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LetĂ­cia Sabatella: Cappio Ă© FIRME E GENEROSO



13/12/2007

LETÍCIA SABATELLA: CAPPIO É "FIRME E GENEROSO".


TERRA MAGAZINE
Quinta, 13 de dezembro de 2007, 08h50 
Claudio Leal

Salete Hallack/MHuD /Divulgação

O bispo d. Luiz Cappio conversa com a atriz Letícia Sabatella, em Sobradinho
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A greve de fome do bispo d. Luiz Cappio, em protesto contra a Transposição do Rio São Francisco, ganhou o apoio da atriz Letícia Sabatella. No sábado, 8, ela esteve em Sobradinho, na Bahia, para se solidarizar com o gesto do religioso. Sentou-se na calçada, em frente à igreja, para ouvir seus argumentos.

Desde esse dia, se mobiliza para reabrir os debates em torno do projeto do governo (as obras foram suspensas por liminar da Justiça Federal da Bahia). Em entrevista a Terra Magazine, a atriz revela a imagem levada do bispo:

- O que ele (Cappio) me passou foi a impressão de ser uma pessoa muito séria, firme e generosa. Pela história de vida dele, você vê uma forte determinação.

Apoiada pela Comissão Pastoral da Terra, Letícia viajou a Sobradinho para conhecer os detalhes de uma polêmica que pode se transformar em um martírio. A atriz integra a ONG Humanos Direitos e vai acompanhar o protesto de Cappio. Está convencida de que projetos alternativos, elaborados pelo próprio governo, teriam um impacto mais duradouro na região do Velho Chico.

- É um projeto que não visa a sustentabilidade do São Francisco, dos povos do São Francisco, nem do semi-árido. Visa, sim, a produção de frutas, de aço, de camarões para a exportação - critica.

Provocada a comentar as declarações do ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima - responsável pela execução das obras -, de que o bispo era "antidemocrático" e cometia "um terrorismo simbólico", Letícia criticou:

- Não é democrático você impor ao povo um projeto de cima pra baixo, pra que ele engula goela abaixo. O que d. Luiz tá dizendo é que não dá mais para engolir essa. Não dá pra engolir outras atitudes do governo, que está com uma palavra tão desgastada... Cadê as verdades?

Letícia pede a reabertura do diálogo entre o governo e o religioso. Lembra que o presidente Lula foi eleito para mudar o "desenvolvimento calcado somente no fortalecimento do capital".

Leia a entrevista de Letícia Sabatella.

Terra Magazine - Como surgiu a idéia de visitar o bispo Cappio?
Letícia Sabatella - Na quinta-feira (6/12), eu soube que o bispo estava em jejum há dez dias. Eu não tinha essa informação ainda. Fui até lá, através da Comissão Pastoral da Terra e pelo movimento Humanos Direitos, acompanhada da Salete (Hallack) e do Ricardo Paiva. Na manhã de sábado (8/12), tivemos o encontro com d. Luiz, que estava na frente da igreja nos esperando. Ali, eu pude ouvi-lo. No caminho, fui estudando mais sobre as coisas, eu já sabia do projeto de Transposição, mas não tinha conhecimento de que existiam possibilidades outras, alternativas estudadas por órgãos do governo mesmo.

Como foi a conversa? Qual a impressão provocada pelo bispo Cappio?
O que ele me passou foi a impressão de ser uma pessoa muito séria, firme e generosa. Pela história de vida dele, você vê uma forte determinação. Ele demonstra isso, com muita humildade.

E a ligação histórica com os ribeirinhos.
Pois é, d. Luiz tem essa história de quando ele se tornou padre... Numa Páscoa, ele saiu, deixou um relógio com uma pessoa, um casaco com outra, e foi encontrado sete meses depois com os sertanejos, os índios. Vivendo entre eles. Ele tem uma determinação tão forte que acabou se estabelecendo no lugar. E justificou a atitude dele: São Paulo, onde ele iria ficar, inicialmente, já tinha muitas pessoas pra cuidar das outras; mas, no sertão, não. Eles precisavam dele. Há 33 anos está lá e conhece profundamente aquele povo, a alma dos nordestinos. É atuante, todo o mundo tem muita gratidão, muitas vezes ele ajuda a salvar famílias que passam por dificuldades, se envolve mesmo. Então, tem muito amor em torno. É uma pessoa que conhece profundamente as questões técnicas que envolvem a Transposição. Também as questões técnicas envolvidas nos projetos alternativos que, pela metade do preço, dão conta de criar sustentabilidade no Nordeste, com a irrigação correta.

Antes de ir pra lá, você disse que estudou a Transposição. Em Sobradinho, teve contato direto com essa questão. O que você pensa do projeto do governo? Sentiu qual é a reção dos ribeirinhos?
Temerosos, né? É um projeto que não visa a sustentabilidade do São Francisco, dos povos do São Francisco, nem do semi-árido. Visa, sim, a produção de frutas, de aço, de camarões para a exportação. E parece que celulose também. Vi que o projeto prevê duas usinas hidroelétricas só para fazer o transporte da água. Então, é de uma dimensão essa obra... Tem um custo que vai sair do cofre público, do bolso dos brasileiros. Mais tarde, a conta da energia elétrica vai continuar sendo cara, porque pra quem mora numa casa ela é muito cara. Para as empresas, ela tem isenções, é uma proporção bem menor. E o custo disso tem que ser visto, o povo tem que aprovar, porque são R$6,6 bilhões - contra R$3,3 bilhões na proposta dos projetos alternativos. Acho legítimo que d. Cappio cobre do governo o que lhe foi prometido, que haja um debate esclarecedor com a sociedade. Não quero que saia mentiras para a população, mas sim que se esclareça o que é que envolve a Transposição e os projetos alternativos, para o povo poder escolher o que ele quer.

O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, afirmou que o bispo é "antidemocrático" e está fazendo "terrorismo simbólico". O que pensa disso?
Não é democrático você impor ao povo um projeto de cima pra baixo, pra que ele engula goela abaixo. O que d. Luiz tá dizendo é que não dá mais para engolir essa. Não dá pra engolir outras atitudes do governo, que está com uma palavra tão desgastada... Cadê as verdades? Cadê, de fato, a democracia popular que nós elegemos? É isso que nós queremos cobrar do governo: que ele seja o que nós elegemos, o que ele era quando nós votamos - o projeto de construção de uma democracia popular. O povo se sentiu muito feliz quando Lula ganhou as eleições, porque se sentia representado, era "a gente" mesmo. Que podia agir de maneira cidadã na construção de seu País, na reformulação. Lula foi eleito em cima da esperança e da mudança desse desenvolvimento calcado somente no fortalecimento do capital. Dizia: "é o social, é o ser humano, muito mais que a economia". É isso que se dizia. E, no entanto, esse projeto visa ao lucro de alguns. Vai causar o desgaste do rio, o desgaste da região...

Você chegou a viajar ao longo do rio?
Existem pessoas que, a 500 metros de distância, não tem água. Elas vão com lata d´água pra pegar. O governo fica dizendo que vai investir na revitalização do rio... Isso surgiu a partir do primeiro jejum de d. Cappio. A revitalização do rio, da maneira como se pensa em fazer, não está mostrando que vai ser eficiente. Quando você manda dinheiro para as prefeituras, pra cada uma fazer a sua parte, é muito arriscado. Tem muitas coisas pra serem feitas. Mas vamos pensar na conscientização do povo ribeirinho, fazer o que interessa ao povo, pra depois você pensar no desenvolvimento de alguns.

Quais outros trabalhos você desenvolve na ONG Humanos Direitos?
Nós atuamos na área de trabalho escravo - o padre Ricardo Rezende tem muito conhecimento disso, tá jurado de morte por lutar contra o trabalho escravo -, pedimos pela reforma agrária e por isso apoiamos movimentos populares. Mas lutamos também contra a prostituição infantil e defendemos o direito dos cidadãos exercerem sua cidadania. Pra que não caiam no trabalho escravo, na prostituição.

Pretende continuar acompanhando a greve de fome?
Com certeza. Na verdade, nós estamos trabalhando amplamente para divulgar essa questão, pra fazer com que as pessoas debatam e discutam.

O governo deve retomar o diálogo?
É tudo que d. Cappio pede para parar o jejum. Que se faça uma discussão realmente esclarecedora e que as pessoas saibam que existem alternativas bem mais baratas e que podem levar água para as pessoas. E podem criar sustentabilidade para o Nordeste, sem tantos danos ambientais e sociais, como a Transposição propõe.



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