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FREI HENRI: Eu sonho que cesse a violĂȘncia contra os camponeses sem terra



09/10/2014

BRASIL DE FATO

Eu sonho que os bens da natureza, terra, florestas, biodiversidade, córregos, rios, água, cessem de se transformar em mercadorias e sejam consideradas como bens da comunidade universal, como patrimônio da humanidade.

09/10/2014

Henri Burin des Roziers

Eu sonho que mude este modelos de desenvolvimento agrícola baseado no agronegócio e na produção industrial de monocultura para a exportação (soja, gado, cana de açúcar). Pois isso provoca a expulsão de pequenos agricultores, a violência contra os trabalhadores rurais, a concentração gigantesca de terras, a migração para a periferia das grandes cidades, a exploração da mão de obra até a forma de trabalho escravo contemporânea, a destruição da natureza e o desastre ecológico.

Quando eu passei nesta região amazonense de Xinguara, no Brasil, pela primeira vez, em 1979, toda ela não era senão floresta. Somente existia, por onde quer que fosse, cabanas de madeira e pequenas clareiras que aumentavam dia após dia. As imemoráveis famílias de migrantes vindas de diversas partes, jogadas neste Eldorado, começaram a enriquecer do comércio fácil destas madeiras preciosas., acácias, jatobás, aroeiras. Por todas partes ouvíamos o som das serras. Muita vida, com as grandes serras, a desflorestação tornou-se vertiginosa. Hoje, as florestas converteram-se em imensas terras ociosas e de pastagens. Lá onde existiam 45.000 hectares de floresta há atualmente um criador de gado com 45.000 hectares de pastagens! O uso de agrotóxicos do agronegócio tornou-se intensivo e polui a vegetação e os rios da região. Na atualidade chegam grandes empresas mineradoras, nacionais e internacionais que exploram o ferro, o níquel, o ouro e poluem silenciosamente o solo e o subsolo.

Domingo, um motorista de grandes tratores que conheço, de passo por Xinguara, veio falar e me contar: “Eu trabalho atualmente a trezentos quilômetros daqui, na nova fronteira da floresta amazônica, numa exploração agrícola do Grupo Santa Bárbara (o segundo criador do mundo que tem 400.000 hectares de terra e 500.000 cabeças de gado na região)”. Após algum tempo, alguns madereiros não desmatavam mais por trator, pois, os satélites dos serviços do meo ambiente e a proteção das florestas localizam todo tipo de clareiras. Eles utilizam agora agrotóxicos que pulverizam por avião sobre imensas superfícies. As árvores morrem no pé e as fotografias por satélite não mostram nenhuma desflorestação, nenhuma clareira.

A senhora Mérevin, uma vizinha que nos serve um café na varanda de sua agradável pousada recorda-se: “Em 2007, uma importante empresa começou a explorar uma grande mina de ferro, a trinta quilómetros, transportando o minério em enormes caminhões à reboque, até trezentos e cinquenta quilômetros daqui. Para percorrer o trajeto, eles abriram uma pista justamente enfrente a nossas propriedades, onde, dia e noite, passam oitenta destes caminhões, levantando enormes nuvens de poeira. As árvores na beira da rodovia secam, as vacas não dão mais leite, as crianças e os familiares não dormem mais. Após vários acidentes muito graves, as famílias não deixam mais que suas crianças vão para a escola”.

Tendo esgotado todas as tentativas de acordo, as oitenta famílias decidiram bloquear a estrada. Foram sessenta e quatro dias esgotantes, mas a empresa cedeu e o acordo foi assinado. Um bom acordo! Limite de velocidade, construção de quebra-molas, interdição de circular à noite,  umedecimento da pista [para não levantar tanta poeira], indemnização. A vida recomeçou, a poeira diminuiu muito, o barulho dos caminhões também, as famílias retomaram suas atividades, as crianças dormem novamente e retornaram à escola, as pastagens revigoraram, os animais começaram a engordar novamente, as galinhas põem. Todos decidiram permanecer e continuar sua agricultura familiar, diversificada, ecológica, rentável.

Na comunidade vizinha, M. X., que possui uma pequena exploração familiar com produção diversificada e ecológica, possui como vizinho um grande fazendeiro. Nas últimas semanas, um avião passou várias vezes numa altura muito baixa, espalhando agrotóxicos sobre as pastagens do fazendeiro. M. X. foi imediatamente adverti-lo que em caso de vento, os agrotóxicos se espalhariam para sua propriedade. Mas o avião continuou seus vôos. O vento chegou e a nuvem de agrotóxicos se espalhou sobre as terras de M. X., danificando os cultivos, trazendo doenças aos animais e às pessoas. Ele mesmo e duas outras pessoas deveram ser hospitalizadas. Mas, para sua  surpresa, o hospital se recusou a fornecer um atestado citando o tipo de agrotóxico do qual eles tinham sido vítimas, admitindo que isto seria perigoso pois o responsável era rico e poderoso.

Eu sonho que esta terra da Amazônia, assim diversificada e bela, dom precioso de Deus, essa terra que é a vida, nossa vida, nossa mãe, não se transforme num deserto humano nem ecológico.

Eu sonho que cesse esta violência contra os camponeses sem terra que lutam pelo seu direito à terra, e que continuem com sua coragem e com sua esperança.

As vezes, a noite, uma estrela faz com que nos sintamos menos sozinhos, nos dá a coragem, nos dá novas esperanças, ilumina a chama da Esperança. Esperar o que? Esperar por quem? Há somente noites sem estrelas, onde o ser humano não sabe onde ir. Noite da solidão, da doença, do pranto. Noite das injustiças, da violência, do ódio, da fome, da indiferença, do medo. Tantas noites sem estrelas atravessam nossas vidas!

Mas, as vezes, a noite, uma estrela cintilante, fascina! Não é esta a noite escolhida por Deus para visitar a humanidade? Não é esta a noite que Jesus veio viver conosco? Não é esta a noite que a Estrela guiou aos reis magos até a manjedoura de Jesus?

Esta é uma das noites de medo que viveram, o 5 de agosto de 2012, oitenta famílias de pequenos agricultores da fazenda Nobel, no sul do estado do Pará, no Brasil. Eles viviam em paz, longe da cidade, sós sobre esta bela terra, dom de Deus, nutriam seus filhos com os fritos de seu trabalho. Quem tem o direito de permanecer sobre esta terra abandonada: eles mesmo ou o proprietário?

Naquele dia, após o meio-dia, quatro policiais armados chegaram, na viatura do proprietário, enquanto as famílias estavam reunidas. Eles se aproximaram, revolver em punho, e gritaram que eles deviam partir imediatamente, que o juiz havia dado parecer favorável ao proprietário. Eles ameaçaram, injuriaram, humilharam, fizeram todo tipo de pressão.

“Mostre-nos a ordem do juiz”, responderam as famílias reunidas, com os braços cruzados, repetiam: “Nós só partiremos senão com uma ordem judicial”. Os policiais eram comprados, pois a sentença ainda não tinha sido proferida. As provocações, as pressões e as ameaças continuaram toda a tarde. À noite caiu e os policiais, furiosos, partiram em direção à casa do gerente, ameaçando retornar em número maior. As famílias angustiadas, tremendo de medo, passaram a noite em vigília. As horas passaram. Este barulho, na escuridão, não são eles não?

É sempre na noite, quando tudo nos parece perdido, que aparece uma estrela, mesmo que ela seja minúscula. Como a estrela por cima da manjedoura do Menino Jesus.

O céu estava todo estrelado. Onde estava a estrela dessas famílias da firma nobel, uma comunidade pacífica e unida que luta com tal determinação, com tanta coragem, tanta fé, tanta esperança, pelo seu direito sagrado à terra, esta terra que é um dom de Deus para todos, para habitar, trabalhar, alimentar as crianças, viver dela, nela e por ela, preservando a ternura e o amor?

As horas passavam, os olhos estavam vermelhos, os rostos, cansados. Repentinamente, o horizonte iluminou-se, o sol se levantou. No mesmo momento, o comandante da polícia, que havia sido alertado, chegou numa viatura à fazendo. Ele estava acompanhado por dois homens algemados. Os outros, tomados de pânico, haviam fugido. Lá alto, no céu, uma estrela ainda brilha.

Eu sonho igualmente que as duzentas e quarenta famílias corajosas do acampamento sem terra, que eles chamaram Frei Henri para me homenagear, possam viver em paz. Elas sabem que, por razões de saúde, eu tive que retornar para receber tratamento médico na minha terra natal, na França, e pensam que eu não voltarei mais, pode ser mesmo que eu esteja morto. Esses sem terra, jogados na lama pela mídia, considerados como a ralé pela opinião pública e as vezes pelas pessoas das igrejas, pobres de tudo, colocaram o meu nome ao seu acampamento, eu, rodeado de privilégios, de conforto e consideração, eu, tão em contradição com o Evangelho de jesus, eu, seu irmão nas Bem-Aventuranças, como se eu fosse um destes pequenos, um destes preferidos de Deus! Há homenagem mais belo que esse em minha memória?

Eu sonho, que quanto eu esteja morto, seja enterrado no meio deles, no “meu acampamento”, e que as crianças passem dizendo: “Este é o túmulo daquele frei Henri que lutava conosco pelo nosso direito à terra”.

Ao retornar ao Brasil, eles insistiram para que eu viesse conhecer esse acampamento, situado a trezentos quilômetros de minha cidade de Xinguara. Viagem difícil, mas quanta acolhida! Que jornada inesquecível, quanta delicadeza, quanta atenção! Eles me contaram sua longa marcha para esta terra abandonada que eles sabiam pertencia ao Estado. Após ter andado mais de dez quilômetros eles se defrontaram com uma barreira de fazendeiros e seus capangas, armados, que atiraram contra eles. Eles que tiveram que acampar lá e só no dia seguinte , quando a polícia chegou, eles puderam ocupar esta terra de 400 hectares. Três anos depois, já é uma pequena cidade onde eles construíram uma escola de barro, uma grande sala de reuniões, uma bonita igreja.

Mas o 5 de outubro de 2012, os fazendeiros voltaram, tendo cercado o acampamento com seus veículos e trincheiras, e, à noite, eles atiraram balas reais, semeando um clima de terror. Logo a polícia permaneceu durante o dia, mas retirou-se à noite e, a noite, os fazendeiros voltavam e atiravam, pensando que as famílias, aterrorizadas, partiriam. Eles permaneceram e, alguns dias depois, a decisão do juiz chegou, dando razão aos sem terra. No entanto, os fazendeiros e seus homens armados ainda estão lá, intimidantes.

Eu sonho que os operários agrícolas que sofrem nas grandes explorações madereiras, desmatando e clareando, perdidos no meio da floresta amazônica, sejam tratados como seres humanos e não como escravos, como era o caso do jovem Sebastião e seus companheiros.

Sentados a frente de suas casas, eles estão sem emprego na sua pequena cidade pobre do estado do Piauí. Suas crianças têm fome. Passa então um caminhão com auto-falante chamando o pessoal para ir trabalhar numa firma no estado do Pará. O olheiro dos agricultores promete  bons salários, alimentação, alojamento. Eles embarcam no caminhão. A viagem de dias, sob um calor escaldante, na poeira, quase sem comer, é esgotante.

Com outros trabalhadores migrantes vindos de todas as regiões do Brasil, perdidos na floresta, alojados debaixo de lonas, sem receber salário, sem dinheiro, bebendo água salgada de um riacho onde o gado bebe, comendo a carne podre de bovinos, eles trabalham de sol a sol, na forno, serrando árvores, desbravando a floresta, vigiados por homens armados. Já se passaram três meses que eles sobrevivem nesta situação de escravidão. Esta noite, estendidos nas suas redes, eles olham mais uma vez para o céu estrelado. Onde está a estrela do pequeno, de Sebastião, este jovem cara de 17 anos que, menos vigiado que conseguiu fugir para avisar as autoridades? Onde está ele? Ele está vivo? Teria ele conseguido escapar aos guardas armados que partiram à sua procura no dia seguinte?

A noite passa, a alba aparece, o sol se levanta. Eles já estão no trabalho na floresta, derrubando e limpando a terra. Aparecem então, sacudindo sobre a pista, três veículos 4x4. Os policiais federais, arma em punho, pulam para o chão. Eles estão acompanhados de muitos representantes do Ministério do Trabalho, do Procurador da república, do Delegado de Polícia Federal. Eles estão livres!. No banco traseiro do veículo, encapuzados, escondendo-se para que o gerente não o visse, um menino paralisado de medo. É Sebastião. Foi ele que alertou as autoridades e mostrou a trilha desconhecida, bem como difícil, para chegar até lá.

Sebastião havia marchado a noite inteira no mato, em meio ao barulho da floresta, com medo das serpentes, das panteras, dos crocodilos, bebendo a água dos riachos, guiado pela estrela  do Cruzeiro do Sul, como lhe aviam ensinado os companheiros mas antigos: ele não se perderia e cruzaria de qualquer modo, mais cedo ou mais tarde, uma rodovia.

Não é essa a estrela que conduziu os Reis Magos, à noite, até a manjedoura do Menino Jesus? O jovem Sebastião seguia sua estrela com confiança. As vezes, ele a perdia na escuridão da floresta mas a reencontrava logo numa clareira, todo feliz! Ele marchou muito tempo, longo tempo. Ele tropeçou, vacilou, tombou. Ele permaneceu algum tempo estendido sobre as folhas e olhando o céu. Ele se sentia pequeno diante da imensidão da abóboda celeste e suas miríades de estrelas, tão perdido nessa floresta sem fim, assim frágil. Mas, o Menino Jesus não era uma coisa pequena, assim como ele, na manjedoura, aquela noite de Natal? Não era na pequenez do ser humano que a força de Deus se manifesta? Sebastião um pão quase cru dado pelos seus companheiros que esperavam tanto dele. Ele retomou o vigor; ele cercado pelas estrelas do firmamento, se levantou e se colocou em marcha.

Pela manhã, o sol apareceu no horizonte. Alcançou uma estrada de chão, Sebastião hesida: à esquerda ou à direita? Ele esperou. Um velho caminhão chega e para. O jovem sobre na cabina perto do condutor e seguiram em silêncio por um longo momento. O motorista finalmente parou, olhou para Sebastião e finalmente perguntou a ele: “Você fugiu de uma fazenda?” Aterrorizado, Sebastião respondeu: “Sim”. “Então, vá para a carroceria e esconda-se debaixo dos alimentos, porque em qualquer lugar, um pouco adiante, um grupo de homens armados detêm e revistam os veículos. Alguns quilómetros mais longe, os homens armados interceptaram o veículo. Eles olham na cabine, falam com o motorista e o deixam partir. Um pouco mais tarde, o motorista faz Sebastião entrar na cabine. Eles rodaram a tarde toda e chegaram à noite na cidade de tucuman. Então, o condutor deixa Sebastião no Sindicato dos trabalhadores Rurais que avisou à Comissão Pastoral da terra, a qual alertou às autoridades para libertar os cento cinquenta trabalhadores tratados como escravos, perdidos na floresta.

Fez-se noite, a estrela que havia guiado Sebastião brilha no céu. É a mesma estrela que guiou os Reis Magos até a manjedoura onde o Menino jesus havia vindo ao mundo para libertar os oprimidos e proclamar o Reino do Amor, da Justiça, da Solidariedade e da Paz.

Eu sonho, enfim, que cesse o culto à ao bezerro de ouro.

Assistino ao espetáculo da Cavalgata de abertura da Feira Agropecuária de Xinguara, o 18 de setembro, eu fiquei maravilhado pelo aspecto grandioso desse desfile: os inumeráveis cavalos todos ornamentados, com seus cavaleiros e amazonas, as carruagens, as velhas charretes puxadas por bois possantes... e mesmo uma imagem de nossa Senhora Aparecida, desfilando com um homem que a carregava. Eu olhei a apresentação de diferentes fazendas e particularmente aquelas do grupo Quagliato.

Em primeiro lugar, passou a fazenda Rio Vermelho, muito impressionante com um número importante de animais, e, liderando, uma grande faixa parabenizando a população de Xnguara. Nesse momento, eu me lembrei que 2080 hectares dessa propriedade não lhe pertencem, mas são terras públicas, propriedade do Estado federal, que Quagliato indevidamente se apropriou. Eu me lembrei também que Rio Vermelho foi classificada pelos serviços oficiais competentes como não cumprindo a sua função social, como o exige a Constituição, pois ela possui 11000 hectares em áreas limpas e de desmatamento ilegal. De resto, como esquecer as inumeráveis denúncias de prática de trabalho escravo nessa fazenda, feitas a partir de 1980!

A seguir, um desfile da fazenda Brasil Verde, igualmente muito bonita, com seus animais ornamentados, avançando após uma grande estandarte onde estava escrito: “Parabens, do Sindicato dos Grandes Fazendeiros”. Neste momento, me veio a memória que esta fazenda também foi objeto de denúncias por prática de trabalho escravo, que são a origem do processo em curso na Comissão Interamericana dos Direitos do Homem, no seio da Organização dos Estados Americanos.

Logo a seguir, havia as fazendas Colorado e São Sebastião. Como não recordar que Colorado foi denunciada por prática de trabalho escravo? Do mesmo modo que as fazendas Rio Vermelho e Brasil Verde, seu nome já foi mencionado na “lista negra” do Ministério do Trabalho.

Por último passou a fazenda Santa Rosa, com um impressionante e belo cortejo, que me fez lembrar que, como Rio Vermelho, este ano, a fazenda Santa Rosa foi classificada como improdutiva por não cumprir a sua função social.

Diante de todas essas constatações, eu me perguntei que devoção poderia ser feita a Nossa Senhora Aparecida? O grupo Quagliato é riquíssimo, proprietário de fazendas nos estados de Pará, de Goiás, de São Paulo, mas de onde vem essa riqueza? A história dessa riqueza não seria ela mesma edificada com o suor e as lágrimas do povo? Esse enriquecimento é realmente justo? Todos esses homens, membros do Sindicato dos grandes fazendeiros, acreditam eles que este enriquecimento injusto, segundo o Evangelho, pode continuar? O gado nestas regiões não se tornou ele um ídolo como o bezerro de ouro [conforme narrado] no Livro do Êxodo (Ex 32, 1-8)?

O dia dessa grande festa, onde o centro era o gado assim como a riqueza que ele produzia para aqueles [fazendeiros], o Evangelho do domingo nos conta a parábola de Jesus relativa à “riqueza injusta”, que, por medida de prudência, seria preferível repartir (LC 16,9).

Na comunidade de Santana do Araguaia, há uma grande escultura da Bíblia e, frente a ela, a alguns metros, há uma imensa estátua de um bezerro. O que escolher: o bezerro de ouro ou a Palavra de Deus? O Livro do Êxodo conta que o povo de Deus em sua peregrinação, para a terra prometida, se revolta contra esse Deus que o havia tirado da escravidão do Egito, porque sua lei, diferente daquela dos homens, era muito dura e, à causa dela, eles vieram adorar o bezerro de ouro.

Eu sonho que o bezerro de ouro não se torne mais, nesta região, o deus de muitos.

Eu sonho Igrejas inspiradas pelo Espírito, fieis ao evangelho de Jesus de Nazaré, libres face as forças do poder do dinheiro, a serviço dos pobres, corajosos, não tendo medo de denunciar as injustiças, que vem das autoridades civis ou religiosas; Igrejas que não procurem honrarias e glória, que não sejam triunfalistas, que procurem a verdade e não a imponham.

Eu sonho com uma Igreja católica democrática, colegiada, comunitária, participativa, fiel ao espírito do Concílio Vaticano II.

Eu sonho com Igrejas abertas a todas aquilo que é bom na humanidade, no mundo, nas pessoas.

Eu sonho com Igrejas percebidas e reconhecidas graças a seu testemunho de humanidade na fidelidade ao Deus da vida e da libertação.

Eu sonho um país de um povo sem discriminação, onde todos os indígenas, negros, mulheres, homossexuais sejam reconhecidos como seres humanos, cidadãos iguais aos outros, dignos do mesmo respeito.

Eu sonho que a reforma agrária se faça mediante uma justa distribuição das terras e que se desenvolva a agricultura familiar, ecológica e sustentável.

Eu sonho de não ver mais, na beira da estrada, entre a estrada e a cerca de arame farpado do suposto proprietário, parados sobre um espaço de trinta metros de largura, numa distância de centenas de metros, por vezes quilômetros, centenas de famílias sobre barracas de palha, esperando um lote de terra; enquanto que do outro lado da cerca que eles não podem ultrapassar, sob a pena serem recebidos a bala, se estender milhares de hectares mato.

Eu sonho que a terra seja considerada somente em sua dimensão econômica de produção alimentar, mas também em sua dimensão antropológica, cultural, social, levando em consideração as tradições ancestrais de inúmeras populações da África e da América Latina, para os quais a terra faz parte de seu ser, de sua existência, de sua história, de sua religião de sua vida.

Eu sonho que o êxodo rural provocado pelo agronegócio não transformem definitivamente nossas cidades em imensas favelas, cortiços de desumanização, e droga, de prostituição, de violência.

Eu sonho que a força econômica e financeira do agronegócio não substitua ao poder do estado, ao poder dos Estados, como já acontece em algumas partes do Brasil.

Eu sonho que os bens da natureza, terra, florestas, biodiversidade, córregos, rios, água, cessem de se transformar em mercadorias e sejam consideradas como bens da comunidade universal, como patrimônio da humanidade.

Eu sonho que a força cega do agronegócio e de seus agrotóxicos, em nome do lucro a todo custo, seja realmente percebido, reconhecido e neutralizado antes que ele provoque uma tragédia humana.

Eu sonho com a beleza da natureza, com a beleza da diversidade, com o ar puro, com a água cristalina, com o alimento saudável/sadio, com crianças cheias de alegria, de saúde física e mental, cidades boas de se viver.

Mas eu sonho com os dois milhões de seres humanos que morrem de fome, com os milhões de crianças de rua que são assassinados a cada dia, com os milhares de famílias que são cotidianamente expulsos de suas casas e de suas terras. 

 

Mais sobre Frei Henri, neste site:

2005 Frei Henri e Dona Joelma no Rio de Janeiro.

2006 Apoio ao Frei Henri, ameaçado de morte - filme

2013 A concentração de terra estimula a violência e a impunidade - Frei Henri

2013 Prêmio João Canuto 2013 - Casa de Cultura Laura Alvim



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