Logo


Você está em: Inicial > noticias > noticias-relacionadas > exibir.php

 
Maximizar


Sobre a Aldeia Maracanã



18/04/2013

 

 

Falo em nome do movimento de resistência da Aldeia Maracanã. Após a tentativa frustrada de desocupação, no dia 12 de janeiro, artistas e figuras públicas declararam seu apoio e solidariedade à causa da Aldeia Maracanã.
 
Esse apoio foi fundamental e, graças a isso, conseguimos impedir a demolição do prédio do antigo Museu do Índio, que visava a construção de um estacionamento privado. Foi uma vitória parcial, pois, no dia 21 de março, devido a um processo de reintegração de posse, os índios foram retirados de forma violenta do local. Um grupo, entretanto, aceitou a proposta do governo de ocupar um terreno em Jacarepaguá. Outro grupo indígena, porém, continua lutando para retomar o prédio, com o intuito de transformar a Aldeia Maracanã em local de referência da cultura indígena, visto sua importância histórica inestimável. Devo frisar aqui que a luta desses indígenas, além da luta pela preservação física do prédio, sempre foi a luta pela sobrevivência de sua cultura e da continuidade desse valor imaterial ligado ao Museu. A luta deste movimento ainda não acabou.

Sendo assim, os apoios junto aos indígenas estão organizando uma audiência pública na ABI no dia 19 de abril de 2013, às 18:00 horas, sobre a Aldeia Maracanã no intuito de puxar uma campanha para que o antigo Museu do Índio continue sendo local de destinação cultural indígena, diferente do projeto governamental atual de construção do Museu Olímpico, onde contaremos com a presença do Mércio Gomes, conhecido antropólogo e ex-presidente da FUNAI, assim como do Chico Alencar e possivelmente do Marcelo Freixo da Comissão dos Direitos Humanos do Estado do Rio.

Sabendo que é sensível à causa indígena e às atrocidades das políticas de remoção, gostaríamos de convidá-lo a participar da mesa de apoio à Aldeia Maracanã. Solicitamos, com urgência, que manifeste seu interesse e disponibilidade.
 
Podem entrar em contato também por telefone com qualquer uma dessas pessoas:
 
André -  9248 0543
Hélcio -8475 7556
Fernando - 9218 8807

 

 

Sobre a Aldeia Maracanã

Os índios ocupam aquele espaço desde o ano de 2006, após décadas de abandono daquele espaço pelo Poder Público, com o intuito de fundar ali uma entidade autogestionada, pelos próprios índios, de referência, preservação e divulgação da cultura indígena. O imóvel é utilizado com fins de resgate e estudos da cultura indígena desde 1850, pelo seu proprietário Duque de Saxes, genro de Dom Pedro II, reunindo ali, pela primeira vez, diversas etnias, e foi doado à União após sua morte com a cláusula de que se tornasse um museu indígena. 
Em 1910, o Marechal Rondon, famoso indigenista brasileiro, fundou ali o Serviço de Proteção ao Índio, um órgão federal precursor da FUNAI cuja principal finalidade era elaborar as políticas governamentais de proteção às etnias indígenas. Em 1953, o professor e antropólogo Darcy Ribeiro fundou no local o Museu do Índio que foi desativado por descaso do poder público na década de 70, em plena ditadura civil-militar, cuja principal marca foi o desrespeito aos direitos humanos e a priorização das grandes obras com vistas à um novo ciclo de expansão e acumulação do capital, o que não por coincidência é a marca também dos Governo de Sérgio Cabral e Eduardo Paes.
As 17 etnias indígenas que ocuparam o imóvel em 2006, tomaram para si a responsabilidade de cumprir por si próprios o que preconizam a Constituição e o testamento do antigo proprietário, já que o Estado se omitira. Das 40 famílias que organizaram a ocupação, estavam presentes as etnias Apurinã, Pataxó, Guajajara, Puri, Guarani, Ashaninka, Tupinambá, Kricati, Kalapalo, Caiapó, Funiô, Cariri Xocô, Saterê Mauê, Kariri-Xocó e Tukano. Uma pequena amostra das 240 etnias reconhecidas oficialmente (são 305 com as não oficiais). Cada etnia é tão distante física quanto culturalmente. A Aldeia Maracanã representou um marco. Um lugar onde puderam se encontrar e trocar experiências. Desde 2006, mais de 40 etnias passaram pela aldeia. O prédio conseguiu se tornar um centro de referência, onde puderam mostrar seu artesanato, seus cantos, e através desse contato com a cidade puderam também receber estudantes para diversos trabalhos. Algo que os índios não têm no Brasil inteiro.
Após a pressão popular o governo do estado desistiu de derrubar o prédio e transformá-lo em um estacionamento, o que seria o seu destino se não tivesse acontecido a resistência, vide o cerco da tropa de choque ao prédio no dia 12/01/13. Mas o governo estadual não iria desistir tão fácil, e da noite para o dia inventou que lá seria o Museu do COI. Po que Museu do COI?
Porque assim o prédio continuaria sob administração da empresa que vencer a licitação do complexo do Maracanã. 
E então no fatídico dia 21 de março recebem a notícia que após se encerrar o prazo de reintegração de posse, o choque iria retirá-los a força. Reintegração de posse, que está em desacordo com os preceitos jurídicos pois existem diversa ações tramitando em diversas instâncias que a impediriam.
E por que a Aldeia Maracanã incomoda tanto aos Governos municipal e estadual?

Pois, evidentemente, a destinação do imóvel para a criação de uma Universidade e um Centro de Referências Indígenas vão na contramão do projeto de cidade mercadoria vendidos por esses Governos. Um espaço destinado à realização de pesquisas e à salvaguarda de 305 tradições, no qual índios de diversas culturas pudessem demonstrar seus hábitos uns aos outros e à comunidade do entorno. Mas também ensinar aos novos índios suas línguas e costumes, onde ensino, pesquisa e extensão fossem indissociáveis. Também pretendiam que o prédio sediasse o Conselho Municipal de Defesa do Índio e o Conselho Estadual de Defesa do Índio. Seria uma espécie de embaixada, à qual índios de toda a América pudessem recorrer como asilo sempre que seu território original sofresse grave violência. Nos arredores da Universidade, pretendiam criar diferentes ocas e construções, de acordo com a arquitetura de cada etnia. Todo esse projeto vai de encontro ao projeto de cidade mercadoria. Trata-se de um projeto, portanto, que dificilmente poderia ser apropriado por aqueles que só visam o lucro e não as pessoas.
Uma cultura que se respeita, homenageia os seus. E é por isso mesmo que nós, cariocas - termo, por sinal, oriundo da cultura indígena -, temos obrigação para com a nossa própria história a defesa dos direitos desses povos, sejam eles quais forem, estejam eles onde estiverem, em seu próprio tempo. A defesa - mais do que justa, obrigatória pela reparação histórica a que se deve com esses setores - da cultura indígena não pode ser feita meramente nos livros de história, na visão acadêmica sobre a realidade, do colonizador sobre o colonizado, do 'homem branco' sobre o índio mas, deve sim, ter caráter autoafirmativo. Não é nosso papel nos ensinar a história alheia, mas sim permitir que aqueles povos compartilhem conosco um tanto de sua história.
Esse traço da história brasileira, e em especial carioca, não pode ser brutalmente eliminado a tiros de borracha, bombas de efeito moral e barulhos ensurdecedores. Pelo contrário, deve se consolidar enquanto elemento vivo e cotidiano de nossa cultura para que a sociedade avance no sentido de reconhecer a sua capacidade de aprender com o outro. Uma cidade não pode se atrever a considerar-se maravilhosa, quando a única medalha de ouro que disputa é a da brutalidade, do esquecimento e da insensatez de virar-se contra sua própria origem.

Marcos Palmeira - mpdepaula@terra.com.br
Zelito Viana - zelito@mapafilmes.com.br
Tico Santa Cruz - osantoforte@uol.com.br
priscilacamargo138@gmail.com

 



Rede Social
Youtube
Facebook
Twitter
 
Movimento Humanos Direitos ® Todos os direitos reservados. Política de Privacidade. Mapa do Site.
Desenvolvido por MelhorWeb Tecnologia