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LEILÕES DE ESCRAVOS ÀS PORTAS DA EUROPA



10/07/2017

 

 

 

 

 

EL PAÍS     https://brasil.elpais.com/brasil/2017/06/29/internacional/1498753080_705940.html

 

 

Licitações, chicotadas e correntes. EL PAÍS mostra casos reais, como os denunciados pela ONU: cada vez mais imigrantes estão sendo vendidos como escravos em mercados da Líbia

 

 

Adam Souleyman, nigerino, foi escravo na Líbia durante cinco meses. ALFONS RODRÍGUEZ

Agadez (Níger) 

Na cidade de Sabha —situada ao sul da Líbia, 100.000 habitantes— existe um lugar conhecido como o gueto de Ali. É um nome que faz Abou Bacar Yaw –um jovem gambiano de 18 anos que passou dois meses ali dentro – abaixar a cabeça. O gueto de Ali é, provavelmente, e com base nas descrições de quem ali esteve, um antigo centro de detenção. Antes da guerra que culminou na queda de Muamar Gadafi, Sabha era um oásis imigratório da rota africana em direção à Europa. Muitos subsaarianos eram retidos nesse lugar e expulsos do país. Sabha era, também, um atraente destino turístico para aventureiros.

Conta Abou Bacar que hoje se trata de um prédio deteriorado, cheio de ratos e poeira, com várias celas e um pátio interno. Centenas de jovens subsaarianos se amontoam em espaços pequenos sem luz nem ventilação. O lugar é dirigido por um líbio da etnia tubu, conhecido como Ali. Ao redor, as ruas de Sabha são hoje o território de milícias, traficantes, mafiosos e moradores armados. Zona proibida para o visitante.

Abou Bacar chegou a este lugar depois de cinco dias de travessia ininterrupta pelo deserto. Partiu de Agadez, no desértico centro do Níger, onde meses depois está de regresso. Sentado em uma cadeira velha, com uma cicatriz ao lado de seu olho esquerdo –e a chamada para a reza em uma mesquita próxima–, relata suas lembranças. Conta que todo mundo em Sabha conhece o gueto de Ali. “Mas ninguém se importa porque a Líbia é o inferno. Todo mundo anda armado. Até as crianças carregam pistola. E ninguém se preocupa com o bem e o mal.” O gueto de Ali parece conduzir suas atividades sem muitos problemas.

“Eu já tinha pagado minha passagem até Trípoli. Paguei-a em Agadez antes de sair.” Abou desembolsou o equivalente a 1.450 reais, as economias de toda sua família. “Mas nunca cheguei a Trípoli.” Quando alcançaram Sabha, o motorista do veículo que os levou através do Saara os conduziu ao gueto. “Ali estavam alguns líbios, com uniformes militares e armas. Não sei se eram soldados, milicianos ou o que eram.” Abou e os demais foram levados para dentro do edifício. Disseram-lhes que não tinham pago a passagem –quando, na verdade, tinham– e os prenderam sem mais explicações.

"Sentávamos no chão e os líbios vinham nos escolher e nos comprar, como quem escolhe mangas num mercado de frutas. Depois, discutiam o preço"

Um copo de água e um pedaço de pão era o que lhe davam todos os dias nos dois meses em que Abou esteve no gueto. Ali se amontoavam, segundo estima Abou, umas 300 pessoas, todos homens. Aqueles que iam morrendo os demais tinham de retirar do local e queimar em um descampado contíguo ao centro. “Todos os dias chegavam homens árabes, às vezes com guarda-costas, e então nos levavam ao pátio. Ali tínhamos de nos sentar assim –Abou se senta no chão, com as pernas abertas–, em fila, cada um entre as pernas do que estava atrás. Era como um trem que formávamos no chão.” Abou retorna à sua cadeira e continua o relato: “O homem árabe passeava entre nós e escolhia alguns. Escolhia os fortes, os que não pareciam que iriam morrer em dois dias. Ele os escolhia como quando você escolhe manga no mercado de frutas. Depois pagava às pessoas do gueto e os levavam. Todo dia chegavam homens árabes para nos comprar”.

Abou foi vendido depois de dois meses. “Não sei quanto pagaram por mim. Diante de nós não falavam de dinheiro, iam negociar os preços num canto.” Abou fica em silêncio. Com o olhar perdido. Depois, diz: “O gueto de Ali é o lugar que você imagina quando te falam de um mercado de escravos”. Um mercado de escravos no século XXI, em uma cidade até há pouco tempo relativamente turística e em um país a 400 quilômetros da Europa.

O buraco líbio

Abou Bacar, nascido em Gambia, foi vendido em um mercado de escravos da cidade libia de Sabha.FOTOGALERÍA
Abou Bacar, nascido em Gambia, foi vendido em um mercado de escravos da cidade libia de Sabha. ALFONS RODRÍGUEZ
 

Antes da guerra —o conflito irrompeu no âmbito da Primavera Árabe, em 2011–, a Líbia era uma das várias rotas imigratórias em direção à Europa. As máfias optavam às vezes por transportar os imigrantes à Mauritânia e dali alcançar em caiaque as Ilhas Canárias; ou atravessar a Argélia para chegar a Marrocos e saltar a cerca de Melilla; ou cruzar a Líbia e tentar navegar em balsa até a ilha italiana de Lampedusa.

Hoje, a Líbia se perfila quase como a única rota: o caos ali é tamanho que as máfias e os traficantes de pessoas movimentam-se sem empecilhos, ao contrário das vigiadas fronteiras dos demais países. Cada vilarejo e cidade da Líbia pertence a uma milícia diferente. E nessa bagunça os imigrantes tentam se meter para cruzar o mar. Estima-se que, atualmente, cerca de 330.000 imigrantes estejam bloqueados na Líbia, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

O problema é que esta violenta anarquia tem reverso: milhares de homens e mulheres estão sendo sequestrados, aproveitando a falta de controle. Os sequestros, já há alguns meses, foram um passo além: cada vez é maior o número de escravos.

LeilÔes de escravos às portas da Europa
 

Em abril a OIM, agência vinculada às Nações Unidas, publicou um relatório no qual denunciava que na Líbia existem, há meses, mercados de escravos. Lugares em que os imigrantes são vendidos para serem usados como mão de obra, como criados ou escravos sexuais.

Giuseppe Loprete, chefe da missão da OIM no Níger, explica em seu escritório em Niamey que “os imigrantes que voltam da Líbia nos contam histórias terríveis. Falam de licitações, de leilões, de compra e venda de escravos”. Um macabro retrocesso no tempo do outro lado do Mediterrâneo. O gueto de Ali, onde Abou foi vendido, é um desses mercados.

Não se trata de sequestros em que se pede um resgate. Não se trata de condições de exploração. Não se trata de poder pagar pela sua liberdade. Trata-se de um tráfico de escravos em que moradores da Líbia compram subsaarianos para que trabalhem em suas casas, fazendas ou plantações sem salário de tipo algum –nada além de teto e comida– e sob um regime de violência.

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Fotografias extraídas do telefone de um imigrante retido na Líbia e entregues pela OIM. A agência explica que se trata de escravos em um mercado da Líbia, à espera de serem vendidos. / OIM OIM
 

A OIM denunciou isso e agora começam a aparecer os depoimentos dos que escaparam de tal experiência. A comunidade internacional, porém, não parece estar fazendo muito na região para pôr fim a um pesadelo típico de outro século.

Vendido por 12.000 reais

“Quero explicar ao mundo o que está se passando.” Quem diz isso é Achaman Agahli, de 39 anos, robusto, morador da cidade nigerina de Agadez. Ele nos recebe em sua casa, uma construção básica de adobe na qual pessoas e cabras compartilham o espaço.

Achaman trabalhava transportando barris entre povos do deserto. Foi um amigo que aventou a possibilidade de tentar chegar à Europa para ganhar dinheiro. Consultou sua mulher e decidiu tentar. Partiu uma noite de junho do ano passado, às três da madrugada, subindo na parte traseira de um veículo caminhonete branco marca Toyota. Quando estavam a ponto de sair, escutou que o traficante a quem haviam pago pelo transporte falava por telefone: “Te mando um lote de 25”. Achaman não deu importância naquele momento. Dias depois, a frase faria sentido.

"Fui vendido em um lote de 12 e pagaram por mim uns 12.000 reais"

“A ideia era que nos levassem até Madama, na fronteira entre o Níger e a Líbia, mas passamos ao longe e nos deixaram em Al Qatrun, já na Líbia. Ali fomos recolhidos por uns tubus líbios [os membros de uma etnia local]. Usavam barba e andavam armados. Foi quando eu me disse: ‘Aqui há problemas, algo está errado’. Levaram-nos a Sabha e nos meteram todos em um quarto de um prédio vazio.”

Achaman esteve 26 dias trancado. “Davam-nos pão e leite. Um dia um dos homens que nos guardava, nos disse: ‘Não lhes damos mais para que vocês não tenham força e escapem’”. No 27º dia chegou um homem líbio e se pôs a discutir sobre dinheiro com o chefe dos sequestradores de Achaman. Desta vez, escutaram a negociação. “Eu falo árabe. Entendi o que diziam. Acertaram a venda de um lote de 12. Sim, disse desse jeito, um lote de 12. E por cada um do lote, por cada um de nós. Iria pagar 5.000 dinares líbios.” Naquele dia compraram Achaman por 12.000 reais.

“Nosso comprador nos levou para sua casa, uma casa muito grande, com um terreno muito grande, em Ubari, a poucos quilômetros de Sabha. Era um senhor rico. Eu estive dois meses recuperando-me porque estava muito doente. Quando fiquei bom, comecei a trabalhar.” Achaman tinha que alimentar os animais do proprietário, limpar os estábulos, cuidar da horta, arar... Em troca, o dono da casa lhe dava abrigo e comida. Como falava árabe, transformou-o em seu homem de confiança. “Desprezava os outros, mas me tratava bem. Não me batia nem gritava comigo. E depois de alguns meses tinha liberdade para entrar e sair da casa se necessitava executar tarefas.”

Foi em um desses serviços. Achaman disse que tinha de ir a Sabha em busca de remédios e, no caminho, cruzou com um motorista nigerino que o ajudou a atravessar a fronteira de volta.



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