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Prêmio João Canuto 2009 - VII Fórum do MHuD - UFRJ.



22/10/2009

Este ano, como nos anos anteriores, o Movimento Humanos Direitos, promove a entrega do premio JOÃO CANUTO e realiza um debate com o tema dos Direitos Humanos. O evento aconteceu dia 22 de outubro, quinta-feira, às 17:30, no auditório Manuel Maurício do CFCH, UFRJ, Campus da Praia Vermelha, Rio de Janeiro.

O Prêmio João Canuto é entregue para militantes na conquista e na defesa dos Direitos Humanos

O Ator Osmar Prado, abril o Fórum declamando poesias de Expedito Ribeiro (Sindicalista e poeta que foi assassinado por pistoleiro). Em seguida o Ator Eduardo Tornaghi declamou poesias de Antonio Cicero, Marcus Vinícius Quiroga, Braulio Tavares, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e de sua autoria.


No primeiro momento houve uma mesa, em parceria com a UFRJ, que debateu os direitos humanos, a mesa foi composta por:
Eduardo Tornagui do MHuD, Maria Victoria Hernandez presentando o Ministro Paulo Vannuchi, Brasília e pelo Decano Marcelo Macedo Corrêa e Castro, Rio de Janeiro

A platéia teve oportunidade de participar do debate.

Após a mesa de debate o MHuD homenageou, com o VII Prêmio João Canuto:

Augusto Boal, in memorian, diretor, escritor e político,
que foi representado pelo Movimento Teatro do Oprimido. Quem entregou o Prêmio João Canuto, foi o Ator Osmar Prado, do MHuD.


Henriqueta Cavalcante, religiosa.
Quem entregou o Prêmio foi o ator do MHuD Gilberto Miranda.

Irmã Orlanda Rodrigues, vinda especialmente de Belém para prestigiar o evento, entrega para Generosa um livro, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil do Regional Norte 2 (Pará e Amapá).


Isabel Filardis, atriz.
Quem entregou o Prêmio João Canuto foi o Ator Leonardo Vieira.


Jean-Pierre Leroy, sociólogo e educador.
Quem entregou o Prêmio foi a Atriz Priscila Camargo do MHuD.

A FASE aproveitou a oportunidade para também homenagear Jean.


Jo Mazzarollo, jornalista.
O, também jornalista, Bruno Cattoni, fez a entrega do prêmio em nome do MHuD.


Associação Juízes para a Democracia,
representada pelo Dr. Luís Fernando Camargo de Barros Vidal .
A Atriz Beth Mendes em nome do MHuD, entregou o Prêmio João Canuto.


Júlio Lancellotti, padre e educador.
A Atriz do MHuD Cristina Pereira, entregou o Prêmio.

Luís Flávio Cappio, Bispo católico.
O Prêmio João Canuto foi entregue pelo Cineasta do MHuD, Emílio Gallo.

A cantora Rosa Correa, de Belém, deu uma canja.

Mais fotos:

Ao final da premiação, os participantes do Movimento Humanos Direito agradeceram.
Estavam presentes: Adair Rocha, Priscila Camargo, Eduardo Tornaghi, Salete Hallack,Virgínia Berriel, Bete Mendes, Osmar Prado, Marcos Winter, Iris da Costa, , Bruno Cattoni, Ricardo Rezende, Cibele e Damir Vrcibradic, Gilberto Miranda, Ricardo Paiva, Generosa de Oliveira e Leonardo Vieira.

PERFIL DOS HOMENAGEADOS PELO PRÊMIO JOÃO CANUTO:

ASSOCIAÇÃO JUIZES PARA A DEMOCRACIA  representada pelo Dr. Luís Fernando Camargo de Barros Vidal.

Associação Juízes para a Democracia teve, já pela data e local de sua criação, a marca dos elevados ideais que são a característica de sua atuação. A data foi 13 de maio de 1991, a mesma em que ano de 1988 foi promulgada a Lei Áurea que, mais que libertar em definitivo os escravos, arrancou de nossa sociedade o instituto da escravidão, que nos envergonhava diante do mundo e de nós mesmos. O local, as dependências da Faculdade de Direito da USP, a casa do Largo de São Francisco, a mais tradicional escola de direito do Brasil. Associação Juízes para a Democracia, foi representada por Dr. Luís Fernando Camargo de Barros Vidal . A Atriz Beth Mendes representou o MHuD, entregando o Prêmio João Canuto.
A cantora é Rosa Correa, de Belém.

Entre os princípios básicos que levaram à criação dessa instituição exemplar está o de que o juiz não é apenas um órgão do Estado, que com esta se comunica apenas por meio de sentenças, mas ele próprio parte inseparável da sociedade, que com ela deve interagir, participando de suas angústias e esperanças, até para que possa com mais justiça exercer a função de distribuir justiça. 

Entidade civil formada por juizes, de seu objeto pode ser dada idéia resumida na fórmula simples de que busca entre outras coisas, pela participação cívica do juiz, a manutenção intransigente dos valores essenciais do Estado de Direito, tornando efetiva a garantia da dignidade dos cidadãos, contida em nossa Constituição como contida já estava na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Congregando hoje juízes de todos os pontos do território brasileiro, estaduais e federais, há mais de 15 anos vem tendo uma atuação importante, estreitando ligação com entidades congêneres da Europa e da América Latina.

A Associação expande suas atividades, que a cada ano assumem maior significado, defendendo os direitos dos cidadãos nos mais variados aspectos, cobrando dos poderes públicos, inclusive do Poder Judiciário, o respeito às garantias fundamentais e a transparência no exercício da autoridade. Para tanto organiza cursos e seminários; dialoga com o mundo universitário; mantém contato com políticos propondo alterações na legislação; dirige-se às autoridades judiciárias cobrando aprimoramento da administração da Justiça em nossos tribunais; e não descuida da comunicação e da divulgação de opiniões e informações em matéria técnica, editando o jornal "Juízes para a Democracia", com tiragem atual de 20.000 exemplares, e publica a "Revista Justiça e Democracia", que já chegou ao quarto número.

E quando preciso vai à luta para garantir os direitos humanos, como fez ao ingressar como amicus curiæ na Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 153, ajuizada pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, na qual se questiona a aplicação que vem sendo dada ao artigo 1º da Lei de Anistia, e que exclui a punição de torturadores.

Nessas poucas palavras fazemos a apresentação da nossa homenageada, dando uma idéia apenas tracejada de sua importância para a magistratura e, sobretudo, daquela que tem para a cidadania e os direitos humanos.

AUGUSTO BOAL in memorian

Autor e diretor teatral, Augusto Pinto Boal, nasceu no Rio de Janeiro em 1931, onde também faleceu este ano.
                       
Para realizar o sonho do pai colou grau como engenheiro químico em 1952, pedindo como prêmio uma viagem a Nova Iorque, onde se dedicou a estudar teatro, a verdadeira paixão de sua vida, formando-se em dramaturgia na Universidade de Columbia. Voltando ao Brasil passou a desenvolver intensa atividade nessa área, e que levou a ser considerado, com inteira justiça, o reiventor do teatro brasileiro.
                       
Sua trajetória envolve, então, a direção de várias peças em São Paulo: Ratos e Homens, de John Steinbeck, em 1956; Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Viana Filho, e Arena Conta Zumbi, em 1965, bem como Arena conta Tiradentes, em 1966, estas duas últimas de que é co-autor com Oduvaldo Viana Filho. Em 1964 dirigiu, no Rio de Janeiro, o musical Opinião, que marcou época e foi um dos marcos da resistência de artistas, intelectuais e estudantes à ditadura então instalada.
                       
Essa voz de resistência, lúcida e persistente, incomodou os senhores do arbítrio, e Boal passou a sofrer censura, o que o levou ao exílio. Ganhou o mundo. Primeiro a Argentina, em 1971, depois Portugal, em 1976, finalmente a França. Foi em Paris que divulgou a criação que lhe granjeou reconhecimento mundial, o Teatro do Oprimido, conjugação de teatro com ativismo social. Nas palavras do próprio Boal, “O Teatro do Oprimido é um conjunto de formas teatrais que começaram a ser criadas aqui no Brasil em 1971, e que permite ao oprimido, como artista, se expressar através da linguagem teatral”.
                       
Retornando ao Brasil em 1985, montou a peça O Corsário do Rei, já em 1985, com música de Chico Buarque e letra de Edu Lobo, e também Fedra, em 1986, na qual atuou Fernanda Montenegro.
                       
Teve breve passagem na política, eleito vereador no Rio de Janeiro pelo Partido dos Trabalhadores, ocasião em que, sempre inovador, criou o Teatro Legislativo, em que as idéias do espectadores serviam para que apresentasse projetos de lei.
                       
Sua grande obra foi colocada por ele em livro, Teatro do Oprimido, publicado em 25 idiomas. Publicou, ainda, dois livros autobiográficos, Ainda bem que seu nasci e Hamlet e o filho do padeiro.
                       
Em 1997 recebeu da Associação para o Teatro em Higher Education um prêmio especial por sua contribuição ao teatro profissional. E pouco antes de falecer recebeu na sede da UNESCO, em Paris, talvez o reconhecimento definitivo de sua importância para a arte teatral, sendo nomeado Embaixador Mundial do Teatro.
                       
Melhor que qualquer coisa que possamos dizer, a essência desse homem singular é encontrada nas palavras com que ele mesmo definiu a nossa posição diante da vida:
                       
“Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós concluí-lo nossas mãos, entrando em cena no palco e na vida. Atores somos todos nós. O cidadão não é aquele que vice em sociedade, é aquele que a transforma”.
                       
Nossa homenagem póstuma a Augusto Boal, cidadão brasileiro, cidadão do mundo.

DOM LUIZ FLÁVIO CAPPIO

Frade franciscano, desde 1997 bispo da diocese de Barras, no Estado da Bahia, Luiz Cappio vive há mais de 40 anos no Médio São Francisco, convivendo com as populações ribeirinhas do grande rio e participando de suas dificuldades e esperanças, à defesa de cujos interesses se entregou, em continuação à vocação de uma existência dedicada em grande parte à defesa da vida. Completa 60 anos no próximo dia 4 de outubro, o que talvez não seja coincidência, mas predestinação.
                       
Há muito ele havia percebido a parte fundamental que o São Francisco representa na vida dessas populações, e com os companheiros Adriano Martins, Irmão Conceição e Orlando Araújo, realizou entre 1993 e 1994, uma caminhada a que se chamou Peregrinação do São Francisco, durante um ano percorrendo-o da nascente até a foz, chamando a atenção para a degradação do rio e criando importante mobilização popular em sua defesa.
                       
Não foi, portanto, provocada pela publicidade do tema, ou atrelada à sua turbulência política, a decisão que tomou de tornar pública sua oposição ao projeto de transposição das Águas do Rio São Francisco, iniciando duas greves de fome que tiveram ampla repercussão nos meios de comunicação, aqui e no exterior. O que sempre esteve na raiz de seu comportamento foi a preocupação com a preservação do rio, com o qual guarda uma relação de vida e de nome – pela congregação a que pertence – e, sobretudo, a preocupação com os reflexos da transposição de suas águas na vida de milhares de pessoas que vivem, quase sempre em condições precárias, nas proximidades de suas margens.
                       
Essa preocupação, de cunho fundamentalmente social e humanístico mereceu aprovação, entre outras, da Comissão Pastoral da Terra e de Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Felix do Araguaia, no Estado do Mato Grosso.
                       
Por tudo quanto tem feito em favor do respeito aos direitos de populações desamparadas foi premiado em 2007 pela Pax Christi International, organização criada em 1945 para promover direitos humanos, ao que se somou o recebimento, em 2008, do Prêmio Kant de Cidadão do Mundo, na Alemanha.
                       
Dom Cappio, que já recebeu visitas de solidariedade de integrantes do nosso Movimento Humanos Direitos - MHuD, recebe agora nosso Troféu João Canuto, em reconhecimento de sua atuação em defesa do rio São Francisco, mas sobretudo por sua corajosa postura pastoral, social e humana em defesa dos habitantes ribeirinhos do Velho Chico.

Fala de Dom Cappio:

Justiça Ambiental – Direito e Dever de Todo

    Que mundo  deixaremos para nossos filhos, netos?  Que planeta estamos preparando para as futuras gerações?

     É uma questão elementar de justiça. O sagrado direito que cada um de nós possuí de poder viver num ambiente sadio, digno de seres humanos, propício à vida com qualidade para cidadãos e cidadãs deste planeta, corresponde ao igual dever que nos compete de propiciar estes mesmos direitos às futuras gerações. Herdamos um mundo, um planeta que nos foi legado por aqueles que vieram antes de nós, que prepararam a casa onde hoje moramos, onde vivemos, onde realizamos nossa existência.
Cabe-nos fazer o mesmo para aqueles e aquelas que virão depois de nós, que herdarão um mundo um planeta que tivermos preparado para eles. Isso é uma questão de justiça.

    Amanhã, quando o sol nascer de novo com seu calor e vida;
As flores nos acolherem com suas variadas cores e perfumes;
Ouvirmos o canto dos pássaros e a brisa fresca beijando nosso peito;
Nossos lábios sorverem as águas puras da fonte enquanto contemplamos as verdes altas montanhas e o azul profundo dos oceanos;
Poderemos ouvir dos que virão depois de nós: “Obrigado pelo mundo que vocês prepararam para nós. Obrigado pelo planeta, qual jardim, vocês nos legaram. Obrigado pelas sementes de vida que vocês plantaram para que pudéssemos colher seus abundantes frutos. Obrigado, muito obrigado.”

    Ou, depois de amanhã, quando não mais houver amanhecer, mas apenas uma claridade enfumaçada, coberta por nuvens ácidas;
Quando nossa visão enfraquecida e nossos corpos se esvair em feridas purulentas provocadas pela radiação tóxica causada pelo enfraquecimento da camada de ozônio;
Quando, em vez de água tivermos que beber um suco pastoso de coliformes fecais temperado com ingredientes químicos das mais nocivas origens;
Quando a paisagem se tornar um imenso deserto sem vida, sem a canção dos pássaros, sem a melodia de vozes humanas, porque ninguém mais terá ânimo para cantar e sim para gritar desesperadamente pelas dores lancinantes de ossos e músculos em decomposição;
E as mães, por amor, tiverem que abortar os filhos para que não sejam mais sofredores condenados a esse vale de lágrimas;
Ouviremos nossos filhos e netos, com dedo em riste apontando para nós, olhos esbugalhados, roendo palavras desconexas de ódio e rancor, gritarem: “Malditos, demônios, filhos das trevas e do mal, olhem para esse inferno para o qual fomos condenados. Vocês são os responsáveis pela desgraça que nos envolve, fazendo-nos desgraçados com elas.”

     Que mundo, que planeta legaremos para nossos filhos e netos? Isso é uma questão de justiça. Poderemos ser justos cumprindo nosso sagrado dever de zelar e cuidar dessa riqueza infinita que nos foi confiada, ou podemos ser profundamente injustos assumindo a postura irresponsável e inconseqüente dos que apenas exploram e usufruem do tesouro de incomensurável valor que é a natureza, mãe da vida.

      “Deus perdoa sempre, os seres humanos, de vez em quando, a natureza não perdoa nunca”. Se nós a agredirmos, mais cedo ou mais tarde ela dará sua resposta.
A vida que hoje vivemos herdamos de nossos ancestrais. Nós estamos construindo o planeta que os que virão depois de nós nele viverão.
A vida não se improvisa. Em cinco minutos colocamos no chão uma árvore centenária. Serão necessários mais cem anos para que tenhamos outra semelhante. Isso se tivermos o cuidado de plantar outra.

       É questão de consciência, de pertença. É questão de possuirmos ou não um sagrado senso de justiça. De ter a sensibilidade de saber compreender o direito que possuímos de viver num mundo habitável com dignidade, e o dever de co-responsabilidade de preserva-lo para que outros também usufruam do mesmo bem.  De saber que este planeta é nosso lar. Fazemos parte dele. Foi-nos entregue para nele viver, usufruir de seus bens e riquezas. Cuidar para que os bens nele presentes possam se perpetuar e as gerações futuras, como nós, também poder tê-lo cheio de vida. Como dizia nosso querido mestre Leonardo Boff, que cuidar é outro nome para o amor e a melhor forma de amar. “Quem ama, cuida”. É justo que cuidemos do que é de todos. É justo que, no trato das coisas de todos, tenhamos o mesmo zelo como que tratamos as nossas em particular.

        O mesmo cuidado que a natureza tem para conosco, no sentido de prover, garantir e zelar pela nossa vida, assim também nós recebemos do Pai do Céu a missão de cuidar, prover e garantir a perpetuação dos bens e maravilhas criadas que fazem parte do nosso planeta, o Jardim do Éden. Ou, pela nossa decúria, transforma-lo no inferno de Dante, impossível de nele viver. Isso seria uma grande injustiça de nossa parte.

       No último dia da criação, depois que tudo estava pronto, e o Senhor viu que “tudo era bom”, criou o homem e a mulher e lhes outorgou a missão de cuidado para com a obra criada. Fez-nos guardiões da natureza. Este é o sentido bíblico do “dominai a face da terra”. O termo “dominai” vem de latim “dominus” que significa senhor. Daí a palavra domingo, que significa “dia consagrado ao Senhor”. O dia do descanso. Como o pai cuida dos filhos, como a mãe é capaz de dar a própria vida pela vida dos filhos, assim também fomos constituídos senhores no sentido da paternidade de quem cuida, na maternidade de quem vela. Mas esta passagem belíssima do Gênesis foi entendida por nós dentro da ótica masculina do ser dono, do explorar, na violência do destruir, na ganância do lucrar, na vaidade do usufruir sem limites. Deturpamos o pensamento original do Criador e impusemos nossa visão dominadora, destruidora, violenta e desrespeitadora. Enquanto o Senhor tudo realizou dentro de um plano perfeito e harmônico, respeitoso e amoroso, e nisso  manifestou a Justiça Divina, nós manifestamos a injustiça humana no entendimento e prática deturpada do pensamento do Senhor.

        Chamamos para nós os atributos do Criador. Não somos os donos da criação. Somos apenas os seus zeladores e cuidadores.

O livro do Eclesiástico nos ensina: “Da terra Deus criou o ser humano e o formou à sua imagem. E à terra o faz voltar novamente, embora o tenha revestido de poder, semelhante ao seu. Concedeu-lhe dias contados e tempo determinado, dando-lhe autoridade sobre tudo o que há sobre a terra. Em todo ser vivo incutiu o medo do ser humano, fazendo-o dominar sobre as feras e os pássaros. Concedeu aos humanos discernimento, língua, olhos, ouvidos e um coração para pensar; encheu-os de inteligência e instrução. Deu-lhes ainda o conhecimento do espírito, encheu o seu coração de bom senso e mostrou-lhes o bem e o mal. Infundiu o seu temor em seus corações, mostrando-lhes as grandezas de suas obras. Concedeu-lhes que se gloriassem de suas maravilhas, louvassem o seu santo Nome e proclamassem as grandezas de suas obras. Concedeu-lhes ainda a instrução e entregou-lhes por herança a Lei da vida. Firmou com eles uma aliança eterna e mostrou-lhes sua justiça e seus julgamentos. Seus olhos viram as grandezas de sua glória e seus ouvidos ouviram a glória de sua voz. Ele lhes disse:  Guardai-vos de tudo o que é injusto! E a cada um deu mandamentos em relação a seu próximo”.

      João nos  ensina, no capítulo dez de seu Evangelho,  que o Senhor é o Bom Pastor. A justiça do Bom Pastor se manifesta no seu imenso amor e cuidado. O Bom Pastor é aquele que ama suas ovelhas, cuida de seu rebanho. Leva-o para as pastagens verdejantes e para os regatos de águas cristalinas. O Bom Pastor defende o rebanho dos inimigos, do lobo cruel e voraz. Está sempre atento para que nada de mal aconteça a nenhuma de suas ovelhas. Esse é o Bom Pastor. É capaz até, se preciso for, de dar a vida por suas ovelhas. Sacrificar-se por elas. Ser crucificado para “que tenham vida e a tenham em abundância”.

       Essa é a  herança espiritual daqueles e daquelas que assumem a missão de pastorear, de caminhar junto, mas na linha de frente do rebanho. Os seguidores do Bom Pastor recebem a mesma tarefa, a mesma ordenança, a mesma missão. A de serem justos como o Bom Pastor. Isso nos faz discípulos e missionários do Deus da Vida e da Justiça.  Semeadores do bem e da paz. Testemunhas da justiça maior. Chamados a viver em uma ordem justa e fraterna. Fazer com que o leite e o mel continue escorrendo pelos favos da existência humana. Garantindo que todos, todos sem exceção tenham o direito de uma vida saudável, ética, digna de ser vivida. Enfim, uma vida baseada na justiça. Essa é a vocação do pastor. Para isso ele foi chamado. E é isso que dá sentido e razão de ser para sua existência. A plenitude da realização do pastor é, à imagem do Bom Pastor, poder doar a própria vida pela vida de cada ovelha, de todo o rebanho. Para o pastor iluminado pelo Bom Pastor, o gastar-se é tornar-se mais rico, o doar-se é plenificação, o morrer é viver com abundância.

       Mercenários existem muitos e muitas. Homens e mulheres injustas que se travestem de pastores mas cujas intenções são maléficas. São lobos perigosos e vorazes que se aproveitam da simplicidade e carência do rebanho para fazer acontecer suas intenções sórdidas. Devagar o rebanho vai discernindo e sabendo diferenciar o bom pastor do mercenário. O justo do injusto. “Pelos frutos se conhece a árvore”. O tempo se encarrega de mostrar a verdade dos fatos e das  reais intenções. “Não há nada oculto que não venha a ser revelado, não há nada escondido que mais cedo ou mais tarde não apareça”. As questões sociais nos permitem conhecer e distinguir o pastor do mercenário. Aqueles que realmente são justos e  estão a serviço do rebanho e aqueles que são injustos e se aproveitam do rebanho para satisfazer seus próprios interesses.  

         É no entendimento e na consciência de nossa missão de pastores   que se funda a capacidade de doarmos a vida. E isso se faz com a máxima alegria e generosidade. É no entendimento e na consciência do verdadeiro sentido da justiça que nos tornamos construtores do Reino de Deus.

          O Rio São Francisco é o Pai e a Mãe de todo um povo. É o que garante a água que milhares de seres humanos bebem, comem do seu peixe e se alimentam dos frutos das terras banhadas por suas águas. O Rio São Francisco é o gerador de vida  para inúmeras  outras vidas. O “Velho Chico” não pode morrer. Da vida do “Velho Chico” a vida de milhões de outros seres.

           Existem no Brasil rios ainda bem maiores que o São Francisco. Mas o que faz a diferença é o fato de percorrer o semi-árido brasileiro. Região de muita carência de chuvas. Águas temos com certa abundância, mas concentradas em alguns rios e na imensa rede de açudes existentes. Necessitamos urgentemente  distribuir esta água concentrada para as populações difusas de todo o semi-árido. E isso é uma questão de justiça ambiental, pois a democratização da água é uma tarefa essencial para a manutenção da vida pois ninguém pode ficar sem ela.

           Se o Projeto de Transposição de Águas do Rio São Francisco tivesse como objetivo e meta a distribuição da água para as populações difusas, praticar a justiça ambiental e evangélica de “dar de beber a quem tem sede” nós seríamos os primeiros a ser de acordo com o projeto. Apoiá-lo-íamos incondicionalmente. Mas a prioridade do Projeto de Transposição é a segurança hídrica em função dos grandes projetos agro-industriais. O uso econômico da água, antes de cumprir sua função essencial que é o dessedentamento humano e animal, faz o projeto tornar-se anti-ético e, portanto injusto, pois inverte as prioridades no uso da água.

          O Rio São Francisco imita o santo de seu nome. O santo São Francisco nasceu de família abastada. Quando conheceu o sofrimento dos pobres de seu tempo, deixou toda a riqueza da família e foi para o meio dos pobres e dos pobres mais pobres que eram os leprosos. Dedicou toda a sua vida a eles. Encarnou o verdadeiro sentido e espírito da justiça humana.  O Rio São Francisco nasce na Serra da Canastra, no sudoeste do estado de Minas Gerais, uma das regiões mais ricas do Brasil. Poderia tomar a direção do leste ou do sul, regiões igualmente ricas. Mas não, faz uma curva e se dirige para o nordeste. Coloca toda a sua potencialidade a serviço dos pobres do sertão brasileiro. É o rio que imita o santo de seu nome. O rio testemunha a justiça do seu santo padroeiro. Por isso dizemos, o Rio São Francisco é o pai e mãe de um povo. Aquele que supre suas necessidades essenciais, vitais. 
Rio vivo – povo vivo.
Rio doente – povo doente.
Rio morto – morte de um povo.
Ser pastor nas barrancas do São Francisco é garantir vida e vida abundante aos barranqueiros. Vida abundante aos barranqueiros significa vida abundante ao “Velho Chico”.
         Diante das inúmeras agressões causadas ao nosso rio, agressões essas geradores de doença e morte, o pastor não pode manter-se calado. É sua missão, é seu dever praticar a justiça, ser testemunha da justiça maior, erguer a voz, colocar suas forças no sentido de garantir vida ao rio, pois na vida do rio, a vida do povo. É por isso que, diante de todas as ameaças de morte causadas ao rio e ao povo, o pastor se levanta, grita bem alto, qual João Batista no deserto, arrisca a própria vida, pois “onde a razão se extingue, a loucura é o caminho”. Para salvar o Velho Chico, salvar a biodiversidade, salvar os povos ribeirinhos, salvar os  seres humanos, salvar o planeta, salvar a vida, vale a pena doar a própria vida. Vale a pena morrer para que tenham vida e vida em abundância. E assim se cumpre toda a justiça.

 

IRMÃ HENRIQUETA CAVALCANTE
                       
Amazonense calma, mas firme, Henriqueta Cavalcante desde cedo manifestou inclinação pela atividade comunitária, participando da comunidade da Imaculada Conceição, onde descobriu sua vocação religiosa.
                       
Ingressando na congregação das Irmãs de Nossa Senhora Menina, iniciou a vida religiosa na cidade de Rio Claro, em 1989. O pendor para o trabalho ativo em prol de pessoas cuja dignidade é ameaçada levou a trabalhar no Centro de Educação para Adolescentes em Situação de Risco, em São Paulo, e daí em diante esse chamado interior para a defesa de direitos humanos não mais a deixou descansar.
                       
Transferida para Belém em 1999, há cerca de três anos foi designada coordenadora da Comissão de Justiça e Paz da Regional Norte-2 da CNBB, nessa função vem desenvolvendo intensa e desassombrada atividade na área social, em particular investindo contra abusos sob todas as formas sob as quais se apresentam.
                       
Em 2007 esteve à frente do disque-denúncia que recebia ligações sobre crimes eleitorais no Estado do Pará.
                       
Juntamente com outros membros das pastorais sociais da Regional Norte-2 da CNBB Irmã Henriqueta vem desempenhando desde 2008 um papel importante na apuração de denúncias e acompanhamento de investigações dos casos de abuso e exploração sexual de menores no Estado do Pará, colaborando com a CPI da Pedofilia, instalada na Assembléia Legislativa do Pará. Não se impressionou com o fato de estarem envolvidas pessoas influentes da sociedade daquele Estado, e por sua atuação acabou recebendo ameaça de morte, por telefone, com voz que conseguiu identificar como sendo do pai de um dos investigados pela CPI, deputado estadual, acusado de ter abusado sexualmente durante anos de uma menina de nove anos.

O reconhecimento dessa atividade foi tornado público com a concessão da Medalha de Mérito Comunitário “João Meneses”, da Assembléia Legislativa do Pará, destinada às pessoas que se destacaram na atuação em defesa da sociedade e realização de trabalhos sociais no estado. E foi ratificado com a concessão da medalha do Mérito Legislativo “Newton Miranda”, por seu trabalho em defesa dos direitos humanos.
                       
Esse é, em breves linhas, o perfil dessa pessoa admirável que recebe também o nosso reconhecimento com a quem entrega do Troféu João Canuto.

ISABEL FILARDIS

Atriz jovem, de sucesso, Isabel Fillardis há tempo deixou de centrar sua vida nas atividades profissionais, dedicando-se a projetos voltados para problemas sociais e ambientais.

Sua mais conhecida atuação é o projeto "A força do bem", lançado no final de maior de 2006, com o objetivo de criar um cadastro nacional de pessoas com deficiência, como instrumento indispensável para ações específicas em cada caso.
Idéia surgida depois de uma reportagem em que ela revelou ter um filho com a Síndrome de West, que compromete o desenvolvimento da criança e exige tratamento custoso, o que a fez perceber a dificuldade que estariam enfrentando pessoas menos favorecidas. O projeto ganhou de imediato o apoio de vários amigos, inclusive do meio artístico, e daí em diante ganhou força. O objetivo inicial, modesto, da formação de um banco de dados para promover a integração e a troca de informações, evoluiu para seguir com a criação de um centro de desenvolvimento e capacitação infantil, em que profissionais especializados prepararão a criança com deficiência para ingressar na escola comum.

Na divulgação desse objetivo, e para promover o debate sobre as necessidades especiais dos deficientes, Isabel tem sido incansável, percorrendo o país para fazer palestras.

A medida do sucesso e da importância de sua atuação à frente do projeto, já institucionalizado, pode ser avaliada pelo fato de que foi estabelecida uma parceria com o Ministério Público do Trabalho para propiciar o acesso de pessoas com deficiência ao mercado de trabalho, em cumprimento à chamada Lei de Quotas, facilitando o acesso das empresas aos candidatos em potencial, permitindo-lhes encontrar o profissional com as características desejadas, que muitas não sabem onde buscar.

Essa atividade não representa, como à primeira vista pode parecer, o surgimento de uma consciência dos problemas sociais na esteira de circunstâncias de sua vida pessoal, mas o amadurecimento de uma preocupação com o próximo, e com a sociedade, que já existia e já se havia materializado desde 2003, quando fundou a ONG “Doe seu lixo”, para promover programas baseados no desenvolvimento sustentável, por meio da coleta seletiva de resíduos sólidos que permite a pessoas com baixa qualificação profissional recuperar a autoestima pelo exercício de atividade rentável e com ganho para o meio-ambiente.

Essa a homenageada, que merece o nosso aplauso.

JEAN-PIERRE LEROY

Nascido na França em 1939, de família pobre, esse brasileiro por escolha, naturalizado, tem uma vida de trajetória exemplar. Concluiu estudos de teologia em seminário da Congregação dos Oblatos de Maria Imaculada, enquanto aguardava designação para o Brasil foi vigário e assistente da Ação Católica Operária e da Juventude Operária Católica na cidade industrial de Roubaix, em bairros de migrantes, experiência que o marcou.
                       
No final de 1971 chegou a Belém para juntar-se a membros de sua congregação, instalando-se a seguir na região de Salgado, onde acompanhou a vida de pescadores e pequenos produtores rurais. Em 1973 foi vigário em Marambaia, subúrbio de Belém. Em 1975 mudou-se para Santarém, iniciando um ativismo social que não mais cessou. Ali, como técnico em educação não-formal da Federação dos Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE), atuou junto a pequenos produtores rurais e agroextrativistas e participou da criação da Comissão Pastoral da Terra local, com esta apoiando a oposição sindical e resistência a abusos de empresa agropecuária, sofrendo acusações e subversão e ameaças de prisão. Em 1977 foi transferido para Santa Luzia, no Maranhão, região de grilagem e violência, e pouco depois a FASE o encarregou de coordenar pesquisa sobre campesinato em Áreas de Fronteira, transferindo-se para o Rio de Janeiro. No curso da pesquisa, estudando casos do Paraná, Maranhão e Pará, aproveitou para fortalecer a Comissão Pastoral da Terra no Rio de Janeiro e no Paraná.

No final de 1977 começou uma nova fase em sua vida, casando-se com uma mineira de Caratinga, que conhecera quando estudava em São João del Rey para revalidação de seus estudos de filosofia.

De 1978 a 1983 assumiu a coordenação nacional da FASE, e no final de 1983, dada a conjuntura política, que recomendava uma direção mais discreta da entidade, passou a coordenador adjunto. Nesse período atuou na reorganização de sindicatos, fortalecendo grupos de oposição e sindicalização rural, a luta pela terra e articulação de advogados para defender trabalhadores. Participou, ainda, da criação de rede de Projetos de Tecnologia Alternativa – PTA, por 3 anos assessorando a rede PTA Sul. Ainda enquanto coordenador da FASE fez mestrado em educação na Fundação Getúlio Vargas, com dissertação que resgatou a história da formação do movimento dos trabalhadores rurais em Santarém, no Pará, depois publicada pela Vozes.

Em 1988 deixou a coordenação nacional de FASE para ser seu assessor nacional em questões rurais. Em 1990 foi coordenador de fórum preparatório da Conferência da Sociedade Civil sobre o Meio Ambiente, cuja secretaria executiva a FASE assumiu em 1991, exercendo ele a função de secretário. O fórum continuou atuando, a partir de 1993 com outro nome, e Jean-Pierre seguiu integrando sua coordenação coletiva.

A Amazônia foi também objeto de seu interesse, tendo na década de 90 participado da organização de vários seminários na Região Norte sobre a questão sócio-ambiental. Foi convidado a fazer uma avaliação da Comissão Pastoral da Terra Nacional, assessorando as CPTs da Amazônia Ocidental e da Amazônia Oriental. A partir do final da década fez avaliação de vários projetos, entre eles o de Frutos do Cerrado, no Maranhão, e daqueles, na Amazônia, da Coordenação de Extrativismo do Ministério do meio Ambiente.

 Provocado em 1996 por entidades da Holanda sobre sustentabilidade na Europa, terminou por criar o projeto interinstitucional “Brasil Sustentável e Democrático”, do qual assumiu a coordenação executiva e que até 2002 produziu publicações importantes. Ainda em 2002 participou de seminário sobre justiça ambiental, no qual fundada a Rede Brasileira de Justiça Ambiental, da qual é membro.
                       
Com o Professor Henri Acselrad coordenou o Mapa de Conflitos Ambientais do Estado do Rio de Janeiro, realizado entre 2002 e 2004, além de avaliação de impacto em grupos sociais atingidos por empreendimento, chamado de Avaliação de Equidade Ambiental.
                       
Nos últimos anos, já com a saúde abalada, tem se dedicado a intenso trabalho intelectual e político voltado à crítica do desenvolvimento capitalista e da crise deste no contexto da crise de civilização.
                       
Este é, muito simplificado, o retrato de nosso homenageado.

FALA DE JEAN PIERRE:

Caras amigas, caros amigos do MHuD
Perguntaram-me se o que falei durante a entrega do Prêmio João Canuto de Direitos Humanos estava por escrito. Não. Não estava. Vou tentar rememorar aqui o que disse.
Boa noite
Ao perguntar a Generosa o porquê de ter sido escolhido para receber este Prêmio, ela me respondeu que era devido a minha luta pelos Direitos Humanos ligados ao meio ambiente. Eu penso que, antes de ser minha, essa luta é de muitos outros e, por isso, convido para ocupar simbolicamente o palco pessoas ausentes, que são totalmente merecedoras deste Prêmio.
Osvaldino Viana de Almeida, o “Profeta”, liderança de Afuá, município sentinela do Amazonas, defensor das águas, das matas e do povo, assassinado em 2001, depois de ter sido barbaramente torturado;
vocês, caciques Cinta Larga que não nomeio aqui para não chamar mais a atenção sobre vocês que já sofrem tantos processos; herdeiros sem herança dos seus pais e avôs  massacrados pelo branco, acorrentados ao diamante que é a sua perdição;
Cacique Xavante Damião, da Terra Indígena Marawatsede, reconquistada depois de 40 anos de exílio. Num canto da Terra devastada, debaixo da lona, sem perspectiva nem de plantio, nem de colheita nem de caça, pressionados pelos grileiros da T.I. e pela polícia, 500 xavantes esgotados depois de oito meses de acampamento na beira da estrada. Você dizia: “Somos como pintinhos perdidos no terreiro. Mas queremos recuperar toda a nossa terra”;
Ademir Alfeu Federicci, o Dema, coordenador do Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica e do Xingu – MDTX. morto em 25 de agosto de 2001 dentro de sua própria casa e na frente de sua família. Você denunciava a exploração ilegal da madeira e o autoritarismo e a forma arbitrária com que a Eletronorte queria impor Belo Monte;
Irmã Doroty, missionária e liderança de Anapú, e suas companheiras e companheiros dos Projetos de Desenvolvimento Sustentável pelos quais se batiam;
Jeffer Castelo Branco e Marcio Antonio Mariano da Silva, da ACPO - Associação de Consciência à Prevenção Ocupacional, com seus companheiros que enfrentaram a Rhodia, que contaminou parte da baixada santista e agora se vêem com a pesada tarefa de denunciar o lobby industrial que nega suas responsabilidades;
Fernanda Giannasi, corajosa auditora do trabalho e os membros, mulheres e homens, da Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto – Abrea, cuja persistente luta transforma vocês de vítimas em vencedores;
Raquel Rigotto e Islene Ferreira Rosa, pesquisadoras guerreiras que fizeram, em nome do MP e da UFC, um relatório sobre os graves impactos sobre a saúde de moradores de uma comunidade, causados pela Agripec/Nufarm, empresa produtora de agrotóxicos do Estado do Ceará; e estão sendo criminalizadas por esta;
Jeovah Meireles, geógrafo, grande defensor dos povos do litoral do Ceará; criminalizado pelas empresas Ypióca e uma empresa que quer onstruir a Cidade Nova Atlântica. Pela Ypiocá, porque denunciou o uso ininterrupto da água da Lagoa Encantada (sagrada para os Jenipapo-Kanindé) e pela poluição por vinhoto do lençol freático da reserva; e pela empresa que queria construir a Cidade Nova Atlântida, uma Cancun cearense, na Terra Indígena Tremembé de São José e Buriti, por ter realizado estudos que mostravam a destruição do litoral e do povo Tremembé que decorreria do empreendimento;
O trabalhador rural Valmir Mota de Oliveira, o Keno, executado por uma milícia armada no Centro Experimental da transnacional Syngenta, no acampamento Terra Livre, em Santa Tereza do Oeste (PR), quando o MST denunciou a realização de experimentos ilegais com sementes de milho transgênico. Ontem mesmo, estava sendo celebrada em Curitiba uma missa pelo segundo aniversário da sua morte.
Convido a todas e todos da Rede brasileira de Justiça Ambiental e da Plataforma DhESCs que clamam incessantemente por Justiça e Direitos.
Tive um professor de teologia que nos dizia: se queremos usar uma imagem para falar de transcendência, não seria olhar para cima, mas ir ao mais profundo da nossa humanidade. E fazer emergir, vir à tona, aflorar, desabrochar, vibrar e gritar o sagrado da vida, a infinita dignidade dos seres vivos e da humanidade, a incomensurável exigência de solidariedade e de igualdade. E é isso que celebramos aqui.
Humanos Direitos Humanos. Demasiadamente humanos. Proclamam-se os direitos humanos universais, mas busca-se reduzi-los à ajuda humanitária. Em nome da sua universalidade, são negados os direitos das vítimas de injustiça.
Pede-se aos quilombolas esquecer a escravidão, pois veio a abolição que lhes “deu” direitos iguais aos dos brancos, nesta grande nação miscigenada. Em nome desses direitos universais, renunciem ao direito a um pedaço de chão! Só falta chama-los de racistas quando a proposta de Estatuto que reconheceria seus direitos está sendo chamada de racialista.
E os povos indígenas, os ribeirinhos, os camponeses da Transamazõnica e do Xingu que o Dema e Doroty defendiam, e tantas e tantos com eles. Em nome do nosso direito ao desenvolvimento, à energia farta, ao consumo que equipare o Brasil e a classe média (nós?) aos padrões de consumo dos países do Norte do mundo, seus direitos lhes estão sendo negados.
Vejam como os direitos humanos associados ao meio ambiente, ao mesmo tempo em que enraízam a humanidade no que tem de melhor no seu passado e no seu presente, anunciam o futuro. Na última vez que lhe encontrei, Doroty, foi na calada da noite, no salão escura, você e um punhado de companheiros do Projeto de Desenvolvimento Sustentável contando dos seus projetos de viver e produzir sem destruir a floresta e de como os grileiro malfeitores atiraram contra a casa de um, buscaram atropelar outro, ameaçaram de morte outros... Você começou a contar como um deles tinha derrubado a mata de um lote, a partir da periferia, avançando em círculos em direção ao centro do terreno. No começo, os pássaros e os outros bichos fugiam para a periferia, mas depois fugiam para o centro da área ainda intacto. Quando chegou o dia da queimada, escutavam-se os gritos de desespero dos animais. E nesse momento, as lágrimas vieram aos olhos de você e dos seus companheiros que, logo antes, falavam sem pestanejar das atrocidades das quais eram vítimas.
Nessa noite, ao mesmo tempo em que lembravam o sagrado da vida, nos transmitiam uma mensagem: os que queriam destruí-los e aos seus projetos e à natureza e acabar assim com a nossa maravilhosa sócio-biodiversidade, é o nosso futuro que estavam destruindo.
Quando moradores e trabalhadores de subúrbios industriais protestam contra a contaminação industrial, povos indígenas, ribeirinhos, pescadores, extrativistas, camponeses contra estradas, barragens, mineração, portos, resorts, etc., defendem seus direitos, é o nosso direito ao futuro que eles defendem. Por uma terra que seja de todos, cada um do seu jeito. E é isso que celebramos.  
Nosso clamor e nossa ação pelos Direitos Humanos não podem ser somente atitudes individuais. Só podemos realmente nos fazer ouvir se nos juntarmos, aumentando a nossa força. É por isso que o MHuD e o Prêmio são tão importantes. Essa celebração nos une e nos enche de forças e de esperança por um mundo de mais justiça. Muito obrigado ao MHuD por me dar essa chance de compartilhar esse momento.
Jean Pierre Leroy, 22 de outubro de 2009

 

JÔ MAZZAROLLO

Jô Mazzarollo é jornalista, atualmente editora regional da Rede Globo Nordeste, com sede em Recife.

Nessa posição, em uma das mais importantes emissoras de televisão do país, tem tido uma atuação firme e incansável em apoio aos movimentos sociais, facilitando e estimulando constantemente a divulgação de matérias sobre abusos sexuais, violência contra a mulher, e questões de posse da terra, tratadas de forma a não criminalizar os movimentos sociais.
Sua preocupação com as causas sociais não se res


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