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ETHOS CONCLUI: Não há economia verde sem as empresas



19/06/2012

 

Amelia Gonzales
Razão Social 
O Globo


Com o objetivo de entender como as empresas estão trabalhando a questão da sustentabilidade em sua gestão, o Uniethos distribuiu um questionário para as mil maiores empresas do Brasil e para as 1.400 associadas ao Instituto Ethos.  Recebeu 250 respostas.  Das empresas que responderam, 69% consideram os interesses de stakeholders no planejamento estratégico e 65% afirmam que têm a inovação e reposicionamento dos negócios como objetivo principal.  Uma porcentagem ainda acanhada, como se vê.

O resultado da pesquisa foi divulgado na Conferência Internacional do Instituto Ethos, que aconteceu nos dias 11, 12 e 13 de junho, pouco antes do início da Rio+20.  A data foi escolhida de propósito, segundo Paulo Itacarambi, vice-presidente do órgão:

Queríamos utilizar o contexto da Rio+20 para fazer avanços concretos na prática das empresas.  Antecipamos todos os temas que serão refletidos na Conferência e formulamos propostas que serão levadas para a Rio+20 - disse ele.

Durante os três dias, elas foram convidadas a assinar uma Carta com oito compromissos, comprometendo-se com temas bastante sensíveis à sociedade, como a redução das desigualdades, a ecoeficiência, a melhoria da governança e promoção da transparência e integridade.  Paulo Itacarambi disse que se as empresas fizerem o que estão prometendo haverá uma mudança concreta na sociedade:

A questão é simples: não há economia verde sem as empresas.  Um dos compromissos, por exemplo, que estão assinando, é produzir riqueza e compartilhar com a comunidade onde ela atua.  Só isso já representa uma forte mudança de paradigma - disse Itacarambi.

Para cumprirem tais compromissos, no entanto, as empresas também levarão aos governantes uma lista de exigências.  Segundo Itacarambi, é uma forma de dizer que não querem perder a competitividade.  Elas exigem, por exemplo, que os governos de todo o mundo deixem de subsidiar o petróleo e o uso de carvão e aprovem um novo padrão de contabilidade que não seja o PIB (Produto Interno Bruto).

Na palestra de abertura da Conferência, no entanto, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, apontou um caminho diferente para o engajamento do setor privado, no sentido de incentivar os carros elétricos:

Estamos falando de uma industria global onde a criação de equilíbrios competitivos deve ser evitado.  O setor privado deve se engajar de maneira forte nessa agenda - disse Coutinho, que chamou os automóveis de "delinquentes relevantes" .

Logo depois Michael Renner, presidente da ONG World Watch Institute lançou o estudo "O Estado do Mundo 2012" com uma extensa análilse sobre questões fundamentais para a humanidade.  Renner comentou os resultados do relatório que mostram que de acordo com estatísticas da OCDE, o número de pobres em todo o mundo diminuiu em 120 milhões na década de 1990 e em quase 300 milhões na primeira metade da década de 2000.  Mas, em muitos casos, o crescimento foi acompanhado do aumento da desigualdade.  Os 16% mais ricos do mundo são responsáveis por 78% do total do consumo mundial, ficando para os 84% restantes apenas 22% do total global a ser consumido.

- Seria um erro encarar a expansão sistemática da economia industrial, fundamentada no consumo exagerado, como uma rota infalível para superar a pobreza e a marginalização social.  A OCDE observa que a contribuição do crescimento para a redução da pobreza varia de país para país, em grande parte devido às diferenças na distribuição de renda de cada um - disse.

Continuando no capítulo da pobreza, na parte da tarde, o economista indiano Pavan Sukdhev, considerado o pai da economia verde, fez o discurso mais inflamado do dia, conclamando a plateia a cobrar dos países desenvolvidos que façam o que precisa ser feito em prol de um desenvolvimento sustentável:

Se pegarmos uma linha de 1975 para cá, vamos reparar que os países em desenvolvimento caminharam no sentido do desenvolvimento sustentável, mas o mesmo não aconteceu com os países ricos.  Mostrem para os governos verdes e mas empresas nos que há muita diferença entre Objetivos do Desenvolvimento Sustentável dos países ricos e dos países em desenvolvimento -- disse

O economista está relativamente otimista com relação aos resultados da Rio+20.  E ressaltou o desejo de que a conferência produza um documento que fale em cooperação, a meta número 8 dos Objetivos do Milênio que até agora não foi alcançada e que também não é muito comentada.  O indiano dá valor a esta proposta porque, segundo ele, dessa forma a diferença que ele quer ver na superfície será mais vista.

Que transferência de tecnologia a China pode obter dos Estados Unidos?  Nenhuma.  Aliás, pelo contrário: a China é que pode transferir alguma tecnologia para os Estados Unidos -- disse Pavan.

Durante a Conferência, foi mostrado ainda outro estudo, com dados colhidos pelo Ethos, Fundação Avina, WWF, Rede Nossa São Paulo e Repórter Brasil, mostrando que o setor siderúrgico ainda tem práticas que o deixam numa situação oposta àquela que tem sido o mote das discussões sobre sustentabilidade na esteira da Rio+20.  Segundo Leonardo Sakamoto, fundador da ONG Repórter Brasil, o estudo mostrou que a ligação entre siderúrgicas e o trabalho escravo avançou para o Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga e Pantanal:

- Seis em cada dez quilos do carvão vegetal produzido no Brasil vêm da destruição de florestas nativas e, muitas vezes, sua produção acontece com mão-de-obra escrava ou degradante.

O Cerrado, por exemplo, segundo o estudo, tornou-se um dos principais biomas fornecedores de carvão usado para produzir ferro e aço no Brasil há mais de um século.  Hoje, o polo siderúrgico mineiro é o maior do país, com mais de 60 indústrias e, em alguns casos, o produto percorre mais de mil quilômetros da carvoaria de origem até seu destino final, a siderúrgica, prática que eleva muito o uso de combustível fóssil, o que também vai contra todas as iniciativas que pensam em reduzir o uso de recursos naturais.  Os órgãos competentes até que multam mas, segundo o relatório, entre 2005 e 2010 apenas 0,75% do total de multas resultaram em pagamento por parte das empresas.

Se as empresas se preocupassem em estar presentes na produção, isso não aconteceria.  Não basta esperar que a sociedade civil dê o alerta para depois entrar em ação e é o que acontece o tempo inteiro.  Eu já falei para algumas empresas: ora, se uma ONG pequena como a nossa, com 20 pessoas, consegue fazer este estudo, por que uma corporação poderosa tem que esperar a nossa iniciativa para dar soluções ao problema?  --- disse ele.

Os dados do estudo, no entanto, não são de agora.  Foram colhidos em 2010, quando foram consumidos de 22 a 36 milhões de toneladas de madeira para a produção de carvão vegetal para as guseiras no Brasil.  O relatório foi realizado com base no acesso dos pesquisadores a documentos contendo informações relevantes ao tema e com visitas a campo feitas pela equipe da ONG Repórter Brasil.

Outra questão séria apontada pelo estudo é que, embora as florestas naturais possam ser manejadas de forma sustentável - fazendo monocultura em terras degradadas, por exemplo - a esmagadora maioria da madeira retirada dessas florestas para fazer carvão vem de florestas nativas.  O processo criminoso para o meio ambiente é mais ou menos este: derruba-se a floresta para tirar madeira, depois usa o espaço para gado e, quando o pasto já degradou bastante, vai-se para outro lugar, abandonando aquele terreno que não serve mais para nada.

As corporações envolvidas no estudo foram ouvidas e se explicaram.  Após a apresentação do relatório, o gerente executivo de políticas públicas do Instituto Ethos, Caio Magri, apresentou uma Agenda de Compromissos de Empresas para a Sustentabilidade da Produção de Carvão Vegetal de Uso Siderúrgico n o Brasil, que traz uma série de iniciativas consolidadas por um Grupo de Trabalho do Carvão Sustentável que tem a adesão de nove empresas, por enquanto, mas está aberto a outras.

De acordo com as práticas de empresas sustentáveis disseminadas na Conferência, o melhor é que tornar sustentável qualquer produção pode trazer mais lucro.  Inclusive, o de imagem, que é intangível mas que nenhuma empresa despreza.

 
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