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Thiago de Mello é entrevistado pelo MHuD



03/06/2009

Rio de Janeiro, 03 de Junho de 2009

À convite da Revista Direitos Humanos - www.direitoshumanos.org.br, o MHuD entrevistou THIAGO DE MELLO.

O poeta Thiago de Mello nasceu em Barreirinha, no Amazonas, em 1926. É um dos poetas mais influentes e respeitados no país e reconhecido como um ícone da literatura regional. Tem obras traduzidas em mais de trinta idiomas. Preso durante a ditadura militar, exilou-se no Chile. Lá, conheceu Pablo Neruda, que se tornou amigo e colaborador. No exílio, morou na Argentina, no Chile, em Portugal, na França e na Alemanha. Voltou ao Brasil em 1978. Seu poema mais conhecido é Os Estatutos do Homem. O livro Poesia comprometida com a minha e a tua vida rendeu-lhe, em 1975, prêmio concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e tornou-o conhecido internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos Direitos Humanos. Nesta entrevista, concedida ao Movimento Humanos Direitos (MhuD), no Rio de Janeiro, Thiago de Mello fala de poesia, política, Direitos Humanos e meio ambiente.

Movimento Humanos Direitos (MHuD):
É uma alegria enorme para nós, do Movimento Humanos Direitos, recebê-lo para conversar sobre um tema tão importante.

Thiago de Mello: Acho que a conversa vai ser boa. Tomara que ela floresça. Quero começar dizendo um poema, vai ajudar a saber um pouco do que sou e do que sonho. Digo sempre, em qualquer canto do mundo onde chego para repartir minha esperança.

Venho armado de amor
para trabalhar cantando
na construção da manhã.
Amor dá tudo o que tem.
Reparto a minha esperança
e planto a clara certeza
da vida nova que vem.

Um dia, a cordilheira chilena em fogo,
quiseram calar para sempre
o meu coração de companheiro.
Mas atravessei o incêndio
e continuo a cantar, publicamente.

Não tenho caminho novo.
O que tenho de novo
é o jeito de caminhar.

Com a dor dos deserdados,
com o sonho escuro da criança
que dorme com fome,
aprendi que o mundo não é só meu.
Mas sobretudo aprendi
que na verdade o que importa,
antes que a vida apodreça,
é trabalhar na mudança
do que é preciso mudar.

Cada um na sua vez,
cada qual no seu lugar.

MHuD: Nossa primeira pergunta é a propósito de algo que o senhor falou nos versos: o sangrento golpe militar do Chile, o incêndio tão terrível que pegou tanta gente, como você, desprevenida, em 1973, deixando um saldo de milhares de mortos. Esse fato foi um divisor de águas na sua vida. Entre as vítimas dessa barbárie está um homem conhecido, Victor Jara, levado para um estádio de futebol transformado em campo de concentração, onde também estavam algumas pessoas que o senhor conheceu. O senhor e seu fillho, Manduka, também foram presos nesse dia, mas o senhor escapou. Os carcereiros os colocaram em liberdade porque a arte de seu filho falou mais alto: Manduka cantou e os carcereiros os libertaram. Isso é verdade, aconteceu mesmo?

TM: Aconteceu, sim. Vou contar. Antes, é preciso lembrar que no Estádio Nacional aconteceram fatos terríveis, tanta foi a ferocidade do golpe militar chileno, promovido, como se sabe, pelo governo norte-americano, que, nove anos antes, já organizara o golpe brasileiro.
Lá foi assassinado o poeta e cantor Victor Jara. Antes de matá-lo, cortaram-lhe as mãos. Victor Jara surgiu, filho de camponeses, e ganhou o coração chileno. Quando o levaram para o estádio, não sabiam que ele era o querido cantor. Foi identificado quando outro preso, ao reconhecê-lo, começou a entoar uma de suas canções mais populares. Ouvi contar que até alguns soldados cantaram. Tenho um poema, Canção para Victor Jara, musicado por Pablo Milanês, o lindo poeta e cantor cubano, em que digo: “pensavam que cortando as tuas mãos e calando a tua voz, matavam a tua esperança”.
No 11 de setembro de 1973, dia do terror chileno, eu estava em Santiago, refugiado político. Servia ao governo de Salvador Allende, como diretor de Comunicação do Instituto de Reforma Agrária. Trabalhava com os camponeses em Temuco, região de muito conflito entre latifundiários e os valentes índios araucanos, os mapuches. Eu era pessoa muito visada, estrangeiro, muito conhecido e até querido no Chile. Porque durante cinco anos fora adido cultural da Embaixada do Brasil e fiquei conhecido na pátria do Neruda, pelo meu labor, com pintores, músicos e poetas, a serviço da integração cultural latino-americana.

MHUD: E como foi a prisão do Manduka aqui no Brasil?

TM: O meu filho nos salvou, com a sua arte. Era músico, um pássaro cantor. Foi um lindo companheiro que a vida me deu. Já atravessou o rio, canta lá nas estrelas.
Quando me refugiei, em fins de 1968, ele veio me ver (um presente de Salvador). Tinha 16 anos, veio de violão. Alegria que durou duas semanas. Quando voltou, foi preso no aeroporto do Galeão. Os agentes do SNI no Chile avisaram os gorilas brasileiros. Maltrataram o menino. Só por ser meu filho. Sua mãe, a jornalista Pomona Politis, conseguiu tirá-lo das grades. Quando saiu, ele passou a ter medo de carro de polícia, de gente fardada. Deu no pé do Brasil. Viveu sete anos comigo no exílio. Cantando.
Volto ao dia do golpe. Estava a caminho da Gran Avenida, quando ouvi que estavam metralhando o La Moneda. Corri para estar ao lado de meu presidente, meu amigo, Salvador Allende. Quando fui me aproximado do palácio, alguém me agarrou e disse veemente: Poeta, ande, vayase! Um desconhecido. Quis reagir e me empurrou. Me salvou . Um ano depois, já no exílio, amparado pelas Nações Unidas, a Acnur, dediquei assim o poema Lição de Cordilheira, que está no Mormaço na Floresta:
 
A Salvador Allende,
O fogo comendo,
O sonho cantando.
O povo vai fazer o resto.

(O último verso é a frase final do discurso que ele fez antes de morrer.)

Nos primeiros dias do golpe, a casa onde eu morava, em Vitacura, foi invadida pelos primatas de Pinochet. Ninguém dentro dela. Fizeram uma fogueira com os livros (até as provas gráficas do que eu levara anos para escrever, sobre a Ilha de Páscoa; a editora foi empastelada) rasgaram telas de Portinari, Djanira, gravuras de Anna Letycia. Até hoje me dá uma agonia no corpo todo, quando lembro que levaram (rasgaram, queimaram, será que guardaram?) uma pasta encadernada com rótulo bem desenhado por mim: Cartas de Bandeira e de Neruda.

MHUD: Você conseguiu se exilar?
TM: Manduka e eu estávamos bem guardados na casa da família Bertonatti, gente fina, de coração do tamanho de um bonde, como dizia minha mãe dona Maria. Era fim de outubro de 1973. Decidimos pedir asilo na Embaixada do Peru. Eu tinha um livro publicado lá na pátria de Arturo Corcuera e Chabuca Granda, Manduka ali recebera o prêmio maior do Festival internacional de Águas Claras, cantando Pátria Amada, Idolatrada, Salve-Salve, dele e do querido Geraldo Vandré.
Chegamos à Embaixada, o portão estava escancarado. O casarão lá no fundo do jardim. Entramos. Escondida, rente ao muro, estava uma patrulha de carabineiros chilenos. Dentro, sim, do território peruano. Na portaria, pedi para falar com o embaixador. Não estava. Veio o encarregado de negócios. Mal comecei a falar, ele foi cortante:
- A embaixada não concede asilo.
Acudi que apenas queríamos um visto para viajar a Lima. Meu filho tem de dar um recital, vou trabalhar na Universidade de San Marcos, estou traduzindo César Vallejo. Ele pediu os passaportes. O diplomata olhou meu documento (chileno, de refugiado) e, com a maior desfaçatez deste mundo, levantou o braço e chamou os carabineiros. Assim mesmo, como estou contando. Fomos presos e levados, não para o estádio, mas para a delegacia do bairro. Ficamos trancados numa sala. Levaram nossos documentos. Veio el capitán, sozinho e sério, mas não nos insultou. Interrogatório. Contei que precisávamos viajar ao Peru. A trabalho. Fomos à embaixada pedir visto e fomos presos. Quando ele viu o violão, que Manduka não largava, seus olhos se acenderam. Perguntou se eu tocava. Apontei para o menino. A quem ele fez uma pergunta que salvou a pátria: - Por si acaso, tocas la Bossa Nova?
Com muita calma, o Manduka (já com 18 anos) tirou uns acordes com aquela batida de João Gilberto, cantou o Desafinado, depois ofereceu o pinho ao militar, que não se fez de rogado. Dedilhou uns acordes, elogiou o instrumento, agradecido. O militar nos deixou. Abracei meu filho. Demorou um tempão, anoiteceu, o capitão voltou com nossos documentos e, como se nada, se referiu a minha amizade com Neruda. Mandou a gente embora, e ainda advertiu:
– Vão depressa, porque o toque de recolher começa às 10 horas e já passa das 9.
Me olhou nos olhos:
– Seja mais cuidadoso.
Não cabiam dúvidas. O oficial chileno só podia ser um allendista. A guarda do palácio presidencial era feita por carabineiros.

MHuD: A música salva o poeta e o músico...
TM: No dia seguinte ao enterro de Neruda ...
(Faço um parêntese, ou um ramo, como o poeta me dizia:
– Compañero, haces demasiadas ramas en el árbol de tu conversación.
Eu lhe respondia que era verdade, pero advertia que os ramos da conversa dele eram mais grossos e mais bonitos do que os meus. Quero recordar o enterro do bardo:
– Pablo Neruda!, bradava um coração chileno.
– Presente!, respondia a multidão corajosa, cercada de soldados.
Fecho o parêntese.)

No dia seguinte ao enterro de Neruda, cometi uma audácia. Era preciso socorrer um brasileiro, também refugiado, para ele sair do Chile. Estava escondido num bairro proletário de Santiago, cruzado pela Grande Avenida. Tinha papéis bons. Dei o lugar e a senha onde uma mulher o esperava, de vestido branco. Lembro neste instante que a senha era Madrugada Campesina. Abracei-o: – “Ela vai te ajudar”. Ajudou muito.
Tornei a vê-lo, anos depois, quando voltei do exílio. Estava sentado na primeira fila do Teatro da PUC, em São Paulo, na estreia do Faz escuro mas eu canto, título do show, com poemas e canções, que Sergio Ricardo me chamou para fazer com ele. Varamos durante um ano mais de dez capitais brasileiras clamando pela anistia. Onde chegávamos, a censura nos esperava. Chegávamos armados com os Direitos Humanos.

MHuD: Qual é a sua visão mais geral sobre os Direitos Humanos?
TM:  O que faz o homem é sua infância, não é? Tive uma infância maravilhosa, de menino pobre. Nasci no coração da floresta, num lugar chamado Bom Socorro, terra do meu avô Gaudêncio, em Barreirinha.
Avô que me escreveu uma carta, pelos meus nove anos, dizendo que eu estudasse com vontade, porque ele queria que eu fosse um homem de bem. Estudar, estudo até hoje, cada dia mais. Ser um homem de bem é que não é fácil, dá um trabalho danado, neste mundo de maldade e ilusão, como o Caymmi canta.
Morava na beira do rio. Convivendo com as águas, a mata, aprendendo a lição dos pássaros, das estrelas. Aprendi a nadar antes de andar. Minha mãe e meu pai eram filhos de camponeses. Meu pai estudou em Manaus e a sua preocupação maior na vida foi educar os filhos. Com cinco anos fui para a capital, onde fiz o primário e o secundário. Minha professora, dona Aurélia, me plantou, de menino, o gosto de ler. Dava aula de leitura todo sábado, na casa dela.
Eu não perdia uma. Ela cativava com a verdade: curso primário bem feito é meio caminho andado para a vida e que ninguém se faz gente de valor sem leitura. Tirei 10 na prova de leitura de Um apólogo (da Linha e da agulha), do Machado de Assis, que durou quatro sábados. Depois de ler e reler em voz alta, a gente tinha de dizer qual das duas era a principal. Fiquei do lado da agulha. (Vou mandar ao querido Juca, nosso ministro da Cultura, a metodologia inventada por minha professora para dar a seus alunos a felicidade da leitura.)
Minha iniciação nos direitos e deveres humanos se fez com a educação dos bons costumes e do respeito aos outros, que meus pais e meus professores me deram. Quando deixei Manaus, para estudar no Rio de Janeiro, já levava abertas as principais vertentes da minha vida, que me guiam até hoje. Já sabia que o amor era possível, que o homem é capaz de criar a beleza com a arte. E, ai de mim, tão cedo, já aprendera a existência da injustiça social. Desigualdade perversa, abismo infame que separa pobres miseráveis de opulentos poderosos.

MHuD: Essa consciência já veio da infância e da adolescência....
TM: Menino, fui um bom empinador de papagaio. Até hoje empino. É uma paixão. Até escrevi um livro, Arte e Ciência de Empinar Papagaio. Não chego a ser um famão, mas sei flechar contra o vento. Tem muito a ver com a arte de escrever. E com os Direitos Humanos também.
Pede muito respeito. Quem tem linha com cerol (cola com vidro moído) não trança o empinador de linha limpa. Deslealdade. Aprendi com o Modestino, operário de uma serraria de madeira em Manaus, num alto barranco do rio Negro. Ao lado da serraria ficava o grande sobrado do dono, com azulejos portugueses, do tempo da borracha. Modestino morava numa estância, grupo de casebres na beira do rio. Ele levava para o trabalho sua comidinha, peixe frito com farinha. O filho do dono da serraria era meu colega no grupo escolar, e mais de uma vez fui à casa dele. Eu perguntava a minha mãe por que o dono da serraria era tão rico, comia tartarugada, e o Modestino, filho de uma lavadeira, que dava duro na serra elétrica, tinha de levar o almoço dele numa lata. Minha mãe, dona Maria, respondia que eu ia saber a razão dessa diferença depois, quando crescesse, o mundo estava cheio daquilo, que ela sabia bem o que era. O poder dessas vertentes eu devo muito a minha infância. Aprendi cedo essa coisa chamada Ética, essência dos Direitos Humanos.

MHuD – Antes do Chile, como foi para você o Golpe de 1964 no Brasil?
Thiago de Mello: Eu me encontrava em Santiago do Chile, adido cultural na embaixada, quando os generais brasileiros deram o golpe, articulado pelo Departamento de Estado norte-americano, como nove anos depois procedeu ostensivamente no Chile.
Na noite de 1º de abril, o presidente João Goulart, ainda em Brasília, ia falar aos brasileiros. Eu estava na famosa La Chascona , casa que Neruda me alugou, onde vivi cinco anos. Allende me telefona, pelas 1O horas, me diz que estava chegando com um rádio de longo alcance, queria ouvir comigo o discurso do presidente João Goulart. Que Neruda ia com ele. Chegaram, solidários. O discurso do presidente foi breve. A ditadura era uma traição ao povo. Não queria sangue derramado, ia para o Rio Grande do Sul.
O poeta, membro do Comitê Central do Partido Comunista do seu país, me olhou e disse, pausado e grave: – Tu pueblo, compañerito, no va a salir a las calles. Eso jamás pasará en Chile. El dia en que los militares intenten levantar la cabeza, hasta las amas de casa saldrán a las calles, con sus escobas, en defensa de la democracia.
Allende: Lo que yo siento es que ese golpe militar en el Brasil va a desencadenar una ola de levantes en países de nuestra América. Y hasta Chile podrá ser alcanzado.
Fiquei silencioso. Nem preciso falar agora. A história já falou.

MHuD: Que outras lembranças você guarda daqueles dias?
TM: Um porta-aviões norte-americano na baía de Guanabara, com soldados e armas, pronto para enfrentar a resistência popular, que não houve. Vi, no Correio da Manhã, a fotografia do escritor Astrogildo Pereira, o grande machadiano, em cima de um catre, no mesmo quartel onde estive preso quando voltei ao Rio. Dias mais tarde, vejo, em Santiago, a fotografia de Gregório Bezerra, líder camponês, sendo puxado por um coronel do Exército, de pé num jipe, numa avenida do Recife, só de calção, com uma corda no pescoço, como se fosse um bicho. Veio o primeiro Ato Institucional da Junta Militar. Arraes e Julião presos em Fernando de Noronha. E o pior: muita gente boa aderindo. Não conseguia dormir. Vergonha de minha pátria. Indignação moral. Eu precisava fazer alguma coisa. Começo de abril, entreguei meu pedido de renúncia ao embaixador Fernando Ramos de Alencar. Tive de insistir para que ele o encaminhasse ao Itamaraty. No mesmo dia, escrevi meu ato institucional permanente, o poema Os Estatutos do Homem, publicado em maio pelo Correio da Manhã. Dedicado ao meu cada dia mais querido Carlos Heitor Cony, o primeiro de todos nós a bradar contra a ditadura, sua coluna do Correio, tradicional órgão da imprensa brasileira, que, não tardou, morreu amordaçado pelos militares.

MHuD: E seu poema começa com o verso “Fica decretado que agora vale a verdade”.
TM: Não faria mal algum um pouco mais de ética no proceder cotidiano de todos nós, brasileiros. De uns para com os outros. Na vida de cada pessoa. No viver e sobretudo no conviver. E, de maneira corajosa, na ação dos chamados homens públicos, os que têm nas mãos e na cabeça o destino da nação. A ética no poder de fazer ou de desfazer. Acho que a vida do povo ia sair ganhando. A pátria seria até mais amada e idolatrada. Estou me lembrando de uma conversa que tive com Borges, o extraordinário argentino, anos 80, pouco antes de sua morte. Pedi que me falasse de sua constante preocupação pela pátria. Guardo sua resposta como se fosse um verso.
– Pela pátria e pela ética. Duas coisas inseparáveis.
Está no meu livro Borges na Luz de Borges. O grande cego confessa que sempre tratou de ser um homem ético, mas nem sempre conseguiu.
Lembrança forte é a de uma frase que ouvi durante um jantar em Havana, 2006, promovido pelo romancista Abel Prieto, ministro de Cultura de Cuba, com alguns escritores latino-americanos. Lá pelas tantas, a ética tomou conta da mesa, que era oval e generosa. Concordava-se que, em muitos países nossos, a ética andava em maus lençóis. De repente o querido Gabriel, o Garcia Márquez, do Cem Anos de Solidão, rodeia a mesa com o dedo curvo e diz:
– Lo peor es que todos nosostros ya estamos acostumbrandonos a la pérdida de la ética.
O pior mesmo, comento hoje, é quando o costume vai virando indiferença. E quero terminar falando da poesia, sem a qual, aliás, a pátria não pode viver bem. O compromisso essencial da arte é com a beleza, estamos todos de acordo. Mas acho que a poesia, além da finalidade estética, deve ter uma utilidade ética. Estou dizendo que a Poesia deve servir à Vida, da qual ela nasce.
Mas, afinal, o que é a Ética? Não fui aos compêndios, nem aos pré-socráticos. Perguntei a um amigo dileto em quem também tenho um escritor predileto, o professor e historiador Joel Rufino dos Santos, por sinal meu companheiro de exílio. Pois sabem o que ele me respondeu? Leiam:
– “Ética no uso comum brasileiro é, antes de tudo, corporativismo. Se um médico cometer um erro, será defendido por muitos colegas em nome da ética. Outro uso é como se ética fosse moral, talvez porque no latim fossem sinônimos. O sentido original, que acho melhor, é de fidelidade à sua casa (oikós). Por isso, tem um significado universal: fidelidade ao homem, que é a sua história, e à sua casa, que é o planeta. É triste reconhecer que, nesse sentido, o Brasil nunca foi ético.”
Nem o Brasil, eu arremato, nem país algum. Principalmente os que se consideram donos do mundo, responsáveis (sabendo o que fazem) pelo aquecimento da Terra, a nossa grande casa, toda queimada, morrendo de medo dos homens.

 

MHuD: Você acha que o socialismo está, hoje, mais próximo da ética do viver para o outro do que no sistema capitalista? Gostaria de saber também se é possível uma política socialista, na atual conjuntura, se é possível lutar, como lutávamos antigamente, por um mundo mais justo, por um Brasil mais justo, num sistema político socialista.
TM: Tu me perguntas se é possível? Claro, poderosamente. Ninguém aqui vai desanimar. Nem perder a esperança. Ainda que as asas do moinho pareçam gigantes invencíveis, luta, companheiro, vais ver a manhã chegar. Faz tempo que, entre o apocalipse e a utopia, fiz a opção pela utopia. Eu acho que é possível, sim, a construção de uma sociedade humana solidária. Cada povo vai encontrar a sua maneira, a forma de socializar o gosto de viver contente. Contentamento de viver vai demorar. Um dia, na consciência de quem padece na banda podre, floresce a esperança da mudança, não só da qualidade, mas do sentido da sua vida. Se não, sem se dar conta e até gostando, o pobre cidadão enganado se transforma em animal servil do lucro, alma e sangue do capitalismo.
O sistema capitalista mostra cada dia mais, no mundo inteiro, sua incapacidade de redimir o homem da miséria, da ignorância, da cegueira. Precisa mantê-lo submisso, achando que assim mesmo está bom, podia ser pior. Hoje o trabalho principal e mais fecundo para achar o rumo da mudança só pode ser a perseverante conscientização. Quando uma parcela ponderável de um povo se conscientiza, descobre as causas da injustiça, aprende que existem direitos humanos consagrados para todos, trata de se unir e crescer, na luta, confiante na sua liderança. Cada país encontrará a sua forma de construção do socialismo, que dê a seu povo uma existência, deixem eu dizer, decente. A não ser que surja outro sistema de sociedade ainda melhor. E a imperfeição da natureza humana? Existe para ser vencida. E o poder tremendo da televisão? Vai ficar contente de servir à beleza da vida. E os recursos prodigiosos da tecnologia? Pois não se trata de mudar o que deve ser mudado? Pois mudado há de ser o sentido e a direção desses prodígios. Um poema pode ajudar:

As colunas da injustiça
sei que só vão desabar
quando o povo descobrir
que existe, sim, o caminho
que leva à libertação.
Vai tardar, mais vai saber
que esse caminho começa
na dor que acende uma estrela
no centro da servidão.
De quem já sabe, o dever
(luz repartida) é dizer.
Quando a verdade for flama
nos olhos da multidão,
o que no verso é palavra,
no povo vai ser ação.

Certa vez, numa palestra para universitários, entrei na questão da indiferença. Perguntei: “Por favor, quem aqui se lembra do que aconteceu com o João Hélio? O menino, de nove anos, que foi arrastado por três quilômetros numa rua cheia de gente no Rio de Janeiro por um automóvel com quatro estudantes adolescentes? Quem se lembra?” Eram umas 500 pessoas no salão, e só umas cinco mãos se lembraram. Fazia ano e meio da barbaridade que a gente esqueceu. Como o crime espantoso que o tempo engoliu, da Canção da Parada de Lucas, do Manuel Bandeira.

MHuD: Você poderia ser famoso e é, em qualquer lugar. A sua poesia vale pra todo mundo. No entanto, você prefere Barreirinha, no Amazonas.
TM: Voltei para o Brasil um ano antes da anistia (por isso fui preso ao chegar, já sabia que ia ser preso) porque achava que estava ficando doido. Atravessava a ponte sobre o rio Reno, entre Mainz e Wiesbaden (cidade onde Dostoiévski escreveu O jogador) e sentia cheiro de pirarucu. Cheiro de pimenta-murupi. Sentia falta da fala, do canto, do jeito de viver de minha gente. Bem, quando anunciei a minha decisão (que tomei ainda na Europa ), de que, ao regressar, ia morar na floresta, os amigos discordaram. Me lembro do meu irmão Enio, o editor Enio Silveira, me advertindo:

– Mas lá ninguém lê. A Tua voz, tua presença, têm mais força, pesam mais é aqui no Sul.

Tratei de convencê-los:
– Não vou lá para ensinar. Quero e preciso ir é para aprender com a floresta e com o povo que vive nela. Que é parte essencial da floresta. Com as águas, os verdes, as estrelas, o chão onde nasci. Não quero aprender só com os livros, as noticias dos jornais e dos satélites.
Fiz muito bem. Acertei. Daqui não saio, daqui ninguém me tira, escrevo cantando. (Falta grave, não me lembro do autor da famosa marchinha.) Já são seis os livros que a floresta me pediu para escrever, falando da vida dela. Sem contar os de poemas, viajados pelos verdes. Como este que o Manduka musicou e gravou:
 
Vento e verão, sol e silêncio,
sinto vontade de cantar.
Nuvens alvíssimas no vento,
eu não mereço tanta paz.

Na transparência a garça voa,
asa de luz quer me levar.
No meião fundo uma canoa
vai contra o vento atravessar.

Quem vem na proa é uma criança
que não se cansa de remar.
Crista de onda, minha esperança
brilha nas águas do Andirá.

MHuD: Então, como salvar a Floresta Amazônica? Um filho da floresta, o que diz?
TM: Digo que faz tempo me consagro à causa da preservação de nossa floresta, a mais preciosa fonte de vida do planeta. Cada dia mais impiedosamente devastada. Mordida pelo ferrão da cobiça internacional. Devorada pelo fogo dos madeireiros perversos, pela voracidade (tenho vontade de escrever ferocidade) dos empresários poderosos. Em todo canto do mundo onde chegava, repartia  minha esperança:
Faz tua parte, planta uma flor. Ajudas  preservar a floresta.
Hoje não se trata mais de apenas preservar. Mas de salvar.
Já se sabe (quem ainda não sabe, precisa ficar sabendo) que a emissão de gases, principalmente o gás carbônico, resultantes da queima de combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão mineral) aumentaram a temperatura da atmosfera, causando o chamado efeito estufa. A Terra, corpo vivo, nossa morada, começou a dar sinais de sofrimento. As chuvas chegavam ácidas. As águas, enlouquecidas, invadiam cidades. As árvores perdiam as folhas em plena primavera.
A bondade da Natureza é tanta que envolveu a Terra com uma película mágica, para proteger os seres terrestres de raios solares malignos. Pois não é que os homens abriram buracos enormes na delicada matéria protetora? Quando os cientistas descobriram, ficaram alarmados. Tantos foram os cuidados com a perfuração da camada de ozônio, que se descuidaram do perigo maior: o aquecimento e nosso planeta.

MHuD: E o planeta pede socorro.
TM: Os sábios da comunidade científica afirmam: de tão elevada, a temperatura da Terra chegou a um estado irreversível. De consequências trágicas para a existência do planeta e dos seres vivos seus habitantes. Convém levar a sério a verdade terrível: o que está ameaçado é a sobrevivência da humanidade. Quem avisa amigo é.
Filho da floresta, espalho seu pedido de socorro. O mesmo calor que já derrete as geleiras da Antártica, dissolve as neves dos Andes, ameaça transformar nossa mata numa savana desolada. O Painel Internacional de Mudanças Climáticas das Nações Unidas não usa metáforas nem meias-palavras: a floresta vai murchar. Secar.
Mudaram as circunstâncias da vida terrestre. Da celeste também. Mudaram os ímpetos dos oceanos. As estações do ano estão desvairadas. Os pássaros se esquecem de seus cantos. O mundo dos homens está mudado. Concedo então que minha esperança também mudou. Perdeu flama. Mas não se apagou.
Ainda é possível, sim, abrandar as terríveis consequências do aquecimento global.
Desde que todos os moradores da Terra façamos nossa parte. O gás carbônico que sai do cano de descarga de teu carro envenena a vida. Só o clamor popular pode estremecer a dureza do coração de governantes que se negam a reduzir o nível da emissão dos gases malignos. É começar a trabalhar agora pela vida das crianças que ainda vão nascer. Consumir menos energia, poupando luz, água, gás. Pedir a ajuda bondosa do vento, do sol, da água. E por que não a energia do átomo, a serviço da vida? E plantar árvores. É possível, digo de novo, amenizar a desgraça planetária.
Desde que a humildade vença a arrogância dos que se pretendem donos do mundo. O poder da utopia pode triunfar sobre o furor do apocalipse.
A floresta amazônica ainda pode ser salva. O que dela sobrar vai ficar contente de ajudar a Vida. É sua vocação. Para isso a Natureza a plantou na metade do chão brasileiro.
MHuD: O agronegócio chegou na Floresta e, além de derrubar as matas, tem utilizado muita mão de obra escrava. O que fazer?
TM: Ora, o que fazer. É acabar. Não só com a mão de obra escrava. Acabar com a mão que cata comida no lixo, acabar com criança dormindo com fome, acabar com a disenteria amebiana, acabar com a miséria que degrada a grandeza da condição humana. É acabar. Como? Com o poder do respeito aos direitos humanos. No dia em que vigorarem de verdade, na vida de todos, pelo menos os artigos que garantem o trabalho, a saúde e a instrução (do 23 ao 26), estará garantido o triunfo da grande revolução humana: a do amor.
Quem vai acabar? Só podem ser os brasileiros que ganharam do povo o poder de mudar e o dever sagrado de garantir o bem de todos. O homem vai estar em seu direito de ser feliz. Vai trabalhar contente, porque sabe que está ajudando a vida a ser boa com a gente. A vida de quem? A dele e a dos outros. Que nem precisa ser santa, apesar de todas as quedas, como a da Última canção do beco, do Bandeira. É a rosa nascendo, rompendo o asfalto, do poema do Drummond. Mas isso é pura utopia, dirão os desenganados. Pois é, precisamente disso que se trata: utopia, o sol nascendo para todos.

MHuD: Em sua poesia também é forte outro tema importante dos Direitos Humanos, que são as crianças.
TM: Um dia me chegou, final dos 90, um telex das Nações Unidas, me convidando para integrar a comissão de notáveis, um grupo de escritores dispostos a dar uma mão na roda do trabalho da Unicef pela vida das crianças e adolescentes da América Latina. Respondi que sim, era um dever.
Mas disse na primeira reunião que notável para mim era a criança magricela, barrigudinha de vermes e amebas, que treme na febre da sezão, toma seu mingau de farinha d’água e acaba sobrevivendo, feliz da vida.
Éramos uns vinte, todos latino-americanos. Menos o José Saramago, o único europeu. Com o colombiano Gabriel, o García Márquez, eram dois Nobel na comissão. Gente de tudo quanto era canto deste mundo sofredor. Até de Barreirinha. O Jorgenrique Adoum, do Equador, Arturo Corcuera, do Peru, Benedetti, do Uruguai, Ernesto Sábato, da Argentina, Elena Poniatowska, do México, a lista é grande.
Uma reunião por ano. Dez dias, de manhã e de tarde. Muito trabalho. Sem honorários. Cada ano num país diferente. Ouvíamos o pessoal da Unicef, que trazia o balanço do trabalho do ano. O saldo era sempre tristonho. As ervas daninhas não se cansavam de crescer. Evasão de escola e de lar, crianças vivendo na rua e comendo lixo, meninas fazendo a vida, doenças da pobreza. A nós cabia, no final, fazer um manifesto. Muito bem escrito, chovendo no molhado. Destinado a governantes, legisladores, juízes, ministros de Educação e de Saúde, educadores, prefeitos, donos de fábricas, sindicatos. Será que leram nosso alerta?
Participei, com o poeta Corcuera, da redação do manifesto do último ano do século. Concluía assim:
“As crianças e adolescentes da América Latina não estão esperando pelo novo milênio. O que faz tempo elas querem é a chegada do amor”.
O Saramago leu e disse, com seu timbre bonito, uma frase que me ficou, de transparente fundura:
– Ó, Thiago! Tu sabes que amor é uma questão de cultura.
A comissão durou pouco, consciente de como ainda somos pobres do respeito que merece quem chega a este mundo. Reuniu-se pela última vez, 2005, na Espanha. A despedida foi do paraninfo Miguel de Unamuno, da Universidad de Salamanca. Saramago nos comoveu. Jorginho Adoum contou de sua meninice. Cardenal leu uma página do seu Cântico cósmico. Crianças cantaram. Quando chegou minha vez, disse para elas a minha Cantiga quase de roda.
 
 Na roda do mundo,
 lá vai o menino,
 na fronte uma estrela,
 no peito a esperança.
 O mundo é tão grande
 E os homens tão sós.
 Caminham calados,
 parecem feridos.
 De pena, o menino
 começa a cantar
 pois sabe que os homens,
 embora se façam
 de grandes, de fortes,
 no fundo carecem
 de aurora e de infância.
 Na roda do mundo
 lá vai o menino
 rodando e cantando
 cantigas que façam
o mundo mais manso
cantigas que deixem
a vida mais limpa,
cantigas que tornem
os homens mais crianças.

Estávamos no mesmo lugar, Salamanca, em que, ao fim da Guerra Civil Espanhola, a beleza da dignidade humana alcançou um de seus instantes mais grandiosos. Miguel de Unamuno, então reitor da Universidade, proferia sua aula magna, quando teve a voz cortada pela ofensa do general franquista Millan Astray:
– Abajo la inteligência! Viva la muerte!
O reitor respondeu com solene bravura:

“Acabo de ouvir um grito necrófilo. De um aleijado moral. Esta casa é o templo da inteligência. E eu sou seu mais alto sacerdote. Para servir à Vida.”
Quero dedicar essas palavras de Unamuno a Márcia Perales, cabocla que acaba de ser eleita reitora da Universidade Federal do Amazonas.

MHuD: E sobre a situação dos índios no Brasil?
TM: Eles eram mais de cinco milhões quando chegou o colonizador europeu. De extermínio em extermínio, hoje são 700 mil. Quase todos feridos fundamente em sua essencial condição de índios. Uns poucos resistem, nas lonjuras da selva, evitando o contato com os chamados agentes da civilização. Como os ianomami, de Roraima, que se salvaram, escondidos em suas aldeias mais distantes, da invasão feroz de milhares de garimpeiros nos anos 80. O que desejam os pequenos resíduos tribais espalhados pela Amazônia, como de outros lugares do Brasil, é simplesmente seguir sendo homens e mulheres índios. Merecedores do principal dos Direitos Humanos: uma existência compatível com a própria dignidade humana.
O santo Noel Nutels dizia que índio aculturado é índio degradado. Meu irmão Darcy Ribeiro chamou de desengano o drama que é a perda da identidade cultural, a submissão aos trunfos de uma cultura estranha. A chamada questão do índio não é do índio, é do branco, que lhe ensina a gostar do que faz mal à vida. Digo o que sinto, eu que vivo pertinho de meus antepassados Maués, neste Monólogo do índio:

Perdido de mim, não sei
ser mais o que fui e nunca
poderei deixar de ser.
De mim me esquivo e me esqueço
do que sou na precisão
de me fazer parecido
aos brancos no que eles são:
uma apenas tentativa
inútil, que se dissolve
na dor que não me devolve
o poder de me encontrar.
Já deslembrado da glória
radiosa de conviver,
já perdido o parentesco
com a água, o fogo, as estrelas,
resíduo de mim, a brasa
do que fui mal me reclama,
uma estrela se apagando
dentro do ser que perdi.

Mas uma coisa quero contar: longe da floresta ou do Brasil, quando me pedem o que mais gosto da nossa literatura, dou meus romancistas e poetas prediletos, mas nunca deixo de incluir a literatura oral dos índios do Amazonas. Durante dois anos, ajudei meu mestre Nunes Pereira, lá em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, a organizar as lendas e histórias que ele registrou, durante quarenta anos, ouvindo tucauas e morubixabas das nossas tribos. Todas reunidas pela editora Civilização Brasileira nos dois volumes do Moronguetá, obra monumental.
Verdade é que fico triste quando vou a Ponta Alegre, a Molongotuba, aldeias dos saterê-maué, aqui no rio Andirá: constato que ninguém se lembra mais de suas lendas tão lindas.
Nem posso deixar de dizer que a recente edição de luxo do meu Amazonas, Pátria da Água, vem toda ilustrada com fotos do querido Luiz Marigo e belos desenhos e pinturas dos índios tukunas, do Solimões. Pedi a um tucaua que me desse o nome de alguns dos artistas. Me respondeu:
– Não precisa dar nome deles, não. Diz que são dos tukunas.
Que beleza! Mas fiz o que manda a Declaração Universal, no artigo dos direitos autorais.
Mais uma boa nova: o povo de Barreirinha elegeu um índio, o Mecias Batista, para governar nosso município. O sateré soube aliviar a população dos aperreios da grande enchente deste ano. E está fazendo de tudo para defender as crianças das enfermidades que sempre surgem, quando as águas começam a baixar.

MHuD – O direito da floresta, o direito das crianças, preocupação com o presente e com o futuro...
TM: Digo de novo que estou com a utopia e ninguém me arreda dela. Por mais que doa a força centrípeta do meu umbigo. Apesar de todas as vicissitudes (como Getúlio Vargas  chamava os padecimentos dos trabalhadores do Brasil), essas coisas danadas de feias que não param de acontecer, ainda é possível mudar o jeito de viver do brasileiro. Quem sabe vai ser preciso que se dê uma grande sacudida. Quem vai dar eu acho que vai ser a Terra. Eu? Não. Os cientistas do mundo inteiro, que não brincam com as palavras. Advertem que estamos no século do “grande desastre da humanidade”. Grande parte dela vai perecer. Que século, meu Deus!, diziam os ratos. Mas continuavam a roer o edifício. De novo o Drummond me vale.
Os sobreviventes vão construir não o admirável mundo novo do Aldous Huxley, mas um novo modo humano de viver. Um modelo de vida diferente. Dentro de outro sistema, que inventarão. Uma sociedade humana solidária.
Agora sou eu que pergunto. A emissão de gás carbônico, o CO2, não é a principal causa do aquecimento da Terra? O gás carbônico não é resultante da queima da gasolina, do óleo diesel, do querosene? Essas substâncias não são derivadas do petróleo, o mais valioso e cobiçado dos combustíveis fósseis? Os cientistas não afirmam que o aquecimento global é irreversível e suas consequências terríveis, inevitáveis, ameaçam a vida da humanidade e do próprio planeta.? É ou não é verdade? Pois parece que os governantes do mundo não levam a sério os sábios. Desconsideram os relatórios do Painel Internacional das Mudanças Climáticas das Nações Unidas. Todos querem mais petróleo. Quanto mais petróleo, mais poder. Aquece mais o planeta?  Ora, direis, a febre dele não cede, a desgraça já está feita. Pois a ciência diz que mais emissão de gás carbônico, maior será a dimensão da desgraça. A utopia então aconselha aos países petrolíferos emitir menos gás carbônico. Cada dia um pouco menos. Vai abrandar o que o sábio James Lovelock chama A Vingança de gaia. As crianças que estão nascendo confiam na bondade do pré-sal.

MHuD: A memória dessas lendas lindas que o senhor lembra na entrevista é a própria alma do povo indígena. E isso lembra outro problema do Brasil: o senhor é a favor de abrir os arquivos da ditadura e outros arquivos?
TM: Esses arquivos já deviam estar abertos há muito tempo. Se os que têm poder para torná-los públicos não o fazem, devem ter seus motivos. Como os arquivos, esses motivos não se dão bem com a luz do dia.

MHuD: O senhor acha que a reforma agrária amenizaria um pouco dos conflitos de terra?
TM: Acho, sim. Faz é tempo que se quer a reforma. Tem gente que vira onça só de ouvir falar nela. A boca do latifúndio é maior do que no poemas everino do João Cabral. A questão fundiária é uma balbúrdia, para não dizer que é uma vergonha. O grito das Ligas Camponesas do Julião ainda ressoa. Não é nada bom que o projeto da reforma fique dormindo o sono injusto. E não deixo de cantar:

Camponês, plantas o grão
no escuro e nasce um clarão.
De noite, comendo o pão,
sinto o gosto de uma aurora
surgindo da tua mão.
És um claro companheiro,
mas vives na escuridão.
Quero chamar-te de irmão.
Para fundar o reinado
de justiça e claridão,
ergamos juntos, cantando,
a arma do amor em ação.
A rosa já se faz flama
no gume do coração.

MHuD: Que palavra o senhor deixa para que os Direitos Humanos sejam, sobretudo, direito à vida?
TM: Minha palavra é de confiança e vai para quem é jovem. Não faz mal que seja idoso, o essencial é que tenha juventude. Tenho encontrado muito moço – doutor, empresário, economista – que já envelheceu. Quer enriquecer, acha que o mundo é só dele. Os outros que se virem. Quando moço (já fiz quarenta anos pela segunda vez) convivi com brasileiros bem mais idosos, que me enriqueceram de luz e coragem.
Cometo o pecado da omissão, inevitável, mas tenho de gravar aqui o exemplo luminoso de Lucio Costa, Alceu Amoroso Lima, Agnello Bittencourt (meu mestre no Gymnasio Amazonense Pedro II), Sobral Pinto, Anísio Teixeira, José Lins do Rêgo, Barbosa Lima Sobrinho, Adão Pereira Nunes, Ulísses Guimarães (dele ganhei, com dedicatória que minha mãe repetia de cor, um exemplar da Constituição, que, olhem lá, também se fez para ser respeitada).
Faço questão de enaltecer a juventude de Linus Pauling, o cientista norte-americano, prêmio Nobel por suas descobertas na química molecular, de quem me aproximei no Chile, pela mão de Neruda, quando participamos do Congreso del Hombre, organizado pelo poeta Gonzalo Rojas, em 1962, na Universidad de Concepción, no Chile. Com sua cabeleira branca ao vento, a camisa de mangas arregaçadas, liderava de braços erguidos a marcha dos estudantes de sua universidade contra a guerra do Vietnã.
A luta pelos Direitos Humanos para todos nunca vai ter fim. O bom combate que dignifica o combatente. Sustentado pela juventude, força dentro do peito, que não desanima.

MHuD: Às vezes a palavra incomoda os acomodados, não é?
TM: Muito. Ela é subversiva, poderosa. Quando leva a verdade, vira palavração. Uma vez, durante uma palestra com universitários, um aluno de mestrado, quis me provocar e perguntou:
– Poeta, você acha que a poesia pode salvar o mundo?
– Nem precisei pensar, respondi:
– O mundo não sei, mas pode te salvar.
Faço agora um pedido a uma pessoa que amo, Pollyana Furtado, voz da floresta. Que recite um poema.

SOS
A chuva e o som do vento,
meus ouvidos contemplam.
Os olhos ouvem o silêncio
no tempo a que pertence.
O silêncio desse vasto mundo,
desse tempo mudo.
No florescer da floresta,
revigora e regenera
a vida dos seres rastejantes.
Na imensidão da floresta
invade no infinito...
a vida eterna dos seres saltitantes
habitando a paisagem,
na visão selvagem.
Sublimes seres flutuantes,
ceifando a vida dos seres navegantes.
Num círculo simbiótico
de uma cadeia irreversível...
Até que Curupira proteja,
até que Deus dê um destino definido.
Há extinção de árvores, há fuligem...
Húmos vitalícios revitalizam,
enquanto o ser humano
invade o vasto e degenera
cada quilômetro da biosfera,
destruindo o verde,
aspirando ao verde do papel.

Pronto, já chega. Mas ainda quero dizer, como se fosse pela primeira vez, que o homem tem todo o direito de ser feliz. E me despeço:
O animal da floresta
De madeira lilaz, ninguém me crê,
se fez meu coração. Espécie escassa
de cedro, pela cor e por conter
no seu âmago a morte que o ameaça.
Madeira dói? pergunta quem me vê
os braços verdes, olhos cheios de asas.
Por mim responde a luz do amanhecer
que recobre de escamas esmaltadas
as águas grandes que me deram raça
e cantam nas origens do meu ser.
No crepúsculo estou da ribanceira,
entre as estrelas e o chão que me abençoa
as nervuras. Já não faz mal que doa
meu bravo coração, água e madeira.

O Movimento Humanos Direitos (MHuD), que realizou a entrevista, é um coletivo da sociedade civil que realiza projetos e programas de proteção e defesa dos direitos humanos. Parceiro da revista Direitos Humanos desde a edição inaugural, o MHuD reúne militantes com trajetórias profissionais variadas – atores, produtores, fotógrafos, professores e outros – e tem como propósito fortalecer o espírito de cidadania na sociedade brasileira. O grupo age em cooperação com outras organizações, promove e incentiva o debate público e a reflexão sobre o tema dos direitos fundamentais. Suas ações concentram-se em quatro eixos prioritários: a erradicação tanto do trabalho escravo quanto do trabalho infantil, a demarcação das terras indígenas e dos territórios quilombolas e a promoção do socioambientalismo no país.

Participaram da entrevista: Bruno Cattoni, Daniel Souza, Generosa Silva, Letícia Sabatella, Ricardo Rezende, Salete Hallack, Virgínia Berriel e os convidados André Gonçalves (ator), Clara Lopes (estudante), Edilene Rodrigues (jornalista), Enrica Bernardelli, Ricardo Dias (advogado), Tatiana Camargo (professora), Pollyana Lima (poeta e professora)

Hoje museu aberto à visitação pública em Santiago. Chascona, palavra quéchua para “cabelo desgrenhado”, é o nome afetuoso que Neruda deu a sua companheira Matilde Urrutia. (Nota do editor)

Então candidato presidencial, derrotado meses depois por Eduardo Frei, democrata-cristão amplamente apoiado pelos Estados Unidos. (Nota do editor)

Fotos: Salete Hallack e Generosa Oliveira

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