Dois sucos e a conta... por Mauro Ventura
REVISTA O GLOBO • 5 DE JUNHO DE 2011
Foto:
Simone Marinho
Nos últimos dias, quatro
agricultores e ambientalistas
foram assassinados na
Amazônia. A atriz Letícia Sabatella
conhece bem o problema. Em 2005, ela e
Camila Pitanga foram a Rondom do Pará chamar a atenção para o caso da líder
sindical Joelma Dias da Costa, que
integra uma lista de 18 pessoas do Sul do
Pará marcadas para morrer. A história
está no recém-lançado “Esse homem vai
morrer—Um faroeste caboclo”, de
Emilio Gallo. É um gesto comum na vida
de Letícia. Ela já caminhou com os sem
terra e os ribeirinhos, acompanhou o
julgamento dos acusados da morte da
Irmã Dorothy e visitou o bispo Dom Luís
Cappio, que fazia greve de fome contra a
transposição do Rio São Francisco.
“Assinei uma carta dando apoio, mas não
podia apoiar a greve de fome e almoçar
tranquila. Tinha que ir lá entender o
porquê daquele gesto extremo.”
Entendeu. Na véspera dessa entrevista,
esteve numa reunião da ActionAid, ONG
que combate a pobreza. Letícia fala com
firmeza e doçura de temas áridos. Sem
esquecer a arte: vai estar num musical
sobre Lupicinio Rodrigues e no filme “Muitos homens num só”, de Mini Kerti, e
prepara um espetáculo com música,
dança, poesia, teatro e artes plásticas.
REVISTA O GLOBO: Como você vê essa recente ondade mortes no campo?
LETÍCIA SABATELLA: É uma afronta muito grande.
Como é que você espera esse retrocesso, com
tanta agressividade, num momento em que a
maior parte dos eleitores não vota em quem não
tenha uma pauta ambiental? A reforma do
Código Florestal é a arma que foi usada para dar
esses tiros de agora. Os ruralistas estão recuperando
a força política. Botaram na ordem
do dia essa pauta tão retrógrada (que, porexemplo, anistia os desmatadores). Quem comete
as mortes está dizendo: “Estão vendo
quem tem poder aqui? Nós temos o poder
político porque existe uma lei que protege
nossos crimes ambientais. Nada nos atinge.”
Você viaja o país, vendo os problemas de perto.
Sempre preferi, antes de apoiar uma causa, ir
conhecer o que é. Já em 1992 fui ao Pará, com
padre Ricardo Rezende. Quis entender por que
aquela pessoa tão generosa estava ameaçada de
morte. Fiquei muito mexida. Conheci pessoas
com muita leveza de espírito e alegria na alma,
apesar de terem levado tiro, serem ameaçadas.
Quando vamos para aquela região, ouvimos de
autoridades e fazendeiros: “Aqui não tem violência,
violência tem no Rio. Por que não cuidam
do Rio?” Sim, mas aqui no Rio se combate de
outra forma. Lá estão matando uma ideologia,
uma transformação que devia acontecer. Estão
atrasando um tempo do nosso país.
O que é o Movimento Humanos Direitos, conhecidocomo ONG dos Artistas, de que você participa?
É uma ONG de formadores de opinião. Tem
artistas (como Marcos Winter, Dira Paes, Camila
Pitanga, Chico Diaz e Wagner Moura), mas tem
também jornalistas, advogados. Gente que
pode chamar a atenção para causas como
demarcação das terras indígenas e erradicação
do trabalho escravo e da exploração sexual
infantil. Ao irmos aos locais, criamos, com
nossa visibilidade, uma redoma de proteção
em torno das pessoas ameaçadas de morte.
Em Rondom do Pará, eu e Camila (Pitanga)
participamos de encontros e passeatas, fomos
às rádios, reunimo-nos com autoridades para
mostrar que o Brasil estava de olho em dona
Joelma (líder sindical ameaçada de morte).
Você fez um filme numa tribo indígena, não?
Deve ser lançado em outubro. Dirigi com Gringo
Cardia. Chama-se “Hotxuá”, que é o palhaço
sagrado da tribo Krahô (Tocantins). Visitei a
aldeia pela primeira vez há 16 anos. É uma figura
tão importante quanto o cacique e o pajé. É uma
tribo que passou por muitas dificuldades, quase
foi extinta, e o grau de depressão é muito alto. A
autoestima se preserva graças ao Hotxuá.
O que mais você aprendeu na tribo?
A palavra que eles usam, o tempo todo,é equilíbrio. Tudo tem seu oposto complementar.
Desenvolvimento? Sim, mas sustentável.
Eles caçam, mas preservam. Eles cultivam,
mas também deixam acontecer espontaneamente.
Temos que equilibrar sobrevivência e
transcendência. Não adianta apenas sonhar,
mas igualmente não devemos ter uma visão só
utilitária, olhando as coisas e vendo que vai dar
muito dinheiro ou ser bom para a carreira.
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