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Entrevista com Paulo Betti - Revista Direitos Humanos



01/07/2009

Revista Direitos Humanos - www.direitoshumanos.org.br

O MHuD, representado por: Ricardo Rezende, Bruno Cattoni e Juliana Hallack, entrevistou o ator Paulo Betti.

Você também pode ver as fotos, neste site, em ATIVIDADES/HISTÓRICO - JULHO 2009.

ENTREVISTA - JULHO DE 2009

Movimento Humanos Direitos: Você teve algum interesse político quando estudava na faculdade?

Paulo Betti: Na Escola de Arte Dramática, sim; antes disso, não. Eu sou de 1952. Em Sorocaba, antes da faculdade, eu tinha uma atenção para a política, rudimentar, um sentimento, em função de meus pais serem lavradores e de eu ter essa noção da condição da pessoa do campo. Mas não posso dizer que era interesse político. Impactante foi ver "O Pagador de Promessas" no Oratório dos Salesianos. Acho que foi um dos primeiros toques políticos articulados que recebi.

MHuD: O que era o Oratório?

PB: O Oratório era um projeto dos Salesianos, concretizando um sonho de Dom Bosco, cuidar das crianças pobres.

MHuD: O que você aprendia no Oratório?

PB: Eu pensava que era religião, basicamente. Mas, hoje em dia, vejo que era muito mais. Por exemplo, hoje eu tenho noção de que o padre Martini, o nosso líder do Oratório, o técnico do time de futebol, era muito mais do que isso. Eu não avaliava a capacidade intelectual, a formação dele. Hoje me dou conta de que ele sabia a Divina Comédia inteira, de cor, e a recitava em diferentes dialetos italianos. Isso sempre passava nos sermões, nas aulas de catecismo, essa erudição. Ele é uma sumidade. Cada dia que a gente frequentava o Oratório e participava das orações e do trabalho de catequese, a gente ganhava um cartãozinho,  carimbado. No fim do mês, esses cartõezinhos somados davam direito a compras num bazar, que tinha até leite de soja, uma novidade absoluta.  Minha avó gostava, e eu ficava na dúvida se pegava leite de soja para ela ou se pegava uma calça jeans para mim. As roupas vinham de um projeto chamado "Aliança para o Progresso", um acordo do governo brasileiro com os EUA. Eles mandavam roupas, jeans que haviam sido de jovens que morriam na guerra do Vietnan,  eu fantasiava. Uma vez peguei uma jaqueta que estava furada de bala, com cheiro de pólvora. Ninguém tinha jeans desbotáveis e a gente  tinha.

MHuD: Nesse momento você tinha alguma inspiração cultural?

PB: Já havia feito uma tentativa de teatro com a professora de Português, tinha decorado um poema imenso do Menotti Del Pichia, "Juca Mulato". Mas ali no Salesiano, os padres nos incentivaram a criar o primeiro grupo de teatro de que eu participei, o Tejusa - Teatro da Juventude Salesiana.  Ali montamos o Rapto das Cebolinhas, da Maria Clara Machado. Depois começamos a ensaiar O Auto da Compadecida, do Ariano Suassuna.  Lembro de a gente rodar os textos nos mimeógrafos com álcool. Era a produção, a viabilização dos ensaios. E tinha o cineclube! Os padres afastavam a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora e, no centro da igreja, projetavam filmes em 16 milímetros. Foi ali que vi O Pagador de Promessas, que viria a ser uma forte influência para mim. Imagine como os padres eram progressistas. O Pagador é um filme extremamente crítico à Igreja obscurantista.

MHuD: E você era bom de futebol?

PB: Eu não era muito bom, não. Mas gostava, era apaixonado pelo futebol. A bola era muito dura, o campo muito áspero, não tinha grama nenhuma. Cair era uma ralação danada, aquele pedregulho. Não tinha uma única touceira de grama no campo. As chuteiras tinham pregos imensos. Padre Leci, sim, era um grande jogador, jogava de óculos e de batina. Arregaçava a batina e víamos a meia e a chuteira. Mesmo de óculos, ele subia de cabeça, cabeceava! E craques eram os meus amigos, os meninos do bairro; alguns poderiam ter sido profissionais.

MHuD: Você tinha percepção política do que estava vivendo?

PB: Não uma percepção clara, apenas uma revolta com a condição de pobreza de minha familia na roça. Minha mãe teve 15 filhos!  Perdeu 8! Eu fui temporão. Nasci quando ela tinha 45. Minha mãe se orgulhava de nunca ter dado um filho!
Teve uma época que todos nós tínhamos bócio! Éramos papudos! Minha irmã, que trabalhava como enfermeira no hospital, percebeu e nos levou para a cidade. Eu ouvia essas histórias, sabia que tinha alguma coisa errada ali. Trabalhei no hospital, minha família toda nas Indústrias Votorantim. Aquelas casas todas iguais, os operários pareciam sair de um filme neo-realista italiano, aquelas pessoas que chegavam estropiadas, com os pulmões colados de cimento para serem tratadas no hospital.
Aqueles bedéis arrogantes, na escola, exigindo que cortássemos os cabelos, aqueles discursos e os hinos cantados antes das aulas. Tinha um clima opressivo. E eu adorava o LP "Hora de lutar" do Geraldo Vandré. Eu escrevia uns poemas falando dos lavradores, da pobreza. Meu pai vendia sorvete na frente da escola, com as calças remendadas, chapéu de palha; aqueles sorvetes bem humildes. Não eram as carrocinhas da Kibon.   Era complicado para um menino sair da escola e encontrar o pai vendendo sorvete na porta, as crianças são preconceituosas. Isso tudo vai virando um amálgama.
A escola, o Ginásio Industrial, era excelente. Ali aprendi eletricidade, torno-mecânico, desenho, línguas. E tinha refeição, sobremesa, comida balanceada. Era uma escola em tempo integral, uma espécie de CIEP.
Entrava na escola às 7:00 da manhã e saia às 17:00. E ia direto para o Salesiano, futebol, teatro, o tempo todo ocupado!
Tive muita sorte, estudei em boas escolas públicas. Como minha mãe era empregada doméstica numa família legal, pude ter contato com livros e minha mãe, que era analfabeta ,valorizava muito a leitura. Eu ficava lendo gibis. Minhas irmãs, mais velhas, reclamavam. E ela dizia: "deixa o menino, ele está estudando". Abençoada minha mãe!

MHuD: E o que você levou para sua carreira de ator?

PB:  Acho que minha mãe foi uma grande influência. Era muito dramática. Meu bairro era uma espécie de Macondo, pouca luz, muito batuque. Vivia num mundo povoado de fantasmas, de historias de pessoas mortas, parecia o universo do Gabriel Garcia Marques. Quando um vento abria uma porta, minha mãe falava "entre!", como se algum espírito estivesse querendo entrar. Isso tudo estimulava muito a fantasia. E minha mãe me enfiou na cabeça que leitura era uma coisa importante.  O analfabeto vive num mundo à parte, para quem o tempo é diferente.  Minha mãe precisava perguntar para onde ia um ônibus, que nome estava escrito nas placas.   Eu era assinante de um jornal da capital, aos 15 anos de idade. E dos livros da Coleção Saraiva. Tinha Machado de Assis, José de Alencar, os clássicos. Um bairro negro, quatro ruas de terra, cruzadas como um jogo da velha. Dali saiam as três escolas de samba da cidade. E tinha os evangélicos da Congregação tocando seus instrumentos. A Vila Leão era um universo muito rico. E eu tinha interesse na leitura. A única assinatura de jornal, no bairro, era a minha. Lógico que isso era influência da minha mãe, da angustia que eu via nela por não saber ler. Acho que essa mistura toda me levou a ser ator.

MHuD: E economicamente?

PB: Minha mãe, além do emprego, lavava roupa para os estudantes da Faculdade de Medicina, tinha uma república no meu bairro. Eu ajudava passando. Fiquei craque em passar roupa. Com 16 anos, eu também passei a ser importante porque comecei a trabalhar e a ajudar a família. Conseguimos aposentadoria rural para meu pai e minha mãe.
Comecei a ajudar nas internações de meu pai, que tinha esquizofrenia.

MHuD: Mas você tinha formação religiosa, inspiração religiosa?

PB: Eu era coroinha. Adorava fazer as leituras ajudando a missa, mas não gostava da roupa de coroinha, tinha vergonha daquela saia vermelha com aqueles bordados. O pessoal do bairro tirava sarro.

MHuD: Sua mãe era religiosa?

PB: Minha mãe era católica, mas misturava muito as religiões.  Por causa da doença de meu pai, ela tentava outras, como o espiritismo, e por isso freqüentei muito centro kardecista.  Depois, ela freqüentou  alguns terreiros de umbanda, onde eu ia também. Eu gostava muito de ouvir a batida dos tambores, admirava as roupas bonitas, mas tinha medo de "cair", ser tomado pelos espíritos.  Mais tarde, minha mãe, minha avó e meu pai se converteram à Congregação Cristã do Brasil, que é uma igreja muito bonita também, tem fundamentos muito interessantes. São os "língua de fogo", com seus sermões inspirados e a música! O centro do culto é a musica, uma banda em cada igreja.

MHuD: E você, para que lado foi?

PB: Basicamente sou católico. Mas tenho grande simpatia e afeto por essas religiões que frequentei quando menino, a Umbanda , o Kardecismo, pela acolhida que minha família, meu pai, minha mãe, minha avó tiveram na Igreja, na Congregação. Eles são muito solidários, ajudam-se mutuamente. É bonito!

MHuD: Seu pai era italiano?

PB: Não. Meus quatro avôs eram italianos. Eu tenho passaporte italiano.

MHuD: Qual deles trabalhou na fazenda de um negro?

PB: Meu avô materno. Meu avô e minha avó paternos eu não conheci. Quando viemos de Rafard para Sorocaba, eu tinha três anos. Meu avô e minha avó por parte de mãe vieram também, e meu avô passou a trabalhar como meeiro numa fazenda cujo proprietário era negro, o João Quiló.  No caminho da roça havia a igreja do João de Camargo, que marcou muito como um líder carismático. Já tinha morrido há uns 15 anos, mais ainda estava muito presente. E eu fui também a esse culto, essa crença que veio pelo meu avô materno João. Para ir à roça dele, era obrigatório passar na frente da igreja e a gente entrava. O meu avô, na última vez que foi trabalhar, antes de morrer, entrou na igreja quando voltava para casa, e depois  disse que quem havia ajudado a carregar um mourão que tinha nas costas, tinha sido o espírito de seu João. A roça do meu avô era uma coisa linda, porque ele era muito delicado. Eu me lembro muitas vezes de ver meu avô na roça e também o negro, em posição de superioridade. O homem negro habitando a Casa Grande e eu na Senzala, ouvindo minha mãe, que falava: “Você vai casar com a Nazaré”. Nazaré era filha do João Quiló.  Nossa família foi empregada dele, quase toda a família, porque na época da colheita todo mundo ajudava a colher. Íamos todos, numa espécie de mutirão na hora de colher arroz. Era muito bonito.

MHuD: A sua militância vem mais da vida do que da elucubração política. Você não era um revolucionário, mas atuava muito. A sua mentalidade política vem da atuação?

PB: Acho que quase tudo está relacionado com essa experiência da minha família. Eu não tinha nenhuma orientação política. A gente falava “lavrador”, não “camponês”.  Depois eu fui para a USP e, em 1972, eu estava na Escola de Arte Dramática.   Ensaiávamos e havia policiais olhando na janela, rondando. Toda noite, quando íamos para casa, éramos parados na frente da Academia de Polícia para sermos revistados.  

MHuD: E de grupo político, você não fez parte?

PB: Não fiz parte de nenhum grupo político, nenhuma militância.

MHuD: Por quê?

PB: Porque ninguém nunca chegou e me convidou para algo.  Lembro que a primeira vez que participei de uma passeata  foi em 1977, quando houve a Revolução de Portugal, a Revolução dos Cravos. Nós, chamados pela Ruth Escobar, saímos  do teatro e fomos em direção à Praça da Sé, distribuindo cravos e rosas numa passeata que foi proibida. Também me lembro de uma coisa que me marcou muito, que foi a Heleny Guariba, diretora de teatro, desaparecida política, presa em 1971 pelo regime militar. A Heleny tinha sido jurada de um festival de teatro em Sorocaba.  Por isso, o nome dela ficou marcado em minha memória. Foi a primeira vez que me dei conta que gente da nossa área, da área teatral, estava desaparecendo na repressão. Mas realmente nunca estive dentro de nada organizado. 

MHuD: Você acaba de fazer referência à Heleny Telles Guariba, morta sob torturas, provavelmente na chamada Casa da Morte, em Petrópolis.    Como foi para você interpretar Carlos Lamarca no cinema?

PB: Eu sabia quem tinha sido o Lamarca, mas não sabia a dimensão do que ele havia feito, do seu gesto, da sua liderança. Só fui entender quando fiz o filme e estudei, incorporei o personagem. Fui tomado por ele, por sua memória. Emagreci 15 quilos, em dois meses. O filme foi feito com pouco dinheiro, não dava para esperar o ator engordar e emagrecer. Era o único filme sendo rodado naquele momento. O cinema havia sofrido um atentado violento do governo Collor, que queria acabar com o cinema brasileiro! Imagine que esse cara voltou e está no Senado! Mas, voltando, vivi o Lamarca intensamente e fiquei impregnado pelo personagem durante muito tempo.

 

MHuD: E seu personagem Lamarca voltou no filme Zuzu Angel.  Helleny e Zuzu foram mortas pela repressão política do regime militar.  Qual sua opinião sobre o debate atual, agora em 2009, sobre as torturas, arquivos, punição, Anistia?

PB: Acho muito importante punir os responsáveis pela tortura, pela repressão. Uma coisa que não pode ser esquecida. Às vezes, percebo tentativas de minimizar a ditadura e isso me deixa revoltado. Dizer que a nossa foi branda é de uma cara de pau que não tem tamanho. Quem viu o documentário Cidadão Boilensen tem uma dimensão da crueldade que foi a ditadura no Brasil.

 

MHud: Falando de teatro, o seu teatro é muito forte. Você considera que seu teatro é quase político em razão de sua atuação, que também é quase política?

PB: Acaba sendo, mas não é um objetivo pré-determinado. Não penso em eficácia política ao fazer uma peça. É mais um desejo, uma necessidade interior de expressar alguma coisa, é poesia. A primeira peça que fiz foi O Pagador de promessas, que tem um conteúdo político muito forte. Se você pensar bem, toda escolha de repertório é política. Na Escola de Arte Dramática fiz peças como A vida é sonho, do Calderón de La Barca, Rastro atrás, de Jorge Andrade, e O doente Imaginário, do Molière. Quando fiz Cerimônia por um negro assassinado, por exemplo,  uma repórter falou assim: “Mas essa peça fala muito mais da repressão do general Franco do que de poesia”. Nunca perguntei isso pro Arrabal (espanhol, autor da peça), pode até ser.  Me projeto nos trabalhos que faço e, ás vezes, eles têm conteúdo político, mas minha ação não é direcionada nesse sentido.  Não dá para se ter tanto controle, não se consegue. Lutamos para tocar o público, atingi-lo de alguma maneira, diverti-lo, fazer com que ele se emocione, pense.
Poucas vezes conseguimos isso. Uma das melhores peças que fiz foi Na Carrera do Divino, onde falávamos da cultura caipira, um texto do Carlos Alberto Sofredini, uma peça que poderia ser adotada pelo MST. Fizemos em 1979. O que queríamos com a peça? Dizer que o sotaque carioca que ouvíamos na televisão não era o único bonito. Que o caipira também era! E a peça resultou muito mais do que isso, é claro.
Quem quiser ter uma idéia do que era a peça, veja o filme Marvada Carne, do André Klotzel.

 

MHud: É mais uma questão humana, de expressão, não é?
PB: Exatamente. Não é uma estratégia.  Se eu escolhi certos lados ou certas posições, foi muito mais determinado por uma empatia, por uma coisa intuitiva, do que por uma racionalidade política. Mas ainda hoje me incomoda um pouco isso, esse pragmatismo, esse olhar distanciado, frio, tentando ver os resultados políticos a ser alcançados, estratégias.  Por exemplo, quando o Lula perdeu para o Collor, em 1989, nós queríamos que o PT fizesse as Comunidades Artísticas de Base. Era até um projeto do Boal.  Naquela época, o que a gente queria era uma atuação efetiva: “vamos fazer o governo paralelo, mas na estrutura que nós temos hoje no Brasil, de diretórios do PT; vamos botar gente fazendo atendimento médico, psiquiátrico, psicológico, dentário, teatral etc.” Mas havia uma ala que tachava isso de assistencialismo. Sempre me incomodou muito essa visão pragmática. Penso que se a gente tivesse feito dois mil diretórios pelo Brasil, fazendo o que pudesse fazer para ajudar, teríamos tido um resultado político incrível e um resultado efetivo social também.
Detesto essa historia de "ensina a pescar, não dá comida"! "Primeiro a educação". É claro que tem  que aprender a pescar! É claro que tem que ter educação! Mas com a barriga vazia? 

MHuD: E a Casa da Gávea acabou sendo uma experiência que lembra um pouco essa idéia, não é?

PB: Foi isso. O Lula perdeu num domingo. Na segunda-feira apareceu na casa do Adair Rocha essa idéia. O Lula estava lá. Comecei a viajar com uma peça de teatro e nessa viagem eu fui pregando a tal idéia, de transformar cada diretório num centro de cultura.  Fui em cada cidade. O Collor tinha baixado aquele confisco econômico e a peça fazia muito sucesso.Viajamos pelo Brasil inteiro, todas as capitais. Eu fui fazendo debates pela democracia dos meios de comunicação. Fizemos um movimento muito interessante, pois havia a necessidade de saber o porquê de o Lula ter perdido a eleição. Ao mesmo tempo, fui também de diretório em diretório do PT tentando estabelecer o que seria uma coisa parecida com a futura Casa da Gávea. Quando voltamos, alugamos esse local e estamos tocando isso aqui, somos precursores dos Pontos de Cultura, projeto  do Ministério da Cultura. 
Mas, hoje há muitas coisas que fazemos na Casa da Gávea e percebo que elas estão relacionadas com aquele exemplo dos Salesianos, como o cineclube. A idéia da associação, penso que vem do Nhô João de Camargo, que criou uma Associação em 1917!
Ajudei a criar a Cooperativa Paulista de Teatro e a Casa da Gávea também é uma associação. As coisas vão sendo plantadas na gente e acabam brotando muito tempo depois. Fui muito influenciado por um projeto do Sesi, que levava peças profissionais para o interior, para formar platéias; depois eles faziam debates. Vi uma peça e um debate depois, e fiquei fascinado. Aquele ator profissional, que parecia um gigante no palco, tinha o mesmo tamanho que eu! Ficava possível fazer teatro, então.

MHuD: Você tem uma experiência de contato com as pessoas que não têm lugar social, não é?

PB: Meus amigos de infância. Quase todos se perderam na vida. Parece que estou o tempo todo procurando reencontrá-los.

MHuD: Queria te provocar para uma reflexão sobre o diálogo com a diferença. Penso na questão do Oriente e do Ocidente: temos um problema interno no Brasil, que é a exclusão do candomblé e das religiões afro-brasileiras.  Esse é também um problema internacional, que toca o tema da relação com a diferença. Bush tinha uma atitude, e agora há outro presidente que parece ter uma atitude diferente. Você pode falar algo sobre isso?

PB: Não foi uma consciência de fora para dentro que me fez ver que meus amigos negros, do bairro onde eu morava, tinham menos chances do que eu. Não foi. Eu vi o que aconteceu com eles! Os outros meninos eram iguaizinhos a mim, éramos vizinhos, a mesma condição social. Mas eles não tiveram as mesmas condições. Eu encontrava com eles no bairro, eu brincava com eles na rua, mas eu não brincava com eles dentro da escola. E a maioria se perdeu na bebida.
Quanto à religião, estou impregnado de religião.Tenho uma fé geral, mas também muitas  vezes duvido. Acho que tenho fé é na força que a religião tem de reconectar a gente com uma emoção boa, uma alegria de estar junto com os outros, de ser igual.
Tem coisas que gosto e desgosto na religião. Tem muita manipulação, muita enganação.
Quando ia no terreiro de umbanda, era bonito ver as pessoas limpas, vestidas de branco, tocando tambores e cantando . Mas eu não gostava de ver as pessoas em transe, matança de animais, tinha medo.  A mesma coisa no espiritismo, com todo mundo junto, cantando Ave Maria de Gounod e dizendo que aquela água fluída seria comungada por todos. Mas eu não acredito naquela complicação das teorias reencarnatórias. A Congregação Cristã, os cultos são lindos, os depoimentos, a banda tocando e o povo cantando os hinos! Mas eles ficam o tempo todo tentando catequizar. Aí é chato. A Igreja Católica tem aberrações também, mas eu usufruí um trabalho social dela, não posso negar. Fui atingido todo o tempo pela fé, pela beleza, pela leitura do Evangelho.
Ter transitado por tantas religiões me dá uma compreensão das diferenças. Por exemplo, eu gosto de futebol, vou aos estádios, mas não entendo porque uma torcida tem que gritar contra a outra, expressar ódio pela outra. Tentar ver a razão do outro. Preconceito? Todos nós temos. O preconceito racial está na nossa pele, nas diferenças culturais.   Se você não souber filtrar isso, não trabalhar isso, você vai ser preconceituoso. Temos que entender por que aquele cara, ao meio-dia, às seis da tarde, encosta a cabeça no chão, e  que aquilo faz sentido para ele, é a fé dele.
Quando aconteceu a guerra do Iraque, me deu uma bronca do Papa João Paulo! Ele emitiu uma nota contra a guerra! Quer coisa mais anti cristã? Mais descompromissada? Mais distanciada? Ele estava quase morto! Porque não pegou um avião e não foi para Bagdá? Alguém ia atirar uma bomba sobre o Papa? É preciso ser menos formal, ás vezes.

MHuD: Você carregou Sorocaba na tua vida?

PB: Carreguei, porque estavam lá minha mãe e meu pai. E meu irmão ainda está lá. Não foi por mérito nenhum. Eu tinha uma culpa tremenda de deixar minha mãe, que era mais velha.  Hoje tem lá o Quilombinho [projeto que funciona na casa onde Paulo Betti foi criado], e isso para mim é maravilhoso, mas também não foi decidido como uma peça de teatro política. Aconteceu como uma soma de ações, de atitudes não planejadas.

 

MHuD: O que a realização do filme Cafundó representou para você? Existiu alguma relação com sua participação em “A Guerra de Canudos”?

PB: Tem relação com Canudos porque também fala de um líder carismático. Mas João de Camargo evitou o confronto, veio depois de Antônio Conselheiro, numa região diferente, outro contexto.
Cafundó foi como uma grande missão para mim. Parece que eu tinha a obrigação de fazer o filme, foi uma provação, um rito de passagem. Levei quase metade da minha vida fazendo. Saiu filme, livro, saiu um grande entendimento de minhas origens. Aprendi todas as etapas de  produção de um filme. Antes, só havia trabalhado em filmes como ator.
É um projeto que acho que conseguimos completar. Antropológico, sociológico. Pode ser um bom material para estudo em faculdades. Quem se interessar pelo tema pode ir ao nosso site www.cafundo.com.br e baixar o trabalho feito por Florestan Fernandes quando tinha 22 anos. A primeira incursão dele na questão do negro! Está lá, no item bibliografia :"Contribuição para o estudo de um líder carismático".
A pessoa pode pegar o DVD, ver o filme e, nos extras, ver a entrevista com o mestre dois meses antes de ele morrer. Florestan fala sobre o mesmo tema 50 anos depois do seu trabalho seminal.
Fico feliz por ter realizado esse trabalho. Acho que tem alguma utilidade para o estudo, além de ser um filme, de ter o objetivo de contar uma história cheia de poesia e fé.

MHuD: Hoje em dia você tem um papel didático importante, de professor, inclusive na Casa da Gávea. Essa formação humana, cultural, política te dá uma responsabilidade? Você tem consciência dessa responsabilidade?

PB: Acho que tenho. Durante sete anos fui professor da Universidade de Campinas.  Na Casa da Gávea, sempre que posso me meto a dar cursos de teatro também.  Acho que tenho consciência dessa formação e que devo passar isso da melhor maneira e com o maior empenho que eu puder. Foram muito generosos comigo, então eu tenho o dever de devolver alguma coisa. Fui muito atingido por uma frase do Gandhi, que ficou durante muito tempo exposta na minha casa: “fôssemos tudo que somos capazes de ser, estaria resolvida a maioria dos problemas do mundo”.
Tinha um diretor de teatro com quem eu trabalhei na adolescência,  o Carlos Alberto Soffredini, que sempre falava nos ensaios: “Não se poupe, não se poupe”.  Era um mantra. Porque é um escândalo se poupar num país como o Brasil.  Tem que ir para a luta. É bacana quando se está em turnê, termina a peça, vai para o restaurante jantar, volta para o hotel, no dia seguinte fica na piscina e vai fazer a peça à noite. Mas se você está em Aracaju, Teresina, dá para fazer outras coisas, fazer reuniões, participar de encontros. Dá para aproveitar, fazer a excursão render mais, trocar mais. O desgaste é maior, mas eu nunca perdi a voz na hora de fazer a peça por causa disso. Essas coisas todas acabam devolvendo a energia para a gente.
Sempre fui dessa teoria, não se poupar, botar a mão na massa, e acaba dando um resultado tão maravilhoso... Aquilo que você planta, você acaba colhendo. Sabe que um dos filmes que fiz com mais repercussão foi o Acorda, Raimundo, acorda, que passou nas comunidades de base? Idéia do Betinho! Militância pura. Coisa do Ibase. Sou reconhecido pela novela Tieta e, quase pau a pau, por Acorda Raimundo, que só passou em igreja ou movimentos de base. Sempre gostei de estar com os índios e seringueiros no Encontro dos Povos da Floresta, com os Sem-Terra da Fazenda Anone. Eu gosto de estar nesse lugares. Sinto que sou parecido, que sou querido ali como em minha família.

MHuD: Você fez O canto da terra, não é?

PB: Fiz O canto da terra, do Paulo Rufino.  Fiz o papel de um historiador que conta sobre a distribuição de terras no Brasil, desde as capitanias hereditárias até chegar às grandes propriedades, comparando com os Estados Unidos. É um filme bem esclarecedor.

MHuD: E o que esta fazendo agora?

PB -Estou trabalhando como ator na peça "Sonhos de uma noite de São João", baseada em Shakespeare. Apresentamos a peça em praças. Somos 30 atores. Fora isso, começo a ensaiar "A Tartaruga de Darwin", de um autor espanhol, Juan Mayorga. Vou dirigir e atuar nessa peça, onde vamos comemorar os 40 anos de teatro da Cristina Pereira. Fora isso, vou aparecer na televisão com a minissérie "Som e Fúria", do Fernando Meirelles, e me preparo para dirigir o filme "Canção Brasileira", baseado numa opereta  de 1933 que fiz no teatro. Conta a história das origens da música popular brasileira. Vamos lançar o CD em breve, está pronto e está lindo. É uma homenagem ao Luiz Antônio Martinez Correa, grande diretor que morreu muito jovem.
Fico vibrando porque sei que esses trabalhos vão ser acompanhados pela criançada lá do Quilombinho, na casa onde fui criado em Sorocaba. Vai ser um estímulo para eles também.
Hoje eles fazem peças de teatro, Brecht, João Cabral de Mello Netto, no quintal onde eu ajudava minha avó a matar porco. Na inauguração, eu tentava entender o por que de fazer aquilo, de fazer as coisas. E o  padre Martini disse: “Aqueles que, por obras valerosas, se vão da lei da morte libertando”. É Camões, Os Lusíadas.

MHuD: E o que você acha de um grupo de artistas à frente dos Humanos Direitos? Acha que atrapalha a atuação artística deles?

PB: Olha o nome: Humanos Direitos. Como isso pode atrapalhar? O artista lida com isso, com o humano.  Não acho que as pessoas têm obrigação de fazer, mas algumas têm necessidade de fazer. Foi uma experiência incrível quando fui para Rio Maria, no Pará, inesquecível! O teatro nasce da necessidade do homem  contar para o outro, de tocá-lo. E era o que vocês faziam ali, quando colocavam a roupa com o sangue dos mortos nas portas. Na hora que eu passo por uma porta e esbarro no sangue de alguém que morreu, meu compromisso com aquela história muda.  Quando alguém escraviza um lavrador, esse lavrador poderia ser meu avô. Como posso ser contra o Movimento Sem-Terra? Minha mãe assinava em cruz!  Se tem um movimento que representa essa gente, eu tenho que ser a favor.



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