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Bete Mendes Ă© entrevistada pelo MHuD



20/06/2010

Rio de Janeiro, 20 de Junho de 2010

À convite da Revista Direitos Humanos - www.direitoshumanos.org.br, o MHuD entrevistou BETE MENDES.

Filha do suboficial da Aeronáutica Osmar Pires de Oliveira e de Maria Mendes de Oliveira, formou-se em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo.
Em 1970 foi presa pela primeira vez, pelo DOI-CODI, ficando quatro dias detida. Entre setembro e outubro foi novamente presa, ocasião em que sofreu torturas. Absolvida pelo Superior Tribunal Militar, foi solta após trinta dias no cárcere.
Participou ativamente de diversos movimentos sociais e de classe, como a regulamentação profissional de artistas e técnicos em espetáculos de diversões, apoio às greves dos Metalúrgicos do ABC paulista e o movimento pela Anistia.
Ao largo da carreira artística, voltada principalmente para a televisão, Bete Mendes foi uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores, com o qual elegeu-se deputada federal a primeira vez, na legislatura 1983-87. Elegeu-se novamente, desta feita como Constituinte, para a legislatura seguinte (1987-91), pelo PMDB.

Movimento Humanos Direitos – Você é de família de classe média, de Santos (SP), com pai militar da Aeronáutica, católica, mas que tinha lampejos de curiosidade crítica, entusiasmada, desde pequena, que fazia entrever a artista irrequieta que mora em você desde sempre. Como se formou a estrutura do ser ‘Bete Mendes’?
Bete Mendes – Bom, uma coisa que é importante falar é que minha mãe é de Santos e meu pai, que já faleceu, é de Pindamonhangaba, de uma família conservadora, e minha mãe, uma pessoa até mais aberta, embora muito simples, com identificação com as novidades. Sempre tive deles muita compreensão, eles nunca foram contra minhas atitudes. Quando fui para o jardim de infância, eu já sabia ler e participava das festinhas, cantava. Meu pai me levava ao cinema e eu via os filmes americanos, que ele adorava, e eu decorei Lili, do filme com Fred Astaire e Leslie Caron, e eu cantava a música da personagem da Leslie. A partir dali, eu já estava com a arte dentro de mim.
Sempre estudei em colégio público, onde havia atividades muito interessantes. Nos fins de semana havia uma integração da família com os professores e os alunos. Tínhamos um relacionamento extracurricular muito grande. E eu, já com essa curiosidade, esse assanhamento, fazia parte dos grupos de teatro das festas da escola e ao mesmo tempo era muito aplicada nos estudos. Era escolhida para ser representante de turma, desde muito pequena. Tinha uma liderança espontânea que, na época do ginásio (ensino fundamental fase II) eu já fazia parte do grêmio estudantil. Estava sempre nessas atividades, junto com as culturais.
Quando eu tinha entre 15 e 16 anos, meu pai me levou para ver Dercy Gonçalves, no teatro, em Santos. Eu fiquei encantada com ela falando todas aquelas bobagens, escrachadérrima. Quando o meu pai foi transferido para o Rio de Janeiro – ele era suboficial da Aeronáutica –, foi exatamente no momento em que as coisas estavam tomando mais fôlego com o governo Jânio Quadros, que foi embora e abandonou o País, e assumiu Jango Goulart. Eu fiz amizade com uma família comunista, de um sargento que era colega do meu pai, uma pessoa maravilhosa, na Vila Militar da Ilha do Governador. Dentro do colégio Mendes de Moraes, fazia parte do grupo de teatro, com Ângela Leal, Miguel Falabella, Benvindo Siqueira e outros, e a nossa professora de História, Regina Carvalhal, nos dava a formação teatral. Junto com isso, eu já estava na ala de interesse, na ala de abordagem, dos jovens a serem formados para o Partido Comunista Brasileiro.

Você representou dois papéis que refletiam o quão doce era como menina. Foi escolhida para representar o Pequeno Príncipe e a coelha Naná, na peça infantil A árvore que andava.
No colégio Mendes de Moraes fui escolhida para fazer o Pequeno Príncipe. Foi uma coisa incrível, porque a menina que eu achava que faria o Pequeno Príncipe, que para mim era a cara do Pequeno Príncipe, loirinha, franjinha, linda, a Margô, não fez. A professora nos reuniu e disse que a ideia da imagem do Pequeno Príncipe era uma ideia romântica e que seria a Bete, porque era moleca. A Ângela Leal fez a raposa e a gente passou anos falando “você é responsável por aquilo que cativas”. Depois, meu pai foi transferido de volta para São Paulo e eu voltei para Santos, para estudar no colégio Canadá. Aí eu já queria participar de tudo, porque era adolescente, com todas as vontades. Lia muito sofregamente e, quando voltamos para Santos, eu já estava no grêmio do Canadá procurando trabalho em teatro. Tinha um amigo ator, que me levou para fazer a coelhinha Naná, em A árvore que andava. Eu tinha uns 16, 17 anos.
Nessa época eu estava vendo os filmes russos, só queria saber da ideologia socialista, só me preocupava com os filmes europeus e os autores de formação socialista. Estava devorando historiadores, sociólogos, filósofos.

Nesse tempo você ainda era da área periférica do Partido Comunista?
Ainda era. Aliás, foi tudo meio solto, porque eu estava aqui no Rio, com esses companheiros que já eram do partido e estavam me levando. Meu pai foi transferido e eu fui para Santos morta de tristeza, porque me apaixonei pelo Rio de Janeiro. Em Santos, vou procurar caminhos e de certa maneira me encontrava com companheiros do partido, mas não era muito claro, porque as coisas estavam muito explosivas e, ao mesmo tempo, ficando mais complicadas. Eu estava no Rio de Janeiro em 1964. Em 1966, quando começa a endurecida, eu estava em Santos. Em 1967, fui para São Paulo tentar o vestibular e fazer o terceiro clássico no Colégio de Aplicação, e aí já estava voando. Chego a São Paulo, entro no cursinho Equipe e vou fazer Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP). Eu já não era mais do Partido Comunista, estava envolvida com companheiros que viriam a constituir em 1969 uma organização revolucionária chamada Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, uma dissidência da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).
Mas, precisava trabalhar. Um amigo que fez comigo a coelhinha Naná estava fazendo Marat-Sade, direção de Ademar Guerra. Eu ia assistir todo dia, era rato de teatro.

Seu pai sabia dessas relações?
Meu pai sabia. Ele e minha mãe estavam separados. Ele morava em São Paulo, mas eu não podia morar com ele, porque ele morava em uma pensão. Eu fui morar em outra pensão. Era uma situação muito pobre, muito delicada. Meu pai sabia e se preocupava. Eu me lembro que saímos de ônibus e havia um passageiro com um jornal e a foto escancarada do Che Guevara dizendo Che Guevara morreu. Eu: “Che Guevara não morreu!”. O ônibus inteiro virou para mim e meu pai ficou nervoso e... ”O que é isso, fica quieta!”. ”Mas não morreu, pai! Eu tenho certeza!”. Ele ficava desesperado, muito preocupado comigo, mas não reprimia. Tivemos discussões, mas ele nunca teve a posição autoritária de me impedir, me tolher, “você está proibida...”. Não tinha isso, até porque eu era muito ousada.

E seu pai também não era de direita?
Não. Ele era o militar que dizia o seguinte: ele não podia ter opinião, não podia ter partido, tinha de defender a Constituição, a bandeira brasileira e o território brasileiro. Era a norma dele. Mas ele adorava o sargento comunista, uma pessoa que tinha uma família de formação boa. Ele ficava muito assustado, mais assustado do que outra coisa. Quando eu fui presa, ele sofreu muito. Ele soube depois. Por ser militar, protegeram-no. Mas quando ele descobriu, passou muito mal.
Nossa relação sempre foi muito carinhosa. Tanto eu com ele quanto eu com minha mãe. Era uma família separada, mas sempre com muito amor, muito diálogo. Ao mesmo tempo, como eu comecei a ler muito cedo, eu era cheia de argumentos. Meu pai dizia “Não pode fazer isso” e eu perguntava ”Por quê?”. “Não tem por quê. Não pode”. “Não existe não tem por quê. Vai, me explica por que não pode”. “Mas eu sou seu pai, eu tenho autoridade”. “Mas o senhor exerce a sua autoridade me ensinando o porquê não pode”. Então tinha essas coisas.

Seus irmãos não eram assim?
Meu irmão era mais moleque, muito charmoso. Ele tinha mais malemolência, eu era mais de enfrentamento. A minha irmã, que é do segundo casamento da minha mãe, veio anos depois, não tem nem mais essa relação próxima.

Vamos falar do Colégio de Aplicação agora? Foi lá que você participou, pela primeira vez, de piquetes?
Eu consegui uma vaga no Colégio de Aplicação, porque eu fui de Santos para São Paulo. Fui sozinha, procurar vaga nos colégios, porque, se tinha uma situação para resolver, eu resolvia, pode ser orgulho, responsabilidade, podem ser as duas coisas mais alguma coisa junto... Sempre fiz o possível para não levar nenhum problema para ninguém. Meu pai podia me levar, mas tinha uma situação delicada, e achei que eu sozinha ia resolver.
Fui falar com o diretor do Colégio de Aplicação e disse que era filha de militar, meu pai estava no Acre, que não tinha como se comunicar nem por rádio, porque lá não tinha comunicação e que eu tinha direito àquela vaga. O diretor achou muito gentil da minha parte, muito legal e me deu a vaga. Eu achei fantástico, porque, como filha de militar, tinha direito. Como os militares são transferidos na vida toda, há situações profissionais em que há essa prerrogativa. Comecei a cursar o colégio, adorando, porque as aulas eram em grupo, reunião, participação. E o Governo Federal estava pressionando para que os colégios começassem a perseguir as opiniões. Nosso diretor foi pressionado a sair, para entrar uma professora de latim ligada aos militares. Fizemos piquete na porta do colégio e conseguimos a permanência dele por um pouco mais, mas ele foi substituído. Nunca tive muita noção de como surge ou surgia em mim uma manifestação. Acho que vai pelos valores que recebi, pelas informações que adquiri. Quando tinha problema que eu achava injusto eu acabava me metendo. Eu ainda não estava na organização revolucionária. A organização foi depois, quando eu já estava no cursinho pré-vestibular.

Qual faculdade você fez?
Sociologia, mas não deu para continuar. Fui presa como suspeita e depois entrei na Lei de Segurança Nacional. Fiquei proibida de voltar à faculdade pública. Saí machucada, física e psicologicamente, e em frangalhos. E aí, sim, a faculdade foi um processo de alienação e de impedimento do conhecimento. Os professores mais comprometidos com o pensamento aberto, com a proposta de ensino que era, segundo falam, a escola francesa, foram obrigados a fugir, muitos foram presos, caçados. Isso foi em 1970.

Você era uma menina frágil e sempre foi frágil. Você se chamava de “canicinho”. Como é que uma menina frágil resistiu a tantas intempéries, à tortura, ao cárcere?
Eu sempre fui muito magra. Magra, muito magra a ponto de as pessoas reclamarem e me incomodar. E era bom quando eu era magra, porque eu sempre fui gulosa e comia feito uma louca, era bom demais. Mamãe sempre foi ótima na cozinha e na orientação e, aí sim, era imposição. Tem de comer tudo. Eu tinha essa estrutura frágil, aparentemente, mas tinha saúde. E mentalmente eu tinha mais força do que eu imaginava. Aquela coisa de vontade, de paixão para fazer as coisas. Então, era o seguinte, o dia durava 40 horas e, quando eu fui presa, a barra pesou muito e a recuperação foi delicada, porque, aí sim, eles minam física e psicologicamente e você vira um trapo. Um trapo interno e externo, mental, de todo jeito. Eu só consegui me recuperar com a ajuda dos maravilhosos amigos da classe artística. Eva Wilma, Carlos Zara.

Estamos discutindo ultimamente, e é muito importante que se discuta, a Comissão da Verdade, a bem da verdade. Você pode nos dizer o que passou nessa fase da prisão?
Não. Eu digo que não, porque quando denunciei o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que, na época em que fui presa, era major, quando ele foi para o Uruguai –, eu fui acompanhar o Sarney na primeira viagem depois de ele eleito pelo Congresso –, para encontrar o primeiro eleito também no Uruguai, encontrei-o lá e o denunciei.

Encontrou na embaixada?
Não. Ele foi me receber no aeroporto. Foi me cumprimentar. Fez questão de se apresentar para mim. Ele já estava demissionário do cargo de adido militar. Botou a farda de gala e foi me cumprimentar na chegada, porque era aquela visita formal. Aí, eu gelei e ele me acompanhou todos os dias, até a saída.

Claro que ele reconheceu você?
Não só me reconheceu como perguntou de minha mãe, do meu irmão. Perguntou tudo. Torturador é assim.

E na hora? Na hora você não denunciou?
Não. Eu gelei. Morri de medo, de pânico. Minha cabeça foi a mil e eu pensei: “Posso falar para alguém? Não. É uma viagem oficial. São dois países que estão saindo de um processo de exceção para uma evolução democrática”. Eu fui para o hotel e tínhamos vários compromissos oficiais. Tinha um encontro no Congresso Nacional em Montevidéu. Depois íamos para um jantar com as delegações dos dois países. Três dias de atividades. Eu ia para o hotel e, eu juro para vocês, naquela época não tinha celular, não tinha nada disso, eu tomava banho frio – e era inverno. Eu sentava na cama e ficava desesperada pensando em tudo e com medo de tocarem na porta, porque eu estava sozinha no quarto. Eu era uma parlamentar.

Nem com os outros deputados você comentou?
Comentei em um momento. Teve um momento de uma recepção, um encontro das duas delegações, havia quase 5 mil pessoas, e todo lugar que eu ia ele me acompanhava. Ele veio, apertou minha mão e falou que agradecia o meu gesto de perdão e queria me apresentar à esposa dele. Então, apresentou-me a esposa.

Ele o reconheceu, mesmo, então?
Não. Não é que ele me reconheceu: ele foi me ver. É diferente.

Ele falou que reconhece o perdão?
Não. Ele agradeceu meu gesto de perdão ao apertar a mão dele.

Então, reconheceu que havia alguma coisa ali?
Imagina a minha cabeça como estava a essa altura do campeonato, porque eu só tinha duas alternativas: omitir e ser cúmplice de uma situação ou não omitir, o que era uma situação arriscada, ainda. Já estamos falando de 1985. Vejam, de 1970 para 1985. Ele me apresentou à mulher, que disse que achava bonito meu gesto de perdão, mas queria que eu soubesse que ela sempre esteve com ele, ao lado dele, apoiando tudo o que ele fez. Foi nessa hora que a minha cabeça pirou. Saí da cerimônia, fui para um restaurante com três ou quatro deputados, tomei quase um garrafão de vinho e falei quem era, qual era a situação e tal, mas pedi sigilo a eles. Segurei a peteca até o final. Na saída de lá, vieram uns funcionários dele me cumprimentar. Chegamos à despedida, ele veio, novamente, com a mulher. Chegamos à formação, Miguel Arraes, que era deputado comigo, me perguntou: ”Bete, o que é isso?”. Então, contei a ele no avião. Falei que eu havia decidido, após aquela confusão toda, só denunciar no Brasil. E ele falou que estaria comigo em tudo que eu falasse. Bocayuva Cunha estava também. Cheguei ao Brasil, fui para casa, preparei a carta de denúncia e protocolarmente mandei para o presidente José Sarney e esperei 24 horas para uma manifestação. Eu sempre fui respeitosa. Eu mandei para o presidente e eu queria que o Executivo se manifestasse. Se em 24 horas o Executivo não se manifestasse, seria outra dúvida em minha cabeça: “Jogo no ventilador ou não?”
Antes de 24 horas o Sarney ligou para mim e falou que estava chocado com o que tinha acontecido, perguntou por que eu não havia falado para ele no Uruguai. Eu falei que achava mais importante o reatamento das relações do processo democrático do Brasil e do Uruguai, mas que eu não podia abrir mão daquele que fez parte dos governos autoritários, que torturaram, dizimaram, etc. Ele falou que ia cuidar da situação do coronel. A verdade é que esse coronel foi muito aplaudido por uma ala do Exército e foi para a lista de premiação, que é feita quanto o militar vai para a reserva. O almanaque do Exército publica quem vai como general, que é o maior reconhecimento do trabalho em vida. Ele já estava indo para a lista de general e tanto o presidente Sarney quanto os presidentes que o substituíram vetaram o nome dele. Ele ficou na reserva como coronel. O ministro do Exército, à época Leônidas Pires Gonçalves, foi para os jornais e começou a dizer que eu era uma atriz irresponsável, mentirosa, safada e daí para baixo, que tinha inventado aquela história, que eu não havia sido torturada coisa nenhuma.
Fui para o Plenário da Câmara e pedi para dar a última palavra, no pequeno expediente, que é de cinco minutos, mas eu falei 15 ou 20, e fiz uma carta aberta ao ministro do Exército, dizendo que me causava estranheza que ele, em vez de reconhecer os soldados brasileiros que lutam para defender as fronteiras brasileiras, a população brasileira, a estrutura democrática do Brasil, o bem-estar do povo brasileiro, reconhecia aqueles que fizeram sua história, como Carlos Alberto Ustra, em cima de morte, tortura, sevícia e tudo o mais. E disse: ”A última coisa que eu falei foi isso. Agora, está com o Poder Executivo”. Tudo isso para dizer por que eu não falo das torturas.
Denunciei e acusei um representante e agente das piores calamidades que aconteceram no Brasil, como parlamentar, eleita pelo povo. Não queria personalizar a questão. Era uma representante do povo, eleita, contra um instrumento e agente da violência. Eu tinha muito receio das interpretações minimizadoras: a vítima e seu algoz e não o algoz da Nação contra a pessoa pública. Hoje, permaneço assim, porque até hoje temos uma luta delicadíssima e o Supremo Tribunal Federal nos deu mais um problema para resolver, ao considerar que os crimes que ele cometeu façam parte da anistia. Isso deve ser revisto, porque a anistia não foi para isso e nossa memória tem de ser para revelar tudo que ainda está nos porões, o que não foi destruído.
Eu encontrei com uma representante da Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de Janeiro (OAB-RJ) e ela me falou uma coisa linda da campanha que está sendo feita, com grandes atores, falando como se fossem as pessoas desaparecidas. O nome dessas pessoas. A Fernanda Montenegro é uma. É maravilhoso. Falam como se fossem os desaparecidos, que até hoje não se resolveu.

Você não acha que se você falasse, os anônimos falariam também e a Comissão da Verdade se justificaria?
Acho que não, porque eu até conversei na época, fizeram algumas entrevistas, quando ela foi criada. Por que eu disse que não? Porque eu vou entrar em uma luta que não é a minha. Eu fui anistiada e eu, pessoalmente, só vou entrar na discussão quando entrar em processo judicial Carlos Alberto Brilhante Ustra. Aí, é outra história. Antes disso, não.

Deve ser muito difícil falar sobre isso, não?
Muito. Você tem toda a razão. Eu expliquei politicamente. Espiritual e psicologicamente, é barra pesada. Não é que eu negue a dificuldade. Eu enfrentaria a dificuldade se eu achasse que é o momento correto e é a atitude correta. É barra pesada. Como foi barra pesada encontrá-lo em Montevidéu, premiado.

Bete, eu fico pensando nessa sua experiência. Você encontrou um burocrata, um homem fardado, a mulher justificando o marido. Fico pensando quando Hannah Arendt vai a Jerusalém e assiste ao julgamento de um nazista e ela escreve sobre a banalidade do mal. Ela disse que ficou surpresa... quer dizer, o torturador, o homem que era responsável por milhares de assassinatos se comportava como um funcionário obediente, ou seja, o sistema mandou, eu faço.
Quando você falou ‘burocrata’, eu estranhei. Eu entendo a postura do burocrata, porque ele era agente, ele torturava. Na época, eu recebi cartas, porque ele foi premiado pelos trabalhos que fez em todo o Brasil. Ele serviu em várias unidades.

Normalmente, consideravam-no um herói.
Sim, um herói e dos melhores. As cartas são de se desesperar de ler. Só de ler, é de se desesperar.

E o nome dele é ‘Brilhante’, não é? E é tão pouco brilhante.
Ele é um facínora. Ele e vários outros.

Que provavelmente não tem consciência disso. Para ele, ele foi um patriota que cumpriu o dever.
Não é bem assim. Eu acho que existe uma postura, porque na época havia uma formação de direita, inclusive essa história que a gente vê, mal comparando, em filmes como Tropa de Elite. Essa formação “bandido bom é bandido morto”. Existe toda uma orientação ideológica que não é do “estou cumprindo ordens”. Ao contrário, “eu sou bom, eu sou o herói, eu vou lá e faço, eu não tenho covardia”. E, junto com isso, tem uma coisa mais grave: muitos foram por esse caminho pelas benesses que recebiam, não só porque se achavam aptos para matar e torturar, mas porque eram beneficiados por esse sistema em que a tropa de elite era o pessoal que embarcava e topava participar. Quando estávamos no DOI-CODI, havia de soldado a major. Quando eu entrei pela primeira vez, era um coronel que foi substituído por esse major. E dos que lá estavam, os únicos que se pode dizer que cumpriam ordens eram o soldado e o cabo. É tipo “pega no batalhão e leva para lá”. Os outros eram de carreira, optaram pela carreira. Então era uma coisa ideológica e ganhando benesses. Muita coisa é lançada na mídia como se fosse de hoje, mas vem lá de trás. Chegamos à apropriação indébita do bem público, nos grandes empresários e seus parceiros, os militares que assumiam postos-chave na gerência e na direção de grandes empresas brasileiras. Era uma opção de Estado, uma opção ideológica. Nós éramos chamados de terroristas, mas éramos nós que vivíamos sob terror. Tínhamos medo de tudo, em todo canto, em qualquer situação. O Ustra e a esposa eram exemplos comuns, a delação era o exemplo comum. Na faculdade tinha delatores, no trabalho tinha delatores. Era um Estado de exceção, com toda uma máquina armada. É o tal do Golbery do Couto e Silva, que foi preparando o caminho para dizimar qualquer oposição, qualquer resistência, qualquer reação contra o que estava instituído. Por isso que eu adoro essa miscelânea, porque a imprensa critica, a imprensa fala um monte de mentira, outros falam a verdade, mas isso é bacana. Democracia.

Você falou em processo democrático. Gostaria de ouvir sua descrição de sua participação na construção desse processo democrático no Brasil.
Depois que saí dessa situação, fiquei um trapo, eu tinha 21 anos. Através de Eva Wilma e Carlos Zara, basicamente, mais a família e outros amigos, fui recuperando minha vida. Voltei a trabalhar, porque eles pegaram meu dinheiro, pegaram tudo. Desde perfume até outros bens. Eu não tinha propriedade, mas tinha dinheiro, porque ia fugir. Estava com medo.

Você ia fugir para onde?
Ia fugir por terra para o Chile, porque os aeroportos já estavam avisados e estávamos às vésperas de sair os cartazes com as fotos. Eles já sabiam quem eu era, porque fui presa como suspeita e só fui torturada psicologicamente. Na segunda vez, eles me pegaram, confirmando que eu fazia parte de uma organização revolucionária.
Além do apoio dos amigos e da família, teve também um psicólogo que me tratou, por quase um ano, gratuitamente, para me dar um apoio, para eu me equilibrar. Depois disso, voltei para a televisão. Na faculdade pública eu não tinha mais chance e resolvi me dedicar à vida artística. Fiz aula de canto, aula de dança, de expressão corporal. Vim para o Rio de Janeiro, para a Rede Globo, em 1974. Comecei a fazer trabalho pela anistia, pelas mulheres, pelos negros, pelos sindicatos, em solidariedade aos povos latino-americanos. Onde havia uma confusão, eu estava lá. O bipartidarismo estava caindo e se discutia muito nessa época. Veio a ideia do Partido dos Trabalhadores (PT) e eu achei maravilhoso. Fui trabalhar em São Paulo e fazia parte de um núcleo do PT de artistas e jornalistas. Fui fundadora do PT, escrevi o programa do partido, o estatuto, o regimento, tudo. No enterro do Luís Travassos, o Lula me disse que eu deveria sair candidata a deputada federal pelo PT. Outro companheiro, Antônio Carlos, me convenceu. Fiz uma campanha maravilhosa, que parecia aquele filme O exército de Brancaleone. Tive uma votação muito expressiva, perdemos a emenda Dante de Oliveira e fomos para o Colégio Eleitoral. Por essa decisão, eu e outros companheiros da bancada fomos convidados a sair do partido. Fiquei nove meses sem partido. Entrei no PMDB, fui reeleita. Mas, não estava à vontade. O PPS me convidou, eu fui, mas não fiquei à vontade também e hoje estou sem partido.

Você trabalhou no Legislativo e no Executivo.
Eu fui secretária Estadual de Cultura de São Paulo, de março de 1987 a dezembro de 1988.

Quando eu digo que você tem ideias no Legislativo e depois passa para o Executivo e passa a ver que essas ideias talvez tenham de sofrer algumas alterações, porque é Executivo. Você acha que isso é decorrência do processo dialético ou que desvirtua mesmo as finalidades principais de um partido?
É muito difícil responder isso.

Mas você esteve nos dois lugares. E Lula também.
Exatamente, porque o que você está dizendo tem de ter uma análise muito mais profunda para observarmos como pode acontecer. O que eu acho, antes disso – e vou falar agora uma coisa grave –, é que nós somos culpados por um processo eleitoral ainda viciado, porque nós é que alavancamos o Executivo e relegamos a segundo plano o Legislativo. O problema acontece aí. Não se dá força às candidaturas do Legislativo. São candidaturas solitárias, malucas e esse processo é muito difícil. Isso é antes dessa questão dialética.

Talvez caiba uma observação, por essa dificuldade que o partido político tem e, especialmente, as nossas histórias partidárias. Ou de quando se é apenas institucional e está focado em como tocar projetos do Executivo ou, quando vem pela esquerda, corre o risco de ser partido-movimento e ter a dificuldade da convivência com o institucional.
Eu acho que isso eu senti no PT, todos sentimos, porque havia um enfrentamento entre a instituição e a espontaneidade do partido. Nós tivemos uma dificuldade muito grande de convencer a Executiva como um todo de que aquele caminho era legal.

Nesse sentido é que temos de perceber os significados históricos dos nossos processos, porque é muito tênue. Se for pela esquerda e for identificado com um movimento, você nega cada vez mais a política como um todo. É como se o Executivo, o Legislativo, a política toda fosse corrupção, fosse aquilo que tem de ser negado.
Uma coisa muito perigosa que vivemos e que ainda se vive em partidos e movimentos é a questão moral. Eu acho a questão moral, com todas as aspas gestuais, perigosíssima, porque entra naquela história do bem e do mal.

Nesse sentido, acho que há uma dívida histórica com relação à atitude que naquele momento você e os outros parlamentares tomaram, porque era de uma dificuldade enorme perceber o que hoje cada vez mais pode ser percebido. Qual é o papel do Executivo, qual é o do parlamentar. Não que ele tenha de se identificar com o Executivo, mas que tenha de saber qual é o papel que tem de ser desenvolvido. Acho que naquele momento faltaram condições para perceber a atitude que estava sendo tomada. Então é um momento importante de dizermos que, do ponto de vista histórico, é preciso que reconheçamos cada vez mais que já havia ali uma antecipação importante do que nós estamos vivendo hoje.
Obrigada. Eu tenho certeza de que a única alternativa é a democracia, é a luta democrática, é a estabilidade democrática para as lutas sociais, para a evolução de um povo, e não a luta armada, como achamos naquele momento.

Como é que pode nascer a consciência política de um artista para o social? Você vê que a classe artística está omissa, com pouca consciência política?
É um pouco difícil responder isso. Eu tenho uma relação com uma parte significativa da classe artística e, no geral, é muito difícil avaliar a consciência política, porque essa consciência é uma e não temos de ter uma só. O que me preocupa muito no mundo de hoje é a consciência específica. Tenho receio da segmentação não só do discurso quanto da ação social. Nossa preocupação não é segmentar, mas cada vez mais ampliar e inter-relacionar, que eu acho que é a grande situação, ainda mais com a dinâmica das comunicações que temos hoje. Não é possível corrermos atrás de tudo, mas nos relacionar com outras organizações que correm atrás das coisas, porque cria uma comunicação de solidariedade, de apoio, de rede, e isso reflete na questão política, estritamente, na questão da cobrança do Executivo, como cidadão organizado, na cobrança do Legislativo, na participação social.

Você foi torturada no período Médici (Emílio Garrastazu Médici). Foi um período terrível, mas a tortura que atingia a área urbana e os partidos comunistas nos anos 70 persistiu no Araguaia dos anos 80, com o Figueiredo (João Baptista Figueiredo). O Exército invadia as casas, estuprava mulheres, queimava casas dos trabalhadores. Vivíamos como se estivéssemos no período Médici. Havia intervenção nos sindicatos, os dois padres franceses foram presos, toda uma história contínua de repressão e, ao mesmo tempo, havia uma descompressão urbana.
Em termos, porque na área urbana havia esse mesmo tipo de comportamento com as chamadas pessoas comuns e pobres. Eu vejo que ampliou no campo e ficou na cidade, tanto que o movimento Tortura Nunca Mais é maravilhoso por isso, porque trabalha com essa situação no ambiente urbano, com esses presos comuns.

Mas essas prisões também eram políticas.
Sim, também. Eu entendo claramente, porque é a história daquele homem que se elege dizendo que bandido bom é bandido morto. Isso é político. Claramente político. E não só ele, mas existe um pensamento que me incomoda, que me assusta, que é o da casta.

Estamos à beira de uma nova eleição. Você não queria encerrar declarando o que seria mais importante notar em cada candidato para a Presidência?
Eu acho que para a Presidência da República, deve-se olhar atentamente para o que evoluiu na condição de vida, de saúde, de educação, de poder aquisitivo, de trabalho com carteira assinada, de desenvolvimento do Brasil e o que não aconteceu e precisa ser corrigido. Isso tanto para Presidência quanto para governo de estado. E para o Legislativo, eu acho que a atenção não tem de ser na imagem que os candidatos possam oferecer, mas na postura, nas propostas e no comprometimento. Tanto dos candidatos quanto dos partidos, com um programa para estabilizar a sociedade brasileira, a democracia em cima da condição do povo brasileiro. Que viva o povo brasileiro, porque temos de dar vida ao povo brasileiro, cada vez mais.

 

O Movimento Humanos Direitos (MHuD), que realizou a entrevista com Bete Mendes nesta edição, é um grupo da sociedade civil que realiza projetos e programas de proteção e defesa dos Direitos Humanos. Parceiro da revista Direitos Humanos desde a edição inaugural, o MHuD reúne militantes com trajetórias profissionais variadas – atores, produtores, fotógrafos, professores e outros –, e tem como propósito fortalecer o espírito de cidadania na sociedade brasileira. O grupo age em cooperação com outras organizações, promove e incentiva o debate público e a reflexão sobre o tema dos direitos fundamentais. Suas ações concentram-se em quatro eixos prioritários: erradicação tanto do trabalho escravo quanto do trabalho infantil, demarcação das terras indígenas e dos territórios quilombolas e promoção do socioambientalismo no país. Participaram da entrevista: Adair Rocha, Bruno Cattoni, Priscila Camargo, Ricardo Rezende, Salete Hallack e Virgínia Berriel.

Fotos: Salete Hallack



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