kátia Abreu (DEM-TO), Cícero Lucena (PSDB-PB) e Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE). Eles anunciaram que irão pedir a abertura de inquérito da Polícia Federal para verificar os procedimentos adotados pelo grupo móvel durante a autuação da Pagrisa. Segundo a Agência Senado, Kátia Abreu afirmou que a empresa "é muito bem administrada e forma uma comunidade de trabalhadores rurais", explicando o porquê de uma investigação aprofundada sobre o grupo móvel. A senadora é uma das maiores opositoras do combate ao trabalho escravo contemporâneo. Quando deputada federal, defendeu os produtores rurais flagrados cometendo este tipo de crime e atuou contra a aprovação de leis que contribuiriam com a erradicação dessa prática.
De acordo com a Secretaria de Inspeção do Trabalho do MTE, a visita dos senadores, que atacaram veementemente a fiscalização, instalou um clima de insegurança que colocou em risco a continuidade das operações. Vale lembrar que os auditores fiscais do trabalho que atuam na zona rural têm sido vítimas de violência por parte de fazendeiros descontentes com as autuações. O caso mais famoso foi a chacina de três auditores e um motorista do MTE no dia 28 de janeiro de 2004, em Unaí (MG), durante uma fiscalização de rotina. Mas não é o único: em 8 de fevereiro do ano passado, o grupo móvel foi recebido a balas por fazendeiros, apoiados por policiais militares, em Nova Lacerda (MT). Ameaças contra o grupo já eram uma constante antes das declarações dos senadores.
Os grupos móveis de fiscalização foram criados em 1995, quando o Brasil reconheceu formalmente a existência de trabalho escravo contemporâneo em seu território. Desde então, essas equipes libertaram cerca de 26 mil pessoas, alçando o país a exemplo internacional no combate a esse crime, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho. A suspensão das atividades devido à insegurança institucional gerada ao ataque público de um dos Três Poderes pode abalar a reputação do país no exterior, uma vez que o Brasil não conseguirá cumprir os compromissos assumidos dentro e fora do Brasil, de erradicar completamente a escravidão, sem o seu principal instrumento de combate à escravidão.
O MTE está consultando a Advocacia Geral da União sobre as medidas que deve tomar com relação às ações do Senado.
Em ofício destinado ao MTE, o subprocurador-geral do Trabalho e coordenador nacional de combate ao trabalho escravo do Ministério Público do Trabalho, Luiz Antônio Camargo, endossou o relatório elaborado pelo coordenador da ação Humberto Célio Pereira sobre a ação na Pagrisa. A Polícia Federal enviou um documento semelhante, citando o desacordo com as leis trabalhistas em vigor e a pressão que o grupo móvel sofreu durante a fiscalização na fazenda.
O Ministério Público Federal no Pará ajuizou, nesta sexta-feira (21), ação penal por trabalho escravo contra Murilo Vilella Zancaner, Fernão Villela Zancaner e Marcos Villela Zancaner, proprietários da Pagrisa por causa da ação de libertação dos trabalhadores. Eles são acusados de frustrar, mediante fraude ou violência, direito assegurado pela legislação do trabalho (artigo 203 do Código Penal), expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente (artigo 132) e reduzir alguém a condição análoga à de escravo (artigo 149).
De acordo com a assessoria do MPF, a gravidade dos crimes cometidos pelos irmãos Zancaner justifica a aplicação da pena máxima de 15 anos de prisão. O relatório do grupo móvel de fiscalização foi analisado por seis procuradores da República, que consideraram fortes as provas de "condições degradantes de trabalho e moradia, infligidas coletivamente aos trabalhadores braçais nas plantações de cana de açúcar". A empresa também é acusada de forçar os trabalhadores a jornadas exaustivas de até 14 horas de trabalho, sem pagamento de horas extras, já que o ponto de saída e entrada era assinado ao mesmo tempo pelos fiscais da empresa.
O MPF concluiu, com base nas provas e no relatório, que os irmãos Zancaner, "dotados de vontade livre e consciente, reduziram os 1064 trabalhadores a condição análoga à de escravo, submetendo-os a trabalhos forçados, a jornada exaustiva e cerceando a liberdade de locomoção desses trabalhadores, por meio da dificuldade de saída da fazenda, pela parca percepção de vencimentos, atrelada à cobrança excessiva pelos medicamentos e à cobrança de transporte para a cidade". A ação tramita na vara federal de Castanhal com o número 2007.39.04.000812-4.
Legislativo contra Executivo
A Comissão Externa foi criada a partir de um requerimento do senador Flexa Ribeiro. José Nery (PSol-PA) chegou a propor que a visita contasse também com a presença de membros da Comissão Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae), mas a proposição não foi aprovada pelos seus pares. A Comissão só contou com parlamentares favoráveis à Pagrisa.
"A demissão em massa dos empregados vem ocasionando manifestações discordantes do procedimento empregado pela fiscalização, especialmente de entidades civis, líderes locais e da população do município, apreensivos com as conseqüências da demissão", afirmou na época Flexa Ribeiro.
Desde a megaoperação, o senador vem realizando lobby pela empresa, que cultiva cana-de-açúcar e produz açúcar e etanol. Em reunião no gabinete do ministro Carlos Lupi (PDT), no dia 12 de julho, ele acusou o grupo móvel de fiscalização do MTE de abuso de poder. Também estavam presentes na reunião os deputados Giovanni Queiroz (PDT-PA) e Paulo Rocha (PT-PA), além do presidente da empresa, Marcos Villela Zancaner, do presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará, José Conrado, e do presidente da Confederação Nacional da Pesca e Aqüicultura, Fernando Ferreira.
Na ocasião, o ministro Carlos Lupi e a secretária nacional de inspeção do trabalho, Ruth Vilela, ouviram os duros ataques contra o grupo móvel e contra o MTE proferidos pelo senador Flexa Ribeiro. Ele argumentou que a Pagrisa é uma empresa que beneficia 760 mil toneladas de cana, produz 50 milhões de litros de álcool, tem 1.800 funcionários com carteira assinada, todos eles com moradia - com água encanada, energia elétrica e saneamento básico -, atendimento médico gratuito, plano de saúde subsidiado em 50%, alimentação subsidiada dentro dos limites da lei..
Humberto Célio Pereira, coordenador da ação de libertação, tem sido um dos mais atacados por senadores que defendem a empresa. Mas ele mantém o que foi escrito em seu relatório de fiscalização: a situação era degradante, com trabalhadores que não ganhavam salários, já que os descontos ilegais realizados pela empresa consumiam quase tudo o que havia para receber. A comida fornecida estava estragada e havia várias pessoas sofrendo de náuseas e diarréia. A água para beber, segundo relato dos empregados na fazenda, era a mesma utilizada na irrigação da cana e, de tão suja, parecia caldo de feijão. O alojamento, de acordo com Humberto, estava superlotado (não havia espaço para todos) e o esgoto corria a céu aberto. Vindos em sua maioria do Maranhão e do Piauí, os trabalhadores não tinham transporte à disposição para levá-los da fazenda ao centro de Ulianópolis, distante 40 quilômetros.
A Petrobras e a Ipiranga, entre outras distribuidoras de combustíveis signatárias do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, afirmaram que estão deixando de comercializar com a empresa até que seja regularizada sua situação trabalhista. E aí está a provável razão para o desespero dos proprietários da usina e de seus representantes políticos no Congresso.
O ministro Carlos Lupi defendeu a operação de fiscalização na Pagrisa em reunião da Conatrae, no dia 31 de julho, quando os ministérios, demais órgãos públicos e organizações da sociedade civil que compõem a comissão divulgaram uma nota pública reafirmando o apoio às ações do grupo móvel e criticaram as pressões sobre o combate ao trabalho escravo.
Por diversas vezes, houve tentativas de interferência política no trabalho do grupo móvel, principalmente quando os proprietários das fazendas eram políticos ou empresários importantes. Um exemplo foi o caso do segundo secretário da Câmara dos Deputados Inocêncio Oliveira (PR-PE), de cuja fazenda foram libertados 53 trabalhadores no Maranhão em 2002. Na época, houve tentativas para se abafar o caso, mas o governo federal manteve a fiscalização. Da mesma forma, o MTE e empresas socialmente responsáveis sofreram pressão de deputados federais, inclusive do então presidente da Câmara dos Deputados Severino Cavalcanti, devido à operação de fiscalização que libertou 1003 pessoas da Destilaria Gameleira, em Confresa (MT), em junho de 2005. Na época, o ministro Ricardo Berzoini chegou a expulsar representantes da empresa que vieram pressioná-lo em seu gabinete.
Mudanças trabalhistas
Políticos que apóiam a Pagrisa têm reclamado de que as fiscalizações rurais são feitas de surpresa, não dando tempo para os proprietários se prepararem para receber o grupo móvel.
Essa foi exatamente uma das razões que levou ao MTE a criar uma equipe que respondesse diretamente a Brasília, sem sofrer interferências políticas e econômicas regionais. Antes do grupo móvel, era comum a informação sobre a fiscalização vazar, dando tempo para o fazendeiro esconder os trabalhadores e maquiar a situação.
No memorando que suspende as fiscalizações, a Secretaria de Inspeção do Ministério do Trabalho e Emprego fala da necessidade de que as diligências para verificação de denúncias sejam in loco e sem agendamento prévio, garantindo o flagrante das condições degradantes quando elas existem.
De acordo com o Diário do Pará, Jarbas Vasconcelos e Kátia Abreu sinalizaram durante a visita que podem propor mudanças na legislação sobre o tema.
Fazendeiros têm pressionado para tirar poderes da fiscalização rural. A última tentativa nesse sentido havia sido a de aprovar uma lei (a emenda 3 ao projeto que criou a Super Receita) que previa que os auditores fiscais não teriam poder para reconhecer vínculos empregatícios no caso de contratos de pessoas jurídicas, ficando esse dever a cargo da Justiça. Na prática, isso tirava os poderes da fiscalização, haja vista que há muitos fazendeiros que montam uma empresa de fachada para o seu contratador de mão-de-obra empregar safristas. Dessa forma, ele se livra dos direitos trabalhistas que também nunca serão pagos pelo contratador - boa parte das vezes tão pobre quanto os peões. O Congresso aprovou, Lula vetou e os trabalhadores foram às ruas para apoiar o veto.
Com as boas condições mostradas à mídia, os senadores voltam à Brasília com um fato político construído. Entidades da Conatrae já apontavam que a visita seria desdobrada na tentativa de implantação de medidas que restringissem a fiscalização rural.
O aumento do interesse mundial por biocombustíveis e a grande demanda por outras commodities, como carne bovina, faz com que o governo e parte do empresariado e até dos trabalhadores mirem nos ganhos econômicos que isso vai trazer. O resultado disso é que criticar os impactos sociais, ambientais, fundiários e trabalhistas da cana hoje tem sido visto como um entrave ao crescimento.
Está previsto para o dia 5 de outubro uma audiência pública na Comissão Permanente de Biocombustíveis no Senado para discutir o caso Pagrisa,solicitada por Kátia Abreu. Entidades que apóiam a empresa e o proprietário da Pagrisa foram convidados. Do lado da fiscalização, apenas o coordenador da operação Humberto Pereira recebido convite. Para que haja maior equilíbrio entre os convidados, os senadores José Nery e Paulo Paim (PT-RS) solicitaram que fossem convidadas sete organizações que atuam no combate à escravidão e acompanharam o caso de perto, como o Ministério Público do Trabalho e a Organização Internacional do Trabalho. O pedido ainda não foi votado.
TERRAS RECONHECIDAS - POVOS INDÍGENAS OBTÊM VOTÓRIA CONTRA ARACRUZ NO ES.
Ministro da Justiça, Tarso Genro, assinou portarias declarando como terra indígena mais de 18 mil hectares reivindicados pelos povos Tupinikim e Guarani, na região de Aracruz, norte do Espírito Santo. Essa área é ocupada hoje pela empresa Aracruz Celulose.
Marco Aurélio Weissheimer
Carta Maior
05/09/2007
O ministro da Justiça, Tarso Genro, assinou, segunda-feira, duas portarias que declaram como terra indígena os 18.027 hectares reivindicados pelos povos Tupinikim e Guarani, na região de Aracruz, norte do Espírito Santo. Essa área, atualmente, é ocupada pela empresa Aracruz Celulose. As portarias foram publicadas nesta terça-feira (28), no Diário Oficial da União, pondo fim a uma disputa de terras que dura mais de 20 anos.
Agora, a Fundação Nacional do Índio (Funai) deverá delimitar a terra, colocando marcos físicos nos seus limites. Feito isso, o presidente da República poderá homologar a terra. Em fevereiro de 2006, a Funai publicou um relatório reconhecendo a área como indígena. A Aracruz contestou o documento, colocando em dúvida a identidade étnica dos Tupinikim e dos Guarani. Após avaliar a contestação da empresa, a Funai manteve sua recomendação em favor da publicação da portaria declaratória e encaminhou-a ao então ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos.
Seis meses depois, o processo foi devolvido à Funai, com a recomendação de que fosse feita uma conciliação entre as partes em disputa. Em julho de 2007, os indígenas retomaram parte de suas terras e reconstruíram aldeias que haviam sido destruídas em janeiro de 2006, numa ação da Polícia Federal, com apoio da Aracruz. As terras dos dois povos indígenas foram identificadas em 1996, através de estudos antropológicos da Funai, com um total de 18 mil hectares.
Em 1998, foram demarcados apenas 7.061 hectares, em uma decisão que permitiu a diminuição da terra após um acordo com a Aracruz. Em troca, a empresa prometeu adotar medidas de compensação aos indígenas, em um processo questionado pelo Ministério Público Federal. Nos últimos anos, os indígenas voltaram a se mobilizar. A Funai fez novos estudos e, em fevereiro de 2006, chegou à mesma conclusão de 1996: as terras são indígenas.
Termo de Ajustamento de Conduta
Segundo informou a deputada federal Iriny Lopes (PT-ES), o ministro Tarso Genro pretende convocar representantes dos povos indígenas e da Aracruz para que firmem um termo de ajustamento de conduta junto ao Ministério Público. O objetivo é que, ao se considerar como definitivo o laudo da Funai, futuramente nenhuma das partes possa requerer novas terras. A empresa afirmou que só irá se manifestar depois de conhecer e analisar todas as implicações das portarias.
Em 2006, a Aracruz acusou os indígenas de causar um prejuízo de R$ 1 milhão com a destruição dos eucaliptos, e de intimidar e agredir seus trabalhadores. Por conta disso, o sindicato dos funcionários da empresa convocou toda a população do município de Aracruz a participar de uma manifestação contra as comunidades indígenas locais. Entidades empresariais do ES pagaram uma campanha publicitária atacando os indígenas da região.
O presidente da Funai, Márcio Meira, comemorou a medida dizendo que a declaração de posse dos Tupinikim e dos Guarani é “o reconhecimento pelo Estado da afirmação de um direito histórico dos territórios ocupados por eles”. As terras indígenas no município de Aracruz contam com sete aldeias, em uma área total de 7.560 hectares, sendo quatro Tupinikim e três Guarani.
Agora, com a declaração de posse, o território pertencente a esses povos indígenas chega a 18.027 hectares. No dia 17 de agosto, Tarso Genro assinou portarias declaratórias de outros sete territórios indígenas, cinco no Amazonas, um no Acre e outro no Mato Grosso. Ao todo, mais de 1,7 mil índios foram beneficiados com 401 mil hectares de terra. De abril a agosto deste ano, mais 710 mil hectares foram declarados como pertencentes a povos indígenas.
* Com informações do CIMI e do Ministério da Justiça
RELATÓRIO SUCINTO DOS
ACONTECIMENTOS DO BREJÃO
2 DE SETEMBRO DE 2007
Antecedentes: recebi fax da Câmara de Vereadores de Brejo Grande comunicando ter realizado uma audiência pública em Brejão, ocasião em que foram formuladas acusações de fraudes no processo de reconhecimento como Comunidade Quilombola. Isso tudo insuflado pelo pároco local Pe. Isaias Carlos do Nascimento Filho, afirma o documento, e por um jovem que não tem nenhuma qualificação para se definir presidente da Comunidade Quilombola.
Alguns acontecimentos: ao problema civil e social acima mencionado acrescentou-se uma complicação de ordem eclesial, bem explorada por parte de algum para denegrir a figura do Pároco, sobre as datas da celebração e da modalidade de celebração de duas festividades no referido Brejão, que o Bispo aconselho a serem celebradas no dia estabelecido pelo Calendário Universal da Igreja Católica. Um dos motivos desta determinação foi à tentativa de distinguir a festa religiosa dos festejos sociais frequentemente incompatíveis com as ditas festas, como a presença de trio elétrico e outras ocorrências.
O fato: em vista disso, a convite, eu aceitei ir rezar uma Missa no Brejão. Várias autoridades estavam presentes. Na homilia me ateve a explicar a doutrina social da Igreja.
Terminada a Missa convidei para que o povo pudesse ter esclarecimentos. No interior da Igreja durante a Missa houve o maior respeito, enquanto fora da Igreja havia um grupo que incentivava o povo a sair. Houve desacatos ao representante da OAB por parte de um rapaz, que também veladamente ameaçou o Dr. Rodrigo, sendo que um conhecido do rapaz interpretou como ameaça de violência.
Terminada a Missa todos os que estavam fora entraram gritando slogans bem ensaiados
de “Fora o padre”. E a qualquer tentativa de acalmar não deixaram falar. Por esta razão suspendi a tentativa de dialogo.
Reunião: partimos de Brejão e nos reunimos na casa paroquial de Brejo Grande para avaliar a situação. Percebe-se claramente a desinformação de vários componentes da comunidade e a contra-informação bem orquestrada por parte de um grupo, não desprovido da presença de pessoas formadas. O referido grupo, a par das conseqüências sociais, econômicas, terreiras que envolvem o processo de reconhecimento como Comunidade Quilombola, espalhou informação erradas, que assustariam qualquer um, por pobre e miserável que seja, como o fato de já estarem suas casa hipotecadas e que seria tiradas dele para serem entregue a outros de fora.
Alguém escutou também ameaças que queimariam a casa do padre. Pode se duvidar destas
ameaças quando isso já aconteceu no 25 de julho de 2006? Motivação: a atuação da Cáritas num tecido social fragilizado pela miséria, fome, desemprego, violência.
Diante destas ameaças levei comigo o padre para alguns dias de descanso. Mas não é a primeira vez que a Diocese de Propriá enfrenta ameaças desde os tempos de Dom Brandão de Dom Lessa, que se registram sempre naquela região. Os atos de violência praticados contra religiosos/as e leigos são bem documentados.
Implicações ulteriores:
Convém notar que não se trata somente da questão quilombola do Brejão, mas também de uma reação ao trabalho de conscientização da Cáritas Diocesana de Propriá, de flagrantes injustiças aos posseiros da Resina e da Carapitanga e da organização dos trabalhadores sem terra.
Ampliando a questão, em todo o litoral da Bahia e Sergipe existem problemas com a destruição dos manguezais e desestabilização da economia dos catadores e pescadores tradicionais dos moradores que vivem em simbiose com o meio ambiente. Grandes grupos com a violência querem subtrair o sustento quotidiano desses moradores. A região em questão não está foram desses problemas.
Sugestões:
- vista a gravidade da situação em que se defrontam interesses de grupos econômicos forte, a Diocese hipoteca a sua solidariedade aos posseiros, à comunidade Quilombola e a todos que desejam ter terra para trabalhar’
- que se promova o uso de toda legislação atual para promover a Justiça e a Paz na região
Com os meus obséquios.
Dom Mario Rino Sivieri
Bispo Diocesano
VALE ANUNCIA CORTE DE FORNECIMENTO A SIDERÚRGICAS
Repórter Brasil - 23/ 08/ 2007
Vale do Rio Doce anuncia corte de fornecimento a siderúrgicas
A partir de setembro, de acordo com a mineradora, terá início o corte do minério de ferro fornecido às guseiras que desrespeitam leis ambientais e trabalhistas. Cosipar e Usimar são as primeiras atingidas
Por André Campos
A Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), responsável pela extração do minério de ferro que abastece as siderúrgicas do Pólo Carajás, anunciou nesta quarta-feira (22) o corte no fornecimento para usinas que não respeitam as legislações ambientais e trabalhistas em vigor no Brasil. A decisão, válida a partir de setembro, terá a Companhia Siderúrgica do Pará (Cosipar) e a Usina Siderúrgica de Marabá S/A (Usimar) como primeiras atingidas.
A posição da Vale se baseia em fiscalizações do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) que apontaram passivos ambientais nessas duas empresas. De acordo com nota divulgada pela empresa, "a CVRD reafirma seu compromisso com o desenvolvimento sustentável das regiões onde atua, bem como o respeito às legislações em vigor."
Em abril deste ano, a Operação Apiti, encabeçada pelo Ibama, culminou na emissão de mais de R$ 150 milhões em multas às siderúrgicas produtoras de ferro-gusa de Marabá (PA), relacionadas principalmente à aquisição de carvão sem origem comprovada. No total, oito empresas foram inspecionadas, das quais cinco tiveram carvão apreendido - Cosipar, Usimar, Sidenorte, Simara e Sidepar. Em 2005, ilegalidades relacionadas ao carvão vegetal já haviam gerado multas ambientais de mais de R$ 500 milhões envolvendo guseiras tanto do Pará quanto do Maranhão.
A fabricação de ferro-gusa - matéria-prima para o aço - utiliza grandes quantidades carvão vegetal em seu processo produtivo. Levantamentos do próprio Ibama indicam que as siderúrgicas do Pólo Carajás consomem aproximadamente sete milhões de metros cúbicos anuais do produto, dos quais grande parte seria proveniente de desmatamentos ilegais.
"As empresas para as quais estaremos cortando o fornecimento de minério a partir do dia 1 de setembro são as mais reincidentes em termos de infrações no Ibama, e também são as que têm demonstrado, na prática, menos atenção para a correção, por exemplo, da questão do reflorestamento", afirma José Carlos Martins, diretor-executivo de Ferrosos da CVRD.
Ele próprio admite que boa parte desse pólo guseiro está operando na irregularidade, sendo o carvão de origem legal insuficiente para atender 50% da produção. De acordo com o diretor da CVRD, há a possibilidade de que a Vale do Rio Doce aumentar o número de empresas que não receberão minérios, caso elas não procurem se enquadrar à legislação. "Pela nossa avaliação, há empresas que estão muito comprometidas em regularizar a situação", diz. "E há empresas que não plantaram uma árvore até agora."
A diretoria da Cosipar, por meio de nota de esclarecimento, declara que o consumo de carvão da empresa não corresponde aos números levantados pelo Ibama. Segundo a empresa, a contabilidade do Instituto que aponta déficit de carvão vegetal regularizado é inadequada por não levar em conta, entre outros fatores, projetos de reflorestamento desenvolvidos pela companhia e novas tecnologias que permitem menor consumo dessa matéria-prima.
"A Cosipar afirma que está regular perante os órgãos ambientais Federal e Estadual e que acredita no entendimento com a CVRD para manter o seu relacionamento comercial existente há 21 anos", diz a nota. Procurada pela reportagem, a Usimar não retornou os pedidos de entrevista até o fechamento da reportagem.
Trabalho escravo
Além dos problemas ambientais, o fornecimento de carvão às siderúrgicas também é freqüentemente associado ao emprego de trabalhadores em condição análoga a escravidão na sua produção. Parcela considerável das libertações realizadas pelo grupo móvel do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) têm ocorrido em carvoarias terceirizadas que, não raro, são fornecedoras das siderúrgicas. José Carlos afirma que as fiscalizações do MTE também serão utilizadas como base para possíveis decisões de corte no fornecimento.
A Vale do Rio Doce é signatária do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. O documento reúne mais de cem empresas, entidades representativas e organizações da sociedade civil que se comprometem a dignificar as relações trabalhistas nas cadeias produtivas dos setores que tenham se envolvido com esse crime. A "lista suja" do trabalho escravo - cadastro mantido pelo MTE com os empregadores flagrados utilizando esse tipo de mão-de-obra - tem sido o principal instrumento de informação das ações dos signatários do Pacto.
Atualmente, quatro guseiras - Viena Siderúrgica do Maranhão, Siderúrgica Marabá (Simara), Siderúrgica do Maranhão (Simasa) e Ferro Gusa do Maranhão (Fergumar) - estão presentes na "lista suja" do trabalho devido à prática desse crime em carvoarias que abasteciam seus fornos. Até o momento, no entanto, a Vale não anunciou nenhum corte no fornecimento de minério a essas empresas. Indagada pela Repórter Brasil se vai realizar cortes com base na "lista suja", a CVRD não se pronunciou sobre o assunto.
Os problemas trabalhistas enfrentados pelas siderúrgicas motivaram criação do Instituo Carvão Cidadão (ICC), entidade que congrega 14 empresas e que tem como objetivo central a regularização das relações de trabalho nas carvoarias fornecedoras do Pólo Carajás. Desde que foi criado, em 2004, o ICC já flagrou, nas fiscalizações que realiza, mais de 300 carvoarias desrespeitando a legislação trabalhista.
Em dezembro do ano passado, o diretor executivo da Vale, Tito Martins, já havia declarado que a empresa iria parar de vender minério às guseiras suspeitas de adquirir matéria-prima proveniente de mão-de-obra escrava. A renovação dos contratos de fornecimento para as siderúrgicas, segundo a mineradora, só seria feita com aquelas que possuíssem situação ambiental e trabalhista regularizadas. Segundo a Associação das Siderúrgicas de Carajás (Asica), a maioria desses contratos termina em 31 de dezembro de 2008.
"ESTÃO FABRICANDO GENTE QUE VIVE COMO ESCRAVO"
GLOBO
17/07/2007
Um grupo de políticos e empresários do Pará está pressionando o Ministério do trabalho para rever a autuação da empresa Pará Pastoril e Agrícola (Pagrisa), acusada de expor funcionários à condição análoga ao trabalho escravo. A operação do Grupo Móvel de Fiscalização, que há duas semanas libertou 1.108 funcionários da fazenda, foi a maior realizada até hoje pelos auditores. Numa reunião tensa e constrangedora, ocorrida na última quinta-feira, no gabinete do ministro do trabalho, Carlos Lupi, parlamentares paraenses acusaram o governo de ter exorbitado na ação.
Na comitiva, estava o deputado Paulo Rocha (PT-PA), um dos autores da proposta de expropriação das terras onde são flagrados casos de trabalho escravo, que tramita na Câmara. Ele é o coordenador da bancada do Pará no Congresso Nacional. A Pagrisa é a maior produtora de açúcar e álcool do estado e fica em Ulianópolis, a 450 quilômetros de Belém.
Presidente da Pagrisa mostra vídeo a Lupi O presidente da Pagrisa, Marcos Zancaner, e o presidente da Federação das Indústrias do Pará (Fiepa), José Conrado, também participaram do encontro. Zancaner chegou a exibir um vídeo institucional sobre a empresa para Lupi.
Durante o encontro, o senador Flexa Ribeiro (PSDBPA), o mais exaltado, discutiu com a secretária de Inspeção do trabalho, Ruth Vilela, coordenadora do Grupo Móvel. Ele a acusou de ser a responsável pela ação dos fiscais na Pagrisa.
* A reunião foi tensa, evidente.
Queremos que o ministro apure se houve excesso dos fiscais. Discutimos sim. A secretária defendeu o ponto de vista dela, e sempre negava tudo * disse ontem Flexa Ribeiro.
Os auditores constataram que os colhedores de cana-deaçúcar trabalhavam e viviam em condições degradantes. Os fiscais encontraram diversas irregularidades, como alojamentos superlotados, jornada excessiva de trabalho e falta de água potável. O valor das indenizações a serem pagas aos trabalhadores chega a R$ 1,8 milhão. A Pagrisa ainda deverá ser multada e pode ser incluída na chamada lista suja do trabalho escravo.
O deputado Giovanni Queiroz (PDT-PA), também presente na reunião, fez duros ataques ontem às ações dos fiscais do ministério e também a Ruth Vilela.
* Foi uma ação premeditada.
A secretária Ruth é a cascavel do grupo. Aquela ação foi uma palhaçada. Estão fabricando gente que vive como escravo no Brasil. É tudo um exagero * disse Segundo Flexa Ribeiro e Giovanni Queiroz, o deputado Paulo Rocha, na reunião, disse que, apesar de ser autor da proposta que endurece o combate ao trabalho escravo, estaria havendo exageros na aplicação da atual legislação. O GLOBO procurou ontem Paulo Rocha.
Sua assessoria informou que ele estava viajando e que retornaria a Brasília à noite.
Direção da empresa nega qualquer irregularidade No encontro no gabinete de Lupi, Ruth Vilela teria dito que a reunião teve caráter de "tribunal sumário".
A direção da Pagrisa negou qualquer irregularidade, afirmando que todos os seus 1.600 empregados têm carteira assinada. A empresa informou ainda que os 27 alojamentos têm instalações sanitárias e um refeitório para servir aos trabalhadores.
O Ministério do trabalho informou, por intermédio de sua assessoria de imprensa, que Carlos Lupi apenas atendeu a um pedido de audiência dos parlamentares e que se comprometeu a apurar se houve abusos da fiscalização.
De acordo com a assessoria, não é comum encontros entre o ministro com empresas autuadas, mas que, diante da repercussão do caso, Lupi decidiu recebê-los.
Ruth Vilela, que já havia decidido deixar a secretaria antes desse episódio, preferiu não comentar o assunto. _
AÇÃO RECORDE RESGATA 1108 TRABALHADORES DA CANA NO PARÁ.
Na fazenda, localizada no município de Ulianópolis, os trabalhadores dormiam em alojamentos superlotados com esgoto a céu aberto, recebiam comida estragada e água sem condições de consumo, além de salários que chegavam a R$ 10,00 por mês. A Petrobras é cliente da empresa
Repórter Brasil
Por Iberê Thenório e Leonardo Sakamoto
02/07/2007
O grupo móvel de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) flagrou, no último sábado (30), 1108 trabalhadores que se encontravam em condições análogas à escravidão. Eles faziam a colheita e plantio da cana para a fazenda Pagrisa (Pará Pastoril e Agrícola S.A.), no município de Ulianópolis (PA), localizado a 390 km de Belém. A ação contou com a participação do Ministério Público do Trabalho, representado pelo procurador Luis Antônio Fernandes, e da Polícia Federal.
De acordo com o auditor fiscal do trabalho e coordenador da ação, Humberto Célio Pereira, havia trabalhadores que recebiam apenas R$ 10,00 por mês, já que os descontos ilegais realizados pela empresa consumiam quase tudo o que havia para receber de salário. O auditor informa ainda que a comida fornecida aos trabalhadores estava estragada e havia várias pessoas sofrendo de náuseas e diarréia.
A água para beber, segundo relato dos empregados na fazenda, era a mesma utilizada na irrigação da cana e, de tão suja, parecia caldo de feijão. O alojamento, de acordo com Humberto, estava superlotado e o esgoto corria a céu aberto. Vindos em sua maioria do Maranhão e do Piauí, não havia transporte à disposição dos trabalhadores para levá-los da fazenda ao centro de Ulianópolis, distante 40 quilômetros.
Os auditores ainda se encontram na propriedade para realizar o pagamento da rescisão contratual, que deverá ser feito nesta terça-feira (3).
O diretor da Pagrisa, Fernão Villela Zancaner, informa que ainda aguarda uma notificação oficial do MTE sobre as irregularidades trabalhistas para poder se pronunciar. "Cem por cento dos nossos funcionários têm carteira assinada. Sempre sofremos fiscalizações e nunca tivemos problemas. Estamos surpresos com essa fiscalização que não é corretiva, mas punitiva", afirma. O grupo produz cerca de 50 milhões de litros de álcool a cada ano em Ulianópolis. E mantém no mesmo local uma usina de açúcar com produção de 200 quilos por dia. O principal comprador de etanol da empresa é a Petrobras.
Se os números se confirmarem, esta será a maior libertação de trabalhadores realizada no país. Desde que os grupos móveis de fiscalização foram criados, em 1995, a maior libertação havia acontecido na Destilaria Gameleira, em junho de 2005, quando 1003 pessoas foram libertadas. Apesar da cana figurar entre as maiores libertações, esta não é a atividade que mais usa trabalhadores escravos no país - posto esse que pertence à criação de gado bovino.
O Pará é recordista no número de trabalhadores libertados da escravidão - foram mais de 8,7 mil desde 1995. Essa é uma das primeiras ações envolvendo a cana-de-açúcar no estado. A pecuária bovina, a produção de carvão para siderurgia, a extração de madeira e o cultivo de pimenta-do-reino são atividades nas quais a incidência de trabalho escravo no Pará tem sido mais freqüente.
GOVERNO DISCUTE METODOLOGIA PARA OBTER NÚMEROS PRECISOS SOBRE O TRABALHO ESCRAVO.
Gláucia Gomes e Aline Bravim
Da Agência Brasil
31/05/2007
Brasília - O Brasil ainda não tem uma metodologia para definir quantas pessoas estão em situação de trabalho escravo, porque em geral esse trabalho "é oculto, por ser considerado crime, o que impossibilita a precisão das estatísticas", disse hoje (30) o ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos.
Durante seminário promovido pela Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae), presidida por Vannuchi, para discutir propostas com esse objetivo, o ministro comentou a estimativa de que 25 mil brasileiros sejam explorados durante suas atividades: "A minha preocupação é que a quantidade seja bem maior".
Segundo Vannuchi, o Pará é o estado que mais preocupa o governo e as instituições dedicadas a combater o trabalho escravo, cuja incidência é maior nas atividades de pecuária, fabricação de carvão e colheita de soja.
Para o coordenador-geral da Organização Não-Governamental (ONG) Repórter Brasil, Leonardo Sakamoto, que participou do seminário, um censo seria a melhor forma de chegar mais próximo ao número real desses trabalhadores, apesar de ser caro e inviável.
"É claro que nunca vamos obter números completamente perfeitos, pelo fato de ser um crime. Mas é possível fazer uma estimativa para a elaboração de políticas públicas e para o abastecimento de indicadores que vão apontar se o combate está sendo efetivo ou não", argumento Sakamoto.
Do debate participaram ainda representantes do Ministério do Trabalho e Emprego, da Organização Internacional do Trabalho e da Comissão Pastoral da Terra.
PACTO MOSTRA SUCESSO DE ARTICULAÇÃO SOCIAL.
Rodrigo Zavala
22/05/2007
Nas comemorações de dois anos do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, seus organizadores mostraram resultados positivos da iniciativa, como a visibilidade alcançada intersetorialmente e o aumento de empresas e organizações engajadas. No entanto, eles alegam que o maior motivo para celebrar é a eficiência conquistada pelo trabalho conjunto de diferentes atores, que possibilitou sistemáticos êxitos.
Lançado no dia 19 de maio de 2005, em Brasília, o pacto é promovido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e pela ONG Repórter Brasil. Foram essas três organizações que iniciaram um trabalho de conscientização social, que hoje conta com a adesão de mais de 100 empresas nacionais e estrangeiras, além de entidades de classe do setor empresarial. Todas se comprometeram a não mais adquirir produtos de empresas que, comprovadamente, se utilizam de mão-de-obra escrava.
A idéia é simples. O pacto segue a chamada "lista suja" do trabalho escravo no Brasil, um cadastro público que informa as empresas flagradas em atos ilícitos, atualizada semestralmente pelo Ministério do Trabalho e do Emprego (MTE). Com base nesse rol de criminosos, bancos públicos e privados, governos locais e federal bloqueiam recursos que possam financiar essas atividades, tal como grandes varejistas se negam a distribuir seus produtos.
"É um estrangulamento comercial e financeiro dessas empresas, para que elas simplesmente sigam a lei. E seguir a lei, nesse caso, é respeitar a dignidade humana", afirma a coordenadora do Projeto de Combate ao Trabalho Escravo da OIT no Brasil, Patrícia Audi. Segundo ela, a lista ainda colabora ao informar os consumidores, para que não apenas deixem de comprar os produtos, mas também pressionem outras empresas a fazer o mesmo. É uma questão de responsabilidade social das empresas, enfim.
As principais atividades econômicas em que foram resgatados os escravos contemporâneos brasileiros são: pecuária de corte (com 62% dos casos), seguidas por carvão (12%), algodão (5,2%) e soja (4,7). "Foram libertados, no ano passado, 3729 trabalhadores só no setor bovino. Eles não são os vaqueiros, mas aqueles que cuidam da manutenção do pasto e, pior, da abertura de florestas, em práticas ilegais, para o aumento desse pasto", explica o coordenador geral da ONG Repórter Brasil, Leonardo Sakamoto, responsável pelo levantamento.
Embora o pacto não seja responsável pela as apreensões ou investigações, mas sim o Ministério Público, o bloqueio de investimentos a essas empresas tem surtido um efeito real: a diminuição do número de trabalhadores escravos. Afinal, segundo procurador do Ministério Público do Trabalho, Luis Camargo de Mello, um fazendeiro flagrado pode abrir uma nova empresa e novamente burlar a lei, enquanto enfrenta o processo de seu antigo empreendimento.
"Há inúmeros casos em que o empresário, por meio de liminares, consegue retirar seu nome da lista suja e, durante alguns meses, tenta financiamento. Sem os critérios e comportamentos trazidos pelo pacto, ele possivelmente conseguiria", afirma. Nessas situações, os signatários podem seguir uma espécie de histórico, que os mantenha informados das alterações na lista, inviabilizando possíveis burlas.
Um dos exemplos vem do Mato Grosso, um dos Estados que mais apresentam casos de trabalho escravo * perdendo apenas para o Pará, nos levantamentos da ONG Repórter Brasil. É a experiência do Grupo Amaggi, que, por meio da Fundação André Amaggi, de Souza, não apenas segue a lista, como faz um levantamento socioambiental de seus fornecedores.
Com 18% de participação no mercado de Mato Grosso, o grupo conseguiu baixar de 14% para 1% os casos de compras oriundas de fornecedores suspeitos. "Sem auditoria não há negociação. Capacitamos nossos funcionários para fazê-las, pois muitos fazendeiros usam disfarces para distribuir seus produtos, como substituir o CNPJ, por exemplo", lembra a coordenadora de desenvolvimento social da fundação, Juliana Lopes.
A experiência do Grupo Amaggi tem o mérito também de persuadir os fazendeiros a mudar suas práticas. Embora não os ajude financeiramente, tenta dar suporte para que eles sigam a lei. Isto é, mostram que, se estiverem quites com a justiça, obterão mais benefícios do que embargos.
Afinal, eles não precisam ser instruídos, como se confirma pelo curioso dado trazido pelo senador José Neri, que faz parte da Subcomissão de Combate ao Trabalho Escravo do Senado * vinculada à Comissão de Direitos Humanos *, nascida pós o pacto. Por meio dos relatórios elaborados pela instância, o perfil dos empresários que praticam o crime não é de iletrados, desinformados ou ignorantes; pelo contrário. "São pessoas instruídas, com apoio jurídico. Isso explica porque conseguem liminares para voltarem a receber recursos. Trata-se de uma chaga social que envergonha o país internacionalmente", discursa.
Segundo o senador, está em discussão um Projeto de Lei que prevê a expropriação das terras de fazendeiros flagrados cometendo o delito. A iniciativa, se não prova, pelo menos evidencia um grau de comprometimento do legislativo sobre a questão.
Mesmo assim, ainda há muito a ser feito, como denuncia o frei Xavier Plassat, que há mais de uma década constata as piores transgressões. Como coordenador da Comissão Pastoral da Terra, ele tem acesso ao número de denúncias anuais, em torno de 250. "Existe uma necessidade real de fiscalização. Basta ver que há um número muito maior de casos do que de cadastrados na lista. Os produtores sempre encontram brechas e apenas um envolvimento de todos poderá evitá-las", crê.
Para secretário-executivo do Instituto Ethos, Caio Magri, a luta contra o trabalho escravo no país não é apenas uma questão humanista. Trata-se também da idoneidade do setor privado brasileiro, não apenas internamente * com consumidores mais conscientes sobre a origem dos produtos *, mas em acordos internacionais. Afinal, perde-se confiabilidade no mercado quando a origem dos produtos é duvidosa. Basta lembrar do achincalhamento público que sofreu a empresa de artigos esportivos Nike, em 2002, , quando seus fornecedores foram denunciados por maltratar empregados e usar mão-de-obra escrava e infantil em países asiáticos.
Em uma época em que a responsabilidade social deixa de ser altruísmo ou diferencial empresarial * no que tange a valores e ética universais - para se tornar as bases de um mundo sustentável, o respeito a "dignidade humana", nas palavras de Patrícia Audi, da OIT, é o consenso mais evidente.
De acordo com dados da OIT, os trabalhadores aliciados para o trabalho escravo são, em sua grande maioria, homens com idade entre 21 e 40 anos, analfabetos ou com pouquíssimos anos de instrução. A vulnerabilidade desses trabalhadores, a maioria provenientes de estados com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) deve-se, principalmente, à falta de oportunidade de geração de emprego e renda que permitam a sobrevivência de suas famílias, lembra Patrícia.
"Embora o Brasil tenha avançado muito na repressão e combate a esse crime são necessárias ainda medidas de prevenção e informação àquelas comunidades vulneráveis que correm o risco de terem seus trabalhadores aliciados e traficados para serem explorados como escravos principalmente em fazendas Região Norte", argumenta.
MTE RESGATA 11 TRABALHADORES EM FAZENDA DA QUEIROZ GALVÃO.
Empresal se nega a pagar rescisão contratual aos trabalhadores por entender que eles não eram empregados diretos da empresa, mas contratados por terceiros; MTE diz que esse tipo de contratação é ilegal
Por Iberê Thenório
08/05/2007
O grupo móvel de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) libertou 11 trabalhadores que se encontravam em condições degradantes na fazenda de gado Agropecuária Rio Arataú S/A, localizada em Novo Repartimento (PA). Em nota divulgada pelo MTE, a situação dos trabalhadores é classificada como análoga à de escravos. A empresa nega que tenha empregado esse tipo de mão-de-obra.
A fazenda, que ocupa 48 mil hectares e possui rebanho composto por mais de 12 mil animais, faz parte do grupo Queiroz Galvão, conglomerado brasileiro multinacional que, além da agropecuária, atua também na exploração de petróleo e gás, siderurgia, transportes urbanos, concessões de serviços públicos e na área financeira.
A fiscalização começou no último dia 30, quando os auditores do MTE flagraram os trabalhadores vivendo sob barracos de palha e lona preta, sem acesso a água potável e instalações sanitárias. De acordo com o auditor fiscal do trabalho e chefe da operação, Klinger Moreira, eles haviam sido contratados por "gatos" - aliciadores de mão-de-obra a serviço do fazendeiro - e eram obrigados a comprar com seu salário os instrumentos de trabalho e proteção. Por lei, esses objetos têm que ser oferecidos gratuitamente pelo patrão.
A empresa se negou a pagar o montante referente à rescisão do contrato com os trabalhadores. "A filosofia deles é discutir tudo em juízo. Não admitem voluntariamente resolver o problema dos trabalhadores junto com o grupo móvel", reclama Klinger, que precisou utilizar verba do MTE para fornecer acomodação aos trabalhadores enquanto durava a operação.
Por meio de sua assessoria de imprensa, a Agropecuária Rio Arataú publicou uma nota informando que nega as acusações de trabalho escravo e que "usou o instrumento de contrato de empreitada nos serviços realizados no local". Esse tipo de contrato prevê que a realização de uma determinada obra será levada a cabo por um empreiteiro contratado pelo proprietário.
A nota afirma ainda que "a empresa não aceitou a proposta dos fiscais do Ministério do Trabalho por entender que faltava segurança jurídica no acordo em questão, já que não havia nenhuma ação trabalhista em curso."
Os trabalhadores roçavam o pasto para a fazenda. De acordo com Klinger, a terceirização de mão-de-obra para realizar serviços essenciais ligados à atividade principal da empresa, como é o caso, é ilegal. "O empreiteiros são pessoas miseráveis, que vivem como os trabalhadores", acrescenta.
Armazém
Além dos trabalhadores resgatados, a fazenda empregava outras 66 pessoas que, de acordo com relatório divulgado pelo MTE, estavam em condições irregulares de trabalho. Uma delas era a utilização de um armazém que vendia gêneros de primeira necessidade em que os produtos eram comercializados sem que os trabalhadores soubessem o preço das mercadorias, e as compras eram descontadas do salário no final do mês.
Levantamento realizado pelo grupo móvel indicam que a margem de lucro do armazém era de cerca de 50%. Nos últimos 14 meses, a receita do estabelecimento com a venda de mercadorias aos empregados teria alcançado aproximadamente R$ 150 mil.
No armazém, os auditores também encontraram documentos que denunciavam a venda de munições. Ainda não se investigou se a venda ocorria de forma ilegal, mas Klinger alerta que o fato gera um clima de tensão, que é prejudicial aos trabalhadores: "Isso torna o ambiente de trabalho inseguro, pois se sabe que tem gente lá com arma municiada." A empresa nega que fossem vendidas munições no local.
Descontos ilegais também foram detectados pelo grupo móvel. Um motorista quebrou um botijão de nitrogênio quando o carregava no caminhão e iria ter que ressarcir a empresa em cerca de R$ 2 mil, parcelados em 15 vezes. O desconto na folha de pagamento informava que o valor se tratava de "adiantamento de salário". Os equipamentos de trabalho e de proteção também eram indevidamente descontados do salário dos trabalhadores.
O Ministério Público do Trabalho, que acompanha o grupo de fiscalização, está pedindo a rescisão indireta do contrato de trabalho de 22 trabalhadores por considerar que há graves infrações às leis do trabalho. A decisão, porém, depende ainda da Justiça do Trabalho.
Bloqueio de bens
Há uma semana, o grupo liderado por Klinger se deparou com um impasse semelhante quando resgatou quatro trabalhadores na fazenda Verena II, no município de Novo Repartimento, também no Pará. O proprietário do local, Adelson Souza de Oliveira - que também é prefeito do município baiano de Iaçu - se negou a pagar os direitos trabalhistas. O procurador do trabalho que acompanhava a ação conseguiu bloquear os bens do fazendeiro na Justiça, e só então Adelson concordou em desembolsar os R$ 14.500,00 referentes à rescisão contratual dos empregados e a uma indenização por danos morais individuais.
LAVOURA ARCAICA
Correio Braziliense
19/04/07
PF liberta 115 trabalhadores
Agentes da Polícia Federal e fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego libertaram ontem 115 trabalhadores encontrados em situação degradante análoga à de trabalho escravo nos estados de Mato Grosso e Goiás. As ações do foram concluídas na Usina Itarumã, no município de Itarumã (GO), com a libertação de 68 trabalhadores agenciados no Maranhão.
Eles trabalhavam como plantadores e cortadores de cana-de-açúcar. Todos estavam instalados em alojamentos precários, com banheiros em péssimas condições de uso, sem teto, fiação exposta ou chuveiro quente. A mesma situação em Mato Grosso, com a libertação de 47 trabalhadores das fazendas Paraná Berneck e São Bernardo. O fazendeiro Gilson Muller Berneck pagou R$ 264.182,00 em rescisão aos empregados.
BRASIL PODE PERDER PARCERIA COM OIT.
O Globo
Geralda Doca
16/04/2007
País deixaria de receber recursos para combater trabalho escravo em 2008
"BRASÍLIA. O Brasil corre o risco de perder a importante parceria da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no combate ao trabalho escravo. A despeito de o país ter conquistado destaque internacional na guerra contra esse tipo de crime (segundo o último relatório da entidade), o organismo alega não dispor de recursos para dar continuidade a um projeto no valor de US$1,7 milhão, iniciado em 2002 e que termina em dezembro deste ano. Com o fim do programa, entidades ligadas aos direitos humanos temem que haja um retrocesso na erradicação do trabalho escravo.
No início do ano, o então ministro do Trabalho, Luiz Marinho, e do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, e o secretário de Direitos Humanos, Paulo de Tarso Vannuchi, enviaram uma carta ao Itamaraty, pedindo que o chanceler Celso Amorim interceda junto à OIT. Mas ainda não houve resposta.
- Nós esperávamos que os países ricos que contribuem para a OIT tivessem interesse em dar continuidade ao projeto. Mas, até agora, não há sinalização neste sentido - diz Patricia Audi, coordenadora do projeto.
OIT age como articulador, diz procurador do trabalho
Segundo ela, a renovação do convênio é importante porque as ações implementadas, sobretudo para conscientizar a sociedade e as autoridades brasileiras, ainda não estão consolidadas. As medidas de repressão e assistenciais do governo - como o seguro-desemprego pago aos trabalhadores resgatados da condição de escravo - são importantes, mas insuficientes para resolver o problema.
- A erradicação do trabalho escravo somente será alcançada com a sensibilização da sociedade brasileira, o mapeamento dos trabalhadores vulneráveis e a adoção de políticas públicas de inserção no mercado de trabalho - reforça o presidente da Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho (ANPT), Sebastião Caixeta.
O projeto da OIT, destaca Caixeta, permitiu ao Brasil dar um salto de qualidade no combate à escravidão contemporânea: a servidão por dívida. Ele diz que o programa conseguiu fazer uma ampla articulação política, envolvendo ONGs, órgãos do governo (polícias Federal e Rodoviária) e Justiça Federal:
- Os processos na Justiça não andavam. Hoje, temos mais de 400 ações e boa parte delas já está resolvida.
Ele lembra também que o projeto identificou a cadeia produtiva que usa mão-de-obra escrava, que resultou num pacto, no qual as companhias se comprometeram a evitar fornecedores incluídos na lista suja do Ministério do Trabalho.
Para o frei Henry des Roziers, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Sul do Pará, uma das áreas mais críticas do Brasil, a importância do projeto é a mobilização nacional:
- O projeto permitiu a realização de duas grandes campanhas na mídia.
Roberto Caldas, conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Distrito Federal, teme pelo fins dos recursos:
- A renovação do contrato é relevante nesse momento de rearranjo das forças no Congresso. Há muitas resistências a projetos importantes para erradicar a exploração de mão-de-obra escrava.
Governo deve gastar R$4,6 milhões com fiscalização...
ASSASSINATO DE SINDICALISTA É CONDENADO, POR UNANIMIDADE, A 29 ANOS DE PRISÃO EM BELÉM
Belém - PA
13/04/2007
O Tribunal do Júri da Comarca de Belém condenou hoje, 12 de abril, a 29 anos de reclusão, Wellington de Jesus Silva, pistoleiro que matou o secretário de Política Agrária do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rondon do Pará, José Dutra da Costa, o Dezinho. O crime aconteceu em 21 de novembro de 2000.
Atuaram na acusação o promotor de Justiça Edson de Souza e os advogados Aton Fon Filho, da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, José Batista Afonso e Raimunda Regina Ferreira Barros, da Comissão Pastoral da Terra.
O júri decidiu, por unanimidade de votos, em todos os quesitos, que o crime foi cometido mediante promessa de recompensa, aplicando, ainda, duas outras qualificadoras. Wellington já havia sido condenado à mesma pena, pelo mesmo crime, em 13 de novembro passado, mas teve direito a um novo julgamento por ter sido a pena a ele imposta maior que 20 anos.
A viúva do sindicalista assassinado, Maria Joelma Dutra, é hoje presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rondon do Pará e foi agraciada, em dezembro último, com o Prêmio Nacional de Direitos Humanos, outorgado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos.
Informações para a imprensa:
Rede Social de Justiça e Direitos Humanos
Tel (11) 3271-1237 / (11) 8468-0910 (Evanize Sydow) / (11) 8468-1009 (Dr. Aton Fon Filho)
INCRA APROVA TERRETÓRIO QUILOMBOLA NO ESPÍRITO SANTO
07/04/2007
Na manhã do dia 05/04/07 o Comitê de Decisão Regional do INCRA-ES se reuniu e aprovou o processo administrativo da Comunidade Quilombola de Linharinho, no território quilombola de Sapê do Norte, norte do Espírito Santo. Os impugnantes serão notificados de que suas contestações foram indeferidas. O processo segue a Brasília para assinatura de portaria pelo presidente do INCRA reconhecendo o território pleiteado pela comunidade.
A partir de agora devem se intensificar os ataques dos opositores, em particular da ARACRUZ CELULOSE.
VALE DO RIO DOCE PROMETE COMBATER O TRABALHO ESCRAVO
GAZETA MERCANTIL SP
05/04/2007
A Companhia Vale do Rio Doce prometeu suspender suas vendas para fabricantes de ferro-gusa que utilizam produtos fabricados por escravos ou madeira extraída ilegalmente da Floresta Amazônica. "Nós vamos suspender o fornecimento a empresas nas quais observarmos evidências claras de violações ao meio-ambiente ou às leis trabalhistas", disse ontem em entrevista José Carlos Martins, diretor-executivo da divisão de metais ferrosos da Vale. "Nós não podemos fazer parte disso."
Algumas empresas utilizam trabalho escravo e árvores extraídas ilegalmente da Amazônica para fabricar o carvão vegetal utilizado como combustível na produção de ferro-gusa, um dos principais insumos empregados na fabricação do aço, segundo promotores e fis-cais do Ministério do Trabalho. Diversas montadoras norte-americanas suspeitam utilizar aço cuja produção se inicia com matérias-primas fabricadas por escravos. Por conta disso, a General Motors, a Ford Motor, a DaimlerChrysler e a Honda Motor se uniram para dar treinamento a seus fornecedores sobre como evitar a compra de materiais produzidos por escravos. O treinamento está sendo coordenado pela associação Automotive Industry Action Group, sediada em Southfield, no Estado norte-americano de Michigan, que possui 1,5 mil membros.
A Vale, sediada no Rio de Janeiro, comercializou 6 milhões de toneladas de minério de ferro a fabricantes de ferro-gusa brasileiras no ano passado, disse Martins. Mais de 90% do ferro-gusa produzido na Floresta Amazônica são exportados aos Estados Unidos.
TRABALHO ESCRAVO: RUTH VILELA DEIXA SECRETARIA DE INSPEÇÃO DO TRABALHO
O GLOBO
Evandro Éboli
04/04/2007
Criadora da lista suja de exploradores de trabalho escravo, é contra indicações políticas no ministério
BRASÍLIA. Responsável pela criação do Grupo de Fiscalização Móvel e pela lista suja com nomes de empresas e fazendeiros exploradores de trabalho escravo, a auditora fiscal Ruth Vilela pediu demissão do cargo de secretária de Inspeção do Trabalho, vinculada ao Ministério do Trabalho. Ela saiu por causa da nomeação do presidente do PDT, Carlos Lupi, para o ministério. Insegura em relação à gestão de Lupi e preocupada com a declaração dele de que vai preencher os cargos com indicações políticas, Ruth decidiu deixar a secretaria. Com ela saem seus dois principais assessores: Edgar Brandão, chefe da
Divisão de Apoio à Fiscalização Móvel), e Marcelo Gonçalvez.
Servidora do quadro permanente do ministério, no qual entrou por concurso, Ruth voltará para Minas Gerais. Ela ocupou a secretaria pela primeira vez no governo Fernando Henrique, mas deixou o cargo na segunda gestão do ex-presidente por não concordar com a política do ministério. Voltou no primeiro mandato do presidente Lula, quando ele anunciou o Plano Nacional de Erradicação do trabalho escravo, em 2003. Na ocasião, Ruth foi citada e elogiada por Lula. Ontem, ela não quis comentar sua saída.
Em 2005, o governo brasileiro foi citado como exemplo positivo no documento "Uma aliança global contra o trabalho escravo", da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Entre os países que se destacaram na publicação, Lula foi o único presidente citado. O número de trabalhadores libertados saltou de 6 mil, nos oito anos de governo Fernando Henrique, para 23 mil, até o início deste ano.
A coordenadora nacional do Combate ao trabalho escravo da OIT no Brasil, Patricia Audi, elogiou o trabalho de Ruth:
- Foi a precursora do grupo móvel e, sob sua gestão na secretaria, o Brasil alcançou reconhecimento internacional no combate ao trabalho escravo.
A partir do cadastro da lista suja, divulgado a cada seis meses, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) fez descobriu que 70% dessas terras eram ocupadas irregularmente. Fazendeiros foram condenados e, em alguns casos, obrigados a pagar indenização.
O governo não obteve apoio do Congresso à proposta que destina à reforma agrária terras onde há trabalho escravo.
Juiz decreta prisão de envolvidos com Rede de Prostituição Infantil em Sapé
Notícias de Sapé
02/04/2007
O Juiz de Direito da 2ª Vara de Sapé, Antonio Carneiro de Paiva, após denúncia feita pelo Ministério Público Estadual, por meio da Promotoria de Justiça da cidade, decretou, na tarde desta segunda-feira (2), a prisão preventiva de sete pessoas envolvidas em uma Rede de Prostituição Infantil na região que abrange os municípios de Sapé e Mari. Ao receber a denúncia em todos os seus termos, o juiz designou o interrogatório para a próxima quarta-feira (4), às 8h, no Fórum de Sapé.
Foram pedidas as prisões preventivas do Presidente da Câmara Municipal de Sapé, Antônio João Adolfo Leôncio, o Vereador Robson Guedes Vasconcelos, os empresários Erinaldo Francisco do Nascimento, proprietário do motel “Pousada Happy Day” e Romildo Martins dos Santos, dono do motel “Pousada Paraty”, ambos em Sapé. Além do comerciante Moacir Viegas Filho, da estudante Danyelle Silva de Carvalho, de 19 anos e de sua mãe, Lúcia de Fátima Silva de Carvalho.
Na denúncia, feita pelo Ministério Público, Danyelle Silva e a mãe, Lúcia de Fátima, foram denunciadas por submeter criança ou adolescente à prostituição e exploração sexual, crime previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente, que prevê pena de 4 a 10 anos de reclusão e multa, como também, Erinaldo Francisco, Romildo Martins e José Alberto de Souza, incorreram no mesmo crime.
Os dois proprietários dos motéis, Erinaldo Francisco do Nascimento e Romildo Martins, também foram incursos nos crimes de estupro presumido e corrupção de menores, junto com Antônio João Adolfo, presidente da Câmara Municipal de Sapé e o vereador Robson Guedes. Já Moacir Viegas Filho, foi incurso no crime de corrupção de menores, previsto no Artigo 218 do Código Penal.
Segundo informou a promotora de Justiça, Fabiana Maria Lobo, titular da Promotoria de Sapé, a estudante Danyelle Silva, foi denunciada, após ser apurado por meio de depoimentos prestados na polícia civil de Sapé, que durante o período entre 2005 e 2006, ela aliciava e agenciava adolescentes carentes com idades entre 13 e 17 anos, para que realizassem encontros sexuais, mediante pagamento em dinheiro, com homens nos motéis “Pousada Happy Day”, “Pousada Paraty” e “Classe Motel”, este último de propriedade de José Alberto de Souza, que também foi denunciado pelo Ministério Público, alem do ex-prefeito da cidade de Mari, Severino Pereira de Oliveira, que foi denunciado pelo crime de corrupção de menores.
Consta na denúncia que foram agenciadas por Danyelle, cerca de onze menores, que foram ouvidas durante as investigações feitas pelo polícia civil em conjunto com a Promotoria de Sapé. “Por cada programa era cobrado um preço que variava entre R$ 20 e 100, onde Danyelle recebia a maior parte, entregando o restante para a adolescente que se submetera ao encontro sexual”, disse Fabiana, ela enfatizou ainda que “a denunciada Danyelle formou uma verdadeira equipe de adolescentes prostituídas, que atendiam à clientela formada por pessoas influentes da cidade, bem como de indivíduos residentes na Capital do Estado”.
Durante relato feito na polícia, o próprio tio de Danyelle, informou que a sua sobrinha recebia ligações dos clientes e, logo em seguida, encaminhava as meninas para os motéis.
OIT e CONATRAE lançam novo anúncio contra o trabalho escravo
Severino Goes
Projeto Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil
29/03/2007
Agência AlmapBBDo cria peça publicitária que está chegando às revistas este mês
Na sua luta pela erradicação do trabalho escravo no Brasil, a OIT (Organização Internacional do Trabalho), com o apoio da CONATRAE (Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo), volta à mídia para o lançamento de novas peças de sua campanha nacional, criadas pela AlmapBBDO.
O anúncio está nas revistas TPM e Trip. De uma maneira simples, mas ousada, ele procura sensibilizar os leitores sobre a exploração de milhares de brasileiros submetidos a um crime de lesa humanidade. Esses brasileiros não possuem quaisquer direitos trabalhistas, sobrevivem às piores formas de exploração no trabalho e em condições degradantes. O mais grave, entretanto, é que seus direitos mais violados são a liberdade e a dignidade.
Ao folhear as revistas que veiculam o anúncio, o leitor se depara com duas mãos algemadas. Estas algemas também unem as páginas da revista e não permitem que fique totalmente aberta. Ao forçar a revista para abri-la, os elos se rompem e o leitor vê, então, o título: "Infelizmente, acabar com o trabalho escravo não é tão fácil assim". A assinatura do anúncio é "Trabalho escravo. Vamos abolir de vez essa vergonha".
O fato
Em busca de emprego e enganados por aliciadores de mão-de-obra dos fazendeiros, os chamados "gatos", esses trabalhadores são levados de municípios muito pobres a lugares distantes com a esperança de uma vida melhor. Ao chegarem a seu destino, eles se deparam com a triste realidade * condições desumanas de trabalho, isolamento geográfico que os impede de fugir, guardas armados que ameaçam ou até matam em tentativas de fuga, além de dívidas fraudulentas com alimentação e transporte em valores muito superiores ao salário inicialmente prometido. Em 11 anos de existência do Grupo Móvel de Fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego, mais de 23 mil pessoas já foram libertadas.
O Brasil vem sendo reconhecido internacionalmente como um exemplo mundial no combate ao trabalho escravo pela ação articulada da CONATRAE, que vem apoiando todas as campanhas lançadas pela OIT.
PIAUÍ LIDERA EM MÃO-DE-OBRA ESCRAVA
JORNAL CIDADE VERDE
22/03/2007
A adesão a um pacto federativo e a implementação de políticas públicas em benefício dos trabalhadores aliciados para o trabalho escravo estão entre as propostas discutidas entre o Governo do Piauí e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) em reunião realizada nesta quarta-feira, 21, no Palácio de Karnak, que contou com a presença do governador Wellington Dias, da coordenadora nacional de Combate ao Trabalho Escravo da OIT, Patrícia Audi, e órgãos públicos e entidades sociais ligadas ao assunto.
Patrícia Audi fez uma rápida apresentação sobre o Relatório Global 2006, elaborado pela OIT e que destacou o Brasil como referência internacional no combate ao trabalho escravo. "No mundo, são mais de 9 milhões de trabalhadores em condição de escravidão, sendo que 2,4 milhões são traficados, gerando um lucro às empresas envolvidas de cerca de US$ 32 milhões", observou.
No Brasil, os números refletem essa mesma realidade. Os estudos realizados apontam o trabalho escravo preferencialmente vitimando homens, com idade entre 18 e 44 anos, com até dois anos de escolaridade. Cerca de 85% destes começaram a trabalhar antes dos 12 anos. Os estados do Maranhão, Piauí e Tocantins destacam-se como exportadores de mão-de-obra escrava. "E pior que a forma de escravidão antiga é que hoje esses trabalhadores não são mais valorizados por seus senhores. Hoje, eles são absolutamente descartáveis. Morrem por doenças diversas ou são assassinados", disse a coordenadora.
Segundo estudo realizado pela OIT e a Universidade Federal do Rio de Janeiro, ainda em fase de conclusão, o Piauí passará o Maranhão na liderança de maior fornecedor de mão-de-obra para trabalho escravo do país.
Em 2005, o Piauí ocupava o segundo lugar com 22% de mão-de-obra escrava. Em primeiro estava o Maranhão com 39,2% e o Ceará em quarto com 3,8% de fornecimento de trabalhadores para os Estados do Mato Grosso, São Paulo e Pará, destinos da grande maioria dos recrutados.
Já em 2006, mais de 2.300 trabalhadores brasileiros foram libertados de situações de escravidão. Segundo Paula Mazzulo, delegada regional do Trabalho no Piauí, somente piauienses, nos últimos três anos, foram mais de 5 mil. "O Piauí é hoje o único Estado brasileiro a executar o projeto 'Escravo nem Pensar', que capacita professores de escolas públicas visando a conscientização das crianças", acrescentou Patrícia Audi.
Entre as propostas apresentadas pela OIT ao Piauí estão a implementação de políticas públicas na área da prevenção ao trabalho escravo, adesão ao pacto federativo, apoio político, para que um maior orçamento em nível federal seja destinado a esse tipo de trabalho e para aprovação da emenda constitucional 438 que prevê expropriação de terras onde seja encontrado trabalho escravo.
Educação é prioridade
A OIT também está disponibilizando duas campanhas publicitárias e um filme preventivo para o Governo do Estado, que deverá ser adaptado, segundo o governador, à realidade local. "Também, vamos fortalecer a atuação do Fórum Estadual de Combate ao Trabalho Escravo com a criação do comitê gestor que deverá acompanhar as ações articuladas com a sociedade", afirmou Wellington Dias.
A educação, para ele, é um dos principais pontos a serem observados nas políticas de prevenção ao aliciamento de trabalhadores. "Temos várias ações articuladas, visando a fixação do trabalhador na terra, através do Interpi, Incra, Pronaf, entre outros. Mas, a educação é um ponto prioritário e que devemos reforçar cada vez mais", acrescentou.
Estiveram presentes na reunião representantes das secretarias de Justiça, do Trabalho e Desenvolvimento Econômico, Planejamento, Comunicação, Polícia Rodoviária Estadual, Ministério Público Federal, Pastoral do Migrante, Comissão Pastoral da Terra, Procuradoria da República e do Fórum Estadual de Combate ao Trabalho Escravo.
CNBB REPUDIA revista VEJA
Reportagem da "Veja" sobre dom Ivo revolta 15/3/2007
Um texto publicado na revista Veja desta semana deixou líderes católicos do país e os fiéis que acompanharam o trabalho do bispo emérito de Santa Maria, dom Ivo Lorscheiter, morto no dia 5, revoltados.
O centro da polêmica é uma frase no obituário de dom Ivo em que a revista diz que "o bispo apoiou a criação de bandos armados que, a pretexto de lutar pela reforma agrária, deram origem ao MST". A notícia é do jornal Zero Hora, 15-03-2007.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), da qual dom Ivo foi presidente e secretário-geral, emitiu nota, criticando a revista de colocar o religioso e questionando a quem interessaria uma "segunda morte" dele.
O historiador Vitor Biasoli diz que a afirmação da revista não tem embasamento histórico:
- Durante a ditadura, dom Ivo apoiou os direitos humanos. Ele apoiou muitas mudanças, mas repreendia os movimentos mais radicais da igreja, e olha que eles nem chegavam à luta armada. Dizer que ele tivesse qualquer envolvimento com bandos armados é estupidez.
A Agência RBS tentou ouvir a Revista Veja, mas ninguém comentou a polêmica.
Eis a nota da CNBB
"Dom José Ivo Lorscheiter, bispo emérito da diocese de Santa Maria-RS, ex-secretário-geral e ex-presidente da CNBB, por 16 anos, faleceu no dia 05.03.07. Pastor dedicado ao povo, ele doou sua vida pela Igreja e pelo Brasil em momentos difíceis da nossa história recente.
Assistimos nestes dias, após sua morte, a uma apresentação de sua memória através dos meios de comunicação; o livro de sua vida vem mostrando páginas que o dignificam. Seus méritos são confirmados por todos aqueles que o conheceram de perto e privaram de sua amizade; por aqueles que têm senso de justiça e verdade.
Dom Ivo contribuiu para a solidificação da colegialidade episcopal e valorizou a missão dos colegas bispos. Naquela hora do Brasil, foi a pessoa certa para a defesa dos direitos humanos e da dignidade da pessoa; seu testemunho de vida confirmou a certeza evangélica de que o maior é aquele que serve.
No entanto, como acontece geralmente na biografia dos grandes pastores, não faltaram incompreensões e injustiças contra o seu testemunho. Não é justo falar, como faz a Revista Veja (cf. Veja, 14 de março de 2007, p. 84). Que Dom Ivo 'politizou o Evangelho para o bem e para o mal'.
Sem meias palavras, a referida Revista acusa o bispo de um crime: 'o bispo também apoiou a criação de bandos armados que, a pretexto de lutar pela reforma agrária, deram origem ao MST'. Onde estão esses 'bandos armados'? Qual foi o nome deles? Como se explica que o sistema de segurança da época não denunciou nem processou Dom Ivo? A quem interessa uma segunda morte de Dom Ivo Lorscheiter?
A CNBB sente profunda dor e manifesta seu firme repúdio às acusações infundadas contra Dom Ivo, exigindo da Revista a justa reparação ao mal feito."
A ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS ESTUDANTES DE ENGENHARIA FLORESTAL - ABEEF, PRECISA URGENTEMENTE DE AJUDA DE TODOS CONTRA A PERSEGUIÇÃO POLÍTICA QUE ESTÁ SOFRENDO NA UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA APÓS A OCUPAÇÃO QUE FIZEMOS NA EMPRESA ACESITA S/A DO GRUPO TRANSNACIONAL ARCELOR-MITTAL.
Solicitamos que DIVULGUEM AO MÁXIMO e ENVIEM UMA MOÇÃO DE RUPÚDIO, que pode ser a mesma que está em anexo apenas acrescentando a assinatura da entidade, para os professores (e-mail abaixo), e de preferência para o FAX do Departamento, da SIF e da Reitoria:
A/O NOME DA ENTIDADE, apóia a luta dos estudantes de engenharia florestal contra as transnacionais e REPUDIA O ATO TIRANO DE PERSEGUIÇÃO POLÍTICA que o departamento de engenharia florestal da UFV tem adotado como tática para coibir as mobilizações do movimento estudantil em favor dos trabalhadores brasileiros.
Não podemos nos calar diante de tamanho abuso de poder dos professores-pesquisadores que contam com esta estrutura antidemocrática de decisões nas instituições públicas de ensino para se perpetuarem corporativamente realizando pesquisas contra a maioria da população brasileira.
Não podemos nos calar também diante da preocupação que nos causa professores tão reacionários, tiranos dando aulas, formando a opinião de centenas de futuros profissionais que terão a imensa responsabilidade de manejar nossas florestas.
Não podemos nos calar diante do fato de que uma Universidade através de fundações de direito privado, proporcione a invasão e conseqüente direcionamento e determinação do ensino, da pesquisa e da extensão através da entrada de financiamento privado. Capital este, manchado de sangue como o do trabalhador assassinado pela V&M recentemente, da agonia da super-exploração da jornada de trabalho em todas elas, sendo que recentemente se deu de forma mais aguda na Acesita Energética Ltda.
Através desta atitude servil e submissa às transnacionais com a conivência da Reitoria da UFV, a mensagem que o Departamento de Engenharia Florestal da UFV nos passa é a de defender que empresas transnacionais podem vir ao nosso país explorar nossas riquezas, dizimar nossa biodiversidade, e assassinar os trabalhadores brasileiros ou submetê-los a condições desumanas. O que não pode é que os estudantes do DEF-UFV, ocupem o prédio adquirido com os recursos da exploração do suor do nosso povo para denunciar estas barbáries.
Luiz Henrique Gomes de Moura
Engenheiro Florestal
CEL: 9558-2315
MSN: [email protected]
Gmail: [email protected]
"A luta é dos Sem Terra contra os sem vergonha" - D. Pedro Casaldáliga
COM EMPRESA NA "LISTA SUJA", AUGUSTO FARIAS VOLTA À CÂMARA
Irmão de PC Farias assume cargo ao substituir deputado que faleceu nesta semana. Sua empresa entrou para a "lista suja" por manter 99 pessoas em condições análogas à escravidão no Pará
Por Iberê Thenório
Repórter Brasil
14/03/2007
O Congresso Nacional acaba de receber mais um membro da "lista suja" do trabalho escravo. Augusto César Farias (PTB-AL), irmão de PC Farias - tesoureiro da campanha de Collor à presidência - assumiu o cargo de deputado federal nesta terça-feira (13) após a morte de seu colega Gerônimo da Adefal (PFL-AL), que teve uma pneumonia e faleceu no último domingo (11). Como Augusto é o primeiro suplente da coligação que elegeu Gerônimo, tem direito ao cargo na Câmara.
Em fevereiro de 2003, o grupo móvel de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) encontrou 99 trabalhadores em situações análogas à escravidão na fazenda Santa Ana, em Cumaru do Norte (PA). O local pertencia a Augusto Farias e à sua irmã, Eleuza Farias Leôncio. Os dois chegaram a ser presos em Marabá (PA), mas conseguiram um habeas corpus e permaneceram apenas algumas horas na cadeia.
No final de 2004, a Santa Ana Agropecuária - empresa dos Faria que administrava a fazenda - entrou na "lista suja" do trabalho escravo, onde constam pessoas e empresas que comprovadamente cometeram esse crime. Quem figura na lista fica impedido de obter financiamentos de órgãos federais e de fazer negócios com as empresas que assinaram o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. Com a entrada na lista, a propriedade ficou impedida de sacar R$ 755 mil de financiamentos da Sudam. Até a fiscalização, a fezanda já tinha recebido R$ 852 mil do órgão.
A empresa de Augusto Farias deveria ter deixado a "lista suja" no final de 2006, quando o nome completaria dois anos no cadastro. No entanto, isso não ocorreu porque até hoje não foram pagas todas as multas impostas na época da fiscalização.
Augusto Farias, sua irmã e mais cinco envolvidos no episódio da Fazenda Santa Ana também respondem na Justiça Federal pelos crimes de redução de pessoas a condição análoga à de escravo, contra a liberdade individual, frustração de direitos trabalhistas e sonegação de contribuição previdenciária. Como o cargo de deputado dá direito a foro privilegiado, Augusto só poderá ser julgado no Supremo Tribunal Federal enquanto atuar no Congresso.
Esta será a quarta legislatura de Augusto, que foi deputado federal de 1991 a 2000, quando renunciou ao mandato. Indiciado pela morte do irmão, PC Farias, tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor de Mello, e investigado pela CPI do Narcotráfico, ele deixou a Câmara para não ser cassado. O processo pela morte do irmão foi arquivado no STF a pedido do então procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro.
Para voltar à Câmara, Augusto quebrou a praxe da casa e não esperou os sete dias após a morte do colega para tomar posse. No dia seguinte ao enterro de Gerônimo, já assumiu sua vaga. O deputado não foi encontrado pela reportagem para prestar esclarecimentos.
Abandono
Quando o grupo móvel chegou à fazenda Santa Ana, no início de 2003, não havia quase ninguém no local. A casa principal estava trancada e quase todos os trabalhadores haviam sido transportados para a cidade. "No primeiro dia, encontramos apenas uma pessoa que era imediata ao capataz. Eles não nos deram nenhum lugar para podermos acampar, e ficamos na varanda da casa", conta Valderez Monte, ex-auditora-fiscal do trabalho que chefiou a equipe de fiscalização.
Nos arredores da fazenda foram encontradas motosserras, cantinas, alojamentos precários de lona e dois trabalhadores que estavam escondidos a quilômetros de distância. Foi preciso emprestar uma chácara para reunir todas as pessoas que haviam sido retiradas do lugar. "Eles estavam abandonados na cidade. Mandaram eles irem para lá, mas não deram abrigos, não deram meios", lembra Valderez.
Parlamentares
Augusto não é o primeiro membro do Congresso que já esteve envolvido com trabalho escravo. Há outros exemplos, como o senador João Ribeiro (PR-TO) teve seu nome incluído na "lista suja" por manter 38 pessoas em condições análogas à de escravo em sua fazenda Ouro Verde, no município de Piçarra, no Sul do Pará. O deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ) também já teve sua empresa listada no cadastro, após terem sido encontradas 39 pessoas em condições semelhantes na fazenda em São Felix do Araguaia (MT). Inocêncio de Oliveira (PR-PE), que é deputado federal desde 1975, fez parte da primeira edição da "lista suja". Em sua fazenda Caraíbas, no interior do Maranhão, foram libertadas 53 pessoas.
CONATRAE PEDE A LULA VETO À EMENDA QUE PREJUDICA LUTA CONTRA TRABALHO ESCRAVO
Para Conatrae, "emenda não tem sustentabilidade jurídica"
Brasília 08/03/2007
A Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (CONATRAE), em reunião presidida pelos ministros Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, e Luiz Marinho, do Trabalho e Emprego, decidiu hoje divulgar uma nota pública pedindo que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vete a emenda nº 3 do projeto que cria a Super-Receita. Tal emenda prejudicará o combate ao trabalho escravo. Para a Conatrae, "a emenda não tem sustentabilidade jurídica e política, por atingir frontalmente a eficácia do combate ao trabalho escravo, para citar apenas o tema objeto desta Comissão".
A emenda determina a necessidade de decisão judicial prévia para que se considere existente a relação de emprego entre determinado empregador e os trabalhadores que lhe prestam serviço, mesmo se constatados, por auditor fiscal do trabalho, todos os pressupostos da relação de emprego previstos pela legislação brasileira.
O único integrante da Conatrae a apoiar a emenda foi o representante da Confederação Nacional da Agricultura (CNA).
NOTA PÚBLICA
A Comissão Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae), criada em agosto de 2003 por decreto presidencial e composta por 26 representantes governamentais, organizações do sistema ONU e da sociedade civil que trabalham com a questão, tem entre suas responsabilidades realizar o acompanhamento de projetos de lei relacionados ao combate e à erradicação do trabalho escravo no Congresso Nacional.
Tendo em vista esta atribuição, manifesta repúdio à aprovação do Projeto de Lei 6.272/05, cuja emenda nº 3 determina a necessidade de decisão judicial prévia para que se considere existente a relação de emprego entre determinado empregador e os trabalhadores que lhe prestam serviço, mesmo se constatados, por auditor fiscal do trabalho, todos os pressupostos da relação de emprego previstos pela legislação brasileira.
Para a Conatrae, a emenda não tem sustentabilidade jurídica e política, por atingir frontalmente a eficácia do combate ao trabalho escravo, para citar apenas o tema objeto desta Comissão. No plano normativo, afronta a Constituição Federal, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, o Pacto de São José da Costa Rica e convenções internacionais ratificadas pelo Brasil * como as convenções 29, 81 e 105 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) -, por representar um retrocesso nos direitos e garantias assegurados aos trabalhadores, ferir o valor social do trabalho, o direito à existência digna e o princípio da separação dos poderes.
A emenda é ainda contrária à celeridade do Poder Judiciário, pois prevê a remessa dos casos à já congestionada Justiça do Trabalho, a maior do mundo em número de processos. O que a sociedade brasileira precisa é de um reforço na fiscalização por parte do Estado, para que os direitos sejam assegurados sem a necessidade de sobrecarregar ainda mais o Poder Judiciário.
Portanto, a Conatrae solicita ao Excelentíssimo Sr. Presidente da República o veto à emenda nº 3 do PL 6.272/05, em prol da garantia dos direitos fundamentais aos trabalhadores deste país.
Brasília, 08 de março de 2007
Comissão Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo
SENADO CRIA GRUPO PARA COMBATER TRABALHO ESCRAVO
Senado cria grupo para combater trabalho escravo
Um dos desafios da Subcomissão Temporária do Trabalho Escravo será aprovar a "PEC do Trabalho Escravo", que prevê o confisco das terras onde esse crime for encontrado
REPÓRTER BRASIL - 06/03/2007
Por Iberê Thenório
A luta pela erradicação ao trabalho escravo ganhou mais um aliado. A Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado criou, na última quinta-feira (01), a Subcomissão Temporária do Trabalho Escravo. O grupo, que será formado por sete senadores, terá como missão principal acompanhar e acelerar a aprovação de projetos de lei que tramitam na Câmara ou no Senado e que tratem do combate ao trabalho escravo.
Entre as principais leis que tramitam no Congresso está a Proposta de Emenda Constitucional 438/01. Apelidada de "PEC do Trabalho Escravo", ela prevê a expropriação de terras onde a prática desse crime for flagrada, destinando a propriedade para reforma agrária. O projeto já foi aprovado no Senado e na Câmara em primeiro turno, mas ainda aguarda uma segunda aprovação.
"Faremos todo o esforço para que, com mobilização social, com pressão da sociedade e daqueles que estão no parlamento, esse projeto seja votado na Câmara", afirma o senador José Nery (PSOL-PA), que será o presidente da subcomissão no Senado. Além dele, já estão confirmados os nomes de Paulo Paim (PT-RS), presidente da CDH, e Inácio Arruda (PC do B-CE). Os outros quatro membros do grupo devem ser definidos ainda nesta semana.
Com duração prevista de um ano, a subcomissão temporária deverá apresentar a conclusão de seus trabalhos no início de 2008. Caso seja necessário, a CDH pode prorrogar a sua existência ou assumir as tarefas que não tenham sido concluídas.
Além do grupo contra o trabalho escravo, a CDH também criou, em fevereiro, a Subcomissão Permanente da Criança, Adolescente e Juventude, a Subcomissão do Idoso e a Subcomissão da Igualdade Racial e Inclusão.
MUNICÍPIOS MAIS VIOLENTOS SÃO OS QUE TÊM MAIS TRABALHO ESCRAVO
Municípios mais violentos do país coincidem com os campeões em trabalho escravo
Relatório mostra que arco do desmatamento na Amazônia concentra municípios com maior índice de homicídios por habitante; região também é o maior foco de trabalho escravo
REPÓRTER BRASIL
Por Iberê Thenório
01/03/2007
A Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) divulgou, nesta terça-feira (27), um relatório que ranqueou os municípios brasileiros pela incidência de homicídios em relação ao número de habitantes. Sua primeira grande constatação foi que a violência têm se espalhado pelo interior do país. Mais do que isso, ela se concentra especialmente nos municípios localizados sob o arco do desflorestamento amazônico e em áreas de expansão agrícola, no Norte do Mato Grosso e no Sul e Sudeste do Pará * justamente as áreas campeãs em casos de trabalho escravo.
A grande mancha de violência que se espalha pelas bordas da Amazônia Legal (veja mapa abaixo) abarca os dois estados que historicamente mais concentram casos de mão-de-obra análoga à escravidão. De 1995 a 2006, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), foram libertadas 4.553 pessoas no Mato Grosso e 8.177 no Pará, o que representa 56,8% dos casos brasileiros. Apenas em 2006, 444 pessoas ganharam a liberdade no Mato Grosso, enquanto no Pará foram 1.180 trabalhadores.
Regiões brasileiras com maior taxa de homicídos
(número de homicídios a cada 100 mil habitantes entre 2002 e 2004)
Caso não consiga ver as imagens, acesse http://www.reporterbrasil.com.br/exibe.php?id=935)
Fonte: Organização dos Estados Ibero-Americanos
A grilagem de terras, o desmatamento ilegal e a pressão do agronegócio por mais terras somados à fraca atuação do Estado são geralmente apontados como os principais ingredientes para que a violência prolifere na região.
Mesmo analisando separadamente os municípios mais violentos constata-se coincidência com os casos de escravidão. Entre os cem mais violentos do Brasil, em pelo menos 15 já foi encontrado trabalho escravo. Essas cidades estão concentradas em quatro estados: Mato Grosso, Pará, Roraima e São Paulo.
Municípios que estão entre os 100 mais violentos do Brasil nos quais já foi encontrado trabalho escravo
(Colocação entre os municípios mais violentos do país e índice de homicídos a cada 100 mil habitantes entre 2002 e 2004)
Colocação Município Taxa de homicídios
7º
Tailândia (PA) 104,9
38º Chupinguaia (RO) 72,4
39º Marabá (PA) 71,0
42º Iaras (SP) 70,0
44º Sapucaia (PA) 69,4
55º São Francisco do Guaporé (RO) 66,6
56º Nova Ubiratã (MT) 66,4
58º Nova Bandeirantes (MT) 65,5
59º Novo Mundo (MT) 65,2
63º Tapurah (MT) 64,8
65º Brejo Grande do Araguaia (PA) 64,2
66º Brasnorte (MT) 64,1
72º Rondon do Pará (PA) 62,7
78º Parauapebas (PA) 61,8
79º
Novo Repartimento (PA) 61,7
107º Rio de Janeiro (RJ) * 57,2
182º São Paulo (SP) * 48,2
* São Paulo e Rio de Janeiro constam na lista para efeitos de comparação. Fonte: Organização dos Estados Ibero-Americanos (índice de homicídios) e Ministério do Trabalho e Emprego (municípios onde houve libertações)
O relatório da OEI revela que a taxa de homicídios por habitantes dessas 15 cidades ultrapassa a de grandes metrópoles brasileiras. Marabá, no Sudeste do Pará, é uma das campeãs brasileiras de trabalhadores libertados, com 60 casos de trabalho escravo e 363 libertados entre 1969 e 2005, também segundo a CPT. Ao mesmo tempo, a cidade é uma das mais perigosas do país, registrando 71 homicídios a cada 100 mil habitantes no período medido pela OEI. Cidades conhecidas mundialmente por seus casos de violência, como São Paulo e Rio de Janeiro, registraram 48,2 e 57,2 homicídios, respectivamente.
A pesquisa da OEI foi realizada com base nos registros de óbitos do Ministério da Saúde. O cálculo da média de homicídios considera as mortes ocorridas entre 2002 e 2004, e a população dos municípios nessa época.
PARA MAIS INFORMAÇÕES, VISITE O SITE www.reporterbrasil.com.br
VETO À EMENDA 3 - Associações unem-se contra emenda
Consultor Jurídico
Projeto de Combate ao Trabalho Escravo
OIT Brasil
14 de fevereiro de 2007
Relações perigosas
Super Receita inibe fiscalização do trabalho, diz entidade O Projeto de Lei da Super-Receita, aprovado na Câmara dos Deputados na terça-feira (13/2) e encaminhado para sanção presidencial, mereceu repúdio nos meios sindicais. A Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), por exemplo, em campanha contra a emenda encaminhou ofício ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva com pedido de veto ao dispositivo da lei.
O principal motivo é que o fisco não poderá mais atuar prestadores de serviço contratados como pessoas jurídicas. Para a autuação, será preciso que a Justiça reconheça primeiro a fraude.
Assim, especialistas defendem que a emenda 3, do projeto de Lei 6.272/05, inibe a fiscalização do trabalho. Alegam também que o dispositivo é inconstitucional. Para o presidente da Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho, Sebastião Caixeta, a emenda fere um dos preceitos sagrados da República, a separação dos Três Poderes, "na medida em que vincula, previamente, a atividade de fiscalização do Poder Executivo ao Poder Judiciário", declarou Caixeta em reportagem à agência de noticias *Repórter Brasil*.
Já o juiz do Trabalho e também professor da USP, Jorge Souto Maior, lembra que "a atuação do Estado, efetiva e concreta, para fazer valer a ordem jurídica trabalhista é preceito fincado na Declaração Universal dos Direitos
do Homem, de 1948".
Na opinião de Marcus Orione, juiz federal e chefe do Departamento de Direito do Trabalho e da Seguridade Social da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, a emenda viola as normas que regem as relações de trabalho.
"Se há legislação prevendo as conseqüências decorrentes da não formalização da relação de emprego, será possível ao fiscal a tomada das providências legais cabíveis. A análise do ato ilegal e a sua punição não é prerrogativa
exclusiva do Judiciário", explica.
Juízes federais
A Associação dos Juízes Federais do Brasil, também fez coro contra a restrição à atuação dos fiscais. Alega que a emenda ameaça o combate ao trabalho escravo. Segundo a entidade, caso seja aprovada tal emenda, se
afastará de imediato a ação do Poder Executivo, por meio dos auditores fiscais do trabalho, de apurar e verificar a existência ou não da relação de emprego, formal ou não, comprometendo especialmente a identificação da
ocorrência do crime de trabalho escravo.
"Ou seja, havendo situação de ilegalidade, notadamente de não cumprimento da legislação trabalhista, os auditores fiscais do trabalho, no exercício regular de suas atividades, não poderão assim reconhecê-la de pronto, nem tomar as providências imediatas para regularizá-la e muito menos impor as penalidades cabíveis (administrativas, fiscais, cíveis e até penais)", informa a entidade em nota.
A Ajufe defende, ainda, que somente o Judiciário, quando provocado, é que poderá concluir pela existência ou não da relação de trabalho, com ou sem vínculo empregatício, com conseqüente supressão do poder de polícia
administrativo justamente em área na qual se mostra mais necessária a fiscalização.
Para a entidade, o ato fere a Constituição Federal, ao vedar a fiscalização de empresas, que recrutam mão de obra na zona rural por órgãos administrativos criados, estruturados e com empregados treinados para impor o cumprimento das obrigações trabalhistas. Ressaltam também que tudo isso reduz, praticamente a zero, todo o esforço despendido no combate ao trabalho escravo. (se esta é a precoupação com uma ação que continua forte, imaginem o impacto no trablho infantil que já sestá fragile? renato)
Leia íntegra do ofício: Ofício 038/2007
Senhor Presidente,
A Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) externa preocupação e repúdio com relação à aprovação, pelo Congresso Nacional, da polêmica emenda ao projeto de lei 6272/05, que determina a necessidade de decisão judicial para a autoridade fiscal considerar existente a relação de trabalho Caso seja sancionada por Vossa Excelência, se afastará de imediato a regular ação do Poder Executivo, por meio dos auditores fiscais do trabalho, de apurar e verificar a existência ou não da relação de emprego, formal ou não,
comprometendo especialmente a identificação da ocorrência do crime de trabalho escravo.
Em situação de ilegalidade, notadamente de não cumprimento da legislação trabalhista, os auditores fiscais do trabalho, no exercício regular de suas atividades, não poderão assim reconhecê-la de pronto, nem tomar as providências imediatas para regularizá-la e muito menos impor as penalidades cabíveis (administrativas, fiscais, cíveis e até penais). Somente o Judiciário, quando provocado, é que poderá concluir pela existência ou não da relação de trabalho, com ou sem vínculo empregatício - com conseqüente supressão do poder de polícia administrativo, justamente em área na qual semostra mais necessária a fiscalização.
Com isso, fere-se a Constituição Federal, ao vedar a fiscalização de empresas, notadamente as que recrutam mão de obra na zona rural, por órgãos administrativos criados, estruturados e com empregados treinados para impor o cumprimento das obrigações trabalhistas. Também reduz-se praticamente a zero todo o esforço despendido no combate ao malfado, indigno e inaceitável trabalho escravo.
Os grupos móveis de fiscalização, cuja atuação foi decisiva para que o Brasil, no ano de 2005, fosse citado como referência no relatório global da Organização Internacional do Trabalho - OIT, não poderão mais verificar de imediato a relação de emprego, bem como tomar todas as medidas exigíveis para a regularização dessa situação. Servidores competentes e treinados ficarão, portanto, alijados de exercer a sua regular atividade, notadamente quando da repressão de ilegalidades no âmbito da relação de emprego.
Por tudo isso, a Ajufe solicita a Vossa Excelência que, com relação ao Projeto de Lei 6272/05, que cria a Receita Federal do Brasil, conhecida como Super-Receita, seja vetada o seguinte dispositivo (emenda nº 3, na origem 94): "a desconsideração da pessoa, ato ou negócio jurídico que implique em reconhecimento de relação de trabalho, com ou sem vínculo mpregatício, deverá ser sempre precedida de decisão judicial". As razões, ressaltamos, estão em seu caráter manifestamente nconstitucional e de nefasta repercussão na ordem interna e internacional sobre a atual política de combate ao trabalho escravo, ameaçando arrefecê-la substancialmente.
Aproveito a oportunidade para externar a Vossa Excelência, em nome de nossa entidade de classe, a nossa mais alta dmiração e estima.
Cordialmente,
WALTER NUNES DA SILVA JÚNIOR
Presidente da Ajufe
GRUPO “QUAGLIATO”:
TERIAM OS “REIS DO GADO” PARTIDO PARA A PISTOLAGEM EM TERRAS FEDERAIS?
MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA – MST/PA COMISSÃO PASTORAL DA TERRA DO SUL E SUDESTE DO PARÁ - CPT Xinguara-PA, 15 de fevereiro de 2007.
Conforme é de conhecimento público, desde o dia 08 de março de 2006, um grupo de mais de 200 trabalhadores rurais sem terra organizados pelo MST ocuparam a Fazenda Rio Vermelho, Município de Sapucaia, Sul do Pará, supostamente de propriedade do “Grupo Quagliato”, conhecido nacionalmente como os “Reis do Gado”.
Imediatamente os fazendeiros entraram com uma ação judicial na Vara Agrária de Marabá para retirar os agricultores e poucos dias depois obtiveram uma medida liminar, tendo sido o despejo realizado no dia 27 subseqüente.
Quatro meses depois, como um ato de resistência, o acampamento foi reorganizado novamente na área da Fazenda Rio Vermelho, onde permanece até hoje, com cerca de 400 famílias já produzindo e com uma escola de Ensino Fundamental em funcionamento, atendendo mais de 100 crianças e jovens.
Quanto à decisão liminar foi reconsiderada e reformulada, em parte, pelo mesmo Juiz que a concedeu.
Neste intervalo de tempo de aproximadamente 01 ano, o poderoso “Grupo Quagliato”, com a sua competente equipe de advogados não foi capaz de demonstrar seu legitimo direito de propriedade sobre a totalidade da área que compõe a Fazenda, nem tampouco logrou retirar as famílias da terra através dos mecanismos legais.
Inicialmente o INCRA de Marabá elaborou um mapa demonstrando que 30.000ha pertenceria à União Federal. Depois, por motivos ignorados, voltou atrás afirmando que seriam apenas algumas centenas de hectares. Posteriormente, porém admitiu girar em torno de 2.000ha a parte não titulada. Já no final de 2006, a pedido dos advogados da Comissão Pastoral da Terra, a Procuradoria Geral do INCRA de Brasília passou a analisar o caso e até agora ainda não chegou a uma conclusão definitiva acerca da legalidade dos documentos. Portanto, qual é o tamanho da área pertencente à União que o “Grupo Quagliato” apropriou-se indevidamente?
O certo é que no inicio deste ano de 2007 alguns indivíduos armados infiltraram-se no Acampamento para aterrorizar os trabalhadores, no intuito de convencê-los a sair da terra. Apresentando-se como pistoleiros e emissários do fazendeiro Roque Quagliato ofereceram dinheiro para algumas famílias deixarem a área, ameaçando lideranças de seqüestro seguido de morte, caso não lograssem esvaziar o local. Tais ameaças repetiram-se inúmeras vezes nessas ultimas semanas e foram testemunhadas por diversas pessoas, que fizeram um Boletim de Ocorrência Policial na Delegacia de Xinguara.
Nesse contexto, indaga-se: para quem os sem terra do Acampamento João Canuto representam um sério problema? Quem, além do “Grupo Quagliato” teria interesse de amedrontá-los a tal ponto que os fizesse abandonar a área? Quem estaria disposto a pagar em troca da retirada das famílias? De acordo com os indivíduos infiltrados no Acampamento, teria sido o fazendeiro Roque Quagliato.
Urge, portanto, que o INCRA regularize a situação das famílias do Acampamento João Canuto, identificando o quanto antes a parte da Fazenda pertencente à União e destinando-a à Reforma Agrária o mais rápido possível.
TRABALHO ESCRAVO: BOAS E MÁS NOTÍCIAS
Por Miriam Leitão
O GLOBO
13/02/2007
O deputado Jorge Picciani não está mais na lista suja do Ministério do Trabalho. Esteve de 2004 a 2006, mas, pela regra, quando não há reincidência em dois anos, a pessoa sai da lista. Quando entrou foi porque, em uma de suas fazendas, foram flagradas 39 pessoas trabalhando em condições precárias e mantidas lá por pessoas armadas. Hoje, Picciani continua presidindo a Assembléia do Rio e seu filho, Leonardo, é o presidente da mais importante comissão da Câmara Federal.
Os Piccianis são do apoio legislativo do governador Sérgio Cabral, que, supostamente, iniciou no Rio um novo tempo. Difícil é conciliar os dois lados do governador. Um lado faz escolhas corretas e defende posições públicas modernas; o outro apóia e promove os Piccianis. Leonardo trabalhou com o pai na administração das fazendas.
O trabalho escravo é apenas um dos fatos desabonadores. O deputado estadual Jorge Picciani, como mostrou O GLOBO, faz parte do grupo de deputados e ex-deputados notificados pela Receita Federal por sonegação. A punição foi em conseqüência da memorável série de reportagens "Os homens de bens da Alerj".
O Brasil é um país esquisito. O que faz um governador jovem, que pode ser um recomeço para o Rio, patrocinar para a CCJ uma pessoa tão controversa?
O que faz um Congresso que precisa refazer sua imagem, depois de tantos escândalos, escolher para uma comissão com o nome de Constituição e Justiça uma pessoa que não deu demonstração de estar tecnicamente preparada para o cargo e com uma reputação que não a recomenda?
No dia 30 de junho de 2003, numa de suas fazendas, a Agrovás, em São Félix do Araguaia, 39 trabalhadores foram encontrados pelo grupo móvel do Ministério do Trabalho. Trabalhavam sob a vigilância dos "gatos" armados, não tinham acesso a água potável, nem vínculos empregatícios, e, entre eles, havia um menor de 17 anos.
A explicação do deputado Jorge Picciani na época? Ora, a mesma que todos dão: que não tinha culpa, não sabia de nada - apesar das visitas e sobrevôos à fazenda -, que havia contratado dois empreiteiros e fora vítima deles. Fez um acordo com o Ministério Público em que se comprometeu a cumprir a lei e pagou multa de R$250 mil.
O Brasil é assim: um homem que tem um patrimônio de R$7,7 milhões, para reduzir seus custos, contrata dois "gatos" para trazer trabalhadores não se sabe de onde, para morar não se sabe em que condições, para receber não se sabe quanto. Quando apanhado em flagrante, diz-se vítima. Ele é presidente da Assembléia do segundo maior estado do país; seu filho, auxiliar na administração das fazendas, vai presidir a CCJ.
Quando algum parceiro comercial usar o argumento de que, no Brasil, existe trabalho escravo, o que mesmo o Itamaraty vai dizer? Que é pretexto para protecionismo.
O fato é que existem hoje 300 empresas na lista suja, ainda que baste a não reincidência para sair da lista. Nessa área, há boas e más notícias. Uma ruim veio embrulhada numa boa notícia.
A Super-Receita, que vai simplificar a vida do contribuinte e aumentar a eficiência da máquina, traz uma emenda que pode impedir um trabalho igual ao daqueles fiscais em 2003, na Agrovás.
Ruth Villela, secretária de Inspeção do Ministério do Trabalho, disse que a emenda três não tinha a intenção, mas acabou dificultando muito a ação do Estado no combate ao trabalho escravo:
- A emenda diz que, no caso de haver dúvida sobre a natureza do vínculo empregatício, a fiscalização está impedida de concluir qual é o vínculo. A dúvida tem que ser dirimida na Justiça Trabalhista. Ora, quando há um flagrante de trabalho escravo, o fiscal representa a ação do Estado. Da sua atuação rápida, saem, por exemplo, as verbas rescisórias e a entrada dele no seguro desemprego. Agora o trabalhador terá que individualmente ir à Justiça reclamar seus direitos.
Ela está convencida de que a emenda à lei da Super-Receita não foi escrita com essa intenção, mas, por ser genérica demais, acabou criando essa situação que na prática dificulta a luta contra o trabalho escravo.
Mas, nessa área, há boas notícias, felizmente. A Organização Internacional do Trabalho informa que está iniciando a segunda etapa do Pacto contra o trabalho escravo. A primeira tem tido frutos. Várias empresas descredenciaram fornecedores. A Coteminas hoje exige nota fiscal de origem, para que o fornecedor prove que não compra de quem está na lista suja. O Instituto Carvão Cidadão suspendeu 312 carvoarias e entregou as informações sobre elas ao Ministério Público. O setor sucro-alcooleiro não compra mais da Destilaria Gameleira, de Eduardo Monteiro.
A OIT está contratando a Repórter Brasil e o Observatório Social para fazer novos estudos da cadeia produtiva e monitorar o respeito ao pacto.
- Será feito também o Atlas do trabalho escravo, mostrando de que municípios saem os trabalhadores, as rotas, para onde vão. O perfil do "gato" e do empresário que usa esse trabalho - diz Patricia Audi, da OIT.
Estão sendo treinados 200 trabalhadores libertados para que eles voltem a trabalhar na siderurgia, mas agora da forma certa.
- Chegou a hora da colheita depois de dois anos de pacto. Vamos separar o joio do trigo - afirma Patrícia.
Lei que inibe fiscalização do trabalho é inconstitucional, dizem especialistas
Com a aprovação da emenda, atuação dos auditores fiscais será esvaziada no combate a empregadores escravagistas. "É um incentivo legal à fraude", define presidente da Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho
Por Carlos Juliano Barros
Reporter Brasil
13/02/2007
Renomados juristas e procuradores, a pedido da Repórter Brasil, analisaram a emenda ao projeto de lei da "Super Receita" que impede auditores fiscais do trabalho de apontar a existência de vínculo entre patrões e funcionários, caso constatem algum tipo de irregularidade durante suas ações. De acordo com o texto aprovado hoje em votação na Câmara, apenas a Justiça do Trabalho terá competência para determinar se uma pessoa é ou não empregada de outra.
Os especialistas responderam a duas perguntas básicas. A primeira trata da legalidade da emenda. A segunda, por sua vez, aborda as conseqüências que a medida pode acarretar para o combate ao trabalho escravo e para a defesa dos direitos dos trabalhadores em geral. Na opinião de Marcus Orione, juiz federal e chefe do Departamento de Direito do Trabalho e da Seguridade Social da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, a emenda viola as normas que regem as relações de trabalho. "Se há legislação prevendo as conseqüências decorrentes da não formalização da relação de emprego, será possível ao fiscal a tomada das providências legais cabíveis. A análise do ato ilegal e a sua punição não é prerrogativa exclusiva do Judiciário", explica.
Para o presidente da Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho (ANPT), Sebastião Caixeta, a emenda fere um dos preceitos sagrados da República - a separação dos Três Poderes - "na medida em que vincula, previamente, a atividade de fiscalização do Poder Executivo ao Poder Judiciário". Já o juiz do Trabalho e também professor da USP, Jorge Souto Maior, lembra que "a atuação do Estado, efetiva e concreta, para fazer valer a ordem jurídica trabalhista é preceito fincado na Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948".
De acordo com Souto Maior, a emenda também confere uma "presunção de legalidade" aos empregadores que não cumprem o que mandam as regras, já que a emenda transfere ao funcionário, parte mais "fraca" na relação de emprego, a responsabilidade de contestar as condições de trabalho quando elas não forem as ideais. Para o professor, cabe aos agentes administrativos do Executivo o papel de defender - acionando a justiça se necessário - aqueles que não podem abrir mão do seu posto e que, por essa razão, acabam se submetendo a condições degradantes de serviço.
Os três juristas também apontaram outros problemas decorrentes da aprovação da emenda. Marcus Orione, por exemplo, avalia que a medida representa uma "quebra do pilar da atual política do combate ao trabalho escravo, já que o fiscal do trabalho não poderá tomar qualquer medida imediata contra a ausência de relação de emprego patente nestas hipóteses". Caixeta é ainda mais duro na sua análise, ao considerar a emenda uma espécie de "incentivo legal à fraude". Ele também prevê que a Justiça do Trabalho ficará sobrecarregada por processos que atualmente são solucionados durante as próprias fiscalizações realizadas pelos agentes do Ministério do Trabalho e Emprego.
"O mais importante é destacar que a emenda aditiva pretende, de forma assumida, deixar impunes os descumpridores dos direitos dos trabalhadores", acrescenta Souto Maior. "A quem isso interessa? À sociedade brasileira, como um todo, certamente não é. Diria, sem exagero, que, só pelo fato de existir, a emenda representa um crime contra a humanidade", sentencia o juiz.
Veja as opiniões dos especialistas na íntegra no site www.reporterbrasil.com.br
NOTA PÚBLICA
Super Receita - Por que o SINAIT pede a rejeição da Emenda nº 3 (na origem emenda 94)
Patricia Audi
Coordenadora Nacional
Projeto de Combate ao Trabalho Escravo
OIT Brasil 09/02/2007
Está em tramitação na Câmara dos Deputados, e deverá ser votado com urgência, o Projeto de Lei nº 6.272/05, que cria a Super Receita, fusão das secretarias da Receita Federal e da Previdência Social. O PL foi apreciado e aprovado pela Câmara. Enviado para o Senado, recebeu uma série de emendas, várias delas acatadas pelo relator, senador Rodolpho Tourinho (PFL/BA), que acabaram desfigurando o texto original, embutindo dispositivos que prejudicam muito a Fiscalização do Trabalho e, por conseqüência, a classe trabalhadora.
A Emenda nº 3, apresentada pelo senador Ney Suassuna (PFL/PB) e assinada por mais de 60 senadores, atende a interesses patronais, divergentes dos trabalhadores brasileiros.
Ela impede que os Auditores Fiscais do Trabalho, no exercício normal de suas atividades, verifiquem as condições previstas na lei que comprovem a relação de trabalho, formalizada ou não. Remete a responsabilidade de comprovar o vínculo empregatício para a Justiça do Trabalho e, enquanto a análise judicial não for concluída, a Fiscalização do Trabalho fica impedida de agir: exigir o reconhecimento do vínculo, autuar, multar.
Se a Emenda nº 3 prosperar na Câmara dos Deputados, o trabalho de combate ao trabalho escravo, por exemplo, será o primeiro prejudicado. Na ação dos Grupos Especiais de Fiscalização Móvel, a relação de emprego é comprovada na hora, em flagrante, e o empregador é obrigado a assinar as Carteiras de Trabalho e pagar as indenizações devidas aos trabalhadores pelo tempo trabalhado e serviços prestados. Igualmente prejudicados estarão o combate às falsas cooperativas, à terceirização irregular nas empresas e a fiscalização rural.
Os Auditores Fiscais do Trabalho são os agentes do Estado credenciados para verificar as relações de trabalho. Têm visão privilegiada desta relação, pois visitam os locais de trabalho, fazem verificação física e entrevistas, são profundos conhecedores da lei e dos subterfúgios utilizados para tentar descaracterizar a relação de trabalho. Se forem impedidos de fazerem seu trabalho será o fim do combate à informalidade e à exploração dos trabalhadores.
Para o SINAIT, além de ser uma interferência direta na ação dos Auditores Fiscais do Trabalho, a Emenda nº 3 caracteriza a interferência de um Poder da República sobre outro, no caso, o Judiciário sobre o Executivo, o que constitui uma aberração jurídica.
Estas são algumas razões que o SINAIT apresenta para pedir a rejeição da Emenda nº 3. A manifestação contrária das entidades sindicais que defendem os direitos dos trabalhadores é fundamental na Câmara dos Deputados, imediatamente, para tentar barrar mais este ataque aos direitos dos trabalhadores, via enfraquecimento e fragilização de um dos últimos instrumentos do Estado para inibir as fraudes trabalhistas.
SINDICATO NACIONAL DOS AUDITORES FISCAIS DO TRABALHO - SINAIT
ICC CORTA FORNECEDORES QUE MANTINHAM TRABALHO ESCRAVO
Instituto divulga lista de carvoarias com problemas trabalhistas
Produzida pelo Instituto Carvão Cidadão, lista já conta com 312 empresas e serve para que siderúrgicas do Maranhão e Pará não comprem carvão de produtores que desrespeitam trabalhador
Por Iberê Thenório
Repórter Brasil
07/02/2007
Veja a lista das carvoarias descredenciadas pelo ICC no endereço http://www.reporterbrasil.com.br/documentos/descredenciados-icc-fev2007.xls
Siderúrgicas do Maranhão e Pará cortaram 156 carvoarias de suas relações de fornecedores. É o que mostra a lista de produtores descredenciados divulgada pelo Instituto Carvão Cidadão (ICC). Nela, constam carvoarias em que técnicos do órgão encontraram problemas trabalhistas, e que por isso ficaram proibidas de vender matéria-prima para produtoras de ferro-gusa filiadas ao Instituto.
De acordo com Ornedson Carneiro, presidente do ICC, as principais irregularidades encontradas nas carvoarias foram falta de assinatura em carteira, ausência de equipamentos de proteção individual e o não-pagamento de encargos trabalhistas, como INSS e FGTS.
A lista é elaborada desde 2004, quando o ICC foi criado. Desde então, ela acumula 312 empresas flagradas desrespeitando a legislação trabalhista. A fiscalização é feita por equipes do próprio Instituto. "Quando encontramos problemas, é dado um prazo para que a carvoaria regularize sua situação. Caso isso não aconteça, nós comunicamos a siderúrgica, e o contrato é rescindido", explica o presidente do ICC.
Todo o trabalho do Instituto é realizado baseando-se em um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) assinado entre seis siderúrgicas do Maranhão, o Ministério Público do Trabalho (MPT) e o Ministério do Trabalho e Emprego. Nesse acordo, as empresas se comprometem a fornecer equipamentos de proteção e fiscalizar o cumprimento da legislação trabalhista nos seus fornecedores de carvão.
Atualmente, 14 siderúrgicas situadas no Pará e Maranhão fazem parte do ICC, e as empresas que lhes fornecem carvão sofrem auditorias periódicas. O Ministério Público do Trabalho está elaborando um novo TAC para ser firmado com as siderúrgicas do Pará.
Terceirizados
Apesar de já ter descredenciado mais de 300 carvoarias, o diretor do ICC afirma que é difícil garantir totalmente a boa procedência social do carvão, já que muitas empresas que constam na lista acabam vendendo seus produtos a intermediários, que os repassam às siderúrgicas. "Ainda corremos um segundo risco: essas pessoas podem abrir uma firma com outro nome, outro CNPJ e se cadastrar novamente para vender carvão", lamenta Ornedson.
Para o coordenador da campanha de combate ao trabalho escravo na Comissão Pastoral da Terra, Xavier Plassat, a terceirização na produção de carvão demonstra que as siderúrgicas não querem se envolver diretamente com uma atividade muitas vezes danosa aos trabalhadores e ao meio ambiente. "O que eles querem [ao descredenciar carvoarias] é moralizar a terceirização, mas não abandoná-la", diz. Responsabilizar as siderúrgicas de forma mais ampla pelas irregularidades trabalhistas em sua cadeia produtiva é justamente um dos objetivos do TAC em discussão com o MPT.
Hoje, várias siderúrgicas do pólo Carajás têm fazendas de eucalipto, mas a produção do carvão a partir dessa matéria-prima costuma ser feita por trabalhadores de outras empresas. "É uma atividade difícil para eles conduzirem de forma própria. Geralmente é terceirizado", afirma Ornedson.
GRUPO MÁVEL RESGATA MAIS 22 TRABALHADORES NO PARÁ
Terceira ação do ano demonstra que ações integradas têm surtido efeito e modificado a geografia do aliciamento: devido à intensa fiscalização nas rodovias, maioria dos libertos é de cidades próximas
Severino Goes
Assessor de Imprensa
Projeto Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil 01/02/2007
Brasília - A terceira ação realizada pelo Grupo de Fiscalização Móvel do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) no Pará libertou, esta semana, mais 22 trabalhadores em três fazendas na região de Ipichuna do Pará, próxima a Paragominas. Na semana passada, foram libertados 35 trabalhadores, nas duas primeiras ações do ano.
Na propriedade de Carlos César de Miranda, oito trabalhadores foram flagrados em situação análoga à de escravo. Eles estavam alojados em um curral na fazenda. Há dois meses eles trabalhavam no roçado sem condições dignas de moradia, comida, instalações sanitárias, e não possuíam os Equipamentos de Proteção Individual (EPI). Serão pagos R$ 10 mil em verbas rescisórias.
De acordo com o coordenador do Grupo Móvel, Benedito Silva, o Ministério Público do Trabalho pedirá R$ 4 mil em indenizações, por danos morais, para cada trabalhador.
Na propriedade de Romildo Contrime, outros oito trabalhadores que faziam roçado foram libertos. Eles foram encontrados em barracões de lona preta, sem proteção lateral, instalações sanitárias e energia. Ao todo, os trabalhadores receberão R$ 10,6 mil em indenizações.
Na terceira fazenda fiscalizada, o proprietário Carlos Luís dos Santos mantinha seis trabalhadores em condições análogas à de escravo. A produção da carvoaria era entregue a atravessadores de Açailândia. Os fiscais, que interditaram os fornos, estão investigando se a carvoaria é clandestina. No local, a equipe encontrou alojamento precário sem água potável, energia, instalações sanitárias, entre outras irregularidades. O proprietário pagará R$ 13.363 em verbas rescisórias.
Todos os 22 trabalhadores são da própria região. Segundo Benedito Silva, tem sido comum encontrar aliciados em cidades próximas de onde foram resgatados. "Isso é reflexo das fiscalizações realizadas nas rodovias do país. Está cada vez mais difícil o transporte de trabalhadores", afirma o coordenador.
Rondônia - Em outra ação realizada esta semana pelo Grupo Móvel de Fiscalização, em Rondônia, nas fazendas Taboca e Batista, foram encontradas irregularidades trabalhistas. De acordo com o coordenador do grupo, Dercides Pires, do total de nove trabalhadores, havia uma trabalhadora sem registro, mas o proprietário se recusa a pagar pela infração "Ele alega que ela trabalhava cozinhando para o marido, mas quando chegamos no local ela estava de botas e foice na mão, trabalhando no pasto", relatou Dercides.
Na fazenda Batista, do total de 23 trabalhadores, 17 não eram registrados. As demais infrações, como a proximidade das camas no alojamentos, foram corrigidas na hora.
Com informações do site do Ministério do Trabalho e Emprego.
ANPT DISCUTE COM EUA CONTINUIDADE DE PROJETO DE COMBATE AO TRABALHO ESCRAVO.
SITE DA ANPT
30/01/2007
Nesta segunda-feira (29/01), o presidente da Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho (ANPT), Sebastião Vieira Caixeta, esteve na Embaixada dos Estados Unidos, em Brasília, para tratar da continuidade dos projetos de Combate ao Trabalho Escravo no Brasil e Combate ao Tráfico de Pessoas. Além do presidente da ANPT, participaram do encontro o primeiro Secretário da Embaixada, Peter Tinsley; o coordenador senior do Escritório de Monitoramento e combate ao Trafico Internacional de Pessoais, com sede em Washington, Mark B. Taylor, e Mark Mittelhauser, do Departamento de Democracia, Direitos Humanos e Direitos Trabalhistas.
Caixeta apresentou um histórico da atuação do Ministério Público do Trabalho (MPT) no combate ao trabalho escravo no Brasil, ressaltando que esta é uma das prioridades da instituição. Também foram destacadas as atidades desenvolvidas pela Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae). Sebastião Caixeta explicou ainda que a Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho participa efetivamente dos esforços deflagrados no país com o intuito de acabar com a prática de trabalho forçado.
Os Estados Unidos incentivam o programa brasileiro de combate ao trabalho escravo. Segundo Sebastião Caixeta, para que o Projeto da OIT tenha continuidade, é importante que os parceiros brasileiros continuem recebendo o apoio internacional . Os americanos também apóiam o combate ao tráfico de pessoas. A cooperação técnica entre os organismos é tida como fundamental para que os dois projetos tenham continuidade e êxito.
O Presidente da ANPT aproveitou para conversar com os representantes americanos sobre o objetivo e o andamento de projetos que tramitam no legislativo brasileiro visando conferir mais rigor às punições dos responsáveis por manter trabalhadores escravos. A competência criminal da Justiça do Trabalho para julgar este tipo de crime no Brasil também foi discutida.
HISTÓRICO
Em dezembro de 2006, entidades da sociedade civil que compõem a Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae), dentre elas a ANPT, aprovaram, por unanimidade, moção de apoio à continuidade do Projeto de Combate ao Trabalho Escravo no Brasil, desenvolvido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). O documento foi enviado ao Governo Federal e às autoridades dos demais países que integram as Nações Unidas.
De acordo com a Moção, o "projeto tem sido fundamental para que o combate ao trabalho escravo no Brasil seja uma prioridade de Estado". Segundo as entidades, o projeto contribui para colocar em prática o Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, além da efetiva aplicação das convenções internacionais sobre o tema em que o Brasil é signatário.
Na época, o presidente da ANPT, Sebastião Vieira Caixeta, afirmou que os resultados positivos da cooperação estabelecida entre OIT, governo brasileiro e as várias entidades que atuam como parceiras no combate ao trabalho escravo justificam a continuidade da cooperação, bem como a renovação das metas. "Com esta moção estamos solicitando oficialmente ao governo do Brasil e dos demais países comprometidos com a erradicação do Trabalho Escravo o suporte financeiro necessário para a continuidade das atividades do projeto" explicou.
"Combate ao trabalho Forçado no Brasil" , como é chamado o Projeto, iniciou suas atividades em 2002. Desde então, o trabalho escravo passou a ser considerado um dos principais temas na agenda nacional. Um dos destaques é a atuação integrada de todas as instituições nacionais que defendem os direitos humanos. No ano de 2003, 76 metas, de curto, médio e longo prazos foram inseridas no Plano Nacional de Erradicação do Trabalho. A previsão de execução das ações compreende o período entre os anos de 2003 e 2006. Com a continuidade do projeto de cooperação, a intenção é dar continuidade ao Plano, com a conseqüente renovação das metas.
AUDITORES COBRAM JUSTIÇA PELA MORTE DOS COLEGAS EM UNAÍ.
Atos públicos na cidade mineira lembram assassinato de fiscais do trabalho e de motorista, em janeiro de 2004; manifestantes reclamam da lentidão da justiça e exigem julgamento dos acusados pelo crime
Por Maurício Monteiro Filho, enviado especial em Unaí
Projeto Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil 29/01/2007
Unaí - Uma caminhada silenciosa encerrou, às 15h deste domingo, 28 de janeiro, os eventos de lembrança do terceiro ano de luto pela morte dos auditores fiscais do trabalho Eratóstenes de Almeida Gonçalves, João Batista Soares Lage, Nelson José da Silva e do motorista Ailton Pereira de Oliveira, na cidade mineira de Unaí.
A passeata partiu da Igreja Matriz e terminou em frente ao Fórum da cidade. Os manifestantes caminharam em silêncio durante todo o trajeto, muitos deles com uma faixa preta com a inscrição "Julgamento já" cobrindo a boca.
O silêncio só foi rompido no fim do percurso, quando se formou uma grande roda e os nomes das quatro vítimas foram invocados, ao que o grupo respondeu "Presente, presente, presente!".
Essa foi a parte política do evento, que havia sido iniciado ainda de manhã, por volta das 11h30, com um culto ecumênico na encruzilhada em que os fiscais sofreram a emboscada, em 2004. Lá, numa pequena estrada vicinal na zona rural de Unaí, quatro cruzes demarcam o local exato dos assassinatos.
Cerca de 150 pessoas de diversos estados brasileiros - e inclusive de outros países - compareceram ao ato, que foi coordenado pela Delegacia Regional do Trabalho em Minas Gerais (DRT/MG), pela Associação dos Auditores Fiscais do Trabalho de Minas Gerais (AAFIT/MG) e pelo Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho (Sinait). Havia forte representação de outros sindicatos e movimentos sociais.
Segundo Carlos Calazans, delegado regional do trabalho na época da chacina, a manifestação faz parte de um compromisso assumido logo após a tragédia. Ele conta que saiu em busca da cena do crime alguns dias depois do acontecido para descobrir sua localização exata. Assim, um mês depois, voltou com um grupo de cerca de dez pessoas, incluindo Elba Soares, viúva de Nelson, um dos mortos, e fincou as quatro cruzes.
"Tomamos a decisão enérgica de cobrar as autoridades e, desde aquele dia, nos comprometemos a voltar todo mês, até que o crime fosse esclarecido", relata Calazans. Sua peregrinação durou cinco meses, pois, em julho de 2004, a Polícia Federal (PF) concluiu o inquérito e apontou os oito primeiros acusados - aos quais foi acrescentado o nome de Antério Mânica, atual prefeito de Unaí, dois meses mais tarde. Mas a descoberta da PF redundou em mais uma responsabilidade para Calazans: retornar todo dia 28 de janeiro até que os culpados fossem devidamente julgados. "Tomara que isso acabe logo, mas, se não terminar, nós transformaremos Unaí em um exemplo de luta por justiça para todo o Brasil", garante ele.
Após uma série de cânticos religiosos e de discursos emocionados, esse momento do ato terminou com a distribuição de rosas brancas aos manifestantes, que as depositaram ao redor das cruzes, ao som do Hino Nacional. De lá, os participantes retornaram à cidade para a caminhada.
Crime organizado e agronegócio
Um dos pontos altos do culto ecumênico foi a presença de Dom Tomás Balduíno, missionário símbolo dos movimentos sociais e ex-presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Falando do barranco em que estão as quatro cruzes, sua vista não pôde deixar de perceber a vastidão de plantações de soja margeando a estrada onde ocorreram os assassinatos. E, para ele, há uma forte ligação entre essa força local do agronegócio e a morte dos auditores. "Diante do crime organizado, a sociedade tem que se organizar na luta pela vida, contra a destruição do cerrado e também pelos direitos dos trabalhadores", afirma. E em Unaí, de onde a família Mânica comanda o comércio internacional de feijão, essa organização se faz ainda mais necessária.
Dom Tomás também engrossa o coro de críticas, que pautaram muitas das falas dos presentes, dirigidas à lentidão na marcação do julgamento. "Nosso judiciário tem que superar essa pecha de submissão ao capital", ataca ele.
Auditores unidos
Três anos depois da chacina, é consenso entre a maior parte dos auditores fiscais que o crime criou um marco divisório que alterou sensivelmente o modo de funcionamento das fiscalizações.
Antônio Lambertucci, atual delegado regional do trabalho, avalia que "a atual situação está mais complicada, na medida em que se exige da DRT muito mais esforço de planejamento e muito mais atenção para não expor fiscais". Segundo ele, ameaças que antes não eram levadas em conta, por serem consideradas atos intempestivos de empregadores, atualmente são encaminhadas à PF.
O delegado alerta também para uma redução do impacto da fiscalização, porque agora é necessário mandar grandes equipes para o campo. "Tivemos que praticamente dobrar o número de auditores por equipe, mais os oficiais da PF, o que gera maior custo de combustível e diárias. Com isso, o gasto do Estado com certeza aumentou", atesta Lambertucci.
Em um dos discursos mais inflamados do culto, a presidente do Sinait, Rosa Maria Jorge, denunciou o sucateamento em que atualmente se encontram as DRTs pelo Brasil e a falta de condições para exercer as fiscalizações devidamente. "Nunca vi alguém pedir para trabalhar, mas é o que nós, auditores, estamos fazendo. Queremos meios adequados para desempenhar nossa função", reivindica ela.
Também foram os problemas comuns no exercício da fiscalização do trabalho que reuniram os auditores de diversos países da América do Sul, através da Confederação Ibero-Americana dos Inspetores do Trabalho (CIIT). Hoje, a entidade serve como fórum de intercâmbio de experiências e formas de atuação, bem como de críticas às carências da área em todas as nações representadas.
Eduardo Fernandes, uruguaio e tesoureiro da organização, veio ao Brasil para assistir ao ato em nome de seus quatro colegas mineiros. Ele lembra que a notícia do crime foi terrivelmente recebida pelos fiscais do trabalho em seu país, e conta que a situação é também de insegurança no Uruguai, apesar de nunca ter culminado em uma tragédia como a de Unaí. "Fui ameaçado com pistolas contra a cabeça durante uma fiscalização na colheita de laranja na província de Salto. Fomos expulsos da propriedade, impedidos de realizar nosso trabalho". E analisa: "num mundo globalizado, as formas de se produzir capital geram os mesmos problemas trabalhistas em todos os países, e também os mesmos meios de opressão contra quem fiscaliza essas violações".
ENTIDADES PEDEM CONTINUIDADE DE PROJETO DA OIT
Severino Goes
Assessor de Imprensa
Projeto Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil
23/01/2007
Entidades da sociedade civil que compõem a Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae) aprovaram, por unanimidade, durante sessão realizada na sede da Procuradoria Geral do Trabalho, em Brasília, uma moção apoiando a continuidade do Projeto de Combate ao Trabalho Escravo no Brasil desenvolvido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). O documento foi enviado ao Governo Federal e às autoridades dos demais países que integram as Nações Unidas.
De acordo com a moção, "o projeto tem sido fundamental para que o combate ao trabalho escravo no Brasil seja uma prioridade de Estado". Segundo as entidades, a iniciativa contribui para colocar em prática o Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, além da efetiva aplicação das convenções internacionais sobre o tema em que o Brasil é signatário.
O documento está disponível no endereço http://www.anpt.org.br/download/nota_mocao_oit.doc
FAZENDEIRO É CONDENADO A PAGAR R$ 1 MILHÃO POR UTILIZAR ESCRAVOS Processo só foi instaurado porque três pessoas conseguiram fugir da fazenda Inajá, em São José do Xingu (MT). Eles afirmaram terem sido espancados com golpes de corrente de seguranças armados
Projeto Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil
Por Iberê Thenório
10/01/2007
A Vara do Trabalho de São Félix do Araguaia, município na região Nordeste do Mato Grosso, condenou o fazendeiro Gilberto Resende a pagar R$ 1 milhão ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), a título de danos morais coletivos, por manter trabalhadores em condições análogas à escravidão. A decisão é de primeira instância e foi tomada em 16 de dezembro pelo juiz do Trabalho João Humberto Cesário. "Gilbertão", como é conhecido, pode recorrer da decisão.
No final de 1999, três trabalhadores conseguiram fugir da fazenda Inajá, de propriedade de Resende, localizada em São José do Xingu (MT). Eles acusaram o fazendeiro de utilizar capangas armados para vigiar 16 trabalhadores, que chegavam a ser espancados com golpes de corrente e levar pontapés.
Em um exame de corpo de delito realizado em uma das pessoas que fugiu, foram encontradas 29 escoriações nas costas e pescoço, entre outros ferimentos. Segundo a sentença de Cesário, os machucados "possuíam evolução compatível com a narrativa dos fatos e com o tempo decorrido entre a agressão e a realização do exame".
Além das ameaças e maus-tratos, o juiz afirma, em sua sentença, que os trabalhadores não recebiam salário, não eram registrados, trabalhavam sob jornada exaustiva e não utilizavam equipamentos de proteção individual (EPIs).
A Inajá chegou a ser fiscalizada após as denúncias, mas os outros trabalhadores já haviam deixado o local, e parte da propriedade havia sido vendida.
O julgamento aconteceu à revelia, pois o réu não apresentou defesa. Como a condenação é restrita à área trabalhista, Resende não pode ser preso. O fazendeiro também responde a um processo criminal e a dez processos por disputas de terra no Mato Grosso.
Procurado pela reportagem, o advogado constituído pelo fazendeiro no caso, Ildo Roque Guareschi, afirmou desconhecer o processo e não quis dar declarações.
MOVIMENTOS NEGAM DECISÃO POLÍTICA CONTRA MDA
Reivindicação antiga do MST e da CPT é que Incra seja vinculado à Presidência da República para que reforma agrária tenha mais agilidade. Fim do MDA não é pauta dos movimentos, como foi divulgado na mídia
Reporter Brasil 04/01/2007
Por Verena Glass, da Agência Carta Maior
O descontentamento do MST com o que consideram inoperância e morosidade do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) tem sido uma das principais arestas entre o movimento e o governo Lula. Tomou corpo durante a marcha do MST a Brasília em maio de 2005, quando, entre as reivindicações apresentadas ao presidente, o movimento pediu a desvinculação do órgão do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e sua subordinação direta à Presidência da República para que tenha maior peso político.
Esta antiga reivindicação foi retomada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) e pelo MST durante um seminário para novos funcionários do Incra no dia 15 de novembro passado, quando João Pedro Stédile, da coordenação nacional do MST, falou sobre o que considera aspectos deficitários, os desafios e a necessidade de reestruturação do órgão.
No último dia 29 de dezembro, recuperando as avaliações de Stédile e da CPT feitas durante o evento, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma matéria afirmando que as duas entidades estariam pedindo a "extinção do Ministério da Reforma Agrária", o que gerou desconforto tanto entre lideranças do MST e da CPT, quanto no MDA.
De acordo com o ministro Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário), a reportagem causou um grande estranhamento porque a bandeira em questão sempre foi hasteada pela bancada ruralista e pelos setores ligados ao agronegócio, críticos à criação de políticas públicas específicas para a agricultura familiar e à reforma agrária.
"Quando os ruralistas defenderam, em várias oportunidades, a extinção do MDA, dizendo que não faz sentido existirem dois ministérios para a questão agrária (Ministério da Agricultura (Mapa) e MDA, os movimentos sociais sempre saíram em defesa da pasta. Acho muito estranho [que defendam o seu fim], temos tido reuniões sistemáticas com as lideranças dos movimentos e este tema nunca apareceu", avalia Cassel. Segundo ele, se realmente houveram colocações neste sentido, seria um equívoco político e um grave retrocesso.
Segundo a coordenadora do MST em Brasília, Marina dos Santos, é fato que existem críticas ao MDA entre os movimentos sociais, principalmente em relação à atuação do Incra, mas em nenhum momento houve uma decisão da direção do MST em fazer uma campanha pela extinção do ministério.
"Na próxima audiência com o presidente Lula, que nem sabemos ainda quando ocorrerá, queremos discutir com ele um maior empenho do governo na reforma agrária. Isso não tem nada a ver com o fim do MDA, que é uma pauta do agronegócio", explica.
Para a CPT, o grande problema no encaminhamento da reforma agrária durante o primeiro mandato de Lula foi um descompasso entre o MDA e o Incra, cujo auge foi a demissão do então presidente do órgão, Marcelo Resende (bastante próximo aos movimentos) no final de 2003.
De acordo com José Batista Afonso, membro da direção nacional da CPT, os choques entre as duas instâncias, perceptíveis, segundo ele, no dia-a-dia político da questão da reforma agrária, suscitaram vários debates internos sobre a estrutura e o papel do ministério, mas em nenhum momento houve uma decisão política de exigir a extinção do MDA.
Dom Tomas Balduino, ex-presidente da CPT e atualmente seu conselheiro, reforça as críticas à fragilidade do MDA, considerado por ele "primo pobre do Mapa, sem estrutura e recursos", mas garante também que a possibilidade de acabar com a pasta "não foi objeto de estudo nem uma posição política do MST ou da CPT".
Segundo ele, a demanda realmente é a vinculação do Incra diretamente à Presidência da República e a criação de mais uma autarquia, que assumiria os setores de formação, educação e assistência técnica nos assentamentos. Questionado como avalia as demais políticas do MDA – crédito e seguro para a agricultura familiar, desintrusão de terras indígenas, assentamentos extrativistas, desenvolvimento territorial, combate ao trabalho escravo, políticas para populações tradicionais, como quilombolas e ribeirinhos etc –, Dom Tomas considera que, na medida do possível, "caminharam bem".
Reforma agrária 2007
Independente da posição referente ao MDA, os movimentos vêem com grande preocupação as perspectivas da reforma agrária no segundo governo Lula. Diferente de 2002/2003, quando a questão recheou os discursos do candidato e depois presidente, e quando a equipe de Lula desenvolveu o chamado Plano Nacional de Reforma Agrária (cujas metas previram o assentamento de 530 mil famílias em quatro anos), este ano ainda não se falou nem em metas nem em planos.
"2007 não tem metas, mas temos que ver se o debate agora será o número de assentados ou a qualidades dos assentamentos, produção, geração de emprego e renda, viabilidade econômica, e o convencimento da opinião pública de que a Reforma Agrária traz riqueza e desenvolvimento", afirma o ministro Guilherme Cassel.
De acordo com a coordenadora do MST, Marina dos Santos, no entanto, o governo não tem projeto para a reforma agrária, que caiu totalmente da pauta de prioridades e "não está presente nem nos discursos do presidente".
PROJETOS DE PREVENÇÃO AO TRABALHO ESCRAVO RECEBERÃO APOIO TÉCNICO E FINANCEIRO Propostas para inserir o tema no dia-a-dia de escolas e comunidades do interior do Norte e Nordeste serão financiadas pela Repórter Brasil e pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos
Da Repórter Brasil 18/12/2006
Professores e líderes comunitários de municípios do interior do Piauí, Maranhão, Tocantins e Pará vão receber apoio técnico e financeiro para colocarem em prática projetos sobre o trabalho escravo contemporâneo no Brasil. Nesta segunda-feira (16), são divulgadas as propostas selecionadas para receber até R$ 1 mil reais, cada uma, para executar ações locais que mobilizem alunos de escolas e a comunidade na prevenção ao aliciamento de mão-de-obra escrava.
O concurso foi organizado pela ONG Repórter Brasil e pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, com o apoio da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da TAM Linhas Aéreas.
As atividades escolhidas vão desde peças de teatro até grafitagem, passando por programas de rádio, palestras, encontros, caminhadas, pesquisas, produção de panfletos e cartilhas, confecção de cartazes e camisetas. Em comum, elas pretendem aumentar o nível de consciência sobre esse problema, com informações sobre os riscos a que os trabalhadores estão expostos e os seus direitos, para evitar que eles sejam enganados.
As propostas que concorreram ao prêmio foram elaboradas por participantes do projeto "Escravo, nem Pensar!", que capacita educadores, professores e líderes comunitários e sindicais para inserirem o tema do trabalho escravo no dia-a-dia de suas escolas e comunidades. Coordenado pela ONG Repórter Brasil em parceria com a Secretaria Especial dos Direitos Humanos, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, a OIT e a Comissão Pastoral da Terra, tem por objetivo principal diminuir o número de jovens de cidades do Norte e Nordeste aliciados para o trabalho escravo.
O projeto, que possui mais de 30 parceiros regionais, teve início em 2004 e já capacitou mais de mil pessoas para atuarem como multiplicadores em 15 municípios nos Estados do Piauí, Maranhão, Tocantins e Pará, que estão entre os principais fornecedores de mão-de-obra escrava. O "Escravo, nem Pensar!" está inserido nas demandas do Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo, lançado pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva em março de 2003.
Confira abaixo as propostas selecionadas:
1 - "Teatro do Oprimido" - Paragominas (PA)
Lorena Carla Souza da Silva, Ivanilda Preste de Araújo e Célio Lima Cedro.
Trabalhar a temática do trabalho escravo com jovens por meio da técnica do Teatro do Oprimido nas comunidades do Nagibão e Jardim Atlântico.
2 - "Não dá para fechar os olhos: o Trabalho Escravo existe mesmo!" - Xinguara (PA)
Alunos do 2º colegial turmas A e B do Colégio Estadual D. Luiz Palha e a professora Arlete Francisca Marques.
Produção de material informativo (folder, cartilha, pintura de muros) baseado em trabalhos de pesquisa e entrevistas.
3 - "Educação: o Saber e o Poder" - Santa Luzia (MA)
Irene Vieira do Vale e outros
Professores de diversas disciplinas realizarão com seus alunos palestras, seminários, oficinas, peça teatral e programas nos meios de comunicação que abordem o trabalho escravo.
4 - "Trabalho Escravo fere a Cidadania" - Feira Nova do Maranhão (MA)
Albetiza Lima Brito, Cristiane Coelho da Silva, Felcina Lopes Rodrigues e outros
Trabalhar a temática do trabalho escravo com alunos de 1ª a 8ª série por meio de dinâmicas (cordel, peças teatrais, leitura de imagens, acrósticos, panfletos, paródias, etc.).
5 - " Arte e Liberdade. Festival de Teatro" - Pastos Bons (MA)
Valdelice Moreno Barbosa e Carina Ribeiro de Sousa
Programa de rádio sobre trabalho escravo a ser veiculado na rádio local e festival de teatro envolvendo a temática.
6 - "Educação contra a escravidão" - Axixá (TO)
Maria Dinaide Silva, Antonio Ferreira Guimarães e Luzanira Ferreira Lima
Organização de passeata, visita de campo, seminário temático e gincana cultural.
7 - " Escravo Nunca Mais" - Araguaína (TO)
Maria do Socorro Marinho da Luz e Stelha Maris de Lima
Com os alunos da 7a série trabalhar o senso crítico, criatividade, comunicação e expressão por meio de uma peça teatro e cordel que abordem a temática do trabalho escravo
8 - "Luta por Liberdade: Prevenção do Trabalho Escravo" * São Raimundo Nonato (PI)
Equipe Olho Aberto
Organização de peça teatral, palestras nas escolas e apresentações sobre trabalho escravo nas comunidades rurais.
9 - "Projeto Bairro Aeroporto" * Corrente (PI)
Carmen Maria Cavalcante Nogueira de Carvalho, Maria Auridéia de Araújo Silva e Vanessa Ribeiro de Sousa
Realizar pesquisa a partir de visitas diagnósticas ao bairro para, posteriormente, realizar uma palestra sobre o trabalho escravo.
LIBERAÇÃO RECORDE ESTÁ NA NOVA "LISTA SUJA" DO TRABALHO ESCRAVO.
Conheça a lista neste site em NA MÍDIA ou www.mte.gov.br ou www.reporterbrasil.com.br
Cadastro lançado pelo MTE traz libertação que tirou 1003 trabalhadores de situação semelhante à escravidão; Pará é estado que mais aparece na lista, com 35,5% dos nomes, seguido do Tocantins, com 16,9%
Por Leonardo Sakamoto
13/12/2006 - Repórter Brasil
O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) divulgou nesta quarta-feira (13) a nova atualização do cadastro de empregadores que utilizaram mão-de-obra em situação análoga à de escravo - conhecido como "lista suja". Ao todo, são 170 empregadores, pessoas físicas e jurídicas, flagrados cometendo esse crime em 13 estados.
Outros 34 nomes que deveriam constar no cadastro ficaram de fora, pois obtiveram liminares com efeito suspensivo da Justiça Federal e da Justiça do Trabalho. A Advocacia Geral da União e o MTE estão tentando derrubar essas suspensões.
O Pará lidera o número de relacionados com 35,5% do total. Em segundo lugar está o Tocantins, com 20,9%. Na seqüência, vêm Maranhão (16,9%), Mato Grosso (9,3%), Goiás (5,2%), Bahia (3,5%), Mato Grosso do Sul (2,9%), Roraima (1,7%), Minas Gerais e Piauí (1,2%). São Paulo, Rio Grande do Norte e o estreante Rio Grande do Sul têm 0,6% cada. Os Estados com maior representação na "lista suja" estão localizados no arco do desmatamento amazônico e na região do cerrado, onde a vegetação nativa perde espaço para os empreendimentos agropecuários.
Nessas fazendas e carvoarias, os trabalhadores eram submetidos a condições subumanas na derrubada de mata nativa para a ampliação de pastagem, na colheita da cana-de-açúcar para a fabricação de álcool, na limpeza do terreno para o plantio de soja e algodão, na colheita de café e babaçu, na extração de resina, na produção de carvão vegetal (matéria-prima para a siderurgia), entre outras atividades.
Segundo as regras da portaria nº 540/2004, que regulamenta a "lista suja", o nome do infrator só entra na relação após o final de um processo administrativo gerado pelos autos da equipe de fiscalização que libertou os trabalhadores. A exclusão, por sua vez, depende do monitoramento da fazenda por dois anos. O nome só será retirado da lista se, após esse tempo, não houver reincidência no crime, se todas as multas resultantes da ação de fiscalização forem pagas, se forem garantidas condições dignas de trabalho e se as pendências trabalhistas forem quitadas. A atualização é divulgada semestralmente desde novembro de 2003.
TRAGÉDIA ANUNCIADA: CONFLITO AGRÁRIO DEIXA UM MORTO E TRÊS FERIDOS EM CUMARU DO NORTE, SUL DO PARÁ.
Um alerta para evitar novas tragédias.
Xinguara-PA, 11 de dezembro de 2006. Comissão Pastoral da Terra Sul do Pará STR de Cumaru do Norte
Projeto CidadaniaDiocese de Conceição do Araguaia
STR de Conceição do Araguaia
No dia 04.12.06, por volta das 15:00 houve uma emboscada feita por pistoleiros, próximo ao Acampamento dos sem terra, “Brilhante”, a 150KM de Cumaru do Norte e a 300KM do Município de Redenção, Sul do Pará.
Tudo indica que a emboscada foi feita por pistoleiros da Fazenda Estrela de Maceió: Um caminhão foi atacado quando subia lentamente uma ladeira no meio da mata. Na cabine estavam o motorista e três mulheres. Na carroceria, alguns sem terra e cerca de quatro grileiros perigosos infiltrados há alguns meses no acampamento. Diversos tiros foram disparados pelos dois lados da estrada, tanto na direção da cabine quanto no rumo da carroceria, onde tinha cerca de 06 homens. Uma mulher da cabine foi ferida na barriga. O motorista e sua mulher foram atingidos de raspão na perna e na cabeça e uma terceira mulher ficou ferida por estilhaços de vidro. Na carroceria foi morto um dos grileiros, outro ficou ferido e foi levado até o hospital de Santana do Araguaia. Os demais baleados foram internados no hospital de Redenção. Os outros que ficaram ilesos se esconderam na mata e ate a presente data um ainda não reapareceu.
Esta tragédia já havia sido anunciada varias vezes desde o inicio deste ano a todas as autoridades federais, estaduais, civis e militares, tanto por escrito quanto em duas audiências públicas: uma em Marabá no mês de abril e outra em Redenção em setembro. Portanto, a violência que atinge o Acampamento Brilhante não é novidade. A Fazenda Estrela de Maceió é conhecida publicamente por sua extrema violência, inclusive com a manutenção de milícias privadas fortemente armadas. Em outubro de 2005 três sem terra que passavam de moto pela área foram seqüestrados por pistoleiros da Fazenda e não mais reapareceram até a presente data. No inicio deste ano o coordenador da CPT Sul do Pará prestou declarações na Policia Federal de Redenção, sobre este grupo de pistoleiros tendo inclusive entregue fotos de seu armamento de grosso calibre.
Importante destacar que a empresa Fortex Engenharia Ltda, supostamente proprietária da Fazenda Estrela de Maceió, que até recentemente se chamava Construtora Lima Araújo Ltda, foi flagrada varias vezes praticando trabalho escravo na própria Fazenda de Cumaru, bem como na Fazenda Estrela de Alagoas, no Município de Piçarra, tendo sido esta condenada pela Justiça do Trabalho a pagar a quantia de 5 milhões de reais a titulo de dano moral coletivo.
Os sem terra do Acampamento Brilhante foram despejados em abril deste ano por decisão do Juiz da Vara Agrária de Marabá, Dr. Sergio Ricardo, cuja ordem foi cumprida em pleno Domingo de Páscoa pela Tropa de Choque da Policia Militar de Belém. Os advogados da CPT recorreram da decisão com base em um levantamento topográfico realizado por um topógrafo da Prefeitura de Cumaru do Norte, através do qual o INCRA de Marabá localizou o acampamento distante cerca de 2Km do perímetro da Fazenda. Num ato de resistência, os sem terra reorganizaram o acampamento em agosto ultimo e o Juiz determinou a realização de uma vistoria por técnicos do INCRA, o que ainda não foi feito.
Infelizmente o episódio violento da Estrela de Maceió não é um caso isolado. Em 05 de setembro deste ano 2 acampados da Fazenda Santa Tereza, no mesmo Município, supostamente de propriedade do fazendeiro Cássio Carvalho do Val, foram assassinados por pistoleiros da Fazenda.
· Outras tragédias anunciadas Na FazendaBatente, no Município de Conceição do Araguaia, sobre a qual já existe decreto presidencial de desapropriação, há 2 fazendeiros violentos que grilaram parte da área e estão ameaçando os posseiros. Um deles é Elias Filus Bay (Dr. Helio), pecuarista e advogado em Rio Maria, conhecido por sua violência, e o outro é conhecido por “Professor Ataíde”, do próprio Município de Conceição. Eles contrataram pistoleiros que realizam tiroteios na direção dos sem terra quase que todas as noites. O principal ameaçado é o presidente da Associação, Sr. Luiz Rodrigues.
No mesmo Município de Conceição do Araguaia, no Projeto de Assentamento (PA) Josimo Tavares, ex-Fazenda Bradesco, a Reserva Florestal do PA, de 31.000ha está sendo destruída por invasores enquanto se espera há quase um ano o cumprimento da liminar de reintegração de posse concedida ao INCRA, pelo Juiz Federal. A tensão entre os assentados está se tornando explosiva devido à inoperância do INCRA, IBAMA e demais autoridades.
No Município de Santana do Araguaia, por sua vez, a ex-Fazenda Rio Cristalino, desapropriada em 2004 e com imissão na posse do INCRA em 2005 também vive um clima de terror. Dezenas de famílias foram assentadas no final de 2005, lado a lado com fazendeiros que já haviam invadido e se instalado com seus rebanhos na área desapropriada. Até o momento esses assentados simplesmente não conseguem trabalhar, estão impossibilitados de fazerem suas roças, devido o gado dos fazendeiros que invade tudo. O Juiz Federal já decretou o direito de posse do INCRA, mas aguarda a avaliação das benfeitorias dos fazendeiros para ordenar a imediata retirada dos mesmos. Neste contexto varias arbitrariedades foram feitas pela policia de Santana do Araguaia, em conluio com os pistoleiros a serviço dos fazendeiros, tendo havido inclusive prisão de dois assentados. O desmando é tamanho que até um funcionário do INCRA já foi ameaçado de morte por um desses fazendeiros, na presença de um tenente da PM de Santana do Araguaia. Todas as autoridades também já foram alertadas sobre as ameaças e arbitrariedades que não cessam contra os assentados da Rio Cristalino.
Não restam duvidas de que a qualquer hora outra tragédia anunciada pode acontecer.
Diante dessa situação explosiva no campo sul paraense as entidades abaixo assinadas alertam publicamente as autoridades estaduais e federais sobre esta onda de violência por parte de fazendeiros da região e de suas milícias privadas. Denuncia a omissão e morosidade das autoridades administrativas e judiciais, das policiais civis e militares; denuncia acima de tudo a impunidade que estimula a violência. Lembramos os dois fazendeiros – Adilson Carvalho Laranjeira e Vantuir Gonçalves de Paula - condenados pelo assassinato do sindicalista João Canuto, que continuam foragidos, reforçando a impunidade e estimulando a pratica de crimes. Por fim, requeremos providencias urgentes para evitar novas tragédias.
PREMIO NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS.
CPT de Marabá 06/12/2006
A sindicalista MARIA JOEL DIAS DA COSTA foi agraciada com o prêmio de Direitos Humanos 2006. Maria Joel é viúva de José Dutra da Costa, o Dezinho, assassinado em Rondon do Pará em 21 de novembro de 2000. Dezinho foi presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rondon do Pará.
O Prêmio Direitos Humanos é uma honraria concedida pelo Governo Federal a pessoas e organizações cujos trabalhos em prol dos direitos humanos sejam merecedores de reconhecimento e destaque por toda a sociedade. Foi criado em 1995 e, desde então, todos os anos diversas pessoas e instituições que atuam na causa dos direitos humanos tiveram seus esforços reconhecidos e homenageados.
A solenidade de entrega do prêmio acontecerá no Palácio do Planalto no próximo dia 13, com presença do Presidente da República.
PROMOTORA DE RONDON DO PARÁ PEDE A ABSOLVIÇÃO DO FAZENDEIRO ACUSADO DE SER O MANDANTE DO ASSASSINATO DO SINDICALISTA DEZINHO.
Marabá, 04 de dezembro de 2006.
A promotora Lucinery Helena Resende Ferreira, que responde, temporariamente, pela promotoria de Rondon do Pará, requereu ao juiz da Comarca, a IMPRONUNCIA do fazendeiro Décio José Barroso Nunes, o Delsão, acusado de ser o mandante do assassinato do sindicalista José Dutra da Costa, o Dezinho, crime ocorrido em 21 de novembro de 2000 EM Rondon do Pará. O pedido da promotora foi feito nas alegações finais no processo e, caso seja aceito pelo juiz, o fazendeiro Delsão será inocentado de qualquer responsabilidade pela morte do sindicalista, sem sequer passar pelo tribunal do júri.
O fazendeiro é investigado há seis anos e contra ele foram reunidas inúmeras provas, através de diversas testemunhas ouvidas na policia e em juízo. Nos diversos depoimentos há relatos de que: Dezinho o denunciou pelo assassinato de um trabalhador de sua serraria conhecido como “Piauí”; denunciou a existência de trabalho escravo e cemitério clandestino em suas fazendas; descobriu que a fazenda Lacy, de 113 mil hectares, propriedade do acusado, era grilada e tinha a intenção de organizar os trabalhadores para ocupá-la; organizou a ocupação da fazenda Jerusalém, na divisa de uma das fazendas de Delsão; o fazendeiro moveu um processo contra Dezinho tentando impedir qualquer ocupação de suas fazendas. Ficou claro, ao longo da investigação que em razão disso, Delsão tinha interesse em eliminar o sindicalista. As provas estão nos depoimentos colhidos em mais de 2 mil páginas do processo: a testemunha Francisco Martins declarou que seu irmão Pedro era pistoleiro de Delsão e foi contratado por ele para assassinar Dezinho, como a informação vazou Pedro foi morto quinze dias antes da morte de Dezinho; a testemunha Edvar Silva, funcionário do fazendeiro afirma que o próprio Dezinho relatou para ele antes de morrer que estava sendo ameaçado de morte por Delsão; a viúva Maria Joel Costa relata que Dezinho a informou mais de uma vez que Delsão ameaçava assassiná-lo; horas após o assassinato de Dezinho a delegada de Rondon recebeu um telefonema anônimo, através do qual a pessoa que ligava dava detalhes da fuga dos intermediários do crime e apontava Delsão como uma das pessoas envolvidas; a testemunha Francisco Martins prestou depoimento em juízo, onde relatou que Delsão enviou emissários à sua casa, e estes lhe propuseram uma certa quantia em dinheiro para que mudasse seu depoimento de forma a inocentar o fazendeiro. Isto caracteriza tentativa de suborno e intimidação de testemunha.
Essas e muitas outras provas, colhidas a muito custo nestes seis anos pela polícia, pelos promotores que passaram pelo processo e pelos advogados assistentes, foram simplesmente ignoradas pela promotora Lucinery, que assumiu a promotoria de Rondon há poucos meses e ao se manifestar pela primeira vez no processo, requereu a absolvição do principal acusado de ser o mandante do crime. Sustentou seu pedido na versão apresentada por três testemunhas ligadas ao fazendeiro Delsão, sendo a primeira delas seu sogro, a segunda seu cunhado e a terceira tio de sua esposa. Portanto, testemunhas pouco confiáveis por seu grau de parentesco com o acusado.
Delsão é ainda acusado de participação em vários outros homicídios em Rondon. Três inquéritos que apuravam sua participação nesses crimes desapareceram misteriosamente do Fórum de Rondon.
A promotora sustenta em seu pedido que outros fazendeiros foram os mandantes do crime. Nunca discordamos disso e sempre pressionamos para que as investigações continuassem. O assassinato de Dezinho, a exemplo de Dorothy Stang, João Canuto e outros, sempre são decididos por um grupo de fazendeiros, num consórcio criminoso. O que não entendemos e discordamos veementemente é o porquê a promotora pede a absolvição do acusado que reúne mais provas contra ele e sem apresentar provas concretas contra outros supostos mandantes! Apega-se também a um relatório apresentado por um delegado da Polícia Federal que faz suposições sobre a existência de outros mandantes, mas que não apresenta uma prova sequer, mesmo assim, ao final de seu relatório afirma textualmente ser “ser temerário descartar a participação de Delsão no crime”!
A promotora faz ainda acusações graves contra a CPT que atua no processo, através de seus advogados, representando a família da vítima. Afirma que a entidade acusa o fazendeiro Delsão por “posição política”, diz ainda que, a apuração desse crime serviu “para alguns apaixonados por suas respectivas causas” expor suas ideologias políticas como pano de fundo.
A promotora precisa saber que os trinta anos de trabalho jurídicos da CPT nessa região têm sido pautado pela ética e pela busca da justiça. A posição dos advogados da entidade nesse processo se fundamenta em provas concretas colhidas nos autos e não em suposições. Um trabalho feito em acordo e parceria com todos os promotores que atuaram no caso ao longo dos seis anos. É preciso que ela saiba também que todos os julgamentos que já ocorreram nessa região que resultou na condenação de pistoleiros, intermediários e mandantes de crimes no campo se deram pela participação efetiva dos advogados da CPT como assistentes da acusação atuando em conjunto com o Ministério Público e outras entidades de direitos humanos. Um trabalho reconhecido por todas as entidades de defesa dos direitos humanos nacionais e internacionais. Portanto, não admitimos acusações infundadas e inverídicas contra esse trabalho.
Não é a primeira vez que situação dessa natureza acontece. No mês de abril do ano corrente, a promotora de Altamira, Ociralva Souza Tabosa, requereu a absolvição dos três acusados (pistoleiro, intermediário e mandante) de terem assassinado o sindicalista Bartolomeu Morais, o Brasília, crime ocorrido em Castelo dos Sonhos em 11/05/2002. O Juiz da Comarca de Altamira, corajosamente, ignorou o pedido da promotora, pronunciou os três acusados e os encaminhou ao tribunal do júri.
No caso de Dezinho, caberá ao juiz de Rondon tomar a decisão. Acatar o requerimento da promotora e impronunciar o fazendeiro Delsão, ou pronunciá-lo e encaminhá-lo ao tribunal do júri para que a sociedade decida se ele é culpado ou não. Os familiares da vítima, os movimentos sociais e as entidades de direitos humanos nacionais e internacionais acreditam na justiça e estão certos que a impunidade não prevalecerá.
Federação dos Trabalhadores na Agricultura – Fetagri Regional Sudeste.
Sindicatos dos Trabalhadores Rurais de Rondon do Pará.
Comissão Pastoral da Terra – CPT diocese de Marabá.
Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST.
Sociedade de Defesa dos Direitos Humanos – SDDH.
Federação de Órgãos para a Assistência Sindical e Educacional – FASE.
Centro de Assessoria e Pesquisa – CEPASP.
PRÊMIO COMBATE AO TRABALHO ESCRAVO * 2006
Conheça os vencedores que serão premiados na próxima terça-feira, dia 05 de dezembro, em Brasília-DF
O Prêmio Combate ao Trabalho Escravo 2006 já tem os nomes dos vencedores nas três categorias. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) receberá o prêmio como Instituição, o jornalista e cientista político Leonardo Sakamoto como Personalidade. Os jornalistas Ricardo Mendonça e Ana Aranha, da revista "Época" foram escolhidos como autores das melhores reportagens sobre o tema publicadas em 2005 e 2006. Na próxima terça-feira, dia 05 de dezembro, os prêmios serão entregues pelas cinco entidades promotoras.
Instituído para reconhecer os esforços para enfrentar este crime no Brasil, o Prêmio é o primeiro reconhecimento oficial e é concedido por cinco entidades envolvidas nessa luta: Organização Internacional do Trabalho (OIT), Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (ANAMATRA), Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho (ANPT), Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) e a Associação dos Juízes Federais do Brasil (AJUFE).
Contemplando os notáveis avanços que o Brasil vem conseguindo obter no combate a este crime * reconhecidos internacionalmente em 2005 pelo relatório da OIT Uma Aliança Global contra o Trabalho Forçado * estas entidades entendem como fundamental que entidades, militantes e instituições que lutam contra o trabalho escravo recebam a devida homenagem e um reconhecimento público pelas importantes atividades que vêm desenvolvendo ao longo dos últimos anos.
Cada um dos vencedores receberá uma estatueta trabalhada e doada pelo conhecido artista plástico Elifas Andreato, além de R$ 5 mil (cinco mil reais).
SOLENIDADE DE ENTREGA - PRÊMIO COMBATE AO TRABALHO ESCRAVO 2006
QUANDO: 05 de dezembro de 2006, às 17h30
ONDE: Auditório da Procuradoria Geral do Trabalho
Setor de Autarquias Sul Quadra 4 Bloco L
Para juristas, processos já devem ser enviados à Justiça Federal
Presidentes da Associação dos Juízes Federais do Brasil e da Associação Nacional dos Procuradores da República afirmam que recurso votado pelo STF define jurisprudência sobre quem deve julgar o crime de trabalho escravo. Posição contraria informações da assessoria de imprensa do Supremo
Repórter Brasil 02/12/2006
Por André Campos
Já devem ser enviados para a Justiça Federal os processos relacionados a crimes de trabalho escravo no Brasil. Esse é o entendimento de Walter Nunes, presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), e de Nicolao Dino, presidente Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR). O site Repórter Brasil ouviu os dois juristas um dia após o Supremo Tribunal Federal (STF) ter dado provimento ao Recurso Extraordinário nº 398041. Segundo ambos, a decisão abre uma tendência inequívoca para que os casos de escravidão no Brasil sejam julgados em esfera federal.
Por 6 votos a 3, o Supremo decidiu nesta quinta-feira (30) ser da competência da Justiça Federal o julgamento de um crime de trabalho análogo ao escravo denunciado em 1992, em propriedade localizada no Estado do Pará. O réu chegou a ser condenado a quatro anos de reclusão, mas, na apelação, o Tribunal Regional Federal declarou incompetência absoluta da Justiça Federal para tratar do caso. Dessa forma, foi anulado todo o processo a partir da denúncia.
Trata-se de um impasse semelhante ao enfrentado pela maior parte das denuncias pelo artigo 149 do Código Penal, que prevê esse crime. A indecisão em relação à competência tem sido usada por advogados de defesa para evitar que seus clientes sejam sequer julgados. Dino espera que, a partir da decisão do STF, não haja mais margem de manobra para situações do gênero. "Os casos que têm sido relatados pelos grupos móveis de fiscalização guardam grande similaridade com o julgado no recurso extraordinário", defende o presidente da ANPR. "Devem, portanto, seguir a orientação estabelecida pelo Supremo nesse julgamento."
Para o presidente da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), José Nilton Pandelot, a decisão do Supremo deve ser comemorada. "Temos de dar ao julgamento a importância que ele tem, que é a de gerar efeitos em um caso concreto, mas sinalizar uma tendência do STF", afirma.
Walter Nunes, presidente da Ajufe, ressalta que a definição em favor da Justiça Federal vai ao encontro do compromisso assumido pelo país no sentido de erradicar o trabalho escravo. "Para a comunidade internacional, essa posição não se mostra efetiva caso não se defina pelo julgamento dos crimes em esfera federal", afirma. "Afinal, um determinado estado da federação pode não estabelecer o combate à escravidão como prioridade."
Polêmica
A Assessoria de Imprensa do STF informou nesta sexta-feira (1) que a aprovação do Recurso Extraordinário não teria firmado uma orientação geral para julgamentos sobre trabalho escravo. Isso se deveria ao fato da composição da Corte ter mudado durante o julgamento * que teve início em 2005 * e de não estarem presentes à votação todos os ministros do Supremo.
Contudo, os juristas consultados pela reportagem afirmam o contrário. De acordo com Dino, esse argumento "não faz sentido". Ele ressalta que grande parte dos julgamentos do STF duram anos, passando por diferentes composições no plenário. "Se fosse dessa forma, quase não haveria decisão do STF que criasse jurisprudência."
O presidente da Ajufe não descarta a possibilidade de uma mudança no posicionamento do Supremo, mas não acredita que isso deva acontecer. "Seria um desgaste imenso para o órgão", acredita. Para ele, torna-se muito difícil agora que qualquer juiz federal se declare incompetente para julgar um crime de trabalho escravo. "O STF é a última palavra, principalmente em matéria de competência e ainda mais se tratando de situação criminal", diz.
Nunes lembra que os prazos para prescrição de crimes relativos à escravidão no Brasil continuam em andamento * fato que aumentaria ainda mais a responsabilidade dos juízes em acatar a orientação estabelecida pelo STF. De acordo com a lei brasileira, o cálculo para a prescrição de um crime considera o tempo decorrido entre a denúncia do Ministério Público e a sentença do juiz. A demora para o julgamento dos processos tem colaborado para que muitos crimes prescrevam.
Congresso americano quer investigar uso de trabalho escravo no Brasil
O GLOBO- 28/11/2006
Montadoras dos EUA são acusadas de comprar insumos de empresas ilegais
NEWARK. O Congresso americano vai investigar o uso de trabalho escravo no Brasil na produção de insumos básicos para a indústria automobilística, revelaram ontem os deputados democratas Eliot Engel, de Nova York, e Dennis Kucinich, de Ohio. Os parlamentares americanos vão propor audiência para investigar o emprego de mão-de-obra escrava na produção de carvão vegetal na Amazônia, matéria-prima para produção de aço.
Segundo reportagem da revista "Bloomberg Markets", da edição de dezembro, praticamente todas as fabricantes americanas de automóveis - inclusive as duas maiores do mundo, General Motors e Toyota - usam matéria-prima cuja produção começa com o uso de mão-de-obra escrava.
- Certamente pretendo instalar as audiências - disse Engel. - A maioria dos americanos ficaria chocada se soubesse que está dirigindo carros ou comprando refrigeradores que foram fabricados com ferro-gusa que envolve a utilização de mão-de-obra escrava.
Fiscais vêm atuando desde 1993 na região da Amazônia
Nos últimos dois anos, promotores e fiscais do Ministério do Trabalho do Brasil libertaram centenas de escravos que trabalhavam em condições desumanas e sem receber pagamento em carvoarias que abastecem pelo menos seis fabricantes de ferro-gusa, segundo documentos do governo brasileiro. Os fiscais vêm localizando escravos em carvoarias desde pelo menos 1993.
Em setembro passado, jornalistas da Bloomberg acompanharam uma força-tarefa do governo brasileiro que realizou uma batida na carvoaria da Transcametá, próxima a Tucuruí (PA). Os fiscais encontraram 29 escravos trabalhando no local em jornadas de seis dias por semana sem ter acesso a moradia, energia elétrica e água encanada. Havia três meses que eles não recebiam salários. Os trabalhadores também se viam impedidos de deixar as áreas de trabalho.
As denúncias de utilização de trabalho escravo podem ter desdobramentos comerciais, caso o Congresso americano determine sanções contra o Brasil.
EUA investigam trabalho escravo no Brasil - FOLHA DE S. PAULO
Deputados democratas encabeçarão investigações sobre uso de mão-de-obra escrava em carvoarias da Amazônia
Carvão é usado para a fabricação de componente de aço usado por gigantes norte-americanas como a GM e a Whirlpool
SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON
O Congresso dos EUA investigará denúncia de que partes de peças fabricadas no Brasil e usadas em carros, tratores, implementos agrícolas, banheiras e pias nos EUA são feitas com mão-de-obra escrava. O assunto será uma das prioridades dos democratas no novo Legislativo, que toma posse em janeiro e terá maioria do partido.
A afirmação foi feita pelos congressistas democratas que encabeçarão a petição, Eliot Engel (Nova York) e Dennis Kucinich (Ohio). Engel disse que quer usar seu mandato para lutar contra o trabalho escravo no Brasil: "O governo pode usar seu poder de persuasão para mudar práticas complacentes das empresas".
Doug Gordon, assessor de Kucinich, disse que "a denúncia é motivo de grande preocupação para o congressista, que vai investigar esse assunto com muito cuidado tão logo tome posse". O democrata já tinha declarado que há "provas gritantes" de que o material exportado do Brasil é feito com mão-de-obra escrava -"o pior exemplo de globalização".
Eles investigam a acusação de que parte do carvão produzido na Amazônia, usado na fabricação do ferro-gusa, principal componente do aço, é feita com trabalho escravo. Parte do produto é comprada por montadoras com atividade nos EUA ou americanas, como Toyota e General Motors. A denúncia foi feita em reportagem da agência de notícias Bloomberg no dia 2.
Os repórteres acompanharam uma blitz do Grupo Móvel de Fiscalização do Ministério do Trabalho brasileiro na carvoaria Transcametá, em Tucuruí (PA). Ali, segundo a fiscalização brasileira, foram encontrados 29 trabalhadores em regime de semi-escravidão, sem direito a alojamento, eletricidade ou água encanada. Numa carvoaria próxima, a J. Pereira Ancião, outros dez operários foram libertados pelo grupo.
Os proprietários de ambas as carvoarias já pagaram as indenizações devidas, segundo a Justiça, R$ 100 mil no primeiro caso, R$ 35 mil no segundo. O problema é que a principal compradora das duas carvoarias, segundo a reportagem, é a Siderúrgica do Pará S.A. (Cosipar), a terceira maior exportadora de ferro-gusa do Brasil.
Além disso, 90% do produto exportado pela Amazônia vem para os EUA. Entre seus clientes, além da Toyota e da GM, estão nomes conhecidos nos EUA como a Whirlpool, maior fabricante de implementos agrícolas do mundo, e a Kohler, que faz pias e banheiras. O Ato Tarifário de 1930 proíbe a importação de produtos feitos por trabalho forçado.
A Kohler, que usava uma empresa que tinha a Cosipar como fornecedora, interrompeu suas compras. A GM interrompeu provisoriamente, para as retomar depois de considerar satisfatórias as explicações dadas pela compradora texana da Cosipar.
A denúncia encontra eco no novo Congresso dos EUA, com bancada democrata importante eleita no começo do mês com bandeiras trabalhistas. Dela fazem parte tanto Kucinich, 60, em seu sexto mandato e membro do Comitê de Reforma Governamental, quanto Engel, 59, também em sexto mandato, que deve tronar-se presidente do subcomitê para a América Latina da Comissão de Relações Exteriores da Câmara.
A plataforma econômica dos democratas prevê uma revisão de todos os acordos comerciais e benefícios tarifários em vigor à luz de três fatores determinantes: as condições trabalhistas do país em que o produto exportado foi feito, o número de empregos que tal acordo custa aos EUA e os danos ao ambiente causados na produção do bem exportado.
Se levar o Congresso a tomar algum decisão desfavorável ao Brasil, a denúncia atingirá um setor caro ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que fez da luta contra a mão-de-obra escrava uma bandeira de seu governo.
Júri condena pistoleiro Helinton Silva pegou 29 anos de prisão por homicídio AMAZONIA HOJE
Belém, Segunda, 20/11/2006
O pistoleiro Helinton de Jesus Silva foi condenado, ontem, a 29 anos de prisão em regime fechado pelo assassinato do sindicalista José Dutra da Costa, o Dezinho, então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rondon do Pará. O crime ocorreu no dia 21 de novembro de 2000.
Foram 11 horas de julgamento. Por sete votos a zero, os jurados não acataram a tese de negativa de autoria e consideraram Helinton culpado de homicídio triplamente qualificado - mediante promessa de pagamento, por motivo fútil e de forma dissimulada, que impossibilitou a defesa da vítima.
Helinton teve a pena reduzida em um ano porque tinha menos de 21 anos na época em que o crime foi cometido. O advogado de defesa, Eduardo Imbiriba, pediu um novo julgamento, direito de qualquer réu condenado a mais de 19 anos de prisão no Brasil.
O promotor Edson Cardoso disse que a pena foi satisfatória. Para ele, o réu se prejudicou ontem ao mudar, diante dos jurados, a primeira versão do crime, em que ele já havia confessado a autoria, para negar que atirou na vítima. 'Foi uma estratégia suicida', disse o promotor.
Durante a leitura da sentença, o juiz Moisés Flexa disse que o condenado 'demonstrou ser pessoa inadaptada ao convívio social, por não viscejarem no seu espírito os sentimentos de amor, amizade, generosidade e solidariedade, colocando sua ambição pessoal acima de qualquer outro valor'.
O juiz disse ainda que Helinton é 'violento', 'perverso' e 'covarde' e que o fato de ter negado a autoria do crime mostra que ele não se arrepende do que fez.
Após a leitura da sentença, a viúva, Maria Joel Dias da Costa, chorou muito ao lado das três filhas, que assistiram ao julgamento. Ela disse que ficou satisfeita com a condenação porque houve justiça. 'Eu bati nesta porta (Judiciário) porque acreditava que haveria resultado. Ninguém pode decidir sobre a vida e a morte das pessoas e ficar impune', disse.
A mãe, Maria de Jesus Silva, e uma irmã de Helinton também ouviram a sentença. Visivelmente tensa, mas sem esboçar reação, Maria de Jesus permaneceu de cabeça baixa durante a leitura da sentença de condenação do filho.
Trajetória questionada
Para os advogados de defesa, Helinton não matou Dezinho. Eduardo Imbiriba e Américo Leal centraram seus argumentos em detalhes como a trajetória dos três projéteis que atingiram a vítima e no fato de que Helinton tinha pólvora - o que indica disparo - na mão direita e o tiro foi disparado por uma pessoa canhota. Américo Leal disse que Helinton só confessou o crime porque apanhou de policiais durante os depoimentos. 'Ele foi todo quebrado, fez eventuais confissões na base da porrada', disse Américo Leal em plenário. O advogado também afirmou que todas as testemunhas de defesa tinham ligações com a vítima, mas mesmo assim não puderam afirmar que viram Helinton assassinando Dezinho e que o sindicalista tinha muitos inimigos. Ele enumerou pelo menos cinco fazendas que teriam sido invadidas sob a liderança do sindicalista e que muitos fazendeiros queriam vê-lo morto. 'São Jorge, Tulipa Negra, Primavera II, Frial. São muitas fazendas. Quem vai dizer quem realmente assassinou um homem com tantos inimigos', questionou.
Testemunhas derrubam tese
A tese de negativa de autoria da defesa caiu por terra com os depoimentos das testemunhas de acusação. A primeira delas foi o então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rondon do Pará, José Soares de Brito, que disse ter conhecido a vítima em 1985 e que, assim como Dezinho, sofreu perseguição e dois atentados, que teriam sido encomendados por 'latifundiários'.
Brito apontou ainda a existência de uma 'organização criminosa' que, ainda que denunciada, não foi identificada.
Em seguida, foi ouvida a viúva de Dezinho, Maria Joel Dias da Costa, que reconheceu Helinton como sendo o homem que assassinou seu marido. Maria afirmou que o réu bateu em sua porta, sendo atendido pela janela. 'Ele disse que queria falar com Dezinho para resolver um problema da pensão para sua avó', disse. Ela contou que mandou o réu entrar e se sentar, mas Helinton insistiu em falar com Dezinho, reclamando da demora da vítima. Ele teria esperado o sindicalista por cerca de 30 minutos, saindo para comprar cigarros, voltando em seguida, quando recebeu a notícia de que Dezinho estava chegando.
Conforme a testemunha, o réu passou a conversar com a vítima, momento no qual Maria entrou em sua casa e sentou-se no sofá.
Na sequência dos fatos, ouviu disparos e, quando saiu, viu seu marido lutando com Helinton e caindo depois, ambos, no buraco que havia sido aberto semanas antes pela prefeitura, que fazia obras. A viúva pediu socorro e chamou a vizinhança, que imobilizou o réu, mantendo-o preso até a chegada da polícia.
A única testemunha de defesa ouvida foi a mãe do acusado, Maria de Jesus Silva, que informou que Helinton é uma pessoa 'do bem e que nunca mentira para ela'. Pela manhã, estavam programados os depoimentos de sete testemunhas, cinco de acusação e duas de defesa. Compareceram à sessão apenas três de acusação e uma de defesa. A terceira testemunha de acusação que compareceu ao júri foi dispensada pelo juiz a pedido da promotoria.
Trabalhadores festejam decisão
As cruzes e as barracas de plástico preto montadas em frente ao Fórum Cível de Belém denunciavam à sociedade que ontem estava sendo julgado mais um acusado de um crime no campo.
Cerca de mil trabalhadores rurais e sindicalistas se revezaram em frente à sede da Justiça para mobilizar quem passava pelo local, com fotografias, frases e cartazes com dizeres que pediam justiça.
Pela manhã, houve um ato ecumênico. À tarde, os trabalhadores rurais cantaram e permaneceram em vigília até a leitura da sentença, quando comemoraram a condenação.
Avanço contra crimes
O julgamento de Helinton foi acompanhado por vários especialistas em direitos humanos, entre eles a subprocuradora geral da República, Maria Eliane Meneses, que disse acompanhar o caso por interesse pessoal. 'Não poderia deixar de assistir a esse julgamento', explicou.
O júri também foi acompanhado por advogados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), entre eles José Batista Gonçalves e Raimunda Regina Barros, que atuaram como assistentes de acusação.
Um dos maiores ativistas nas causas relacionadas a direitos humanos no Brasil, o advogado Aton Fon Filho, da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, também atuou na assistência de acusação. Para ele, o julgamento foi satisfatório e representou um avanço no fim da impunidade nos crimes do campo no Pará.
Aton Fon Filho lembrou que a Justiça precisa agora de empenhar para levar a júri os demais acusados pela morte de Dezinho, entre eles os pistoleiros Igoysmar Mariano e Rogério Dias e o suposto mandante do crime, o fazendeiro Décio Barroso Nunes.
Os pistoleiros chegaram a ser presos, mas fugiram. Já Desão, como é chamado, nunca foi preso pelo crime e recentemente ingressou no Tribunal de Justiça com um pedido para trancamento (encerramento) da ação penal em que ele figura como acusado.
Estratégia da defesa
Segundo Aton Fon Filho, todo o julgamento de ontem foi planejado para tentar inocentar Desão. 'É visível que Helinton se prejudicou porque pretendia beneficiar o fazendeiro Décio'. Os advogados de Décio assistiram ao julgamento, mas se negaram a falar com a imprensa. Segundo a advogada Roselene Silva, da CPT, o crime só estará justiçado quando todos os acusados sentarem no banco dos réus. 'Ainda faltam três pessoas, entre eles o mandante. Enquanto ele não for julgado, o ciclo de impunidades não cessa', disse ela.
"NOVO PACTO" CONTRA O TRABALHO ESCRAVO
REPÓRTER BRASIL - 14/11/2006
Conferência quer lançar "novo pacto" contra trabalho escravo
Encontro no Maranhão debate Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo e propõe alternativas no combate ao crime. "Carta de Açailândia", a ser formulada durante o evento, pretende pressionar o país a avançar em políticas e ações para melhorar a vida do trabalhador rural
Por Beatriz Camargo
A reformulação do Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, lançado pelo governo federal em março de 2003, estará na pauta da II Conferência Interparticipativa sobre Trabalho Escravo e Superexploração em Fazendas e Carvoarias. O evento será realizado de 16 a 18 de novembro, em Açailândia, Sul do Maranhão, e reunirá cerca de 200 pessoas, entre integrantes de movimentos sociais, entidades da sociedade civil, órgãos governamentais e especialistas.
"O Plano foi cumprido em cerca de 60% de suas metas", explica Carmen Bascarán, presidente do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia (CDVDH), que organiza o evento junto com o Fórum Estadual de Combate ao Trabalho Escravo no Maranhão (Forem) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT). "Queremos cumprir as 40% que faltam e também implementar outras propostas, ligadas a ações de repressão, prevenção e geração de alternativas de emprego e renda."
No último dia do evento será redigida a "Carta de Açailândia", um pacto entre os participantes para levar adiante as propostas discutidas. "Caberá à sociedade civil fazer pressão para que esses compromissos sejam cumpridos", define Bascarán. Após o evento, a intenção é expandir a assinatura do pacto a outros movimentos sociais e órgãos governamentais.
Entre as presenças confirmadas, estão o advogado Plínio de Arruda Sampaio, Patrícia Audi, da Organização Internacional do Trabalho, e os professores Marcelo Carneiro, da Universidade Federal do Maranhão, Aluízio Leal, da Universidade Federal do Pará e Ariovaldo Umbelino, da Universidade de São Paulo. Entre os representantes do Estado, estarão presentes Marcelo Campos, coordenador nacional dos grupos móveis de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego, e Luís Antônio Camargo, subprocurador-geral do Ministério Público do Trabalhol e coordenador do núcleo de combate ao trabalho escravo da instituição.
Entidades da Bahia, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Piauí e Tocantins apresentarão avaliações coletivas da aplicação do Plano Nacional nos estados, além de análises de entidades que combatem o trabalho escravo em âmbito municipal. A Conferência também reúne novas propostas, surgidas de experiências regionais bem sucedidas.
Análise estadual
A avaliação do Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo realizada nos estados tentou verificar a evolução do problema. "Com mais informação, percebemos que houve uma expansão da mancha do trabalho escravo", explica o frei Xavier Plassat, da coordenação nacional da Comissão Pastoral da Terra para o trabalho escravo. "Isso indica que há uma realidade velada, o que pode ser um fator que ainda mantém os números do trabalho escravo elevados."
"Nossa preocupação principal é com os fatores estruturais, que precisam ser reformulados para romper o ciclo da escravidão e tirar da situação de risco pessoas que são 'clientes preferenciais' dos aliciadores", afirma Plassat. Para ele, o grande problema a ser enfrentado é o agronegócio, "que continua pregando a devastação e a superexploração de trabalhadores".
Os estados apuraram quais são as instituições que estão contribuindo para a erradicação da escravidão. Foi verificada uma expansão na atuação do poder público. De acordo com Plassat, a Polícia Federal Rodoviária e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), por exemplo, são parceiros recentes que têm demonstrado interesse no tema.
Nos seminários estaduais foram elencados os fatores que bloqueiam o avanço no combate à escravidão. Xavier Plassat destaca a indefinição sobre quem deve julgar o crime de trabalho escravo - a Justiça Federal ou Estadual - como um importante fator para gerar impunidade. Atualmente, são poucos os casos em que o proprietário rural responde pelo crime de trabalho escravo - tipificado pelo artigo 149 do Código Penal. "Isso é parcialmente compensado pelo Ministério Público do Trabalho e pela Justiça do Trabalho, que têm sido firmes na defesa dos trabalhadores escravizados", completa.
Outro obstáculo apontado é a demora na aprovação da Proposta de Emenda Constitucional que prevê o confisco das propriedades em que mão-de-obra escrava for encontrada - apresentada pela primeira vez no Congresso em 1995.
Primeira década
A Conferência também é uma comemoração aos dez anos de fundação do CDVDH, criado quando um grupo de pessoas ligadas a movimentos populares e à Igreja Católica se reuniu para lutar contra o sistemático desrespeito aos direitos humanos no Maranhão. Desde essa época, a entidade tem atuado no combate ao trabalho escravo, na conscientização dos direitos da mulher e no acesso do cidadão aos seus direitos básicos.
Entre as principais ações realizadas em seus dez anos estão campanhas para a obtenção do registro de nascimento gratuito, pela implementação da Defensoria Pública no Maranhão, contra a corrupção eleitoral no estado e contra a corrupção na prefeitura de Açailândia.
O Centro, uma das primeiras entidades a denunciar a situação degradante dos trabalhadores nas carvoarias que fornecem para as siderúrgicas do Maranhão, hoje coordena projetos pioneiros de prevenção ao trabalho escravo por meio da economia solidária. Um deles, o Reciclar a Cidadania, foi um dos ganhadores do concurso Petrobrás Fome Zero, voltado para a geração de renda entre famílias que estão sob risco de aliciamento. O projeto está capacitando trabalhadores para formar cooperativas de reciclagem de papel e de fabricação de produtos de limpeza.
Outros projetos da CDVDH na mesma linha são o que produz o "carvão ecológico", feito a partir do pó de carvão descartado pelas siderúrgicas e vendido na região, e que fabrica brinquedos utilizando sobras de madeira. Juntos, esses dois projetos e o Reciclar a Cidadania atingem cerca de 80 famílias.
Para ver a programação completa, vá ao endereço: http://www.reporterbrasil.com.br/box.php?id_box=189
AJUFE DEFENDE COMPETÊNCIA FEDERAL PARA JULGAR TRABALHO ESCRAVO
Impasse na luta contra o trabalho escravo
WALTER NUNES
Folha SP 13/11
A competência para julgar o crime de redução à condição análoga à de escravo deve ser da Justiça Federal. Cabe ao STF decidir rapidamente
A PARTIR de 1995, o Brasil, com o apoio de diversas entidades da sociedade civil -entre elas, a Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil)-, vem desenvolvendo intenso trabalho para erradicar o trabalho escravo.
Foram criados o Grupo Especial de Fiscalização Móvel (no âmbito do Ministério do Trabalho) -que cuida, com o apoio da Polícia Federal, de libertar os trabalhadores encontrados em situação de escravidão- e o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (no Ministério da Justiça), que deve propor mecanismos para garantir maior eficácia na prevenção e repressão ao trabalho escravo. A par disso, em 2003, o governo federal lançou um Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo.
A posição transparente adotada pelo Brasil de admitir, em 2004, na ONU, a existência de um número de 25 mil trabalhadores escravos e o seu efetivo engajamento no combate a essa prática desumana fizeram com que, já a partir de abril de 2002, a OIT (Organização Internacional do Trabalho) colocasse em execução o projeto de cooperação técnica "Combate ao Trabalho Escravo no Brasil".
Devido a esse trabalho desenvolvido pelo governo federal em conjunto com entidades não-governamentais, o país foi citado como referência no relatório global da OIT do ano de 2005 -"Uma Aliança Global Contra o Trabalho Forçado".
Há, porém, diversos fatores que dificultam a luta contra esse tipo de criminalidade. No Brasil, o entrave que atualmente mais preocupa diz respeito à questão processual atinente ao órgão jurisdicional competente para julgar os casos de trabalho escravo.
Precedentes do STJ (Superior Tribunal de Justiça) confirmam a competência da Justiça Federal, afirmando que "o delito de redução à condição análoga à de escravo (...) se enquadra na categoria dos crimes contra a organização do trabalho, de competência da Justiça Federal", "pois vai além da liberdade individual". Todavia, a questão não está pacificada: pende de conclusão no STF (Supremo Tribunal Federal) o julgamento do RE 398.041, com o qual, aí sim, na qualidade de órgão jurisdicional que detém a última palavra para definir questões de natureza constitucional, será definido o assunto.
Por enquanto, quatro ministros votaram no sentido de que a matéria é da alçada da Justiça Federal, porém, houve pedido de vista. A indefinição é maléfica para o combate ao trabalho escravo, pois, conforme a decisão do STF, ou os processos até agora julgados pela Justiça Federal ou os apreciados pela Justiça estadual serão considerados nulos, o que levará ao reconhecimento da prescrição de muitos dos delitos praticados.
Não se pode deixar de observar que a competência da Justiça Federal é firmada tendo em conta as nuanças de ordem política interna e internacional. O fato mesmo de o Brasil ser uma República Federativa implica o dualismo judicial, com a coexistência de órgãos jurisdicionais federais e estaduais. A competência federal tem como critério não apenas os crimes contra os bens, serviços e interesses da União e entidades federais mas também os crimes contra os interesses da República Federativa do Brasil perante a ordem internacional.
Em todos os casos em que o Brasil se compromete perante a ordem internacional a combater determinado crime, a hipótese deve recair no rol dos casos que estão afetos à jurisdição da Justiça Federal, pois essa é a forma de o Estado federativo deixar claro que efetivamente irá, no plano interno, envidar os esforços necessários para honrar o compromisso assumido no estrangeiro.
Por isso mesmo, entre outras hipóteses, mantendo a tradição de nosso sistema, a Constituição de 1988 insere na competência da Justiça Federal o julgamento dos crimes contra a organização do trabalho.
Se há um plano estratégico definido pelo governo federal em atenção a compromissos assumidos com organismos internacionais de combate ao trabalho escravo, com a conseqüente criação de órgãos federais específicos para atuar nessa área, resta claro que, mesmo que não se considere o crime de redução à condição análoga à de escravo como crime contra a organização do trabalho, não há como negar que delito dessa natureza malfere, concretamente, interesse da República Federativa do Brasil e serviço confiado a órgãos federais.
Daí por que a competência, de uma forma ou de outra, nos termos da Constituição, é da Justiça Federal. Urge que seja encerrado aquele julgamento pelo STF, a fim de que seja definido o segmento do Judiciário competente, evitando, assim, não só a morosidade mas também a própria impunidade de crime da mais alta gravidade, que afronta a dignidade humana, espinha dorsal de todo sistema jurídico democrático.
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WALTER NUNES DA SILVA JÚNIOR, 43, juiz federal, doutor em teoria constitucional do processo penal e professor de direito penal da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, é presidente da Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil).
DESTILARIA GAMELEIRA É CONDENADA POR TRABALHO DEGRADANTE
Usina é condenada em R$ 500 mil por condições degradantes de trabalho
Justiça condena Destilaria Gameleira, localizada em Confresa (MT), por más condições de trabalho de seus empregados. Empresa já foi palco da maior libertação de escravos realizada, quando 1003 pessoas foram resgatadas
REPÓRTER BRASIL -10/11/2006
Por Iberê Thenório
A Vara do Trabalho de São Félix do Araguaia (MT) condenou a Destilaria Gameleira, localizada em Confresa, também no Mato Grosso, a pagar R$ 500 mil ao Fundo de Amparo ao Trabalhador a título de danos morais coletivos pelas más condições de trabalho em que se encontravam 348 de seus empregados. A decisão é de primeira instância e foi tomada em 19 de outubro pelo juiz do trabalho João Humberto Cesário.
A ação contra a Destilaria foi impetrada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), e o julgamento ocorreu à revelia, pois a empresa não compareceu ao tribunal para prestar esclarecimentos. A Gameleira, que hoje pertence à Destilaria Araguaia, ainda pode recorrer.
Procurada pela reportagem, a empresa informou, por intermédio de sua assessoria de comunicação, que divulgaria uma nota pública.
Além de pagar a multa, a decisão judicial prevê que a empresa terá que adotar várias medidas para se enquadrar na legislação trabalhista. Entre elas estão a interrupção do aliciamento de trabalhadores, suspensão de descontos ilegais no salário dos empregados e concessão de pelo menos 11 horas de descanso entre cada jornada de trabalho. Caso não tome essas medidas, ela terá que pagar R$ 50 mil por cada item descumprido.
Em sua decisão, o juiz afirma que as situações encontradas na propriedade são "fato denunciador do seu desprezo para com os fundamentos republicanos da dignidade da pessoa humana e dos valores sociais do trabalho".
O coordenador nacional dos grupos móveis de fiscalização do MTE, Marcelo Campos, avaliou positivamente a decisão: "essa condenação legitima o trabalho do grupo móvel e fortalece a nossa convicção inicial, no momento da fiscalização, de que os trabalhadores estavam realmente em situação muito degradante".
Reincidência
Em 2005, a empresa foi palco do maior resgate de trabalhadores em condições análogas à de escravidão, quando 1003 pessoas foram retiradas da propriedade. A ação ajuizada pelo Ministério Público do Trabalho foi causada, contudo, pelas más condições trabalhistas em que se encontravam os empregados em outras duas fiscalizações realizadas no local: em 2001, o grupo móvel de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) libertou 272 pessoas da fazenda de cana-de-açúcar e, em 2003, mais 76.
A Gameleira se tornou conhecida nacionalmente após quatro operações de fiscalização encontrarem condições degradantes de trabalho em sua fazenda de cana-de-açúcar. As reincidentes fiscalizações levaram a destilaria a ser inserida na "lista suja" do trabalho escravo, organizada e mantida pelo governo federal.
Em maio deste ano, a propriedade passou por uma mudança, sendo incorporada à recém-criada Destilaria Araguaia. Para reverter a imagem negativa que se associou ao nome "Gameleira" depois dos escândalos, o empresário Eduardo de Queiroz Monteiro, dono do grupo EQM, comprou a parte da fazenda que pertencia a sua família, adquiriu mais terras, ampliou as instalações e trocou o nome da propriedade. Eduardo é irmão de Armando de Queiroz Monteiro Neto (PTB-PE), presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Na época, o grupo EQM informou que na Araguaia tudo seria avançado, inclusive o tratamento dispensado aos funcionários. Instalações modernas não só para fabricar álcool, mas também para o conforto dos trabalhadores. Anunciou que cumpriria todos os aspectos da lei, como as regulamentações do trabalho rural da norma NR31. Prometeu que iria garantir para os 240 trabalhadores fixos e 750 temporários alojamentos decentes, alimentação balanceada servida em restaurantes móveis e, o mais importante, carteira assinada e todos os direitos trabalhistas.
Pressão econômica
Grandes distribuidoras de combustível cortaram contratos com a Gameleira, no ano passado, quando tomaram conhecimento que comercializavam com uma empresa que estava na "lista suja".
Após empresas como Ipiranga e Petrobrás assumirem esse comportamento, o então presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE) fez uma "consulta" com o objetivo de descobrir por que o álcool da Gameleira não estava mais sendo comprado. Segundo ele, essa ação foi realizada a pedido de deputados federais. Na época, a repercussão na imprensa e junto à sociedade civil do lobby do parlamentar agindo em prol da iniciativa privada foi bastante negativa.
A suspensão dos acordos comerciais entre a Gameleira e as distribuidoras também foi provocada pela divulgação de levantamento que identificou a cadeia produtiva do trabalho escravo no país. A pesquisa, solicitada em 2004 pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos, serviu de embasamento para que fosse firmado o Pacto Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, iniciativa do Instituto Ethos de Responsabilidade Social e da Organização Internacional do Trabalho. O Pacto, assinado no dia 19 de maio em Brasília, inclui grandes empresas como Coteminas, Carrefour, Pão de Açúcar, Wal-Mart, Votorantin, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
A pesquisa aponta que a Galemeira comercializava com a Ipiranga, Petrobrás, Shell, Texaco, Total e PDV, fornecendo combustível principalmente para as regiões Norte e Nordeste. Dessas, Ipiranga, Petrobrás, Shell e Texaco assinaram o pacto. No dia 11 de maio de 2005, os advogados da família Queiroz Monteiro conseguiram uma liminar na Justiça do Trabalho suspendendo o nome de sua fazenda da "lista suja", base utilizada pela pesquisa sobre a cadeia produtiva. Contudo, signatários mantiveram a interdição de compra, como a Ipiranga. Fontes dessa empresa revelaram que a decisão da companhia seguiu determinações do pacto e é coerente com uma conduta de ética e de responsabilidade social.
Devido a uma decisão do Tribunal Regional do Trabalho da 10a Região, a Gameleira retornou à "lista suja" no último dia 09 de outubro.
Libertação recorde
Em junho de 2005, a operação do grupo móvel de fiscalização do MTE, que contou com a participação do Ministério Público do Trabalho e da Polícia Federal, libertou 1003 pessoas escravizadas da fazenda. A ação ocorreu após denúncias que envolviam violência física contra os peões.
"A situação aqui é horrível. Há superlotação dos alojamentos, que exalam um mau cheiro insuportável. A única água que recebe tratamento é aquela que vai para as caldeiras e não para os trabalhadores. A alimentação estava estragada, deteriorada. O caminhão chega jogando a comida no chão. Pior do que a comida que se dá para bicho, porque esse pelo menos tem coxo", afirmou na época Humberto Célio Pereira, auditor fiscal do Trabalho e coordenador do grupo móvel de fiscalização.
De acordo com ele, todas as características confirmaram a existência de escravidão contemporânea, do aliciamento ao endividamento e à impossibilidade de deixar o local. Os trabalhadores foram levados de Pernambuco, Maranhão e Alagoas, iludidos pelas falsas promessas de salários e boas condições de serviço dadas pelos "gatos" (contratadores de mão-de-obra a serviço da usina). Ninguém recebia salário e era obrigado a comprar tudo da cantina da empresa, com preço acima do mercado. Os gastos eram anotados para serem descontados do pagamento final - sempre menor do que o combinado pelo "gato". Devido às péssimas condições de saneamento e higiene, não raro ficava-se doente. Contudo, até o soro recebido nas crises de diarréias era descontado dos peões.
Quatro governadores eleitos assinaram compromisso contra escravidão
Repórter Brasil - 29/10/2006
Ana Júlia Carepa (PA), Jackson Lago (MA), Jaques Wagner (BA) e Wellington Dias (PI) ratificaram Carta-compromisso; presidente Lula, reeleito, enviou seu próprio documento explicando como dará continuidade ao combate ao trabalho escravo
Por Leonardo Sakamoto
Quatro governadores eleitos assinaram a Carta-compromisso contra o trabalho escravo - Ana Júlia Carepa (Pará), Jackson Lago (Maranhão), Wellington Dias (Piauí) e Jaques Wagner (Bahia) - durante a campanha eleitoral. Com exceção de Lago, do PDT, os outros pertecem às fileiras do PT. Os seus concorrentes aos governos estaduais não ratificaram o documento.
O objetivo da campanha pela assinatura da Carta-compromisso foi o de comprometer os candidatos a cargos públicos nas eleições deste ano a colocar a erradicação do trabalho escravo no país como uma das prioridades de seus mandatos. Apesar do governo Fernando Henrique ter começado o combate a esse crime e o governo Lula alçado essa luta à condição de prioridade de Estado, estamos longe de uma solução definitiva. Em muito, isso se deve à classe política - de governantes estaduais (que protegem expoentes do agronegócio flagrados por esse crime), passando pela bancada ruralista no Congresso Nacional (que trava projetos de lei) até mesmo representantes da base governista (em grande número, desinteressados pelo tema).
A campanha foi lançada pela Repórter Brasil e apoiada por entidades da sociedade civil comprometidas com o combate ao trabalho escravo. Foi solicitado aos candidatos ao cargo de presidente da República e aos de governadores dos Estados com altos índices de ocorrência desse crime que ratificassem um compromisso público pela erradicação desse crime. O texto está baseado nas metas do Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, documento de referência para o processo de erradicação dessa prática no país, desenvolvido com a participação da sociedade civil e de diferentes poderes e esferas de governo.
Com a divulgação de quem recebeu a carta e assinou e de quem ignorou a proposta pelo site da Repórter Brasil durante a campanha, o eleitor teve uma ferramenta a mais para o voto consciente. E com a Carta-compromisso poderá cobrar de seus eleitos as promessas de campanha nessa área.
O Pará e a Bahia estão entre os principais utilizadores de mão-de-obra escrava. O primeiro, recordista nacional em casos, viu 7.985 pessoas serem libertadas em seu território entre 1995 e setembro de 2006 - de acordo com dados da Comissão Pastoral da Terra. O número representa 36,4% do total do país nesse período (21.949). A Bahia, terceira colocada neste triste ranking, teve 2.112 libertados - ou 9,6% do total.
No Maranhão a situação é duplamente preocupante. O estado está em quarto lugar em libertações (1.986 ou 9%) e, ao mesmo tempo, é a principal origem dos resgatados da escravidão - seguido pelo Piauí - de acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego e da Organização Internacional do Trabalho.
No Mato Grosso e Tocantins, segundo e quinto colocados em número de libertações de escravos, os candidatos vencedores (Blairo Maggi e Marcelo Miranda, respectivamente), receberam mas não aderiram ao documento.
Presidente eleito
Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin não assinaram a Carta-compromisso, mas enviaram seus próprios documentos repudiando a prática e explicando como combateriam esse crime.
"Reafirmo o compromisso de mobilizar todo meu governo pela erradicação do trabalho escravo contemporâneo", afirmou o reeleito Lula em sua carta - mais detalhada e que assumiu mais compromissos que a do seu concorrente. Ele discorreu sobre as ações que realizou em seu mandato nesse sentido e prometeu liberar mais recursos financeiros e humanos aos órgãos governamentais que atuam no combate à escravidão. A íntegra da carta enviada pelo presidente reeleito pode ser lida clicando no site da Repórter Brasil.
Infelizmente, nenhum dos candidatos ao Congresso Nacional signatários da Carta-compromisso conquistaram uma vaga no Senado ou na Câmara. Da mesma forma, os postulantes às Assembléias Legislativas que assinaram o documento também não foram eleitos.
As cartas de Ana Júlia Carepa, Jackson Lago, Wellington Dias e Luiz Inácio Lula da Silva foram enviadas diretamente à redação e estão disponíveis para consulta. A carta de Jaques Wagner está sob responsabilidade de entidades do movimento social da Bahia, que solicitaram a adesão do candidato, e ainda não foi enviada para a Repórter Brasil.
GOVERNADORA ELEITA DO PARÁ E O COMBATE AO TRABALHO ESCRAVO
Em matéria publicada semana passada, a Governadora eleita do Pará, Ana Júlia Carepa, então candidata, em entrevista exclusiva à Repórter Brasil, fala de como combaterá o trabalho escravo, no estado recordista na incidência desse crime.
"Amazônia não é problema; a Amazônia é solução para este país"
Repórter Brasil - 26/10/2006
Ana Júlia Carepa, candidata do PT ao governo paraense, afirma, em entrevista à Repórter Brasil, que é possível crescer e desenvolver respeitando o meio ambiente e melhorando a qualidade de vida das comunidades da região. Almir Gabriel (PSDB), apesar de procurado, não respondeu às perguntas.
Por Leonardo Sakamoto
A velocidade do desenvolvimento do Pará, um ator cada vez mais importante na economia global devido à exportação de produtos agropecuários e minerais, esconde um tipo de crescimento não-sustentável, destrutivo ao meio ambiente e ao homem. A riqueza gerada não é distribuída e, na maior parte das vezes, nem mesmo fica dentro do estado. O processo gestado por Vargas, experimentado por JK e que se intensificou na ditadura militar (com as políticas dos anos 70 para ocupação da região) continua ainda hoje - ignorando que a Amazônia não é um deserto verde e que locais onde hoje há pastos, minas e hidrelétricas já foram casa de ribeirinhos, indígenas e camponeses.
Quem assumir o governo do segundo maior estado em área do país, terá um grande desafio pela frente, que é o de garantir que os detentores do poder econômico não continuem fazendo da arena política um espaço para a efetivação dos seus interesses em detrimento da qualidade de vida das populações tradicionais ou dos pequenos produtores. Principalmente em regiões de fronteira agrícola, que o Pará tem de sobra.
As conseqüências disso são conhecidas. O estado é o campeão em libertação de escravos, com 7985 pessoas entre 1995 e setembro de 2006, ou 36,4% do total do país - de acordo com dados da Comissão Pastoral da Terra. Está sempre entre os primeiros nos índices de desmatamento, possuindo o município recordista em área desmatada: São Félix do Xingu - ponta-de-lança para a expansão agrícola ao miolo do estado, a região do Iriri/Terra do Meio. As terras que os cadastros do Incra em Brasília e no próprio estado apontam como públicas têm porteira, mata-burro e casa-sede com TV por satélite. E a irmã Dorothy Stang foi apenas mais uma no longo terço de contas abatidas pela violência no campo, que por sua vez apresenta um rosário de ameaçados de morte, como o frei dominicano Henri des Roziers.
Da mesma forma que na arena federal, o segundo turno para o governo do estado será decidido entre PSDB e PT. O tucano Almir Gabriel, que administrou o estado entre 1995 e 2003, levou o primeiro turno com 43,83% de votos válidos enquanto a sua adversária, a petista Ana Júlia Carepa, passou com 37,52% - dados do Tribunal Superior Eleitoral. De acordo com a última pesquisa Ibope, divulgada no dia 13 de outubro, as posições se inverteram. Ana Júlia agora está à frente com 53%, enquanto Gabriel está com 43% - votos totais.
A Repórter Brasil fez três perguntas aos candidatos ao governo estadual. Somente a senadora Ana Júlia Carepa atendeu à solicitação. De acordo com a assessoria de Almir Gabriel, não foi possível responder a entrevista devido à preparação para o debate que seria realizado na noite desta quarta (26) na TV Globo.
1) O Pará é recordista em libertações de trabalhadores em situação de escravidão. Como o seu mandato pretende enfrentar esse crime?
É importante considerar que a maioria desses criminosos, de acordo com dados do governo federal, é de grandes produtores de commodities como gado, soja, carvão e pimenta-do-reino, muitos deles bem representados politicamente nas esferas estadual e federal.
Como senadora já tenho trabalhado muito para melhorar a legislação que possibilita a punição daqueles que exploram o trabalho escravo. Um projeto de minha autoria determina a proibição de concessão de créditos a pessoa física ou jurídica que submeta alguém à condição degradante de trabalho ou que importe grave restrição à sua liberdade individual. Essa proposta que já teve aprovação na Comissão de Assuntos Sociais e foi elaborada a partir de discussões com os seguimentos organizados que trabalham pela erradicação do trabalho escravo. Foram muitas conversas com entidades como a OIT - Organização Internacional do Trabalho e a CONATRAE - Comissão Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo - para que construíssemos essa proposta. Em resumo, ela torna legal a Lista Suja do Trabalho Escravo, que existe, mas não tem força de lei. Ou seja, os que aparecem na lista e que tem crédito negado, entram com liminares judiciais para conseguir os recursos. Temos que dar um fim nisso.
Eleita governadora, farei com que o Governo do Pará assuma de forma ativa a luta pela erradicação do trabalho escravo. Inclusive tive orgulho de ser a primeira candidata a assinar a Carta Compromisso organizada pela Repórter Brasil, com o apoio de entidades da Conatrae. Acredito que podemos, sim, dar um basta a essa vergonha. Buscaremos parcerias com o Governo Federal, especialmente Ministério do Trabalho e Secretaria de Direitos Humanos, a exemplo do que vem sendo feito em outros estados, já que tivemos avanços muito significativos no combate a esse crime durante o Governo Lula.
Abriremos diálogo tanto com o setor produtivo como com os segmentos dos trabalhadores na busca de criar mecanismos para inibir a prática do trabalho escravo e dar o apoio necessário para que os trabalhadores resgatados não voltem a ser vítimas. Como senadora já mantive diálogo com dirigentes de entidades de produtores rurais e sei que há disposição para isso. Queremos articular ações envolvendo o setor produtivo a exemplo de experiências que existem no setor siderúrgico, onde empresas já se comprometeram a não comprar de carvoarias que utilizem mão-de-obra escrava.
2) Em regiões de fronteira agrícola paraense, há casos em que o Estado acaba sendo cooptado pelo poder econômico local. Uma das conseqüências disso é a utilização de policiais militares como jagunços de fazendeiros, na repressão de trabalhadores escravos ou na desocupação violenta de propriedades rurais. Como é possível fazer com que o Estado nessas regiões atenda ao público e não ao privado e não faça distinção entre ricos e pobres?
Vamos acabar com isso. Vamos aparelhar a polícia e dar condições de trabalho aos policiais. Fazer concurso público para o ingresso de novos policiais civis e militares também será uma das nossas ações. Capacitar esses policiais, delegados e fortalecer o trabalho de corregedoria. A falta de estrutura possibilita que o poder econômico local interfira no funcionamento da polícia e, por isso, será necessário, além da qualificação dos policiais, a ampliação da infra-estrutura. Pretendo também investir nos serviços de inteligência e informações criminais. Vamos avançar na efetivação das Delegacias Especializadas. Está no nosso programa de governo criar a Política Estadual dos Direitos Humanos, fortalecer a Defensoria Pública e com isso estaremos mais preparados para combater as violências praticadas no Pará, como a violência no campo, exploração sexual, trabalho infantil e o trabalho escravo.
3) O modelo de desenvolvimento da Amazônia tem sido extremamente predatório, escoando as riquezas ao invés de utilizá-las para garantir o crescimento sustentável e a melhoria da qualidade de vida da região. Como é possível conciliar o crescente avanço do capital (presente na forma do agronegócio ou de hidrelétricas) com a preservação do modo de vida de populações indígenas, ribeirinhas e camponesas?
É possível crescer e desenvolver respeitando o meio ambiente e melhorando a qualidade de vida da população que vive na região. Sou convicta disso. Temos centros de excelência na região que não são ouvidos devidamente. Existem experiências riquíssimas de desenvolvimento sustentável que precisam ser estimuladas e multiplicadas. O Governo Lula tem tido preocupação na direção de um crescimento sustentável, o Plano de Desenvolvimento da BR 163 é exemplo disso. Pretendo articular o conhecimento, as experiências e ganhar o setor produtivo para seguirmos um modelo de desenvolvimento que se coaduna com a nossa realidade amazônica. Costumo dizer, e é preciso que todos se conscientizem disso: a Amazônia não é problema; a Amazônia é solução para este país. E é pelo seu desenvolvimento sustentável, pela sua preservação e pela valorização das suas comunidades que vamos lutar sempre.
366 escravos são libertados em MT
Considerados os últimos 11 anos de operações do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Mato Grosso ocupa a 2ª colocação.
Fiscais encontram gente doente, descalça, desnutrida, e até morta
Josi Costa
Da Redação
Gazeta MT - 26.10.2006
Em Mato Grosso, de janeiro até hoje, foram libertados 366 trabalhadores em situação de escravidão. O Estado está em 4º lugar no ranking de trabalhadores libertados, perdendo apenas para o Pará (756), Bahia (523), e Tocantins (453). No entanto, se forem considerados os últimos 11 anos de operações do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) nesse sentido, Mato Grosso sobe para a 2ª colocação. No país, só este ano, 121 fazendas agregaram valor às terras com o suor de trabalhadores escravos, desnutridos e até doentes pelas condições subumanas às quais eram submetidos.
De janeiro a outubro, mais de 2.450 trabalhadores foram flagrados em regime de escravidão e libertados por fiscais do MTE, em 13 estados. Os dados são da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) e Divisão de Fiscalização para Erradicação do trabalho escravo (Detrae).
Segundo o presidente da Associação Mato-grossense de Auditores Fiscais do Trabalho (Amaft), Valdinei Arruda, 36, esses homens deixam suas cidades, por falta de oportunidades de trabalho, e se submetem a fazer trabalhos braçais, como derrubadas e retirada de pasto, a salários aviltantes. Além de discriminados pelos empregados fixos das fazendas, os "escravos" perdem a liberdade pelo isolamento nas fazendas e a dificuldade de locomoção até cidades mais próximas. "São como ciganos ", analisa, ao se referir à vida itinerante dos libertados.
Desumano - Além do desrespeito às garantias trabalhistas, os fiscais se deparam também com situações de endividamento, já que os salários e as despesas empatam no final do mês. "Tudo que ajuda a agregar valor à terra deve ser considerado insumo, até mesmo a alimentação dos trabalhadores" enfatiza Arruda. Segundo o fiscal, os produtores resistem em reconhecer que mantêm pessoal em regime escravo e atribuem o crime aos "gatos".
O cenário que os fiscais encontram nessas operações afrontam a dignidade humana. "Encontramos gente doente, descalça, desnutrida, com baixa imunidade e as mãos todas calejadas. Já encontramos até gente com lesões de espancamento e morta", relata. A maior operação de libertação brasileira de escravos, depois da Lei Áurea, foi em junho do ano passado, na fazenda Gameleira, de Eduardo de Queiroz Monteiro, em Confresa (MT), quando os fiscais libertaram 1.003 trabalhadores.
O Código Penal prevê prisão de dois a oito anos, entre outras penalidades, pelo desrespeito às obrigações trabalhistas. Apesar das atrocidades, nenhum proprietário está preso. É mais comum a prisão dos "gatos" porque usam armas ilegalmente. As fazendas que mantêm trabalho escravo entram para a "lista suja" que impede a utilização de recursos para financiamento. Os acusados estão sob investigação do Ministério Público Federal (MPF).
"Ainda há quem encara tudo que está dentro da empresa como propriedade dele, inclusive as pessoas", lamenta Arruda.
Patricia Audi
Coordenadora Nacional
Projeto de Combate ao Trabalho Escravo
OIT Brasil
SEN - Lote 35 - CEP 70.800-400
Brasília - DF
Tel: (61) 2106-4600
Fax: (61) 3322-4352
TRABALHO ESCRAVO
Vamos abolir de vez essa vergonha
Entidades cobram na OEA a erradicação do trabalho escravo no Brasil
CPT e Cejil pedem que Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos solicite ao governo brasileiro políticas de prevenção mais fortes e o fim da impunidade ao crime. Representantes do governo mostram avanços significativos na área
REPÓRTER BRASIL- 24/10/2006
Por Iberê Thenório
A Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Centro pela Justiça e o Direito Internacional (Cejil), em reunião da Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), realizada em Washington na última quinta-feira (19), cobraram do governo brasileiro a eliminação do trabalho escravo no Brasil. O evento foi marcado a pedido das duas entidades para tratar especificamente do tema. Representando o Governo Federal, participaram da reunião membros do Itamarati, Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH) e Advocacia Geral da União (AGU).
No relatório entregue à OEA, CPT e Cejil admitem que o governo brasileiro realizou um esforço significativo para combater o trabalho escravo, mas a erradicação ainda está longe de acontecer. Para as entidades, os principais entraves para que isso ocorra são as poucas condenações penais, a atuação insuficiente do Ministério Público e da Polícia Federal, a resistência do congresso em aprovar a "PEC do trabalho escravo" e políticas de prevenção - como reforma agrária e geração de renda - que não atingem todos os trabalhadores sujeitos a aliciamento para o trabalho escravo. "Voltamos a insistir que o que interessa não é somente combater, mas sim erradicar o trabalho escravo", diz o frei dominicano Xavier Plassat, representante da entidade na reunião.
Os membros do governo, em resposta, afirmaram que o Brasil é tido como referência no combate ao trabalho escravo, fato reconhecido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em seu relatório "Uma aliança global contra o trabalho forçado" , lançado em 2005. Também foi citado o crescimento do número de fiscalizações, que teriam aumentado 172,8% nos últimos três anos, enquanto o número de trabalhadores resgatados havia crescido 195,6% no mesmo período. Como uma das políticas mais eficazes de combate à escravidão, o governo mencionou a criação da "lista suja" do trabalho escravo, onde figuram empregadores que comprovadamente utilizaram esse tipo de mão-de-obra. "Avançamos muito. O Brasil tem dimensões continentais, não é simples erradicar o problema", afirma a assessora internacional da Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), Cristina Timponi, uma das representantes do governo na reunião.
Acordo contra a escravidão
Em 2003, para para evitar uma condenação internacional por trabalho escravo, o Estado brasileiro assinou um acordo com a Organização dos Estados Americanos (OEA) em que assumiu vários compromissos para erradicar o problema. O processo contra o Brasil foi instaurado devido à inoperância dos governos em julgar os culpados de tentar assassinar o trabalhador Zé Pereira, baleado em setembro de 1989 ao tentar fugir de uma fazenda que o mantinha em situação análoga à escravidão no Sul do Pará.
Fiscalização flagra trabalho escravo em terras de reitor de Universidade Fazenda de Marcelo Palmério, reitor da Universidade de Uberaba (Uniube), é flagrada com 164 trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão em Catalão (GO). Eles participavam da derrubada de árvores para a venda da madeira
Por Iberê Thenório
A fazenda produz madeira, mas os empregados são alojados em casas de tábua podre e chão batido, com paredes cheias de frestas por onde entram ratos e chuva. Endividados, os trabalhadores eram obrigados a pagar pela comida e pelas ferramentas de trabalho. Foi nessas condições que o grupo móvel de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) encontrou na última terça-feira (17) os 164 trabalhadores da Fazenda Batalha dos Nunes, no município de Catalão (GO). A escritura da terra indica que a propriedade pertence a Marcelo Palmério, reitor da Universidade de Uberaba (Uniube), e a sua esposa, Vera Maria Marquez Palmério.
De acordo com o auditor fiscal do trabalho e coordenador da ação, Humberto Célio Pereira, as condições de trabalho dos libertados eram péssimas. As mulheres e filhos dos trabalhadores também viviam nos alojamentos precários, em meio ao mau cheiro e sem banheiro ou energia elétrica. Além disso, os empregados eram transportados em caminhões antigos utilizados para carregar madeira. A comida era preparada nas casas pela manhã e alojada em recipientes inadequados. Quando chegava a hora do almoço, as refeições muitas vezes já estavam impróprias para consumo. "Eles se alimentavam ao relento, na chuva no sol...", conta.
Os dados apurados pelo auditor apontam ainda para uma tentativa de burlar a legislação trabalhista com a utilização de empresas "laranja". A Vale do Rio Grande Reflorestamento Ltda, companhia responsável pelo corte do pinus, também de propriedade de Marcos Palmério, terceirizava seus serviços para pequenas empresas cujos donos eram os trabalhadores da própria fazenda. Esses, por sua vez, contratavam outros peões para a derrubada das árvores. "A empresa quer se eximir de sua responsabilidade, além terceirizar a atividade-fim da empresa, o que é ilegal. Esses outros pseudo-empregadores moram nas mesmas situações dos outros trabalhadores. Nenhum deles tem capacidade financeira para manter um negócio", declara Humberto.
A fazenda também possuía um supermercado e um posto de gasolina, onde os trabalhadores compravam comida, equipamentos de proteção e até mesmo corrente ou combustível para as motosserras. As dívidas eram anotadas em cadernos e eram descontadas do salário dos empregados no final do mês. "Os preços praticados eram acima do mercado, e o trabalhador não tinha controle de suas dívidas", afirma o auditor fiscal, que apreendeu 31 blocos com anotações de compras feitas pelos trabalhadores.
O gerente de reflorestamento da fazenda contou à fiscalização que, entre os compradores do pinus produzido na área, estavam as empresas Eucatex, Cagill e Ultrafértil.
Ainda não foram calculadas as multas e encargos trabalhistas, mas Humberto estima que o valor a ser desembolsado passará de R$ 200 mil.
Cidadão ilustre
Marcelo Palmério é figura conhecida no triângulo mineiro. Seu pai, o escritor Mário Palmério, foi deputado federal, embaixador do Brasil no Paraguai e membro da Academia Brasileira de Letras. Em 1947, Mário fundou a Faculdade de Odontologia do Triângulo Mineiro, que mais tarde deu origem à Uniube, da qual hoje Marcelo é reitor.
A reportagem tentou entrar em contato com Palmério, mas até o fechamento desta matéria não houve resposta.
FORAGIDO, "BRANQUINHO" É CONDENADO A NOVE ANOS POR EXPLORAR TRABALHO ESCRAVO
Justiça Federal de Marabá determinou que Aldimir Lima Nunes, conhecido como "Branquinho", cumpra nove anos de prisão em regime semi-aberto pelos crimes de trabalho escravo, falsificação de documentos e desmatamento ilegal
Por Fabiana Vezzali
Projeto Combate ao Trabalho Escravo
Escritório da OIT no Brasil
O fazendeiro Aldimir Lima Nunes, conhecido como "Branquinho", foi condenado a nove anos de prisão em regime semi-aberto por submeter trabalhadores a condições análogas à de escravo. A sentença do juiz Carlos Henrique Haddad, da Justiça Federal de Marabá, no Sudeste do Pará, também condena Branquinho por irregularidades no transporte dos trabalhadores, desrespeito às leis trabalhistas, falsificação de documentos públicos e crime ambiental. A sentença, publicada nesta segunda-feira (16) no Diário Oficial do estado, fixou ainda o pagamento de multa no valor de 240 salários mínimos. "O acusado foi reconhecido como o mentor intelectual dos crimes, pois era quem comandava os demais co-réus", afirmou o juiz.
A condenação responde à ação movida pelo Ministério Público Federal, em 2003, que denunciou o fazendeiro por, entre outros crimes, prática de grilagem de terras e aliciamento de centenas de trabalhadores do Tocantins e de outros estados para trabalhar em fazendas de sua propriedade no município de São Felix do Xingu, na fronteira agrícola paraense.
O Ministério Público considerou que, após a ocupação irregular de terras públicas da Amazônia (grilagem), Branquinho e o gerente da fazenda Francisco Sérgio da Silva Siqueira, "contratavam capangas, pistoleiros, e tudo o mais necessário para garantir a 'limpeza' da terra. Num segundo momento, operavam o aliciamento e a contratação de mão-de-obra escrava, de maneira a promover a remoção da 'Floresta Amazônica', agregar valor à terra e, finalmente, levar adiante as tarefas de comercialização".
Passado de impunidade
O fazendeiro não poderá recorrer dessa condenação em liberdade porque já existe um pedido de prisão preventiva contra ele. Acusado de ser autor de repetidas ameaças de morte contra trabalhadores de Ananás, agentes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) do Tocantins e contra o então Procurador da República em Palmas (TO), Mário Lúcio Avelar, o fazendeiro teve pedido de prisão preventiva decretado em Marabá em 2003. Contudo, um mês e meio depois, Branquinho fugiu da penitenciária da cidade pela porta da frente.
Quando foi recapturado, em janeiro de 2004, a prisão preventiva do fazendeiro foi revogada pelo juiz federal substituto de Marabá, Francisco de Assis Garces Castro Júnior. Este juiz ficou conhecido por dar seguidas decisões favoráveis a fazendeiros flagrados utilizando trabalho escravo. O Ministério Público ainda conseguiu reativar a ordem prisão, mas esse mandado nunca foi cumprido.
Branquinho também responde na Justiça de Tocantins por outros crimes de homicídio, supostamente cometidos por ele na região de Ananás.
ADIADO JULGAMENTO DO PISTOLEIRO QUE ASSASSINOU O SINDICALISTA DEZINHO.
A sessão do tribunal do júri que levaria a julgamento Wellington de Jesus da Silva, pistoleiro que assassinou o sindicalista José Dutra da Costa - Dezinho - em Rondon do Pará, estava marcada para ocorrer em 10/10/2006, e foi adiada por uma manobra da defesa do réu (informe em anexo). Logo após a abertura da sessão o réu informou ter constituído novos advogados e estes requereram o adiamento do julgamento para estudarem o processo. A princípio o julgamento foi adiado para a data de hoje (16/10/2006)
Para o julgamento que aconteceria no dia 10/10/2006, foi empreendido grande esforço do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rondon do Pará, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Pará, bem como das entidades de apoio, para mobilizar os/as trabalhadores/as que participariam do julgamento. Com a remarcação do júri para 16/10/06, ficou impossível nova mobilização em tão pouco espaço de tempo. Por esta razão, a assistência de acusação requereu que o julgamento fosse adiado para novembro, visando dar mais tempo às organizações dos/as trabalhadores/as para que se reorganizem e façam nova mobilização. O pedido foi deferido, tendo sido redesignada nova data para o julgamento, que está marcado para 13/11/2006, em Belém.
Lembramos que um dos objetivos do pedido de adiamento feitos pelos advogados do pistoleiro, foi exatamente desmobilizar os trabalhadores para que não houvesse pressão sobre os jurados. Neste sentido é que convidamos a todos/as para se fazerem presentes ao julgamento marcado apra 13/11/06, e junto conosco somar forças para que levemos o maior número possível de pessoas para acompanharem o julgamento.
STR de Rondon do Pará
FETAGRI
CPT Marabá
“Manobra” adia júri do caso Dezinho.
O LIBERAL
Belém, Quarta, 11/10/2006
Demorou pouco mais de uma hora a sessão do Tribunal do Júri que deveria julgar, ontem, em Belém, o pistoleiro Wellington de Jesus da Silva, acusado de matar a tiros, no dia 21 de novembro de 2000, no município de Rondon do Pará, o sindicalista José Dutra da Costa, o Dezinho, então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rondon do Pará. Instalada às 8 horas, a sessão foi interrompida por volta das 9h30, após o anúncio de alteração no quadro de defensores do réu. Ao juiz presidente dos trabalhos, Raimundo Moisés Alves Flexa, titular da 2ª Vara Penal, o réu Wellington de Jesus declarou haver desistido da assistência gratuita dos defensores públicos Marilda Cantal e Fernando Valentin de Souza Júnior, até então responsáveis pela defesa dele. Seus novos defensores são os criminalistas Américo Leal e Eduardo Imbiriba.
Após o anúncio oficial da alteração processual, o advogado Américo Leal solicitou ao juiz o adiamento da sessão por seis dias, alegando necessidade de tempo para estudar os autos processuais e elaborar a defesa de seu cliente. O pedido do advogado foi deferido, mas o juiz Moisés Flexa concedeu somente cinco dias de adiamento, marcando a nova data de realização da sessão do Tribunal do Júri para a próxima segunda-feira, dia 16. O juiz decidiu, então, que os jurados (membros do Conselho de Sentença que vão julgar o acusado), os acusadores (membros do Ministério Público e assistentes de acusação) e defensores (advogados de defesa) do réu, e as quatro testemunhas de acusação que seriam ouvidas ontem ficam automaticamente convocados para a próxima segunda-feira, quando a sessão será reiniciada. Moisés Flexa decidiu, ainda, que até o reinício da sessão do Tribunal do Júri, na próxima segunda-feira, o réu Wellington de Jesus da Silva ficará detido no Complexo Penintenciário de Americano.
A decisão do magistrado, embora baseada em dispositivos legais do Código de Processo Penal (CPP), produziu frustração e revolta entre centenas de trabalhadores rurais e sindicalistas que se deslocaram de diversos municípios do sul e do sudoeste paraense para assistir ao julgamento em Belém. A substituição intempestiva dos defensores do réu, dispensados no plenário do Tribunal, quando se preparavam para iniciar os trabalhos da defesa do acusado, provocou protestos da defensora pública Marilda Cantal, que está no caso há cerca de dois meses, desde que o julgamento do pistoleiro foi desaforado da comarca de Rondon do Pará para a capital do Estado, em 5 de junho, e do advogado Fernando Valentin de Souza Júnior, que há dois anos trabalhava gratuitamente na defesa do pistoleiro, atendendo pedido da família do réu, que alegara não dispor de recursos para bancar os custos processuais e os honorários advocatícios da defesa.
O ministério Público, através do promotor de Justiça Paulo Godinho, que vai sustentar o libelo acustório contra o réu e que, anunciou, vai pedir a pena máxima (30 anos de reclusão) para o matador do sindicalista, solidarizou-se com os defensores públicos preteridos e lamentou que a mudança repentina no quadro de defensores do réu, tivesso produzido o adiamento no julgamento de um crime cometido e ainda impune há mais de cinco anos. O advogado Américo Leal, por sua vez, explicou que familiares do réu teriam procurado, no município de Marabá, o advogado Gilberto Alves, para que este patrocinasse a defesa de Wellington de Jesus em plenário, na sessão do Júri popular. Porém, impedido por problemas de saúde, Gilberto Alves teria aconselhado a contratação de Américo Leal e de Eduardo Imbiriba.
'MANOBRA'
A decisão que adiou ontem o julgamento de Wellington de Jesus Silva levou as entidades de defesa dos direitos humanos a divulgarem uma carta, no final da tarde de ontem, em que acusam a ocorrência de uma 'manobra' por parte do mandante do crime, bem como a 'omissão' da Justiça Estadual. Elas afirmam que o adiamento será comunicado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA), que está acompanhando o caso.
Na carta, as entidades destacam que Wellington é 'assassino confesso', tendo sido defendido pela Defensoria Pública, desde o início do processo, há seis anos, pois alegava que era pobre. Mas, ontem, surpreendeu o público presente ao julgamento como seus novos defensores, os advogados Américo Leal e Eduardo Imbiriba, 'advogados especializados na defesa de fazendeiros acusados de assassinatos de trabalhadores', conforme cita o documento.
Redes no Brasil partem para 'comércio justo' Wal-Mart e Mundo Verde vão começar a vender produtos com atestado de responsabilidade social e comercial
O Estado de S.Paulo - 11/10/2006 - Economia
Andrea Vialli
O Brasil deu mais um passo no mercado do bem. Até o final do ano, redes de varejo como Wal-Mart e Mundo Verde vão colocar nas suas gôndolas produtos com selo de comércio justo. A FairTrade Labelling Organizations (FLO), organização internacional responsável pela certificação desse tipo de produto, acaba de chegar ao País.
O conceito de comércio justo ainda é desconhecido do brasileiro, embora nos países desenvolvidos esse mercado deva movimentar perto de US$ 1 bilhão em 2006 e cresça em média 20% ao ano desde 1997.
O principal objetivo é garantir um canal de comércio eficiente ao pequeno produtor e um preço justo por sua safra. Entram também critérios de sustentabilidade, como respeito ao meio ambiente e ausência de trabalho escravo ou infantil. Hoje existem 40 países produtores e 27 compradores, que buscam produtos como café, bananas, sucos de frutas, açúcar, castanhas, vinho, cerveja, artesanato e até bolas de futebol.
No Brasil, o primeiro produto a ter esse selo será o café. A Café Bom Dia, de Varginha (MG), já vende uma marca com esse conceito nos Estados Unidos. Agora, a empresa está em fase final de negociações com a rede Wal-Mart para colocar o produto nas gôndolas. 'O produto deve estar nas lojas Sam's Club até o final do ano', diz Wilson de Mello Neto, vice-presidente de assuntos corporativos do Wal-Mart Brasil. No ano passado, o Wal-Mart traçou uma meta global para aumentar em suas gôndolas a presença de 'produtos sustentáveis' - como orgânicos e de comércio justo - para 20% em três anos. Nos EUA, 60 milhões de consumidores já compram produtos com esse selo, segundo a TransfairUSA, organismo certificador de comércio justo no país. Em cinco anos, as vendas saltaram de US$ 50 milhões para US$ 400 milhões.
O café do bem faz sucesso entre os americanos, consumidores vorazes da bebida. 'O café fair trade deu um salto de 76% no período, enquanto o segmento de orgânicos cresceu 12%', diz Joe Alcântara, presidente da subsidiária americana da Café Bom Dia.
A expansão desse mercado se deve principalmente à entrada de grandes redes no comércio de produtos com esse perfil, o que está ajudando a democratizar o conceito. Hoje, gigantes como Starbucks, Dunkin' Donuts, Wal-Mart e McDonald's já vendem o café com o selo de comércio justo.
O Brasil já usa o conceito de comércio justo na produção de café. Porém, 100% da produção, estimada em 3 mil toneladas/ano, é exportada. São nove cooperativas que reúnem cinco mil pequenos produtores, em Estados como Minas Gerais, Espírito Santo e Rondônia. A saca de 60 quilos de café de comércio justo chega a custar US$ 400 no exterior - ante os US$ 180 pagos ao produtor pela saca de café convencional. 'Além disso, os contratos para compra de café fair trade garantem ao produtor um prêmio de US$ 0,05 por libra (453,5 gramas) de café, dinheiro que deve ser revertido para projetos sociais junto à comunidade produtora', explica Beat Gruninger, sócio gerente da BSD Brasil, consultoria especializada em sustentabilidade e que auxilia os produtores nacionais nos contratos de comércio justo. Todo o processo é auditado pela FLO Certs, braço certificador da FLO.
DESAFIO
O Brasil é um mercado potencial para o comércio justo, mas será preciso que os produtos não custem muito mais caro no País para não afugentar o consumidor. 'É um mercado que ainda precisa ser despertado', explica Veronica Rubio, representante da FLO no Brasil. Ela chegou ao País na semana passada e será a responsável por negociar contratos de licenciamento para que as empresas brasileiras possam usar o selo FairTrade - toda a cadeia, do produtor ao varejo, deve ser certificada. 'O maior desafio é lançar produtos que não sejam muito mais caros que o produto convencional', diz.
Entre as empresas interessadas em vender os produtos estão redes varejistas, cadeias de hotéis e lojas com um perfil mais focado em bem-estar.
A rede Mundo Verde, especializada em produtos naturais e orgânicos, deve começar em breve a oferecer produtos com o selo fair trade, como café e suco de frutas. 'Os produtos do comércio justo são a fina flor do consumo consciente. Eles serão o diferencial competitivo das empresas neste século', diz Jorge Antunes, sócio-diretor da Mundo Verde. Na opinião dele, o consumidor está cada vez mais interessado não só no conteúdo do produto, mas nas condições em que é produzido. Hoje, dos 1,2 mil fornecedores da rede de lojas, 900 são micro e pequenas empresas. 'É uma tendência mundial.'
Excl Sr. Governador do Estado da Bahia
Sr. Jaques Wagner
Yakuy Tupinambá
Indígena do Povo Tupinambá de Olivença [email protected]
Salvador, 01 de outubro de 2006
Haverá um dia em que os homens perceberão à semelhança, que existe entre si. Há em nós POVOS INDÍGENAS, o anseio de vermos concretizado esse sonho.
Historicamente, sempre fomos relegados a último plano, ou praticamente a nenhum plano de inserção contextual ao que verdadeiramente somos. Principalmente, nós ÍNDIOS DO NORDESTE, em especial os POVOS INDÍGENAS DA BAHIA. Sempre fomos usurpados, renegados, violentados, marginalizados, descaracterizados, por um processo histórico infame, vergonha da humanidade.
Atualmente, ouvimos muito falar em reparação, dívida histórica, etc.; não sabemos onde estamos inseridos nesse falatório com aspectos utópicos. Nosso direito originário a cada dia se distancia da verdade, da garantia de direito à VIDA com dignidade.
Sr. Governador, está em vossas mãos a possibilidade de mudar, de fazer diferente dos outros. Valorizar e preservar a cultura de um POVO, que muito tem feito pela humanidade através da nossa sabedoria milenar. Nossos conhecimentos em relação ao trato com a Natureza que nos cria sempre serviram de exemplo como importante instrumento de harmonia entre o SER e o seu CRIADOR, sem falar da contribuição dada à medicina para salvar vidas, pois somos nós os conhecedores da matéria prima utilizada nas indústrias farmacêuticas. Enfim, somos parte desse contexto e, no entanto nos é negado o DIREITO À VIDA.
Sempre caímos em um beco sem saída, em um labirinto de reivindicações que serão somente fraseologia oca, promessas que jamais se realizarão em sua plenitude nos moldes da sociedade de classes.
Precisamos da nossa emancipação econômica, e não apenas cultural ou étnica.
Não desejamos mais ver nossas vozes caladas por aqueles que se julgam especialistas, enquanto nosso dinamismo cultural continua sendo desconhecido. Existe no mínimo uma representação enganadora e equivocada são informações inexatas, detalhes exóticos e incompreensíveis, projeções de valores extranhos todos eles apresentando o índio “como ser inferior”
Nenhuma cultura vive isolada, fechada entre muros de uma fortaleza. Entretanto, congelaram nossa cultura, pertencemos ao passado – a negação da modernidade – tudo que não pertence ao Ocidente é do passado.
Tudo que vos peço, é que não nos deixe sermos usados por políticos e lideranças já contaminadas com o sistema ai implantado, não nos meça com as mesmas características dos povos que fazem dos seus semelhantes um joguete para benefícios próprios. Seja imparcial, nas nossas questões, ouça sempre a sabedoria dos nossos velhos, desconstrua o sistema imposto em nossas aldeias tais como: geração de conflitos, fragmentação do nosso povo, política de assistencialismo, que visam o benefício de um único grupo, e não de toda coletividade. Nossa cultura é pautada na partilha, no coletivo, ninguém pode está melhor que o outro, somos comuns.
Implantação de políticas públicas em nossas aldeias, que visem a nossa auto-sustentação, reconhecimento, e inserção no contexto atual. INCLUSÃO SOCIAL PARA OS POVOS INDÍGENAS!
“As civilizações não são fortalezas, mas encruzilhadas.”
Otávio Paz
“Temos o direito de ser iguais quando a diferença nos inferioriza e de ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”
Boaventura de Souza Santos
RECORDISTA EM TRABALHO ESCRAVO VOLTA PARA LISTA SUJA
Recordista em trabalho escravo volta para a "lista suja"
Liminar que suspendia nome da Destilaria Gameleira da "lista suja" é derrubada no Tribunal Regional do Trabalho; propriedade é recordista em número de trabalhadores libertados de condições análogas à escravidão
REPORTER BRASIL - 09/10/2006
Por Iberê Thenório
O Tribunal Regional do Trabalho da 10ª região caçou a liminar que suspendia a Destilaria Gameleira, pertencente ao grupo EQM, da "lista suja" do trabalho escravo. A partir desta segunda-feira (9), a propriedade volta a figurar no cadastro do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) que traz pessoas e empresas flagradas ao explorar trabalhadores em condições análogas à de escravo.
Atualizada semestralmente, a lista conta atualmente com 178 nomes, incluindo os que foram retirados provisoriamente por decisão judicial. Segundo as regras do MTE, o nome do infrator é colocado na lista após o final do processo administrativo criado pelos autos da fiscalização. A exclusão, por sua vez, depende de monitoramento do infrator pelo período de dois anos. Se durante esse período não houver reincidência do crime e forem pagas todas as multas resultantes da ação de fiscalização e quitados os débitos trabalhistas e previdenciários, o nome será retirado.
Com base nesta lista, órgãos públicos e privados vêm desenvolvendo ações que contribuem no combate ao trabalho escravo. Os relacionados estão impedidos de receber financiamento de agência públicas (como o Banco do Brasil, o Banco da Amazônia e o BNDES) e de algumas instituições privadas, têm seus títulos de propriedade de terra investigados (há irregularidades detectadas em pelos metade das fazendas) e perdem os clientes que são signatários do pacto da iniciativa privada contra a escravidão. Ao todo, mais de 90 empresas e associações estão se negando a comprar produtos com origem em fazendas da "lista suja".
Em acórdão publicado em 15 de setembro, o desembargador do TRT da 10a Região (que abrange o Distrito Federal e o Tocantins) José Ribamar Júnior, redator do processo que caçou a liminar, reafirma a legitimidade da lista. "O ato de inclusão do nome do empregador na lista em cogitação não encerra ato punitivo, tendo o cadastro natureza meramente informativa, não se evidenciando, pois, ilegalidade no ato praticado pela autoridade pública".
Localizada no município de Confresa (MT), no Nordeste do Mato Grosso, a Gameleira foi palco da maior libertação de escravos da história recente do país, quando, em junho de 2005, o grupo móvel do MTE flagrou 1003 pessoas em condições análogas à escravidão. A fazenda já havia sido flagrada outras três vezes por fiscalizações do Ministério do Trabalho e Emprego. Em uma dessas ações, 318 pessoas foram libertadas.
Em maio deste ano, a Gameleira passou por uma mudança, sendo incorporada à recém-criada Destilaria Araguaia. Para reverter a imagem negativa que se associou ao nome "Gameleira" depois dos escândalos, o empresário Eduardo de Queiroz Monteiro, dono do grupo EQM, comprou a parte da fazenda que pertencia à sua família, adquiriu mais terras, ampliou as instalações e trocou o nome da propriedade. Eduardo é irmão de Armando de Queiroz Monteiro Neto (PTB-PE), presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Na época, o grupo EQM informou que na Araguaia tudo seria avançado, inclusive o tratamento dispensado aos funcionários. Instalações modernas não só para fabricar álcool, mas também para o conforto dos trabalhadores. Anunciou que cumpriria todos os aspectos da lei, inclusive as regulamentações do trabalho rural da norma NR31. Prometeu que iria garantir para os 240 trabalhadores fixos e 750 temporários alojamentos decentes, alimentação balanceada servidas em restaurantes móveis e, o mais importante, carteira assinada e todos os direitos trabalhistas.
Pressão econômica
Grandes distribuidoras de combustível cortaram contratos com a Gameleira, no ano passado, quando tomaram conhecimento que comercializavam com uma empresa que estava na "lista suja".
Após empresas como Ipiranga e Petrobrás assumirem esse comportamento, o então presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE) fez uma "consulta" com o objetivo de descobrir por que o álcool da Gameleira não estava mais sendo adquirido. Segundo ele, essa ação foi realizada a pedido de deputados federais. Na época, a repercussão na imprensa e junto à sociedade civil do lobby do parlamentar agindo em prol da iniciativa privada foi bastante negativa.
A suspensão dos acordos comerciais entre a Gameleira e as distribuidoras também foi provocada pela divulgação de levantamento que identificou a cadeia produtiva do trabalho escravo no país. A pesquisa, solicitada em 2004 pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos, serviu de embasamento para que fosse firmado o Pacto Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, iniciativa do Instituto Ethos de Responsabilidade Social e da Organização Internacional do Trabalho. O Pacto, assinado no dia 19 de maio em Brasília, inclui grandes empresas como Coteminas, Carrefour, Pão de Açúcar, Wal-Mart, Votorantin, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
A pesquisa aponta que a Galemeira comercializava com a Ipiranga, Petrobrás, Shell, Texaco, Total e PDV, fornecendo combustível principalmente para as regiões Norte e Nordeste. Dessas, Ipiranga, Petrobrás, Shell e Texaco assinaram o pacto. No dia 11 de maio de 2005, os advogados da família Queiroz Monteiro conseguiram uma liminar na Justiça do Trabalho suspendendo o nome de sua fazenda da "lista suja", base utilizada pela pesquisa sobre a cadeia produtiva. Contudo, signatários mantiveram a interdição de compra, como a Ipiranga. Fontes dessa empresa revelaram que a decisão da companhia seguiu determinações do pacto e é coerente com uma conduta de ética e de responsabilidade social.
Libertação recorde
Em junho de 2005, a operação do grupo móvel de fiscalização do MTE, que contou com a participação do Ministério Público do Trabalho e da Polícia Federal, libertou 1003 pessoas escravizadas da fazenda. A ação ocorreu após denúncias que envolviam violência física contra os peões.
"A situação aqui é horrível. Há superlotação dos alojamentos, que exalam um mau cheiro insuportável. A única água que recebe tratamento é aquela que vai para as caldeiras e não para os trabalhadores. A alimentação estava estragada, deteriorada. O caminhão chega jogando a comida no chão. Pior do que a comida que se dá para bicho, porque esse pelo menos tem coxo", afirmou na época Humberto Célio Pereira, auditor fiscal do Trabalho e coordenador do grupo móvel de fiscalização.
De acordo com ele, todas as características confirmaram a existência de escravidão contemporânea, do aliciamento ao endividamento e à impossibilidade de deixar o local. Os trabalhadores foram levados de Pernambuco, Maranhão e Alagoas, iludidos pelas falsas promessas de salários e boas condições de serviço dadas pelos "gatos" (contratadores de mão-de-obra a serviço da usina). Ninguém recebia salário e era obrigado a comprar tudo da cantina da empresa, com preço acima do mercado. Os gastos eram anotados para serem descontados do pagamento final - sempre menor do que o combinado pelo "gato". Devidos às péssimas condições de saneamento e higiene, não raro ficava-se doente. Contudo, até o soro recebido nas crises de diarréias era descontado dos peões.
Vale lembrar que a Gameleira encontra-se na "lista suja" por outra libertação. O processo administrativo originado pela megaoperação de 2005 ainda não terminou e pode fazer com que a Gameleira entre novamente na relação.
TRABALHO ESCRAVO: OIT RECONHECE AVANÇOS DO BRASIL
OIT elogia esforço para conter trabalho escravo
JORNAL O GLOBO - 19/09/2006
BRASÍLIA e RIO. O chefe do Programa de Combate ao Trabalho Escravo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Roger Plant, elogiou ontem os esforços do governo brasileiro para erradicar essa prática no país. Segundo ele, o Brasil foi a primeira nação latinoamericana a reconhecer a existência do trabalho escravo e a adotar mecanismos interministeriais para combater esse tipo de crime. Mas Plant recomendou o aperfeiçoamento da ação conjunta entre Executivo e Judiciário para garantir a punição dos exploradores e exigir a compensação às vítimas, além da adoção de programas sociais de reinserção dos trabalhadores resgatados da escravidão.
A única forma de erradicar o trabalho escravo é ter uma combinação de prevenção, identificação e proteção das vítimas, repressão e reintegração por meio de programas de redução da pobreza disse Plant, destacando que essa diretriz é algo que vale para todos os países.
Essas são recomendações que ele dará na Conferência Inter-Regional sobre Sistemas de Justiça e Direitos Humanos, organizada pelo Conselho Britânico, que começa hoje, com a presença de representantes de dez países. Segundo Plant, existem no mundo 12,4 milhões de pessoas submetidas ao trabalho escravo, sendo que 10,5% ou seja, 1,3 milhão estão na América Latina e no Caribe. A maior parte, no entanto, está na Ásia: 9,5 milhões de pessoas.
Plant também alertou que, embora já esteja assimilada no Brasil a existência de trabalho escravo nas regiões Norte e Nordeste especialmente nos estados de Pará, Tocantins e Maranhão , a OIT tem recebido cada vez mais denúncias sobre outro tipo de aberração: o trabalho forçado de imigrantes, como bolivianos e paraguaios, que vêm ao país devido à maior oferta de empregos em estados como São Paulo.
Agentes do Ministério do Trabalho fizeram ontem uma operação no Rio e encontraram cerca de 50 trabalhadores paraibanos em regime de escravidão na Favela do Catiri, em Bangu. Eles revendiam redes produzidas na fábrica Vitória de Tecelagem, na cidade de São Bento da Paraíba, a 400 quilômetros de João Pessoa.
TRIBUNAL DO TRABALHO DE BELÉM CONDENA OS “REIS DO GADO”
Xinguara-PA, 18 de setembro de 2006.
Frei Henri B. des Roziers
Comissão Pastoral da Terra
O “Grupo Quagliato”, proprietário da Fazenda Santa Rosa, Município de Xinguara, Sul do Pará, foi condenado pelo Tribunal Regional do Trabalho de Belém a pagar ao seu ex-funcionário Jose Martins da Silva, a quantia de 145.000,00 (cento e quarenta e cinco mil reais)a titulo de indenização por danos materiais e morais, em razão de um acidente de trabalho.
No dia 19 de maio de 1998 o Sr. José Martins foi contratado para trabalhar na Fazenda Santa Rosa, na função de pedreiro e 8 dias depois foi vitima de um grave acidente de trabalho, tendo um trator tombado sobre sua perna direita, provocando fratura exposta e incapacidade permanente para o trabalho.
Diante da sua impossibilidade de desenvolver as habilidades profissionais o Sr. José Martins foi simplesmente descartado pelo “Grupo Quaglito” sem receber nenhum direito trabalhista. Acidentado e sem nenhuma outra fonte de sustento, o trabalhador acionou a Vara do Trabalho de Conceição do Araguaia e obteve o reconhecimento do vinculo empregatício, com a assinatura de sua Carteira de Trabalho.
Com este reconhecimento o Sr. Jose Martins saltou da indigna condição de um ser humano “descartável” para o status de “ex-empregado” da Fazenda Santa Rosa, o que lhe garantiria uma serie de direitos.
Diante da situação econômica extremamente desfavorável do Sr. José na época do acidente, a CPT de Xinguara apelou para a sensibilidade de Roque Quagliato e por intermédio de amigos do fazendeiro, insistiu para que aceitasse fazer um acordo com o trabalhador e pagar-lhe uma indenização, a fim de aliviar-lhe a fome. Entretanto, o “Rei do Gado” recusou-se terminantemente a sequer tratar do assunto, numa demonstração de absoluta falta de sensibilidade humana.
Na ausência de alternativa, os advogados da CPT ingressaram com uma Ação de indenização por ato ilícito, argumentando a existência do acidente de trabalho e conseqüente responsabilidade do “Grupo Quagliato” de indenizar o empregado. No julgamento em primeira instancia na Comarca de Rio Maria, o Juiz Roberto Cezar Oliveira Monteiro revelando-se parcial julgou desfavoravelmente ao trabalhador, negando-lhe todo e qualquer direito, conforme desejava “Os Reis do Gado”, que saíram vitoriosos nessa primeira fase.
Esse julgamento foi totalmente questionável quanto à sua seriedade, vez que ate os depoimentos de duas testemunhas – Luiz Carlos Barbiere e Dirceu Remor - desapareceram de forma inexplicável do Fórum de Rio Maria. Os dois foram ouvidos em audiência, mas ninguém sabe onde foram parar os depoimentos escritos.
Mesmo sem estas provas, os advogados da CPT recorreram para o Tribunal de Justiça do Estado do Pará, que tendo se tornado incompetente por força de Emenda Constitucional remeteu o recurso para o Tribunal Regional do Trabalho que julgou o feito no ultimo dia 29 de agosto, após 8 anos de espera.
A decisão reconhece a responsabilidade da Fazenda Santa Rosa pelo acidente que vitimou o Sr. Jose Martins da Silva, posto que não tendo observado as normas de segurança do trabalho, deixou de orientar o empregado sobre os procedimentos de segurança. Desta feita, foi condenada a pagar 95.000,00 (noventa e cinco mil reais) a titulo de dano material e 50.000,00 (cinqüenta mil reais) pelo dano moral, somando quantia de 145.000,00 (cento e quarenta e cinco mil reais).
Inconformado, “O Grupo Quagliato” já recorreu desta decisão, com a intenção de evitar o pagamento ao trabalhador, ou no mínimo, adiar por mais um longo período.
Esse acontecimento bem revela qual é a “ética” que norteia as ações dos “Reis do Gado” quando o assunto é relações humanas de trabalho e responsabilidade social. É importante lembrar que os mesmos já foram flagrados por diversas vezes praticando trabalho escravo em varias de suas Fazendas: Colorado, Brasil Verde e Rio Vermelho, por exemplo. Por conta disso, estiveram na “Lista Suja” dos escravistas ate o final de 2005 e o Governo Federal responde a uma representação na Comissão de Direitos Humanos da OEA pela pratica de trabalho escravo nas Fazendas do “Grupo Quagliato”.
À OPINIÃO PÚBLICA
Chamar o maior grileiro de terras do mundo de pirata fundiário constitui ato ilícito no Pará,
obrigando quem utilizar a expressão a indenizar o suposto ofendido por dano moral. Com base nesse entendimento, a 3ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado manteve a condenação que me foi imposta no juízo singular. No ano passado, o juiz Amílcar Guimarães, exercendo interinamente a 4ª Vara Cível do fórum de Belém (é titular da 1ª Vara), acolheu a ação de indenização contra mim proposta pelo empresário Cecílio do Rego Almeida e me condenou a pagar-lhe oito mil reais, mais acréscimos, que resultarão num valor bem maior.
Meu “crime” foi uma matéria que escrevi no meu Jornal Pessoal, em 2000, comentando reportagem de capa da revista Veja de uma semana antes, que apontava o dono da Construtora C. R. Almeida como “o maior grileiro do mundo”. Com base em um título de terra que ninguém jamais viu e todos os órgãos públicos negam que exista, o empresário se declarava – e continua a se declarar – dono de uma área que poderia chegar a sete milhões de hectares no vale do rio Xingu, no Pará, região conhecida como “Terra do Meio”, na qual há a maior concentração de mogno da Amazônia (o mogno é o produto de maior valor da região). Se formasse um Estado, esse megalatifúndio constituiria o 21º maior Estado brasileiro.
C. R. Almeida propôs a ação em São Paulo. Mas como o foro era incompetente, a demanda foi transferida para a comarca de Belém, onde o Jornal Pessoal, uma newsletter quinzenal independente que edito desde 1987, tem sua sede. Durante mais de quatro anos a ação foi instruída na 4ª Vara Cível. A juíza responsável pelo processo, Luzia do Socorro dos Santos, se ausentou temporariamente para fazer um curso no Rio de Janeiro. O juiz Amílcar Guimarães a substituiria por apenas três dias, mas, de fato, só assumiu a Vara no último dia, 17 de junho do ano passado, uma sexta-feira.
Nesse dia ele pediu ao cartório que os autos, com quase 400 páginas, lhe fossem conclusos e os levou para sua casa. Só os devolveu na terça-feira, dia 21, quando a juíza substituta já estava no exercício da Vara. Junto com os autos veio a sua sentença condenatória, datada de quatro dias antes, como se a tivesse lavrado no último dia do seu exercício legal na função.
Representei contra o magistrado, mostrando que a sentença era ilegal, que o processo não estava pronto para ser sentenciado (estava pendente informação da instância superior sobre um recurso de agravo que formulei exatamente contra o julgamento antecipado da lide, que o julgador efetivo pretendia realizar), que os autos sequer estavam numerados e que a sentença revelava a tendenciosidade e o desequilíbrio do sentenciante. A Corregedora Geral de Justiça acolheu a representação, mas, por maioria, o Conselho da Magistratura decidiu não processar o juiz. Recorri em julho dessa decisão, mas o embargo de declaração ainda não foi apreciado.
No plano judicial, apelei da condenação. A relatora do recurso na 3ª Câmara Cível, desembargadora Maria Rita Xavier, manteve a condenação, apenas concedendo uma redução no valor da indenização. A revisora, desembargadora Sônia Parente, pediu vistas. Na sessão de hoje ela apresentou seu voto, discordando da posição da relatora.
Argumentou que a grilagem de terras da C. R. Almeida no Xingu é fato público e notório, comprovado por diversas matérias jornalísticas juntadas aos autos, além de pronunciamentos unânimes de órgãos públicos que se manifestaram oficialmente sobre a questão, incluindo a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Justiça Federal. Eu apenas aplicara ao autor da grilagem uma expressão de uso corrente nas áreas de confronto, conforme ela própria pôde constatar quando atuou como juíza numa dessas áreas, o município de Paragominas.
A desembargadora-revisora disse que a matéria do Jornal Pessoal estava resguardada pela liberdade de expressão e de imprensa, tuteladas pela Constituição Federal em vigor. O texto jornalístico expressava uma situação conhecida e lamentada pelos que se preocupam com o futuro da Amazônia, assolada por agressões como a devastação da natureza, a apropriação ilícita do seu patrimônio e até mesmo o trabalho escravo. Muito emocionada ao ler esse trecho do seu voto, a desembargadora disse que Castro Alves, se voltasse agora, encontraria um novo navio negreiro nos caminhões que trafegam pelas estradas amazônicas carregando trabalhadores como escravos. E manifestaria sua indignação da mesma maneira que eu, ao escrever no Jornal Pessoal.
Ela salientou que a expressão em si, de “pirata fundiário”, é apenas um detalhe e irrelevante, porque ela foi aplicada a um fato real e grave, noticiado em vários outros jornais. “Por que só este jornal de pequena circulação, que se edita aqui entre nós, é punido?”, indagou.
Suas judiciosas observações, porém, não tiveram eco. A desembargadora Luzia Nadja Nascimento, esposa de Manoel Santino Nascimento, que deixou a chefia do Ministério Público do Estado para ser secretário de segurança do governo, sem maiores considerações, apresentou logo seu voto, acompanhando a relatora. Nem permitiu que o presidente da sessão, desembargador Geraldo Corrêa Lima, apresentasse as observações que pretendia fazer. Sua decisão já estava tomada.
Como havia apenas as três desembargadoras no momento em que a votação foi iniciada, em maio, os dois outros desembargadores que se encontravam na sessão de hoje da 3ª Câmara Cível não puderam votar. Por 2 a 1, minha condenação foi mantida. Agora me resta apresentar o recurso que poderá provocar a reapreciação da questão junto ao Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal Federal, em Brasília.
Esse entendimento, de que é ato ilícito aplicar a expressão “pirata” àquele que é proclamado “o maior grileiro do mundo”. é exclusivo da justiça do Pará. Cecílio do Rego Almeida também processou a revista Veja, seu repórter, um procurador público do Estado do Pará e um vereador de Altamira pelo mesmo motivo, mas todos foram absolvidos pela justiça de São Paulo. Ao invés de condená-los, como aqui se fez comigo, o juiz Gustavo Santini Teodoro, da 23ª Vara Cível, elogiou-os por defender o interesse público. Justamente no Estado que sofre a apropriação indébita do seu patrimônio fundiário, com a mais escandalosa fraude de terras, a grilagem é protegida e quem denuncia o grileiro é punido.
SEM-TERRAS SÃO ASSASSINADOS NA FAZENDA SANTA TEREZA, MUNICIPIO DE CUMARU DO NORTE, SUL DO PARÁ
Xinguara-PA, 11 de setembro de 2006.
Frei Henri B. des Roziers - CPT
A CPT de Xinguara recebeu informações por meio de trabalhadores rurais que no dia 05 de setembro do corrente ano, dois sem-terra foram assassinados e um terceiro ficou ferido, por pistoleiros do fazendeiro Cássio Carvalho do Val, pretenso proprietário da Fazenda Santa Tereza, Município de Cumaru do Norte.
Segundo essas informações, por volta das 11:00 da manhã daquele dia, os três sem-terra dirigiam-se para um acampamento, na referida Fazenda levando mantimentos, quando foram interceptados na estrada por pistoleiros fortemente armados, que ameaçando eliminar todos os acampados, dispararam contra os três homens, sendo que dois morreram na hora e um ficou gravemente ferido.
Vale ressaltar que no ano de 2004 o fazendeiro Cássio Carvalho do Val, juntamente com policiais militares protagonizou um despejo ilegal às margens da estrada, fora da Fazenda Santa Tereza, onde atearam fogo aos 33 barracos dos sem-terra, fatos pelos quais está respondendo a processo criminal perante a Justiça.
Desse modo, nota-se que a violência tem sido reiteradamente utilizada por este pecuarista, que não hesita em ultrapassar os limites da lei para atingir seus objetivos, nem sempre tão nobres. Conforme informações da tribo Kayapó as terras que formam a Fazenda Santa Tereza teriam sido doadas pelos indígenas para Cássio do Val, não se sabendo ao certo se estão devidamente documentadas.
Diante disso, exigimos rigorosa apuração desses fatos, para a devida punição dos responsáveis e assim, cessando a impunidade, se evite o cometimento de novos crimes.
"CLIMA DE TERROR" NO SUL DO PARÁ
Escravos do Pará vivem sob ameaças de morte
Madeireiros e grileiros que dominam o sul do estado impõem clima de terror para não pagar dívidas trabalhistas
JORNAL O GLOBO -10/09/2006
XINGUARA (PA). Eles são os senhores do medo. Mais de 118 anos após a abolição da escravatura, os grileiros e madeireiros que mantêm o regime de escravidão em vigor no sul do Pará impõem sua própria lei pela força das ameaças. Lavradores que tentam se livrar da exploração e falam em buscar a Justiça para garantir direitos trabalhistas são imediatamente amedrontados por gatos (aliciadores de mão-de-obra escrava) e pistoleiros, e têm de fugir para não serem mortos. Muitas vezes as ameaças são cumpridas.
Em fevereiro, o trabalhador rural Cláudio dos Santos Pontes, de 34 anos, entrou na Vara do Trabalho de Redenção (PA) com uma reclamação trabalhista contra o dono da Fazenda Cristalina, de São Félix do Xingu, onde trabalhara por 90 dias sem receber pagamento. Obrigado pelo juiz a fazer um acordo e pagar R$1.400 ao ex-empregado, o fazendeiro Francisco de Araújo, logo ao sair da sala de audiências, avisou: "Você vai pegar esse dinheiro, mas não vai desfrutar dele".
Dois meses depois, em 27 de abril, Cláudio levou três tiros, um deles no pescoço, e teve de fugir às pressas de São Félix com a família, para que o pistoleiro Cabeça, autor do crime, não voltasse para terminar o serviço. O fazendeiro, conhecido por ter ameaçado outros ex-empregados, jamais foi preso. É temido porque teria capangas em várias cidades da região.
- Aqui, os inquéritos policiais são mal elaborados, mal conduzidos e acabam não dando em nada. Se você tem dinheiro, você manda - diz a advogada Elda Machado, que tenta defender os lavradores no escritório da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Tucumã, a cem quilômetros de São Félix do Xingu.
- Os trabalhadores são aliciados pelos gatos e ameaçados de morte ainda durante o período de trabalho, para que não tenham coragem de brigar por seus direitos. Cuido do caso de um trabalhador, seu Domingos, que foi dispensado e, ao tentar acertar as contas, ouviu do patrão: "Quanto vale a sua vida e de sua família? É o que você tem a receber". Ele foi obrigado a fugir - conta Elda.
Obrigados a pagar preços exorbitantes pela comida e pelo material de trabalho, que deveriam ser fornecidos pelos empregadores, e a dormir em lugares sem as mínimas condições de higiene, os trabalhadores às vezes têm de deixar a região às pressas, sem receber qualquer pagamento, mesmo quando são ajudados por fiscais da delegacia do Ministério do Trabalho.
- O sul do Pará é uma região de terras griladas, sem dono. Muitas vezes, nas operações, só chegamos ao gato. Ninguém consegue saber quem é o empregador, quem tem o poder econômico. Orientamos os trabalhadores a sair o mais rápido possível da região. Os riscos de morte são muito grandes - diz o chefe da Seção de Inspeção no Trabalho da DRT, José Ribamar Miranda da Cruz.
Em carta enviada em julho à Secretaria Nacional de Direitos Humanos, do governo federal, o bispo do Xingu, dom Erwin Kräutler, denunciou o recrudescimento da violência contra trabalhadores no sul do Pará e reclamou da impunidade de "grileiros, invasores e pseudoproprietários, com seus jagunços que agem ao primeiro aceno dos comandantes".
- A omissão do Estado é responsável pelo clima de medo nesta região - diz dom Erwin.
No documento, além do caso do lavrador Cláudio Pontes, o bispo relata o assassinato, em janeiro, do lavrador Antônio Bezerra da Silva, morto na praça central de São Félix do Xingu, na presença de testemunhas, dois meses depois de pedir ajuda à CPT para tentar receber verbas rescisórias por seu trabalho na Fazenda Tabapuã.
Bezerra, que tinha chegado do sozinho do Tocantins para trabalhar como "peão do trecho" no sul do Pará, acabou enterrado como indigente. Não tinha família nem amigos para arcar com despesas do funeral.
Chefe de fiscalização da DRT reclama de falta de estrutura
Dos casos relatados por dom Erwin, o mais chocante é o assassinato de uma criança. Um dia antes de Henrique Aparecido Ribeiro, de 11 anos, aparecer afogado e com a jugular cortada, o pai dele, Sidney, pediu ao fazendeiro Ronan Garcia dos Reis, da Fazenda Estrela do Xingu, o pagamento pelo período em que trabalhou como vaqueiro. Ouviu do patrão a ameaça: "Se procurar o Ministério do Trabalho, toda a sua família vai morrer".
"Estamos diante de um caso típico de crime de encomenda", escreveu dom Erwin em sua carta ao secretário de Direitos Humanos. "É necessário tomar medidas urgentes para inviabilizar tais crimes e identificar os que, de forma contumaz, desrespeitam leis e normas, e ainda por cima ameaçam a quem procura seus direitos trabalhistas".
O chefe da fiscalização da DRT do Pará, José Raimundo da Cruz, que há dez dias libertou 118 escravos que trabalhavam em quatro fazendas de um único dono em Ulianópolis, no sudeste do estado, diz que recebe cada vez mais denúncias de escravidão, mas não tem infra-estrutura para as operações:
- Não temos carros adequados para andar dias e dias por estradas precárias. Depois da morte da irmã Dorothy (Stang), fizemos operações com o Exército e chegamos de helicóptero a lugares onde o carro não ia. Se ainda tivéssemos essa facilidade, faríamos mais operações.
Segundo ele, a DRT tenta dar prioridade aos casos de lavradores sob ameaça de morte:
- A cada operação, aparece mais gente denunciando novos casos. Até hoje, fico impressionado com o grau de submissão de trabalhadores sob ameaça.
APROVADA EM COMISSÃO DO SENADO LEI QUE INSTITUI A "LISTA SUJA"
Comissão do Senado aprova lei que institui a "lista suja"
Projeto de lei que institui a "lista suja" do trabalho escravo é aprovado por unanimidade na Comissão de Assuntos Sociais do Senado. O documento prevê a proibição de crédito a empresas que utilizaram mão-de-obra escrava
REPÓRTER BRASIL-06/09/2006
Por Iberê Thenório
A Comissão de Assuntos Sociais do Senado aprovou por unanimidade, na manhã desta quarta-feira (6), o projeto de lei PLS 207/2006, que proíbe a contratação e a concessão de crédito a pessoas ou empresas que tenham submetido pessoas a condições degradantes de trabalho ou que tenham imposto grave restrição à liberdade individual de seus empregados.
Essa proposta, de autoria da senadora Ana Júlia Carepa (PT-PA), institui sob forma de lei o já existente cadastro de empregadores que utilizaram mão-de-obra escrava, conhecido como a "lista suja". Nessa relação encontram-se propriedades que comprovadamente utilizaram trabalho escavo. Para se transformar em lei, o projeto precisa ainda passar por mais duas comissões e pelo plenário do Senado, além de ser aprovado na Câmara dos Deputados e sancionado pelo Presidente da República.
A principal diferença entre o que é aplicado hoje pelo governo federal e a proposta aprovada pela comissão do Senado é que atualmente instituições financeiras apenas recebem uma recomendação para não conceder crédito aos listados no cadastro. O projeto de lei prevê uma proibição oficial, sendo que as instituições que não cumprirem a lei estariam sujeitas a uma penalidade equivalente a 40% do crédito concedido.
O projeto de lei também cria uma multa de R$ 3 mil por trabalhador para quem utilizar trabalho degradante ou escravo, que será paga à União. A cobrança desse valor seria adicional, sem modificar indenizações que hoje já são pagas por quem comete esse crime.
Para tipificar o que será considerado como condição degradante de trabalho, enumeram-se seis itens no projeto de lei, que incluem maus tratos, condições penosas de trabalho, retenção de documentos e descontos salariais não previstos em lei. O projeto também tipifica a restrição à liberdade. Entre as ações que definem a prática estão a utilização da cantina (que possibilita o endividamento fraudulento do trabalhador por cobrança de preços de alimentação acima do normal), aliciamento, ameaças e cerceamento do deslocamento do trabalhador.
Atualmente, a "lista suja" é regulamentada por uma portaria do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), criada em dezembro 2004. Caso seja transformado em lei, perdem força os questionamentos jurídicos sobre sua validade.
Atualizada semestralmente, a lista conta hoje com 178 nomes de pessoas ou empresas que foram condenadas em ultima instância em processo administrativo no MTE por trabalho escravo. Tanto instituições públicas, como o Banco do Brasil, Banco da Amazônia, Banco do Nordeste e o BNDES, quanto privadas, como o ABN Amro, Santander e Bradesco, não emprestam recursos para os relacionados na "lista suja".
Ao mesmo tempo, há mais de 90 empresas e associações que assinaram o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, lançado pelo Instituto Ethos e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), que se comprometeram a acabar com esse tipo de crime em suas cadeias produtivas. Para isso, negam-se a adquirir, direta ou indiretamente, mercadorias produzidas por fazendas da "lista suja". Estão entre as empresas que adotaram esse comportamento as redes varejistas Carrefour, Pão de Açúcar e Wal-Mart, os distribuidores de combustível Ipiranga, Petrobrás e Shell, a indústria têxtil Coteminas, entre outras, representando uma parcela significativa do Produto Interno Bruto nacional.
COMBATE AO TRABALHO ESCRAVO É DESTAQUE NA IMPRENSA INTERNACIONAL.
PRISIONEIROS DA FLORESTA TROPICAL 05/09/2006
O combate ao trabalho escravo no Brasil ganhou destaque na mídia internacional neste final de semana. A coluna Toda Mídia, do jornal Folha de S. Paulo, destaca:
Sob o título "Prisioneiros da floresta tropical", a revista do "Sunday Times" retratou ontem (domingo) como "fazendeiros na Amazônia estão não apenas destruindo" mas explorando "brasileiros destituídos", mantidos em "cativeiro". Com depoimentos de frei Xavier Plassat, dominicano no Pará, e membros da Anti-Slavery International, de Londres, o texto é pouco otimista -em especial quanto aos libertos, que sem opção de sobrevivência retornam ao cativeiro.
A mesma coluna do jornal Folha de S. Paulo registra o trabalho realizado pela ONG Repórter Brasil. "CONDIÇÕES DEGRADANTES" O site Repórter Brasil se dedica sem parar ao combate à escravidão, como ao noticiar, dias atrás, o flagrante de milhares, em três fazendas de Goiás; o site sugere uma "carta-compromisso" a eventuais candidatos, para priorizar a questão -e por enquanto só Cristóvam Buarque assinou".
DETENÇÃO IRREGULAR
STJ defere habeas corpus e coordenador do MST deixa prisão em Pernambuco.
Superior Tribunal de Justiça considera inconsistente motivação para prisão preventiva do líder do MST de Pernambuco, Jaime Amorim, detido desde o último dia 21. Deferimento de hábeas corpus nesta segunda liberou Amorim no fim da tarde.
Verena Glass - Carta Maior 28/08/2006
SÃO PAULO - O Superior Tribunal de Justiça deferiu nesta segunda (28) o habeas corpus impetrado na última sexta (25) pela defesa do coordenador nacional do MST em Pernambuco, Jaime Amorim. Amorim teve a prisão preventiva decretada ao deixar o velório de outro integrante do movimento, assassinado no domingo passado, alegadamente por não ter comparecido a uma audiência em maio deste ano.
Acusado de ter liderado uma manifestação contra a visita do presidente americano George Bush ao Brasil em dezembro de 2005 – no ato, algumas vidraças do consulado americano foram danificadas -, Jaime Amorim foi denunciado pelo Ministério Público de Pernambuco e citado posteriormente por um edital no Diário Oficial para uma audiência na Justiça, à qual, por desconhecimento, não compareceu.
Segundo a Justiça, “a prisão [preventiva] faz-se necessária para a segura aplicação da lei penal e a garantia da ordem pública, uma vez que, o acusado, em liberdade, poderá colocar em risco a paz e a segurança dos cidadãos de bem. Além do que, o denunciado não possui endereço fixo, o que com certeza, compromete a segura aplicação da Lei Penal."
“Foi a dificuldade de se encontrar o paciente, pelo visto, que deu motivo à segregação provisória. Isso, porém, não era e não é suficiente, tratando-se, ainda mais, como aqui se trata, de prisão de cunho altamente excepcional”, retrucou o ministro do STJ Nilson Naves no deferimento do hábeas corpus.
“Quanto ao segundo fundamento – garantia da ordem pública –, o decreto não se apoiou em elemento palpável, concreto de convicção. Ora, caso estivesse o paciente disposto a colocar em risco a ordem pública, levando-se em conta o tempo decorrido desde a prática dos fatos narrados na denúncia (5.11.05), já o teria feito, evidentemente”, conclui Naves.
Soltura
Na tarde desta segunda, Amorim foi novamente citado pela Justiça para prestar esclarecimentos sobre a manifestação de dezembro. Durante a audiência, a defesa apresentou ao juiz o hábeas corpus expedido pelo STJ para a assinatura imediata do alvará de soltura. Da audiência, o coordenador do MST voltou ao Centro de Observação e Triagem Professor Everardo Luna (Cotel), onde esteve preso desde o último dia 21, para encaminhar os trâmites burocráticos para a sua liberação, que ocorreu no final do dia.
SINAIT e ASSINTRA divulgam nota pública sobre ameaças à AFTs no Pará
O SINAIT e a ASSINTRA estão encaminhando nota à imprensa, organizações da sociedade civil e a diversas entidades, para denunciar ameaças que os Auditores Fiscais do Trabalho do Estado do Pará estão sofrendo por parte de empresários do ramo madeireiro, no município de Rondon do Pará. O sindicato solicita a todos que dêem plena divulgação ao documento:
NOTA PÚBLICA
A FISCALIZAÇÃO DO TRABALHO NÃO SE CURVA A AMEAÇAS
SINAIT E ASSINTRA DENUNCIAM
O Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho – SINAIT e a Associação dos Auditores Fiscais do Trabalho do Pará – ASSINTRA denunciam a obstrução e ameaças de políticos e empresários do ramo madeireiro de Rondon do Pará impostas à Fiscalização do Trabalho. O fato aconteceu durante ação fiscal que tinha por objetivo coibir a prática contumaz de descumprimento da lei trabalhista e desrespeito aos direitos dos trabalhadores naquele município.
A sociedade tem os seus direitos previstos em lei, delegando ao Estado o dever de assegurá-los. Compete ao Ministério do Trabalho e Emprego - MTE, por meio dos Auditores Fiscais do Trabalho, exigir o cumprimento da legislação trabalhista e de segurança e saúde no trabalho, garantindo, assim, o acesso aos direitos trabalhistas e a proteção da vida dos trabalhadores brasileiros.
A Delegacia Regional do Trabalho no Estado do Pará – DRT/PA elaborou o planejamento de ações fiscais para todo o Estado. Reconhecendo as dificuldades e o clima de insegurança na região, formou equipes de fiscalização compostas por Auditores Fiscais do Trabalho, com acompanhamento policial, para executar as ações, apurar denúncias de trabalhadores e atender solicitação do Ministério Público do Trabalho. Em cumprimento a determinações legais foram lavrados Autos de Infração e interditadas dezenas de máquinas que ofereciam risco à integridade física dos trabalhadores.
Numa afronta ao Estado Brasileiro, políticos e empresários, liderados pelo prefeito municipal de Rondon do Pará, organizaram-se para impedir que os Auditores Fiscais concluíssem sua missão. Pretendiam, a todo custo, tornar sem efeito os autos lavrados e suspender as interdições das máquinas perigosas. Insuflaram e jogaram a opinião pública contra a fiscalização do trabalho, ameaçaram interditar a BR 222 e fechar a entrada da cidade para sitiar os agentes públicos, criando um clima insustentável para o prosseguimento das ações fiscais.
Diante da gravidade da situação, o serviço de inteligência da Polícia Rodoviária Federal, recomendou, por medida de segurança, a imediata saída dos Auditores Fiscais da cidade, o que se deu de madrugada.
Não satisfeitos, políticos e empresários publicaram declarações caluniosas afirmando que a fiscalização teria utilizado nas interdições critérios injustos, diferenciados e de duvidosa seriedade técnica. As interdições das máquinas foram realizadas por Auditores Fiscais do Trabalho competentes e experientes, com especialização em Medicina e Segurança do Trabalho.
O SINAIT e a ASSINTRA exigem que o Ministério do Trabalho e Emprego tome providências para apuração desse episódio e oficie ao Ministério Público Federal para as medidas legais cabíveis. Exigem, também, o prosseguimento das fiscalizações, com as necessárias condições de segurança. Os responsáveis pela coação sofrida pelos Auditores Fiscais do Trabalho devem ser punidos, para impedir que fatos como esses venham a se repetir. A impunidade é a maior incentivadora de atos abusivos como os verificados em Rondon do Pará.
Brasil/agosto/2006
GRILAGEM DE TERRAS E ESCRAVIDÃO ANDAM JUNTAS NA AMAZÔNIA
JORNAL DO SENADO -21/08/2006
Cerca de 60% dos imóveis rurais onde é flagrado trabalho escravo não possuem registro no Incra
A grilagem de terras na Amazônia Legal é o carro-chefe de muitos crimes e problemas sociais, entre eles o trabalho escravo e a invasão de terras indígenas. Tomadas inicialmente para o desmatamento, as terras griladas dão prosseguimento à expansão da agricultura, da pecuária, do extrativismo mineral e da biopirataria na floresta, muitas vezes com ações de extrema violência.
Em grande parte dos casos, o trabalho escravo na região é conseqüência direta da grilagem de terras, ou seja, da apropriação de terra pública mediante falsa escritura de propriedade.
Segundo Patrícia Audi, coordenadora do Projeto Nacional do Combate ao Trabalho Escravo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil, os imóveis não possuem registro no Incra em cerca de 60% das propriedades onde auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego encontram pessoas em condições análogas às de escravos.
Ela explica que os trabalhadores escravizados atuam especialmente na derrubada da floresta para o plantio ou para a formação de pasto, o que explica o fato de Mato Grosso e Pará registrarem maior número de vítimas dessa situação de falta de liberdade, aliada ao descumprimento dos direitos trabalhistas.
Uma das iniciativas que têm dado certo é a publicação semestral da Lista Suja do Trabalho Escravo, um cadastro com o nome dos empregadores que utilizam mão-de-obra escrava, atualizado a cada seis meses pelo ministério.
* Isso tem ajudado no combate ao problema, porque os grandes mercados estão deixando de comprar dessas empresas * aponta Patrícia Audi.
Segundo o diretor de Ordenamento da Estrutura Fundiária do Incra, Marcos Kowarick, o instituto tem trabalhado com quatro linhas de ação para coibir a grilagem. Nos últimos dois anos foram ajuizadas 74 ações reivindicatórias de 400 mil hectares de terras públicas federais. Outras cem ações estão em fase de instrução.
Desde 2004, foram inibidos * impossibilitados de obter qualquer documentação * 46,7 mil cadastros de imóveis irregulares, grande parte fruto de grilagem. Desse total, em 1.613 imóveis foi realizada fiscalização cadastral no ano passado. Outros 1.500 serão vistoriados este ano, segundo Kowarick.
* Estamos ainda promovendo as ações de regularização fundiária e de ordenamento territorial em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, destinando as terras a quem de direito, e realizando ações integradas com vários órgãos. Com isso atacamos outros problemas, como o trabalho escravo, já que vários imóveis que mantêm pessoas nesse regime são na verdade terras griladas * informou o diretor do Incra.
Projetos buscam inibir trabalho escravo
Para o senador Sibá Machado (PT-AC), o problema do trabalho escravo * assim como a grilagem * na Amazônia Legal só será resolvido quando houver sanções mais severas.
* O trabalho escravo fere o princípio da função social e por isso quem o pratica deve responder por isso, muito além da multa. Além disso, as terras comprovadamente envolvidas com essa realidade devem ser passíveis de confisco * declarou.
Senadora pelo Pará, Ana Júlia Carepa (PT) apresentou projeto de lei (PLS 207/06) que proíbe a concessão de créditos e a contratação por licitação de pessoas físicas ou jurídicas que utilizem mão-de-obra escrava.
* Acreditamos no progresso do Pará e queremos o seu crescimento. O que não podemos admitir é que ele ocorra às custas dos direitos humanos e do meio ambiente. Temos convicção de que há limites morais para o crescimento que se baseiam no respeito à pessoa humana e à natureza * disse a senadora.
Nas duas Casas do Congresso Nacional tramitam diversos projetos para coibir essa prática ilegal de escravidão.
Na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado espera votação o PLS 9/04, do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), que propõe tipificar a submissão de trabalhador a condição análoga à de escravo como crime hediondo. * Os números impressionam tanto quanto a gravidade dessa aviltante prática criminosa * ressalta Crivella.
Há dois anos tramita na Câmara dos Deputados a Proposta de Emenda à Constituição 438/01, já aprovada pelo Senado. De acordo com a proposta, que espera votação em segundo turno naquela Casa, as glebas onde for verificada exploração do trabalho escravo deverão ser imediatamente expropriadas e destinadas à reforma agrária.
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Encobertos por "laranjas", grileiros raramente são punidos
Isolamento e violência impedem fuga de trabalhadores
Pelo menos 70% dos casos de trabalho escravo detectados pelo Ministério do Trabalho e Emprego estão concentrados na região da Amazônia Legal. E a maior parte desses trabalhadores é aliciada no momento do desmatamento da floresta, ação concentrada na mão dos grileiros.
A constatação é do coordenador do Grupo Móvel de Combate ao Trabalho Escravo do ministério, Marcelo Campos.
* Raramente conseguimos chegar no verdadeiro grileiro. Nas ações de fiscalização, geralmente encontramos o "laranja", que não tem documentos para comprovar o título da terra * explica Campos.
Ao detectarem a presença de trabalhadores em situação irregular, os auditores fiscais do trabalho determinam a imediata quitação dos débitos dos empregados e aplicam multas.
Todos os relatórios são enviados para outros órgãos, como Ministério Público Federal e do Trabalho e Polícia Federal, para que seja dado prosseguimento a indiciamentos e ações penais e civis. No ano passado, o grupo móvel libertou 4.310 trabalhadores em 84 ações.
A Amazônia recebe trabalhadores em busca de emprego de várias regiões. Lá, eles já chegam devendo transporte e alimentação. Acabam tendo suas dívidas compradas pelos "gatos" que os levam para as fazendas ou propriedades griladas, onde contraem novas dívidas que os tornam devedores dos empregadores.
* Além disso, o isolamento geográfico * muitas vezes trabalham em áreas localizadas a 80 quilômetros da cidade mais próxima * os impede de fugir. Muitos também são vigiados por guardas armados, que castigam ou matam os que não cumprem as ordens * explica Patrícia Audi, coordenadora do Projeto Nacional do Combate ao Trabalho Escravo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil.
Segundo Patrícia, a indecisão sobre a que Justiça cabe julgar os processos * se a Federal ou a estadual * acaba por prejudicar a punição aos que escravizam os trabalhadores.
* A Justiça Federal entende que essas questões são de sua alçada, mas, quando há recursos, os tribunais superiores entendem que a competência é da Justiça estadual * explica. Com isso, muitas denúncias acabam não sendo apuradas.
A Comissão Pastoral da Terra é responsável por grande parte das denúncias referentes à exploração de seres humanos na Amazônia Legal. Para José Batista Afonso, membro da Coordenação Nacional da CPT, a ação dos grileiros está diretamente relacionada a um processo violento de destruição da floresta e à utilização do trabalho escravo.
CAMPANHA PELA DEMACARÇÃO DAS TERRAS TUPINIQUINS E GUARANIS
ROUBADAS PELA EMPRESA ARACRUZ
Estimados amigos e amigas
Como todos sabem na década de 60/70 a empresa ARACRUZ sob o manto da ditadura militar, se apoderou de ao redor de 18 mil hectares de terras indigenas, pertencentes aos povos Tupiniquin e Guarani, no norte do espirito santo.
As terras foram utilizadas para o cultivo das plantações industriais de eucalipto e viabilizar a fabrica de celulose.
Para tripudiar e demonstrando seu total desprezo por nosso povo, a empresa de origem Noruguesa e britanica (grupo Lorentzen e BAT) colocou as instações industriais na beira do mar, bem cima do que havia sido uma aldeia, com cemiterio indigena e tudo.
Mas os tempos foram mudando. Há uns dez anos atrás com a retomada da luta indigena, a empresa ofereceu então uma indenização anual, para os povos indigenas não reclamassem mais suas terras.
Mas terra indigena não é questão de arrendamento ou indenização !
A luta seguiu.
No proximo dia 20 de agosto os antropologos da FUNAI devem entregar toda documentação para o Ministro da Justiça, comprovando de que não há nenhuma dúvida. Aquelas terras sempre foram, desde tempos imemoraveis, terrirrotiros dos Tupiniquins e dos Guarani.
O Ministro da Justiça Dr. Marcio Thomas Bastos se comprometeu em recente visita ao Espirito Santo, de que assim que recebesse o prcoesso com os documentos, assinaria portaria delimitando a area, e iniciando a fase final de demarcação definitiva da area para aqueles dois povos, e devolvendo assim um direito justo, aos povos indigenas, vilipeados pelo estado brasileiro a serviço de uma empresa internacional de exportação de celulose.
Diante disso, pedimos a que todas as pessoas de boa vontade, enviem suas mensagens ao MInistro Marcio Thomas Bastos, para que apenas cumpra com sua palavra e assine a portaria que define os limites das terras tupiniquim e guarani.
Divulguem entre seus amigos e nos meios alternativos de informação.
Saudações
Secretaria de direitos humanos do MST
PS Lembre-se tambem, de que a mesma empresa, no mesmo periodo, tomou as terras de aproximadamente 10 mil familias de camponeses negros, descedentes de quilombolas, na mesma região.. pois os mesmos não possuiam titulos de suas terras e viviam como posseiros.
Fazenda de cana é flagrada com 249 trabalhadores escravos no MT
Nas instalações descobertas nesta quarta (9), os trabalhadores dividiam um único banheiro, cujo esgoto a céu aberto corria em frente ao local onde dormiam. Dono da fazenda deverá desembolsar mais de R$ 500 mil em dívidas.
Iberê Thenório* - Especial para a Carta Maior 10-08-2006
SÃO PAULO - O grupo móvel de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) libertou, nesta quarta-feira (9), 249 trabalhadores que estavam submetidos a condições análogas à escravidão na fazenda Agropecuária Pôr-do-Sol, no município de Campos de Júlio, no Oeste do Mato Grosso, próximo à fronteira com a Bolívia. A fazenda, que cultiva cana-de-açúcar, pertence à Lenny Olívia Artmann, gerente de uma agência do Banco do Brasil em Cuiabá, e é administrada por seu marido, Neri Guilherme Artmann. A produção era vendida à usina Usimat, perto da propriedade.
Para ressarcir as dívidas trabalhistas, eles deverão desembolsar cerca de R$ 530 mil. O Ministério Público do Trabalho (MPT), que enviou um procurador à fiscalização, acionará a Justiça com uma ação civil pública, pedindo indenizações por danos morais coletivos.
Apesar do nome de Lenny constar do contrato social da empresa, investigações iniciais do MTE indicam que podem haver outros proprietários.
Como um presídio
De acordo com o relato do coordenador da ação de fiscalização, o auditor do trabalho Humberto Célio Pereira, a jornada dos libertados começava às três da manhã, quando se dirigiam à roça para cuidar da cana. Sob o sol, sem lugar para se abrigar, recebiam refeições estragadas, bebiam água quente e não tinham local para fazer as necessidades. Como supostamente ganhavam por produção, se esforçavam para cortar o máximo de cana possível.
Quando chegava o momento de descansar, às cinco da tarde, voltavam para o alojamento, onde dividiam o quarto - de seis metros quadrados - com até 11 colegas, mais alguns instrumentos de trabalho, ratos e moscas. O telhado, de amianto, transformava o cômodo em uma estufa, em uma região que chegou a registrar 36ºC na última semana.
Nas instalações, os 249 trabalhadores dividiam um único banheiro. Quando se dava a descarga, o esgoto corria a céu aberto, em frente ao local em que dormiam. Também não era possível que todos tomassem banho, e eram obrigados a se lavar sob a torneira.
Por causa das péssimas condições, o grupo móvel encontrou trabalhadores doentes, com cortes e infecções intestinais. "O alojamento lembra um presídio. É uma verdadeira pocilga", relata Humberto.
Se houvesse a necessidade de comprar qualquer produto, a fazenda tinha uma cantina. Lá era possível adquirir facões, limas, botinas, pilhas, cigarro, remédios e até mesmo bebidas alcoólicas. Caso alguém tivesse algum problema grave e precisasse ir à cidade - de menos de cinco mil habitantes, que fica a 80 km da fazenda por uma estrada de terra - cobrava-se R$ 35,00 pelo transporte. As dívidas eram registradas em um caderno, que ficava com os "gatos" (contratadores de mão-de-obra a serviço dos fazendeiros).
No final do mês, quando deveriam receber o salário, a dívida era descontada. Uns recebiam pouco, outros nada, e alguns ficavam devendo. Segundo Humberto, havia dívidas que chegavam a R$ 3 mil. As contas do pagamento por produção eram fraudadas: quanto mais se cortasse cana, menos valia o metro cortado.
De volta para casa
Quando os trabalhadores foram contratados, em seus estados de origem (Alagoas, Maranhão, Piauí, Pernambuco e Paraíba) os "gatos" lhes prometeram que ganhariam cerca de R$ 1500,00 por mês. Depois de viajar cerca de três mil quilômetros, tiveram que trabalhar por oito meses em situações degradantes, sem poder sair da fazenda.
A libertação só aconteceu porque três trabalhadores conseguiram fugir. A pé, tiveram que percorrer mais de 100 km, quando conseguiram pegar carona com policiais federais até Cuiabá, onde fizeram uma denúncia.
Agora, além pagar as dívidas trabalhistas, os empregadores também terão que garantir a volta dos trabalhadores para casa. O pagamento começou a ser feito nesta quinta-feira (10) e o grupo móvel continuará presente na propriedade até que todos os trabalhadores recebam e voltem para casa. Eles também terão direito a três parcelas do seguro-desemprego.
* Iberê Thenório integra a ONG Repórter Brasil.
Nota à Imprensa 08/08/06
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) vem a público esclarecer a matéria do Jornal Hoje veiculada hoje (08) pela rede Globo, que mostrou crianças dos assentamentos da região de Bituruna, região Sul do Paraná, trabalhando em carvoarias.
Em primeiro lugar, a mulher que dá depoimento na reportagem não é assentada, nem integrante do MST. Portanto, não recebeu os benefícios do programa de reforma agrária.
Diferentemente do que afirma a reportagem, os 502 trabalhadores, assentados em sete assentamento, no município de Bituruna, vivem da agricultura familiar, e trabalham com manejo sustentável da mata, erva-mate, produção de milho, feijão, mandioca, batata e alimentos para o auto-consumo. milho e produção de auto-consumo. A produção de carvão é uma fonte de renda complementar das famílias, uma vez que parte das terras não é apropriada para a agricultura - problema inerente a muitos outros assentamentos de reforma agrária no país, que padecem da falta de infra-estrutura e subsídios agrícolas.
Na agricultura familiar, é normal os pais levarem os filhos para a roça, no período que não estão na escola, para não deixá-los sozinhos em casa.
Isso faz parte da cultura camponesa. As crianças dos assentamentos de Bituruna estudam, apesar de os filhos de assentados enfrentarem grandes dificuldades para ter acesso à educação. Precisam se deslocar até a cidade, que fica distante de suas casas, já que as escolas que funcionavam dentro dos assentamentos foram fechadas pelos prefeitos de Bituruna, Remi Ransolin e Lauro Augustini. Só existem escolas, de ensino
fundamental, no assentamento Santa Barbara e Rondon 3. Até hoje os trabalhadores reivindicam educação nos outros locais, mas a prefeitura ainda não resolveu o problema.
O manejo da bracatinga permite a produção de carvão, tanto que no assentamento Sonho de Rose, em Bituruna a Embrapa desenvolve um experimento de manejo da planta. A bracatinga é uma árvore nativa da região, que se regenera muito rápido, seu ciclo de vida é de oito anos.
O Iap (Instituto Ambiental do Paraná) está desenvolvendo o projeto TAC (Termo de Ajuste de Conduta) para regularizar a produção de carvão nessa região.
O MST repudia as falsas denúncias da reportagem, usadas para
criminalizar a reforma agrária e a luta pela terra, e exige dos órgãos públicos que providências para garantir uma verdadeira educação popular e do campo.
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST
Senador do PL está na lista dos que exploram trabalho escravo
A nova versão da lista foi divulgada na terça-feira, 1°, pelo Ministério do Trabalho. Foram incluídos 26 novos nomes, totalizando 178 infratores
O POVO Online 02/08/2006 21:09
O senador João Ribeiro (PL-TO) e o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, acusado de ser um dos mandantes do assassinato da missionária Dorothy Stang, são os dois novos integrantes do Cadastro dos Empregadores, conhecido como “lista suja”, que contém o nome de empregadores flagrados explorando mão-de-obra escrava em propriedades rurais.
A nova versão da lista foi divulgada na terça-feira, 1°, pelo Ministério do Trabalho. Foram incluídos 26 novos nomes, totalizando 178 infratores. Por decisão judicial, 30 empregadores foram retirados provisoriamente da relação.
De acordo com os dados divulgados, o senador do PL é proprietário da fazenda Ouro Verde, no município de Piçarra, no sul do Pará, onde a fiscalização encontrou 35 trabalhadores em situação degradante. As indenizações que deverão ser pagas somaram R$ 76 mil. Já o fazendeiro Vitalmiro é proprietário da fazenda Rio Verde, na zona rural de Anapu, no Pará.
A atualização semestral da lista consiste na inclusão de nomes de empregadores cujos autos de infração não estejam mais sujeitos a recursos. A atualização também contempla a exclusão daqueles que, ao longo de dois anos, contados de sua inclusão no cadastro, corrigiram as irregularidades identificadas pela inspeção do trabalho.
Dos 38 empregadores com perspectivas de exclusão pelo decurso de prazo, apenas 12 foram excluídos, por preencherem os requisitos exigidos. As principais causas de manutenção do nome no cadastro são a não quitação das multas impostas, a reincidência na prática do crime e o trâmite das ações no Judiciário.
CARTA-ABERTA A BOAVENTURA
Flavio Wittlin
Diretor-Presidente
VIRAMUNDO
Tomei conhecimento de sua carta ao seu amigo Frank e pensei que o aperto dos corações é duplo. Preciso dizer agora que é triplo.
Como você sabe presido a VIRAMUNDO.
Brasileiro judeu, filho e neto de judeus poloneses e ucranianos, que se refugiaram (os que conseguiram) no Brasil pouco antes da 2a Grande Guerra Mundial, tenho vivido um momento de terrível emoção dilacerada.
Por um lado, um estado de alegria crescente por estar confiante na construção dos projetos da VIRAMUNDO. Não só aquele da Rocinha dizendo respeito à Segurança Alimentar e ao Fome Zero, como também outro relativo à questão dos refugiados que devemos apresentar no próximo Congresso Mundial de Saúde Pública no Rio.
Mas, alegra-me sobretudo a natureza multiétnica e a composição profissional e social diversificada que liga nossa ONG aos movimentos sociais. Alegra-me vendo-a pautar-se na defesa intransigente dos direitos humanos de acesso universal à saúde, à segurança alimentar, à cultura e à paz.
Por outro lado, tenho mergulhado em um estado de profunda tristeza, incorfomado e revoltado com o agravamento sem fim dos conflitos no Oriente Médio. Ali, onde os crimes contra a humanidade que têm sido maciçamente praticados são cometidos pelos que outrora foram vítimas preferenciais dos mesmos crimes: os judeus.
Aperto de coração como esse não podia ser maior.
Mas há de ser desta sístole que tentarei arrancar força e tenacidade para continuar a combater o mal.
Se não dela, o farei em nome das dezenas de meus parentes presos, torturados e trucidados no campo de concentração nazista de Lodz ou mortos combatendo com os soviéticos na frente oriental.
O farei em nome deles, contra - intransigentemente contra - o “espírito de capo” que terá se incorporado aos senhores da guerra judeus, o qual há várias décadas vem sedimentando apoio nas mentes e corações da maioria dos 13 milhões de judeus do mundo e de Israel.
Contra eles sim, os herdeiros espirituais e ideológicos dos velhos “capos”, a escória judaica que atuou como força auxiliar dos nazis nos campos de concentração. Contra eles que terão, com suas perversidades e sua perfídia, subido na cadeia de comando do aparelho de Estado israelense.
E que terão concordado em fazer o velho jogo agora em novo cenário:
O campo de concentração doravante é o entorno de Israel: o além-muro do diabólico Sharon, na Palestina, no Líbano, etc.
A força totalitária da vez é o Império americano-britânico
O “capo” é Israel, formado pelos mesmos judeus e herdeiros de judeus que o Império quis ver longe da Europa quando consentiu açodadamente a criação de Israel em 1948. Sua missão: oprimir os demais povos da região pelas mãos dos novos “capos”
Uma pergunta não cala no entanto: com tantas crueldades acumuladas desde longe na história, na carne e no espírito dos judeus não terá emergido dentro deles um sentimento moral em favor dos direitos da humanidade sobre a barbárie ?
Pelo visto, não.
Creio que Hanna Arendt já terá respondido negativamente a este respeito.
Ela terá percebido, com inquietação, que padrões de comportamento totalitário seguirão tendo potencial de retorno às gerações futuras, numa linha em que cada nova demonstração de hediondez e barbárie tende a apagar um eventual remorso acerca da anterior.
E nada disto na história humana se atém, muito pelo contrário, a um ou outro grupo étnico específico. Sérvios e croatas, de diferentes gerações, no século passado o terão dito. Cristãos libaneses e palestinos, idem.
Hoje, os marranos judeus tornaram-se sócios das forças globalizadoras da destruição, da dominação e da opressão, exercendo sem cerimônia e restrições morais a ilegalidade e a brutalidade típicas de um Golias. Não terão titubeado sequer em apagar o belo mito do pequeno grande herói Davi.
PERDÃO !
Esta foi a única palavra que encontrei para gritar ao mundo agora !
Um perdão revoltado, irresignado, incontido.
Para designar meu inconformismo pelo que o meu povo étnico, perdido num autismo resultante talvez de sua vitimização histórica, mas também da pusilanimidade de seus próprios traidores (“os capos”), vem fazendo contra os outros povos do mundo naquela região.
Há 15 anos, Martin, um jovem técnico de enfermagem alemão, louro e de olhos cintilantemente azuis veio à minha casa no Rio de Janeiro e por acaso conheceu minha avó judia polonesa de Lodz, que escapara da Polônia antes do dilúvio nazista.
Ao apresentá-la, Martin lhe pediu tão surpreendente quanto serena e firmemente:
PERDÃO !
Perdão, D. Rejla, pelo que o meu povo fez contra a sua família e todas as famílias de seu povo – ele disse.
A emoção que brotou dali não tem como descrever aqui em palavras, claro.
É o que peço agora.
PERDÃO, povo da Palestina !
PERDÃO, crianças, jovens, mães, pais e idosos feridos, mutilados e assassinados, e arrancados de suas casas, trabalho e vida pela hediondez do militarismo judaico.
Sou alguém consciente do direito que nós, judeus, temos à existência de uma pátria que não é maior ou menor direito do que os dos outros povos do mundo.
Repudio todos os que terão querido e tentado jogar os israelenses ao mar, do mesmo modo que continuarei repudiando crimes contra a humanidade praticados quer por judeus, quer por não-judeus em qualquer parte do mundo.
Peço apenas que ninguém se deixe enganar por outros senhores da guerra que também operam atrás da linha dos oprimidos: terroristas de milícias cuja contrapartida mais terrível vem a ser os nossos senhores da guerra judeus.
Quanto a você, camarada Boaventura, apoio integralmente sua sofrida decisão de não ir mais a este Israel belicoso. Eu que nunca tive oportunidade de estar ali, não o farei até que a chama do militarismo se desvaneça.
Proposta no Senado dificulta combate ao trabalho escravo
Emenda de Ney Suassuna (PMDB-PB) ao projeto de lei que trata da "Super-Receita" impede que auditores do trabalho apontem vínculos empregatícios entre empregados e patrões. Inclusão teria sido solicitada por empresas de comunicação
Agência de Notícias - Repórter Brasil
21/07/2006
Por Iberê Thenório
Em reuni ão prevista para o início de agosto, a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado decidirá se dará parecer favorável à emenda aditiva nº 94, proposta pelo senador Ney Suassuna (PMDB-PB), que impede que auditores do Governo Federal, inclusive do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), reconheçam vínculo empregatício entre trabalhadores e empregadores. Caso a emenda, que foi proposta ao projeto de lei que trata da "Super-Receita" (PLC 20/2006), seja aprovada no Congresso, o único órgão autorizado a reconhecer esses vínculos será a Justiça do Trabalho. Além de Suassuna, mais 62 senadores assinaram apoiando a proposição da emenda, tanto da oposição quanto da base governista. Isso representa cerca de 78% do 81 senadores.
Procurado pela reportagem, Ney Suassuna não respondeu para comentar a emenda. O senador é candidato à reeleição e nesta terça-feira (18) seu nome foi citado em uma lista da CPI dos Sanguessugas como um dos investigados no envolvimento no esquema de compra superfaturada de ambulâncias.
Seu gabinete afirmou que a emenda foi proposta atendendo a pedido de empresas de comunicação, que costumam utilizar serviços de jornalistas colaboradores na forma de pessoas jurídicas. O artifício isenta os veículos de comunicação do pagamento de encargos trabalhistas. "Essas pessoas jurídicas são constituídas especificamente para fraudar a relação de emprego", observa Rosa Maria Campos Jorge, presidente do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho (Sinait). Insatisfeitas com a atuação dos auditores do trabalho, essas empresas estariam pressionando para que o vínculo possa ser reconhecido apenas pela Justiça. A assessoria do senador não quis revelar quais seriam essas empresas.
O diretor de assuntos legislativos da Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho (ANPT), Moysés Simão Sznifer, aponta, ainda, uma brecha perigosa para o Tesouro Nacional que a emenda traz embutida: "Imaginemos uma situação em que o empregado faça um conluio com o empregador, para não pagarem tributos. Se nenhuma das partes acionar a Justiça, como fica o crédito da União, previdenciário, da receita?".
A proibição dos auditores em reconhecer vínculos trabalhistas poderia tornar ineficaz a fiscalização feita pelo MTE. Em qualquer caso em que não houvesse um contrato formal, como a assinatura da carteira de trabalho, os auditores ficariam impeditos de autuar o empregador. "Essa emenda inviabilizaria a fiscalização", prevê Ruth Vilela, chefe da Secretaria Nacional de Inspeção do Trabalho do MTE. Para Sznifer, os maiores beneficiados pela mudança seriam os que não cumprem a lei. "Isso estimularia a fraude à legislação, o contrato informal, o não registro", avalia.
O combate ao trabalho escravo pode ser uma das áreas prejudicadas pela emenda, pois a aprovação da proposta de Suassuna anularia o maior instrumento de repressão do MTE, que são as multas trabalhistas aplicadas durante as ações do Grupo Móvel de Fiscalização. Sem poder reconhecer vínculos trabalhistas, os auditores não podem emitir carteiras de trabalho provisórias - comum nessas operações - e exigir pagamento das rescisões contratuais. Esse pagamento só seria realizado se algum trabalhador entrasse com uma ação na Justiça do Trabalho e o processo fosse julgado até a última instância, o que poderia levar anos. Considerando o temor que muitos desses trabalhadores sentem de seus patrões na região de fronteira agrícola - devido à violência com que comumente são tratados - dificilmente um deles entraria com um processo contra o empregador.
Outros tipos de relações trabalhistas ilegais que podem ser estimuladas pela emenda são terceirizações irregulares, cooperativas fraudulentas e contratos irregulares de pessoas jurídicas ou de autônomos.
Poderes deslocados
Na avaliação do MTE, a emenda representa uma confusão de poderes, atribuindo tarefas administrativas, do Executivo, ao Poder Judiciário. Enquanto a função da Justiça do Trabalho é solucionar disputas entre trabalhadores e empregadores, e é acionada apenas quando uma das partes a requisita, a Inspeção do Trabalho, do MTE, tem função preventiva e punitiva, não necessitando que patrões ou empregados a acionem.
O vice-presidente da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), Claúdio Montesso, ratifica a posição do MTE, e ressalta que os dois poderes atuam de forma diferente, mas trabalham em harmonia. "Se a fiscalização tivesse recursos suficientes para autuar todas as empresas que descumprissem a legislação, a Justiça do Trabalho teria um trabalho muito menor", explica. O contrário - a redução do poder de fiscalização - aumentaria a lentidão do sistema judicial.
Hoje, após a autuação pelos auditores fiscais do trabalho, o empregador tem dez dias para apresentar um recurso administrativo junto ao MTE. Caso o recurso não seja aceito, é possível recorrer administrativemente mais uma vez, no momento em que a notificação é recebida. Durante ou após esse processo, ainda há a opção de apelar à Justiça do Trabalho.
"Super-Receita"
O projeto de lei que prevê a criação da "Super-Receita", um órgão que englobaria a Receita Federal e a Receita Previdenciária, também regulamenta as atribuições dos auditores do novo órgão e do MTE.
Apesar da emenda de Suassuna entrar como parágrafo único do artigo que trata dos auditores fiscais da Receita, e não do MTE, juristas afirmaram à reportagem que a mudança tende a afetar também a Inspeção do Trabalho. O motivo é que a emenda, como está colocada, pode dar margem à essa interpretação, embora o caput se refira à Receita Federal.
Prevendo restrições em sua atuação, auditores fiscais do Sinait estão solicitando aos senadores para que não aprovem a emenda na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, onde será colocada à apreciação na próxima reunião, prevista para o início de agosto. Caso a emenda seja aprovada e anexada ao texto da PLC 20/2006, o projeto de lei ainda precisará ser votado no plenário do Senado e retornar à Câmara dos Deputados, seguindo então ao presidente da República, que tem o poder de vetá-lo integralmente ou parcialmente.
CONATRAE PEDE EMPENHO E GOVERNO QUER INCLUIR PEC DO TRABALHO ESCRAVO NA PAUTA DA CÂMARA
Carolina Pimentel
Repórter da Agência Brasil 18/07/2006
Governo vai negociar inclusão da PEC do Trabalho Escravo na pauta da Câmara
Brasília - O ministro de Relações Institucionais, Tarso Genro, disse hoje (18) que o governo vai negociar a inclusão da Proposta de Emenda Constitucional 438, a PEC do Trabalho Escravo, na pauta de votações da Câmara dos Deputados no início de agosto.
A informação foi dada pelo próprio ministro aos integrantes da Comissão Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo durante reunião no Palácio do Planalto. A PEC já foi aprovada pelos senadores e em primeiro turno na Câmara, mas aguarda a aprovação em segundo turno pelos deputados desde 2004.
De acordo com a assessoria de Tarso Genro, o ministro vai conversar sobre o assunto com o presidente da Câmara, deputado Aldo Rebelo, e também com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A comissão solicitou o encontro com o ministro para pedir mais empenho do governo na aprovação da PEC que prevê o confisco da terra, sem indenização, onde for constatado trabalho escravo.
O representante da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) na comissão, Roberto Caldas, considerou um avanço a resposta do ministro. "Ele disse que conversaria com o presidente da Câmara, Aldo Rebelo, com o intuito de colocar em pauta a PEC já no início de agosto", afirmou Caldas, após o encontro.
Para a representante da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Patrícia Audi, a aprovação da proposta é uma oportunidade dos parlamentares demonstrarem interesse pelo tema.
"Nós entendemos que é uma grande possibilidade do Congresso mostrar que tem interesse em abolir um tema que seria impensável estarmos falando no Brasil do século 21: que é submeter trabalhadores a escravidão contemporânea", ressaltou Audi.
"Nós não podemos crer que nenhum parlamentar venha a se opor com relação a essa matéria. Nós não podemos acreditar que alguém ainda seja favorável à escravidão contemporânea."
Ainda de acordo com a proposta, a terra confiscada será destinada ao assentamento de famílias do programa de reforma agrária. Depois de aprovada na Câmara, a PEC deverá retornar ao Senado devido a alterações feitas pelos deputados.
A LENTA TRAMITAÇÃO NO CONGRESSO DE PROJETOS CONTRA O TRABALHO ESCRAVO
Por Iberê Thenório e Beatriz Camargo
REPÓRTER BRASIL - 26/06/06
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Doze projetos contra a escravidão seguem em marcha lenta no Congresso Nacional
Emperrados por sobrecargas em comissões, pedidos de vista, falta de interesse e ação da bancada ruralista, emendas e projetos de lei contra o trabalho escravo correm o risco de morrer nas gavetas de parlamentares
Se todos os projetos do poder legislativo federal para combater o trabalho escravo fossem aprovados hoje, os proprietários de fazendas escravagistas teriam suas terras expropriadas sem indenização, créditos negados em instituições públicas e privadas, pagariam pesadas multas e responderiam por crime conta o sistema econômico e crime hediondo, sujeitos a até dez anos de prisão, sem direito à pena alternativa.
Há pelo menos 12 projetos de lei e de emendas à Constituição que tramitam no Congresso Nacional para tentar coibir o trabalho escravo no Brasil, alguns deles propostos há mais de dez anos. As soluções sugeridas pelos parlamentares seguem por quatro caminhos: confisco de terras, multas, penas mais severas para o crime e restrição a créditos financeiros e incentivos estatais.
Até agora, a proposta de emenda constitucional (PEC) nº 438 é a que conseguiu chegar mais perto da aprovação. Considerada pelos órgãos governamentais e entidades da sociedade civil como um dos projetos mais importantes, a chamada "PEC do trabalho escravo" dá nova redação à lei que trata do confisco de propriedades em que forem encontratadas lavouras de plantas psicotrópicas ilegais, como a maconha. A PEC acrescenta a exploração de mão-de-obra análoga à escravidão nos requisitos para expropriação.
No Senado Federal, ela foi aprovada após dois anos de tramitação. Já na Câmara, apesar de ter sido apresentada pela primeira vez em 1995, empacou após sua aprovação em primeiro turno. Isso se deve à falta de vontade política e, principalmente, à pressão da bancada ruralista. Deputados como Ronaldo Caiado (PFL-GO) e Kátia Abreu (PFL-TO) atuam fortemente contra a sua aprovação.
Vale lembrar que a PEC só conseguiu sair da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC), onde estava parada, devido à visibilidade que o tema ganhou após o assassinato de três auditores fiscais e um motorista do Ministério do Trabalho e Emprego, em Unaí (MG), durante uma emboscada tramada por fazendeiros locais em janeiro de 2004. A comoção popular ainda empurrou a proposta plenário adentro, garantindo a aprovação em primeiro turno. Hoje, passados dois anos da chacina, nem a PEC está aprovada, nem os mandantes do crime presos.
"Se a sociedade não pressionar, acho muito difícil que a bancada ruralista permita que esse tema volte à pauta", reclama o deputado Tarcísio Zimmerman (PT-RS), relator da PEC na Câmara.
Outro projeto importante é o que altera o artigo nº 149 do Código Penal, que tipifica o crime de trabalho escravo e dispõe sobre suas penas. Proposto no Senado por Tasso Jereissati (PSDB-CE) há três anos, o projeto de lei define com mais precisão o que é trabalho escravo e inclui também, como punição, o confisco de equipamentos utilizados nas fazendas e bens produzidos por trabalhadores vítimas do crime. Prevê também o aumento da pena, que passaria de um mínimo de dois e um máximo de oito anos para um mínimo de cinco e um máximo de dez anos de prisão. O maior tempo de pena mínima contribuirá para impedir que os condenados consigam converter a cadeia em pena alternativa - que só pode ser concedida quando o réu tem de cumprir até quatro anos de reclusão.
A alteração já foi aprovada no Senado e hoje está nas mãos do deputado Vicentinho (PT-SP), na Comissão de Comissões de Trabalho, de Administração e Serviço Público. "Ele está tentando aprovar o projeto faz tempo, mas pedem vistas, relatórios, emendas, projetos apensados. Há um lobby muito grande para segurá-lo", explica Paulo César, chefe de gabinete do deputado.
Dos doze projetos, sete estão parados na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara ou do Senado, por onde passam quase todos os projetos de lei. Devido à sobrecarga da comissão, as propostas dependem de vontade política para serem aprovadas e continuarem tramitando. Para se ter uma idéia de quanto tempo uma proposição pode aguardar para ser analisada, está nessa comissão desde 1997 um projeto de lei que tipifica o trabalho escravo também como infração contra a ordem econômica. De acordo com um funcionário da comissão no Senado, o ano eleitoral e a grande quantidade de CPIs atrasam o trabalho. O sub-chefe de gabinete do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), João Rios, corrobora a avaliação de Zimmerman: "Se não houver clamor popular é muito difícil esses projetos saírem do papel". O senador é autor de um segundo projeto de confisco de terras onde houver trabalho escravo, que também aguarda aprovação da CCJC.
Punições econômicas
Para o subprocurador-geral do Ministério Público do Trabalho e Coordenador Nacional da Conaete (Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo), Luís Antônio Camargo de Melo, o confisco de terras e uma melhor tipificação do crime melhorariam o trabalho de combate à escravidão. "Uma punição eficaz será aquela que irá atingir o criminoso onde ele é mais sensível: na garantia da propriedade e no pagamento de indenizações", sustenta Camargo.
Uma outra solução encontrada para punir o trabalho escravo é impedir o financiamento estatal ou a participação em licitações de empresas que utilizaram esse tipo de maõ-de-obra. Há pelo menos quatro projetos, todos eles emperrados em comissões, que seguem por esse caminho.
Essas leis vêm para fortalecer medidas já tomadas pelo próprio Poder Executivo, como a criação, por meio de uma portaria do Ministério do Trabalho e Emprego, do cadastro de empregadores que comprovadamente flagrados cometendo esse crime. Essa relação, atualizada semestralmente, ficou conhecida como a "lista suja" do trabalho escravo e tornou-se referência internacional.
Quem é inserido nela, fica impossibilitado de receber crédito em agências públicas de financiamento como o Banco do Brasil, Banco do Nordeste e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e em alguns bancos privados nacionais e internacionais, como o Bradesco, o Santander e o ABN Amro Real. Empresas varejistas e atacadistas, indústrias e tradings signatários do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo também utilizam o cadastro para escolher seus fornecedores.
Contudo, como ainda não há lei que regulamente a lista, criminosos encontram brechas na legislação e conseguem tirar seus nomes da relação. Hoje, há 28 fazendas que conseguiram suspender temporariamente sua inclusão no cadastro através de ações nas Justiças Federal e do Trabalho.
REPORTAGEM SOBRE CADEIA PRODUTIVA DO TRABALHO ESCRAVO GANHA PRÊMIO ETHOS DE JORNALISMO
Época ganha Prêmio Ethos de Jornalismo
Fonte: site da Revista Época
O editor-assistente de Época, Ricardo Mendonça, e a repórter Ana Aranha ganharam o Prêmio Ethos de Jornalismo 2006 na categoria Revista pela série de matérias sobre trabalho escravo, publicada entre dezembro de 2004 e dezembro de 2005.
Na primeira reportagem da série, a repórter Ana Aranha acompanhou o grupo de fiscalização do ministério do Trabalho quando foram libertados 46 trabalhadores mantidos em regime análogo à escravidão em duas fazendas em Goiás. As propriedades pertenciam ao ex-prefeito de Santos, Beto Mansur, do PP, que lá cultivava soja, arroz e feijão e criava gado. Além de dormirem em um barracão de lona e palha sob o chão de terra, os trabalhadores tinham os valores das ferramentas descontados diretamente de seus salários, o que caracteriza escravidão por dívida.
Na matéria Novos Abolicionistas, Mendonça mostrou quais eram as matérias-primas prodizidas em fazendas denunciadas por exploração de mão de obra escrava e como esses produtos circulavam no mercado formal até chegar na ponta da cadeia produtiva. A matéria, baseada em um estudo feito pela ONG Repórter Brasil, provou que algumas das maiores e mais importantes empresas do país, como Shell, Ipiranga, BR, Pão de Açúcar, Carrefour e Coteminas, entre outras, estavam comercializando produtos que tinham na sua origem o trabalho escravo. Logo em seguida, essas empresas assinaram um documento em que se comprometeram a romper o vínculo com fornecedores flagrados nessa prática criminosa.
O júri especial da sexta edição do prêmio Ethos, entregue na noite do dia 21, era composto por Beth Carmona, Caio Túlio Costa, Carlos Eduardo Lins e Silva, Miguel Jorge, Ricardo Noblat e Sinval Medina. Além da revista Época, esse júri premiou a agência Envolverde na categoria Mídia Digital, a Eldorado AM na categoria Rádio, a TV Salvador na categoria Televisão e o Valor Econômico na categoria jornal. O prêmio Destaque foi entregue à TV Cultura. Os prêmios do juri virtual, votação dos associados do Ethos feita pela internet, estão no site da entidade: www.ethos.org.br
Além do prêmio Ethos para a revista Época foram concedidos os seguintes prêmios para matérias sobre trabalho escravo:
-Ronaldo Brasiliense, 2003 * Prêmio Esso * "A Impunidade dos Senhores de Escravos"
-Leonardo Sakamoto, 2003 * Vladimir Herzog * "Homens Tatu do Sertão"
-Raphael Gomide, O DIA, 2004 * Anistia Internacional *"Escravos do Século XXI"
-Agência Carta Maior, 2005 * Vladimir Herzog * "Dossiê Trabalho Escravo
Para ler as matérias premiadas acesse o site da revista Época no endereço
http://revistaepoca.globo.com/
Quilombolas são humilhados por polícia e fazendeiros em sua própria terra
Brasil de Fato – 15/06/2006
Marcelo Netto Rodrigues
www.direitos.org.br
No pior estilo “capitão do mato”, polícia prende de forma irregular nove trabalhadores, sob a “fiscalização” direta dos latifundiários locais. "Senhores quilombolas, trabalhadores de 70, 60 anos, depois de algemados e enfileirados, ficaram expostos ao ridículo por quase 10 horas num pátio da polícia para que a 'fazendeirada' da região passasse em revista dando risada deles", conta Paulo Roberto Faccion, da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Nove quilombolas do norte de Minas Gerais foram ridicularizados e presos de forma violenta pela Polícia Militar do Estado, sob a "fiscalização" direta dos latifundiários locais, por terem ocupado uma terra a que têm direito, no município de Porteirinha. Depois de algemados, os quilombolas ainda foram expostos aos fazendeiros que acompanhavam a ação, no pior estilo "capitão do mato". Um quilombola ainda continua preso.
A ocupação realizada por cerca de 30 famílias remanescentes do Quilombo do Gurutuba, na madrugada do dia 7 de junho, acontece três anos após o governo federal - por meio da Fundação Cultural Palmares - ter iniciado os estudos de reconhecimento e delimitação territorial da comunidade. O estudo, até o momento, mostra que 97% das terras que compunham o quilombo – e que serão devolvidas aos seus remanescentes em breve – estão hoje nas mãos de proprietários não-negros ou foram "griladas", por meio de títulos falsos.
HUMILHAÇÃO
"Senhores quilombolas, trabalhadores de 70, 60 anos, depois de algemados e enfileirados, ficaram expostos ao ridículo por quase 10 horas num pátio da polícia para que a 'fazendeirada' da região passasse em revista dando risada deles", conta Paulo Roberto Faccion, da Comissão Pastoral da Terra (CPT). "Nós entendemos que a ação da polícia é uma forma de pagamento pela prestação de serviço oferecida pela 'fazendeirada', que meses atrás deu um carro à polícia para que ela fizesse a patrulha rural".
A polícia alega que o despejo, feito sem mandato judicial, está de acordo com a lei porque teria acontecido no momento do flagrante da ocupação. Só que as famílias entraram na área às 4 horas da manhã e o despejo aconteceu às 16 horas - o que faz com que o despejo, na prática irregular, não pudesse ter sido realizado sem a ordem de um juiz.
Os quilombolas – cerca de 5 mil pessoas, de 600 famílias, que integram 27 comunidades –, hoje imprensados entre grandes propriedades, terão direitos sob 45 mil hectares quando o processo for concluído. Uma área considerável, equivalente a 45 mil campos de futebol. O que tem feito com que as ameaças contra eles tenham aumentado desde a divulgação da extensão da área a ser retomada. Além dos quilombolas do Gurutuba, o norte de Minas também é berço dos remanescentes do quilombo Brejo dos Crioulos, que também lutam pelo reconhecimento de suas terras.
REGULARIZAÇÃO
O Estado brasileiro ainda está longe de cumprir a lei que define a regularização dos territórios quilombolas. Na opinião de Faccion, da CPT, "a questão quilombola ainda está sendo tratada como se fosse um problemaagrário". "Juridicamente, eles deveriam ser equiparados aos indígenas. Eles têm direito sob o território deles, a vistoria do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) deveria ser dispensada".
O Brasil possui 2.228 comunidades remanescentes de escravos, de acordo com um estudo recente realizado pela Universidade de Brasília (UnB). Destas, apenas 71 áreas foram tituladas até o momento. Caso o ritmo atual seja mantido, serão necessários mais de 500 anos para que todas as terras sejam regularizadas, segundo cálculos do professor Alfredo Wagner Berno de Almeida, antropólogo da Universidade Federal Fluminense.
Semana em DeFEsa da Vida - 22 de 28 de julho
No último mês o Brasil esteve sob os holofotes da violência e dos debates sobre políticas de segurança pública. Em meio a esse clima, o Rio de Janeiro recordará os 13 anos da Chacina da Candelária, ocorrida no dia 23 de julho de 1993. Neste ano, a Cidade está se preparando para tirar o luto. Está na hora de deixar de falar na morte e celebrar a vida durante uma semana inteira: a Semana em DeFEsa da Vida.
Esta Semana está sendo promovida por Instituições que lutam pelo direito à Vida, em toda sua grandiosidade. Ela vai ocupar diversos espaços do centro do Rio de Janeiro com demonstrações da valorização da cultura da Vida. Neste sentido, movimentos sociais, populares e eclesiais, grupos de direitos humanos, empresas, parlamentares, personalidades, organizações não-governamentais e diversos outros interessados estão se juntando para dar defender a Vida.
Conhaça a Campanha em DeFEsa pela Vida e assine está idéia!
A página intitulada “Denúncias” do sitio www.torturanuncamais-rj.org.br com informações sobre os militares brasileiros que receberam treinamento na “Escola das Américas”, os Dossiês de alguns torturadores denunciados no “Projeto Brasil Nunca Mais”, elaborado pela Arquidiocese de São Paulo e divulgado pelo GTNM/RJ, além de outras informações sobre violadores de direitos humanos, foram apagadas do sitio do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ.
Ação como esta que tem como objetivo principal a intimidação e a censura deve ser repudiada, é uma tentativa desesperada de impedir a divulgação de atos indignos, de produzir o esquecimento e de perpetuar o silêncio sobre fatos que ocorreram num passado recente e que ainda hoje continuam acontecendo.
Entendemos que, além do repúdio e da indignação que esses fatos causam, torna-se necessário trazê-los ao conhecimento de toda a sociedade.
Queremos tornar público, e em especial para aqueles que se julgam senhores e donos da história do Brasil, que não nos calaremos, não nos intimidaremos. Continuaremos afirmando nossa luta no sentido de trazer para o conhecimento de todos as violações de direitos humanos cometidas em nome da segurança nacional e as que ainda hoje ocorrem em nome da governabilidade.
“Se cada luta se desenvolve em torno de um foco particular de poder, falar a esse respeito – forçar a rede de informação institucional, nomear, dizer quem fez, o que fez, denunciar o alvo – é a primeira inversão de poder, é um primeiro passo para outras lutas contra o poder”
(Michel Foucault)
Pela Vida, Pela Paz, Tortura Nunca Mais!
Rio de Janeiro, 15 de junho de 2006
LEVANTAMENTO Crianças são mais exploradas nas cidades Diário de Pernambuco 10/06/06
O trabalho infantil nas zonas urbanas pode causar mais impactos à saúde do que na área rural. A constatação é do pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queirós (Esalq-USP), Alexandre Nicolella, que analisou os dados da Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar (PNAD), de 1998 e 2003, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Fraturas, problemas respiratórios, queimaduras, cortes e dores musculares são algumas das conseqüências relatadas.
Leia a notícia na íntegra: http://portal.cremepe.org.br/publicacoes_clipping_ler.php?cd_clipping=3191
TJE CONFIRMA CONDENAÇÃO POR TORTURA DE DOIS POLICIAIS CIVIS DO SUL DO PARÁ, EM UM CASO DE REPERCUSSÃO INTERNACIONAL Xinguara, 05 de junho de 2006
Comissão Pastoral da Terra Xinguara-Conceição do Araguaia
Em 30.05.06 o Tribunal de Justiça do Pará confirmou a sentença de condenação por crime de tortura dos dois policiais civis RAIMUNDO DA CRUZ PACHECO e RAIMUNDO MONTEIRO RIBEIRO. O crime ocorreu em junho de 1999 quando o adolescente W., de 15 anos foi detido durante três dias na delegacia de Xinguara, Sul do Pará, espancado e ameaçado de morte dentro e fora da delegacia, sem que sua mãe, professora, fosse informada. Na sua saída, o jovem estava sofrendo graves perturbações mentais que deram causa à sua internação durante vários meses. Até a presente data a vítima se encontra ainda em tratamento, sendo que as despesas são pagas pelo Governo do Pará, por determinação de decisão judicial.
A partir deste caso foi divulgado na imprensa nacional e internacional, em 2001, um dossiê assinado por 13 entidades religiosas e de direitos humanos, apresentando vários casos de violência e tortura, até de homicídio, praticados por policiais civis nas delegacias do Sul do Pará, contra detidos, inclusive adolescentes. A reação da policia Civil do Pará foi extremamente violenta contra a vitima, sua mãe, seu advogado e as testemunhas, para inviabilizar o inquérito e o processo. O caso adquiriu importância nacional e internacional. O jovem, vitima, foi ouvido pessoalmente pelo Relator Especial da ONU sobre torturas, Sr. Nigel Rodley, em sua visita ao Brasil em 2001. A Anistia Internacional escolheu o caso como um dos dez mais emblemáticos para a sua campanha mundial contra as torturas em 2001.
Em 14.04.05 o Juiz da Comarca de Xinguara, o Dr. Cristiano Arantes e Silva, condenou os dois policiais civis Raimundo Monteiro Ribeiroa 8 anos de reclusão, o qual responde a outro processo por crime de tortura,e Raimundo da Cruz Pacheco a 5 anos e 4 meses de reclusão, ambos em regime fechado e com a perda da função pública.
Ressaltamos a importância do acórdão que manteve a condenação, visto tratar-se de um caso exemplar, cuja condenação provisória já havia surtido efeitos dissuasivos, diminuindo bastante a violência policial em Xinguara e Comarcas mais próximas.
No entanto, permanece a preocupação da CPT e entidades de Direitos Humanos quanto à efetividade do acórdão, tendo em vista existirem outras condenações no Estado e na região que nunca se concretizaram. É o caso de Adilson Laranjeira e Vantuir de Paula, por exemplo, condenados pela morte do sindicalista de Rio Maria, João Canuto, que estão foragidos desde julho de 2005.
Preocupa também o caso do lavrador Adão Pereira que morreu na delegacia de Policia em São Felix do Xingu, em 1993, vitima de espancamento por parte de um delegado e de outros policiais civis e militares. Até hoje o processo criminal ainda não terminou e a CPT e outras entidades estão preparando uma representação contra o Estado brasileiro junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA.
TRÁFICO DE MULHERES
Folha de Pernambuco – 31/05/2006
Robson Sampaio
Dados da pesquisa sobre o tráfico de seres humanos para fins sexuais, apresentados, na semana passada, pela ONG Centro das Mulheres do Cabo, denunciaram o que já se sabia, a mais ou a menos: 40% das mulheres aliciadas, no Nordeste, estão entre 20 e 30 anos, não tem estabilidade financeira nem familiar. A pesquisa foi anunciada pela Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Assembléia Legislativa, da qual a deputada Teresa Leitão (PT-PE) é vice-presidente, e foi feita junto a profissionais de turismo em Salvador, Fortaleza, João Pessoa, Natal e Recife, no final do ano passado. A coordenadora da ONG, Sílvia Cordeiro, informou que 96% dos entrevistados reafirmam que existe tráfico em Pernambuco. Em busca de uma melhor qualidade de vida, elas são atraídas pelas ofertas de aliciadores e acabam sendo escravizadas e exploradas sexualmente. É preciso ampliar o acesso da sociedade à informação, realizar campanhas preventivas nas escolas e sensibilizar turistas e profissionais da rede hoteleira. Teresa Leitão denunciou que o tráfico de pessoas é considerado um dos crimes mais lucrativos do País, perdendo apenas para os entorpecentes.
Mulheres - A representante do Coletivo Mulher Vida, Adriana Duarte, acredita que o tráfico de seres humanos também pode estar relacionado à violência doméstica e à falta de políticas públicas. Dos 930 municípios brasileiros, que têm crianças e adolescentes vítimas de abusos físicos e sexuais dentro de casa, mais de 200 localizam-se no Nordeste. Em Pernambuco, 70 cidades estão envolvidas.
DEFENSORES DOS DIREITOS HUMANOS SÃO AMEAÇADOS NO TOCANTINS.
Boletim Repórter Brasil 25/05/2006
Em região
historicamente marcada por conflitos fundiários, membros Núcleo de Direitos
Humanos de Ananás, no Tocantins, sofrem ameaças de fazendeiros insatisfeitos
com o combate à escravidão
Artigo - "Escravo": palavra proibida na fronteira agrícola "Escravo" está se
tornando em alguns lugares da Amazônia uma palavra maldita, que foge da boca
das pessoas. Pode trazer má sorte, garantida pelo latifúndio
Na beira do rio Xingu, 16 trabalhadores são libertados. Três mulheres
estavam entre os que trabalhavam no desmatamento de 144 hectares de mata
para o plantio de cacau. Fazenda fica a dez horas de barco de São Felix do
Xingu, no Pará
Grupo móvel resgata 23 trabalhadores no Sul do Pará
Carvoaria vendia para siderúrgica em Marabá (PA) e mantinha 23 pessoas em
situação de trabalho degradante, a maioria sendo migrantes vindos do
Maranhão. Entre resgatados estão dois jovens de 15 e 16 anos
Mesmo pressionada, Cargill não assina pacto contra escravidão
Apesar dos protestos internacionais contra a companhia (e de concorrentes já
tomarem medidas e estarem à sua frente), multinacional da soja não aderiu a
acordo da iniciativa privada que prevê o combate a esse tipo de exploração
Mídia contribui para erradicar o trabalho escravo, diz estudo
Pesquisa mostra como jornalistas e veículos de comunicação têm ajudado a
melhorar o combate ao trabalho escravo e, ao mesmo tempo, garantir a
segurança dos agentes públicos envolvidos nessa tarefa
Pará: fazendeiros querem a cabeça de frei francês Rogério Almeida - 12/05/2006
Carta de fazendeiros do sul do Pará sugere a expulsão da região, da Igreja e da CPT, do reconhecido nacional e internacionalmente, defensor dos direitos humanos e da reforma agrária na Amazônia, frei Henri des Roziers, militante > da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Xinguara, e não comandante, como sugere o desagravo assinado pelo Sindicato Rural de Xinguara, e endossado por outras instituições, como Lions e Rotary Club e a associação comercial.
Ao melhor estilo Casa Grande, embotada de toda arrogância, empáfia, a carta de indisfarçável tom ameaçador, datada de 25 de abril, foi endereçada ao bispo Dom Dominique You, da Diocese de Conceição do Araguaia, sul do Pará. A carta foi publicizada através da reportagem de Beatriz Camargo, vinculada no dia 09 de abril, no site que se dedica a denunciar o trabalho escravo, Repórter Brasil, www.reporterbrasil.com.
O estopim da bomba reside na ação desencadeada pelo MST, quando ocupou a fazenda do Grupo Quagliatos, em Sapucaia, em março. Com base em grilagens de terras e registro de uso de mão de obra escrava na fazenda Rio Vermelho, o MST, realizou a ocupação. Se a ocupação do latifúndio, ganhou os quatro cantos da grande mídia, a carta ameaçadora não teve a mesma repercussão.
Nem mesmo a ação da PM na reintegração de posse. Os sem terra permanecem acampados na região. O acampamento homenageia o dirigente sindical João Canuto, morto em Rio Maria. Os fazendeiros acusam o frei de radicalismo, e de constrangimento aos católicos de forma geral, e que tal atitude, estaria afugentado o rebanho da Igreja Católica. A singeleza da ameaça pode ser verifica no trecho da carta: O radicalismo da CPT de Xinguara, está conduzindo os produtores rurais a uma situação delicada, de revolta e insatisfação, e caso não ocorra mudanças naquele comportamento poderá advir confrontos de dimensões desagradáveis.
Uma outra pérola de sutileza, e espelho de como o que se chama de elite, percebe os sem terra tá revelado no trecho: que a sombra da CPT, lá permanecem praticando jogatinas, prostituição, consumindo drogas e bebidas alcoólicas, etc. Na reportagem de Camargo, consta que o bispo Dominique se solidariza com a militância do frei Henri, que trabalha na região desde 1979. O município de Xinguara, sul do Pará, tem funcionado como um ponto de arregimentação de trabalhadores rurais, que acabam sob condições análogas a de escravidão nas fazendas.
A atuação do frei Henri, tem sido nos últimos anos a de denunciar a situação. O clima é de tensão. Na mesma reportagem de Camargo, há informes que o deputado federal, Ronaldo Caiado (PFL/GO), tem realizado reuniões com os ruralistas da região. O mesmo é o nome mais expressivo na organização da União Democrática Ruralista (UDR), e dos contundentes defensores da categoria do Congresso.
Na década de 1980, os fazendeiros, madeireiros, grileiros, protagonizaram o período mais sangrento de luta pela terra na fronteira amazônica, no sudeste e sul do Pará. Sob a legenda da UDR, fomentaram bingos de gado, com vistas a angariar recursos que pudessem honrar os serviços da pistolagem.
Assim foram mortos os Canuto, Expedito Ribeiro, Gringo. Assim pipocaram chacinas como nas fazendas Dois Irmãos, Xinguara, saldo de seis mortos; Chacina de Ingá, 13 mortos, em Conceição do Araguaia; e a Surubim, em Xinguara, com saldo de 17 mortos. Nenhuma possui nem processo em tramitação. Todas ocorreram no ano de 1985. Será essa a inspiração dos ruralistas.
Rogério Almeida é colaborador da rede www.forumcarajas.org.br
SENZALAS NA AMAZÔNIA
No Pará, 25 mil pessoas são empregadas em condições degradantes em grandes fazendas. Estudo do governo mostra que produção, principalmente de carne, é vendida para países da Europa e para os EUA
Ullisses Campbell
Correio Braziliense 02/05/2006
O regime de escravidão está longe de acabar no Brasil. Um relatório do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) referente aos quatro primeiros meses de 2006 revela que já foram libertados 777 trabalhadores da escravidão em todo o país. A maioria foi resgatada no Pará, estado que ocupa o lugar mais alto do ranking nacional do trabalho escravo. "Tudo leva a crer que 2006 baterá todos os recordes em libertação de trabalhadores", analisa o coordenador nacional do Grupo Especial de Fiscalização Móvel do MTE, Marcelo Campos.
Estima-se que, só no Pará, haja 25 mil trabalhadores em regime de escravidão. Para o sociólogo Pedro Malta de Fátima, da Universidade Federal do Pará, o trabalho escravo cresce no Brasil por conta das longas distâncias na Amazônia. "Pelo o que a mídia divulga, o fazendeiro já deveria ter medo de contratar trabalhador dessa forma degradante. No entanto, eles continuam investindo nessa mão-de-obra", ressalta.
Vem do Pará também uma vitória do governo quando se trata da luta para erradicar o trabalho degradante no país. A Justiça derrubou mais de 20 liminares que obrigavam o Ministério do Trabalho a excluir da "lista suja" o nome de fazendas que foram flagradas praticando trabalho escravo. Hoje, essa lista tem 159 nomes e apenas 26 estão sob efeito de liminar. As fazendas que constam na relação estão impedidas de conseguir financiamento em bancos públicos. Ainda no Pará, a fazenda Cabaceiras está em processo de desapropriação pelo fato de já ter sido flagrada três vezes mantendo trabalhadores sob regime de escravidão. A empresa foi condenada a pagar uma multa recorde (R$ 1,3 milhão) por conta da infração.
Agronegócio
Nos 10 últimos anos, quase 20 mil pessoas ganharam a liberdade em operações de fiscalização do governo federal realizadas em cerca de 1.500 propriedades rurais. "Os relatórios dessas operações revelam que quem escraviza no Brasil são empresários do agronegócio, muitos deles produzindo com alta tecnologia. O gado, por exemplo, recebe tratamento de primeira: rações balanceadas, vacinação com controle computadorizado, controle de natalidade com inseminação artificial, enquanto os trabalhadores temporários vivem sem direito a água, comida e alojamento decentes, são espancados e humilhados, não podem voltar para casa", descreve Leonardo Sakamoto, da organização não-governamental (ONG) Repórter Brasil.
De todos os trabalhadores resgatados pelo governo, 5% eram reincidentes. "Isso mostra que a atividade prospera e está longe do fim. Quando o trabalhador vê na televisão imagens de pessoas sendo resgatadas e indenizadas, ele acaba estimulado a trabalhar nessas condições. Em seguida, eles mesmos denunciam e esperam pelo resgate", relata Pedro Malta.
Um levantamento sobre trabalho escravo feito para a Secretaria Nacional de Direitos Humanos mostra que as empresas que estão na lista suja exportam carne para Europa e Estados Unidos. Segundo o estudo do governo, as empresas da lista atuam nas seguintes cadeias produtivas: pecuária (carne e miúdos de boi), algodão (pluma), soja (grão, óleo e ração), cana-de-açúcar (álcool combustível e cachaça), café (grão verde), pimenta-do-reino (grão) e carvão vegetal (carvão para siderurgia). Boa parte deles produzidos nessa região de fronteira com a Floresta Amazônica. A pecuária responde por 80% do total.
Segundo o Ministério do Trabalho, os trabalhadores escravos resgatados no ano passado também atuavam em plantações de tomate e frutas; extração de madeira, entre outros. A pesquisa mostrou que são exportadas mercadorias cuja matéria-prima foi produzida com mão-de-obra escrava. Em alguns casos, como na soja, há a participação de empresas multinacionais na intermediação direta desses produtos.
Campeões de recrutamento estão no Nordeste Alojamento onde trabalhadores foram resgatados, no Pará
Myrian Alves/Divulgação
O Pará é o berço do trabalho escravo no Brasil. Mas os maiores fornecedores dessa mão-de-obra são o Maranhão e o Piauí, de acordo com pesquisas da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Segundo a Delegacia Regional do Trabalho (DRT), no Pará, mais da metade de todos os trabalhadores resgatados não sabiam em que estado estavam no momento da libertação.
Carlos José, 45 anos, nasceu na Paraíba, mas mora no Piauí. Nesses estados, ele tentou todo tipo de trabalho mas não conseguia sustentar a família de oito filhos. Em dezembro, entre o Natal e o ano-novo, Carlos deixou sua casa e sua família para trás e seguiu para o sul do Pará. Carlos trabalhou em uma serraria em São Geraldo do Araguaia, onde perdeu dois dedos da mão numa lâmina giratória de cortar madeira. "Me deram duas caixas de comprimido: uma para desinflamar e outra para tirar a dor. Depois, me mandaram embora", conta. Em seguida, ele foi limpar o pasto para o gado e levantar cercas na fazenda Cabaceiras, em Marabá (PA).
Segundo relata, Carlos foi levado para a fazenda por um "gato" (agenciador de mão-de-obra escrava). "Estava na rodoviária, passando fome, e ele apareceu. Prometeu um bom emprego. Quando cheguei na fazenda, vi que a situação era pior. A carne que me davam para comer estava podre, cheia de vermes", diz. Carlos foi resgatado no mês passado por fiscais do MTE.
Contratos fraudulentos
Segundo a Delegacia Regional do Trabalho, no Pará, a cada dia os fazendeiros tentam ludibriar a fiscalização para manter trabalhadores em regime de escravidão. "Uma forma nova é fazer contratos fraudulentos de trabalho, mascarando os fatos para não ser enquadrado no trabalho escravo", afirma o fiscal Paulo Thadeu de Sousa, da DRT-PA.
Ao ser flagrado mantendo trabalhadores em regime de escravidão, o fazendeiro Aloísio Alves de Souza, da fazenda Nossa Senhora Aparecida, no Pará, afirmou que fazia o pagamento mensalmente aos trabalhadores. Porém, descontava ilegalmente o valor da alimentação e de outros itens comprados na cantina da fazenda, gerenciada por ele próprio. Os peões recebiam o saldo restante em cheques, mas eram obrigados a usá-los no comércio local, mediante um desconto no seu valor nominal. No final, não recebiam um tostão. (UC)
BARREIRAS COMERCIAIS NÃO SÃO O MELHOR CAMINHO - RADIOBRÁS
Cientista político propõe restrição comercial seletiva a produtos da "lista suja"
Cecília Jorge -
Repórter da Agência Brasil 20/04/2006
Brasília - O mercado internacional precisa adotar um mecanismo de restrição comercial seletiva aos produtos brasileiros como forma de combate ao trabalho escravo. A medida é defendida pelo cientista político Leonardo Sakamoto, integrante da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae).
No final do mês passado, ele apresentou a proposta ao governo e empresários alemães. Sakamoto foi convidado para falar sobre o tema em uma comissão parlamentar em Berlim, onde ele defendeu a restrição comercial seletiva.
"Da mesma forma que o mundo inteiro checa a procedência se um produto tem febre aftosa ou não, a idéia é que cheque se tem trabalho escravo ou não", explicou Sakamoto, em entrevista à Agência Brasil.
O cientista político recomendou que os empresários estrangeiros, compradores de matéria-prima do Brasil, consultem antes a relação das fazendas onde foram encontrados trabalhadores em situação de escravidão, a chamada lista suja, disponível na página eletrônica do Ministério do Trabalho na Internet.
Coordenador da organização não-governamental Repórter Brasil, Sakamoto acha que essa pode ser uma alternativa eficiente à restrição total, medida adotada por alguns países da União Européia e prejudicial aos produtores não envolvidos com essa prática ilegal.
Recentemente, os ingleses resolveram boicotar a carne brasileira por acreditar que o trabalho escravo era comum em toda a cadeia produtiva. "Barreiras comerciais não adiantam mesmo porque vão estragar toda uma cadeia produtiva, vai estragar todo um setor agrícola que não tem nada a ver com isso", alertou o pesquisador brasileiro.
Segundo ele, para aqueles que adquirem produtos manufaturados, a orientação é exigir que os fornecedores informem nas notas fiscais a procedência da matéria-prima. Dessa forma, é possível saber se o produto saiu de uma fazenda que usa mão-de-obra escrava.
Pesquisa realizada pela Repórter Brasil a pedido da Secretaria Especial de Direito Humanos, em 2004, acompanhou o destino dos produtos das fazendas que constavam da lista suja e identificou que parte dessa produção era direta ou indiretamente destinada à exportação.
"Nós identificamos mais de 200 empresas brasileiras e transnacionais que utilizavam trabalho escravo ou que comercializavam com empresas que utilizavam trabalho escravo", afirmou Sakamoto.
O levantamento identificou a presença do trabalho escravo na pecuária (carne e miúdos de boi), soja (grão, óleo e ração), cana-de-açúcar (álcool combustível e cachaça), café, algodão, pimenta-do-reino e carvão vegetal para siderurgia. A pecuária respondia por 80% do total.
Apesar de não ter feito parte do estudo, outras cadeias produtivas também apresentariam esse problema, como as de tomate, frutas, madeira, entre outros. Como a pesquisa se baseou apenas na lista suja, outras mercadorias ficaram de fora da análise.
Empresa com trabalho escravo não terá contrato com o governo do RJ Fábio Vasconcellos - O Globo 12/04/2006
RIO - A governadora Rosinha Garotinho sancionou nesta quarta-feira, 12, o projeto de lei que proíbe o Executivo de ter contratos ou convênios com empresas que utilizam mão-de-obra de trabalho escravo. O projeto de lei, de autoria do deputado Alessandro Molon (PT), obriga as empresas interessadas em firmar convênios com o estado a apresentar certificado de regularidade expedido pela Delegacia Regional do Trabalho.
O projeto, porém, teve seu terceiro artigo vetado - o que determinava 90 dias para a regulamentação da lei, por parte do Executivo. O veto deve voltar para Assembléia Legislativa do Rio, onde será apreciado em plenário.
- Esta é uma medida que tem como objetivo criar constrangimento e dificuldade para empresas que usam mão-de-obra escrava, pois, lamentavelmente, ainda existem pessoas que adotam este expediente - diz Molon.
Decretada prisão de fazendeiro acusado de explorar trabalho escravo
Severino Goes - Escritório da OIT no Brasil 11/04/2006
Decretada prisão de fazendeiro acusado de explorar trabalho escravo
A Justiça Federal decretou a prisão preventiva do fazendeiro Olindo Chaves dos Santos por manter trabalhadores em situação análoga ao trabalho escravo. A denúncia é do Ministério Público Federal em Imperatriz no Maranhão.Olindo Chaves está na Lista Suja do Trabalho Escravo no Brasil, divulgada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos. A lista relaciona os principais escravagistas do país. O fazendeiro está foragido.
Segundo o Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos (CDVDH), seis trabalhadores rurais que fugiram da fazenda Campo Grande, em Açailândia (MA), de propriedade de Olindo Chaves, denunciaram as condições subumanas de trabalho dos empregados da fazenda.
Os trabalhadores noticiaram as condições humilhantes e desumanas em que viviam na fazenda Campo Grande, bem como as ameaças de morte que sofreram, feitas pelos "gatos" da fazenda, José Pereira da Silva e Silvestre Borges de Araújo, prepostos do dono da fazenda e, também, réus no processo.
A fiscalização, realizada pela Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), Grupo Móvel Região 04, verificou a inexistência de alojamentos condignos para os trabalhadores. Eles ficavam em barracos cobertos por lona plástica preta, sem paredes, sustentados por hastes de madeira. Além disso, homens, mulheres e até menores ocupavam o mesmo "barracão". 151 trabalhadores foram encontrados nessas condições. Entre os trabalhadores aliciados, três eram menores, três silvícolas da etnia Guajajara, aliciados na aldeia São Pedro, e um idoso.
Todo o trabalho era realizado com exposição direta ao sol. Os trabalhadores que desejassem adquirir os equipamentos de proteção individual tinham que comprá-los na cantina da fazenda - equipamentos e ferramentas previstos na Legislação Trabalhista como gratuitos. Os empregados ainda eram obrigados a beber água acondicionada em um tanque azul trazida do açude perto do barracão.
Os trabalhadores não poderiam sair da fazenda sem o pagamento de supostos débitos adquiridos na cantina. Nem mesmo em caso de doença o trabalhador poderia deixar de executar seu serviço ou mesmo ausentar-se sem quitar seus "débitos".
"De fato, os empregados eram constrangidos, mediante ameaças de morte, para continuarem na fazenda trabalhando, sendo posteriormente negada a contraprestação salarial, sob o argumento de que os trabalhadores deviam a cantina, visto que a alimentação fornecida era anotada em cadernos e cobrada com preços superfaturados", declarou a procuradora da República Andréa Silva Araújo.
Greenpeace recomenda que ''multinacionais da soja'' assinem pacto contra trabalho escravo
Juliana Andrade e Ivan Richard
Da Agência Brasil 10/04/2006
Brasília * Uma das recomendações da organização não-governamental Greenpeace Internacional contidas no relatório "Comendo a Amazônia" é que as multinacionais norte-americanas Gargill, Bunge e Archer Daniels Midland (ADM) assinem o Pacto Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo. A idéia é que as empresas se comprometam a comprar soja apenas de fazendas com títulos legais de terras, sem desmatamento ilegal e sem o uso de trabalho escravo.
O relatório classifica as empresas de "vilãs da indústria da soja brasileira" na Amazônia. Segundo o estudo, as atividades das multinacionais, que atuam no setor do agronegócio, ocorrem a partir de uma cadeia de ilegalidades, como o desmatamento para o plantio da soja, a grilagem de terras e o trabalho escravo na região.
Outra recomendação é que as empresas envolvidas no comércio de alimentos e ração animal devem garantir que não estão usando soja da Amazônia. Também devem desenvolver, com urgência, políticas de compra "que garantam que a origem legal, ambientalmente responsável e socialmente justa", o que inclui sistemas de rastreamento para verificar a origem dos ingredientes dos produtos, as condições em que foram produzidos e o impacto da produção.
O coordenador da campanha da Campanha da Amazônia do Greenpeace, Paulo Adário, explicou que a adesão ao pacto pode ajudar a reduzir o desmatamento. "Essa demanda foi incluída no relatório porque, como você tem evidências e provas de envolvimento de trabalho escravo - principalmente na fase de desmatamento, para a conversão da floresta em terra agrícola -, se você conseguir banir esse trabalho escravo e se as empresas assumirem o compromisso de assinar o pacto, elimina uma parte do problema, que é a mão de obra escrava utilizada no desmatamento", disse.
Adário lembra que a adesão ao pacto é voluntária. "Não existe nenhum mecanismo jurídico eu imponha a uma empresa essa decisão. Existem decisões de mercado, os consumidores podem fazer isso, podem recusar os seus produtos". O Pacto Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo foi lançado no ano passado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Instituto Ethos de Responsabilidade Social.
GRUPO QUAGLIATO APROPRIOU-SE ILEGALMENTE DE CERCA DE 30.000 HECTARES DE TERRA DA UNIÃO NA FAZENDA RIO VERMELHO, SUL DO PARÁ. Marabá, 03 de abril de 2006.
Despejo dos sem terra foi ilegal.
Segundo documento fornecido pelo INCRA de Marabá, o Grupo Quagliato, apropriou-se de forma totalmente ilegal, de cerca de 30.000 hectares de terras da União para formar a Fazenda Rio Vermelho, no Município de Sapucaia, Sul do Pará. Justamente nesta área estava o acampamento do MST, despejado no último dia 27, pela polícia militar.
Após a ocupação dos sem terra, o Grupo Quagliato ingressou com uma Ação de Manutenção de Posse na Vara Agrária de Marabá, com pedido de liminar para a retirada imediata das famílias. Na petição, afirmaram que as famílias tinham ocupado a fazenda Rio Vermelho e juntaram documento de propriedade atestando que o referido imóvel possui 26 mil hectares, oferecendo, inclusive, as coordenadas geográficas do imóvel. Com base na documentação apresentada, os advogados do MST e da CPT, requereram ao INCRA uma análise completa da documentação. O resultado comprovou que a fazenda Rio Vermelho, onde foi pedida a Manutenção de Posse, fica há 13 km do local em que o acampamento estava localizado, ou seja, a liminar foi usada para expulsar as famílias de uma área onde não foi pedida a Manutenção da Posse. Desta feita, o Grupo Quagliato agiu de má fé na Justiça para conseguir seu objetivo ilegal. O Juiz da Vara Agrária, que deferiu a liminar, poderia ter descoberto a manobra, caso tivesse realizado a audiência de justificação prévia, conforme estabelece o Código de Processo Civil, no seu Art. 928, onde as partes podem intervir. No entanto, a liminar foi dada, de imediato, sem realizar a audiência. O Oficial de Justiça, que deu cumprimento ao Mandado do Juiz, com apoio de mais de 200 policiais militares do batalhão de choque, também não verificou os limites da Fazenda Rio Vermelho, onde esta deveria ser cumprida e retirou as famílias.
Após uma semana do despejo ilegal, o batalhão de choque com mais de 200 policiais, modernamente aparelhados, inclusive com helicóptero, por determinação do Governador Simão Jatene e do Secretário de Defesa Social, Manoel Santino, continua a serviço do Grupo Quagliato, protegendo suas fazendas. Enquanto isso, a população do Sul e Sudeste do Pará, continua sofrendo com constantes assaltos nas estradas, ruas, residências, comercio, bancos e outras formas de violência, sem que tenha a mesma proteção que é dada para os fazendeiros. Além disso, as dezenas de mandados de prisão decretados contra pistoleiros e fazendeiros, acusados de assassinatos de trabalhadores não são cumpridos pela polícia, que também não prendeu Adilson Laranjeira Carvalho e Vantuir Gonçalves de Paula, fazendeiros condenados em 24.05.03 pelo assassinato do sindicalista João Canuto.
O Grupo Quagliato, conhecido como “Reis do Gado”, construiu seu império no Sul do Pará, sob a acusação da prática de crime de trabalho escravo. Foram flagrados, pelos fiscais do Ministério do Trabalho e pela Polícia Federal, casos em três de suas Fazendas no Sul do Pará, por três vezes. 328 trabalhadores foram vítimas desse crime. Em função disso, existe uma representação tramitando na Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos), contra o Governo Brasileiro e um processo criminal contra o gerente da Fazenda Brasil Verde, acusado do crime de Redução à Condição Análoga a de Escravo, atualmente no Superior Tribunal de Justiça. O Grupo também é acusado pelos colonos de apropriar-se ilegalmente, em 1997, de cerca de 1.000ha (hum mil hectares) do Projeto de Assentamento Escalada do Norte que faz divisa com a Fazenda Rio Vermelho. Vinte e três famílias foram impedidas de ser assentadas e o processo tramita no INCRA há seis anos sem uma solução definitiva.
Assim, com base na informação do INCRA, serão tomadas, de imediato, as seguintes providências:
Representação criminal ao Ministério Público Federal (MPF) contra o Grupo Quagliato pela prática do crime de apropriação ilegal de terras públicas, previsto no Artigo 20 da Lei 4796/66. Consequentemente será requerido ao MPF, que intervenha no processo de Manutenção de Posse para defender o interesse da União;
Pedido de reconsideração da decisão ao Juiz da Vara Agrária para que as famílias possam retornar ao local onde estavam, tendo em vista que, não havia decisão judicial para retirá-las dali;
Requerimento ao Juiz da Vara Agrária, a condenação do Grupo Quagliato em litigância de má-fé, conforme previsto no Art. 16 e 17 do Código de Processo Civil, e conseqüente pagamento de indenização às famílias;
Requerer que o INCRA ingresse com Ação Reivindicatória para arrecadar a área ilegalmente apropriada pelo Grupo Quagliato e destiná-la ao assentamento das famílias sem terra;
Solicitar ao INCRA levantamento cartorial e topográfico de todos os imóveis do Grupo no Sul do Pará, para averiguar possível apropriação ilegal de terra pública;
Representação contra o Oficial de Justiça por ter dado cumprimento à liminar fora do imóvel abrangido pela decisão;
Encaminhar denúncia ao Conselho Nacional de Justiça e exigir apuração da responsabilidade do Judiciário paraense;
EXIGIR A SUSPENSÃO IMEDIATA DA OPERAÇÃO DE DESPEJO E QUE O BATALHÃO DE CHOQUE ESTEJA A SERVIÇO DA POPULAÇÃO DO SUL E SUDESTE DO PARÁ NO COMBATE AOS ASSALTOS, ASSASSINATOS E DEMAIS FORMAS DE VIOLÊNCIA CONTRA AS COMUNIDADES DESSAS REGIÕES.
Comissão Pastoral da Terra – CPT regional Pará.
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST. Federação dos Trabalhadores na Agricultura – FETAGRI sudeste. Sociedade de Defesa dos Direitos Humanos – SDDH. Pastorais Sociais da Diocese de Marabá.
Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA.
Centro de Assessoria Jurídica e Social – CEPASP. Comitê Dorothy Stang.
Rede Nacional de Advogados Populares – RENAP
Caso Pimenta
Esperança de justiça 24 anos após crime Tribuna de Minas 04/04/2006
A família do advogado juizforano Gabriel Sales Pimenta, assassinado em Marabá (PA) em 1982, recebeu a notícia da prisão de Manoel Cardoso Neto, 80 anos, irmão do ex-governador Newton Cardoso (PMDB) e suspeito de ser o mandante do crime - com alívio e uma rara sensação de que, 24 anos depois, acabará a impunidade no caso. "Temos 100% de certeza que ele mandou matar Gabriel. As provas são claras", diz Rafael Sales Pimenta, irmão do advogado morto num conflito de terra. "A Justiça demorou, mas chegou", completa Glória Sales Pimenta, mãe de Gabriel. Manoel foi preso no domingo, em uma das fazendas do ex-governador, em Pitangui, Centro-Oeste do estado. Ontem, ele foi transferido para Marabá, onde deve aguardar julgamento.
Formado em Direito pela UFJF, Gabriel defendia 158 famílias de camponeses que estavam sendo ameaçadas de expulsão das terras por Manoel. Depois de uma vitória na Justiça, ele sofreu, na presença de testemunhas, ameaças de morte. Em 18 de julho de 1982, aos 27 anos, recebeu três tiros pelas costas. O autor dos disparos foi preso e morreu, assassinado, cerca de um ano depois. Manoel, desde então, estava sendo procurado. Ontem, a Polícia Federal efetuou a prisão com base num mandado de prisão expedido pela Justiça Comum do estado do Pará.
Rafael, que também é advogado, pretende acompanhar todo o processo, se possível em Marabá. "Temos esperança de um julgamento justo e de que Manoel seja punido. O importante é divulgar o caso ao máximo, para que isso não volte a se repetir. O que aconteceu com o Gabriel não foi, infelizmente, um crime isolado", observou. Glória prefere destacar o idealismo do filho: "Ele queria voltar a Juiz de Fora e estudar para ser diplomata, mas quando viu as injustiças que eram cometidas na região resolveu ficar e ajudar as pessoas necessitadas".
COMISSÃO DE TRABALHO DA ALERJ FLAGRA TRABALHO DEGRADANTE EM JACAREPAGUÁ Gilberto Palmares - 30/03/2006
Amontoados numa casa de apenas dois quartos, 15 trabalhadores que prestam serviço a Telemar na instalação de internet banda larga foram flagrados pela Comissão de Trabalho da Alerj e Ministério Público do Trabalho em blitz realizada na quarta-feira, dia 29, na localidade de Gardênia Azul, em Jacarepaguá.
A equipe chegou ao local graças à denúncia encaminhada ao Disque Denúncia Trabalho da Alerj, que atende pelo telefone 0800 2823596. Dos 15 trabalhadores, 14 vieram de outros estados e foram contratados "de boca" pela Rede Telecom. A empresa, instalada no Rio Grande do Sul, prestava serviço de maneira completamente irregular para a Telsul, esta sim contratada pela Telemar para instalação de Velox na região de Jacarepaguá e adjacências.
Na casa, o deputado Gilberto Palmares, presidente da Comissão de Trabalho da Alerj, e a procuradora Juliane Mombelli, do MPT, constataram que os trabalhadores dormiam, faziam as refeições e ainda dividiam espaço com o equipamento utilizado na execução do serviço. Sem carteira assinada, sem nenhum direito trabalhista e trabalhando por produção, desde janeiro eles não recebiam salário, sobrevivendo de vales. Acumularam dívidas nas casas comerciais do bairro e, por causa disso, corriam risco de vida já que na área funciona a mineira – grupos de extermínio formados, em geral, por policiais e ex-policiais. Também temiam pelo corte de energia, uma vez que a conta de luz está atrasada. Um representante do Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações (Sinttel/Rio), também presente, conseguiu que a entidade sindical disponibilizasse R$ 200,00 para cobrir despesas emergenciais dos trabalhadores.
Acionada pelo Ministério Público, a Delegacia Regional do Trabalho enviou uma equipe ao local no dia 30, quinta-feira. De lá, os trabalhadores foram levados à sede da Telsul, em São Cristóvão. A empresa de início negou ter contratado a Rede Telecom, alegando que havia acabado com as equipes terceirizadas. A DRT constatou, contudo, que se tratava de uma informação falsa. A\Rede Telecom foi autuada e a Telsul considerada co-responsável. Ambas serão obrigadas a regularizar a situação de todos os trabalhadores.
O trabalho degradante na prestação de serviços à Telemar é recorrente. A Comissão de Trabalho flagrou no ano passado uma outra empresa, Citel, que explorava o trabalho de seis peruanos. Situação semelhante foi encontrada em Petrópolis e Cabo Frio. No caso de Petrópolis a Telemar foi acionada pelo Ministério Público do Trabalho e condenada a pagar uma indenização de R$ 1 milhão. A empresa recorreu da decisão.
SECRETÁRIA DE INSPEÇÃO DO TRABALHO DIZ QUE ESCRAVIDÃO É REALIDADE NO BRASIL Agência EFE - Severino Goes 30/03/2006
A Secretária de Inspeção do Trabalho, Ruth Vilela, afirmou nesta semana em Berlim que, apesar dos esforços do Governo Lula, a escravidão continua sendo uma "vergonhosa realidade" no país.
"O Brasil é um país rico com bolsas de pobreza nas quais se vive muito abaixo do nível de tolerância aceitável por um Estado de direito", declarou Ruth Vilela em uma entrevista coletiva que teve a participação da ministra de Cooperação da Alemanha, Heidemarie Wieczoreck-Zeul e do ex-titular do Trabalho, Walter Riester.
Com sua presença Wieczoreck-Zeul quis expressar o apoio da Alemanha à luta contra a escravidão: "Faremos todo o possível para contribuir com a erradicação do trabalho forçado no Brasil".
Ela não realizou uma convocação para o boicote de produtos provenientes de trabalho forçado, mas recordou que no setor de móveis existe o selo "Forest Stewardship Council" (FSC), que garante uma gestão sustentável de florestas e direitos fundamentais trabalhistas.
Ruth Vilela, que realiza uma visita de trabalho à Alemanha por convite da Fundação (social-democrata) Friedrich Ebert, disse que o trabalho forçado é uma das faces mais tenebrosas da pobreza, pois nega a existência do ser humano.
"Os escravos são seres invisíveis, nascem sem certidão de nascimento e morrem sem o documento de óbito", declarou.
Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), pelo menos 12,3 milhões de pessoas trabalham atualmente no mundo em regime escravo. Segundo outras fontes, os indivíduos que atuam nestas condições passam de 25 milhões.
A Secretária de Inspeção do Trabalho, que viajou para Berlim com o jornalista e cientista político Leonardo Sakamotoi, fundador da ONG "Repórter Brasil" e membro da Campanha, disse que o Governo Lula está determinado a dar fim a esta "vergonha nacional".
Entre as medidas de erradicação adotadas está a elaboração e divulgação de uma relação de empresas e fazendas nas quais os inspetores de trabalho detectaram focos de trabalho forçado.
Este cadastro, com caráter pedagógico e moralizante, inclui atualmente 159 pessoas físicas e jurídicas. A permanência na "lista suja", que é atualizada semestralmente, é de dois anos.
"Estar na relação é ficar exposto ao julgamento público", declarou Leonardo Sakamotoi, que afirmou que a lista serve para pedir que as pessoas deixem de consumir determinados produtos.
Desde o final dos anos 90 foram detectados, além das 159 pessoas físicas e empresas citadas anteriormente, 1.500 propriedades rurais, na maioria latifúndios mecanizados, com trabalhadores escravos.
Ruth Vilela disse que a maior parte das propriedades está no norte e no centro-oeste do país, regiões que coincidem com o mapa da escravidão, eminentemente agrícola, combatido pelo presidente Lula.
Segundo a inspetora do trabalho, foram libertados 5.893 trabalhadores escravos entre 1995 e 2002 e 12.405 pessoas foram tiradas desta situação desde 2003.
Sakamoto acrescentou aos dados "positivos" o cada vez maior índice de conscientização social sobre um problema ainda muito presente no Brasil.
Para o fundador da "Repórter Brasil" uma das maiores vitórias da Campanha foi conseguir que grandes bancos, entre eles o Banco Santander e o ABN Amro, não dêem créditos agrícolas às fazendas nas quais foram encontrados "escravos".